Mostrar mensagens com a etiqueta alcobaça. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta alcobaça. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de maio de 2010

D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte II) A cozinha do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça

A cozinha do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça, é um monumento que merece atenção.



Escreveu-se muito sobre este assunto e algumas das conclusões prejudicaram a reputação dos monges. Não se trata aqui de fazer um processo de intenções a Beckford ou a todos os que nele se inspiraram. Desejamos verificar, através dos textos, e interrogando a própria construção, certas afirmações que ainda persistem, tanto mais que os visados não estão cá para se defenderem. A descrição de Beckford tornou-se clássica e, algumas das suas expressões pertencem ao que se poderia chamar o folclore de Alcobaça.



(...)entraram os Grão-Priores de mãos dadas e em conjunto. Para a cozinha, disseram em perfeito uníssono e imediatamente. Então ajuizará se fomos falhos de zelo para o regalar. Um convite, nestes termos, era irresistível. Os três prelados, mostraram-me o caminho do que é, estou convencido, o templo da gastronomia mais notável de toda a Europa. (...).Todavia os meus olhos nunca viram em convento moderno de França, Itália ou Alemanha, um espaço tão grande dedicado a uma finalidade culinária. No centro desta sala imensa, de diâmetro não inferior a 60 pés, corria um riacho alegre, da mais límpida água, que atravessava reservatórios de madeira perfurada, que continham os mais belos peixes de rio, de todas as espécies e tamanhos. De um lado acumulavam-se as espécies de caça. Do outro, legumes e frutos, de uma variedade infinita. Além, uma longa linha de fogões, seguida de fornos e perto destes, montes de açúcar, cântaros cheios de puro azeite e uma quantidade enorme de doçaria que, um grupo de numerosos irmãos leigos e ajudantes, estendiam e formavam em cem feitios diferentes, ao mesmo tempo que cantavam tão alegremente como pássaros num campo de trigo (6).



Seria deselegante recusar o mérito poético e o poder evocativo desta entusiástica descrição. Ela prova que o prazer da mesa, não era a menor das virtudes de Beckford.



A descrição que por sua vez faz mais tarde o Marquês de Fronteira, é bastante mais prosaica:



(…)Entretanto, conduziram-me à cozinha, a qual correspondia, em tudo ao refeitório. Um grande caldeirão dava nas vistas, estando colocado numa formidável chaminé de ferro. Para o limpar, entrava um moço dentro, que, enquanto com a pá de ferro deitava para fora o resto da comida e o lavava, não era visto de fora, tal era o tamanho do caldeirão! Grande quantidade de fornalhas de ferro guarneciam a parede, uma banca de dimensões extraordinárias ocupava o centro da cozinha, rodeada por doze cozinheiros, e um rio bastante caudaloso e com uma corrente rápida, tanto de Verão como de Inverno, atravessava a cozinha, havendo várias pontes para se passar de um lado para outro. Com muita facilidade se podia inundar a cozinha aos Religiosos para a lavar, mas isto raramente acontecia, sendo repugnante o estado de porcaria em que se achava (7).



Poder-se-ia salientar algumas contradições entre estas duas visitas e respectivas descrições.



O texto da Excursão ... foi escrito em 1834 e 1835, quer dizer 4 anos mais tarde.



Beckford declarou que esta narrativa foi redigida de acordo com apontamentos reduzidos.



Rose Macaulay, nota aí um conjunto de incidentes, de fantasias e de descrições, ao mesmo tempo deliciosas e divertidas, em parte recordações, em parte imaginação, pensadas em noites de insónia. Os detalhes da descrição da cozinha, como os do banquete que se seguiu, não devem por isso ser aceites sem reservas.



Merimée, havia já chamado a atenção para o facto de que todas as grandes enfabulações necessitam de um detalhe minimamente credível, seja ele qual for .



Aqui, os detalhes são abundantes, mas subsiste logo a suspeita instintiva, quando se sabe que o autor não passou mais que umas horas na Abadia, não participou minimamente na vida conventual e, reviveu, com muita imaginação, quarenta anos mais tarde, todas as cenas que descreveu.



Pelo contrário, o Marquês de Fronteira, que permaneceu uma dezena de dias na Abadia, conviveu com os monges, na medida do possível. Enfim, o estilo jocoso e ligeiro do viajante inglês, dissimula a intenção de ridicularizar e de fazer alusões equívocas, especialmente deploráveis num velho de 75 anos.



(…) Quando a mesa se levantou, quatro lindos noviços, rapazes de 15 ou 1 anos, cuja candura inocente os aproximava da afectação, entraram oscilando perfumadores em filigrana de Goa, onde fumegavam o odorífero calamba e as melhores qualidades de aloés (8).



Pode-se aceitar, todavia com uma certa boa vontade e admitir com André Parreaux que, o interesse da Excursão..., não está aí, ou seja, na descrição fiel de acontecimentos autênticos. Ela reside, principalmente, no valor literário duma obra cujas críticas têm, desde há mais de um século, reconhecido a sua superior qualidade .



Os cistercienses de Alcobaça foram vítimas destas circunstâncias. Quaisquer que tenham sido as intenções de Beckford, e os méritos literário e artístico da sua obra, dedicaremos as páginas seguintes à crítica da mais célebre descrição da cozinha do mosteiro e do banquete.



Além das vastas proporções deste templo de culinária e da incrível acumulação de vitualhas, que tanto divertiram Beckford e seus companheiros, alguns outros pormenores espantaram os visitantes.



Encontram-se, muito bem resumidos, no texto de F. Batista Zagallo:



Nessa parte há ainda digno de ver-se a cozinha, amplíssima, com os seus tanques de mármore, servidos com profusão de água que corre por uma torneira colocada em cada um deles, a colossal chaminé em que se assava um boi, o vasto tanque aberto no pavimento ao fundo, destinado ao depósito de peixe, e fornecido de água por um copioso caudal derivado da levada e a espessa mesa destinada ao corte da carne (9).



O número de bois que os monges assavam na colossal chaminé, nunca poderá ser determinado com exactidão.



Ramalho Ortigão visitou o Mosteiro em 1886 e escreveu em AS FARPAS que a cozinha, é verdadeiramente monumental, é de uma altura catedralesca, em abóbada forrada de tijolos esmaltados e medindo perto de trinta metros de comprimento. A chaminé, colocada ao centro da casa, sobre colunas de ferro, é de tais dimensões, que permitia assar no espeto a um tempo, sobre o lar que ela cobre, seis ou oito bois. Em roda estão os fornos de mármore, servidos de água por grossas torneiras de bronze. A um topo vê-se a abertura em que deve ter girado a grande roda destinada a passar comidas para o refeitório (10).



Para Zagallo e Vilhena Barbosa (11), ela não servia para mais que um.



Manuel Vieira Natividade, dá as dimensões exactas e calcula que três bois podiam ser assados à vontade.



(…) Contígua ao refeitório fica a cozinha, que é o assombro de todos os visitantes, pela sua grandeza e pela sua disposição. Passa como lenda que na sua chaminé, se podia assar um boi inteiro, mas nós afiançamos que esse animal triplicado ainda deixaria vasto campo para se fazerem acepipes e badulaques para os reverendos frades (12).



Somos de opinião que é este autor quem tem razão. O GUIA DE PORTUGAL (13), calcula que podiam-se assar no espeto, ao mesmo tempo, seis ou sete bois.



É da mesma opinião o autor da excelente obra AS ESTRADAS DE PORTUGAL (14).



Varela Altamira num certo ROTEIRO DAS MUITAS E VARIADAS COISAS editado em 1939, que não podemos consultar, informa o turista que a chaminé possui tais proporções que se podiam assar ao mesmo tempo oito bois (15).



Fixemo-nos nele e veremos que o número de bois sacrificados em conjunto ao apetite, este ardor fisiológico dos bernardos de Alcobaça, não aumentou desde 1939.



É manifesto que uma chaminé, dotada de tão curiosas propriedades e capaz de crescer segundo a óptica e o estado de espírito dos que a descrevem, é um monumento de valor excepcional que há que rodear de todos os cuidados. O autor da nota sobre Alcobaça na GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA faz um judicioso e pequeno comentário: A enorme cozinha actual, é ladeada de altas chaminés parietais, com a vasta lareira central, de ampla mesa para tassalhar os blocos de vianda, tudo em duplicação da craveira comum, como se as vitualhas fossem preparadas para o insondável estômago de Gargântua.



Não era necessário mais nada para transformar Alcobaça numa Abadia de Telemo, equipada com uma Cozinha de Gargântua ou Titã, digna do que Beckford estigmatizou, possuído de virtuosa indignação, com o epíteto de Templo de Gastronomia, ou Glutonoria. Manuel Pinheiro Chagas, escreveu que tinham grande reputação de ignorância e de glutões os frades Bernardos, sempre bernardo o frade espesso das picarescas lendas populares. Confirmou essa tradição José Agostinho de Macedo, na sue célebre dedicatória do poema OS BURROS, ao Geral dos bernardos... Mas é certo que a sua tradição é


Injusta na sua generalidade .



Almeida Garrett, no poema D. Branca, na cena entre os frades bentos e bemardos não foi muito lisonjeiro para estes últimos. A despeito do muito de bom que fez, o frade alcobacense tornou-se, com o tempo sinónimo de estúpido e de glutão. Dicionários antigos como o Morais, definem Bernardo como sujeito muito gordo e estúpido que só se preocupa com a glutonaria, ou Cândido de Figueiredo, bernardoestúpido e gordo, reflectindo o que entrara na gíria e nos conceitos mais populares (16).



Poderíamos limitarmo-nos a reproduzir, sem comentários, a conclusão de Varela Altamira:



(…)Até onde se pode ir? Não se sabe. O laboratório culinário conventual está sempre no mesmo lugar, com a sua alta chaminé recoberta de azulejos brancos. Não se fizeram lá quaisquer obras desde 1834 e as suas dimensões permaneceram as mesmas. Todavia, em menos de um século, a cozinha observada por diversas pessoas multiplicou oito vezes o seu volume. É também possível que um boi do século passado, valha um rebanho de hoje em dia, época de vacas magras que atravessamos (17).



Como vimos e sabemos, a cozinha não é apenas isto, a chaminé. Na verdade, não há acordo quanto ao destino do tanque aberto no pavimento. Uns, vêm aí um viveiro onde se conservava o peixe fresco. Outros, pensam que servia para a limpeza da cozinha e talvez da loiça conventual.



Ele mede 5 metros de comprimento por 3 metros de largura. Admite-se, com facilidade, mas sem razão, que os monges eram uns sibaritas que desviaram um braço do Rio Alcoa para o fazer passar na cozinha.



O alcobacense Bernardo Villa-Nova escreveu que um dos tanques é escavado no pavimento e abundantemente alimentado de água por um braço ramificado da levada que, por sua vez, é uma ramificação do Rio Alcoa (18).



Luis Augusto Rebelo da Silva (1812-1817), que já referimos supra, foi um notável escritor que escolheu Alcobaça para alguns capítulos do seu romance LÁGRIMAS E TESOUROS , com o sub-títuloFRAGMENTOS DE UMA HISTÓRIA VERDADEIRA baseado na visita que Beckford fez ao Mosteiro.



Vamos reproduzir alguns passos da dita obra, hoje em dia difícil de encontrar, em que é descrita a cozinha de Alcobaça:



(…) A cozinha justificava o orgulho do Abade Geral. Era o templo mais sumptuoso que podia dedicar-se aos ritos de Comus. Beckford, maravilhado, não se atrevia a acreditar no que estava vendo. Em nenhum dos conventos de França, de Itália ou da Alemanha, que visitara, contemplara tão vasta e admirável fábrica. Mestre Simon Cabarrus erguia as mãos e expressava o seu espanto, em interjeições mais ou menos ortodoxas. De facto, os estrangeiros, que a experiência e peregrinação habilitam a ser juízes, diziam que dificilmente apontariam em toda a Europa outra casa semelhante para competir com a de Alcobaça em grandeza e esplendor (...). Nesta cozinha, ou mais exacto, nesta sala espaçosíssima e lavada, que media sessenta pés de alto, trabalhava uma legião de mestres, de ajudantes e de serventes, com mangas e túnicas arregaçadas. Atravessava a casa pelo meio um rio de águas vivas, um verdadeiro rio, braço do Alcoa, e murmurando ia entornar tesouros líquidos nos amplos reservatórios, aonde nadavam peixes de todas as qualidades e tamanhos (...). Mesas enormes de pau e de mármore ostentavam de um lado hortaliças, os legumes e as frutas acabadas de colher, enquanto do outro se viam também a monte, as vítimas inumeráveis sacrificadas pela espingarda de conteiros à faustosa hospitalidade dos seus amos. Perdizes, patos bravos, galinhas, narcejas, lebres, coelhos, e veados, acusando ainda no sangue fresco o chumbo recente, esperavam em vistosa confusão pelas ordens do leigo emérito, ao qual o Dom Abade Geral confiaria o inteiro domínio daquelas regiões (19).



(CONTINUA)

D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte I) NOTA PRÉVIA

NOTA PRÉVIA

Este texto foi publicado pela primeira vez, no jornal regional REGIÃO DE CISTER, no ano de 1994.

A versão que agora se apresenta, corresponde fundamentalmente à primeira, embora num ponto ou noutro, corrigida e actualizada.

NOTA INTRODUTÓRIA

William Beckford, mais que o próprio monge cisterciense de Alcobaça, é sem dúvida a personagem que perpassa destacadamente ao longo da obra que ora apresentamos pela primeira vez em português, da autoria de Dom Maur Cocheril, intitulada no original WILLIAM BECKFORD ET LA CUISINE D'ALCOBAÇA (Porto-1969).

Para os menos conhecedores, diremos que William Beckford foi um incansável viajante e escritor romântico, nascido em Inglaterra, no seio de uma família muito rica, de nobreza recente, mas muito bem relacionada, de origem colonial e que faleceu em 1844.

Mas não só.

Todas as actividades a que se dedicou, como a arquitectura e o coleccionismo de objectos de arte, conferem-lhe um lugar de relevo na cultura inglesa do tempo.

A sua obra literária, vasta, interessante e variada, levanta problemas que revelam a multiplicidade de facetas do século em que surgiu e onde Portugal representa um papel de importância. O nome de W. Beckford está ligado, à história da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, que descreveu, de forma pitoresca, teatralizada, exagerada talvez, o que originou forte irritação e animosidade, nomeadamente nos meios políticos, religiosos e pretensamente intelectuais do nosso País.

Temos algumas dúvidas se as críticas a W. Beckford, designadamente as aduzidas por Dom Maur Cocheril, como veremos adiante, são de todo correctas e ajustadas.

Beckford de facto, serviu durante muito tempo à maledicência e à lenda, que se manteve quase até aos nossos dias, e que veio a destruir a sua reputação e a pôr fim a uma carreira, que poderia ter sido brilhante. Em contrapartida, ganhou-se no nosso entender, um autêntico escritor. Veio por três vezes a Portugal.

A primeira, de Março a Novembro de 1787, deu origem ao que veio a ser publicado, entre nós, com o título de DIÁRIO DE WILLIAM BECKFORD EM PORTUGAL E ESPANHA (1). Foi, de certo modo, por acidente que o inglês, então com 27 anos de idade, chegou a Portugal, já que isso se deveu ao facto de ter enjoado fortemente durante os nove dias que durou o percurso marítimo entre Falmouth e Lisboa, escala do seu destino à Jamaica, onde iria visitar plantações de açúcar da família.

Da segunda vez, entre Novembro de 1793 e Outubro de 1795, redigiu um diário que, 4O anos mais tarde, desenvolveu e publicou em Inglaterra sob o título RECOLLECTIONS OF AN EXCURSION TO THE MONASTERIES OF ALCOBAÇA AND BATALHA, que muitos consideram a sua melhor obra. Pelo menos, a mais conhecida.

Da terceira visita a Portugal, não consta que tenha escrito qualquer obra. Parece útil observar aos nossos leitores, acerca da obra de W. Beckford e em especial a Excursão... que o seu valor histórico não pode ser exaltado em demasia, nem pura e simplesmente rejeitado como uma mera fantasia. A obra de Beckford, considerada como menor, por críticos de rigorosa e limitada formação histórica, tem de ser apreciada numa perspectiva mais ampla de ficção narrativa. Neste sentido, não acompanhamos um compatriota de Beckford, Rose Macaulay, ao escrever em THEY WENT TO PORTUGAL (2) que, aquele, não tinha pejo de mentir, desde que a mentira pudesse concorrer para, de alguma forma, fazer realçar os coturnos em que se manifestava a sua personalidade sem escrúpulos, perversa, fátua, mentirosa e corruptora da juventude.

É pois, com os devidos cuidados que tem de ser lida a obra de W. Beckford, de modo a que os seus escritos não sejam rejeitados, por interpretados à letra ou com grandes preconceitos de rigor. Salvo melhor opinião, Dom Maur Cocheril não conseguiu evitar de todo esta postura, como iremos tentar benevolamente demonstrar.

W. Beckford foi uma personalidade complexa e possuída de vincado inconformismo. Nas suas contradições e contrastes é, sem dúvida, representativo da época de transição que viveu, os fins do século XVIII, os excessos da Revolução Francesa e os princípios do século XIX. Algumas das suas amizades e reacções em público, conduziram muito especialmente que a sua família e a conservadora sociedade inglesa, o considerassem um proscrito, que se impunha marginalizar. Não foram indiferentes a esta reacção, as críticas aceradas, a pessoas e a instituições, bem como o seu relacionamento íntimo e algo equívoco, apesar do casamento, com um jovem efeminado e belo, bastante mais novo, que veio a ter influência importante na sua vida.

Seja como for, estamos perante alguém extremamente dotado, que nos deixou, no que ora mais interessa, quadros vivos da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, boémia, nobre ou religiosa, que conheceu calorosamente, mas nem sempre com a intimidade que quis aparentar nos seus escritos.

A corte portuguesa de D. Maria I, revelou-se como o baluarte que só caiu após forte resistência, graças aliás aos esforços denodados do jovem Marquês de Marialva e com a oposição firme do Embaixador de Inglaterra.

Frequentemente, na literatura portuguesa e estrangeira, W. Beckford é acusado de manifesto cinismo religioso. Dom Maur Cocheril, não anda longe destes críticos. Beckford, foi com as suas virtudes e defeitos, o que poderíamos apelidar de um homem do mundo, sem rejeitar a sua inconfundível origem britânica. Rico, educado, relacionado, viajado e tolerante, não evitava sacrificar eventualmente um amigo, a troco de uma boa piada ou para desenvolver através da escrita um conceito estético.

A Excursão..., tornou-se com o tempo e especialmente em Portugal, um clássico da literatura de viagens. Além da célebre descrição da recepção e do banquete que lhe foram oferecidos pelos monges, em 7 e 8 de Junho de 1794, ponto de partida para pequena obra de D. Maur Cocheril, no que diz respeito a Alcobaça, W. Beckford escreveu com alguma ligeireza e graça acerca das laranjeiras do Claustro D. Dinis, da maior coelheira do mundo, duma bela cantora, outrora algo leviana, chamada Francisca, que trocara Queluz por este obscuro retiro, agora sob a direcção espiritual do Dom Abade Geral e, de uma representação teatral sobre a vida e morte de Inês de Castro. Para nossa surpresa, quiçá espanto, de portugueses cultos e sérios, diz ter assistido, escrita por um italiano, a uma cruciante tragédia de Dona Inês de Castro e do cruel assassinato daquela adorável dama e de seus inocentes filhos. Será representada no palco. O papel de Dona Inês é feito pelo Senhor Agostinho José.

Na nossa opinião, nenhum destes apontamentos retira interesse à Excursão... e cremos que por isso, ou apesar disso, não desdenhou Dom Maur Cocheril fazer a pequena obra que agora apresentamos e pretende ser também a defesa da Ordem de Cister.

As descrições da vida portuguesa feitas por Beckford, com os trajes, dança, música, luxo, gastronomia, procura de prazer nas classes elevadas e no clero, revelam o paradoxo entre o fervor religioso que aparentam ou não excluem, e as dificuldades com que se debatia o povo, e que ele bem compreendeu.

Vejamos, de novo, o caso da representação teatral de Inês de Castro, drama por demais conhecido, e tido como assistido por Beckford. Ocorrida ou não como a descreveu, não ficam dúvidas que o autor inglês introduziu na sua obra um elemento cómico apreciável, decorrente da sua qualidade de fino escritor que era. Admitimos que representação teatral pode ter-lhe sido sugerida não só pelo que leu, mas pelo que conhecia também da vida portuguesa e o Mosteiro de Alcobaça não deixava de se encaixar no quadro que pintou. Aliás, antes e depois de Beckford, outros autores referiram com liberdade o episódio de Inês de Castro nos seus textos. Músicos e mais tarde cineastas, nacionais e estrangeiros. Não nos repugna defender, contra alguma corrente mais ortodoxa, que esta descrição pode não ser o relato fiel de uma representação ou um acontecimento, mas uma peça inspirada em várias fontes e com a liberdade criativa permitida a um autor.

Para nós, as características da obra de Beckford, que a tornam aliciante, decorrem do sentimento de que mesmo quando critica, o faz sem maldade, alguém que aponta defeitos com compreensão e algum desvelo. O exagero da crítica depreciativa, aceitou como bom, mas sem razão, o pressuposto da inexistência de ambientes extravagantes, irregulares ou até fantásticos que no clero em geral e em Alcobaça em particular, seriam fruto apenas da imaginação fértil do autor inglês.

Vieira Natividade e o Gen. Lúcio Lobo foram autores em 1914 de uma versão livre daquela obra, no que diz respeito a Alcobaça e Batalha e que não chegou a entrar no mercado. A Semana Alcobacense publicou alguns excertos daquela tradução. O jornal O Alcoa, também publicou da Excursão ... a parte que diz respeito à recepção e banquete nos números 1748 e seguintes, numa versão nossa (3). Outras e meritórias edições já surgiram à luz do dia.

Somos de opinião que Dom Maur Cocheril, seguiu de perto as críticas, algo preconceituosas, que Vieira Natividade e Lúcio Lobo desde logo fizeram ao texto de Beckford, o que não é de todo de estranhar, dado o relacionamento que tinha com a Família de Natividade mas, principalmente, pela sua filiação na Ordem de Cister, de que era indefectível defensor.

Já Natividade havia referido, desfavoravelmente, que Beckford não assumiu a responsabilidade da sua crítica e por isso, só publicou o seu livro em 1835, após a extinção das ordens religiosas entre nós. Ainda Natividade e Lobo, em notas à citada tradução, censuram as referências lendárias e inverosímeis e apontam a ironia atroz do livro de Beckford, a que atribuem mero valor etnográfico. Rebelo da Silva, que adiante voltaremos a referir, ao escolher Beckford como protagonista do seu romance Lágrimas e Tesouros, apercebeu-se que este não era um viajante inculto, despreocupado ou brincalhão, mas alguém que se integrava razoavelmente no ambiente e reagia, com as devidas reservas, quase como um... português.

Fidelino de Figueiredo, também escreveu que William Beckford não tem a vulgar psicologia atribuída aos ingleses, é bem o português do século XVIII, como o conhecia Rebelo.

Talvez aqui se filie uma das razões da popularidade, ainda que contraditória, que a obra de Beckford atingiu em Portugal.

Hoje em dia, não se pode falar da história da Ordem de Cister em Portugal e dos Monges Brancos, sem invocar Dom Maur Cocheril. William Beckford e a Cozinha de Alcobaça é um mero intervalo na vasta e importante obra que deixou e, como tal, tem de ser entendido. Todavia, tem interesse e uma curiosidade muito própria para os alcobacenses, estudiosos ou meros curiosos de Cister, o que nos levou a decidir apresentá-la agora em português, também em versão livre e com algumas notas da nossa autoria, intercaladas no texto. Dom Maur Cocheril, no prefácio ao seu trabalho, refere que confessamos sentir um certo embaraço ao trazer uma nota discordante a tal concerto de elogios.

Por sua vez, Veríssimo Serrão, no prefácio a Alcobaça-Abadia Cisterciense de Portugal, de Dom Maur Cocheril, enquadrou bem a personalidade e a formação deste, para compreendermos o sentido do seu embaraço.

Sob as arcadas góticas do venerando mosteiro, deslumbrado pela imensidão das naves, pela elegância do claustro e pela harmonia do refeitório, vivia ele o sonho de uma ordem religiosa que se cumpria na realização de um nobre ideal de vida (4).

Nascido em 1914 em França e falecido em 1982 na Abadia Cisterciense de Notre Dame de Port-du-Salut (Mayenne), onde professara 40 anos antes, Dom Maur Cocheril dedicou muito tempo da sua vida, também aventurosa, ao estudo da Ordem de Cister em Portugal. Nós, que privilegiadamente ainda chegamos a conhece-lo, notámos, com facilidade, a sua verdadeira paixão pela nossa terra, a quem deu o seu melhor e aonde gostaria de ser enterrado. Isso não aconteceu ainda.

A Câmara Municipal de Alcobaca, numa singela homenagem, atribuiu o nome de Dom Maur Cocheril à antiga Travessa da Cadeia. Trata-se da artéria que liga a hoje chamada Praça 25 de Abril, às Ruas Eng. Duarte Pacheco e Miguel Bombarda. Chamava-se Travessa da Cadeia, obviamente, por ter existido ali a prisão da Vila, que era nos números 49 e 50 do prédio que também serviu de Paços do Concelho. Em 7 de Julho de 1915, recebeu o nome de 14 de Maio e em 9 de Dezembro de 1918 o de Rua 1º de Dezembro, passando novamente a designar-se por Rua 14 de Maio, em 1 de Junho de 1923 e Travessa da Cadeia em 27 de Maio de 1928.

Alcobaça minha abadia, os frades partiram tu permaneces solitária no teu vale, erguendo as tuas duas torres para o céu fechado, para o céu da Estremadura, que já não te ouve (5).

Ao tomarem a defesa dos absolutistas, os monges de Alcobaça foram atingidos pela queda de D. Miguel. O medo fez fugir os monges, o edifício foi assaltado e pilhado pela população, conseguindo-se salvar muitos dos livros e manuscritos para a Torre do Tombo e Biblioteca Nacional.

Foi na Colecção de Manuscritos do Fundo Geral da Biblioteca Nacional de Lisboa, Códice 1814, fls.181 e seguintes que José da Cunha Saraiva, encontrou a muito interessante Relação Da Vinda De El-Rey O Sr. D. Miguel A Este Real Mosteiro De Alcobaça.

Achamos oportuno transcrever a seguinte passagem referente à última visita real a Alcobaça, em 1830, na fase de decadência monacal e pouco antes da extinção das ordens religiosas:

Sahio S. Magd.e do seu quarto acompanhado dos m.mos que lhe tinhão assistido ao Beijamão, acrescendo mais aos asistentes o M.e D.or Fr. Fortunato de S. Boaventura, e se deregirão a Igreja, vendo primeiro o Altar de S. Miguel, e S. Sebastião, e os da Charola, subio atrás do Altar Mor para ver a Igreja em quanto a Comunid.e estava a vésperas, foi a Caza dos Tumullos, que admirou, e disse que havia de mandar compor o de D. Beatriz, para a outra vez que viesse, dahi foi ao Tranzito de N.S.S. Bernardo, a Capella de S. Pedro, a Sachrestia, aonde viu o Cálix d'ouro, a Custódia, e o mais digno de se ver, entrou no Sanctuário , Capella do S.r. dos Passos, e foi ao Claustro, Capitolo, Refeitório, o Caldeiro da Batalha d'Aljubarrota, a Cozinha, e fazendo em todas as partes varias perguntas a que satisfez o M. e Fr. Fortunato, foi a Livraria, e vio com curiosidade, os manos screptos, e Biblias, que m.m gostou de ver, e no quarto dos poribidos, mostrandolhe od.o P.e Mestre os Padres de Pavia, e dizendo lhe que era a nossa ruina e que na Alemanha estavão prohibidos também ca hade suceder o m.mo, desceu ao Cartório, vio, e leo nos Livros Dourados, e quando lhe apresentarão as Doaçaens nos pergaminhos, disse, agora me sento Eu e assim o fez em huma cadeira que estava, e vio miudam. te tudo, e fez várias perguntas e reflexoens.

Em 30 de Maio de 1834, foram extintos os mosteiros e expulsas de Portugal as ordens religiosas. Os Monges Brancos, os Bernardos, abandonaram definitivamente Alcobaça e a Ordem de Cister, tão intimamente ligada ao passado de grandeza ou até de dor do nosso País, deixou de ter, desde então, representantes entre nós. Noutros países, sobreviveu a convulsões políticas e sociais, constatando-se que nalgumas partes do mundo, desde o Japão, à Europa e Estados Unidos, ainda existem cistercienses que praticam, com fervor e até intransigência, os mesmos Usos e Costumes dos fundadores de Tarouca e Alcobaça.

A Igreja de Alcobaça era ornamentada com quadros a óleo, em ricas molduras de talha dourada, tendo sido despojada de uma grande parte, bem como das alfaias para o culto e ornato, após a supressão das ordens religiosas.

Olhando todos os dias o Mosteiro de Alcobaça, sentimos a mágua que decorre de termos, pouco mais que um belo edifício, restaurado e conservado é certo, património mundial, a maior Igreja que os cistercienses eregeram em Portugal à glória de Deus e que povoaram durante 7 séculos. A Ordem que em Portugal deu a medida de sua capacidade, desapareceu de um dia para o outro, e com ela todos as outras comunidades irmãs e dependentes e quase a sua memória. Foi uma morte real, definitiva mesmo.

Muitas vezes temo-nos interrogado porque razão este império, poderosamente civilizado, tão (des)conforme a exigência ou dimensão humanas, pereceu assim e não mais se reconstituiu. Seria interessante concluir que tal se deveu à vitória do cristianismo. Cremos que é errado. Assim, sugerimos a procura de várias causas, ainda que contraditórias, mesma que a soma delas apresente um resultado inclusivo. A Ordem de Cister, em Portugal, desintegrou-se, minada por uma desagregação interna, sequência de querelas intestinas, invasões não detidas, rancores acumulados, vinganças sociais, despertares com sobressaltos.

Entendemos, que seria interessante trazer ao nosso Mosteiro um pouco de vida e calor humano. E sem que legitimamente se possa concluir que os últimos anos dos monges em Alcobaça, com a sua lassidão ou bonomia, nos fazem esquecer os séculos de virtude, recordaremos aqui o relato de um episódio que, embora não sendo especialmente notável ou fidedigno, tem a marca dos frades que eram, sempre essencialmente, humanos e vulgares mortais.

Dom Maur Cocheril, o primeiro monge cisterciense a rezar missa no Mosteiro de Alcobaça após a extinção das ordens religiosas, tal como Beckford bem merece esta pequena homenagem.

(CONTINUA)

terça-feira, 11 de maio de 2010

A BATALHA DE ALJUBARROTA, A BÍBLIA (ganhada aos Castelhanos) E OUTRAS COISAS, DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Com a saída rápida e forçada dos monges do Mosteiro, aquando da extinção das ordens religiosas, o seu recheio foi quase todo despojado.


A Igreja viu perderem-se definitivamente, muitos quadros de valor, indo outros para Lisboa, por ordem do governo, com o objectivo de formar então uma galeria de pintura, que se levou a efeito na Academia Real das Belas Artes. Na Sacristia, guardavam-se preciosidades únicas, como vasos sagrados, alfaias, ferramentas que se extraviaram, enquanto algumas foram a tempo de constituir colecções de arte ornamental, no então chamado Museu Nacional de Belas Artes. É sobejamente sabido que a Biblioteca de Alcobaça, era das maiores do País, se não a maior, notável pelo grande número de volumes e obras nela conservadas.



Não é nosso objectivo descreve-las aqui. Basta referir que iam desde o sec. XI ao sec. XVIII e encontram-se hoje em dia, as que se salvaram da voragem e pilhagem destruidoras, em recato na Biblioteca Nacional e na Torre do Tombo. O período filipino, as invasões francesas e o saque de 1833, foram os grandes responsáveis por perdas inestimáveis, quer pelo seu valor histórico, quer pela sua importância literária e artística.



Bastantes anos mais tarde, por alturas de 1948, o então Conservador da Biblioteca Nacional, Dr. António Ataíde de Melo, tornou-se tristemente célebre por se ter envolvido no desaparecimento, por furto, de raridades provenientes de Alcobaça, guardadas naquela biblioteca, facto pelo que veio a ser preso, só não tendo sido levado a julgamento porque, entretanto, faleceu.



Com a derrota dos castelhanos, em Aljubarrota, muitos fugiram desordenadamente e cheios de pavor. Frei Manuel dos Santos, cronista de Alcobaça, refere que a peonagem dos Coutos de Alcobaça mais vizinha do local da batalha e que até ali andava ao largo, à sombra do Mosteiro, soando as primeiras vozes da vitória, foram-se chegando e já desembaraçados do susto deram-se em roubar e matar nos vencidos castelhanos com tal voragem que até as mulheres, ainda que tímidas por natureza matavam neles aos pares, seguindo exemplo de outra forneira que, segundo a tradição, matou sete castelhanos com a tão decantada pá de fornear.



De acordo com o mesmo cronista, D. João I, ficou três dias no campo de batalha a fim de assegurar a posse, como era costume, partindo então em marcha triunfal para o Mosteiro de Alcobaça, onde chegou em 20 de Agosto de 1833.



O povo saiu à estrada e aclamava delirantemente o vencedor, entregava-se a danças e folias próprias do tempo e ao som de ininterruptas vivas, acompanhou D. João I e o seu exército até Alcobaça, onde foi recebido perante a comunidade dos monges. D. João ordenou que aos de maior nome, que morreram em Aljubarrota, se fizesse sepultura no Claustro do Mosteiro de Alcobaça, como urna de tão leais cinzas.



Do campo de Aljubarrota para o Mosteiro foram levados, pois, alguns cadáveres de nobres portugueses, tendo o rei oferecido alguns despojos da batalha. Entre estes, há a destacar, a bandeira de Castela, o ceptro do Rei de Castela, um oratório de prata, os caldeiros de cobre onde se fazia a comida para o exército invasor, um dos quais está exposto na Sala dos Reis e uma Bíblia, hoje denominada a Bíblia de Aljubarrota, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa.



Chamam-se Codices Alcobacenses, a um fundo de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional e Torre do Tombo que pertenceram ao acervo do Mosteiro de Alcobaça, de onde foram levados depois de 1834. Alguns desses documentos provêm de Claraval, trazidos pelos monges fundadores de Alcobaça, mas a maioria é de calígrafos portugueses, quase todos da Ordem de Cister.



Os códigos destinavam-se, fundamentalmente, à formação espiritual dos monges de tipo litúrgico. Com os Códices de Alcobaça levados da sua Biblioteca para a Torre do Tombo, há uma obra que é uma dupla preciosidade, por ser artística e histórica.



Trata-se como se disse da chamada Bíblia de Aljubarrota que se diz ganha por D. João I, aos Castelhanos. Este manuscrito foi entregue ao Mosteiro de Alcobaça pelo Condestável D. Nun’Álvares Pereira e no princípio lê-se:



Bíblia ganhada na Batalha de Aljubarrota que el Rey Dom João o primeiro da gloriosa memória a qual era do próprio Rey de Castela foy ganhada dentro da sua própria tenda como consta da sua memória que está d’este próprio livro.

A (fantasiosa) PRINCESA RATTAZI, PORTUGAL a vol d'oiseau E ALCOBAÇA

I-NOTA PRÉVIA



PORTUGAL A VOL D’OISEAU (Portugal visto por alto), é uma obra curiosa, conscientemente polémica e, como tal, tem ainda hoje de ser encarada. Não foi assim entendido em Portugal, aquando da sua publicação em França em 1879 e, os nossos escritores e políticos, já então muito intelectuais e sérios, entre os quais há a destacar Camilo Castelo Branco, sentiram-se ofendidos com algumas observações e erros nela expressos.



Salvo melhor opinião, a Princesa Rattazi, francesa nascida em 1833 e falecida em 1902, que não era especialmente culta, nem estudiosa, mas ousada de juízo e uma grande viajante que gostava de ver o mundo, não deixou de manifestar profunda simpatia por este pequeno reino que supunha adormecido para não dizer morto. Por outro lado, se pretendeu corrigir erros inconcebíveis espalhados pela Europa acerca de Portugal, também é certo que deu letra de forma a outras incorrecções e imprecisões devidas, fundamentalmente, ao conhecimento por alto que teve do nosso País.



No prefácio da obra, necessário para compreender o seu sentido, reconhece a autora que uns dirão que eu vi como um cego e estudei como um idiota, embelezando a todo o custo e desfigurando de propósito, todavia estes deverão corar por não terem em conta o humorismo do livro, escrito a intervalos, a correr e por alto, como indica o seu título.



Não se vai traduzir aqui ou publicar, a totalidade do livro da Princesa Rattazi mas, apenas, a parte em que ela descreve a visita a Alcobaça. Os nossos leitores verão, em relação a Alcobaça, que a autora revela desconhecimento de alguns factos tidos por correntes entre nós, fantasia outros e inventa alguns, seguramente para dar mais interesse ou colorido à sua escrita.



No fim deste trabalho de tradução, que se vai apresentar, daremos conta de algumas dessas incorrecções, em notas da nossa autoria.



II-A VISITA A ALCOBAÇA



De Caldas da Rainha fiz uma excursão a Alcobaça. Os meus amigos portuenses haviam-me vivamente aconselhado a não deixar de visitar este local curioso, onde os túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro atraiem uma multidão de curiosos ou de peregrinos, especialmente os enamorados pela lenda comovente dos dois amantes coroados.



Partimos às oito horas da manhã, numa caleche puxada desta vez por vigorosos cavalos. A estrada é um perpétuo encantamento, uma fantasmagoria, onde o sol e a beleza da natureza desempenham o papel principal. Encostas suaves, atapetadas de folhagem, de flores, de heras, escondem no fundo minúsculas casas, perdidas sob a ramagem, enquanto colinas rodeiam uma cintura verdejante de prados, de vales, de habitações, à volta dos quais pastam rebanhos dóceis e azinhagas estreitas ziguezagueiam como serpentes. Tudo isto iluminado pelo azul mais puro e pela luz mais radiosa. Eis, o espectáculo que gozamos durante três horas.



Longas alamedas sombrias, bordejadas de plátanos gigantescos, precedem a nossa chegada a Alcobaça e assemelham-se às avenidas de qualquer castelo grandioso, ao mesmo tempo solitárias e alegres com o chilrear dos pássaros e o rumorejar do vento na folhagem.



Alcobaça é banhada por dois rios, o Alcoa e o Baça. A vila, perdido o antigo esplendor, nada mais oferece de notável que o Mosteiro. Por si próprios os claustros são cidades, a sacristia uma igreja, e a Igreja uma basílica, disse um autor português. É, com efeito, verdade.



O Mosteiro foi fundado em 1148, pelo Rei Afonso Henriques, como manifestação de agradecimento pela vitória de Campo de Ourique, que assegurou a fundação da monarquia portuguesa. Os religiosos da Ordem de Cister, fundada por S. Bernardo, para aí foram chamados e, em breve, tornaram-se senhores do ar e da água. O Rei deu-lhes as terras que a vista podia abarcar do alto da igreja o que, na prática, quer dizer uma extensão enorme (1).



A fachada está admiravelmente conservada. A Igreja é do mais puro estilo gótico. Compõe-se de três naves ligadas entre si por arcos de abóbada duma altura espantosa. A humidade deu um tom esverdeado às pedras, o tempo abriu-lhes fendas. O edifício está quase abandonado, mas continua magnífico no seu conjunto e os detalhes permanecem intactos.



Os portais carunchosos dão acesso à sacristia e ao claustro. Uma parte serve de quartel, restaura-se outra para aí instalar uma escola ou um seminário e a terceira cai em ruínas. Todavia, o aspecto geral é grandioso. A erva cresce em tudo o que é sítio, as cobras deslizam assobiando, enrolando-se nas colunas que suportam as abóbadas circulares. Os túmulos dos monges, confundem-se com as lages do pavimento e com as pedras que apresentam inscrições nas paredes. Aqui e acolá, rodeado de heras, de plantas trepadoras, descobrem-se os restos de duas paredes ligando dois pisos do Mosteiro. Julgamos ver a todo o tempo uma aparição fantástica e sobressaltamo-nos ao menor ruído, como se sombras misteriosas nos tocassem nos seus movimentos etéreos.



Os altares das capelas particulares estão todos repletos de ornamentos. Em frente aos túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro, encontra-se uma representação da morte e S. Bernardo, rodeado dos seus discípulos, que é do trabalho mais fino e da expressão mais curiosa! Atrás do altar-mor, existe um dédalo imenso, cortado por capelas particulares em honra de santos e santas. Na sacristia, encontram-se dois móveis antigos de elevado valor. Perto da sacristia, existe uma sala circular onde a luz do dia entra pelo tecto dividido em pequenos nichos, como um pombal, que se chama Escrínio das Relíquias. Em cada um destes nichos dourados, encontra-se a cabeça de um santo ou santa em tamanho natural, numa redoma de vidro. Durante as guerras civis, a maior parte destas relíquias perdeu-se (2) .



Os túmulos de Inês de Castro e do seu real esposo são maravilhosos! É pedra, marfim, renda? Os dois sarcófagos estão de pés de um para os do outro, a fim de no dizer da lenda, quando no Dia do Juizo Final a trombeta do arcanjo acordar os dois amantes, o seu primeiro olhar seja um olhar de amor. A estátua de Inês de Castro é jacente, sustentada por anjos que a olham chorosos, segurando uma coroa sobre a sua cabeça. Na mão direita tem um colar de pérolas. A seus pés vêm-se vestígios de cães, que foram partidos ou arrancados e que deviam simbolizar a fidelidade. Os quatro lados do túmulo, estão cobertos de baixo-relevos admiráveis. O túmulo propriamente dito, está apoiado em seis esfinges, cujas faces destruídas e sem relevo, testemunham a curiosidade dos visitantes. O sarcófago de D. Pedro, o Justiceiro, está seguro por seis leões. A sua figura nobre respira suavidade, a mão direita empunha uma espada. A seus pés estira-se um cão de caça. Nos cantos da capela, encontram-se três pequenas arcas em pedra, cujo trabalho admirável está meio apagado pelo tempo e que contêm os restos mortais dos três filhos de Inês de Castro.



Os sarcófagos de Inês de Castro e de D. Pedro foram infelizmente pilhados e mutilados. A figura de Inês de Castro foi muito deteriorada. O guia, vendo a minha indignação perante estes actos de vandalismo, disse-me com uma voz tornada profunda pela ressonância do lugar, estas palavras, seguramente as únicas que sabe na nossa língua, mutilados pelos franceses, sem juntar mais qualquer comentário. Senti-me incomodada (3 e 4).



Percorremos a Igreja, o claustro, mas eu continuava instintivamente perseguida por aquelas palavras que se me configuravam como uma censura e uma ameaça.



A biblioteca é uma sala imensa, que continha 100.000 volumes que foram transportados, uns para Lisboa, outros para Braga. Ela foi restaurada, decorada com belas pinturas e com uma galeria circular, totalmente dourada. Ajuizar-se-à do seu tamanho quando se souber que 999 monges viviam no Mosteiro e se reuniam nesta sala para trabalhar e estudar. Não podia haver em Alcobaça um número de monges que atingisse mil. Assim, havia por isso 999 celas. Que imensidão!!! Nas proximidades encontram-se os aposentos do Prior e a sua capela, dedicada a Santa Constança. As celas são pequenas, todas iguais. A maior parte está em ruínas. Quanto à cozinha ela é gigantesca.



O forno, que se encontra no centro e cuja chaminé à distância tem a forma sinistra de mitra de bispo, pode assar no espeto dois bois inteiros. Aqui e acolá existem mesas de pedra para cortar a carne e o pão, bem como uma banca enorme onde a louça se lava sozinha, servida por água que aí chega em abundância através de canais subterrâneos... Uma cozinha de Titã!



A torre é relativamente menos alta do que se julgaria à primeira vista. Talvez o rei, havendo achado imprudente a sua promessa, tivesse tomado depois as suas precauções. Mesmo assim, subi 72 degraus e encontrei-me sobre um terraço admirável, com os sinos aos meus pés e toda a região disposta como num leque aberto.



Para lá chegar, passei pelos celeiros. José poderia ter lá guardado não sete anos, mas a colheita de um século!



Dei por mim espantada e encantada. Que homens eram estes que podiam deixar tais marcas da sua passagem! Ao fim de vários séculos, o seu poderio manifesta-se em monumentos imperecíveis que permanecem de pé como a memória de um povo de gigantes!



O sol ia descendo. O encantamento do lugar permanecia, mas ia-se suavizando. Pequenas núvens corriam por aí, tingiam de púrpura o horizonte e maculavam a lua, que nascia muito pálida, atrás de um pinhal de troncos delgados e flexíveis.



O odor de violeta perfumava o ar, as flores protegiam as corolas delicadas e colocavam-se sob as folhas protectoras, os pastores regressavam a cantar aos seus lares, donde saía um fumo azulado e onde os esperavam as mulheres e filhos... Camponesas tisnadas pelo sol, de grandes olhos negros, caminhavam com alegria, carregando à cabeça molhos de espigas misturadas com papoilas e flores silvestres, enquanto que rapariguinhas, de joelhos à borda da estrada, pediam esmola sorrindo a despeito do tom fúnebre das suas súplicas. Doce esplendor de Portugal! Que clima! Teu céu permanentemente radioso! Teu hino é o da primavera e as tuas crianças desconhecem o aborrecimento, a doença ou a tristeza (7) .



O meu regresso foi assinalado por um incidente bastante pitoresco. Um burrico cinzento, bem tratado e luzidio, sem dúvida manso, depois de saltar uma sebe florida, veio cantar-nos um melodioso hi, han, tão intenso, que nos obrigou a tapar os ouvidos. Sem dúvida deixamos ali um amigo.



III-NOTAS AO TEXTO DA PRINCESA RATTAZI



1- A LENDA DA FUNDAÇÃO DO MOSTEIRO



Não é fácil saber, ou apurar, em que condições foi fundada por D. Afonso Henriques, a Abadia de Alcobaça.



Hoje em dia, quando a propósito ainda se fala em lendas, ou seja se procura ou invoca uma explicação não científica ou crítica para o facto, é desde logo em Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister, que vamos deparar.



A lenda mais conhecida, também chamada Novella do Voto, resume-se em que D. Afonso Henriques, em 1147, resolvendo sair de Coimbra para tomar Santarém aos mouros e conhecendo as dificuldades do empreendimento, agravadas pelo facto de as suas tropas serem pouco numerosas, resolveu invocar a ajuda de Bernardo, Abade de Claraval, já com fama de santidade, tanto mais que se tratava de uma batalha em honra da cristandade. Ao chegar ao alto da Serra de Albardos, no lugar onde mais tarde veio a ser construído o Arco da Memória, decidiu D. Afonso Henriques, em voto solene, conceder a Bernardo de Claraval, toda a terra que dali se avistava, para nela fundar um convento da Ordem. Esta versão, fantasiosa, mas bela, foi muito divulgada ao longo dos séculos, tendo vindo a ter uma excelente representação artística nos azulejos da Sala dos Reis.



Como todos os portugueses sabem, nunca houve batalha de Campo de Ourique como diz a Princesa Rattazi, com influência na fundação da nacionalidade.



2-DEPRADAÇÕES NO MOSTEIRO E UTILIZAÇÕES QUE LHE FORAM DADAS



Mesmo antes da extinção das ordens religiosas em Portugal, o Mosteiro de Alcobaça fora pilhado e saqueado por uma população hostil e até enraivecida, por alturas de levantamento de cariz liberal, ocorrido, em 16 de Outubro de 1833.



Durante as lutas liberais, os monges, à revelia dos ventos da história, colocaram-se ao lado de D. Miguel. Este, por várias vezes, manifestou ao Abade de Alcobaça a sua vontade de visitar o Mosteiro, na boa tradição dos Reis de Portugal. Isso veio a acontecer a 8 de Agosto de 1830, aliás nessa condição, com a recepção possível numa terra em que a população se revelava anticlerical e a vida conventual nada tinha de especialmente digna ou de faustosa.



O Mosteiro vivia, por essa altura, com muitas dificuldades financeiras, dívidas a particulares que atingiam cifras avultadas. O terramoto de 1755 e as invasões francesas, autêntico desastre nacional, acabaram por causar-lhe danos, de que não mais se recomporia.



Depois de 1834, e do saque incontrolado a que foi sujeito durante onze dias, parte de Mosteiro foi transformado em quartel, outra em espaço afecto à administração pública, como a Câmara Municipal, Repartição de Finanças, Tribunal, Cadeia, Asilo de Mendicidade e o restante vendido a particulares.



O teatro da vila chegou durante anos a funcionar no Refeitório. Desde então e até aos anos 50, o Mosteiro foi objecto de obras ditas de restauro, nem sempre bem planificadas ou executadas. Em todo o caso, o simples visitante, dificilmente será hoje em dia capaz de fazer ideia do que era o Mosteiro, já não nos tempos de grandeza e opulência, mas pelo menos quando foi abandonado pelos frades.



O Mosteiro estava lamentavelmente votado ao desleixo e ao abandono quando a Princesa Rattazi o visitou em 1879, aliás pouco antes de Ramalho Ortigão, que o descreveu nas Farpas, vol. 1. A delapidação e o vandalismo eram constantes, se não no recheio que se perdera totalmente, ou fora transferido, ainda com alguma oportunidade, como a Biblioteca, mas na parte monumental propriamente dita.



Alcobaça possuía alfaias riquíssimas e seculares, vasos sagrados, candelabros e tocheiros de prata e paramentos que os franceses levaram aquando das invasões. O restante, acabou por desaparecer às mãos da população, e não só, depois da extinção das ordens religiosas.



Em princípio, a Regra da Ordem, proibia a presença de imagens na Igreja, o que não quer dizer que ela fosse mesmo acatada ou que ali elas não existissem, como aliás acontecia noutras partes do monumento.



3- OS TÚMULOS



Sobre os túmulos de D. Pedro e de D. Inês de Castro, muito se tem dito e escrito em Portugal e no estrangeiro, pois são reputados como das obras mais importantes da escultura funerária do ocidente.



Segundo Cocheril, inicialmente os dois túmulos estavam colocados lado a lado no braço sul do transepto da Igreja, com os pés virados para nascente, sendo o de Inês de Castro à direita do de D. Pedro.



Foram em várias alturas abertos estes túmulos, entre outras que se saiba por D. João III em 1524 e D. Sebastião em 1 de Agosto de 1569. Vieira Natividade in MOSTEIRO DE ALCOBAÇA(1885), refere que D. Sebastião por uma doida fantasia de criança andou pelo reino vendo os restos mortais dos seus antepassados. Logo dessa vez, o de Inês de Castro foi muito danificado. Durante a 3ª invasão francesa em 1810, os soldados do Conde de Erlon assaltaram o Mosteiro e, entre outros actos de vandalismo que praticaram, arrombaram os túmulos que estavam no cruzeiro da Igreja, destruíram completamente e de forma irreparável algumas edículas e retiraram os corpos.



Possivelmente em 1827, os dois túmulos foram transferidos para Sala dos Túmulos e aí colocados em frente um do outro, criando-se assim a lenda que a Princesa Rattazi descreve.



A actual localização, o de D. Inês no lado norte e o de D. Pedro no lado sul do transepto, é apenas de 1956, após as últimas obras no Mosteiro. Refere ainda a Princesa Rattazi a existência de 3 pequenos túmulos, contendo os restos mortais dos três filhos de Inês de Castro. Efectivamente, no Panteão Real, há três sarcófagos pequenos, não identificados, eventualmente destinados a crianças. Nenhum historiador responsável os atribui aos filhos de Inês de Castro. Assim, a Princesa Rattazi em 1879, tal como Ramalho Ortigão em 1886, quando visitou o Mosteiro, aceitou como boa mais uma lenda romântica.



4-O FUNERAL DE INÊS DE CASTRO



Transcreve-se a seguir, por curiosa e pouco divulgada, a descrição que in ALCOBAÇA ILUSTRADA, Frei Manuel dos Santos faz da transladação de Coimbra para Alcobaça dos restos mortais de Inês de Castro.



Para efeitos da dita transladação procedeu El-Rei D.Pedro da maneira seguinte: mandou lavrar grande quantidade de tochas de cera fina; deu ordens necessárias aos povos que corta a estrada real de Coimbra até Alcobaça e chamou a Stª Clara a nobreza e o mais luzido do Reino; e sendo isto ordenado, assinou El-Rei o dia: viam-se da porta da Igreja de Stª Clara-a-Velha em primeiro lugar o Cabido, as Religiões e o Clero da Cidade; logo sucessivamente pela estrada adiante postos em duas fileiras cada um tem seu círio aceso na mão as pessoas que foram necessárias para se encher a grande distância de caminho, que há da Igreja de Stª Clara até ao real Mosteiro de Alcobaça, que são as mesmas dezassete léguas que diz Faria, todos em silêncio esperando que passasse pelo meio das duas fileiras o real e fúnebre acompanhamento. Vinha o cadáver da Rainha em liteira ou andas, a qual cobria um pano de brocado arrastando as pontas até ao chão; precediam grande número de Eclesiásticos a cavalo; seguia-se a liteira ; logo os Bispos do Porto, de Lisboa e Viseu e o Abade de Alcobaça; atrás El-Rei e os Senhores que seguiam a Corte. Finalmemte chegou a Alcobaça por entre tantas línguas de fogo, que assim aplaudiam e davam a palma ao amor e desanimada beleza ainda triunfante depois de morta; e apeando-se os da comitiva à porta do Mosteiro foram pôr o corpo da Rainha na Igreja sem fazerem por então outra coisa. No outro dia oficiou os funerais em Pontifical o Bispo de Viseu; e no fim fez El-Rei descobrir o cadáver acomodando-o como puderam em uma cadeira e trazendo o Abade uma coroa prevenida outra vez deram princípio a nova e celebradíssima cerimónia de beijarem a fria mão de D. Inês como sua Rainha todos os que eram presentes; por remate da acção depositaram o Real cadáver na elegante e soberbíssima sepultura, que o esperava; e nela descança até ao último dia da ressureição universal.



5-A BIBLIOTECA DO MOSTEIRO



A Biblioteca do Mosteiro era famosa não só pela beleza e elegância da sua decoração, de que há ainda vestígios, mas também ou principalmente, e isso é que a tornou relevante, pela riqueza e número de códices e livros impressos que possuía. Como se sabe, a sala onde funcionou, está na parte monumental ocupada actualmente pelo Lar Residencial. Em ligação com a Biblioteca, além de oficinas de encadernação, instalaram os monges cistercienses nos finais do século XVI, uma tipografia onde foram posteriormente impressas obras importantes, como as da historiografia oficial do reino. Na verdade, após Frei Bernardo de Brito, os cronistas de Alcobaça foram nomeados cronistas-mor do reino, elaboraram obra considerável, frequentemente porém sem rigor histórico, para satisfazer alguns imperativos meramente conjunturais.



Segundo M. Vieira Natividade, in Mosteiro de Alcobaça, ao lado da Livraria existiam uns quartos bastante espaçosos que eram destinados a encerrar os livros proibidos, os livros dos grandes pensadores, que só aos monges velhos e de reconhecido fervor religioso era permitido ler, porque, esses por certo se não deixariam arrastar pelas doutrinas dos novos filósofos. Esta afirmação, foi desenvolvida noutro contexto por Umberto Eco em O Nome da Rosa.



6-QUANTOS MONGES HAVIA EM ALCOBAÇA?



A Princesa Rattazi recolheu no seu texto mais uma outra lenda muito divulgada, que ainda hoje se mantém, ou seja, que Alcobaça não podia receber mais que 999 monges e que esse número chegou efectivamente a ser atingido. Ramalho Ortigão, in Farpas, de 1886, referiu que os dormitórios do convento tinham celas para 999 religiosos e a casa dispunha, além disso, de vastos aposentos para hóspedes, quartos para criados, livraria, gabinetes de estudo, cavalariças, adegas enormes, celeiros, boticas, lojas de barbeiro e numerosas oficinas de impressores, de encadernadores, de marceneiros, de carpinteiros, de ferreiros, de escultores, de barristas, de imaginadores, etc., etc..



Segundo Dom Maur Cocheril, in Alcobaça-Abadia Cisterciense de Portugal, o número de monges variou ao longo dos tempos, tendo chegado a atingir uns 150, reduzidos a 110 no século XVII, em 1762 a 139, sendo Alcobaça um dos mosteiros cistercienses masculinos com mais população.



Os monges dormiam vestidos, em leitos modestos, separados entre si por tabiques pouco altos e, portanto, sem privacidade.



7-AS FANTASIAS DA PRINCESA RATTAZI



Como vimos do texto que apresentamos, a Princesa Rattazi não tinha pudor em fantasiar sem limites, nalguns casos por falta de cuidado na recolha das fontes noutros, por puro humorismo ou espírito satírico.



Somos de opinião que a divulgação que o livro teve, foi mais fruto das críticas exaltadas que lhe foram feitas do que pelos méritos que, de facto, não tinha. Todavia, mais de 100 anos após a sua publicação, pareceu-nos interessante apresentar aquele extracto.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O TEATRO (no Mosteiro), TEÓFILO DE BRAGA (P.R.) EM VISITA A ALCOBAÇA (1915) E MANUEL VIEIRA NATIVIDADE

Alguns alcobacenses, ainda se recordarão, do antigo Teatro de Alcobaça, a funcionar no Mosteiro. Aliás, há várias fotografias dele. Em meados da década de 1920, começou a esboçar-se um movimento na Vila para que esta pudesse dispor, finalmente, da casa de espectáculos que merecia e o progresso impunha. A direcção do Teatro Alcobacense oficiou à Câmara Municipal para a cedência de um terreno na Praça do Município, onde ao tempo existia a Igreja Nova que, haveria mais tarde de ser demolida.



Numa época em que a rádio dava os primeiros passos, não havia obviamente televisão e as deslocações para fora da terra se processavam com alguma morosidade, o teatro e o incipiente cinema, ainda mudo, tinham enorme importância nos hábitos dos portugueses. Ir ao teatro ou ao cinema, implicava um certo ritual, desde logo, no vestuário que as pessoas cumpriam, muito gostosamente, e com seriedade. As récitas eram devidamente anunciadas e aguardadas com muita expectativa.



O Teatro existente em Alcobaça fora fundado em 1839, por iniciativa de um grupo de destacadas personalidades locais, que abriram subscrição pública entre os habitantes da Vila. As madeiras necessárias à obra foram oferecidas pelo Conde de Vila Real.



O local escolhido, foi o Refeitório dos Monges, no Mosteiro. De facto, após a extinção das ordens religiosas em Portugal, a fuga dos monges e a depredação do Mosteiro, este foi delapidado em grande parte do seu património. O governo entregou à Câmara Municipal uma zona do Mosteiro, não afecta ao culto, através da Portaria do Ministério da Fazenda, de 4 de Agosto de 1837, como consta do auto de posse de 10 de Fevereiro de 1838, presidido pelo Administrador Geral do Distrito, confirmada pela Carta de Lei de 14 de Fevereiro de 1862 e pelo Auto de 3I de Março de 1862, sendo Administrador do Concelho, Manuel Sanches Figueiredo.



O Teatro foi inaugurado, com enorme sucesso, em 6 de Janeiro de 1840, com um drama histórico intitulado Pedro, o Grande ou a Escrava de Marienburgo. O grupo que actuou, era exclusivamente composto de amadores que se dedicavam, nas horas vagas, com muito empenhamento e amor ao teatro.



Obviamente, ao longo de um século, muitas peças ali foram apresentadas. Isso implicou, também, alguns melhoramentos, que pecavam sempre pelas características do local. Entre vários, há a destacar o pano de boca pintado em 1865, por um conhecido cenógrafo de Lisboa, considerado um dos melhores do seu tempo.



Alcobaça, ao longo dos anos e pelas mais diversas razões, tem sido visitada por ilustres personalidades nacionais e estrangeiras. Algumas dessas visitas ficaram memoráveis.



Recordamos, desta vez, a que em 27 de Setembro de 1915, Teófilo de Braga, Presidente da República, veio fazer à nossa vila, para presidir à inauguração de um importante certame.



Tendo partido de Lisboa nessa manhã, numa carruagem salão, atrelada ao combóio correio, Teófilo de Braga era aguardado por muito povo à sua chegada à estação de caminho de ferro de Valado dos Frades.



Alcobaça era terra de forte consciência democrática e republicana, pelo que sendo esta a primeira vez que um Presidente da República aqui se deslocava, a expectativa e o entusiasmo eram enormes. Ao longo do percurso até Alcobaça e, sobretudo, à entrada dos Paços do Concelho havia muita gente nas janelas engalenadas e na rua, que dava numerosos vivas.



Após a recepção na Câmara Municipal, o Presidente da República e a respectiva comitiva, de que fazia parte o Ministro do Fomento, foram almoçar ao Clube Alcobacense, cujo salão estava ricamente ornamentado pelas senhoras da melhor sociedade. A Banda dos Marinheiros da Armada, presente, tocou alguns números do seu excelente reportório durante o banquete.



Pelas 16 horas, realizou-se a inauguração da Exposição de Pomologia, Flores e Plantas Ornamentais, no Claustro de D. Dinis, razão principal da visita presidencial.



Aguardavam, aí, o Presidente, entre outros, os internados no Asilo dos Velhinhos, as crianças do Asilo da Infância Desvalida e um belo grupo de raparigas do campo, com vistosos trajes regionais, o que muito agradou ao ilustre visitante que não se cansou de o elogiar.



Serviu de cicerone ao Senhor Presidente, um dos primeiros responsáveis pela organização da exposição, Manuel Vieira Natividade.



Terminada a visita, Teófilo de Braga, dirigiu-se ao Asilo dos Velhinhos, inaugurado a 4 de Maio de 1913, que se encontrava a funcionar no palacete da Srª D. Maria e Oliveira, pessoa que fez questão de ir cumprimentar pessoalmente. Tratava-se, como se sabe, da viúva do benemérito e estimado capitalista Manuel José de Sousa Oliveira, natural do Porto, que legou toda a sua fortuna à obra dos velhos de Alcobaça.



Refira-se, a propósito, e por mera curiosidade, o que consta do artº 6º do primitivo Regulamento do Asilo, da autoria do próprio fundador:



No meu Asilo só serão admitidas as pessoas que tenham uma vida honesta e que tenham sido trabalhadores, visto que considero o meu Asilo como uma recompensa ao trabalho e não como um prémio aos desonestos, aos alcoólicos e aos mandriões. Só serão admitidas as pessoas que tenham tido uma vida absolutamente limpa.



Teófilo de Braga ainda visitou o Jardim-Escola João de Deus, o Hospital da Misericórdia e o Posto Agrário.



À noite, decorreu uma sessão solene no Claustro de D. Dinis, já que teve lugar a Festa dos Frutos. Além da Banda dos Mainheiros da Armada, actuou a Banda de Infantaria 7.



Todavia, as honras da noite couberam a Manuel Vieira Natividade, que fez uma notável conferência intitulada A Poesia dos Frutos.



Mais do que uma vez escrevemos, acerca de Natividade, pessoa que ainda hoje está bem presente na memória de muitos alcobacenses, pela sua elevada estatura intelectual e moral. Farmacêutico de profissão, que não talvez por devoção, a sua farmácia, situada no Rossio, era ponto de encontro das pessoas gradas da terra. Foi sobretudo um estudioso de Alcobaça, da região e das suas gentes, que perpetuou em obra valiosa e extensa.



A sessão cultural continuou com uma récita de versos de Bulhão Pato e António Correia de Oliveira e, terminou, com um eloquente discurso do Ministro do Fomento, Manuel Monteiro, que não perdeu a oportunidade de o entremear com a apologia da defesa à República, a homenagem à Alcobaça histórica e agrícola que engrandecia o povo rural e promovia o seu desenvolvimento.



O Presidente da República e comitiva que se deslocara de Lisboa a Alcobaça, passaram a noite no chalet do Director da Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, tendo a guarda de honra sido feita de noite pelo corpo privativo de bombeiros daquela unidade fabril.



Mais tarde, aquando do falecimento de Natividade, Teófilo de Braga, em depoimento transcrito na Semana Alcobacense, exprimiu-se do modo seguinte:



Manuel Vieira Natividade consagrou o seu talento literário, artístico e crítico e também os seus estudos arqueológicos, históricos e económicos à glorificação monumental de Alcobaça. Compete-lhe a divisa que para si se impôs o quinhentista Ferreira:



Eu desta glória só fico contente,



Que a minha terra amei e a minha gente.

ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE ALCOBAÇA (Cap. II)

RECORDANDO A ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE ALCOBAÇA, NOS SEUS TEMPOS DE GRANDE PUJANÇA E NOTORIEDADE.

APONTAMENTOS DA SUA VIDA ARTÍSTICA, EM QUE PERCORRE O PAÍS DE NORTE A SUL.


ANTÓNIO GAVINO, BELO MARQUES E SILVA TAVARES

MARIA DE LURDES RESENDE (as homenagens que lhe foram feitas) E A CANÇÃO DE ALCOBAÇA. AMÉRICO TOMÁS


CELESTINO GRAÇA E OS SEUS AGRUPAMENTOS DE SANTARÉM.


SIMONE OLIVEIRA, MADALENA IGLÉISIAS, MARIA MARISE, GINA MARIA, CIDÁLIA MEIRELES, MARA ABRANTES, ANTÓMIO CALVÁRIO, ARTUR GARCIA, HENRIQUE MENDES, FIALHO DE GOUVEIA, PEDRO MOUTINHO (e muitos outros)


AS ORQUESTRAS TÍPICAS ALBICASTRENSE E ESCALABITANA.


O XIX CONGRESSO DA UNIÃO INTERNACIONAL DOS ADVOGADOS (Prof Palma Carlos e Vasco da Gama Fernandes, entre outros juristas).

ALGUNS ARTISTAS E DIRECTORES DA OTC.



(II)





A grande pujança, os chamados anos de ouro da O.T.C. decorreu, no início da década de sessenta do século XX. José António Crespo e Maria Luísa recordam mais algumas apresentações, como um Serão para Trabalhadores ,no Pavilhão dos Desportos-Lisboa, a 16 de Março de 1961, organizado pela EN, que o transmitiu em directo, em colaboração com a FNAT e dedicado ao Grupo Desportivo da Companhia dos Telefones. Colaboraram na primeira parte, o conjunto (muito em voga) de Jorge Machado, a cantadeira Natércia da Conceição, os artistas Fernando e José Queijas bem como os cançonetistas Elsa Vilar, Alberto Ramos e Maria Amélia Canossa. De acordo com o enquadramento da organização, haveria músicas tristes ou alegres, os fados de Lisboa todas as noites nascem sem pedirem licença a ninguém. Basta que uma guitarra se encontre ao lado de uma viola e que a presença de uma castiça cantadeira se interponha entre ambas, para que os fados surjam e Malhoa esteja presente com a sua mágica paleta….



A segunda parte foi preenchida com a O.T.C., com um breve intervalo, para alguns momentos humorísticos do actor José Viana. Era intenção propalada tanto pela E.N., como pela FNAT, o propósito de apresentarem nestes Serões, as Orquestras e Conjuntos da nossa terra que possuam verdadeira categoria, como é o caso da de Alcobaça. Não esquecem também o Recital Artístico, de 3 de Abril de 1962 em Alcobaça, com a colaboração da Orquestra Ligeira e Artistas da EN (Alice Amaro, António Calvário, Artur Garcia, conhecido como o Rouxinol, por se ter estreado profissionalmente com o tema Rouxinol dos Meus Amores. Rei da Rádio em 1967, em 1969 Artur Garcia foi considerado Príncipe do Espectáculo), Gina Maria, Guilherme Kjölner, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Candal, Maria Marise, Simone de Oliveira, Teresa Paula e Trio Harmonia). Num sábado, 4 de Novembro desse ano, a O T.C. como referimos supra e recordam Crespo e Maria Luísa fez um Recital no Cine-Teatro da vila, convidando artistas da Rádio e RTP. Este espectáculo foi tão bem sucedido, como aliás se referia mais tarde em casa do Dr. Magalhães, que, no dia 16 de Dezembro seguinte se repetiu, com a presença dos mesmos artistas (Madalena Iglésias, Maria Cândida, Artur Garcia, Maria do Espírito Santo) e ainda de Graça Maria Rosado, Mariette Pessanha. Gina Maria estaria presente, se o avião que a trouxer dos Açores chegar a Lisboa, a tempo de depois se deslocar para Alcobaça. Gina Maria esteve presente, pois o avião chegou a tempo de se fazer transportar de taxi a Alcobaça.



No dia 11 de Fevereiro de 1962, a O.T.C. com os solistas Maria Luísa Dionísio, Maria do Rosário, Maria de Lourdes, José Teopisto, Olegário José e Valdemar do Nascimento, realizou uma apresentação nos Montes, na sede da respectiva Associação, que funcionava numa Adega, propriedade do Dr. Amílcar Pereira de Magalhães. Também várias sessões de fados castiços ali tiveram lugar. O edifício da adega, que foi sede da Associação Recreativa Montense até 1968, com excepção da zona dos depósitos aéreos e subterrâneos, era em chão térreo. Montava-se para cada espectáculo um palco com pano de cena, um pequeno bar onde se serviam rissóis, copos de branco ou tinto, colocavam-se bancos e cadeiras, bem como uma instalação, sonora normalmente alugada em Alcobaça, numa casa à Pissarra. O Dr. Amílcar Magalhães foi entre 1961 e 1963, Presidente da Direcção do C.A.A.C.. Além dele e de José Crespo (secretário-geral), fizeram parte da Direcção nesse mandato, Manuel Lemos Pereira da Silva (secretário adjunto), José Dionísio dos Santos (tesoureiro) e Leopoldino dos Santos (vogal). Crespo gosta de sublinhar, no que é assessorado por Maria Luísa Dionísio, que o ambiente no grupo era excelente, pois os componentes da O.T.C. sentiam uma grande solidariedade entre si e davam poucas faltas aos ensaios. Por sua vez, os directores não enjeitavam colaborar na organização dos espectáculos, concretamente arrumando, levantando cadeiras e mesas, preparando o palco, a cena ou a instalação eléctrica ou mesmo suportar algumas despesas. Mais tarde esses serviços passaram a ser efectuados por pessoas contratadas e pagas, o que implicou custos elevados, em breve considerados insuportáveis.




Na segunda parte do espectáculo dos Montes, para maiores de 6 anos, apresentado por A. Canário, cujo ingresso não era barato, pois as cadeiras custavam 12$00 e o peão 7$50, participaram ainda Artur Garcia e Graça Maria Rosado. Estes e outros artistas como António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias ou Gina Maria, realizaram também outros espectáculos em Montes, no mesmo local. No referido espectáculo, a casa estava superlotada, houve pessoas que ficaram à porta, e José Crespo recorda-se bem, para além do sucesso da apresentação de uma excelente ceia oferecida pelo Dr. Amílcar Magalhães, Presidente da Direcção.



De acordo com a revista Plateia (de Lisboa), no seu número de 10 de Maio de 1962, a homenagem a Silva Tavares e à O.T.C, realizada no dia 3 desse mês, em Alcobaça, constituiu uma parada dos melhores artistas da Rádio e TV nacionais, e uma orquestra da categoria que é a de Tavares Belo. Uma casa cheia e um público ansioso que, não regateou aplausos quando Fernando Correia, alegre e comunicativo locutor da EN, anunciou o início do espectáculo.




Na primeira parte, actuou a O.T.C. e Silva Tavares, como era usual sempre que presente, foi alvo duma significativa ovação, quando se acabou de ouvir a Canção de Alcobaça. Os locutores Fernando Correia e Artur Peres apresentaram na segunda parte, Gina Maria, Domingos Marques, Trio Harmonia, Cristina Maria e Alice Amaro, acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Na terceira parte, foram chamados ao palco, o homenageado Silva Tavares, o Maestro Eduardo Loureiro, chefe da Secção de Música Ligeira da E.N., os Maestros Melo Pereira, chefe da Secção de Música Ligeira da RTP, Belo Marques e um representante da casa discográfica Valentim de Carvalho. Subiram ainda ao palco, o presidente da CMA, Jaime Horácio Junqueiro e os Vereadores, bem como, a direcção do CAAC .
Junqueiro disse, a determinada altura do seu discurso, dirigindo-se a Silva Tavares, que temos V. Ex.ª como filho de Alcobaça, pois esta vila é como uma pátria para a qual corre sempre que pode e a quem entregou o diploma que o torna filho adoptivo e cidadão de Alcobaça.




O Dr. Amílcar Magalhães, teceu elogio às pessoas e à acção de Belo Marques e a Silva Tavares. Silva Tavares agradeceu e, disse que (…) eu gosto de Alcobaça, como gosto daquilo que gosto. Gosto da minha mulher, porque gosto (…). Em seguida, fez a pequena história do nascimento da Canção Alcobaça, e a sua original criação, na voz de Cidália Meireles. Como se sabe, quem cantou pela primeira vez a Canção de Alcobaça, foi Cidália Meireles, que tendo ido trabalhar para o Brasil, cedeu o lugar a Maria de Lurdes Resende, que fazia parte do coro feminino da EN.




Maria Luísa Dionísio está convencida que foi Belo Marques quem perante a impossibilidade de Cidália Meireles continuar a colaborar com a O.T.C., tomou a iniciativa de convidar Maria de Lourdes Resende, para o seu lugar, acabando assim por ficarem indissoluvelmente ligadas. A Canção de Alcobaça passou a fazer parte obrigatória, do repertório de Maria de Lourdes Resende (a menina feia), actuasse ou não com a O.T.C., bem como de artistas como Francisco José, no auge da fama e no Brasil.


Num gesto, que sensibilizou os presentes, Silva Tavares, abraçou na pessoa do Presidente da Câmara toda a vila de Alcobaça, após o que a seguir ainda actuaram Maria Marise, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias, a brasileira Mara Abrantes e conjunto de guitarras de Rui Nery, todos acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Como era tradicional, a O.T.C., ofereceu a todos os participantes do espectáculo, que o foram a título gracioso, uma lembrança a testemunhar e a agradecer o contributo de cada um e todos, para o êxito do evento. No final, foi servida uma ceia, tendo ficado bem vincada e registada, a simpatia dos responsáveis do evento, para aqueles que actuaram.

A 23 a 27 de Julho de 1962, decorreu em Lisboa, com sessões de trabalho na Faculdade de Direito, o XIX Congresso da União Internacional dos Advogados (Union Internationale des Avocats), cujo Presidente era o Professor Doutor Adelino Palma Carlos. Da Comissão Executiva faziam parte, entre outros distintos Advogados, António Madeira Pinto (Secretário Geral), José de Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes ou José Maria Gaspar. Para além do Congresso, havia uma parte social com espectáculos e passeios, sem prejuízo de um programa próprio para as senhoras, esposas dos congressistas. O Advogado e presidente do CAAC, Dr. Amílcar Magalhães, convidou a OTC a fazer uma apresentação para os congressistas, antes do almoço que se realizou no Mosteiro de Alcobaça, no dia 25 de Julho. Chegou até nós a ementa do almoço, da responsabilidade da Pensão Restaurante Corações Unidos: Acepipes, Linguados à Beneditina, Frangos na Púcara à Fradesca, Lampreia de Ovos à Mosteiro, Frutas de Alcobaça e Café. Os vinhos branco e tinto, bem como a aguardente velhíssima eram JEM (José Emílio de Magalhães). Também foi servida Ginja de Alcobaça. Durante a visita aos Mosteiros de Alcobaça e Batalha, bem como ao Castelo de Leiria, fizeram breves palestras, respectivamente, o Professor Joaquim Vieira Natividade, Dr. Pais d’Almeida e Arquitecto Camilo Korrodi. Ainda nesse dia, os congressistas deslocaram-se à Nazaré (onde assistiram a um programa de folclore), Batalha e Leiria (em cujo jardim Municipal lhes foi servido um chá e actuou o Orfeão de Leiria).

Ainda nesse ano, a 27 de Outubro, a O.T.C. deslocou-se à sede da Academia Recreativa de Santo Amaro, para uma sarau de responsabilidade em que participaram Graça Maria, Artur Garcia e José Nobre, apresentado por Pedro Moutinho (então casado com Maria Leonor), e que utilizava sempre uma orquídia branca na lapela do casaco, como recorda Maria Luísa Dionísio.

Em Janeiro de 1963, realizou-se no Cine-teatro de Alcobaça, um espectáculo de homenagem à O.T.C. (que, por isso, não actuou), no estilo do programa da TV, Melodias de Sempre, pelo muito que têm feito em favor da música popular portuguesa. Colaboraram, graciosamente, artistas como Artur Garcia, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Marise, Gina Maria, Elsa Vilar, Maria Fernanda Soares, Domingos Abrantes, o Coro das Melodias de Sempre, com o maestro António de Melo ao piano. A locução esteve a cargo de Fialho de Gouveia, Fernando Correia e Henrique Mendes!!! Os artistas utilizaram o guarda roupa cedido por Anahory, conhecido figurinista das revistas do Parque Mayer e das peças de teatro da TV.

Nesse ano de 1963, a O.T.C. realizou variados espectáculos, como na Maiorga (com Maria da Glória e Eugénia Maria) ou em Valado de Frades (com Maria Fernanda Soares e Artur Garcia).


Na alameda da Quinta da Cova da Onça, vistosamente engalenada, promovido por C.A.A.C., realizaram-se, no ano de 1963, os festejos dos Santos Populares. A O.T.C. marcou presença na última noite. Ali funcionou uma quermesse com barracas de tômbola (panelas e tachos), de ginjinha, de rifas, de comes-e-bebes, com amêijoa, frango no espeto, sardinha assada, etc., bem como barracas dos mais variados artigos, onde predominavam os de fabricação alcobacense. Nesse ano, a RTP havia vindo a Alcobaça filmar o espaço da Cova da Onça, onde estavam a decorrer as festas, para utilizar as imagens num programa que a O.T.C. veio a apresentar em directo nos estúdios de Lisboa. No ano seguinte (1964), os festejos dos Santos Populares realizaram-se na cerca do Asilo de Velhinhos Maria e Oliveira. Desta vez, vieram a Alcobaça, artistas como Maria Fernanda Soares e Artur Garcia (propagandeado como conhecido e apreciado dueto de Melodias de Sempre) Fernanda Pacheco, Luís Piçarra (o mais internacional dos artistas portugueses) e Gina Maria (1º Prémio de interpretação em Espanha), Margarida Amaral, Fernanda Pádua (uma promessa de futuro), Lina Maria, Max (madeirense autor e intérprete do sucesso popular A Mula da Cooperativa e Pomba Branca), Carlos do Nascimento, (Rei da Rádio de Angola e apreciado artista da Rádio e da TV), e ainda Simone de Oliveira, (vedeta da voz de oiro e rainha da popularidade).Desde o Santo António, que ali se vinham realizando festejos, nos quais se exibiram, além dos consagrados artistas, o Orfeão da Sociedade Central de Cervejas, sob a regência do maestro Alves Coelho (Filho). Mas foi precisamente a noite de S. Pedro, que se revelou especialmente notável. O sarau, numa noite chuvosa e ventosa, pouco agradável, começou pelas 22h, com a exibição do Rancho Folclórico da Nazaré, num recinto completamente cheio. Porém, o grande momento da noite consistiu como é óbvio na apresentação da O.T.C. Nestas actuações, a OTC interpretava a peça, que aliás veio a gravar em dico (vinil) Há Mercado em Alcobaça. No ano 2000, a Rádio Renascença, conjuntamente com a Movieplay, numa colectânea de Clássicos Portugueses, fez uma reedição e uma passagem para CD:




Alcobaça tem

Um mercado original

Pois que toda gente que aqui vem

Vai a dizer bem,

Nunca diz mal.




Vende-se de tudo

Que é antigo e que é moderno,

Tecidos de chita e de veludo

E frutas do verão, em pleno Inverno.




Se depois chegar,

Em passando o nono mês

Um bebé bonito p’ra alegrar,

Terá que comprar

Mas para três…

E depois virá o tal dia que é preciso

Ensinar aquilo que ouviu já

Para que o rapaz tenha juízo…




Só nos prende

Um pormenor

Não se vende

Aqui amor…




Estribilho




Quem quiser

Escolher

A mulher

P’ra viver,

E pensar

Vida sã

Para o lar

De amanhã,

Só precisa comprar

Valiosos bragais,

E depois …

É casar,

Nada mais!





A O.T.C. recebeu no dia 14 de Dezembro de 1963, a Orquestra Típica Albicastrense que veio a convite do C.A.A.C. dar um espectáculo ao Cine-Teatro. Segundo o jornal Reconquista, de Castelo Branco, de 22 de Dezembro de 1963, a caravana albicastrense, esperada em Aljubarrota por mais de uma dezena de carros, apesar da chuva que persistentemente caía, foi a mesma escoltada até ao largo fronteiro ao edifício dos Paços do Concelho, onde foi recebida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal, pela digníssima vereação, direcções do Centro Alcobacense de Arte e Cultura, da Orquestra Típica de Alcobaça, etc., e por muito povo que ali acorreu ao ouvir a salva de morteiros e as girândolas de foguetes que foram deitados. Uma banda de música, que se encontrava em frente aos Paços do Concelho executou o hino no momento em que a embaixada de Castelo Branco entrou no edifício. À noite, o sarau do Cine-Teatro, com casa esgotada, começou com a O.T.C., seguida na segunda parte pela Orquestra Típica Albicastrense e, finalmente, um acto de variedades, em que actuaram Artur Garcia e Simone de Oliveira, bem como, os apresentadores Henrique Mendes e Leite Pereira. No final do espectáculo, de acordo com o cronista de Castelo Branco que acompanhou e registou a saída do seu agrupamento, foi servido o opíparo copo de água (desta vez no Restaurante Bau) a todos os elementos que tomaram parte no sarau, tão abundante e variado que, no fim apesar de se encontrarem presentes mais de 150 pessoas (…) dir-se-ia que estava intacto!!!.




Maria Luísa estava tão cansada, que na ceia do Restaurante Bau, o que mais lhe apeteceu foi sentar-se, ficar quieta, esticar as pernas, fechar os olhos e… descansar. De facto as meninas da O.T.C. desdobraram-se a solicitar às senhoras de Alcobaça, para que oferecessem um prato, quente ou frio, para a ceia. No tempo de D. Celeste, proprietária da Pensão Restaurante Corações Unidos, pessoa extremamente entusiasta, por todas as coisas de Alcobaça, havia sempre disponibilidade para que quando algum artista tivesse que jantar antes do espectáculo, ou ficar para o dia seguinte, o fizesse em sua casa, em condições muito especiais. É importante realçar a colaboração da população de Alcobaça, quando se realizavam espectáculos no Cine-Teatro, com a presença de artistas de fora e de nomeada, os quais se deslocavam em geral graciosamente, e a convite do maestro Alves Coelho (Filho), que tinha uma boa relação com quase todos eles. A finalidade, normal, era angariar fundos, para uma determinada obra social e estes simpaticamente colaboravam. Os tempos eram outros…. A propósito da deslocação da Orquestra Típica Albicastrense a Alcobaça, o Jornal do Fundão, de 5 de Janeiro de 1964, destaca o calor da assistência na sala repleta de assistentes, a recepção e boas vindas calorosas daquelas gentes onde a arte não morreu…, por contraponto ao que se passa em Castelo Branco, cuja população dá pouco apoio à sua Orquestra Típica. Sobre este assunto, João da Gardunha, no mesmo comprimento de onda e de apelo ao bairrismo, lastima como foi chocante, doloroso mesmo, verificar a indiferença com que a cidade (Castelo Branco) acolheu o espectáculo anual da O.T.A. (Orquestra Típica Albicastrense) que lhe foi dedicado. E foi tanto mais notória essa impressão dolorosa, porque, apenas dois dias antes a mesma O.T.A., após uma recepção grandiosa e inenarrável na vila de Alcobaça, culminou essa visita com uma actuação que perdurará através o espaço e o tempo na memória daqueles que a ela tiveram a dita de assistir, tal o nível a que se alcandorou, devido ao brio dos seus dedicados componentes.




Segundo o jornal República, de 30 de Julho de 1963, a O. T. C. não precisa de apresentações, é mais do que conhecida no país e apreciada pelas suas exibições no programa da RTP -Melodias de Sempre.



Antes de findar o ano de 1964, a O.T.C. ainda se deslocou à Figueira da Foz a 7 de Novembro, para cumprir um contrato como Casino Peninsular, aonde bisou várias canções, alcançou êxito e dedicou à cidade anfitriã a seguinte peça, cuja letra nos foi facultada (obviamente) por José António Crespo, esse dedicado e apaixonado coleccionador de coisas relacionadas com Alcobaça.




Rainha do mar português

Figueira

Que tem mais azul todo o mar

Figueira

A serra onde tu te revês

Figueira

Parece um milagre a passar

Figueira.




O mar

De bravura

E altura

Sem par,

Sorri na Figueira da Foz.

O mar

Que não pode

Nem pede

Lugar,

Sorri na Figueira da Foz.

O mar

Que por vezes

Revezes nos traz

Sorri na Figueira da Foz.

Se o mundo quiser

Conhecer

Sonho e paz

Que venha à Figueira.




A 13 de Fevereiro de 1965, O Alcoa deu nota da festa de confraternização do C.A.A.C., que organizou um almoço oferecido pela direcção a todos os componentes da O.T.C., e onde estiveram presentes o Chefe dos Serviços Musicais da E.N., Alves Coelho (Filho) e esposa. Após o almoço usaram da palavra, entre outros, Fernando Afonso Ramos, Fernando Raposo de Magalhães e Raul dos Reis Gameiro. O Chefe dos Serviços Musicais da E.N. agradeceu o convite, que lhe foi dirigido e à esposa, enalteceu o papel e o contributo que a O.T.C. tem desenvolvido, junto da sua entidade patronal, como intérprete privilegiado da música portuguesa.



De novo, em colaboração com a EN e a FNAT, em Maio de 1965, a O.T.C. realizou um Serão para Trabalhadores, no Liceu Camões-Lisboa, dedicado ao pessoal da Soponata. Neste Serão, actuaram também a Orquestra Ligeira da EN, sob a regência de Tavares Belo, o Conjunto Quatro de Espadas, Isabel Fontes e Ivone de Andrade (apresentados como novos artistas), Artur Garcia, Coro Misto e Orquestra e ainda Simone de Oliveira. A primeira parte do nosso tradicional Serão (na apreciação encomiástica feita pela organização) caracteriza-se por um belo desfile de melodias, impondo mais uma vez, o bom gosto dos nossos compositores. O lugar aos novos será preenchido pela rubrica de revelações, Novos Artistas, testemunho claro do incentivo que a EN proporciona aos esperançosos cançonetistas que procuram, ansiosamente, o rumo da consagração. Saliente-se, ainda, a intervenção do Coro Misto que sublinhará, acompanhado da Orquetra Ligeira da EN, dirigida por Tavares Belo, a inesquecível melodiia de Raul Ferrão Abril em Portugal. Momento de beleza musical estará também a cargo do Coro Feminino, revivendo a já famosa página de Tavares Belo Dois Tempos de Jazz.Na segunda parte, actuou a O.T.C., no intuito de variar os elencos destes tão populares passatempos recreativos, organizados pela EN em colaboração com a FNAT, mais uma vez depois de tantos êxitos colhidos, volta à ribalta artística do nosso Serão para Trabalhadores, o Coral de Alcobaça, que tanto tem contribuído para a divulgação do rico folclore português. Além do conjunto vocal associa-se o relevo musical da sua conhecida Orquestra Típica. Este conjunto, bem como o Coral são dirigidos por Alves Coelho (Filho) e todas as suas interpretações obedecem a um selectivo reportório de melodias, onde está presente a alma do povo nos seus cantares e desgarradas.



Na noite de 22 de Maio de 1965, a O.T.C. foi participar num Sarau organizado pelo Grupo de Instrução Popular da Amoreira-Costa do Sol. Cerca das 22h teve início um baile, com a colaboração de um bom conjunto musical. Segundo o Jornal da Costa do Sol, de 29 de Maio de 1965, foi como que uma façanhaa presença da O.T.C., que se deslocou (gentilmente) à Amoreira, conjuntamente com a artista de Cascais, Natalina José. Quando pela 1h da manhã actuou a O.T.C., constituída como sublinhou Alves Coelho, por gente simples e rude que ganha o seu pão cavando os campos, e interpretou a Canção de Alcobaça, ouviram-se calorosos e prolongados aplausos, que premiaram o agrupamento, como era habitual aonde e sempre que a orquestra se apresentasse. Segundo o mesmo JORNAL DA COSTA DO SOL, o único senão na actuação da O.T.C. de Alcobaça foi não ter prolongado um pouco mais, a sua exibição, para dar ainda novas provas do seu valor.



A O.T.C. recorde-se mais uma vez era composta, exclusivamente, por amadores. Maria Luísa Dionísio recorda um espectáculo realizado no Reformatório de Caxias, aonde Alves Coelho (Filho) era professor de música. No Reformatório, havia oficinas das mais variadas actividades, como carpintaria, serralharia, tipografia ou cartonagem. Então, houve a enorme gentileza por parte da organização, de oferecer a cada membro da O.T.C., um bloco encadernado com uma dedicatória Recordação do Reformatório de Caxias. Tão apreciada foram estes blocos que, doravante passaram a ser utilizados, para registo das letras ou guardadas as pautas das músicas.


Um grande espectáculo da O.T.C., ocorreu no Cine-Teatro de Alcobaça, no dia 13 de Janeiro de 1968, dia de aniversário de Rosa Maria Coelho, que nos camarins teve direito a que lhe cantassem os parabéns. Na primeira parte exibiram-se ranchos folclóricos dirigidos por Celestino Graça, Grupo Infantil de Dança Regional de Santarém, Grupo Académico de Danças Ribatejanas, Rancho Folclórico do Bairro de Santarém. A O.T.C. apresentou-se, desta vez, sob a regência do maestro fundador, António Gavino que se encontava de férias, vindo de Moçambique. Além do mais, tinha havido um pequeno diferendo entre Alves Coelho (Filho) e a direcção do C.A.A.C., o que acarretou que aquele se tivesse ausentado durante algum tempo.

No Cine-Teatro de Alcobaça, a 17 de Maio de 1969, novamente com Alves Coelho (Filho) o C.A.A.C. para comemoração do seu 12º aniversário, realizou um Sarau, onde colaboraram, a nossa querida Maria de Lurdes Resende, intérprete inolvidável da Canção de Alcobaça e Libânia Feiteira, a grande revelação da arte de declamar. No dia seguinte, o C.A.A.C. organizou pelas 14h um torneio de tiro aos pratos, pondo em disputa libras de ouro. Ao mesmo tempo, houve um torneio para amadores, ou seja para aqueles que nunca atiraram aos pratos.

Pouco depois, a O.T.C. foi convidada a deslocar-se à RTP a fim de participar no programa Zip-Zip, transmitido em directo a partir do Teatro Variedades, no Parque Mayer, bem como um outro realizado no Pavilhão dos Desportos, onde actuaram as mais relevantes Orquestras Típicas do País, isto é, Alcobaça, Santarém, Castelo Branco e Estremoz. Este espectáculo, que foi transmitido pela RTP, teve o interessante acrescido de ter finalizado com uma aqctuação conjunta das 4 Orquestras, dirigidas pelo Maestro Melo Pereira.


Silva Tavares, pessoa de fino trato, foi um bom amigo de Alcobaça, com quem mantinha uma forte ligação afectiva, e frequentava com bastante assiduidade. Em Alcobaça sentia-se bem, pois era muito estimado, e que considerava como a sua segunda terra. Aqui recuperou nas Termas de Piedade, após uma grave doença que determinou a sua hospitalização.


Por testamento de 1969, veio a legar alguns bens à CMA, como os seus retratos de autoria de Luciano Santos (óleo), de Eduardo Malta (lápis), de José Contente (pastel), livros de que foi autor, numerados, assinados ou por si rubricados, as pastas que utilizava profissionalmente, um cofre em mármore contendo terra do quintal da casa natal em Estremós, uma mácara em bronze do seu amigo, poeta brasileiro Olegário Mariano e ainda uma luxuosa encadernação da obra O Cardeal Cerejeira, da autoria do Pe. Moreira das Neves, na qual existia dedicatória do purpurado.


Foi Maria de Lurdes Resende, quem se veio a revelar a grande intérprete da Canção de Alcobaça. Irrequieta e traquina desde a mais tenra idade, nasceu no Barreiro em 1927. Canta desde que se lembra, como em 1957 contou numa entrevista à revista Flama e donde se respigaram estas notas. Assim que nasceu, começou a berrar, tarefa a que se dedicou durante o primeiro ano de vida, para grande desespero e insónia dos pais. Ao crescer, ganhou a convicção de que um dia seria cantora profissional, talvez até de ópera. Os pais opuseram-se com veemência e só aos 18 anos se estreou em palco, embora com o nome de Maria de Lurdes, porque Resende era o nome da família que a tinha contrariado na sua ambição. Maria de Lurdes Resende, chegou a ganhar grande popularidade, com uma voz ao serviço das cantigas. Alcunhada gentilmente de a Feia Bonita,Maria de Lurdes Resende deu a resposta adequada, popularizando a cantiga A Feia. Mas a Canção de Alcobaça foi, efectivamente, o seu grande êxito, em Portugal e além fronteiras.



Quem passa por Alcobaça

Não passa sem por cá voltar (…).



À boa moda portuguesa, passaram a correr na vila uns versos, parodiando a Canção de Alcobaça. Tais versos, vinham a propósito do estado do Rio Baça que tinha, como hoje, um pequeno caudal, e que exalava um cheiro nauseabundo. Junto à ponte da Rua David da Fonseca foi colocada pela Câmara Municipal uma placa, proibindo os vazadouros, aliás sem grande sucesso durante muito tempo, por obra e graça de muito alcobacense, incapaz de mudar de hábitos ancestrais… Os versos eram, se bem se recorda aqui:




Quem passa por Alcobaça

E vai visitar o Baça

Apanha tal pitaça

Que nunca mais por lá passa.



Há cerca de 70 anos, o rio Baça constituía um enorme depósito de detritos em putrefacção e encontrava-se ainda a descoberto.




Em 1970, realizou-se em Lisboa, no Teatro Monumental, uma grandiosa festa de homenagem a Maria de Lurdes Resende, comemorativa dos seus 25 anos de vida artística. Presidiu o Presidente Américo Tomás, que condecorou a artista, tendo Alcobaça comparecido em massa, através da Câmara Municipal, Santa Casa da Misericórdia, a Orquestra Típica, Bombeiros, Ginásio e Grémio do Comércio. Enfim, todos para dizer a Maria de Lurdes Resende quanto a apreciavam e lhe estavam agradecidos como grande divulgadora desta terra de Cister.




Maria de Lurdes Resende, veio ainda em 29 de Abril de 1995, a ser homenageada em Alcobaça, ao que o jornal Notícias de Loures, sob a pena de Jorge Valente, deu o devido destaque na primeira página. Os apresentadores do espectáculo no Cine-Teatro, foram Artur Agostinho, Etelvina Lopes de Almeida, Igrejas Caeiro e Isabel Wolmar que, em conjunto, se dirigiram ao público com um Boa noite, poeta Silva Tavares! Boa noite maestro Belo Marques! Boa noite Maria de Lurdes Resende! Boa noite Alcobaça! Com esta saudação, não se limitavam a fazer um cumprimento, resumiam também o sentido da festa: na homenagem à intérprete, tinham de por força estar o autor da letra, o compositor da música e a vila inspiradora da canção que correu mundo e não se esquece facilmente. Entre o muito expediente de congratulações que foi lido pelos apresentadores, o Noticias de Loures destacou duas ingénuas, simples, mas agradáveis quadras, que se transcrevem:



Senhora grande a cantar

cantigas que o Povo entende

É Portugal a vibrar

A nossa Lurdes Resende.



Que Deus de saber profundo

A proteja e a todos nós!

P’ra mesmo no outro mundo

Ouvirmos a sua voz.



Depois de agradecer as palavras do Presidente da Câmara Miguel Guerra, horas antes no Salão Nobre dos Paços do Concelho, de acordo com o Voz de Alcobaça, a homenageada referiu que, entre as mais de duas mil canções que cantei, há muitas que são solicitadas, mas Alcobaça é exigida. A aceitação do público comove-me e faz-me pensar que nasci aqui.




Por via da canção, a Câmara Municipal decidiu que autores e intérprete passaram a ser vizinhos na geografia da vila, mercê da atribuição dos seus nomes a três artérias da parte alta da Gafa. A Banda de Alcobaça esteve presente na homenagem e na prenda que ofereceu, consignou a seguinte dedicatória: Vão passando as águas dos rios. Na ponte para o futuro, fica a voz a cantar Alcobaça…



Silva Tavares foi ainda objecto de uma expressiva homenagem no Cine-Teatro de Alcobaça, em Junho de 1972, aonde estiveram presentes, entre outros, o Presidente da Câmara, que usou da palavra e vereadores, o Deputado Dr. Amílcar Magalhães, representantes da EN e RTP, David Mourão Ferreira, em representação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, o escritor e amigo pessoal Adolfo Simões Müller, que usou da palavra, o Presidente da Câmara de Estremóz, terra natal do homenageado.Finda a cerimónia, foi descerrada uma lápide com o nome do homenageado na rua a que foi dado o seu nome, no então chamado bairro das Casas da Caixa de Previdência.



Cerca de um mês antes do imprevisto falecimento, Belo Marques também fora objecto de uma homenagem no Cine-Teatro de Alcobaça, que se encontrava a abarrotar.

ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE ALCOBAÇA (Cap. I)

A ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE ALCOBAÇA NOS SEUS TEMPOS DE GRANDE PUJANÇA E NOTORIEDADE.


APONTAMENTOS DA SUA VIDA ARTÍSTICA, EM QUE PERCORRE O PAÍS DE NORTE A SUL.


ANTÓNIO GAVINO, BELO MARQUES E SILVA TAVARES


MARIA DE LURDES RESENDE (as homenagens que lhe foram feitas) E A CANÇÃO DE ALCOBAÇA.


CELESTINO GRAÇA E OS SEUS AGRUPAMENTOS DE SANTARÉM.

AS ORQUESTRAS TÍPICAS ALBICASTRENSE E ESCALABITANA





(I)



A ideia da criar uma Orquestra Típica em Alcobaça, segundo reza a história (ou a lenda que se consolidou?), nasceu numa noite de Maio de 1956, quando veio actuar à vila, a Orquestra Típica e Coral de Rio Maior. Foi tal o interesse suscitado pelo espectáculo que, conforme decorre de uma nota d’O Alcoa, de 15 de Agosto de 1963, de imediato Couto de Pinho iniciou diligências com vista a organizar uma semelhante entre nós. Pedindo para vir a Alcobaça, o Maestro António Gavino que, já havia criado agrupamentos semelhantes em Santarém e Rio Maior, foi no dia 11 de Novembro de 1956, que se sentam na última mesa, do lado esquerdo de quem entra no café Trindade-além de Couto Pinho e do Maestro António Gavino, os alcobacenses Tomás Correia, Fernando Zeferino, Leite Rodrigues e Francisco André-os homens a quem a nossa vila ficará a dever a criação da Orquestra Típica de Alcobaça.



Foi este, o momento histórico tido como fundador do agrupamento, que veio estar na base duma obra e de uma organização, que atingiu rapidamente altos e incomparáveis momentos.




Efectuadas nos dois dias seguintes, as diligências necessárias, à força de uma actividade exemplar, reuniram-se os primeiros vinte e três elementos, na sede do Rancho do Alcoa, cedida por especial deferência da Exmª. Direcção e o maestro Gavino que, para isso se fizera acompanhar de dois violões baixos, da Orquestra de Rio Maior, conseguiu a inacreditável proeza, nesse mesmo ensaio, embora com as naturais deficiências e perante a admiração e a alegria de todos os presentes, da execução de um número completo. Era a prova evidente, da possibilidade da realização do sonho grande!



António Gavino, daqui em diante, passou a ensaiar a Orquestra Típica (OT), duas vezes por semana, na sala do Rancho do Alcoa ou na sede da Banda, sem receber honorários, deslocando-se expressamente de Rio Maior, aonde vivia, utilizando mesmo camionetas de carga, para não sobrecarregar o orçamento da colectividade.




Aliás, as primeiras despesas, foram suportadas pelo bolso dos fundadores, os que naquela tarde de 11 de Novembro, se sentaram à mesa do café.



No Cine-Teatro de Alcobaça, a 1 de Maio de 1957, pelas 22h, encontrando-se o C.A.A.C.-Centro Alcobacense de Aryte e Cultura ainda em formação, realizou-se o sarau, para maiores de 12 anos, da primeira apresentação da O.T., perante um público que o enchia totalmente. Marcaram presença os locutores escalabitanos Joaquim Campos, Carlos Mendes e Neto de Almeida, que recitaram poemas. Nessa ocasião participaram artistas profissionais, como Maria Lemos e amadores como Maria de Lurdes Feliciana (de Rio Maior), Olegário do Nascimento e Valdemar do Nascimento. De acordo com os propósitos dados a conhecer pelo C.A.A.C., este acontecimento inseria-se no intuito de dar a conhecer aos seus conterrâneos os fins para que foi criado e ainda no de prestar assistência ao Hospital da Misericórdia desta vila e obter alguns fundos para a sua organização. Os bilhetes (camarotes, frisas, 1ª, 2ª, 3ª e 4ª plateia, 1º e 2º balcão) encontravam-se à venda no estabelecimento comercial de João Rodrigues Leitão.




Segundo O Alcoa, noticiava havia lágrimas nos olhos dos que cansados haviam dado tudo para que a nossa Orquestra Típica fosse a realidade presente e também nos olhos de quantos se recordavam, ainda da Alcobaça de sempre: Alcobaça da sua Banda, da sua Fanfarra, da Tuna dos Caixeiros, da Orquestra de Salão (que não era de dança e de que fizeram parte, entre outros, Mercedes Campião, ao piano, e Joaquim Calçada, ao rabacão, como recorda José Crespo).




Neste sarau, também esteve presente o Grupo Infantil de Fandanguistas de Santarém, sob a direcção de Celestino Graça. Os contactos estreitos, entre Celestino Graça e a O.T. vinham das boas relações que mantinha com António Gavino, e que perduraram mesmo depois de este ter deixado de ser regente.




Silva Tavares teve uma chamada especial ao palco, sendo ovacionado pelo público que em pé, lhe quis tributar o agradecimento pelo que já tinha feito em prol da terra. Todavia, segundo o jornal O Século, de 4 de Maio de 1957, (socorrendo-se o articulista não sabemos de que fonte) não podemos deixar de fazer o nosso reparo aos obstáculos que são criados em Alcobaça às iniciativas de carácter artístico, e que afinal partem de pessoas que tudo deviam fazer para o evitar.




O jornal O Comércio do Porto, na sua edição de 9 de Maio, também deu bastante destaque a esta apresentação, preferindo salientar o jovem e dinâmico alcobacense José do Couto Pinho pela criação do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura.



Muita gente desconhece que, além da célebre Canção de Alcobaça, existe uma outra, com o nome de Velha Alcobaça, também da autoria de Silva Tavares e Belo Marques, destinada a homem (tenor).




Sendo bastante difícil, foi algumas vezes interpretada por José António, Fernando Serafim e outros artistas.




Esta música, que nunca teve a divulgação da Canção de Alcobaça, dadas as características menos populares, foi, interpretada na festa de homenagem, realizada em Alcobaça, a Maria de Lurdes Resende. José António Crespo forneceu-nos a sua letra:




Na pedra branca esculpida

Do Mosteiro de Alcobaça

Vive a beleza e a vida

Da História da nossa raça.




E na pedra rendilhada

Desse tão velho Mosteiro,

Vive a obra agigantada

De D. Afonso I.




Tens velha Alcobaça

Um altar resplandecente,

Um padrão de raça

Para mostrares a toda a gente

Tens p’ra seres mais bela

Um sorriso p’ra quem passa.




Os anos passam correndo

Sobre esta Terra feliz,

E a Terra lá está dizendo

Aquilo que a história diz.




E p’ra ser bem Português

É sacrário esse Mosteiro

Dos amores da linda Inês

E de D. Pedro I.



Angariados os primeiros sócios, começou aos poucos a montar-se a estrutura do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura (C.A.A.C.). A primeira Direcção foi composta pelo Eng. João de Sousa Brito, Camilo Marques Bento, José Sineiro Canha e Fernando Manuel Zeferino.




Em 4 de Agosto seguinte, a O.T. foi actuar em Ourém, na Praça Mousinho de Albuquerque, nas festas em honra de Nª. Srª. da Piedade e Stº. António, num espectáculo que se prolongou por duas horas e constituiu um êxito, que o numeroso público presente, premiou com grande ovação. O jornal NOTÍCIAS DE OURÉM, de 11 de Agosto, destacou a Orquestra Típica de Alcobaça, organização recente, mas que já se afirma brilhantíssima e de grandes possibilidades futuras.



Nesse mesmo ano, em Setembro, a O. T. também se apresentou pela primeira vez em Leiria, e no recinto da verbena popular do Orfeão. Na segunda parte deste sarau, participaram Anita Guerreiro, Margarida Amaral e Pedro Solnado, artistas muito populares e conhecidos da rádio. O jornal de Leiria O Mensageiro, na sua edição de 7 de Setembro, conferiu destaque a esta deslocação e começou a notícia ao referir as primeiras palavras que Miguel Elias, Presidente da Direção do Orfeão proferiu quando, em nome da Direcção, agradeceu a preciosíssima colaboração da jovem, mas já grande, Orquestra Típica de Alcobaça: Alcobaça, aquela Vila Sempre Nobre e Amiga. Dias depois, a 10 desse mês, a O.T. deslocou-se a S. Martinho do Porto, num sarau a favor Colónia Balnear Infantil, a construir pelo Centro de Assistência da Vestiaria, em que participaram Maria de Lurdes Resende, que interpretou, aliás pela primeira vez, a Canção de S. Martinho, com letra de Silva Tavares e música de António Gavino, Maria de Lurdes Feliciano, Valdemar do Nascimento e Olegário do Nascimento. Esta canção hoje em dia está esquecida, mas graças a José António Crespo vamos recordar a sua letra:




Numa curva do caminho

De Alcobaça-Alfeizerão,

Surge ao longe S. Martinho

Qual fantástica visão.




E, a quem de longe passa

Nunca mais sai da lembrança

S. Martinho e a sua graça

De brinquedo de criança.




ESTRIBILHO




Como filtrado por um véu

De tule,

O sol que seduz

Tomba do Céu.



E num afago

Enche de luz

A linda concha azul

Onde um mar parece um lago.




E, do Facho, São Martinho

Não tem rival

É, a todos, o brinquinho

Das praias de Portugal.




S. Martinho, os teus encantos

Não se podem descrever

Pois, são tantos, tantos, tantos
Que é melhor ver para crer.




ESTRIBILHO




(…)





O médico Dr. Rafael Gagliardini Graça, Presidente da Junta de Turismo, proferiu palavras de agradecimento a Silva Tavares, que foi chamado ao palco. Ainda em 23 de Setembro (aliás numa segunda-feira), a O.T. deslocou-se a Óbidos, para se exibir numas festas a favor da Santa Casa da Misericórdia, e num sarau em que consigo e alternadamente participaram Vasco Santana, Maria Helena Matos e marido Henrique Santana, com números de sucesso de revista do Parque Mayer, como O Doente, A Ameaça, A Sonâmbula e O Exame do Meu Menino.



A 20 de Novembro (quarta-feira) pelas 21,30h realizou-se no Cine-teatro de Alcobaça com a lotação esgotada, estando presentes as figuras mais representativas de vila, uma homenagem a Maria de Lurdes Resende, num magnífico espectáculo com a colaboração da Rainha da Rádio Portuguesa e genial intérprete da Canção Alcobaça, Maria de Lurdes Resende, a simpática artista que no País e no Estrangeiro com a sua voz de sonho, tão alto tem elevado o nome e a graça da nossa terra. Maria de Lurdes Resende cantou acompanhada à guitarra e viola, pelos seus acompanhadores privativos todas as músicas do seu repertório, que o público lhe pediu. Por sua vez, a OT apresentou números de expressiva riqueza folclórica em primeira audição a comprovar a inspiração deste grande maestro (António Gavino). Terminado o espectáculo, foi servido um copo-de-água, no Centro Social da Vestiaria, a que assistiram Joaquim Carvalho (Presidente da Câmara), o Engº Sousa Brito (Director da Escola Técnica) e o Pe João de Sousa que, aos brindes agradeceram e elogiaram a actuação de todos os artistas.



Na noite de 6 de Dezembro, a O.T. apresentou-se em Caldas da Rainha, no Teatro Pinheiro Chagas, conjuntamente com artistas da E.N. como Margarida Amaral, a intérprete da Canção das Caldas, da autoria de Nóbrega e Sousa, Fernando Lá da Rua e Américo Lima. O CAAC continuava a organizar-se e assim, em 23 de Dezembro, na sala de ensaios, reuniu-se a sua Assembleia Geral para apreciação e aprovação das contas, bem como a eleição dos respectivos corpos directivos, que ficaram assim constituídos: Assembleia Geral: Presidente-Joaquim Augusto de Carvalho; Vice-Presidente-Pe. João de Sousa; Secretários-João Telmo Carvalho e Maia, e Raul Gameiro. Conselho Fiscal: Presidente-Francisco Trindade Rodrigues; Vice-Presidente-Filipe Lopes Ramos; Secretário-Afonso da Cruz Franco. Direcção: Presidente-Engº Sousa e Brito; Secretário-Abel dos Santos; Tesoureiro-Camilo Marques Bento. Nessa Assembleia foi ainda eleito sócio de mérito, por aclamação, José Couto Pinho.



O C.A.A.C. foi oficialmente criado por Alvará do Governo Civil de Leiria, datado de 5 de Agosto de 1957, sendo a sede inicial uma dependência da casa do Dr. José Nascimento e Sousa, que a cedeu gratuitamente. Em 1959, o C.A.A.C. transferiu-se para a Rua Alexandre Herculano, após se ter fundido com Associação Recreativa Alcobacense.




Legalizada a associação e dispondo do estatutos, passou a haver possibilidade de apelar a ajudas oficiais, nomeadamente da Câmara Municipal. A O.T. foi apenas no papel, uma secção de cultura e recreio dentro do C.A.A.C., mas que veio a atingir maior notoriedade, do que a associação mãe. De facto, a O.T. que absorvia por completo, as atenções da Direcção do C.A.A.C., começou a percorrer o país de norte a sul, exibindo-se em localidades como a Batalha, Leiria, S. Martinho do Porto, Óbidos, Caldas da Rainha, Valado de Frades, Nazaré, Mira de Aire, Torres Novas, Santarém, Bombarral, Caxias (Reformatório), Montes, Maiorga, Estremoz, Beja e Lisboa.



O grupo coral apenas surgiu em 1958, tendo sido factor de valorização dos componentes e de grande influência na aceitação do público. Antes de haver o grupo coral, a O. T. actuava com alguns solistas convidados, como Maria de Lurdes Feliciano, que vinha de Rio Maior ou Olegário de Nascimento (Alcobaça). No tempo de António Gavino, as apresentações tinham normalmente a colaboração dos locutores, Carlos Mendes e Neto de Almeida, seus amigos pessoais, que graciosamente vinham fazer a locução e uma maneira própria de lhes dar início, como Maria Luísa Dionísio recorda. A O. T. começava por interpretar a Canção de Alcobaça, enquanto ambos, em fundo, recitavam um poema de Silva Tavares dedicado a Alcobaça, poema esse que anos mais tarde foi dedicasdo pelo autor à memória do Dr. José Nascimento e Sousa.



Quando a O.T.C. começou a dar espectáculos fora de Alcobaça ainda não tinha um estandarte, tal como era costume nos agrupamentos semelhantes. Aliás, era uso também, que a entidade que convidava oferecesse, durante uma pausa no espectáculo, uma fita para colocar no estandarte, alusiva à sua presença. Assim, para colmatar a falta, Maria de Lurdes de Jesus, resolveu com o acordo da direcção e do grupo, solicitar a senhoras de Alcobaça donativos, para comprar o necessário para se fazer o estandarte. Este foi feito em cetim branco, bordado esmeradamente por Maria Luísa Pestana, com elementos que correspondem a uma decomposição do emblema do C.A.A.C.. A partir daqui a O.T.C. nunca mais saiu sem o estandarte, que passou a coleccionar um número importante e significativo de fitas. O estandarte, extinto grupo, foi guardado pela Junta Freguesia de Alcobaça.




Segundo, Maria Luísa Dionísio, quando o grupo saía, era por vezes difícil arranjar assegurar o número suficiente de componentes, de modo a não ocorrem desequilíbrios.




Esta recorda, que num espectáculo realizado em Beja, num dia de muito calor e vento, tiveram que sair de Alcobaça com bastante antecedência em duas camionetes, pois o percurso demorava várias horas. A certa altura do percurso, Maria Luísa e demais ocupantes, viram passar uma grande sombra por cima da camionete. Os que deram conta perguntaram ansiosos ao motorista o que estava acontecer, tanto mais que seguiu um barulho forte e estranho. Parado o autocarro, constatou-se que se tinha solto e perdido parte do estrado, encontrado disperso pela estrada, destruído e sem hipóteses de conserto. No espectáculo dessa noite, mesmo sem estrado, a O.T.C. actuou com sucesso embora com os elementos algo desalinhados, uns mais altos e outros mais baixos.



A 26 de Maio de 1958, a O.T.C. deu um espectáculocomemorativo do seu primeiro aniversário, no qual se usaram pela primeira vez os seus trajes, e participaram Maria de Lurdes Resende que cantou com a orquestra, bem como acompanhada pelos seus guitarristas privativos (Liberto Conde e Francisco Perez), e ainda o Trio Ribalta, composto de harmónicas vocais, com provas dadas na RTP.




A convite do Círculo Cultural Scalabitano, a OT deslocou-se a Santarém no dia 10 de Janeiro de 1959. Respigando a encomiástica notícia do Jornal do Ribatejo, de 5 de Fevereiro seguinte, sabemos que esteve presente numerosa assistência, e que (…) após a execução do apontamento musical de abertura e as palavras de apresentação do conhecido amador sr. Nuno Neto de Almeida, em cena aberta, o sr. Dr. Ginestal Machado saudou os visitantes, lembrando a acção de António Gavino, como primeiro regente e componente do grupo de fundadores da Orquestra Típica Scalabitana, a visita desta orquestra e do Orfeão Scalabitano à Nobre Vila do Alcoa, oferecendo lembranças à Direcção do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura, ao regente António Gavino e à vocalista Lurdes Feliciano. O sr. Mário Rodrigues, como director e componente da nossa Orquestra Típica, ofertou o característico barrete verde ribatejano ao sr. Fernando Miranda, o mais velho dos elementos do agrupamento alcobacense.(…)A O.T. actuou nas duas partes do espectáculo, com um pequeno intervalo. O apresentador, soube cativar a assistência, que aliás não regateou aplausos à O.T., que teve de bisar alguns números, no meio de um entusiasmo que atingiu quase o aspecto apoteótico. O articulista do Jornal do Ribatejo, Carlos Oliveira, avaliando o desempenho da OT afirma que (…) se apresentou bastante equilibrada, revelando grande disciplina e completo domínio directivo do seu regente, sabendo dar-nos música verdadeiramente regionalista, sem exageros ou pretensões de grande execução.(…)Mas lastimou que o traje da O.T., um pouco triste, à moda serrana da região de Alcobaça, não possa dar-nos uma garrida e gritante mancha de cor e alegria como o da nossa Orquestra Típica. Depois do espectáculo seguiu-se uma ceia, tendo usado da palavra o Dr. Ginestal Machado e Belo Marques, que trocaram efusivas saudações e comprometeram-se a novas colaborações, como veio efectivamente a acontecer.



A 4 de Julho de 1959, a O.T. deslocou-se ao Pavilhão dos Desportos-Lisboa, para actuar num Serão para Trabalhadores, organizado pela E.N. em colaboração com a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). A O.T. estava imparável e, em 21 de Maio do ano seguinte, na comemoração do terceiro aniversário do C.A.A.C., realizou-se um sarau no Cine-teatro de Alcobaça, em que se apresentou pela primeira vez em público, o Grupo de Cantares Folclóricos (nome que também assumia e antecedeu o do grupo coral), pois o C.A.A.C. na ânsia de atingir os fins que se propôs realizar, não se poupa a esforços na criação de novos agrupamentos que honrem as tradições da nossa terra. Colaboraram no sarau e em primeira apresentação, o grupo de Jograis de Santarém, constituído por Carlos Mendes, Nuno Neto de Almeida, António Cacho e Vergílio Barrera. A imprensa local (O Alcoa, de 28 de Junho de 1960) e a regional, muito concretamente o Região de Leiria, no seu número de 26 de Maio de 1960, deu grande destaque a este espectáculo chamando a atenção para a necessidade de os alcobacenses que ainda não são sócios do Círculo, se inscrevam como tal, dando desse modo o seu apoio moral e material a uma colectividade cultural que nos deve merecer o maior interesse e cujo progresso depende, como é óbvio, do auxílio que lhe possamos prestar. Como solistas apresentaram-se Lurdes Feliciano, com a graça e à vontade habitual, bem como pela primeira vez Fátima Modesto e Gilberto Coutinho, que prometem enriquecer a orquestra com bom canto, pois possuem bom timbre e modelação de voz, mas acusam ainda o receio de enfrentar a plateia.




A OTC foi convidada a participar em 2 de Outubro de 1960, no espectáculo de inauguração do 1º Festival-Exposição do Vinho Português, do Bombarral, no Teatro Eduardo Brasão.



O Maestro António Gavino deu o seu último espectáculo como regente da O.T., em 25 de Março de 1961, no Cine-Teatro de Alcobaça, pois foi viver por razões profissionais, para Lourenço Marques, isto é, para reger a Orquestra do Rádio Club de Lourenço Marques. Foi esta rádio que lançou a cançonetista e fadista Alexandra (que actualmente trabalha bastante com La Feria). Colaborou neste espectáculo (desta vez para maiores de 6 anos…) o Grupo de Jograis de Santarém. A Gavino sucedeu o Maestro Alves Coelho (Filho) que conferiu ao agrupamento um dinamismo, eventualmente maior, e a consagração nacional. De acordo com o jornal O Alcoa, de 11 de Novembro de 1961, perdurará na memória de todos os que tiveram a felicidade de assistir ao 1.º Recital da Orquestra Típica de Alcobaça, sob a regência do maestro Alves Coelho (Filho), o memorável espectáculo realizado no Cine-Teatro de Alcobaça, no sábado, 4 de Novembro de 1961. Nele colaboraram, além da Orquestra e Coral, os artistas Gina Maria, Madalena Iglésias Maria Cândida, Maria do Espírito Santo, Artur Garcia e o locutor Henrique Mendes, nomes consagrados da Rádio e Televisão. Foi num ambiente de grande entusiasmo, com a sala tipicamente decorada com chitas de Alcobaça e superlotada, que as palmas e bravos se sucederam a premiar o alto nível atingido pela música popular portuguesa, o estilo e a personalidade de vozes, tão conhecidas e queridas do povo alcobacense, apresentadas, com humor e espírito, por um dos nossos melhores locutores (…).




A assistir ao espectáculo, e a associar-se, com a sua amizade a Alcobaça, estiveram Silva Tavares e esposa, Dª. Albertina Tavares.




De acordo ainda com O Alcoa, perante a impossibilidade de transcrever um programa com números de grande execução, arranjo e valor artístico, sem nos repetirmos no elogio merecido, só nos resta felicitar o maestro Alves Coelho (Filho) (…). Na regência foi impecável e no arranjo das músicas e distribuição dos naipes, teve alta inspiração artística. Como executante, em colaboração com sua Esposa, Srª. D. Graciete de Vasconcelos, que é uma notável acordeonista, deu-nos uma selecção da opereta Viúva Alegre, muito original e de forte motivação (…).




Terminado o espectáculo, foi oferecida uma ceia, na Pensão Restaurante Corações Unidos, aos artistas e componentes da O.T.C. Aos brindes falaram o Dr. Amílcar de Magalhães, Maestro Alves Coelho (Filho), Joaquim Augusto de Carvalho, e a fechar, para agradecer as homenagens prestadas, Silva Tavares, o autor da letra da canção de Alcobaça.



Dias depois, isto é, a 16 de Dezembro, perante o sucesso que foi a apresentação do dia 4, realizou-se mais um recital, referente a 2ª Apresentação nesta Vila da Orquestra Típica sob a regência do Maestro Alves Coelho (Filho). A primeira e segunda partes foram preenchidas com a exibição da O.T.C. e a terceira com a colaboração graciosa de consagrados artistas da rádio e da televisão.



A partir daqui, a O.T.C. passou a colaborar assiduamente com a E.N., nos Serões para Trabalhadores transmitidos em directo, a realizar espectáculos na RTP, aonde se deslocou, pela primeira vez, a 14 de Maio de 1961, e mais quatro vezes no ano seguinte, e a fazer gravações de discos.




Uma solista, voz feminina, agradável e bem timbrada, num rosto bonito emoldurado por um chapéu de abas típico, um lenço tombado sobre os ombros, cheio de graciosidade, iniciava o espectáculo a cantar,




Os provérbios e rifões

enraizados na nossa raça,

atravessam gerações

na linda loiça de Alcobaça.




O coro, respondia:




Alcobaça,

podes crer que tenho apreço,

por tudo quanto é progresso

mas o antigo não passa.




Alcobaça,

nesse teu Mosteiro velho

bem velhinho, existe um espelho

do valor da nossa raça.






Foi com um grupo de canções de carácter regionalista, o seu repertório, que a OTC constituiu o programa no TV-Clube, da RTP, com a alegada intenção de levar até aos nossos espectadores um conjunto de bom nível e oferecer-lhes um programa variado, aliciante, de características diferentes, muito próprias.



Maria Luísa e Rosa Maria Coelho recordam-se da afabilidade e o dinamismo de Alves Coelho (Filho), que por vezes se exprimia de forma temperamental, que não era mais que fruto da ansiedade de obter bons resultados. Alves Coelho (Filho) e mulher foram, aliás, padrinhos de casamento de Maria da Graça Coelho, irmã de Rosa Maria, casamento que teve de ser adiado pelo facto de a O.T.C. ter nesse dia um compromisso com a RTP, transmitido em directo. O Maestro não podia faltar.




Belo Marques, que muitas vezes colaborou com a O.T. tinha ascendentes na Batalha, os avós por parte da mãe. Estes eram os portageiros na ponte velha, onde passava a antiga EN 1. Segundo, Belo Marques contou a Maria Luísa Dionísio, a sua mãe que se encontrava grávida, numa visita que fez aos pais, que viviam na dita ponte, acabou por dar ali á luz. Belo Marques, portanto, nasceu na ponte da Batalha.



Era tanto o entusiasmo do Maestro Alves Coelho (Filho) que, grande parte dos contactos com vista a realizarem-se espectáculos, eram da sua iniciativa. A esposa, D. Graciete, que tinha curso superior do Conservatório, como dissemos, tocava acordeão na Orquestra. O trabalho dos ensaios era muitas vezes repartido pelo casal, a esposa a ensaiar o coral, o marido a orquestra, até se poderem juntar no final. Alves Coelho (Filho) e mulher vinham de verão ou inverno, com bom ou mau tempo, duas vezes por semana de Lisboa, aonde regressavam terminado o ensaio, pois só raramente ficavam em Alcobaça a dormir, nesse caso em casa de elementos do grupo.




Maria Luísa, como solista, primeiro soprano, e filha de um Director, sentia que tinha algumas obrigações especiais, não direitos, como preparar e manter a voz em bom nível, a qual tanto quando se recorda nunca lhe falhou, em nenhuma apresentação. Figura de destaque no grupo coral, nele entrou com 18 anos, numa altura em que já trabalhava em Alcobaça como empregada de balcão. Contando consigo, houve um período em que, no grupo coral, havia nada menos que 12 meninas Marias!!!. Ao mesmo tempo, assegurava a boa apresentação do estandarte, bem como a das camisas e fardas dos instrumentistas. Quando os espectáculos se realizavam em Alcobaça, tinha também como Rosa Maria Coelho e outros, a tarefa de coordenar o arranjo da sala, de modo a não haver repetições na decoração, não obstante ser quase sempre inspirada nas chitas tradicionais (nesse tempo as chitas de Alcobaça ainda não eram feitas no Oriente). Todavia, num espectáculo realizado por alturas de Maio foi decidido, para variar, fazer uma decoração à base de cestos em palha, os quais foram decorados com giestas apanhadas na serra. Maria Luísa Dionísio gosta de recordar, um espectáculo realizado no Cine-Teatro que coincidiu com o seu dia de aniversário, pelo que para não perturbar e distrair os demais elementos ou o Maestro, resolveu não dizer nada a ninguém. Antes do espectáculo, Alves Coelho foi jantar a casa de seus pais, mas com a preocupação de ter tudo em condições para a noite, apenas no dia seguinte os lembrou do aniversário.


O número de elementos que compunham a O.T.C, era de 60, distribuídos igualmente entre a parte coral e a orquestra. Em breve, começou a colaborar com a O.T., o que muito a valorizou, o músico alcobacense António Jorge Moreira Serafim, excelente intérprete de oboé, que vivia em Lisboa, irmão do tenor Fernando Serafim, da Companhia Nacional de Ópera. António Serafim, era primeiro oboé na Orquestra Sinfónica Nacional, na Orquestra Gulbenkian e ainda na Banda da Força Aérea. Na O.T.C, como os demais actuava graciosamente, deslocando-se como qualquer outro, aos ensaios e quando necessário era substituído, por Leal Calqueiro, do Seixal. Na O.T.C, afinal, ninguém ganhava nada. Os aplausos, uma ceia ou um ramo de flores, a saída em passeio, eram suficientes, como recompensa. Porém, caso faltasse na orquestra algum elemento importante para um espectáculo de responsabilidade, era necessário contratar um profissional a Lisboa.


Todos os seus componentes amadores, sacrificavam-se para ocorrer às exigências da colectividade, em prejuízo dos seus próprios interesses e eram residentes na zona de Alcobaça, com a excepção do referido António Serafim. Muita gente ainda recorda o flautista António Bolola, da Maiorga, personalidade estimada, modesto e jovial, mas que tinha por vezes dificuldade em encontrar o caminho de casa depois de uma ceia mais regada….




A parte instrumental da O.T.C., era composta por 8 bandolins, 4 guitarras, 6 violas, 1 flauta, 1 oboé, 3 clarinetes, 2 violões, 2 bandoletas, 2 acordeões e 1 bateria. O baterista de que Maria Luísa bem se recorda, era o motorista de táxi Acácio Cerol, que tinha 5 filhas, todas Marias, as quais actuavam no coro. Desta família, havia ainda mais duas meninas no grupo, uma no coro, outra na orquestra a tocar bandolim. Mas este não era o único caso, pois havia um outro em situação parecida, o da família (José) Teopisto.




O coro era constituído por 14 raparigas em geral solteiras, e 16 homens, muitos deles casados. Entre os executantes, havia as mais variadas profissões, como estudantes, carpinteiros, serralheiros, empregados de comércio, bancários e donas de casa, tendo o mais novo catorze e mais idoso sessenta e quatro anos, isto, segundo os dados de 1961/62. As meninas deslocavam-se para os ensaios ou regressavam a casa na companhia das mães, pais ou irmãos. Sós é que nunca. Impossível. Mesmo assim, ao longo dos anos estabeleceram-se alguns namoricos, que terminaram no altar. Estes namoricos tanto ajudaram a sedimentar, como a fragmentar o grupo, especialmente no caso de o casamento. Outros interesses e preocupações surgiam…


A vestimenta dos elementos musicais deve-se a uma primeira sugestão do Professor Joaquim Vieira Natividade (ou de sua esposa), ao adaptar o traje rico dos habitantes da região de Alcobaça. Mas como eram as fardas? Maria Luísa Dionísio e Rosa Coelho recordam-se que nos primeiros tempos do coro, por falta de verba, os homens usavam calça preta e camisa branca, enquanto que as senhoras uma saia preta e camisa branca. Em ambos os sexos, no lado esquerdo da camisa encontrava-se bordado o emblema da O.T.C., inspirado no do C.A.A.C.. Na Orquestra, aonde aliás não havia nos primeiros tempos intérpretes femininos, os homens usavam o fato tradicional da região da Serra dos Candeeiros, que consistia numa calça castanha escura (tipo serrobeco), uma camisa branca com frente, colarinho e punhos bordados a azul e vermelho, cinta preta e jaqueta castanha clara. Quando mais tarde houve fundos, todos os fatos da O.T.C. passaram a ser iguais. A vestimenta, originária da Serra, era muito usual na região de Alcobaça, com excepção de Valado de Frades, sujeito à influência da Nazaré. A entrada de elementos femininos para a Orquestra foi, em parte, devida ao facto de a mulher de Alves Coelho (Filho), D. Graciete, nela tocar acordeão.


O número de associados do C.A.A.C. em 1962/3 era de cerca de 500, com uma quotização mensal reduzida, que não dava para compensar as despesas, mas cujo diferencial era suportado por um subsídio camarário mensal de 500$00, algumas ofertas e pequenas receitas dos espectáculos. Mas o sucesso acarretou problemas de funcionamento e o maior foi o C.A.A.C. e, consequentemente a O.T.C., não ter instalações adequadas para funcionar, o que implicou que as reuniões da Direcção, em dias de ensaio, tivessem de ser efectuadas fora da sede.




Há quem se recorde que chegou a haver um projecto para construção de uma sede, mas nunca dinheiro, desde logo para aquisição do terreno e que foi debatida uma proposta da Câmara, então sob a presidência de Junqueiro, para construir o edifício em terreno, que ficaria a pertencer ao património municipal!!!. O sonho da sede, enfim, não se concretizou, e os esforços da Direcção do C.A.A.C. centraram-se em fazer um verdadeiro centro e arte e cultura e muito especialmente promover a O.T.C., dada a dificuldade de encontrar espaço adequado. A sala da sede era extremamente pequena e insuficiente para juntar coral e orquestra, pelo que os ensaios normalmente eram feitos como referimos separadamente. Os ensaios realizavam-se inicialmente, num anexo à casa do Dr. Nascimento e Sousa, num primeiro andar (celeiro) junto à Igreja da Conceição, cujo soalho se encontrava em péssimo estado, muito esburacado, com risco de ruir ou de se entalarem os sapatos. Através dele, chegava o odor das batatas e outros géneros guardados. Foi porém neste cenário, depois conhecido carinhosamente no grupo como a Casa das Batatas que foi gravado o primeiro disco comercial da O.T.C, pela equipa técnica da casa Valentim de Carvalho. Segundo, Maria Luísa Dionísio e Rosa Maria Coelho, acabou por ser este o melhor estúdio, aonde se fizeram gravações. Para o efeito, foram colocadas na rua barreiras, para impedir o trânsito automóvel e evitar ruídos indesejáveis.




Depois de se deixar o anexo da casa do Dr. Nascimento e Sousa, a O. T. passou a utilizar uma sala junto ao antigo Tribunal, na ala norte do Mosteiro, aonde também, foi gravado um disco comercial. O grande defeito desta sala era ser gélida no Inverno.



A grande pujança, os chamados anos de ouro da O.T.C. decorreu, no início da década de sessenta do século XX. José António Crespo e Maria Luísa recordam mais algumas apresentações, como um Serão para Trabalhadores no Pavilhão dos Desportos-Lisboa, a 16 de Março de 1961, organizado pela EN, que o transmitiu em directo, em colaboração com a FNAT e dedicado ao Grupo Desportivo da Companhia dos Telefones. Colaboraram na primeira parte, o conjunto (muito em voga) de Jorge Machado, a cantadeira Natércia da Conceição, os artistas Fernando e José Queijas bem como os cançonetistas Elsa Vilar, Alberto Ramos e Maria Amélia Canossa. De acordo com o enquadramento da organização, haveria músicas tristes ou alegres, os fados de Lisboa todas as noites nascem sem pedirem licença a ninguém. Basta que uma guitarra se encontre ao lado de uma viola e que a presença de uma castiça cantadeira se interponha entre ambas, para que os fados surjam e Malhoa esteja presente com a sua mágica paleta….



A segunda parte foi preenchida com a O.T.C., com um breve intervalo, para alguns momentos humorísticos do actor José Viana. Era intenção propalada tanto pela E.N., como pela FNAT, o propósito de apresentarem nestes Serões, as Orquestras e Conjuntos da nossa terra que possuam verdadeira categoria, como é o caso da de Alcobaça. Não esquecem também o Recital Artístico, de 3 de Abril de 1962 em Alcobaça, com a colaboração da Orquestra Ligeira e Artistas da EN (Alice Amaro, António Calvário, Artur Garcia, conhecido como o Rouxinol, por se ter estreado profissionalmente com o tema Rouxinol dos Meus Amores. Rei da Rádio em 1967, em 1969 Artur Garcia foi considerado Príncipe do Espectáculo), Gina Maria, Guilherme Kjölner, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Candal, Maria Marise, Simone de Oliveira, Teresa Paula e Trio Harmonia). Num sábado, 4 de Novembro desse ano, a O T.C. como referimos supra e recordam Crespo e Maria Luísa fez um Recital no Cine-Teatro da vila, convidando artistas da Rádio e RTP. Este espectáculo foi tão bem sucedido, como aliás se referia mais tarde em casa do Dr. Magalhães, que, no dia 16 de Dezembro seguinte se repetiu, com a presença dos mesmos artistas (Madalena Iglésias, Maria Cândida, Artur Garcia, Maria do Espírito Santo) e ainda de Graça Maria Rosado, Mariette Pessanha. Gina Maria estaria presente, se o avião que a trouxer dos Açores chegar a Lisboa, a tempo de depois se deslocar para Alcobaça. Gina Maria esteve presente, pois o avião chegou a tempo de se fazer transportar de taxi a Alcobaça.



No dia 11 de Fevereiro de 1962, a O.T.C. com os solistas Maria Luísa Dionísio, Maria do Rosário, Maria de Lourdes, José Teopisto, Olegário José e Valdemar do Nascimento, realizou uma apresentação nos Montes, na sede da respectiva Associação, que funcionava numa Adega, propriedade do Dr. Amílcar Pereira de Magalhães. Também várias sessões de fados castiços ali tiveram lugar. O edifício da adega, que foi sede da Associação Recreativa Montense até 1968, com excepção da zona dos depósitos aéreos e subterrâneos, era em chão térreo.



Montava-se para cada espectáculo um palco com pano de cena, um pequeno bar onde se serviam rissóis, copos de branco ou tinto, colocavam-se bancos e cadeiras, bem como uma instalação, sonora normalmente alugada em Alcobaça, numa casa à Pissarra. O Dr. Amílcar Magalhães foi entre 1961 e 1963, Presidente da Direcção do C.A.A.C.. Além dele e de José Crespo (secretário-geral), fizeram parte da Direcção nesse mandato, Manuel Lemos Pereira da Silva (secretário adjunto), José Dionísio dos Santos (tesoureiro) e Leopoldino dos Santos (vogal). Crespo gosta de sublinhar, no que é assessorado por Maria Luísa Dionísio, que o ambiente no grupo era excelente, pois os componentes da O.T.C. sentiam uma grande solidariedade entre si e davam poucas faltas aos ensaios. Por sua vez, os directores não enjeitavam colaborar na organização dos espectáculos, concretamente arrumando, levantando cadeiras e mesas, preparando o palco, a cena ou a instalação eléctrica ou mesmo suportar algumas despesas. Mais tarde esses serviços passaram a ser efectuados por pessoas contratadas e pagas, o que implicou custos elevados, em breve considerados insuportáveis.



Na segunda parte do espectáculo dos Montes, para maiores de 6 anos, apresentado por A. Canário, cujo ingresso não era barato, pois as cadeiras custavam 12$00 e o peão 7$50, participaram ainda Artur Garcia e Graça Maria Rosado. Estes e outros artistas como António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias ou Gina Maria, realizaram também outros espectáculos em Montes, no mesmo local. No referido espectáculo, a casa estava superlotada, houve pessoas que ficaram à porta, e José Crespo recorda-se bem, para além do sucesso da apresentação de uma excelente ceia oferecida pelo Dr. Amílcar Magalhães, Presidente da Direcção.



De acordo com a revista Plateia (de Lisboa), no seu número de 10 de Maio de 1962, a homenagem a Silva Tavares e à O.T.C, realizada no dia 3 desse mês, em Alcobaça, constituiu uma parada dos melhores artistas da Rádio e TV nacionais, e uma orquestra da categoria que é a de Tavares Belo. Uma casa cheia e um público ansioso que, não regateou aplausos quando Fernando Correia, alegre e comunicativo locutor da EN, anunciou o início do espectáculo.




Na primeira parte, actuou a O.T.C. e Silva Tavares, como era usual sempre que presente, foi alvo duma significativa ovação, quando se acabou de ouvir a Canção de Alcobaça. Os locutores Fernando Correia e Artur Peres apresentaram na segunda parte, Gina Maria, Domingos Marques, Trio Harmonia, Cristina Maria e Alice Amaro, acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Na terceira parte, foram chamados ao palco, o homenageado Silva Tavares, o Maestro Eduardo Loureiro, chefe da Secção de Música Ligeira da E.N., os Maestros Melo Pereira, chefe da Secção de Música Ligeira da RTP, Belo Marques e um representante da casa discográfica Valentim de Carvalho. Subiram ainda ao palco, o presidente da CMA, Jaime Horácio Junqueiro e os Vereadores, bem como, a direcção do CAAC .




Jaime Junqueiro disse, a determinada altura do seu discurso, dirigindo-se a Silva Tavares, que temos V. Ex.ª como filho de Alcobaça, pois esta vila é como uma pátria para a qual corre sempre que pode e a quem entregou o diploma que o torna filho adoptivo e cidadão de Alcobaça.




O Dr. Amílcar Magalhães, teceu elogio às pessoas e à acção de Belo Marques e a Silva Tavares. Silva Tavares agradeceu e, disse que (…) eu gosto de Alcobaça, como gosto daquilo que gosto. Gosto da minha mulher, porque gosto (…). Em seguida, fez a pequena história do nascimento da Canção Alcobaça, e a sua original criação, na voz de Cidália Meireles. Como se sabe, quem cantou pela primeira vez a canção de Alcobaça, foi Cidália Meireles, que tendo ido trabalhar para o Brasil, cedeu o lugar a Maria de Lurdes Resende, que fazia parte do coro feminino da EN.




Maria Luísa Dionísio está convencida que foi Belo Marques quem perante a impossibilidade de Cidália Meireles continuar a colaborar com a O.T.C., tomou a iniciativa de convidar Maria de Lourdes Resende, para o seu lugar, acabando assim por ficarem indissoluvelmente ligadas. A Canção de Alcobaça passou a fazer parte obrigatória, do repertório de Maria de Lourdes Resende (a menina feia), actuasse ou não com a O.T.C., bem como de artistas como Francisco José, no auge da fama e no Brasil.


Num gesto, que sensibilizou os presentes, Silva Tavares, abraçou na pessoa do Presidente da Câmara toda a vila de Alcobaça, após o que a seguir ainda actuaram Maria Marise, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias, a brasileira Mara Abrantes e conjunto de guitarras de Rui Nery, todos acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Como era tradicional, a O.T.C., ofereceu a todos os participantes do espectáculo, que o foram a título gracioso, uma lembrança a testemunhar e a agradecer o contributo de cada um e todos, para o êxito do evento. No final, foi servida uma ceia, tendo ficado bem vincada e registada, a simpatia dos responsáveis do evento, para aqueles que actuaram.

A 23 a 27 de Julho de 1962, decorreu em Lisboa, com sessões de trabalho na Faculdade de Direito, o XIX Congresso da União Internacional dos Advogados (Union Internationale des Avocats), cujo Presidente era o Professor Doutor Adelino Palma Carlos. Da Comissão Executiva faziam parte, entre outros distintos Advogados, António Madeira Pinto (Secretário Geral), José de Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes ou José Maria Gaspar. Para além do Congresso, havia uma parte social com espectáculos e passeios, sem prejuízo de um programa próprio para as senhoras, esposas dos congressistas. O Advogado e presidente do CAAC, Dr. Amílcar Magalhães, convidou a OTC a fazer uma apresentação para os congressistas, antes do almoço que se realizou no Mosteiro de Alcobaça, no dia 25 de Julho. Chegou até nós a ementa do almoço, da responsabilidade da Pensão Restaurante Corações Unidos: Acepipes, Linguados à Beneditina, Frangos na Púcara à Fradesca, Lampreia de Ovos à Mosteiro, Frutas de Alcobaça e Café. Os vinhos branco e tinto, bem como a aguardente velhíssima eram JEM (José Emílio de Magalhães). Também foi servida Ginja de Alcobaça. Durante a visita aos Mosteiros de Alcobaça e Batalha, bem como ao Castelo de Leiria, fizeram breves palestras, respectivamente, o Professor Joaquim Vieira Natividade, Dr. Pais d’Almeida e Arquitecto Camilo Korrodi. Ainda nesse dia, os congressistas deslocaram-se à Nazaré (onde assistiram a um programa de folclore), Batalha e Leiria (em cujo jardim Municipal lhes foi servido um chá e actuou o Orfeão de Leiria))

Ainda nesse ano, a 27 de Outubro, a O.T.C. deslocou-se à sede da Academia Recreativa de Santo Amaro, para uma sarau de responsabilidade em que participaram Graça Maria, Artur Garcia e José Nobre, apresentado por Pedro Moutinho (então casado com Maria Leonor), e que utilizava sempre uma orquídia branca na lapela do casaco, como recorda Maria Luísa Dionísio.

Em Janeiro de 1963, realizou-se no Cine-teatro de Alcobaça, um espectáculo de homenagem à O.T.C. (que, por isso, não actuou), no estilo do programa da TV, Melodias de Sempre, pelo muito que têm feito em favor da música popular portuguesa. Colaboraram, graciosamente, artistas como Artur Garcia, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Marise, Gina Maria, Elsa Vilar, Maria Fernanda Soares, Domingos Abrantes, o Coro das Melodias de Sempre, com o maestro António de Melo ao piano. A locução esteve a cargo de Fialho de Gouveia, Fernando Correia e Henrique Mendes!!! Os artistas utilizaram o guarda roupa cedido por Anahory, conhecido figurinista das revistas do Parque Mayer e das peças de teatro da TV.

Nesse ano de 1963, a O.T.C. realizou variados espectáculos, como na Maiorga (com Maria da Glória e Eugénia Maria) ou em Valado de Frades (com Maria Fernanda Soares e Artur Garcia).


Na alameda da Quinta da Cova da Onça, vistosamente engalenada, promovido por C.A.A.C., realizaram-se, no ano de 1963, os festejos dos Santos Populares. A O.T.C. marcou presença na última noite. Ali funcionou uma quermesse com barracas de tômbola (panelas e tachos), de ginjinha, de rifas, de comes-e-bebes, com amêijoa, frango no espeto, sardinha assada, etc., bem como barracas dos mais variados artigos, onde predominavam os de fabricação alcobacense. Nesse ano, a RTP havia vindo a Alcobaça filmar o espaço da Cova da Onça, onde estavam a decorrer as festas, para utilizar as imagens num programa que a O.T.C. veio a apresentar em directo nos estúdios de Lisboa. No ano seguinte (1964), os festejos dos Santos Populares realizaram-se na cerca do Asilo de Velhinhos Maria e Oliveira. Desta vez, vieram a Alcobaça, artistas como Maria Fernanda Soares e Artur Garcia (propagandeado como conhecido e apreciado dueto de Melodias de Sempre) Fernanda Pacheco, Luís Piçarra (o mais internacional dos artistas portugueses) e Gina Maria (1º Prémio de interpretação em Espanha), Margarida Amaral, Fernanda Pádua (uma promessa de futuro), Lina Maria, Max (madeirense autor e intérprete do sucesso popular A Mula da Cooperativa e Pomba Branca), Carlos do Nascimento, (Rei da Rádio de Angola e apreciado artista da Rádio e da TV), e ainda Simone de Oliveira, (vedeta da voz de oiro e rainha da popularidade).Desde o Santo António, que ali se vinham realizando festejos, nos quais se exibiram, além dos consagrados artistas, o Orfeão da Sociedade Central de Cervejas, sob a regência do maestro Alves Coelho (Filho). Mas foi precisamente a noite de S. Pedro, que se revelou especialmente notável. O sarau, numa noite chuvosa e ventosa, pouco agradável, começou pelas 22h, com a exibição do Rancho Folclórico da Nazaré, num recinto completamente cheio. Porém, o grande momento da noite consistiu como é óbvio na apresentação da O.T.C. Nestas actuações, a OTC interpretava a peça, quealiás veio a gravar em dico (vinil) Há Mercado em Alcobaça. No ano 2000, a Rádio Renascença, conjuntamente com a Movieplay, numa colectânea de Clássicos Portugueses, fez uma reedição e uma passagem para CD:




Alcobaça tem

Um mercado original

Pois que toda gente que aqui vem

Vai a dizer bem,

Nunca diz mal.




Vende-se de tudo

Que é antigo e que é moderno,

Tecidos de chita e de veludo

E frutas do verão, em pleno Inverno.




Se depois chegar,

Em passando o nono mês

Um bebé bonito p’ra alegrar,

Terá que comprar

Mas para três…

E depois virá o tal dia que é preciso

Ensinar aquilo que ouviu já

Para que o rapaz tenha juízo…




Só nos prende

Um pormenor

Não se vende

Aqui amor…




Estribilho




Quem quiser

Escolher

A mulher

P’ra viver,

E pensar

Vida sã

Para o lar

De amanhã,

Só precisa comprar

Valiosos bragais,

E depois …

É casar,

Nada mais!





A O.T.C. recebeu no dia 14 de Dezembro de 1963, a Orquestra Típica Albicastrense que veio a convite do C.A.A.C. dar um espectáculo ao Cine-Teatro. Segundo o jornal Reconquista, de Castelo Branco, de 22 de Dezembro de 1963, a caravana albicastrense, esperada em Aljubarrota por mais de uma dezena de carros, apesar da chuva que persistentemente caía, foi a mesma escoltada até ao largo fronteiro ao edifício dos Paços do Concelho, onde foi recebida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal, pela digníssima vereação, direcções do Centro Alcobacense de Arte e Cultura, da Orquestra Típica de Alcobaça, etc., e por muito povo que ali acorreu ao ouvir a salva de morteiros e as girândolas de foguetes que foram deitados. Uma banda de música, que se encontrava em frente aos Paços do Concelho executou o hino no momento em que a embaixada de Castelo Branco entrou no edifício. À noite, o sarau do Cine-Teatro, com casa esgotada, começou com a O.T.C., seguida na segunda parte pela Orquestra Típica Albicastrense e, finalmente, um acto de variedades, em que actuaram Artur Garcia e Simone de Oliveira, bem como, os apresentadores Henrique Mendes e Leite Pereira. No final do espectáculo, de acordo com o cronista de Castelo Branco que acompanhou e registou a saída do seu agrupamento, foi servido o opíparo copo de água (desta vez no Restaurante Bau) a todos os elementos que tomaram parte no sarau, tão abundante e variado que, no fim apesar de se encontrarem presentes mais de 150 pessoas (…) dir-se-ia que estava intacto!!!.




Maria Luísa estava tão cansada, que na ceia do Restaurante Bau, o que mais lhe apeteceu foi sentar-se, ficar quieta, esticar as pernas, fechar os olhos e… descansar. De facto as meninas da O.T.C. desdobraram-se a solicitar às senhoras de Alcobaça, para que oferecessem um prato, quente ou frio, para a ceia. No tempo de D. Celeste, proprietária da Pensão Restaurante Corações Unidos, pessoa extremamente entusiasta, por todas as coisas de Alcobaça, havia sempre disponibilidade para que quando algum artista tivesse que jantar antes do espectáculo, ou ficar para o dia seguinte, o fizesse em sua casa, em condições muito especiais. É importante realçar a colaboração da população de Alcobaça, quando se realizavam espectáculos no Cine-Teatro, com a presença de artistas de fora e de nomeada, os quais se deslocavam em geral graciosamente, e a convite do maestro Alves Coelho (Filho), que tinha uma boa relação com quase todos eles. A finalidade, normal, era angariar fundos, para uma determinada obra social e estes simpaticamente colaboravam. Os tempos eram outros…. A propósito da deslocação da Orquestra Típica Albicastrense a Alcobaça, o Jornal do Fundão, de 5 de Janeiro de 1964, destaca o calor da assistência na sala repleta de assistentes, a recepção e boas vindas calorosas daquelas gentes onde a arte não morreu…, por contraponto ao que se passa em Castelo Branco, cuja população dá pouco apoio à sua Orquestra Típica. Sobre este assunto, João da Gardunha, no mesmo comprimento de onda e de apelo ao bairrismo, lastima como foi chocante, doloroso mesmo, verificar a indiferença com que a cidade (Castelo Branco) acolheu o espectáculo anual da O.T.A. (Orquestra Típica Albicastrense) que lhe foi dedicado. E foi tanto mais notória essa impressão dolorosa, porque, apenas dois dias antes a mesma O.T.A., após uma recepção grandiosa e inenarrável na vila de Alcobaça, culminou essa visita com uma actuação que perdurará através o espaço e o tempo na memória daqueles que a ela tiveram a dita de assistir, tal o nível a que se alcandorou, devido ao brio dos seus dedicados componentes.




Segundo o jornal República, de 30 de Julho de 1963, a O. T. C. não precisa de apresentações, é mais do que conhecida no país e apreciada pelas suas exibições no programa da RTP -Melodias de Sempre.



Antes de findar o ano de 1964, a O.T.C. ainda se deslocou à Figueira da Foz a 7 de Novembro, para cumprir um contrato como Casino Peninsular, aonde bisou várias canções, alcançou êxito e dedicou à cidade anfitriã a seguinte peça, cuja letra nos foi facultada (obviamente) por José António Crespo, esse dedicado e apaixonado coleccionador de coisas relacionadas com Alcobaça.




Rainha do mar português

Figueira

Que tem mais azul todo o mar

Figueira

A serra onde tu te revês

Figueira

Parece um milagre a passar

Figueira.




O mar

De bravura

E altura

Sem par,

Sorri na Figueira da Foz.



O mar

Que não pode

Nem pede

Lugar,

Sorri na Figueira da Foz.



O mar

Que por vezes

Revezes nos traz

Sorri na Figueira da Foz.

Se o mundo quiser

Conhecer

Sonho e paz

Que venha à Figueira.






A 13 de Fevereiro de 1965, O Alcoa deu nota da festa de confraternização do C.A.A.C., que organizou um almoço oferecido pela direcção a todos os componentes da O.T.C., e onde estiveram presentes o Chefe dos Serviços Musicais da E.N., Alves Coelho (Filho) e esposa. Após o almoço usaram da palavra, entre outros, Fernando Afonso Ramos, Fernando Raposo de Magalhães e Raul dos Reis Gameiro. O Chefe dos Serviços Musicais da E.N. agradeceu o convite, que lhe foi dirigido e à esposa, enalteceu o papel e o contributo que a O.T.C. tem desenvolvido, junto da sua entidade patronal, como intérprete privilegiado da música portuguesa.



De novo, em colaboração com a EN e a FNAT, em Maio de 1965, a O.T.C. realizou um Serão para Trabalhadores, no Liceu Camões-Lisboa, dedicado ao pessoal da Soponata. Neste Serão, actuaram também a Orquestra Ligeira da EN, sob a regência de Tavares Belo, o Conjunto Quatro de Espadas, Isabel Fontes e Ivone de Andrade (apresentados como novos artistas), Artur Garcia, Coro Misto e Orquestra e ainda Simone de Oliveira. A primeira parte do nosso tradicional Serão (na apreciação encomiástica feita pela organização) caracteriza-se por um belo desfile de melodias, impondo mais uma vez, o bom gosto dos nossos compositores. O lugar aos novos será preenchido pela rubrica de revelações, Novos Artistas, testemunho claro do incentivo que a EN proporciona aos esperançosos cançonetistas que procuram, ansiosamente, o rumo da consagração. Saliente-se, ainda, a intervenção do Coro Misto que sublinhará, acompanhado da Orquetra Ligeira da EN, dirigida por Tavares Belo, a inesquecível melodiia de Raul Ferrão Abril em Portugal. Momento de beleza musical estará também a cargo do Coro Feminino, revivendo a já famosa página de Tavares Belo Dois Tempos de Jazz.Na segunda parte, actuou a O.T.C., no intuito de variar os elencos destes tão populares passatempos recreativos, organizados pela EN em colaboração com a FNAT, mais uma vez depois de tantos êxitos colhidos, volta à ribalta artística do nosso Serão para Trabalhadores, o Coral de Alcobaça, que tanto tem contribuído para a divulgação do rico folclore português. Além do conjunto vocal associa-se o relevo musical da sua conhecida Orquestra Típica. Este conjunto, bem como o Coral são dirigidos por Alves Coelho (Filho) e todas as suas interpretações obedecem a um selectivo reportório de melodias, onde está presente a alma do povo nos seus cantares e desgarradas.



Na noite de 22 de Maio de 1965, a O.T.C. foi participar num Sarau organizado pelo Grupo de Instrução Popular da Amoreira-Costa do Sol. Cerca das 22h teve início um baile, com a colaboração de um bom conjunto musical. Segundo o Jornal da Costa do Sol, de 29 de Maio de 1965, foi como que uma façanhaa presença da O.T.C., que se deslocou (gentilmente) à Amoreira, conjuntamente com a artista de Cascais, Natalina José. Quando pela 1h da manhã actuou a O.T.C., constituída como sublinhou Alves Coelho, por gente simples e rude que ganha o seu pão cavando os campos, e interpretou a Canção de Alcobaça, ouviram-se calorosos e prolongados aplausos, que premiaram o agrupamento, como era habitual aonde e sempre que a orquestra se apresentasse. Segundo o mesmo JORNAL DA COSTA DO SOL, o único senão na actuação da O.T.C. de Alcobaça foi não ter prolongado um pouco mais, a sua exibição, para dar ainda novas provas do seu valor.



A O.T.C. recorde-se mais uma vez era composta, exclusivamente, por amadores. Maria Luísa Dionísio recorda um espectáculo realizado no Reformatório de Caxias, aonde Alves Coelho (Filho) era professor de música. No Reformatório, havia oficinas das mais variadas actividades, como carpintaria, serralharia, tipografia ou cartonagem. Então, houve a enorme gentileza por parte da organização, de oferecer a cada membro da O.T.C., um bloco encadernado com uma dedicatória Recordação do Reformatório de Caxias. Tão apreciada foram estes blocos que, doravante passaram a ser utilizados, para registo das letras ou guardadas as pautas das músicas.


Um grande espectáculo da O.T.C., ocorreu no Cine-Teatro de Alcobaça, no dia 13 de Janeiro de 1968, dia de aniversário de Rosa Maria Coelho, que nos camarins teve direito a que lhe cantassem os parabéns. Na primeira parte exibiram-se ranchos folclóricos dirigidos por Celestino Graça, Grupo Infantil de Dança Regional de Santarém, Grupo Académico de Danças Ribatejanas, Rancho Folclórico do Bairro de Santarém. A O.T.C. apresentou-se, desta vez, sob a regência do maestro fundador, António Gavino que se encontava de férias, vindo de Moçambique. Além do mais, tinha havido um pequeno diferendo entre Alves Coelho (Filho) e a direcção do C.A.A.C., o que acarretou que aquele se tivesse ausentado durante algum tempo.

No Cine-Teatro de Alcobaça, a 17 de Maio de 1969, novamente com Alves Coelho (Filho) o C.A.A.C. para comemoração do seu 12º aniversário, realizou um Sarau, onde colaboraram, a nossa querida Maria de Lurdes Resende, intérprete inolvidável da Canção de Alcobaça e Libânia Feiteira, a grande revelação da arte de declamar. No dia seguinte, o C.A.A.C. organizou pelas 14h um torneio de tiro aos pratos, pondo em disputa libras de ouro. Ao mesmo tempo, houve um torneio para amadores, ou seja para aqueles que nunca atiraram aos pratos.

Pouco depois, a O.T.C. foi convidada a deslocar-se à RTP a fim de participar no programa Zip-Zip, transmitido em directo a partir do Teatro Variedades, no Parque Mayer, bem como um outro realizado no Pavilhão dos Desportos, onde actuaram as mais relevantes Orquestras Típicas do País, isto é, Alcobaça, Santarém, Castelo Branco e Estremoz. Este espectáculo, que foi transmitido pela RTP, teve o interessante acrescido de ter finalizado com uma aqctuação conjunta das 4 Orquestras, dirigidas pelo Maestro Melo Pereira.


Silva Tavares, pessoa de fino trato, foi um bom amigo de Alcobaça, com quem mantinha uma forte ligação afectiva, e frequentava com bastante assiduidade. Em Alcobaça sentia-se bem, pois era muito estimado, e que considerava como a sua segunda terra. Aqui recuperou nas Termas de Piedade, após uma grave doença que determinou a sua hospitalização.


Por testamento de 1969, veio a legar alguns bens à CMA, como os seus retratos de autoria de Luciano Santos (óleo), de Eduardo Malta (lápis), de José Contente (pastel), livros de que foi autor, numerados, assinados ou por si rubricados, as pastas que utilizava profissionalmente, um cofre em mármore contendo terra do quintal da casa natal em Estremós, uma mácara em bronze do seu amigo, poeta brasileiro Olegário Mariano e ainda uma luxuosa encadernação da obra O Cardeal Cerejeira, da autoria do Pe. Moreira das Neves, na qual existia dedicatória do purpurado.


Foi Maria de Lurdes Resende, quem se veio a revelar a grande intérprete da Canção de Alcobaça. Irrequieta e traquina desde a mais tenra idade, nasceu no Barreiro em 1927. Canta desde que se lembra, como em 1957 contou numa entrevista à revista Flama e donde se respigaram estas notas. Assim que nasceu, começou a berrar, tarefa a que se dedicou durante o primeiro ano de vida, para grande desespero e insónia dos pais. Ao crescer, ganhou a convicção de que um dia seria cantora profissional, talvez até de ópera. Os pais opuseram-se com veemência e só aos 18 anos se estreou em palco, embora com o nome de Maria de Lurdes, porque Resende era o nome da família que a tinha contrariado na sua ambição. Maria de Lurdes Resende, chegou a ganhar grande popularidade, com uma voz ao serviço das cantigas. Alcunhada gentilmente de a Feia Bonita,Maria de Lurdes Resende deu a resposta adequada, popularizando a cantiga A Feia. Mas a Canção de Alcobaça foi, efectivamente, o seu grande êxito, em Portugal e além fronteiras.



Quem passa por Alcobaça

Não passa sem por cá voltar (…).



À boa moda portuguesa, passaram a correr na vila uns versos, parodiando a Canção de Alcobaça. Tais versos, vinham a propósito do estado do Rio Baça que tinha, como hoje, um pequeno caudal, e que exalava um cheiro nauseabundo. Junto à ponte da Rua David da Fonseca foi colocada pela Câmara Municipal uma placa, proibindo os vazadouros, aliás sem grande sucesso durante muito tempo, por obra e graça de muito alcobacense, incapaz de mudar de hábitos ancestrais… Os versos eram, se bem se recorda aqui:




Quem passa por Alcobaça

E vai visitar o Baça

Apanha tal pitaça

Que nunca mais por lá passa.




Há cerca de 70 anos, o rio Baça constituía um enorme depósito de detritos em putrefacção e encontrava-se ainda a descoberto.




Em 1970, realizou-se em Lisboa, no Teatro Monumental, uma grandiosa festa de homenagem a Maria de Lurdes Resende, comemorativa dos seus 25 anos de vida artística. Presidiu o Presidente Américo Tomás, que condecorou a artista, tendo Alcobaça comparecido em massa, através da Câmara Municipal, Santa Casa da Misericórdia, a Orquestra Típica, Bombeiros, Ginásio e Grémio do Comércio. Enfim, todos para dizer a Maria de Lurdes Resende quanto a apreciavam e lhe estavam agradecidos como grande divulgadora desta terra de Cister.




Maria de Lurdes Resende, veio ainda em 29 de Abril de 1995, a ser homenageada em Alcobaça, ao que o jornal Notícias de Loures, sob a pena de Jorge Valente, deu o devido destaque na primeira página. Os apresentadores do espectáculo no Cine-Teatro, foram Artur Agostinho, Etelvina Lopes de Almeida, Igrejas Caeiro e Isabel Wolmar que, em conjunto, se dirigiram ao público com um Boa noite, poeta Silva Tavares! Boa noite maestro Belo Marques! Boa noite Maria de Lurdes Resende! Boa noite Alcobaça! Com esta saudação, não se limitavam a fazer um cumprimento, resumiam também o sentido da festa: na homenagem à intérprete, tinham de por força estar o autor da letra, o compositor da música e a vila inspiradora da canção que correu mundo e não se esquece facilmente. Entre o muito expediente de congratulações que foi lido pelos apresentadores, o Noticias de Loures destacou duas ingénuas, simples, mas agradáveis quadras, que se transcrevem:



Senhora grande a cantar

cantigas que o Povo entende

É Portugal a vibrar

A nossa Lurdes Resende.



Que Deus de saber profundo

A proteja e a todos nós!

P’ra mesmo no outro mundo

Ouvirmos a sua voz.



Depois de agradecer as palavras do Presidente da Câmara Miguel Guerra, horas antes no Salão Nobre dos Paços do Concelho, de acordo com o Voz de Alcobaça, a homenageada referiu que, entre as mais de duas mil canções que cantei, há muitas que são solicitadas, mas Alcobaça é exigida. A aceitação do público comove-me e faz-me pensar que nasci aqui.




Por via da canção, a Câmara Municipal decidiu que autores e intérprete passaram a ser vizinhos na geografia da vila, mercê da atribuição dos seus nomes a três artérias da parte alta da Gafa. A Banda de Alcobaça esteve presente na homenagem e na prenda que ofereceu, consignou a seguinte dedicatória: Vão passando as águas dos rios. Na ponte para o futuro, fica a voz a cantar Alcobaça…



Silva Tavares foi ainda objecto de uma expressiva homenagem no Cine-Teatro de Alcobaça, em Junho de 1972, aonde estiveram presentes, entre outros, o Presidente da Câmara, que usou da palavra e vereadores, o Deputado Dr. Amílcar Magalhães, representantes da EN e RTP, David Mourão Ferreira, em representação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, o escritor e amigo pessoal Adolfo Simões Müller, que usou da palavra, o Presidente da Câmara de Estremóz, terra natal do homenageado.Finda a cerimónia, foi descerrada uma lápide com o nome do homenageado na rua a que foi dado o seu nome, no então chamado bairro das Casas da Caixa de Previdência.

Cerca de um mês antes do imprevisto falecimento, Belo Marques também fora objecto de uma homenagem no Cine-Teatro de Alcobaça, que se encontrava a abarrotar.