HOJE HÁ TRIPAS
A TRADIÇÃO (Semana-Santa) JÁ NÃO É O QUE ERA
FLEMING DE OLIVEIRA
(I)
Em casa de meus Pais, há quarenta ou mais anos, era usual nos domingos de Inverno comer-se ao almoço tripas à moda do Porto.
Para os meus irmãos mais novos, e ainda eram sete, não era este um prato especialmente apreciado, o que era todavia compensado com uma pequena rábula, brinde de meu Pai.
-Ó Pai, porque é que os do Porto são tripeiros?
E o meu Pai, com paciência e o sumo cuidado de jamais alterar um ponto ou uma vírgula à história, contava aquilo que alguns dos meus leitores possivelmente desconhecem, a origem do apodo honroso de tripeiros aonde, como filho da cidade do Porto, me incluo.
O portuense, conhecedor do facto sorri condescendentemente com esta alcunha ou desnorteia o contendor aceitando-a com orgulho legítimo.
O que meu Pai contava filiava-se, ao que creio, na mais pura tradição portuense e colheu a versão, bem como a receita, em casa de seus Pais, em Matosinhos.
(II)
As primeiras expedições que conduziram à expansão portuguesa pelas terras de além-mar, deverem-se ao impulso e entusiasmo do Infante D. Henrique. Anunciada a intenção da conquista de Ceuta, os burgueses do Porto não quiseram desmentir a fama de audazes e intrépidos, associando-se ao grandioso desígnio nacional. Assim, aparelharam à sua custa uma armada de mais de setenta embarcações que no Ano de 1415 rumou fora a barra do Douro. Para abastecer tão numerosa esquadra, não foi pequena a generosidade dos meus conterrâneos, pois não seria a falta de víveres que iria obstar ao êxito da aventura. Abateram-se muitas cabeças de gado bovino cuja carne limpa, devidamente salgada, foi para a dispensa das embarcações, de modo a chegar para a expedição, reservando-se para os que ficaram, os miúdos, as “tripas” como vulgarmente se chama e com o que se cozinhou, possivelmente pela primeira vez, o prato tão apreciado pelos portuenses em particular e bem emblemático da cozinha nacional.
(III)
Há dias, numa das muitas deslocações que faço ao Porto, deparei na Baixa com o anúncio de um festival gastronómico, cujo tema era sem tirar nem pôr tripas à moda do Porto.
A arte de comer é proverbial no Porto.
Comer bem”foi e é ainda não só sinónimo de bem confeccionado como de quantidade, de rebentar um cristão, como se diz de vez em quando, ou de uma comezaina.
Entrei com a minha mulher e um casal amigo num restaurante tradicional da cidade, que percebi aderente ao evento através de um cartaz à porta, e de súbito vieram-ma á memória os sabores antigos e as recordações que pareciam esquecidas.
Nada dessa comida algo estúpida e estandardizada, mas um comer caseiro de acordo com uma boa personalidade portuense.
Não sou um perito gastronómico, nem este espaço é dedicado à arte de bem comer, mas a diferença que notei de pronto relativamente à receita que tão bem recordava, foi que o puxado”(linguagem corrente de refogado) era mais apurado, como é normal nos restaurantes. A acompanhar as tripas foi apresentado um arroz pilau, ou como se dizia lá em casa um arrozinho muito sequinho.
E claro, um tinto do Douro.
(IV)
Ultimamente parece que caiu uma autêntica praga sobre as tripas à moda do Porto que, contrariamente ao que se disse, jamais foram loucas.
Esta praga veio de Inglaterra, camuflada com outras coisas da U.E. bem pouco claras, comprometendo restaurantes, e a vida económica da cidade, pois que aqueles se viram compelidos a retirar dos cardápios este histórico prato.
Muito gostosamente fui o anfitrião do casal de lisboetas que levei ás tripas, pelo que não perdi a ocasião de puxar pelos galões.
Em volta de um prato de tripas, anunciei enfaticamente, conta-se uma boa parte da história da cidade. Sempre que pouso a faca e o garfo sobre umas tripas não estou apenas a saborear um paladar, mas a recordar-me da casa dos Pais e o que é ser tripeiro.
Enquanto almoçava lembrei-me que poderia ser este o tema de uma das minhas crónicas do tempo que passa pelo que pedi ao empregado de mesa que chamasse o patrão.
-Então ainda há muito receio das tripas?, perguntei para meter conversa.
-Ainda, mas menos. As tripas na minha casa são confeccionadas apenas com carnes do estômago de vitela e não com as tripas ou vísceras, como foi maldosamente propalado. Quando ouvi opinião de um veterinário, meu cliente habitual, dizer que o que era proibido e estava fora de circulação eram as vísceras, reintroduzi as tripas na ementa. E os clientes estão a voltar.
-Por favor, mais uma dose, reclamei.
(V)
A minha ideia não é vir aqui defender as tripas à moda do Porto, mas contribuir singelamente para esclarecer a população, incentivá-la a comer à portuguesa e aproveitar para fazer uma breve reminescência familiar. Desde garoto aprendi a gostar de tripase muito prezaria que a tradição se reafirmasse.
Preparadas à moda do Porto, com todos os matadores, são o ex-libris gastronómico da cidade. Não é um prato barato, nunca aliás o foi, como se queixava a governanta com mais de 50 anos de casa dos meus Pais. O resultado é um sucesso admirável, violento para as compleixões mais delicadas.
-Estás numa idade em que há coisas que começam a fazer mal, diz frequentemente a minha mulher que, apesar das suas virtudes que são muitas, é uma acabada desmancha-prazeres em assuntos de mesa.
Gosto de tripas, com um copo de tinto caiem-me bem, mas não foi por isso apenas que as foi comer a um restaurante do Porto. Foi para concluir que continuam a fazer parte do património e a ser um prato moderno que há que defender.
Será por estas e outras que exista a frase bem popular fazer das tripas coração?
(VII)
Em rapaz ia na Semana Santa frequentemente a Braga, com os meus Pais.
Lá em casa apreciava-se muito a terra e as suas gentes, aonde tínhamos algumas relações. Por alturas da Semana Santa, não falhávamos uma deslocação do Porto a Braga a assistir a algumas das mais importantes cerimónias que ali ocorriam.
Não posso dizer que, para mim, fosse esse o acontecimento do ano, o canto-chão, a decoração dos altares de rua ou as procissões, tendo em conta o ambiente pesado, velado e de cheiro adocicado que o rodeava.
Há quarenta anos, note-se, a Páscoa muito concretamente no Minho, tinha uma carga religiosa cheia de espiritualidade, com morigeração e recolhimento, que não se compadecia com os pormenores bem profanos que o turismo de hoje vai impondo.
Braga é um verdadeiro alfobre de monumentos da renascença e do barroco graças, em parte, à abundância potenciada pelos ventos da contra-reforma, nos séculos XVI e XVII. A Igreja local aproveitou, com sentido de oportunidade, o fervor religioso provocado por este movimento anti-protestante, fazendo que a criação artística fosse mais densa que na Idade Média. Em número e riqueza de templos barrocos, do chamado barroco nacional, não sei se haverá alguma cidade do País ou do Brasil que lhe leve a palma.
Para o meu gosto não há.
É de ouro o coração de algumas igrejas.
E, perdoem-me os leitores incréus ou católicos esta divagação, para conhecer Braga por dentro, o seu carácter, haveria que visitar as suas igrejas.
Os anos passaram, um dia vim viver para Alcobaça, mas muitas coisas estão ainda bem presentes na memória.
O Domingo de Páscoa, também. N
a região do Minho, o Pároco vinha a casa de toda a gente dar as Boas Festas.
Ricos e pobres abriam as portas de par em par, afadigavam-se a atapetar a entrada com pétalas de flores variadas e colocavam na sala, onde se fazia a“Visita do Compasso, uma mesa coberta com uma toalha de linho, as peças de linho e a sua brancura eram o espelho da dona da casa, repleta de doces e vinhos licorosos.
O Sacerdote entrava acompanhado do seu séquito, de uma sineta anunciando alegremente a aleluia e um enorme crucifixo em prata que apresentava para ser beijado de joelhos.
Há porém que reconhecer, aliás sem cinismo, que a Páscoa em Braga evoluiu para um produto turístico entre outros, que se pretende aproveitar na mira de trazer à cidade cada vez mais visitantes. Estive bastantes anos sem ir à Semana Santa de Braga.
Todavia o ano transacto lá fui, na expectativa de alguém que regressa um velho ambiente familiar, que não repudiaria reviver e que se pode dar ao prazer de fazer turismo num belíssimo local.
Suponho que muitos dos leitores de O PÓRTICO conhecem Braga, a sua Semana Santa e por isso compreenderão bem algumas das impressões que colhi e que aqui vou fugazmente transmitir. Sempre me impressionaram os farricocos, com as suas matracas e pesadas vestes de penitentes, e que continuam a ser uma das imagens de marca.
Como visitante, surpreende-me a sua estranha presença nas ruas antigas, sem assimilar jamais o sentido do matraquear ou do vestir.
Para os amigos que me convidaram desta vez, gente da terra, devotos quanto baste, mas a ter de ganhar a vida, os farricocos não são mais que uma incontornável presença destes dias, com que não se emocionam ou perdem tempo, nem quando fazem barulho com as sua matracas de madeira.
Uma Semana Santa, à moda antiga, recordou-me o dono de um restaurante tradicional da Praça da República, aonde já não ia há um bom par de anos, e que cultivava o gosto pelo fiel amigo e algumas das cento e umas maneiras de o cozinhar, passava por um sermão no Largo do Paço, ao ar livre, com muito povo, escutando atentamente um pregador convidado e senhor de uma boa escola de oratória.
Havia o momento em que cada um tentava perceber o sentido da Paixão de Cristo, da precariedade do mundo, das coisas que a vida dá e leva. Uma boa Semana Santa, como devia ser a de Braga, não prescindia do Ofício do Lava-Pés a uns tantos mendigos, presidido pelo Arcebispo, do concerto gregoriano no coro da Sé, nem de nenhuma das procissões nocturnas, como a do Enterro do Senhor, envoltas em profundo silêncio, à luz das velas, acompanhadas por devotos de passos bem arrastados, assistidas nas bermas do passeio por senhoras recolhidas sob mantilhas de tipo espanhol na cabeça, e que se ajoelhavam à sua passagem. Quem conhece as espantosas procissões que se desenrolam em Braga de há séculos, misto de cortejo, ópera, drama e, porque não dizer, ballet, reconhece que ali se mistura com requinte o sagrado e o profano.
Naquele tempo, a Quaresma era dura.
Jejuns e penitência faziam parte de uma certa forma de estar na vida e ser português.
Indo a Braga, mesmo em turismo de Semana Santa, não podia deixar de percorrer a pé o Bom Jesus e o seu escadório que conduz ao alto.
Em rapaz a distância para a cidade parecia-me intransponível. Hoje, Braga é uma terra pujante, moderna, barulhenta que se estende até ao sopé do monte, cheia de turistas apressados, em mangas de camisa e máquina em punho.
Claro que a tradição já não é o que era...
Braga, madre de tantas outras urbes, interrogada desta aproximação do Bom Jesus à cidade, respondeu.
As praças, igrejas e edifícios públicos, afirmam, por si, o carácter arquitectónico que se refinou com a cultura, o contacto com o mundo, as gentes peregrinas.
Mas a par da beleza, vamos constatando a sistemática degradação das coisas, cruel tributo ao progresso. Assim esta evolução, ajudou-me a quebrar um certo tipo de encanto que supunha reter da Braga de há quarenta anos, na altura da Páscoa.
O que há indiscutível em Braga?
Não escapa já o caldo-verde, nem a papa tão infalível em certos santuários quanto o Papa. Tire-se daí o sentido.
Afinal, mesmo em tempo de Semana Santa, a vida é cada vez mais prosaica, o verde continua ser se-lo no branco ou no rutilante tinto e, pasme-se, em Sexta-Feira Santa acompanha uns rojões, um serrabulho ou uma dose de lampreia.
Dizem que há fazer pela vida!!!
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
PASSEANDO EM FRANÇA(AGOSTO DE 2003)
PASSEANDO EM FRANÇA (AGOSTO DE 2003)
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
PASSEANDO EM FRANÇA(AGOSTO DE 2003)
PASSEANDO EM FRANÇA (AGOSTO DE 2003)
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
PASSEANDO EM FRANÇA(AGOSTO DE 2003)
PASSEANDO EM FRANÇA (AGOSTO DE 2003)
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
-O atletismo em Paris
-Sérgio Vieira de Melo (o atentado)
-O calor imenso e os acontecimentos dramático-macabros
-E em Portugal?
(Os fogos florestais)
-João Paulo II e os espectáculos nas Igrejas
FLEMING DE OLIVEIRA
O que acontecia em França, de especial, neste mês de Agosto de 2003?
O que polarizava o interesse ou a preocupação dos franceses?
E o nosso, turistas portugueses?
A França, muito especialmente Paris, preparava-se com orgulho para receber os Campeonatos do Mundo de Atletismo.
Estavam anunciados com grande destaque em muitos sítios, como outdoors, estações de Metro, Jornais ou TV.
De facto, há cerca de 80 anos, desde os Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, que a cidade não recebia a elite do atletismo mundial, então reunida no Estádio de Yves-du-Manoir, em Colombes. Agora, neste verão de 2003, Paris e o seu novo e orgulhoso Stade de France, em Saint-Denis, prepararam-se para receber perto de 2000 atletas, provenientes de mais de 200 países, entre 23 e 30 de Agosto.
Isto faz, desta reunião, o terceiro acontecimento desportivo com mais audiência no mundo. O atletismo, hoje em dia, nada tem a haver com os longínquos anos de 1924, embora as disciplinas sejam, aparente ou fundamentalmente, as mesmas, isto é, correr sempre mais rápido, saltar mais alto ou lançar mais longe.
Bem sei, que acabaram os atletas verdadeiramente amadores, e todos eles se fazem acompanhar do empresário, do advogado ou o adido de imprensa!!!
Paris 2003, fez-se a pensar nos Jogos Olímpicos de 2012, pois a cidade precisava de um sucesso desportivo para reforçar a sua candidatura, o que permitiu à Comissão Organizadora beneficiar de cartas facilidades institucionais.
Assim sendo, não se pouparam esforços, nem dinheiro, pelo que de acordo com notícias que li e ouvi, o investimento directo, ascendeu a cerca de 60 milhões de euros, sem contar com o adicional para prevenir ou evitar reivindicações sindicais, oportunamente anunciadas para essa altura ou eventuais actos terroristas.
Os sponsors, importantes instituições da área dos serviços, transportes, hotelaria e restauração, como por exemplo o Gaz de França, Grupo Accor, RATP, France Telecom, estavam inteiramente mobilizados para atrair o público.
Além das importantes contribuições financeiras, os sponsors encontravam-se também empenhados na rede de distribuição de bilhetes para os jogos, quer aos seus balcões, quer dando condições privilegiadas aos clientes, não obstante o sucesso de vendas pela net.
Como se recorda, desta vez, a participação dos atletas portugueses foi extremamente discreta. Longe vão os tempos em que um Carlos Lopes ou uma Rosa Mota nos reconfortavam, no ego nacional, vendo-os na TV, a correr cansados, enquanto bebíamos refastelados um whisky ou trincávamos uma bifana, com molho de mostarda.
No desporto francês, o único português neste momento motivo de notícia, é o Pauleta, futebolista do PSG e a sua nova estrela, a águia dos Açores como é lá conhecido, o homem do sorriso radioso quando marca um golo, mas ainda não apontado no millieu, como responsável pelos desaires do clube, pois segundo os jornais da especialidade, ele ne pourra tout faire.
Se tivesse tido tempo, gostaria de ter visto em Paris, a muito propalada exposição Jean Moulin, le Resistant et l’Artist a propósito do sexagésimo aniversário do seu desaparecimento. O Memorial do Marechal Leclerc, na Gare de Montparnasse, apresentava uma exposição em homenagem ao herói da Resistência, mas também ao homem, e à sua faceta menos conhecida de artista.
Jean Moulin foi recorde-se, um activista radical-socialista, ardente defensor da República, sendo em 1937 o mais jovem Prefeito de França. Pioneiro da Resistência, foi o homem de Londres, hierarquicamente depois de De Gaulle, porta-voz do governo no exílio e homem sombra, lançado em França de para-quedas, em 2 de Janeiro de 1942, para coordenar os movimentos de Resistência e montar um exército secreto.
Preso, sob denúncia, em 21 de Junho pelos alemães, foi torturado e transferido para a Alemanha, onde foi executado em 8 de Julho de 1943.
É dele a seguinte e premonitória expressão em 1940, não fazia ideia que fosse tão fácil cumprir o dever, como quando se está em perigo.
Mas nem tudo na vida, mesmo no Verão, se resume a desporto e à boa vida, como gostamos.
Nós, também, ficamos altamente chocados quando tivemos conhecimento do gravíssimo atentado, utilizando um camião armadilhado, contra a sede da ONU em Bagdad.
Entre os 17 mortos, encontrava-se o representante especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo (que a A. apesar de muito culta e atenta na leitura da CARAS, de momento não identificava), o homem de confiança de Kofi Annan e das missões urgentes e difíceis das Nações Unidas.
O diplomata com sucesso no ex-Zaire, Balcãs e Timor Leste, apontado, em certos meios, como futuro Secretário-Geral.
Por todo o mundo, com excepção dos Árabes, as reacções de condenação do ataque foram quase unânimes.
Mas, para mim, creio que o que mais marcou a viagem, embora não de todo negativamente, mas dificultando-a nalguns momentos, foi a excepcional vaga de calor. Para a Cl., Paris é uma cidade maravilhosa só que devido ao calor, não nos foi possível tirar todo o partido da estadia. Quanto a A. opinou cautelosamente que o calor não a impediu da nada.
No ano passado, na Áustria, o problema fora a chuva e as inundações, pelo menos o seu rescaldo.
Agora foi o calor, um calor de rachar, de que não havia memória em França, ou na Europa, com temperaturas diurnas acima dos 40º. Eu que pensava que Sevilha era quente... Ainda, segundo a Clara, o calor obrigava-nos a andar debaixo de terra, em vez de passearmos pelas avenidas e gozarmos todo o seu esplendor. No entanto, apesar deste contratempo, conseguimos ter uma ideia bastante boa do que é a cidade. Recordo agora, entre outros momentos pesados, a deslocação a pé através do Champ de Mars para ver o túmulo do Napoleão, nos Inválidos, depois de termos saído numa estação errada do Metro.
Tínhamos de ir pela sombra e de parar de cinco em cinco minutos, embora o Manel estougasse o passo de vez quando.
E também a noite em que fomos em mangas de camisa, e t-shirt beber champanhe foleiro e ver o espectáculo do Lido.
Nessa noite, sendo mais de 2h da manhã, estavam ainda 31º nos Campos Elísios e um movimento de pessoas e carros que parecia ser o de uma hora de ponta.
À noite, dormíamos sempre sem lençóis, de janela aberta, embora mesmo assim não entrasse qualquer aragem, sem ar condicionado, nem mesmo ventoinhas, que se esgotaram na cidade. Seja como for, aguentamo-nos menos mal, à custa de muitos líquidos, muitos euros e e eu de lenços de bolso ensopados.
Era um tempo espesso, que estava instalado intangivelmente nas ruas, nas paredes do quarto ou da sala, que se experimenta quando o ar não corre minimamente, que se alastra e que parece contaminar a própria água do chuveiro ou do lavabo, já não falando na roupa da cama, que repudiamos.
Para o M. que é muito pragmático, o mais marcante, além do calor foi o custo de vida em França, mas também o civismo e nível de vida elevado que se notava por exemplo nas pequenas aldeias, onde as casas de campo pareciam casas de campo de gente abastada.
No respeitante ao custo de vida e para um amante de café, como o M., é sintomático o preço de um café em Paris, é um bom exemplo do custo de vida em França. Mas mais vale um gosto na vida, do que cem mil reis na algibeira.
Palavra de honra, digo eu com ele!!!
Infelizmente há gente que não pode, nem poderá mais, dizer o mesmo. Não é exagero dizer aqui, que em França ocorreu um verdadeiro drama humano, com milhares de vítimas, que nem o chinês Síndroma Respiratório Agudo (SRA), particularmente entre os dias 6 e 20 de Agosto. O espantoso é que, na altura, não tivemos verdadeira consciência do que se estava a passar.
Um porta-voz do governo francês, veio à TV esclarecer o público inquieto, em 20 de Agosto, que as estimativas nessa altura, em baixa, eram de cerca de 10.500 mortos pelo País fora (mais tarde ter-se-á concluído que afinal eram bastante mais), sendo aproximadamente metade das vítimas, pessoas com mais de 85 anos de idade.
Em Paris, o número de mortes suspeitas, porventura vítimas de hipertermia, terá sido naquele período, quinze vezes mais que o normal no tempo de Verão. Atingiram especialmente pessoas idosas, que viviam sós em casa, descobertas alguns dias depois após o falecimento e num estado de putrefacção, que não permitia detectar imediatamente a sua data. Segundo Le Figaro de 22 de Agosto, o record da Europa deste ano, em termos de temperatura, foi atingido em Portugal, no dia 1 de Agosto, em Amareleja-Alentejo, onde o termómetro chegou o nível histórico de 47,3º.
A propósito, e dando o desconto à brincadeira, não tenho a certeza se foi no Le Monde se no Le Figaro que li, por esta altura, o pequeno apontamento que, o nosso N., o Santo, tinha ficado com otite e dores de ouvidos, pelo menos, um dia no apartamento do Algarve, por andar demasiado de barco, ao sol e mergulhar (...) com a P.. Mandei-lhe fraternalmente, de imediato e algo preocupado, assessorado na preocupação pela nossa boa irmã C., mas que nem por isso perdeu o seu proverbial apetite, uma mensagem SMS de conforto.
Sabem o que o N. respondeu?
Ele disse-me, pelo mesmo meio, que ficou muito admirado por ter saído prontamente essa notícia, ainda por cima logo no estrangeiro, que não era para publicar, pois ele estava incógnito no Algarve.
Mas, desta vez, não usava chapéu, óculos escuros e escafandro.
E que assim pensava até em processar o dito jornal, o que nos acarretou (agora aos 4) mais uma nova preocupação. Como todos os manos sabem, ele é muito carente, diria mesmo muito sensível.
A C. um dia destes, ainda me recordou, com muita simpatia e saudade, o que preocupava, de mais, a Carminda: amigue-se, menino, amigue-se!!!
Palavra de honra, volto a dizer, a Carminda tinha afinal toda a razão!
O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal. Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a S com oito meses de pré-D., falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho.
Quando a S. nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo? Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso!
Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio N., o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.
Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos.
A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro.
Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.
Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a A o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizou muito bem fez-lhe sede.
Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.
As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.
Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm. Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos.
Não foi assim, ao que se diz, em toda a França. Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual.
Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor.
Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem.
Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada. Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755.
Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S.
Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.
O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político.
Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.
Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência. Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança.
As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.
Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.
Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado. Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo.
A A referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.
Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra.
Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos), mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.
Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés. Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto.
Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedade ou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.
Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo. Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.
ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ
-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ
-E VIVAM AS MULHERES
-EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA
-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO
-O FUTURO NO FEMININO?
-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)
-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO
Fleming de Oliveira
(I)
Há senhores, que se supõem do mundo, e mandam os seus subordinados cuspir no espelho. Até os treinam nessa arte.
Os meios de comunicação social que controlam, e nos entram em casa sem pedir licença, não comunicam, os estabelecimentos de educação para onde mandamos os filhos deseducam e o ministro, que seria suposto ser da sua confiança e ter a paixão de dialogar, ao invés, entra mudo e sai calado, à procura do respeito perdido.
Se pudessem, e bem o tentam, ensinavam-nos a pensar pelas suas cabeças, a sentir bater apenas o seu coração, a trilhar caminhos corridos pelas suas pernas.
Argumentam que assim seria melhor, começando pelos mais pequenos que deveriam naturalmente digerir as ideias pré-fabricadas e seguir as emoções dos homens e mulheres que vivem sentados o dia a dia.
Antigamente, dizia-se entre nós, era a ditadura.
Possivelmente um argumento tão mau como outro qualquer.
Agora, sentimos uma inefável presença que nos convence, subtilmente, que a incapacidade não é uma doença, mas uma fatalidade.
Paradoxalmente, o soit-disant poder democrático, diz-nos o que se pode dizer e o que se pode fazer, e define o politicamente correcto o que não pode ser.
Dizemos aos netos, o que então não dissemos aos filhos, desatem as vozes, des-sonhem os sonhos.
Gostaria, de descobrir o real maravilhoso e o fantástico, situá-los no exacto ponto de encontro da nossa terra e concluir que, jamais pode ser uma perda se, do matrimónio entre a mentira e o medo nascer a coragem e, das dúvidas, a certeza.
Os sonhos, prenunciam a realidade possível e os delírios uma forma de razão.
Isto não muda mesmo?
Somos o que fazemos para mudar o que somos.
A identidade que assumimos, não é qual peça de cristal colocada numa redoma, mas a síntese das contradições com que nos defrontamos cada dia que passa.
Acredito nesta fé, impalpável e fugidia.
É a única digna de confiança, não por lhe faltar o racionalismo, mas por ser contemporânea do bicho-homem, mesmo daquele que não tem graça, é desgraçado mas sagrado, que tem em si a louca aventura de viver no mundo, que se reconhece em mais que um grão de poeira e, um fugaz momento na infinita solidão do universo.
Há um sítio no mundo que é o ponto de encontro entre o ontem e o hoje, onde se reconhecem e, por vezes, se abraçam.
Estudei o assunto com toda a atenção e, digo-vos, que esse sítio é o amanhã.
Têm o som do futuro algumas vozes que chegam sussurradas do passado e nos recordam que somos filhos de uma terra que não se aluga, muito menos se vende.
As vozes que não se calam, os sonhos que se des-sonham, anunciam que o mundo é possível, ainda doutro modo, menos envenenador do solo que não é lixeira, do ar que é para respirar e da água dos rios que não são cloacas.
É possível, ainda ou já, um sistema sem vínculos?
Não, redondamente que não.
Desde logo porque os calados virariam os perguntadores, os demandados seriam os demandadores, não se reconhecia mais que as quezílias e divisões pudessem um dia qualquer deixar de ser ilhotas constituindo terra firme.
E isso seria mau?
Um sistema sem vínculos condenar-nos-ia à solidão.
A emoção nada teria a haver com a razão, o sexo seria independente do amor, a vida privada passaria definitivamente ao lado da vida pública, o trabalho ofenderia o prazer e a linguagem escrita opor-se-ia ao descomprometimento da falada.
E o ponto de encontro, afinal?
Um sistema sem vínculos divorciaria o ontem do hoje, pelo que a história ficaria doravante parada, adormecida, porque não dizer?, morta.
Os textos que ensinam os grandes combates e os conceitos sublimes dos mestres pensadores, os monumentos de mármore que permanecem imutáveis ou as estátuas de bronze que se plantam nos jardins, seriam os armários poeirentos onde se guardam os disfarces velhos.
A história oficial enche a nossa memória de factos inúteis.
Temos lutado, quixotescamente, contra a amnésia e gostaríamos de não tropeçar, mais uma vez, em degraus mil vezes tropeçados, de modo a história não se assemelhar a um carrocel de movimento perpétuo.
(II)
Em trabalho, faço os possíveis para não ceder a emoções.
Mas quando aquele cliente, que conhecia vagamente há alguns anos, me entrou porta dentro no escritório, com ar destroçado, e começou a contar a custo o seu problema, que aqui não vem ao caso, mesmo fazendo esforço, senti um nó na garganta.
E não mais o esqueci.
A morte de uma jovem, uma jovem esposa, é um acontecimento inaceitável. Direi mesmo absolutamente insuportável, por ser contra as regras da natureza.
A literatura portuguesa dos nossos dias, nomeadamente a poesia que, aliás, não se encontra entre o meu género preferido, ao que conheço não dá especial relevo a este género de tristezas.
É um assunto bem estafado, dirão alguns, com excepção daqueles que expõem cruamente os sentimentos, a troco de tempo de antena.
Não me considero um inexperiente que vá falar de poesia no momento em que um cliente, nem que fosse um bom amigo, tem o coração dilacerado.
Falo-lhe se necessário, cuidadosa e simplesmente de outras coisas, ainda que comezinhas, como convém e se espera de alguém que é chamado a ser mais que um jurista, porque nesse momento palavras como amor, desespero, vingança ou indemnização, causar-lhe-iam tão só horror.
-Gostava tanto da sua companhia, mais talvez que amor por ela, confessou-me muito desageitadamente.
Percebi então, na sua simplicidade complexa, que aquela frase me recordava uma situação que não consegui logo identificar, que o desespero daquele homem, pela perda da mulher, era maior do que se tivesse tido por ela uma grande paixão.
Aparentemente estranho, sem dúvida.
Mas talvez já não, se se aceitar que o homem apaixonado aceita transferir a paixão para outra pessoa, que o mais importante é a paixão e menos o seu objecto.
Os lutos da amizade são bem mais pesados que os lutos da paixão, pois não se curam facilmente, pensei para mim.
Há duas dezenas de anos, em África, em plena guerra e no mato inóspito, quando se perdia um amigo não era possível substitui-lo por outro.
Não faço generalizações, impróprias, sobre esta matéria.
Trabalho, no meu dia a dia, sobre hipóteses é certo, determinando caminhos ou soluções, muito pouco técnicas por vezes, segundo os casos expostos pelos clientes, que se revelam tão verdadeiros como um qualquer mentiroso profissional.
As minhas estatísticas, passe o pretensiosismo, têm o mérito de me permitir concluir que, mesmo utilizando dados viciados, se pode exprimir alguma verdade.
E procurar o caminho certo.
Era o caso?
Creio que não.
O tempo foi passando, até que me encontrei a gostar de conversar sobre os mais variados assuntos com aquele cliente, agora virado amigo.
Umas vezes bebíamos um uisque que tive a sorte de conservar para certos momentos e num recanto escondido a que ninguém, em casa, tinha acesso.
A conversa soltava-se e, curiosamente, quase aceitando em mim o papel de psicanalista, voltava com frequência ao tema da sua mulher perdida, de tão terna afeição.
-Atira para fora esse anel, disse-lhe com crueza, numa vibrante tirada de ocasião, quando já nos tratávamos por tu. A Luíza desapareceu, pelo que o que te resta é simplesmente apaixonares-te, como acontece com a generalidade das pessoas normais como nós, e descobrir com algum prazer como o coração faz a classificação dos sentimentos, segundo uma hierarquia ainda que arbitrária.
-Tens razão, concedeu sem constrangimento. Já me apaixonei por dez mulheres, o que nunca me acontecera com a Luíza. Mas o que sinto é a sua falta.
Acerca de mulheres, apesar dos meus cinquenta anos, tenho de reconhecer uma ignorância quase infantil, o que me impede de discorrer utilmente sobre o assunto.
Mas na convivência com o meu amigo, percebi que não há nada que se compare ao poder falar-se livremente das pessoas sobre que se teve uma terna inclinação.
Claro que não poderia dizer-lhe que volatizada a sua Luíza, ele tinha ainda assim preservado a felicidade.
Era uma fórmula demasiadamente linear para ser compreendida.
Porque o seu e o nosso estilo de vida, a sua e a nossa defesa, inclui com naturalidade a paixão de apreciar e cumprimentar as mulheres que nos rodeiam pelas suas toiletes, pela sua presença e aroma ou interessá-las pela variedade de algumas histórias ainda que chatas que se dispõem a escutar de nós.
(III)
Desde sempre o homem procurou a harmonia, partindo do pressuposto que é inalienável da beleza. Assim argumentavam os clássicos e com eles me identifico.
Podem-me dizer que este é um conceito esteticamente mais que retrógrado mas, queiramos ou não, na vida e portanto na natureza tudo se resume, afinal, a umas tantas linhas harmoniosamente rectas ou curvas.
Com traços redondos ou direitos, tudo se desenha ou contorna.
A partir de rectas ou curvas, é possível dar todas as definições, com exemplos de símbolos da natureza que nos rodeia. Vejamos!
Horizontal ou verticalmente o homem pode ser uma recta, ou seja, a linha mais curta entre dois pontos, o finito ou o infinito.
Perpendiculares são os caminhos, quebrados são porém os desejos ou os raciocínios.
As casas que habitamos têm quadrados ou rectângulos e as copas dos plátanos da Praça D. Afonso Henriques, em frente ao meu escritório, desenham meios círculos ou triângulos.
Duas paralelas no espaço, é exemplo tão comezinho que se encontra em qualquer grupo de pessoas em passo lado a lado, cujos caminhos tão próximos, estão sempre afastados.
Oblíquas, verticais, horizontais, cruzadas ou meros pontos, tudo isto está contido na vida, e persiste com tanta nitidez, que não é difícil distinguir, entre os homens, os que são oblíquos ou verticais.
E os simples ou grande pontos!
Tenho especial apreço por duas formas de que lhes vou falar ainda, se tiverem paciência para me seguir nestas divagações diletantes.
Revejo na ogiva uma referência ao estranho, melhor dizendo, ao Divino.
Creio que essa especial sensibilidade decorre de viver de há muito paredes meias com algumas ogivas, das mais belas, que o compasso ou o cinzel do homem medieval português foi capaz de legar.
Claro, as ogivas do Mosteiro de Alcobaça.
Partindo de semi-rectas, duas curvas inclinam-se uma para a outra, subindo sempre até se encontrarem num ponto comum.
Suponho que por almejarem uma ideia de elevação, os artífices das grandes catedrais as utilizaram com uso desmedido, quase se poderia dizer de abuso. Olhemos por um momento o portal do nosso Mosteiro, em que duas linhas nascidas em separado, partindo de um base comum, como que se erguem na vastidão do espaço.
Não, não se tocam no infinito porque são apenas obra do homem.
Creio que foi Rodin, e cito de memória, que levantou em escultura a sua catedral gótica, com duas mãos humanas postas em gesto de uma ogiva.
Não tenho dúvidas em concluir, a ogiva geométrica é uma das figuras mais conseguidas, desde logo por encontrar na espécie dos seres vivos e racionais, a réplica mais certa.
Mas também como poderia deixar de não apreciar a geometria do ovo?
Pois esta sugere a imagem mais feliz e concludente da vida.
Na sua simplicidade complexa contém o embrião e todas as células de que precisa a vida. Veio de repente à minha memória um apontamento de vida que vou contar e que sempre me sensibilizou.
Nos meus tempos de rapazinho de calções, a dar os primeiros passos na instrução primária, tinha um colega e vizinho cuja mãe punha uma galinha a chocar para dar os pintos no seu dia de anos para cuja festa, com mais outros meninos, era convidado.
Ela nunca se enganava e nós quando lá íamos, entre uns pontapés na bola, um refresco de grozelha e uma mousse de chocolate, maravilhvamo-nos a ver os pintos quebrar a casca e nascer. Era um belo programa e, apesar de repetido durante alguns anos, nunca nos fartámos dele.
Um amigo, que alia a fama de arguto à de cínico inveterado, diz que beleza é apenas um dos possíveis nomes de um ideal e que a paixão pela beleza é um simples sentimentalismo, um êxtase.
-Porquê?, perguntei-lhe inquieto.
-É simples. A beleza não se pode contemplar por muito tempo. Depois de um objecto belo nos transmitir a magia da sensação, o meu espírito põe-se de imediato a divagar. Não compreendo como há pessoas que ficam indefinidamente a olhar uma obra de arte ou uma paisagem. A beleza, como êxtase, é tão simples como o apetite, há pouco a dizer sobre ela. Come-se e pronto. Tudo o que se pode dizer ou recomendar sobre a Gioconda, possivelmente um dos quadros mais célebres de todos os tempos, e que conterá a beleza mais pura, é ide ao Louvre e olhai. Para além disto será a sua história, biografia ou outra coisa qualquer complementar. À beleza, para lhe dar conteúdo, há que acrescentar algumas qualidades, como a ternura, o amor ou o interesse humano. Como perfeição que é, a beleza desperta a atenção apenas por um breve momento, é um beco sem saída, é um cume da montanha que uma vez alcançado não leva a parte alguma.-Beleza não é o que satisfaz o nosso sentido estético?, ainda argumentei.
-Mas quem quer ser satisfeito, quem considera que uma migalha vale um banquete?
Bom, caros leitores, veio isto tudo, muito simples e prosaicamente, a propósito da harmonia ou da geometria do mundo.
Mas para mim, continuo a pensar sem me importar de ser apelidado de conservador, que a ogiva e o ovo são dos símbolos mais perfeitos de um programa de vivência interior...
(III)
Hoje vou contar uma história, pretensamente ilustrativa de algumas das dificuldades de comunicação que afligem as pessoas.
E só a esse título é que ela vem a propósito, se é que vem. Numa primeira análise, os meus leitores dirão, com um encolher de ombros e a resmonear, que não, o problema de comunicação, afinal, é meu.
Mas admito que não seja rigorosamente assim, pois conhecendo a economia e a harmonia social do nosso País, mais concretamente da nossa região, é por isso que sendo uma história, aceito que benevolamente mereça a qualificação de anedota.
O preto é preto.
A verdade é só uma e se um fala verdade o outro deve estar a mentir.
Se todos são filhos de Deus, também o são os que não vão em missas.
Os ciganos são ladrões.
E o Diabo é grande, apesar de haver alguns apóstolos importados do Brasil que nos querem poupar as delícias do Inferno e propor-nos em contrapartida as agruras do Céu.
A tradição já não é o que era.
O progresso é como uma auto-estrada.
Isto é assim ou devia ser.
Estão a perceber?
Talvez não.
O problema é meu?
Por mais voltas que dê e me socorra do latim, alguns clientes que vêm ao meu escritório têm mesmo dificuldade de compreender certas coisas que acho bem pouco subtis.
Mais alguns exemplos. Porque é que a justiça é tão lenta, porque é que se soltam alguns malandros, porque é que não se deixa trabalhar quem pode e quer e aquele que mais trabalha não é o que mais ganha?
É que vistas as coisas, elas são bem mais subtis do que parecem. Ou deviam parecer.
Vejamos se percebem o que quero dizer!
O preconceito pode ser um filho do medo, cheio de saúde, longe de se dispor a entregar a alma a Deus ou ao Diabo.
Se não houvesse preconceitos como é que se poderiam catalogar os bons e maus rapazes? Certas pessoas têm dificuldade de se exprimir embora sejam tão portugueses como nós. Outros têm menor facilidade em compreender.
Não se faz a prova que por ser analfabeto o seu problema seja menos importante, não importante, desimportante ou merecedor de outro qualificativo qualquer.
Passou-se no café.
Um deles era um homem de cara enrugada, o outro um rapazola que até compreendia línguas, mas ambos bebiam o seu copo, terceiro ou o quarto, sabe-se lá em qual deles iam.
-Percebeu o que eu disse? A adesão ao euro”vai ser boa para todos nós, argumentava sem qualquer pudor o rapazola que há uns dias tinham chegado da Alemanha.
Mas o homem mais velho não percebia.
-Não percebe? Vou explicar-lhe de novo.
Recomeça a explicação, numa narrativa que leva o tempo da velocidade de um copo.
-Seu burro, que não percebe nada. É por causa de vocês que este País não anda.
O homem de cara enrugada pelos anos, ele que não tinha pedido nenhuma explicação, sentiu-se ofendido e apareceu-me no dia seguinte no escritório.
Claro que ele não veio para eu lhe explicar os méritos do euro, mas para ver se se devia queixar dado não achar óbvio que o outro o rotulasse publicamente de burro.
Compreendia-se claramente, olhando para a sua cara, que de certas coisas ele pouco percebia ou nada.
Mas chamar-lhe burro é que não aceitava.
Foi então que de repente me lembrei da historieta que antigamente se contava, como uma anedota, para explicar o inexplicável.
Um cego passeava com um amigo, que a certa altura lhe disse:
-Como me apetecia um copo de leite...
-Sei o que é beber, mas que é isso de leite? - perguntou o cego.
-Um líquido branco.
-Líquido sei, mas como é que o branco se distingue do preto?
-Branco é a cor das penas daquele cisne.
-Penas sei o que é, e um cisne?
-É um pato grande, com um pescoço torto e comprido.
-Pescoço sei, mas o que é torto?
Sem paciência o amigo pegou num braço do cego e esticou-o. “Isto é direito”. De seguida torceu-o e disse que isto é torto.
-Até que enfim, disse o cego, finalmente percebi o que é o leite”.
Se o rapazola fosse mais paciente, e tivesse outra capacidade de comunicação, talvez tivesse utilizado outra argumentação para fazer compreender ao velhote afinal o que é o “euro”.
(V)
Será que o futuro vai ser feminino?
Creio que a questão não é ociosa, nem simplesmente jocosa.
Bem nos lembramos dos relatos e das fotografias das sufragistas enfrentando aguerridamente a polícia e a sociedade conservadora vitoriana para obter o seu direito de voto, embora lhes faltassem outros direitos fundamentais, mais tarde dos movimentos emancipalistas americanos dos anos sessenta visando conferir direitos acrescidos, embora de conteúdo mais social ou sexual, e muito concretamente em Portugal, o 25 de Abri, equiparando as mulheres aos homens em tudo o que as muito específicas características de cada um o não impeça.
O recente processo político-legislativo, que culminou e mal no Referendo sobre a despenalização do aborto até às dez semanas de gravidez e por livre iniciativa da mulher, embora se saiba que a concepção ainda não é um acto unilateral, tem de ser entendido também como inserido nessa dinâmica evolutiva.
Sem grande risco de ser considerado exagerado pode dizer-se que nos útimos 100 anos na Europa e Estados Unidos, tal como em Portugal embora como é costume com algum atrazo, a mulher avançou mais nos seus direitos, sociais e não só, que em todos os séculos que antecederam.
Entre o estatuto da mãe como o anjo do lar, encerrada no lar sem outros direitos que não o cuidar dos filhos e obedecer ao marido, das filhas como “rosas de estufa”, à de universitária, empresária ou política de sucesso vai uma diferença tão abissal como a da diligência ao foguetão espacial.
O paradigma salazarista da mulher, expresso pela pena de António Ferro nos anos 30, é o da mulher-menina representado pela Mary Pickford, que procura no homem o apoio paterno.
Do outro lado, surge a mulher-mãe perturbando-se pouco e irradiando paz e segurança. Suponho que a opção de Ferro para Portugal estava tomada as mulheres na América andam sempre ao colo dos homens.
A mulher, na burguesia portuense do pós-guerra que bem conheci, não possuía ainda qualquer ordenado e bens, salvo os herdados ou adquiridos pelo casamento.
O seu modelo de conduta cultural é o francês o que se compreende pela tradicional proximidade da França em relação ao nosso País.
Nos conflitos que a partir do século XIX estenderam o direito de voto às classes mais pobres da população masculina, a liderança do movimento competiu fundamentalmente aos homens eleitores.
Mas as mulheres, regra geral, tiveram de lutar por elas mesmo e, em muitos casos, foram elas a preferir que assim fosse.
Queriam conquistar sozinhas a vitória na sua causa”e não como um sub-cálculo político dos homens.
O que nem sempre foi, nem poderá ser, bem compreendido.
Nesta corrida para o futuro, a mulher tal como a ciência ou as novas tecnologias, não dispõe de um tempo de repouso, pois o que algumas propostas parecem ser hoje um puro atrevimento em breve serão possivelmente mais um conceito passadista. Voltemos, portanto, ao princípio destas notas, mas com uma nuance: o futuro corre o risco de ser feminino?
As pessoas sabem, e as estatísticas confirmam-no, que o tempo médio de duração de vida é na mulher superior ao do homem.
Se o número de nascimentos não for maior nas raparigas, os factos demonstram porém que ao fim de algum tempo há mais sobreviventos femininos que masculinos. Dizia-me muito convicta e recentemente uma auto-intitulada feminista de Alcobaça, na dúvida anónima, que feitas as contas a mulher adapta-se melhor à vida que o homem, o que não vai deixar de se traduzir muito em breve no seu papel na sociedade.
Curiosamente, pela mesma altura e como que de propósito, um amigo meu da Nazaré, alertava-me para uma situação de evolução da mulher, mas ao contrário.
Quem conhece razoavelmente o meio da Nazaré, muito especialmente o dos pescadores, apercebeu-se da existência de um tipo próprio de matriarcado, dado o peso da influência feminina no quadro da família, sem esquecer na gestão do património.
Diz-se já na Nazaré que também ali os tempos são outros, tal como os jovens, os maridos e os pais de família.
Mas desta vez a culpa é atribuída às mulheres que estão a perder influência. Claro que posso contrargumentar que elas estão apenas a realinhar-se de acordo com os parâmetros mais nacionais.
Cheguei a estar convicto que a sociedade portuguesa de 1998 se encontrava preparada para aceitar activamernte o recente Referendo.
Apesar do resultado, a dinâmica que desencadeou pode vir ajudar a alterar algumas coisas que possivelmente têm mesmo de ser mudadas.
Isto, e apenas no que me diz respeito, apesar das insanáveis dúvidas sobre o mérito da pergunta formulada aos portugueses, o que me impediu, pela primeira vez depois do 25 de Abril, de ir votar.
Seja numa perspectiva feminista, note-se entre parentesis que em muitos momentos a sociedade portuguesa é amorfa e que os movimentos feministas carecem de respeitabilidade, ou na defesa dos valores da Vida, passei a perceber que este não seria o melhor começo para exercitar a democracia directa e logo numa questão tão complexa e do foro íntimo e pessoal.
Como já tinha escrito no último número deste jornal, o movimento do sim revelou-se tão incapaz de transmitir a ideia de se tratar de um assunto de simples política criminal ou como prioritário para a sociedade portuguesa.
E sem pretender entrar à posteriori numa argumentação política tout court, defendo que o eleitorado entendeu incompreensível que o Referendo tivesse sido decidido a meio de um processo legislativo emotivo, bloqueado e pouco transparente, porque precipitado.
Para terminar, e discordando do tom aligeirado do discurso do líder do PP, tendo como pano de fundo umas tantas mulheres a cantar e a dançar vitoriando o não, de forma quase tão obscena como os abraços dos jovens e menos jovens parlamentares do PS no dia da aprovação na generalidade da Lei do Aborto, quero dizer que se a campanha foi formalmente democrática, independentemente dos argumentos alinhados pelo sim ou pelo não, a verdade é que não conseguiu abrir um espaço suficiente à intimidade mais profunda dos afectos de cada um.
Para os mais novos permito-me dizer, sem pretender extrapolar, que se o esforço solicitado pela pergunta implicava maturação, acarretava também mais interrogações que respostas. Na sociedade portuguesa deste final de século, onde a posição da mulher está longe de ter sido encontrada, a primeira linha do seu combate não é a despenalização do aborto, pois constatámos uma sociedade mais preocupada com os problemas do dia a dia e com menos tempo e disponibilidade para reflectir sobre si.
Ainda que o aborto seja dramático para uma mulher, é erradíssimo considerá-lo como uma causa feminista que só a ela diz respeito, o que leva a que alguns homens com oportunismo, outros por desinteresse, actuem quais pilatos, mesmo admitindo eventuais efeitos preversos.
Terá valido a pena certa impaciência?
Algumas pessoas argumentarão, que há cem anos como hoje, as mulheres não são eleitas com frequência para a AR, entram em muito menor proporção no governo, que há descriminação no emprego e que feitas as contas a sua luta está longe de saldar por um sucesso. Os problemas económicos e sociais estão, hoje em dia, no centro do debate.
Se a concessão do direito de voto às mulheres foi importante, não se pode esquecer que este não era um fim, mas o meio para se tratarem outras questões.
As mulheres estão cada vez mais próximas de em tudo serem consideradas iguais aos homens. Algumas iniciativas ao enfatizar sem mais essa igualdade, e para mim a lei objecto do Referendo continha graves e insanáveis contradições, que não se limitam ao enquadramento jurídico-penal da propsta, não parecem as mais condizentes com a igualdade que deve de ser ressalvada pela diferença.
A causa feminina deu lugar a uma situação hoje clara, as mulheres podem bater-se abertamente e mostrar que afinal as coisas mudaram mesmo.
(VI)
Ele é excelente na arte da autopublicidade.
A minha filha Paula, que aqui já tenho referido mais que uma vez, e que com objectivos meramente académicos chegou a estudar o perfil do homem, disse-me que em Portugal não há caso igual. Admito, todavia, que exagera um pouco nesta apreciação.
Estava a olhar para ele, com um misto de admiração e de enfado.
Misturando em doses adequadas demagogia pretensamente cristã com os elogios ao bom povo da nossa terra, o presidente perorava há cerca de um bom quarto de hora sobre as grandes vantagens do fontanário que acabava de inaugurar, com pompa e circunstância, banda de música incluída, quando a chuva começou timidamente a cair.
Os ouvintes desconcentraram-se com o facto, pelo que foi um curioso entretimento assistir à inquietude e depois indecisão dos seus acompanhantes mais chegados no palanque improvisado e sem toldo.
Durante um instante, alguns daqueles ventres importantes, o deputado, o presidente da junta, o professor primário e o pároco, detiveram-se circunspectamente a limpar os óculos. Sem perder o domínio da situação, o presidente levou ao bolso os papéis molhados que lhe serviam de suporte ao improviso e atacou com novas energias o esforço oratório, por breves momentos, interrompido. Um zeloso funcionário, aliás indefectível companheiro destas lides políticas, encontrou muito providencialmente um guarda-chuva, que abriu com encenação, e cobriu a careca da ilustre personagem.
Olhei desta vez para o lado e pensei no que tinham de comum o verberoso presidente, os políticos desafinados, mas que ainda assim o rodeavam, ou os populares a ficar entediados. A minha filha, disse-me que era apenas a esperança de verem aparecer o seu nome, na próxima semana, no relato da cerimónia feito neste jornal. O deputado, que não falta a uma inauguração ou a uma reunião com mais de duas pessoas, estava paralisado, assumindo, pareceu-me, a atitude afectada de quem assiste a um recital de poesia e ouve contar ao lado uma anedota do bocage.
Sei bem da razão porque fui convidado para esta inauguração.
Um dia, escrevi neste jornal, um artigo sobre o então candidato, referindo-o como um político promissor. Era uma simples brincadeira, admito que maliciosa, mas foi tomada a sério.
Pelo menos por ele, já que ninguém até hoje reteve ou renovou o comentário.
Agora, convidado, garantia-lhe, assim ele o esperava, nova e insuspeita publicidade.
Tudo isto era previsível, como é o comportamento do presidente no dia a dia.
Não era de todo fácil aceitar o jogo, entrando nele, mas verdade seja dita, não me deixara iludir pela sua suposta sagacidade.
De minuto a minuto, uma voz interior, a subir de tom, dizia-me que haveria que romper com o concerto de tantos autoelogios.
Para isso seria necessário sacudir todos os conjuntos de coroas de louros que ele a si próprio colocava e lembrar que um político, no Portugal de hoje, serve para mais que inaugurar fontenários.
Mas o tempo veio providencialmemte ao encontro dos meus desejos.
Em vez de grandes pingos, surgiu uma chuva discreta e morna, qual véu de tule cinzento sobre uma cabeça feminina.
Mas foi suficiente.
O presidente espirrou uma vez e inquieto pela saúde, em poucas palavras pôs termo ao discurso.
As individualidades agitaram-se e pelos aplausos que surgiram percebi que tudo estava terminado.
Além do mais, a banda de música atacou a Maria da Fonte.
(VII)
Ele supõe que a nossa aldeia é o mundo inteiro, desde que seja o presidente, se possa disfarçadamente vingar do colega de escola que há anos lhe roubou a namorada ou aumente o seu pé-de-meia.
Como vaidoso impenitente que é, embora diga que não, e com a palavra fácil que manuseia saborosamente, despreza olimpicamente os gigantes com botas de sete léguas, tal como o espaço ignora os planetas que giram eternamente sonolentos, sem jamais chocar. Se é verdade o que diz, não tem tempo para deitar a cabeça no travesseiro, tantos são os problemas da aldeia que tem de resolver pessoalmente, não avalia nem de perto nem de longe, quanto as armas do discernimento levam vantagem sobre o improviso.
Disse-lhe um dia destes, durante um trabalhoso e bem regado almoço de cozido à portuguesa, que os muros das ideias que não constrói, valeriam mais que todos os outros feitos de pedras. E como estava inspirado, estávamos a ver em directo na TV a atribuição do prémio Nobel da Paz, acrescentei que uma ideia enérgica acesa a tempo, é capaz de deter um pelotão de polícias indonésios. Respondeu-me, com o peso de um ventre bem alimentado e assessorado por umas centenas de votos que lhe asseguraram uma vitória fácil nas últimas eleições, que tudo isto é pura retórica, intelectualismo passadista, já que o que interessa na política é acreditar na terra e no bom povo que se governa com bonomia. Que depois vêm os votos certinhos.
Digam-me, caros leitores, o que que acham de tudo isto.
Como é que a nossa aldeia pode progredir se as escolas primárias fecham por falta de alunos? Como é que a nossa aldeia se pode equiparar às das redondezas, se os políticos que nos representam não conhecem a arte e a técnica de governar, se apenas se refugiam, muito empiricamente, no que dizem ser os sinais peculiares de ser português?
Os jovens, que acabam o ensino obrigatório e saiem para o mundo, afinal a nossa aldeia, utilizam lentes de aumento para perceber o que o povo quer e que não conhecem.
E, mesmo assim, viram políticos.
A professora, novata em idade e na experiência da vida, disse na aula que a política da nossa aldeia devia ser levada mais a sério e vedada por lei, aos que desconhecem os seus rudimentos e não são capazes desde logo de governar a própria casa.
E chegou até a sugerir, pelo menos assim me contou um aluno que é sobrinho do presidente, que o concurso de quadras que se costuma fazer pelos santos populares, este ano fosse substituído por um outro com o tema critérios para o desenvolvimento da aldeia.
Ia caindo o carmo e a trindade.
Ora vejam lá estas modernices, comentou o presidente.
Devem ser ideias esquerdistas, para confundir as boas almas e pôr em perigo alguns pilares da nossa cultura tradicional.
Claro que a oposição logo se apoderou da ideia da professora, que tomou como sua, e o candidato a presidente, que em tempos também perdeu a namorada em proveito do rival, começou a dizer em alto e bom som no café aos correlegionários, que para resolver um problema importante da aldeia, como é o do abandono da cultura da vinha, coisa que muito bem o preocupa segundo as más línguas, conhecendo as razões é mais fácil e proveitoso que tentar resolve-lo sem as conhecer.
Parecia óbvio o destinatário da mensagem.
Mas, a acreditar nas sondagens á opinião pública, que o presidente entretanto encomendou, ninguém lhe deu atenção.
Pelo que pode continuar a dormir sem pôr a cabeça no travesseiro.
-E VIVAM AS MULHERES
-EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA
-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO
-O FUTURO NO FEMININO?
-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)
-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO
Fleming de Oliveira
(I)
Há senhores, que se supõem do mundo, e mandam os seus subordinados cuspir no espelho. Até os treinam nessa arte.
Os meios de comunicação social que controlam, e nos entram em casa sem pedir licença, não comunicam, os estabelecimentos de educação para onde mandamos os filhos deseducam e o ministro, que seria suposto ser da sua confiança e ter a paixão de dialogar, ao invés, entra mudo e sai calado, à procura do respeito perdido.
Se pudessem, e bem o tentam, ensinavam-nos a pensar pelas suas cabeças, a sentir bater apenas o seu coração, a trilhar caminhos corridos pelas suas pernas.
Argumentam que assim seria melhor, começando pelos mais pequenos que deveriam naturalmente digerir as ideias pré-fabricadas e seguir as emoções dos homens e mulheres que vivem sentados o dia a dia.
Antigamente, dizia-se entre nós, era a ditadura.
Possivelmente um argumento tão mau como outro qualquer.
Agora, sentimos uma inefável presença que nos convence, subtilmente, que a incapacidade não é uma doença, mas uma fatalidade.
Paradoxalmente, o soit-disant poder democrático, diz-nos o que se pode dizer e o que se pode fazer, e define o politicamente correcto o que não pode ser.
Dizemos aos netos, o que então não dissemos aos filhos, desatem as vozes, des-sonhem os sonhos.
Gostaria, de descobrir o real maravilhoso e o fantástico, situá-los no exacto ponto de encontro da nossa terra e concluir que, jamais pode ser uma perda se, do matrimónio entre a mentira e o medo nascer a coragem e, das dúvidas, a certeza.
Os sonhos, prenunciam a realidade possível e os delírios uma forma de razão.
Isto não muda mesmo?
Somos o que fazemos para mudar o que somos.
A identidade que assumimos, não é qual peça de cristal colocada numa redoma, mas a síntese das contradições com que nos defrontamos cada dia que passa.
Acredito nesta fé, impalpável e fugidia.
É a única digna de confiança, não por lhe faltar o racionalismo, mas por ser contemporânea do bicho-homem, mesmo daquele que não tem graça, é desgraçado mas sagrado, que tem em si a louca aventura de viver no mundo, que se reconhece em mais que um grão de poeira e, um fugaz momento na infinita solidão do universo.
Há um sítio no mundo que é o ponto de encontro entre o ontem e o hoje, onde se reconhecem e, por vezes, se abraçam.
Estudei o assunto com toda a atenção e, digo-vos, que esse sítio é o amanhã.
Têm o som do futuro algumas vozes que chegam sussurradas do passado e nos recordam que somos filhos de uma terra que não se aluga, muito menos se vende.
As vozes que não se calam, os sonhos que se des-sonham, anunciam que o mundo é possível, ainda doutro modo, menos envenenador do solo que não é lixeira, do ar que é para respirar e da água dos rios que não são cloacas.
É possível, ainda ou já, um sistema sem vínculos?
Não, redondamente que não.
Desde logo porque os calados virariam os perguntadores, os demandados seriam os demandadores, não se reconhecia mais que as quezílias e divisões pudessem um dia qualquer deixar de ser ilhotas constituindo terra firme.
E isso seria mau?
Um sistema sem vínculos condenar-nos-ia à solidão.
A emoção nada teria a haver com a razão, o sexo seria independente do amor, a vida privada passaria definitivamente ao lado da vida pública, o trabalho ofenderia o prazer e a linguagem escrita opor-se-ia ao descomprometimento da falada.
E o ponto de encontro, afinal?
Um sistema sem vínculos divorciaria o ontem do hoje, pelo que a história ficaria doravante parada, adormecida, porque não dizer?, morta.
Os textos que ensinam os grandes combates e os conceitos sublimes dos mestres pensadores, os monumentos de mármore que permanecem imutáveis ou as estátuas de bronze que se plantam nos jardins, seriam os armários poeirentos onde se guardam os disfarces velhos.
A história oficial enche a nossa memória de factos inúteis.
Temos lutado, quixotescamente, contra a amnésia e gostaríamos de não tropeçar, mais uma vez, em degraus mil vezes tropeçados, de modo a história não se assemelhar a um carrocel de movimento perpétuo.
(II)
Em trabalho, faço os possíveis para não ceder a emoções.
Mas quando aquele cliente, que conhecia vagamente há alguns anos, me entrou porta dentro no escritório, com ar destroçado, e começou a contar a custo o seu problema, que aqui não vem ao caso, mesmo fazendo esforço, senti um nó na garganta.
E não mais o esqueci.
A morte de uma jovem, uma jovem esposa, é um acontecimento inaceitável. Direi mesmo absolutamente insuportável, por ser contra as regras da natureza.
A literatura portuguesa dos nossos dias, nomeadamente a poesia que, aliás, não se encontra entre o meu género preferido, ao que conheço não dá especial relevo a este género de tristezas.
É um assunto bem estafado, dirão alguns, com excepção daqueles que expõem cruamente os sentimentos, a troco de tempo de antena.
Não me considero um inexperiente que vá falar de poesia no momento em que um cliente, nem que fosse um bom amigo, tem o coração dilacerado.
Falo-lhe se necessário, cuidadosa e simplesmente de outras coisas, ainda que comezinhas, como convém e se espera de alguém que é chamado a ser mais que um jurista, porque nesse momento palavras como amor, desespero, vingança ou indemnização, causar-lhe-iam tão só horror.
-Gostava tanto da sua companhia, mais talvez que amor por ela, confessou-me muito desageitadamente.
Percebi então, na sua simplicidade complexa, que aquela frase me recordava uma situação que não consegui logo identificar, que o desespero daquele homem, pela perda da mulher, era maior do que se tivesse tido por ela uma grande paixão.
Aparentemente estranho, sem dúvida.
Mas talvez já não, se se aceitar que o homem apaixonado aceita transferir a paixão para outra pessoa, que o mais importante é a paixão e menos o seu objecto.
Os lutos da amizade são bem mais pesados que os lutos da paixão, pois não se curam facilmente, pensei para mim.
Há duas dezenas de anos, em África, em plena guerra e no mato inóspito, quando se perdia um amigo não era possível substitui-lo por outro.
Não faço generalizações, impróprias, sobre esta matéria.
Trabalho, no meu dia a dia, sobre hipóteses é certo, determinando caminhos ou soluções, muito pouco técnicas por vezes, segundo os casos expostos pelos clientes, que se revelam tão verdadeiros como um qualquer mentiroso profissional.
As minhas estatísticas, passe o pretensiosismo, têm o mérito de me permitir concluir que, mesmo utilizando dados viciados, se pode exprimir alguma verdade.
E procurar o caminho certo.
Era o caso?
Creio que não.
O tempo foi passando, até que me encontrei a gostar de conversar sobre os mais variados assuntos com aquele cliente, agora virado amigo.
Umas vezes bebíamos um uisque que tive a sorte de conservar para certos momentos e num recanto escondido a que ninguém, em casa, tinha acesso.
A conversa soltava-se e, curiosamente, quase aceitando em mim o papel de psicanalista, voltava com frequência ao tema da sua mulher perdida, de tão terna afeição.
-Atira para fora esse anel, disse-lhe com crueza, numa vibrante tirada de ocasião, quando já nos tratávamos por tu. A Luíza desapareceu, pelo que o que te resta é simplesmente apaixonares-te, como acontece com a generalidade das pessoas normais como nós, e descobrir com algum prazer como o coração faz a classificação dos sentimentos, segundo uma hierarquia ainda que arbitrária.
-Tens razão, concedeu sem constrangimento. Já me apaixonei por dez mulheres, o que nunca me acontecera com a Luíza. Mas o que sinto é a sua falta.
Acerca de mulheres, apesar dos meus cinquenta anos, tenho de reconhecer uma ignorância quase infantil, o que me impede de discorrer utilmente sobre o assunto.
Mas na convivência com o meu amigo, percebi que não há nada que se compare ao poder falar-se livremente das pessoas sobre que se teve uma terna inclinação.
Claro que não poderia dizer-lhe que volatizada a sua Luíza, ele tinha ainda assim preservado a felicidade.
Era uma fórmula demasiadamente linear para ser compreendida.
Porque o seu e o nosso estilo de vida, a sua e a nossa defesa, inclui com naturalidade a paixão de apreciar e cumprimentar as mulheres que nos rodeiam pelas suas toiletes, pela sua presença e aroma ou interessá-las pela variedade de algumas histórias ainda que chatas que se dispõem a escutar de nós.
(III)
Desde sempre o homem procurou a harmonia, partindo do pressuposto que é inalienável da beleza. Assim argumentavam os clássicos e com eles me identifico.
Podem-me dizer que este é um conceito esteticamente mais que retrógrado mas, queiramos ou não, na vida e portanto na natureza tudo se resume, afinal, a umas tantas linhas harmoniosamente rectas ou curvas.
Com traços redondos ou direitos, tudo se desenha ou contorna.
A partir de rectas ou curvas, é possível dar todas as definições, com exemplos de símbolos da natureza que nos rodeia. Vejamos!
Horizontal ou verticalmente o homem pode ser uma recta, ou seja, a linha mais curta entre dois pontos, o finito ou o infinito.
Perpendiculares são os caminhos, quebrados são porém os desejos ou os raciocínios.
As casas que habitamos têm quadrados ou rectângulos e as copas dos plátanos da Praça D. Afonso Henriques, em frente ao meu escritório, desenham meios círculos ou triângulos.
Duas paralelas no espaço, é exemplo tão comezinho que se encontra em qualquer grupo de pessoas em passo lado a lado, cujos caminhos tão próximos, estão sempre afastados.
Oblíquas, verticais, horizontais, cruzadas ou meros pontos, tudo isto está contido na vida, e persiste com tanta nitidez, que não é difícil distinguir, entre os homens, os que são oblíquos ou verticais.
E os simples ou grande pontos!
Tenho especial apreço por duas formas de que lhes vou falar ainda, se tiverem paciência para me seguir nestas divagações diletantes.
Revejo na ogiva uma referência ao estranho, melhor dizendo, ao Divino.
Creio que essa especial sensibilidade decorre de viver de há muito paredes meias com algumas ogivas, das mais belas, que o compasso ou o cinzel do homem medieval português foi capaz de legar.
Claro, as ogivas do Mosteiro de Alcobaça.
Partindo de semi-rectas, duas curvas inclinam-se uma para a outra, subindo sempre até se encontrarem num ponto comum.
Suponho que por almejarem uma ideia de elevação, os artífices das grandes catedrais as utilizaram com uso desmedido, quase se poderia dizer de abuso. Olhemos por um momento o portal do nosso Mosteiro, em que duas linhas nascidas em separado, partindo de um base comum, como que se erguem na vastidão do espaço.
Não, não se tocam no infinito porque são apenas obra do homem.
Creio que foi Rodin, e cito de memória, que levantou em escultura a sua catedral gótica, com duas mãos humanas postas em gesto de uma ogiva.
Não tenho dúvidas em concluir, a ogiva geométrica é uma das figuras mais conseguidas, desde logo por encontrar na espécie dos seres vivos e racionais, a réplica mais certa.
Mas também como poderia deixar de não apreciar a geometria do ovo?
Pois esta sugere a imagem mais feliz e concludente da vida.
Na sua simplicidade complexa contém o embrião e todas as células de que precisa a vida. Veio de repente à minha memória um apontamento de vida que vou contar e que sempre me sensibilizou.
Nos meus tempos de rapazinho de calções, a dar os primeiros passos na instrução primária, tinha um colega e vizinho cuja mãe punha uma galinha a chocar para dar os pintos no seu dia de anos para cuja festa, com mais outros meninos, era convidado.
Ela nunca se enganava e nós quando lá íamos, entre uns pontapés na bola, um refresco de grozelha e uma mousse de chocolate, maravilhvamo-nos a ver os pintos quebrar a casca e nascer. Era um belo programa e, apesar de repetido durante alguns anos, nunca nos fartámos dele.
Um amigo, que alia a fama de arguto à de cínico inveterado, diz que beleza é apenas um dos possíveis nomes de um ideal e que a paixão pela beleza é um simples sentimentalismo, um êxtase.
-Porquê?, perguntei-lhe inquieto.
-É simples. A beleza não se pode contemplar por muito tempo. Depois de um objecto belo nos transmitir a magia da sensação, o meu espírito põe-se de imediato a divagar. Não compreendo como há pessoas que ficam indefinidamente a olhar uma obra de arte ou uma paisagem. A beleza, como êxtase, é tão simples como o apetite, há pouco a dizer sobre ela. Come-se e pronto. Tudo o que se pode dizer ou recomendar sobre a Gioconda, possivelmente um dos quadros mais célebres de todos os tempos, e que conterá a beleza mais pura, é ide ao Louvre e olhai. Para além disto será a sua história, biografia ou outra coisa qualquer complementar. À beleza, para lhe dar conteúdo, há que acrescentar algumas qualidades, como a ternura, o amor ou o interesse humano. Como perfeição que é, a beleza desperta a atenção apenas por um breve momento, é um beco sem saída, é um cume da montanha que uma vez alcançado não leva a parte alguma.-Beleza não é o que satisfaz o nosso sentido estético?, ainda argumentei.
-Mas quem quer ser satisfeito, quem considera que uma migalha vale um banquete?
Bom, caros leitores, veio isto tudo, muito simples e prosaicamente, a propósito da harmonia ou da geometria do mundo.
Mas para mim, continuo a pensar sem me importar de ser apelidado de conservador, que a ogiva e o ovo são dos símbolos mais perfeitos de um programa de vivência interior...
(III)
Hoje vou contar uma história, pretensamente ilustrativa de algumas das dificuldades de comunicação que afligem as pessoas.
E só a esse título é que ela vem a propósito, se é que vem. Numa primeira análise, os meus leitores dirão, com um encolher de ombros e a resmonear, que não, o problema de comunicação, afinal, é meu.
Mas admito que não seja rigorosamente assim, pois conhecendo a economia e a harmonia social do nosso País, mais concretamente da nossa região, é por isso que sendo uma história, aceito que benevolamente mereça a qualificação de anedota.
O preto é preto.
A verdade é só uma e se um fala verdade o outro deve estar a mentir.
Se todos são filhos de Deus, também o são os que não vão em missas.
Os ciganos são ladrões.
E o Diabo é grande, apesar de haver alguns apóstolos importados do Brasil que nos querem poupar as delícias do Inferno e propor-nos em contrapartida as agruras do Céu.
A tradição já não é o que era.
O progresso é como uma auto-estrada.
Isto é assim ou devia ser.
Estão a perceber?
Talvez não.
O problema é meu?
Por mais voltas que dê e me socorra do latim, alguns clientes que vêm ao meu escritório têm mesmo dificuldade de compreender certas coisas que acho bem pouco subtis.
Mais alguns exemplos. Porque é que a justiça é tão lenta, porque é que se soltam alguns malandros, porque é que não se deixa trabalhar quem pode e quer e aquele que mais trabalha não é o que mais ganha?
É que vistas as coisas, elas são bem mais subtis do que parecem. Ou deviam parecer.
Vejamos se percebem o que quero dizer!
O preconceito pode ser um filho do medo, cheio de saúde, longe de se dispor a entregar a alma a Deus ou ao Diabo.
Se não houvesse preconceitos como é que se poderiam catalogar os bons e maus rapazes? Certas pessoas têm dificuldade de se exprimir embora sejam tão portugueses como nós. Outros têm menor facilidade em compreender.
Não se faz a prova que por ser analfabeto o seu problema seja menos importante, não importante, desimportante ou merecedor de outro qualificativo qualquer.
Passou-se no café.
Um deles era um homem de cara enrugada, o outro um rapazola que até compreendia línguas, mas ambos bebiam o seu copo, terceiro ou o quarto, sabe-se lá em qual deles iam.
-Percebeu o que eu disse? A adesão ao euro”vai ser boa para todos nós, argumentava sem qualquer pudor o rapazola que há uns dias tinham chegado da Alemanha.
Mas o homem mais velho não percebia.
-Não percebe? Vou explicar-lhe de novo.
Recomeça a explicação, numa narrativa que leva o tempo da velocidade de um copo.
-Seu burro, que não percebe nada. É por causa de vocês que este País não anda.
O homem de cara enrugada pelos anos, ele que não tinha pedido nenhuma explicação, sentiu-se ofendido e apareceu-me no dia seguinte no escritório.
Claro que ele não veio para eu lhe explicar os méritos do euro, mas para ver se se devia queixar dado não achar óbvio que o outro o rotulasse publicamente de burro.
Compreendia-se claramente, olhando para a sua cara, que de certas coisas ele pouco percebia ou nada.
Mas chamar-lhe burro é que não aceitava.
Foi então que de repente me lembrei da historieta que antigamente se contava, como uma anedota, para explicar o inexplicável.
Um cego passeava com um amigo, que a certa altura lhe disse:
-Como me apetecia um copo de leite...
-Sei o que é beber, mas que é isso de leite? - perguntou o cego.
-Um líquido branco.
-Líquido sei, mas como é que o branco se distingue do preto?
-Branco é a cor das penas daquele cisne.
-Penas sei o que é, e um cisne?
-É um pato grande, com um pescoço torto e comprido.
-Pescoço sei, mas o que é torto?
Sem paciência o amigo pegou num braço do cego e esticou-o. “Isto é direito”. De seguida torceu-o e disse que isto é torto.
-Até que enfim, disse o cego, finalmente percebi o que é o leite”.
Se o rapazola fosse mais paciente, e tivesse outra capacidade de comunicação, talvez tivesse utilizado outra argumentação para fazer compreender ao velhote afinal o que é o “euro”.
(V)
Será que o futuro vai ser feminino?
Creio que a questão não é ociosa, nem simplesmente jocosa.
Bem nos lembramos dos relatos e das fotografias das sufragistas enfrentando aguerridamente a polícia e a sociedade conservadora vitoriana para obter o seu direito de voto, embora lhes faltassem outros direitos fundamentais, mais tarde dos movimentos emancipalistas americanos dos anos sessenta visando conferir direitos acrescidos, embora de conteúdo mais social ou sexual, e muito concretamente em Portugal, o 25 de Abri, equiparando as mulheres aos homens em tudo o que as muito específicas características de cada um o não impeça.
O recente processo político-legislativo, que culminou e mal no Referendo sobre a despenalização do aborto até às dez semanas de gravidez e por livre iniciativa da mulher, embora se saiba que a concepção ainda não é um acto unilateral, tem de ser entendido também como inserido nessa dinâmica evolutiva.
Sem grande risco de ser considerado exagerado pode dizer-se que nos útimos 100 anos na Europa e Estados Unidos, tal como em Portugal embora como é costume com algum atrazo, a mulher avançou mais nos seus direitos, sociais e não só, que em todos os séculos que antecederam.
Entre o estatuto da mãe como o anjo do lar, encerrada no lar sem outros direitos que não o cuidar dos filhos e obedecer ao marido, das filhas como “rosas de estufa”, à de universitária, empresária ou política de sucesso vai uma diferença tão abissal como a da diligência ao foguetão espacial.
O paradigma salazarista da mulher, expresso pela pena de António Ferro nos anos 30, é o da mulher-menina representado pela Mary Pickford, que procura no homem o apoio paterno.
Do outro lado, surge a mulher-mãe perturbando-se pouco e irradiando paz e segurança. Suponho que a opção de Ferro para Portugal estava tomada as mulheres na América andam sempre ao colo dos homens.
A mulher, na burguesia portuense do pós-guerra que bem conheci, não possuía ainda qualquer ordenado e bens, salvo os herdados ou adquiridos pelo casamento.
O seu modelo de conduta cultural é o francês o que se compreende pela tradicional proximidade da França em relação ao nosso País.
Nos conflitos que a partir do século XIX estenderam o direito de voto às classes mais pobres da população masculina, a liderança do movimento competiu fundamentalmente aos homens eleitores.
Mas as mulheres, regra geral, tiveram de lutar por elas mesmo e, em muitos casos, foram elas a preferir que assim fosse.
Queriam conquistar sozinhas a vitória na sua causa”e não como um sub-cálculo político dos homens.
O que nem sempre foi, nem poderá ser, bem compreendido.
Nesta corrida para o futuro, a mulher tal como a ciência ou as novas tecnologias, não dispõe de um tempo de repouso, pois o que algumas propostas parecem ser hoje um puro atrevimento em breve serão possivelmente mais um conceito passadista. Voltemos, portanto, ao princípio destas notas, mas com uma nuance: o futuro corre o risco de ser feminino?
As pessoas sabem, e as estatísticas confirmam-no, que o tempo médio de duração de vida é na mulher superior ao do homem.
Se o número de nascimentos não for maior nas raparigas, os factos demonstram porém que ao fim de algum tempo há mais sobreviventos femininos que masculinos. Dizia-me muito convicta e recentemente uma auto-intitulada feminista de Alcobaça, na dúvida anónima, que feitas as contas a mulher adapta-se melhor à vida que o homem, o que não vai deixar de se traduzir muito em breve no seu papel na sociedade.
Curiosamente, pela mesma altura e como que de propósito, um amigo meu da Nazaré, alertava-me para uma situação de evolução da mulher, mas ao contrário.
Quem conhece razoavelmente o meio da Nazaré, muito especialmente o dos pescadores, apercebeu-se da existência de um tipo próprio de matriarcado, dado o peso da influência feminina no quadro da família, sem esquecer na gestão do património.
Diz-se já na Nazaré que também ali os tempos são outros, tal como os jovens, os maridos e os pais de família.
Mas desta vez a culpa é atribuída às mulheres que estão a perder influência. Claro que posso contrargumentar que elas estão apenas a realinhar-se de acordo com os parâmetros mais nacionais.
Cheguei a estar convicto que a sociedade portuguesa de 1998 se encontrava preparada para aceitar activamernte o recente Referendo.
Apesar do resultado, a dinâmica que desencadeou pode vir ajudar a alterar algumas coisas que possivelmente têm mesmo de ser mudadas.
Isto, e apenas no que me diz respeito, apesar das insanáveis dúvidas sobre o mérito da pergunta formulada aos portugueses, o que me impediu, pela primeira vez depois do 25 de Abril, de ir votar.
Seja numa perspectiva feminista, note-se entre parentesis que em muitos momentos a sociedade portuguesa é amorfa e que os movimentos feministas carecem de respeitabilidade, ou na defesa dos valores da Vida, passei a perceber que este não seria o melhor começo para exercitar a democracia directa e logo numa questão tão complexa e do foro íntimo e pessoal.
Como já tinha escrito no último número deste jornal, o movimento do sim revelou-se tão incapaz de transmitir a ideia de se tratar de um assunto de simples política criminal ou como prioritário para a sociedade portuguesa.
E sem pretender entrar à posteriori numa argumentação política tout court, defendo que o eleitorado entendeu incompreensível que o Referendo tivesse sido decidido a meio de um processo legislativo emotivo, bloqueado e pouco transparente, porque precipitado.
Para terminar, e discordando do tom aligeirado do discurso do líder do PP, tendo como pano de fundo umas tantas mulheres a cantar e a dançar vitoriando o não, de forma quase tão obscena como os abraços dos jovens e menos jovens parlamentares do PS no dia da aprovação na generalidade da Lei do Aborto, quero dizer que se a campanha foi formalmente democrática, independentemente dos argumentos alinhados pelo sim ou pelo não, a verdade é que não conseguiu abrir um espaço suficiente à intimidade mais profunda dos afectos de cada um.
Para os mais novos permito-me dizer, sem pretender extrapolar, que se o esforço solicitado pela pergunta implicava maturação, acarretava também mais interrogações que respostas. Na sociedade portuguesa deste final de século, onde a posição da mulher está longe de ter sido encontrada, a primeira linha do seu combate não é a despenalização do aborto, pois constatámos uma sociedade mais preocupada com os problemas do dia a dia e com menos tempo e disponibilidade para reflectir sobre si.
Ainda que o aborto seja dramático para uma mulher, é erradíssimo considerá-lo como uma causa feminista que só a ela diz respeito, o que leva a que alguns homens com oportunismo, outros por desinteresse, actuem quais pilatos, mesmo admitindo eventuais efeitos preversos.
Terá valido a pena certa impaciência?
Algumas pessoas argumentarão, que há cem anos como hoje, as mulheres não são eleitas com frequência para a AR, entram em muito menor proporção no governo, que há descriminação no emprego e que feitas as contas a sua luta está longe de saldar por um sucesso. Os problemas económicos e sociais estão, hoje em dia, no centro do debate.
Se a concessão do direito de voto às mulheres foi importante, não se pode esquecer que este não era um fim, mas o meio para se tratarem outras questões.
As mulheres estão cada vez mais próximas de em tudo serem consideradas iguais aos homens. Algumas iniciativas ao enfatizar sem mais essa igualdade, e para mim a lei objecto do Referendo continha graves e insanáveis contradições, que não se limitam ao enquadramento jurídico-penal da propsta, não parecem as mais condizentes com a igualdade que deve de ser ressalvada pela diferença.
A causa feminina deu lugar a uma situação hoje clara, as mulheres podem bater-se abertamente e mostrar que afinal as coisas mudaram mesmo.
(VI)
Ele é excelente na arte da autopublicidade.
A minha filha Paula, que aqui já tenho referido mais que uma vez, e que com objectivos meramente académicos chegou a estudar o perfil do homem, disse-me que em Portugal não há caso igual. Admito, todavia, que exagera um pouco nesta apreciação.
Estava a olhar para ele, com um misto de admiração e de enfado.
Misturando em doses adequadas demagogia pretensamente cristã com os elogios ao bom povo da nossa terra, o presidente perorava há cerca de um bom quarto de hora sobre as grandes vantagens do fontanário que acabava de inaugurar, com pompa e circunstância, banda de música incluída, quando a chuva começou timidamente a cair.
Os ouvintes desconcentraram-se com o facto, pelo que foi um curioso entretimento assistir à inquietude e depois indecisão dos seus acompanhantes mais chegados no palanque improvisado e sem toldo.
Durante um instante, alguns daqueles ventres importantes, o deputado, o presidente da junta, o professor primário e o pároco, detiveram-se circunspectamente a limpar os óculos. Sem perder o domínio da situação, o presidente levou ao bolso os papéis molhados que lhe serviam de suporte ao improviso e atacou com novas energias o esforço oratório, por breves momentos, interrompido. Um zeloso funcionário, aliás indefectível companheiro destas lides políticas, encontrou muito providencialmente um guarda-chuva, que abriu com encenação, e cobriu a careca da ilustre personagem.
Olhei desta vez para o lado e pensei no que tinham de comum o verberoso presidente, os políticos desafinados, mas que ainda assim o rodeavam, ou os populares a ficar entediados. A minha filha, disse-me que era apenas a esperança de verem aparecer o seu nome, na próxima semana, no relato da cerimónia feito neste jornal. O deputado, que não falta a uma inauguração ou a uma reunião com mais de duas pessoas, estava paralisado, assumindo, pareceu-me, a atitude afectada de quem assiste a um recital de poesia e ouve contar ao lado uma anedota do bocage.
Sei bem da razão porque fui convidado para esta inauguração.
Um dia, escrevi neste jornal, um artigo sobre o então candidato, referindo-o como um político promissor. Era uma simples brincadeira, admito que maliciosa, mas foi tomada a sério.
Pelo menos por ele, já que ninguém até hoje reteve ou renovou o comentário.
Agora, convidado, garantia-lhe, assim ele o esperava, nova e insuspeita publicidade.
Tudo isto era previsível, como é o comportamento do presidente no dia a dia.
Não era de todo fácil aceitar o jogo, entrando nele, mas verdade seja dita, não me deixara iludir pela sua suposta sagacidade.
De minuto a minuto, uma voz interior, a subir de tom, dizia-me que haveria que romper com o concerto de tantos autoelogios.
Para isso seria necessário sacudir todos os conjuntos de coroas de louros que ele a si próprio colocava e lembrar que um político, no Portugal de hoje, serve para mais que inaugurar fontenários.
Mas o tempo veio providencialmemte ao encontro dos meus desejos.
Em vez de grandes pingos, surgiu uma chuva discreta e morna, qual véu de tule cinzento sobre uma cabeça feminina.
Mas foi suficiente.
O presidente espirrou uma vez e inquieto pela saúde, em poucas palavras pôs termo ao discurso.
As individualidades agitaram-se e pelos aplausos que surgiram percebi que tudo estava terminado.
Além do mais, a banda de música atacou a Maria da Fonte.
(VII)
Ele supõe que a nossa aldeia é o mundo inteiro, desde que seja o presidente, se possa disfarçadamente vingar do colega de escola que há anos lhe roubou a namorada ou aumente o seu pé-de-meia.
Como vaidoso impenitente que é, embora diga que não, e com a palavra fácil que manuseia saborosamente, despreza olimpicamente os gigantes com botas de sete léguas, tal como o espaço ignora os planetas que giram eternamente sonolentos, sem jamais chocar. Se é verdade o que diz, não tem tempo para deitar a cabeça no travesseiro, tantos são os problemas da aldeia que tem de resolver pessoalmente, não avalia nem de perto nem de longe, quanto as armas do discernimento levam vantagem sobre o improviso.
Disse-lhe um dia destes, durante um trabalhoso e bem regado almoço de cozido à portuguesa, que os muros das ideias que não constrói, valeriam mais que todos os outros feitos de pedras. E como estava inspirado, estávamos a ver em directo na TV a atribuição do prémio Nobel da Paz, acrescentei que uma ideia enérgica acesa a tempo, é capaz de deter um pelotão de polícias indonésios. Respondeu-me, com o peso de um ventre bem alimentado e assessorado por umas centenas de votos que lhe asseguraram uma vitória fácil nas últimas eleições, que tudo isto é pura retórica, intelectualismo passadista, já que o que interessa na política é acreditar na terra e no bom povo que se governa com bonomia. Que depois vêm os votos certinhos.
Digam-me, caros leitores, o que que acham de tudo isto.
Como é que a nossa aldeia pode progredir se as escolas primárias fecham por falta de alunos? Como é que a nossa aldeia se pode equiparar às das redondezas, se os políticos que nos representam não conhecem a arte e a técnica de governar, se apenas se refugiam, muito empiricamente, no que dizem ser os sinais peculiares de ser português?
Os jovens, que acabam o ensino obrigatório e saiem para o mundo, afinal a nossa aldeia, utilizam lentes de aumento para perceber o que o povo quer e que não conhecem.
E, mesmo assim, viram políticos.
A professora, novata em idade e na experiência da vida, disse na aula que a política da nossa aldeia devia ser levada mais a sério e vedada por lei, aos que desconhecem os seus rudimentos e não são capazes desde logo de governar a própria casa.
E chegou até a sugerir, pelo menos assim me contou um aluno que é sobrinho do presidente, que o concurso de quadras que se costuma fazer pelos santos populares, este ano fosse substituído por um outro com o tema critérios para o desenvolvimento da aldeia.
Ia caindo o carmo e a trindade.
Ora vejam lá estas modernices, comentou o presidente.
Devem ser ideias esquerdistas, para confundir as boas almas e pôr em perigo alguns pilares da nossa cultura tradicional.
Claro que a oposição logo se apoderou da ideia da professora, que tomou como sua, e o candidato a presidente, que em tempos também perdeu a namorada em proveito do rival, começou a dizer em alto e bom som no café aos correlegionários, que para resolver um problema importante da aldeia, como é o do abandono da cultura da vinha, coisa que muito bem o preocupa segundo as más línguas, conhecendo as razões é mais fácil e proveitoso que tentar resolve-lo sem as conhecer.
Parecia óbvio o destinatário da mensagem.
Mas, a acreditar nas sondagens á opinião pública, que o presidente entretanto encomendou, ninguém lhe deu atenção.
Pelo que pode continuar a dormir sem pôr a cabeça no travesseiro.
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