PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(I)
-OS AUSTRÍACOS SÃO ARROGANTES?
-O SALZKAMMERGUT E A MÚSICA NO CORAÇÃO
-SALZBURG, O TEATRO DE MARIONETES E O FESTIVAL
Fleming de Oliveira
Que sabíamos nós da Áustria?
Muito pouco, possivelmente tanto quanto, na generalidade, os austríacos sabem de nós.
Que é um País do centro da Europa, em termos territoriais e populacionais ligeiramente menor que Portugal, aderiu à EU em 1995, também tem o Euro como moeda corrente e, lastimavelmente, a vida cara. Ouvíamos dizer que é um país sofisticado e de excelente qualidade de vida, onde se fala o alemão, o que para nós era indiferente, atento o nulo domínio desta língua. Salvo o caso da C. que dizia que, nos seus bons tempos do Carolina, tinha aprendido alemão, com uma dura pronúncia bávara, mas que não a impedia de o compreender, com o sotaque estírio.
Quando falamos da Áustria, pensamos logo nas suas paisagens alpinas de prados luxuriantes, verdes ou brancas, conforme a época do ano, os lagos de águas tranquilas, bordejados por aldeias pitorescas com casas muito floridas, de primeiro andar em madeira, no fundo de altas montanhas. É comum também pensar-se que a Áustria, de hoje, vive ainda sob a nostalgia do Império, que seria aliado do muito errado princípio que se trata de um país antiquado ou atrasado. Claro que na Áustria está (omni)presente tanto o Mozart, como o Francisco José e a Sissi, que quase parecem ser dos nossos dias.
Quando falamos da Áustria vem-nos, de imediato, à lembrança a saga da família von Trapp, o deslumbrante e inolvidável Música no Coração, que a B., enquanto adolescente, viu emocionada não sei quantas vezes e que teria gostado de levar ao Chuva de Estrelas, de preferência com o D. a fazer da capitão von Trapp, os simbólicos Alpes tiroleses repletos de aldeias cobertas de pequenas flores e igrejas de estilo barroco com cúpulas bulbiformes, a trilogia cinematográfica dos anos cinquenta Sissi, com a ainda debutante Romy Schneider, de seu verdadeiro nome Rose Marie Magdaleine Albach nascida em Viena a 23.Set.1938 e falecida em Paris em 29 Maio de 1982, no papel principal de ingénua. E como é óbvio as valsas, marchas e polcas dos Strauss (Pai e Filhos) ou inspirados compositores como Mahler, Bruckner ou Schubert. E ainda, os famosos festivais de música, com destaque para Salzburg, aliás a terra natal de Mozart, que ali lhe presta mais a mais descarada homenagem, mesmo vassalagem. Pode-se mesmo dizer sem exagero que não existe povoação alguma na Áustria, mesmo que pequena, que no verão não tenha o seu festival de música, mais ou menos importante, com participados concertos ao ar livre ou em salas.
Mas também quando falamos da Áustria, recordamo-nos da sua tenebrosa ligação ao passado nazi, através de um Kurt Waldheim que chegou a Secretário-Geral da ONU e depois a Presidente da República reeleito apesar de acusado, entretanto, de crimes de guerra, do Anschluss em 1938 levado a cabo por um Adolf Hitler nascido em Braunnau-Am-Inn, mais recentemente de um J. Haider, xenófobo e radical, que chegou ao governo e criou fortíssimos embaraços à EU.
Mas também não esquecemos da existência de inúmeras empresas, investigadores, escritores e desportistas de renome mundial e muito concretamente de um Sigmund Freud, que estudou a hipnoterapia e o papel desempenhado pelos sonhos no subconsciente.
Passeando calmamente pela Áustria do século XXI e pelas suas povoações, apercebemo-nos logo de estar num país muito conservador, orgulhoso da cultura predominantemente rural, bem expressa no vestir, comer e viver, de onde se excepciona, naturalmente, a cidade de Viena, a capital.
Os austríacos são arrogantes? Ou pelo contrário amáveis e hospitaleiros, com o seu mecânico bitte (faz favor), grüss gott (viva), prost(saúde) ou zum wohl(saúde)?
A sensação, mais evidente, que se colhe no campo é a paz e sossego, que se transmite com os lagos, as pastagens verdes e as inúmeras florestas de carvalhos, faias ou álamos.
Os austríacos revelam-se eficientes ou cordiais, mas tão só quanto baste. Ou seja, nem demais, nem de menos.
Para a nossa viagem à Áustria, o M e eu, levamos máquina fotográfica e câmara de vídeo. No vídeo, o M. anda a tatear, a dar os primeiros e incipientes passos, contrariamente ao que me acontece pois, sem exagero, sou um dos melhores vídeo amadores do País, ao menos em Alcobaça, experimentadíssimo, desde os tempos que em fins dos anos cinquenta, era com o A.M., cineasta e produtor independente, com a Fred´Nando Storys, passando depois nos anos sessenta pela Guiné. Não é para me gabar, que não sou desses como muito bem sabem a Aninhas e os pequenos, mas recordo que o insuspeito cineasta portuense Manoel de Oliveira viu os filmes de gangsters que fazíamos no mudo, embora verdade seja dita nunca tivéssemos chegado a saber o que ele pensava deles. Mais tarde, em meados dos anos oitenta, entrei no vídeo, também com um filme de gangsters já sonoro, perguntarão, agora, os meus críticos, porquê gangsters? rodado em Miramar (casa da X), Porto (Aeroporto Sá Carneiro) e Feira de Espinho, cujas personagens principais eram o M. e o J.. Neste filme, o Z. fazia um pequeno papel, qual Dom Corleone, de chefe da Mafia e o M., de motorista Almeida, experiência que muito lhe serviu para as nossas férias deste verão.
Os meus actuais filmes não esquecem alguns ensinamentos fundamentais do Z., ainda nos tempos do Super 8, em celulóide. A câmara está tão parada quanto possível, os objectos é que se movem. O Z. gostava, em ar de chalaça, de invocar a sua muito curta metragem, quando da ida à Exposição Universal de Bruxelas.
Em turismo, para mim, o filme é um pouco como um diário, à falta de notas escritas que não tomo, e onde não vale a pena poupar película, embora depois eventualmente se torne um pouco comprido demais. Faço-o apenas para mim, para meu gozo próprio, não com o objectivo de o mostrar à A., aos garotos e, no caso concreto da Áustria, à C. e M. Gosto de captar, se possível, imagens insólitas, recordo, en passant, a cena do jardineiro andaluz que muitas aceradas e geladas críticas mereceu da P. e, tanto quanto possível os perfis das minhas actrizes preferidas, sejam elas a A. e a C., ainda que à custa do epítepo, muito azedo, de pouco ético. Esta expressão foi recolhida da P., que é muito crítica, como disse, e assim gosta de carimbar certas afirmações. Pouco ético, nunca entendi porquê, apesar do aparente ecumenismo e das boas intenções da crítica? Aquelas boas almas, a que se juntou a C., ainda meninas ingénuas entendem que as minhas cenas de perfis, acentuam, inventam?, as rugas da cara. Aprecio, sem malícia, fazer um filme nessa lógica, de características intimistas, em contraposição com as imagens vagas, distantes, algo impessoais de outros autores. Mas o filme é tão só para mim, não é para fora, muito menos é comercial!
Na nossa viagem, o M. inicialmente pareceu dedicar-se mais às fotografias, que ao vídeo, até que notei que ele preferia a partir de certa altura comprar postais nos kiosques. Sempre era mais seguro, pensei eu, em termos de qualidade para guardar e mostrar, tal como talvez pensasse ele intimamente, embora incapaz de o confessar a mim ou à A., muito menos à C., menos ainda aos filhos.
Como disse, o M. está a iniciar-se no vídeo, com a câmara que há meses lhe vendi. Mas como engenheiro (U.P.), inteligente que é, ouviu com atenção algumas das minhas dicas e sem expressamente lhes querer reconhecer o indiscutível mérito que contêm, começou aos poucos a segui-las, com a reserva das imagens ditas de perfil ou intimistas, condescendendo à crítica da A. e da C.. E como tem uma boa mão, faz os travelings e o zoom com acerto, pelo que o seu filme da Áustria, já é bonzinho de ver.
Pena tenho eu de não poder dizer o mesmo do N. Santo, que nesta matéria é muito teimoso, não aprende nada! Nem noutras coisas, apesar dos bons conselhos das manas N. e C. E ainda da Carminda. Menino, amigue-se!. E dos Z, que gastaram tanto dinheiro, tantas preocupações tiveram e tantas empenhos meteram a pessoas importantes para fazer dele, um senhor engenheiro. Claro que não é só o N. que não segue os bons conselhos.
Veja-se o caso da nossa N., que a partir de certa altura só passou a ouvir o São José Maria B. ..., para muito desconforto de nós. Aliás, sempre foi muito teimosa desde pequenina. Quando não queria brincar com os manos nada havia a fazer. Estou cheiinha de vontade de fazer chichi. Vou ali e já venho. Claro que ainda hoje estou à espera que ela volte, já lá vão cinquenta anos.
É verdade. Admito que sou, por vezes, exagerado. Mas também não é menos verdade que não esqueço que talvez não haja céu para aqueles que em vida tiveram o extraordinário bom senso de serem sempre muito certinhos. Portanto, na dúvida, viv’ós teimosos, vivam a N., o N. e todos os outros!!!.
A nossa estadia na Áustria central, foi fundamentalmente centrada no Salzkammergut, a região dos lagos e das mais espectaculares belezas naturais preservadas, que inspiraram pintores, poetas e compositores musicais, como Ralf Benalsky, autor da divertida opereta A Estalagem do Cavalo Branco em Wolfgansee. Esta região, assim denominada desde tempos imemoriais, por o sal, salz, até ao século XIX, ter sido a sua importante fonte de riqueza, bem como para os Habsburg, tem em Salzburg a sua emblemática capital. Estou de acordo com os que dizem ser Salzburg uma das cidades mais bonitas da Europa. Se é assim, eu acrescento que então, é uma das mais belas cidades do mundo. Estende-se ao longo das margens do rio Salzach e tem os Alpes como pano de fundo. Até 1816, altura em que foi incorporada no Império Austríaco, foi uma Cidade-Estado, independente desde o tempo de Carlos Magno, governada por Príncipes-Arcebispos, grandes patronos das artes e mecenas, que conjugavam o poder temporal e espiritual. Salzburg foi durante séculos o mais importante centro eclesiástico do país.
Quando chegamos ao aeroporto de Salzburg, via Frankfurt e constatamos que não tínhamos as malas foi um sufoco no dizer da C. Houve no entanto uma coisa que ma acalmou. Os estrangeiros vip e não só, quando saíam do guichet das reclamações não tinham cara de aborrecidos. É porque acreditavam que o problema se resolvia. Talvez para mim fosse mais complicado que não estou habituada à vida de aeroporto. Realmente os austríacos foram muito eficientes apesar das nossas instalações serem a 140 km de distância.
Que se pode ver em Salzburg?
Uma rua apenas, como dizia a N, plena de certezas certas, e de convicções, (de)formadas em muitos anos de contacto estreito, com Reitores e outras importantes intelectualidades universitárias? Rotundamente errado!!!
Salzburg, apesar de muitas influências italianas, é um local solidamente germânico, óptimo para passear, repousadamente, a pé ou de biciclete, que se pode alugar com facilidade em vários pontos da cidade e tem vias próprias para circulação, e despreocupadamente comer na rua as frankfurters mit senf, com pão escuro e no fim lamber os dedos. Na esquina de Salzburg há um monumento, há sempre um monumento em cada esquina de Salzburg. Fomos lá umas duas ou três vezes.
Começamos, nestes apontamentos pela visita da Catedral, uma magnífica Igreja barroca, de traça italiana, ainda com marcas arquitectónicas românicas, terminada em meados do século XVII, com uma fachada rósea de proporções elegantes e tendo no seu interior uma cúpula imensa. Foi aqui baptizado Mozart e o órgão de tubos, é contemporâneo deste compositor. Situada no centro da cidade, encontra-se a Praça de Mozart, Mozartplatz, que se destaca pela enorme estátua e onde se pode escutar o som do famoso carrilhão tocado diariamente no Palácio do Arcebispo.
Seria de todo impossível deixar de falar nas casas onde nasceu Geburthaus e viveu Wohnhaus Mozart, a personalidade mais famosa de Salzburg. Bem como da casa onde faleceu, demolida há muitos anos.
A casa onde viveu Mozart, na Makartplatz, entre 1773 e 1780, antes de ir com a família para Viena, que a A, a C. e o M. visitaram, agora virada Casa-Museu que não acharam de muito interessante, expõe alguns objectos pessoais, como o pequeno violino onde aprendeu a tocar, uma madeixa de cabelo, cartas autografadas e partituras originais. Da loja de venda de recordações os souvenirs a A trouxe-me uma colorida borracha de apagar lápis, que muito jeito me faz no dia-a-dia no escritório..., mas que a T. está farta de pedir.
Indo pela piedonal e elegante Getreidegasse, a principal rua comercial da cidade, onde existem edifícios que remontam ao século XIII, encontramos num extremo a casa onde Mozart nasceu em Janeiro de 1756. Quando passamos a pé, à porta de madeira bem trabalhada, ostentando o nº 9, encontrava-se fechada, pelo que não a pudemos visitar. Recentemente restaurada na traça original, disseram-nos que era mais interessante que a casa onde viveu o compositor e que apresenta uma exposição que contextualiza a vida e obra do artista, nas suas vertentes familiar e musical. Encontram-se em exposição o piano do compositor e muitos objectos que foram do seu uso pessoal, além de interessante documentação sobre os primeiros anos da sua vida, passados com o pai em digressão pela Europa, como veremos adiante. Esta casa é considerada, por muitos de todo o mundo, uma autêntica Meca de amigos da música. Seria a Getreidegasse que a N. se referia, quando dizia que Salzburg é apenas uma rua? Para mim esta rua, é o mais belo e palpitante centro comercial ao ar livre que conheço e que impressiona pela sua originalidade. As numerosas tabuletas sumptuosamente ornamentadas, os portais, as fachadas bem conservadas e os pátios de arcadas, onde existem restaurantes e esplanadas, que utilizamos, são um ambiente ideal para estar e (con)viver. Aqui lastimamos, mais uma vez, o preço de algumas coisas. Os estabelecimentos comerciais estão diariamente abertos das 8h às 18h, aos sábados da parte da manhã, com a excepção do primeiro da cada mês em que o comércio abre da parte da tarde até às 17horas.
A casa onde faleceu Mozart foi demolida há muito. Todavia, acerca desse local, coligi alguns apontamentos que passo a adiantar. Perto dela ainda existe o Café Frauenhuber, em cujo primeiro andar, havia uma conceituada sala de concertos, que pertencia ao fornecedor da corte Otto Jahn. Aqui Mozart estreou o seu último concerto para piano K598. Beethoven, por sua vez, alguns mais tarde, tocou também neste local. Na Áustria romântica, havia locais aonde se escutava música, como este. Digo, propositadamente, escutar e não ouvir porque não era em todos os lugares que era possível ser melómano e sentir o prazer estético ao escutar virtuosos como Mozart ou Beethoven. Em contrapartida, os chamados músicos de café, já nesta época, procuravam fundamentalmente criar uma atmosfera, mais do que a arte.
O convento mais antigo da Áustria, se não mesmo da Europa, está localizado em Salzburg. Refiro-me a Stift Nonnberg, fundado segundo se diz no século VIII. Não houve oportunidade de o visitar, apesar de sabermos que foi aqui que foram filmadas as cenas de Música no Coração em que Maria von Trapp (Julie Andrews), tentou seguir a sua falhada vocação para freira.
Em Salzburg, melhor dizendo a cerca de 5Km, é fundamental visitar ainda, aliás como fizemos, o Schloss (Palácio) Hellbrunn, uma mansão rural, dos tempos do barroco inicial, com traça italiana, no estilo de uma villa sub-urbana, do primeiro quartel do século XVII, mandada construir pelo Príncipe-Arcebispo, Markus Sittikus. Destaca-se aqui o parque, com os seus jardins de enormes relvados e canteiros multicoloridos, com repuxos, lagos e grutas que, logo ao tempo, suscitou grande interesse no estrangeiro e serviu de modelo nalgumas situações.
O Schloss (Palácio) Mirabell também é obrigatório visitar, ver e saborear, mais não seja pelos jardins de fins do século XVII, com esculturas bizarras de gnomos, canteiros de flores e um labirinto, mandado construir pelo Príncipe-Arcebispo Wolf Dietrich von Rattenau, para a sua amante Salome Alt, de quem teve vários filhos. Foi no cima da escadaria principal, perto do famoso salão de casamentos, que Julie Andrews cantou e encantou o mundo com o Dó, Ré, Mi, do filme Música no Coração.
Em Portugal, estamos num cantinho da Europa em que os jardins são quase sempre para arrematar ruas, quando alguém se lembra deles. Mas lá, não é isso que acontece. Se alguém quiser abater uma árvore, há-de haver quem lhe acuda. E o lixo...? o lixo, pergunto eu. Quem é que entre nós se preocupa em deitar o lixo no lixo, pois se os contentores transbordam e ninguém se rala? E o cócó dos lúlús, que temos de fintar com habilidade nos passeios e jardins, para não sujar o sapato? Como lastimo que os nossos autarcas, promotores imobiliários e outros tantos, ao pé dos caixotes de betão, ditos apartamentos, que se vão erigindo como cogumelos pelo Portugal além, não coloquem canteiros de açucenas ou amor-perfeitos, nem relva, nem bancos, nem uma pequenina área de cor. Nem ao menos uma pequena luz!!!
Vandalizam tudo, argumentam despudoradamente, como se isso fosse mesmo assim.
Seguindo boas sugestões da B., fomos ao Teatro das Marionetas assistir a uma representação. São bonecos articulados que se movem, falam e cantam como verdadeiros artistas. É claro que toda a acção é obra de quem manipula os bonecos. Engana-se quem pensar que se trata de representações para crianças, pois, o Teatro das Marionetas apresenta produções e repertórios das grandes casas de ópera, usando gravações de orquestras e cantores de fama internacional. Mas houve mestres que para as marionetas escreveram expressamente boas partituras. O auditório, não muito grande, onde são representadas sobretudo peças de Mozart, é por si digno de se ver, pelos estuques e frescos. Fomos assistir à representação de O Rapto do Serralho, de Mozart. A representação inicia-se às 19h,30m e compramos lugares na primeira fila, ora viva!!! Como não tínhamos tempo de ir ao restaurante, o jantar foi umas frankfurters mit senf, ou seja, salsichas com a mostarda da praxe, comidas conjuntamente com outras pessoas, de pé, e adquiridas numa roulotte estacionada muito a propósito à beira do Teatro. Por nós, passavam pessoas de ar circunspecto em traje de noite, entre as quais muitos japoneses, seguramente para assistir a alguma representação do Salzburger Festspiele, que estava a decorrer perto. A indumentária para o Teatro das Marionetas é absolutamente informal, usando-se despreocupadamente tshirts, jeans ou tenis. Embora houvesse letreiros que diziam que não se podia tirar fotografias ou filmar, o certo é que dois xico-espertos portugueses, analfabetos, colheram imagens da sala, do foyer e até da própria representação.
O estilo de apresentação, o som, as luzes, apenas com a excepção das despreocupadas toilettes dos espectadores, criam um ambiente semelhante ao de uma ópera qualquer, muitíssimo a sério. Nada parecido daquelas óperas ditas modernas, repetitivas, com as luzes da sala apagadas e sem intervalos, para não acordar ninguém. Retenho desta representação de marionetas, umas turcalhadas, um pouco buffone, muito ao gosto do século XVIII, expressão que utilizo aqui para caracterizar um personagem cheia de banhas e gestos teatrais, algo burlesca. Relacionado com esta ópera, há um apontamento curioso que acho que vale a pena contar. Quando o Imperador José II ouviu O Rapto do Serralho, que se estreava no Hofburgtheater a 16 de Julho de 1782, historicamente a primeira ópera alemã, acrescentou ao seu elogio, o comentário de que a peça continha um número muito grande de notas. O compositor terá respondido que se tratava de tantas notas quantas eram necessárias. Ao saber desta pequena história, recordei-me que quando fazia parte dos Antigos Orfeonistas de Coimbra, havia uma peça portuguesa muito bonita mesma, que interpretávamos, mas onde me parecia que lhe faltavam algumas notas, o que me incomodava ligeiramente. Segundo importantes críticos musicais, o Imperador teria alguma razão na sua observação, pois a obra em questão tem um eminente cunho popular, que fez do singspiel uma ópera, cujos papeis apenas podiam ser desempenhados por cantores muito bem preparados. Mozart ateve-se à forma usual do singspiel, com diálogos falados, alternando-os com cantos, duetos ou ensembles, num libreto em alemão. A C. estava extasiada e dizia que mesmo não percebendo nada do libreto, isto é uma maravilha e um regalo. O singspiel alemão está mais próximo do vaudeville, do bouffe e também da òpera comique française, da zarzuela espanhola, do que da buffa italiana, que não permite nenhum diálogo falado no teatro musicado, mas interliga os números musicais fechados exclusivamente através do recitativo, que por sua vez aproxima mais do canto que da fala.
Com o êxito duradouro de Rapto do Serralho, Mozart entrou numa nova fase da sua vida, assumindo de vez o desejo de ser um respeitável compositor de ópera. No fim da peça, batemos palmas merecida e convictamente. Eu que gosto de música, mas não estou habituado a ir à ópera, lembrei-me nesse momento não sei porquê, da Maria Callas, essa diva, que no auge da fama e das suas potencialidades, em 1958 veio ao São Carlos, de Lisboa, interpretar A Dama das Camélias e na segunda récita, foi chamada 42 vezes ao palco para receber o tributo dos admiradores.
O teatro de marionetes, não é uma reserva de Salzburg, tem uma forte tradição na Áustria. Por toda a parte havia teatros de marionetas. Os mais simples e mais pobres instalavam-se numa espécie de carros que eram levados depois do espectáculo. Mas também havia casas de espectáculos destinadas apenas a marionetas, em que se representavam peças com excelentes elementos vocais e instrumentais, rivalizando a marioneta com o cantor ou comediante que poderia até eclipsar. Em Denebecq reunia baletts com anões e marionetas, dançando juntos. Marcel Brion, excelente escritor francês, estudioso de Viena no tempo de Mozart e Schubert, colocou a propósito deste assunto a seguinte e curiosa questão. Quando o homem imita tão bem os gestos dos fantoches e quando o fantoche por sua vez é tão perfeito que consegue dar a ilusão que é um homem, onde está o limite entre o real e a ilusão?
O apreço pelo teatro de marionetas não se limitava às classes inferiores. A aristocracia tinha frequentemente teatros de marionetas nos castelos. O mesmo Marcel Brion conta que em Viena, o teatro de marionetas onde cabiam 400 espectadores, estava instalado em frente à Ópera e ao Café onde cantores e instrumentistas iam refrescar-se durante os entreactos.
O M. ficou com muita pena de não ter ido visitar a fábrica da cerveja Stiegl e o seu museu, para partilhar a fascinante aventura, única na Europa, que é a de percorrer centenas de anos ao longo da história de cerveja, neste caso a de Salzburg, essa importante e democrática instituição. As fábricas de cerveja são, aliás, uma atracção de Salzburg, muitas com o seu museu próprio, com demonstrações dos vários tipos de fabrico. Tal como entre nós no Vinho do Porto, em Gaia, e no champagne da Bairrada, há sessões de degustação para os turistas e nalguns casos pode-se tentar criar uma cerveja pessoal. Como eu tenho o Vinho do Douro Fleming’s, ainda pensamos fazer uma cerveja Almeida, para competir em Portugal, com a Cintra. Desde há muito que a Áustria produz boas cervejas, louras, morenas, doces, leves e até muito graduadas.
Já o mesmo não aconteceu com a A. perante uma outra instituição salzburg/austríaca, a Mozartkugeln, uma típica especialidade feita de bolinhas de massapão, nougat e cobertas de chocolate amargo, envolvidas em papel de estanho, com a óbvia efígie de um Mozart muito corado e sorridente, de casaca vermelha, emproado qual Madame Pompadour. Esta doçaria vende-se praticamente em toda a parte, é também de certo modo um ícone, mas talvez com medo que se esgotasse...a Aninhas comprou logo uma série da caixas, para trazer para Portugal. Qual é a origem deste doce? Foi o que fui tentar saber, para poder aqui registar. Em 1890, um pasteleiro de Salzburg, de nome Paul Fürst, concebeu essas bolinhas de massapão, inicialmente confeccionadas à mão. Qual a sua ligação a Mozart? Possivelmente nenhuma, salvo a de o compositor ter passado à posteridade com a fama de muito guloso.
Falei atrás do Festival de Salzburg. Querem saber o que é, e como nasceu? Vou contar o que apurei e me disseram sobre este assunto.
Em 1917, decorria a guerra, o poeta e dramaturgo Hugo von Hoffmansthal, o compositor alemão Richard Strauss e o regente de orquestra e encenador Max Reinhardt, numa conversa havida no Café Tomasselli, de Salzburg, tiveram a luminosa ideia de criar um festival de música/teatro dedicado a Mozart. O certo é que três anos depois, a 23 de Agosto de 1920, teve lugar o primeiro Festival de Salzburg, a pugnar pelo ressuscitar da cultura, numa Europa que surgia entre os escombros da Guerra. Nesta primeira edição já participaram os mais renomados conjuntos e maestros do mundo, incluindo Herbert von Karajan, aliás natural desta cidade, e que pontificou no festival durante mais de 30 anos, especialmente a partir de 1956. O primeiro Festival abriu com a representação, diante da Catedral, da obra de von Hoffmansthal, Jedermann ou Mistério da Morte de um Homem Rico, escrita para esta ocasião e regida por Reinhard.
O Festival desenrola-se, hoje em dia, em três locais principais, ou seja, a Kleines Festspielhaus, edificada em 1926 para as pequenas óperas, a Grosses Festspielhaus para as outras, famosa pela decoração do auditório em tons lilazes e a Felsenreitschule do Príncipe-Arcebispo J. Ernst von Thun, utilizada tanto para teatro, como para ópera, dadas as suas especiais condições acústicas.
De todos os festivais do mundo, o Festival de Salzburg foi aquele que, durante anos, e como acontecimento, celebrou a música com um M em homenagem aos grandes compositores. O mais importante precedente do Festival de Salzburg, teve lugar entre 1877 e 1910, período em que se realizaram oito festivais de música, cuja direcção foi entregue a maestros tão prestigiados como Karl Richter, Gustav Mahler ou Richard Strauss.
Após a dissolução do Império Austro-Húngaro, criou-se a crença no poder das artes e na capacidade que têm em promover novos modos de pensar e experimentar.
E hoje em dia, interrogo-me eu, o que vale este Festival?
Segundo os especialistas, e nisto cada cabeça cada sentença, nas últimas décadas, estes festivais deixaram de ser a representação do costume e da tradição, para as sucessivas gerações dos apaixonados melómanos. São até objecto de polémica viva, acerca das suas novas propostas, bem como o novo tipo de clientela. A velha guarda, pouco amiga de propostas inovadoras, assiste sem entusiasmo às novas experiências.
(CONTINUA)
(I)
-OS AUSTRÍACOS SÃO ARROGANTES?
-O SALZKAMMERGUT E A MÚSICA NO CORAÇÃO
-SALZBURG, O TEATRO DE MARIONETES E O FESTIVAL
Fleming de Oliveira
Que sabíamos nós da Áustria?
Muito pouco, possivelmente tanto quanto, na generalidade, os austríacos sabem de nós.
Que é um País do centro da Europa, em termos territoriais e populacionais ligeiramente menor que Portugal, aderiu à EU em 1995, também tem o Euro como moeda corrente e, lastimavelmente, a vida cara. Ouvíamos dizer que é um país sofisticado e de excelente qualidade de vida, onde se fala o alemão, o que para nós era indiferente, atento o nulo domínio desta língua. Salvo o caso da C. que dizia que, nos seus bons tempos do Carolina, tinha aprendido alemão, com uma dura pronúncia bávara, mas que não a impedia de o compreender, com o sotaque estírio.
Quando falamos da Áustria, pensamos logo nas suas paisagens alpinas de prados luxuriantes, verdes ou brancas, conforme a época do ano, os lagos de águas tranquilas, bordejados por aldeias pitorescas com casas muito floridas, de primeiro andar em madeira, no fundo de altas montanhas. É comum também pensar-se que a Áustria, de hoje, vive ainda sob a nostalgia do Império, que seria aliado do muito errado princípio que se trata de um país antiquado ou atrasado. Claro que na Áustria está (omni)presente tanto o Mozart, como o Francisco José e a Sissi, que quase parecem ser dos nossos dias.
Quando falamos da Áustria vem-nos, de imediato, à lembrança a saga da família von Trapp, o deslumbrante e inolvidável Música no Coração, que a B., enquanto adolescente, viu emocionada não sei quantas vezes e que teria gostado de levar ao Chuva de Estrelas, de preferência com o D. a fazer da capitão von Trapp, os simbólicos Alpes tiroleses repletos de aldeias cobertas de pequenas flores e igrejas de estilo barroco com cúpulas bulbiformes, a trilogia cinematográfica dos anos cinquenta Sissi, com a ainda debutante Romy Schneider, de seu verdadeiro nome Rose Marie Magdaleine Albach nascida em Viena a 23.Set.1938 e falecida em Paris em 29 Maio de 1982, no papel principal de ingénua. E como é óbvio as valsas, marchas e polcas dos Strauss (Pai e Filhos) ou inspirados compositores como Mahler, Bruckner ou Schubert. E ainda, os famosos festivais de música, com destaque para Salzburg, aliás a terra natal de Mozart, que ali lhe presta mais a mais descarada homenagem, mesmo vassalagem. Pode-se mesmo dizer sem exagero que não existe povoação alguma na Áustria, mesmo que pequena, que no verão não tenha o seu festival de música, mais ou menos importante, com participados concertos ao ar livre ou em salas.
Mas também quando falamos da Áustria, recordamo-nos da sua tenebrosa ligação ao passado nazi, através de um Kurt Waldheim que chegou a Secretário-Geral da ONU e depois a Presidente da República reeleito apesar de acusado, entretanto, de crimes de guerra, do Anschluss em 1938 levado a cabo por um Adolf Hitler nascido em Braunnau-Am-Inn, mais recentemente de um J. Haider, xenófobo e radical, que chegou ao governo e criou fortíssimos embaraços à EU.
Mas também não esquecemos da existência de inúmeras empresas, investigadores, escritores e desportistas de renome mundial e muito concretamente de um Sigmund Freud, que estudou a hipnoterapia e o papel desempenhado pelos sonhos no subconsciente.
Passeando calmamente pela Áustria do século XXI e pelas suas povoações, apercebemo-nos logo de estar num país muito conservador, orgulhoso da cultura predominantemente rural, bem expressa no vestir, comer e viver, de onde se excepciona, naturalmente, a cidade de Viena, a capital.
Os austríacos são arrogantes? Ou pelo contrário amáveis e hospitaleiros, com o seu mecânico bitte (faz favor), grüss gott (viva), prost(saúde) ou zum wohl(saúde)?
A sensação, mais evidente, que se colhe no campo é a paz e sossego, que se transmite com os lagos, as pastagens verdes e as inúmeras florestas de carvalhos, faias ou álamos.
Os austríacos revelam-se eficientes ou cordiais, mas tão só quanto baste. Ou seja, nem demais, nem de menos.
Para a nossa viagem à Áustria, o M e eu, levamos máquina fotográfica e câmara de vídeo. No vídeo, o M. anda a tatear, a dar os primeiros e incipientes passos, contrariamente ao que me acontece pois, sem exagero, sou um dos melhores vídeo amadores do País, ao menos em Alcobaça, experimentadíssimo, desde os tempos que em fins dos anos cinquenta, era com o A.M., cineasta e produtor independente, com a Fred´Nando Storys, passando depois nos anos sessenta pela Guiné. Não é para me gabar, que não sou desses como muito bem sabem a Aninhas e os pequenos, mas recordo que o insuspeito cineasta portuense Manoel de Oliveira viu os filmes de gangsters que fazíamos no mudo, embora verdade seja dita nunca tivéssemos chegado a saber o que ele pensava deles. Mais tarde, em meados dos anos oitenta, entrei no vídeo, também com um filme de gangsters já sonoro, perguntarão, agora, os meus críticos, porquê gangsters? rodado em Miramar (casa da X), Porto (Aeroporto Sá Carneiro) e Feira de Espinho, cujas personagens principais eram o M. e o J.. Neste filme, o Z. fazia um pequeno papel, qual Dom Corleone, de chefe da Mafia e o M., de motorista Almeida, experiência que muito lhe serviu para as nossas férias deste verão.
Os meus actuais filmes não esquecem alguns ensinamentos fundamentais do Z., ainda nos tempos do Super 8, em celulóide. A câmara está tão parada quanto possível, os objectos é que se movem. O Z. gostava, em ar de chalaça, de invocar a sua muito curta metragem, quando da ida à Exposição Universal de Bruxelas.
Em turismo, para mim, o filme é um pouco como um diário, à falta de notas escritas que não tomo, e onde não vale a pena poupar película, embora depois eventualmente se torne um pouco comprido demais. Faço-o apenas para mim, para meu gozo próprio, não com o objectivo de o mostrar à A., aos garotos e, no caso concreto da Áustria, à C. e M. Gosto de captar, se possível, imagens insólitas, recordo, en passant, a cena do jardineiro andaluz que muitas aceradas e geladas críticas mereceu da P. e, tanto quanto possível os perfis das minhas actrizes preferidas, sejam elas a A. e a C., ainda que à custa do epítepo, muito azedo, de pouco ético. Esta expressão foi recolhida da P., que é muito crítica, como disse, e assim gosta de carimbar certas afirmações. Pouco ético, nunca entendi porquê, apesar do aparente ecumenismo e das boas intenções da crítica? Aquelas boas almas, a que se juntou a C., ainda meninas ingénuas entendem que as minhas cenas de perfis, acentuam, inventam?, as rugas da cara. Aprecio, sem malícia, fazer um filme nessa lógica, de características intimistas, em contraposição com as imagens vagas, distantes, algo impessoais de outros autores. Mas o filme é tão só para mim, não é para fora, muito menos é comercial!
Na nossa viagem, o M. inicialmente pareceu dedicar-se mais às fotografias, que ao vídeo, até que notei que ele preferia a partir de certa altura comprar postais nos kiosques. Sempre era mais seguro, pensei eu, em termos de qualidade para guardar e mostrar, tal como talvez pensasse ele intimamente, embora incapaz de o confessar a mim ou à A., muito menos à C., menos ainda aos filhos.
Como disse, o M. está a iniciar-se no vídeo, com a câmara que há meses lhe vendi. Mas como engenheiro (U.P.), inteligente que é, ouviu com atenção algumas das minhas dicas e sem expressamente lhes querer reconhecer o indiscutível mérito que contêm, começou aos poucos a segui-las, com a reserva das imagens ditas de perfil ou intimistas, condescendendo à crítica da A. e da C.. E como tem uma boa mão, faz os travelings e o zoom com acerto, pelo que o seu filme da Áustria, já é bonzinho de ver.
Pena tenho eu de não poder dizer o mesmo do N. Santo, que nesta matéria é muito teimoso, não aprende nada! Nem noutras coisas, apesar dos bons conselhos das manas N. e C. E ainda da Carminda. Menino, amigue-se!. E dos Z, que gastaram tanto dinheiro, tantas preocupações tiveram e tantas empenhos meteram a pessoas importantes para fazer dele, um senhor engenheiro. Claro que não é só o N. que não segue os bons conselhos.
Veja-se o caso da nossa N., que a partir de certa altura só passou a ouvir o São José Maria B. ..., para muito desconforto de nós. Aliás, sempre foi muito teimosa desde pequenina. Quando não queria brincar com os manos nada havia a fazer. Estou cheiinha de vontade de fazer chichi. Vou ali e já venho. Claro que ainda hoje estou à espera que ela volte, já lá vão cinquenta anos.
É verdade. Admito que sou, por vezes, exagerado. Mas também não é menos verdade que não esqueço que talvez não haja céu para aqueles que em vida tiveram o extraordinário bom senso de serem sempre muito certinhos. Portanto, na dúvida, viv’ós teimosos, vivam a N., o N. e todos os outros!!!.
A nossa estadia na Áustria central, foi fundamentalmente centrada no Salzkammergut, a região dos lagos e das mais espectaculares belezas naturais preservadas, que inspiraram pintores, poetas e compositores musicais, como Ralf Benalsky, autor da divertida opereta A Estalagem do Cavalo Branco em Wolfgansee. Esta região, assim denominada desde tempos imemoriais, por o sal, salz, até ao século XIX, ter sido a sua importante fonte de riqueza, bem como para os Habsburg, tem em Salzburg a sua emblemática capital. Estou de acordo com os que dizem ser Salzburg uma das cidades mais bonitas da Europa. Se é assim, eu acrescento que então, é uma das mais belas cidades do mundo. Estende-se ao longo das margens do rio Salzach e tem os Alpes como pano de fundo. Até 1816, altura em que foi incorporada no Império Austríaco, foi uma Cidade-Estado, independente desde o tempo de Carlos Magno, governada por Príncipes-Arcebispos, grandes patronos das artes e mecenas, que conjugavam o poder temporal e espiritual. Salzburg foi durante séculos o mais importante centro eclesiástico do país.
Quando chegamos ao aeroporto de Salzburg, via Frankfurt e constatamos que não tínhamos as malas foi um sufoco no dizer da C. Houve no entanto uma coisa que ma acalmou. Os estrangeiros vip e não só, quando saíam do guichet das reclamações não tinham cara de aborrecidos. É porque acreditavam que o problema se resolvia. Talvez para mim fosse mais complicado que não estou habituada à vida de aeroporto. Realmente os austríacos foram muito eficientes apesar das nossas instalações serem a 140 km de distância.
Que se pode ver em Salzburg?
Uma rua apenas, como dizia a N, plena de certezas certas, e de convicções, (de)formadas em muitos anos de contacto estreito, com Reitores e outras importantes intelectualidades universitárias? Rotundamente errado!!!
Salzburg, apesar de muitas influências italianas, é um local solidamente germânico, óptimo para passear, repousadamente, a pé ou de biciclete, que se pode alugar com facilidade em vários pontos da cidade e tem vias próprias para circulação, e despreocupadamente comer na rua as frankfurters mit senf, com pão escuro e no fim lamber os dedos. Na esquina de Salzburg há um monumento, há sempre um monumento em cada esquina de Salzburg. Fomos lá umas duas ou três vezes.
Começamos, nestes apontamentos pela visita da Catedral, uma magnífica Igreja barroca, de traça italiana, ainda com marcas arquitectónicas românicas, terminada em meados do século XVII, com uma fachada rósea de proporções elegantes e tendo no seu interior uma cúpula imensa. Foi aqui baptizado Mozart e o órgão de tubos, é contemporâneo deste compositor. Situada no centro da cidade, encontra-se a Praça de Mozart, Mozartplatz, que se destaca pela enorme estátua e onde se pode escutar o som do famoso carrilhão tocado diariamente no Palácio do Arcebispo.
Seria de todo impossível deixar de falar nas casas onde nasceu Geburthaus e viveu Wohnhaus Mozart, a personalidade mais famosa de Salzburg. Bem como da casa onde faleceu, demolida há muitos anos.
A casa onde viveu Mozart, na Makartplatz, entre 1773 e 1780, antes de ir com a família para Viena, que a A, a C. e o M. visitaram, agora virada Casa-Museu que não acharam de muito interessante, expõe alguns objectos pessoais, como o pequeno violino onde aprendeu a tocar, uma madeixa de cabelo, cartas autografadas e partituras originais. Da loja de venda de recordações os souvenirs a A trouxe-me uma colorida borracha de apagar lápis, que muito jeito me faz no dia-a-dia no escritório..., mas que a T. está farta de pedir.
Indo pela piedonal e elegante Getreidegasse, a principal rua comercial da cidade, onde existem edifícios que remontam ao século XIII, encontramos num extremo a casa onde Mozart nasceu em Janeiro de 1756. Quando passamos a pé, à porta de madeira bem trabalhada, ostentando o nº 9, encontrava-se fechada, pelo que não a pudemos visitar. Recentemente restaurada na traça original, disseram-nos que era mais interessante que a casa onde viveu o compositor e que apresenta uma exposição que contextualiza a vida e obra do artista, nas suas vertentes familiar e musical. Encontram-se em exposição o piano do compositor e muitos objectos que foram do seu uso pessoal, além de interessante documentação sobre os primeiros anos da sua vida, passados com o pai em digressão pela Europa, como veremos adiante. Esta casa é considerada, por muitos de todo o mundo, uma autêntica Meca de amigos da música. Seria a Getreidegasse que a N. se referia, quando dizia que Salzburg é apenas uma rua? Para mim esta rua, é o mais belo e palpitante centro comercial ao ar livre que conheço e que impressiona pela sua originalidade. As numerosas tabuletas sumptuosamente ornamentadas, os portais, as fachadas bem conservadas e os pátios de arcadas, onde existem restaurantes e esplanadas, que utilizamos, são um ambiente ideal para estar e (con)viver. Aqui lastimamos, mais uma vez, o preço de algumas coisas. Os estabelecimentos comerciais estão diariamente abertos das 8h às 18h, aos sábados da parte da manhã, com a excepção do primeiro da cada mês em que o comércio abre da parte da tarde até às 17horas.
A casa onde faleceu Mozart foi demolida há muito. Todavia, acerca desse local, coligi alguns apontamentos que passo a adiantar. Perto dela ainda existe o Café Frauenhuber, em cujo primeiro andar, havia uma conceituada sala de concertos, que pertencia ao fornecedor da corte Otto Jahn. Aqui Mozart estreou o seu último concerto para piano K598. Beethoven, por sua vez, alguns mais tarde, tocou também neste local. Na Áustria romântica, havia locais aonde se escutava música, como este. Digo, propositadamente, escutar e não ouvir porque não era em todos os lugares que era possível ser melómano e sentir o prazer estético ao escutar virtuosos como Mozart ou Beethoven. Em contrapartida, os chamados músicos de café, já nesta época, procuravam fundamentalmente criar uma atmosfera, mais do que a arte.
O convento mais antigo da Áustria, se não mesmo da Europa, está localizado em Salzburg. Refiro-me a Stift Nonnberg, fundado segundo se diz no século VIII. Não houve oportunidade de o visitar, apesar de sabermos que foi aqui que foram filmadas as cenas de Música no Coração em que Maria von Trapp (Julie Andrews), tentou seguir a sua falhada vocação para freira.
Em Salzburg, melhor dizendo a cerca de 5Km, é fundamental visitar ainda, aliás como fizemos, o Schloss (Palácio) Hellbrunn, uma mansão rural, dos tempos do barroco inicial, com traça italiana, no estilo de uma villa sub-urbana, do primeiro quartel do século XVII, mandada construir pelo Príncipe-Arcebispo, Markus Sittikus. Destaca-se aqui o parque, com os seus jardins de enormes relvados e canteiros multicoloridos, com repuxos, lagos e grutas que, logo ao tempo, suscitou grande interesse no estrangeiro e serviu de modelo nalgumas situações.
O Schloss (Palácio) Mirabell também é obrigatório visitar, ver e saborear, mais não seja pelos jardins de fins do século XVII, com esculturas bizarras de gnomos, canteiros de flores e um labirinto, mandado construir pelo Príncipe-Arcebispo Wolf Dietrich von Rattenau, para a sua amante Salome Alt, de quem teve vários filhos. Foi no cima da escadaria principal, perto do famoso salão de casamentos, que Julie Andrews cantou e encantou o mundo com o Dó, Ré, Mi, do filme Música no Coração.
Em Portugal, estamos num cantinho da Europa em que os jardins são quase sempre para arrematar ruas, quando alguém se lembra deles. Mas lá, não é isso que acontece. Se alguém quiser abater uma árvore, há-de haver quem lhe acuda. E o lixo...? o lixo, pergunto eu. Quem é que entre nós se preocupa em deitar o lixo no lixo, pois se os contentores transbordam e ninguém se rala? E o cócó dos lúlús, que temos de fintar com habilidade nos passeios e jardins, para não sujar o sapato? Como lastimo que os nossos autarcas, promotores imobiliários e outros tantos, ao pé dos caixotes de betão, ditos apartamentos, que se vão erigindo como cogumelos pelo Portugal além, não coloquem canteiros de açucenas ou amor-perfeitos, nem relva, nem bancos, nem uma pequenina área de cor. Nem ao menos uma pequena luz!!!
Vandalizam tudo, argumentam despudoradamente, como se isso fosse mesmo assim.
Seguindo boas sugestões da B., fomos ao Teatro das Marionetas assistir a uma representação. São bonecos articulados que se movem, falam e cantam como verdadeiros artistas. É claro que toda a acção é obra de quem manipula os bonecos. Engana-se quem pensar que se trata de representações para crianças, pois, o Teatro das Marionetas apresenta produções e repertórios das grandes casas de ópera, usando gravações de orquestras e cantores de fama internacional. Mas houve mestres que para as marionetas escreveram expressamente boas partituras. O auditório, não muito grande, onde são representadas sobretudo peças de Mozart, é por si digno de se ver, pelos estuques e frescos. Fomos assistir à representação de O Rapto do Serralho, de Mozart. A representação inicia-se às 19h,30m e compramos lugares na primeira fila, ora viva!!! Como não tínhamos tempo de ir ao restaurante, o jantar foi umas frankfurters mit senf, ou seja, salsichas com a mostarda da praxe, comidas conjuntamente com outras pessoas, de pé, e adquiridas numa roulotte estacionada muito a propósito à beira do Teatro. Por nós, passavam pessoas de ar circunspecto em traje de noite, entre as quais muitos japoneses, seguramente para assistir a alguma representação do Salzburger Festspiele, que estava a decorrer perto. A indumentária para o Teatro das Marionetas é absolutamente informal, usando-se despreocupadamente tshirts, jeans ou tenis. Embora houvesse letreiros que diziam que não se podia tirar fotografias ou filmar, o certo é que dois xico-espertos portugueses, analfabetos, colheram imagens da sala, do foyer e até da própria representação.
O estilo de apresentação, o som, as luzes, apenas com a excepção das despreocupadas toilettes dos espectadores, criam um ambiente semelhante ao de uma ópera qualquer, muitíssimo a sério. Nada parecido daquelas óperas ditas modernas, repetitivas, com as luzes da sala apagadas e sem intervalos, para não acordar ninguém. Retenho desta representação de marionetas, umas turcalhadas, um pouco buffone, muito ao gosto do século XVIII, expressão que utilizo aqui para caracterizar um personagem cheia de banhas e gestos teatrais, algo burlesca. Relacionado com esta ópera, há um apontamento curioso que acho que vale a pena contar. Quando o Imperador José II ouviu O Rapto do Serralho, que se estreava no Hofburgtheater a 16 de Julho de 1782, historicamente a primeira ópera alemã, acrescentou ao seu elogio, o comentário de que a peça continha um número muito grande de notas. O compositor terá respondido que se tratava de tantas notas quantas eram necessárias. Ao saber desta pequena história, recordei-me que quando fazia parte dos Antigos Orfeonistas de Coimbra, havia uma peça portuguesa muito bonita mesma, que interpretávamos, mas onde me parecia que lhe faltavam algumas notas, o que me incomodava ligeiramente. Segundo importantes críticos musicais, o Imperador teria alguma razão na sua observação, pois a obra em questão tem um eminente cunho popular, que fez do singspiel uma ópera, cujos papeis apenas podiam ser desempenhados por cantores muito bem preparados. Mozart ateve-se à forma usual do singspiel, com diálogos falados, alternando-os com cantos, duetos ou ensembles, num libreto em alemão. A C. estava extasiada e dizia que mesmo não percebendo nada do libreto, isto é uma maravilha e um regalo. O singspiel alemão está mais próximo do vaudeville, do bouffe e também da òpera comique française, da zarzuela espanhola, do que da buffa italiana, que não permite nenhum diálogo falado no teatro musicado, mas interliga os números musicais fechados exclusivamente através do recitativo, que por sua vez aproxima mais do canto que da fala.
Com o êxito duradouro de Rapto do Serralho, Mozart entrou numa nova fase da sua vida, assumindo de vez o desejo de ser um respeitável compositor de ópera. No fim da peça, batemos palmas merecida e convictamente. Eu que gosto de música, mas não estou habituado a ir à ópera, lembrei-me nesse momento não sei porquê, da Maria Callas, essa diva, que no auge da fama e das suas potencialidades, em 1958 veio ao São Carlos, de Lisboa, interpretar A Dama das Camélias e na segunda récita, foi chamada 42 vezes ao palco para receber o tributo dos admiradores.
O teatro de marionetes, não é uma reserva de Salzburg, tem uma forte tradição na Áustria. Por toda a parte havia teatros de marionetas. Os mais simples e mais pobres instalavam-se numa espécie de carros que eram levados depois do espectáculo. Mas também havia casas de espectáculos destinadas apenas a marionetas, em que se representavam peças com excelentes elementos vocais e instrumentais, rivalizando a marioneta com o cantor ou comediante que poderia até eclipsar. Em Denebecq reunia baletts com anões e marionetas, dançando juntos. Marcel Brion, excelente escritor francês, estudioso de Viena no tempo de Mozart e Schubert, colocou a propósito deste assunto a seguinte e curiosa questão. Quando o homem imita tão bem os gestos dos fantoches e quando o fantoche por sua vez é tão perfeito que consegue dar a ilusão que é um homem, onde está o limite entre o real e a ilusão?
O apreço pelo teatro de marionetas não se limitava às classes inferiores. A aristocracia tinha frequentemente teatros de marionetas nos castelos. O mesmo Marcel Brion conta que em Viena, o teatro de marionetas onde cabiam 400 espectadores, estava instalado em frente à Ópera e ao Café onde cantores e instrumentistas iam refrescar-se durante os entreactos.
O M. ficou com muita pena de não ter ido visitar a fábrica da cerveja Stiegl e o seu museu, para partilhar a fascinante aventura, única na Europa, que é a de percorrer centenas de anos ao longo da história de cerveja, neste caso a de Salzburg, essa importante e democrática instituição. As fábricas de cerveja são, aliás, uma atracção de Salzburg, muitas com o seu museu próprio, com demonstrações dos vários tipos de fabrico. Tal como entre nós no Vinho do Porto, em Gaia, e no champagne da Bairrada, há sessões de degustação para os turistas e nalguns casos pode-se tentar criar uma cerveja pessoal. Como eu tenho o Vinho do Douro Fleming’s, ainda pensamos fazer uma cerveja Almeida, para competir em Portugal, com a Cintra. Desde há muito que a Áustria produz boas cervejas, louras, morenas, doces, leves e até muito graduadas.
Já o mesmo não aconteceu com a A. perante uma outra instituição salzburg/austríaca, a Mozartkugeln, uma típica especialidade feita de bolinhas de massapão, nougat e cobertas de chocolate amargo, envolvidas em papel de estanho, com a óbvia efígie de um Mozart muito corado e sorridente, de casaca vermelha, emproado qual Madame Pompadour. Esta doçaria vende-se praticamente em toda a parte, é também de certo modo um ícone, mas talvez com medo que se esgotasse...a Aninhas comprou logo uma série da caixas, para trazer para Portugal. Qual é a origem deste doce? Foi o que fui tentar saber, para poder aqui registar. Em 1890, um pasteleiro de Salzburg, de nome Paul Fürst, concebeu essas bolinhas de massapão, inicialmente confeccionadas à mão. Qual a sua ligação a Mozart? Possivelmente nenhuma, salvo a de o compositor ter passado à posteridade com a fama de muito guloso.
Falei atrás do Festival de Salzburg. Querem saber o que é, e como nasceu? Vou contar o que apurei e me disseram sobre este assunto.
Em 1917, decorria a guerra, o poeta e dramaturgo Hugo von Hoffmansthal, o compositor alemão Richard Strauss e o regente de orquestra e encenador Max Reinhardt, numa conversa havida no Café Tomasselli, de Salzburg, tiveram a luminosa ideia de criar um festival de música/teatro dedicado a Mozart. O certo é que três anos depois, a 23 de Agosto de 1920, teve lugar o primeiro Festival de Salzburg, a pugnar pelo ressuscitar da cultura, numa Europa que surgia entre os escombros da Guerra. Nesta primeira edição já participaram os mais renomados conjuntos e maestros do mundo, incluindo Herbert von Karajan, aliás natural desta cidade, e que pontificou no festival durante mais de 30 anos, especialmente a partir de 1956. O primeiro Festival abriu com a representação, diante da Catedral, da obra de von Hoffmansthal, Jedermann ou Mistério da Morte de um Homem Rico, escrita para esta ocasião e regida por Reinhard.
O Festival desenrola-se, hoje em dia, em três locais principais, ou seja, a Kleines Festspielhaus, edificada em 1926 para as pequenas óperas, a Grosses Festspielhaus para as outras, famosa pela decoração do auditório em tons lilazes e a Felsenreitschule do Príncipe-Arcebispo J. Ernst von Thun, utilizada tanto para teatro, como para ópera, dadas as suas especiais condições acústicas.
De todos os festivais do mundo, o Festival de Salzburg foi aquele que, durante anos, e como acontecimento, celebrou a música com um M em homenagem aos grandes compositores. O mais importante precedente do Festival de Salzburg, teve lugar entre 1877 e 1910, período em que se realizaram oito festivais de música, cuja direcção foi entregue a maestros tão prestigiados como Karl Richter, Gustav Mahler ou Richard Strauss.
Após a dissolução do Império Austro-Húngaro, criou-se a crença no poder das artes e na capacidade que têm em promover novos modos de pensar e experimentar.
E hoje em dia, interrogo-me eu, o que vale este Festival?
Segundo os especialistas, e nisto cada cabeça cada sentença, nas últimas décadas, estes festivais deixaram de ser a representação do costume e da tradição, para as sucessivas gerações dos apaixonados melómanos. São até objecto de polémica viva, acerca das suas novas propostas, bem como o novo tipo de clientela. A velha guarda, pouco amiga de propostas inovadoras, assiste sem entusiasmo às novas experiências.
(CONTINUA)
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