PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(III)
-FRANCISCO JOSÉ, BAD ISCHL E KATHARINA SCHRATT
-MAIS UMA VEZ BAD ISCHL
-AS TRAGÉDIAS DE MAYERLING E SARAJEVO
-A FAMÍLIA STRAUSS, PAI E FILHO
-O DANÚBIO AZUL
-SISSI, AINDA PRESENTE (2002) EM TODA A PARTE
-SISSI, TAMBÉM FEZ POESIA
-O TIROL
Fleming de Oliveira
Em Bad Ischl, onde o Imperador havia encontrado a esposa, ocorreu o último adeus entre ambos. A 15 de Julho de 1898, ela saiu para uma viagem durante a qual, foi assassinada em Geneve (Suíça).
Não terá sido fácil ao Imperador suportar esta tragédia, pois parece que sempre amou a Mulher. Até ao fim da sua vida manteve um enorme quadro na parede do seu escritório e muitos anos depois da morte de Isabel escreveu: O tempo passa mas a dor permanece. Em Ischl tinham de prosseguir as recepções oficiais, e no Salzkammergut fazia-se a grande política europeia, por exemplo, como quando entre 1905 e 1908, Eduardo VII, de Inglaterra, lá foi por três vezes. A 12 de Agosto de 1908, realizou-se na Kaiservilla Zu Ischl, uma Gala-Déjeûner e no final, o Imperador com 78 anos de idade, deu com o ilustre hóspede inglês, o primeiro passeio de automóvel. À noite na Kurhaus os dois soberanos exaltaram as suas relações amistosas e cordiais. A realidade, porém, era bem diversa. Eduardo VII tentara, em vão, afastar Francisco José do seu aliado alemão.
Para este tipo de compromissos, a corte estava convenientemente preparada, também, na residência de verão de Bad Ischl. Dispunha de muitos criados, uma cozinha bem equipada e tudo o mais que fosse necessário. O edifício das cozinhas é hoje em dia visitável, bem como uma escada em madeira, fechada, que lhe dá acesso, pela qual era transportada a comida para a villa. Os aposentos dos criados e as cavalariças acolhem, no nosso tempo, a Escola Regional de Música da Áustria Superior. Também se podiam organizar aqui as festas da corte, as comemorações do aniversário do Imperador e até a festa mais faustosa jamais realizada em Ischl, o casamento de Maria Valeria, filha do Imperador, que em 1890 quis casar ali.
A propósito do encontro entre os Imperadores da Áustria e da Alemanha, ocorrido em Ischl em 1877, conta-se que por alturas da partida de Guilherme I, uma jovem de Brunswick quis oferecer-lhe um ramo de flores. Antes da saída da carruagem, a jovem solicitou a um oficial que entregasse por si essas flores ao Imperador. O oficial de bom grado acedeu ao seu pedido e depois dirigindo-se a ela com um sorriso, disse-lhe que Guilherme I, agradecia muito. Acontece que, para grande espanto da jovem, viu o tão amável oficial sentar-se ao lado do Imperador alemão. Perguntou então quem era ele e a resposta foi simples e clara: O Imperador da Áustria.
Para este casamento, bem como para outros eventos religiosos, a corte utilizava a Capela Paroquial de Ischl. Trata-se de uma igreja que se manteve modesta ao longo do tempo, uma típica igreja de campo, apesar de decorada com frescos, que reproduzem pessoas da família imperial. No fresco da unção dos enfermos o santo óleo é deitado sobre a cabeça do velho pai do imperador (o enfermo é o Arquiduque Francisco Carlos), enquanto que ao fundo se reconhecem os próprios Francisco José e Isabel a rezar.
O que o Imperador apreciava mais que tudo, em Bad Ischl, era a possibilidade de caçar, na alta montanha. Ele dispunha de um couto de 142.000 hectares, com muitas casas e cabanas, entre as quais o Jagdschloss (Palácio de Caça) debruçado sobre o Offensee. Começava cedo a sua jornada, antes da aurora, e preparava-a com paciência e esmero, mesmo em idade avançada. Ao lado dos caçadores e dos guarda-bosques, com o seu chapéu castanho, redondo, com penas de lado, gravata e por vezes calções, era mais um, como qualquer outro. Sinais significativos do que se refere, é a mesa redonda de pedra, com oito bancos redondos, também de pedra, no vale do Wissenbach, perto de Bad Goisern, onde o Imperador gostava de fumar uma cachimbada, descansar com os companheiros e um pequeno monumento em Katenbachau, no bosque entre Ischl e Lauffen, que representa Francisco José a caçar, oferecido pelas Associações Venatórias da Áustria-Hungria em 1910. A filha Maria Valeria descreveu esta paixão do seu pai pela caça, com uns versos:
Fugindo do bulício da cidade,
Vem o meu Pai depressa para o sossego profundo,
Quando sobre a cabeça, a coroa é muito pesada.
Esquece aqui as preocupações,
Dedica-se apenas à nobre arte da caça,
E recupera a força juvenil da livre natureza
De Deus.
O povo tinha pelo soberano uma dedicação que não se manifestava com grandes explosões de alegria, mas antes uma espécie da amizade diferente, como se fosse natural que ele circulasse familiarmente, por entre todos os súbditos. Esta pressa de deixar a cidade, não é apanágio do imperador, é um traço do temperamento do austríaco citadino comum. O amor pela natureza é a razão de ser do êxodo para o campo e os jardins, belos e abundantes, o desejo de reservar uma porção do tempo para si, que deve ser tirado das obrigações quotidianas.
Em 1886, uma renomada actriz do Burgtheater de Viena, Katharina Schratt passou pela primeira vez o verão no Salzkammergut. Havia alugado a isolada Villa Frauenstein, a oeste de St. Wolfgang, e lá passou a ir visitá-la o seu admirador, apenas admirador?, Francisco José: Sairei daqui às sete para St. Wolfgang, escreveu à actriz e andarei até ter encontrado Frauenstein. Espero voltar e ver-nos em breve. Seu admirador, Francisco José.
Em 1889, a amiga do soberano, mudou-se para a Villa Felecitas, em Bad Ischl, que depois passou a ser conhecida como a Villa Schratt, fixando a sua residência de verão perto da Villa Imperial. O Imperador ia com frequência à Villa Felicitas, principalmente no fresco da manhã para conversar, tomar café e comer uma fatia de torta. Do ponto de vista pessoal, Isabel pouco se importava que o marido tivesse amantes, para compensar o afastamento do casal e diz-se que chegou mesmo a colaborar com Katharina Schratt, fingindo ser sua amiga, para que esta também pudesse frequentar o palácio sem escândalo. Já a Imperatriz, ao que se saiba, nunca teve devaneios extraconjugais.
Graças ao Imperador Bad Ischl, converteu-se, no período estival, no ponto de encontro da grande aristocracia Austro-Húngara. Antes, uma insignificante vilória, num vale perdido, transformou-se numa das estâncias termais mais em moda na Europa e políticos, artistas e outros que se queriam fazer notar e passar por pessoas importantes, não deixaram mais de marcar presença nesta zona. A veneração ao Imperador era tão grande que ele era o centro de tudo. As crónicas do tempo descrevem inúmeras homenagens à sua pessoa. Pode-se recordar que, em 1888 Johann Stauss (Filho) para celebrar o 40º aniversário da subida ao trono de Francisco José compôs a célebre Kaiser-Waltzer, Valsa do Imperador. No mês de Julho de 1898, reuniram-se em Bad Ischl, por ocasião do quinquagésimo aniversário da sua subida ao trono, 1.500 ciclistas de todo o Império, que desfilaram diante dele. Johann Strauss (Filho) compôs uma marcha justamente para esta ocasião e a festa terminou com um apoteótico lançamento de fogo de artifício. Em Jainzental, existe uma lápide comemorativa do primeiro veado morto por Rudolfo, o Príncipe herdeiro, entretanto falecido tragicamente. Vejamos rapidamente como isso aconteceu. Em 1889, em Mayerling, onde os bosques invadem os contrafortes alpinos, foi encontrado morto com a amante Maria Vetsera, Rudolfo, o herdeiro do trono austro-húngaro, que contava 30 anos. O desespero de Rudolfo, foi mais que um enorme escândalo social, foi um golpe para a monarquia, dado que se tratava de homem estimado, progressista e inteligente e segundo consta terá sido determinado, pelo menos agravado de novo aqui, pelo severo protocolo da corte. A tragédia ocorreu no então pavilhão de caça, entretanto transformado em capela, por um convento da regra carmelita, a quem foi oferecido por Francisco José.
No mês de Julho de 1914, Francisco José, então com 84 anos, assinou na Kaiservilla, o ultimatum à Sérvia, que marcou o começo da Primeira Guerra. A 30 de Julho de 1914 deixou para sempre a sua residência de Verão.
A 28 de Junho de 1914, o herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Fernando de Habsburg e sua esposa, a Duquesa de Hohenberg, foram assassinados em Serajevo, capital da Bósnia, pelo estudante Gavrilo Princip. O Arquiduque Francisco Fernando morreu de imediato ao ser atingido com um tiro na cabeça, enquanto que a esposa, atingida no estômago, veio a morrer pouco depois. O clima político em que o atentado se inscreveu era explosivo e não foi mais que o último elo de uma cadeia de actos terroristas contra a monarquia austro-húngara. A finalidade era colocar em evidência a falta de legitimidade dos Habsburg na Bósnia-Herzegovina. Este atentado acabou por ser o acto imediato do deflagar da I Grande Guerra.
Sem pretender fazer, repito, daqui um manual de história para estudantes ou curiosos, posso dizer a este propósito que havia uma rivalidade notória entre a Austria-Hungria e a Sérvia, dada a não submissão dos povos eslavos dos balcãs, ao modelo supranacional austríaco, que não tolerava as formas de autogoverno exigidas por estes. Apoiada na força que lhe advém da aliança com a Alemanha, Viena respondeu às provocações sérvias com uma política repressiva. No convencimento de que a Sérvia estava por detrás do atentado de Serajevo, a imprensa austríaca desencadeou uma violenta campanha contra os nacionalistas sérvios, sem todavia demonstrar a ligação entre os activistas da Bósnia e a Sérvia.
Hoje em dia, sabe-se que o atentado foi obra de uma organização secreta Jovem Bósnia conhecida pelas suas ligações com a Mão Negra, corrente política a que pertenciam oficiais do serviço secreto sérvio, em contacto com jovens nacionalistas da Bósnia. A Monarquia Austro-Húngara, com um certo distanciamento da Hungria, aproveitou o atentado para desencadear finalmente a guerra, que já estava planeada, mas contida graças às reticências do aliado alemão.
Para alojar hóspedes ilustres, construíram-se na cidade de Ischl, inúmeros hotéis que eram do mais luxuoso e moderno que havia na Europa, os quais afixavam no exterior placas com o nome dos hóspedes mais famosos.
O Hotel Post considerado o melhor, foi construído em 1828 com todo o conforto. Mais tarde, em 1845, foi superado pelo Hotel Elisabeth, assim chamado em honra da imperatriz. Era um edifício de grandes dimensões e um autor contemporâneo escreveu que Bad Ischl ficava horrenda com este mausoléu. Frequentaram estes hotéis pessoas como o Príncipe de Bismark, ou os Reis de Inglaterra e de Portugal.
Também, importante do ponto de vista histórico, foi a Neue Plassmülle, porque aqui em 1855 o Imperador assinou a Concordata com a Santa Sé.
Há que assinalar que no velho teatro das termas de Ischl, actualmente denominado Lehar-Filmtheater, actuaram durante a época imperial actores de nomeada, como a já referida Katharina Schratt.
Enquanto a Kaiservilla constitui ainda hoje uma das grandes atracções do turismo, no Salzkammergut, os antigos pontos de encontro da alta sociedade foram aos poucos sucumbindo pela demolição ou afectados a outros fins e não espelham mais o seu valor histórico. Também a paisagem urbana de Bad Ischl, tão decantada outrora, aparece hoje em dia aos nossos olhos, um pouco degradada. Seja como for, olhando à volta ainda é possível descobrir placas ou monumentos comemorativos, como por exemplo a Maxquelle, uma sóbria fonte, erigida em 1868, em memória de Maximiliano, o irmão do Imperador, fuzilado um ano antes no México, ou os nomes atribuídos a pequenos lugares ou coisas da zona. A linha de caminho de ferro, inaugurada em 1877, que passava por Bad Ischl e em cuja estação se desenrolava anualmente a cerimónia de recepção ao soberano, chamou-se Caminho de Ferro Príncipe Herdeiro Rudolfo e o hospital Hospital da Imperatriz Isabel. A nova estrada para Perneck, foi denominada a Estrada para o Jubileu do Imperador Francisco José. Ainda hoje navegam no Wolfgangsee os velhos barcos Franz Josef e Elizabeth, que não utilizamos no nosso passeio, porque faziam outras carreiras. Como disse também no Traunsee, navega o Gisela, que deve o nome a uma das filhas do Imperador e que vimos fundeado quando fomos a Gmunden. Perto do nosso hotel, em Grundlsee, encontra-se uma outra embarcação chamada Rudolf que originalmente se chamava Kronprinz Rudolf e que depois de inoportuna e desagradável transformação em Rudolf Hess (braço direito de Hitler, antes da guerra) assumiu a forma abreviada actual.
Finalmente cumpre salientar que a residência imperial de verão, chamou a Bad Ischl artistas de todo o tipo. Pintores, escritores e músicos, conjuntamente com Francisco José, construíram a fama desta pequena cidade. As suas residências encontram-se espalhadas por vários lugares e muitos puderam dizer, como Franz Lehar: As minhas melhores ideias ocorreram em Ischl.
Quem eram os Strauss, que imortalizaram a valsa?
Falando da Áustria do mês Agosto de 2002, início deste século XXI que começamos, não é possível deixar de tocar ainda que pela rama esse assunto, dado o fascínio que ainda revela, duzentos anos depois.
Sem pretender perder de vista o carácter destes apontamentos de viagem, muito menos ser dogmático, teórico ou chato, e principalmente não ousando competir com uma profissional do gabarito da Biquica, entendo que há que começar por referir que a valsa, parece que teve origem numa dança rústica alemã, a Ländler. A valsa, especialmente em voga nos salões do século XIX e até princípios do século XX, é uma dança onde eu nunca consegui acertar o pé para os bailes do Clube Portuense, mau grado alguns treinos intensivos. Agora muito menos. Mas a verdade é que o Manuel, a Clara, a Xica e o Rui Lima praticaram-na muito a preceito, no seguimento do que fora iniciado em tempos anteriores no norte do País por um indesmentido dançarino com de pés-de-chumbo, o nosso N Santo. A valsa, ou outras danças que se lhe assemelham, já era conhecida no século XV e na sua evolução moderna, compreende três tipos, mais ou menos individualizados:
(a)-A valsa lenta, de movimentos moderados;
(b)-A valsa vienense, deslizada em movimentos amplos e rápidos, estonteantes mesmo, e que é a mais conhecida e apreciada, por vezes dançada ridiculamente e em casamentos à papo seco e de smoking;
(c)-A valsa a dois tempos, em movimentos moderados também, acompanhando esse balanço rítmico.
Muitos compositores, clássicos e românticos, compuseram valsas, apenas trechos instrumentais, que a princípio não se destinavam a ser dançadas, mas tão só ouvidas.
Johann Strauss (Pai), nasceu em Viena em 1804, onde morreu em 1849, foi o fundador dessa dinastia de músicos e compositores, que se popularizou como autor de música de dança de salão, especialmente da valsa. Filho do proprietário de uma cervejaria, onde havia ao lado um salão de baile, fora destinado inicialmente a uma profissão, que não a música. Depois de ter sido associado de Lanner, cria a sua própria orquestra, com que se apresenta em 1826 em Viena, interpretando pot-pourris e valsas da sua autoria, com enorme sucesso, em concertos ao ar livre na Cervejaria Sperl, o que lhe acarreta rápida notoriedade na Alemanha, Holanda, Bélgica, França e Inglaterra, por onde faz muito bem sucedidas digressões. Em 1834, Strauss (I), foi nomeado mestre da banda do primeiro regimento cívico de Viena e no ano seguinte director musical dos bailes da corte imperial.
O seu filho primogénito, Johann Struss (II), nasceu em Viena em 1825, onde morreu em 1899, foi o mais destacado e meritório músico da família. Inicialmente pensou seguir a vida profissional num Banco, até que começou a compor e em 1844 fundou a sua própria orquestra, de algum modo rival da do pai, obtendo assinalados sucessos com as valsas. Em 15 de Outubro de 1844, milhares de pessoas compareceram no Salão Hietzinger, de Dommeyer, tanto amigos, como inimigos. Johann Strauss (II) pegou a batuta de regente com habilidade nata e na execução do solo colocou o violino sob o queixo, quase tão magistralmente quanto o pai. Com as suas composições, indicou o caminho correcto para inflamar as massas. Enquanto repetia pela 19ª vez a última peça, a valsa Epigrama, diante de uma multidão extasiada, já havia críticas a sair nos jornais de Viena, do género: Boa-noite, Lanner! (havia falecido) Boa-tarde, Joahnn Strauss, Pai! Bom dia, Joahnn Strauss, Filho!.
Foi esse, um dia radioso para Strauss (Filho), um raio de sol que se manteve a brilhar por cerca de meio século. Por algum tempo coexistiram as duas orquestras, de pai e filho. Porém, com o falecimento de Strauss(Pai), fundem-se as duas orquestras na do filho, que percorre a Europa até à Rússia, e se desloca à América, onde é vitoriado, e passa a ser conhecido como o Rei da Valsa e o músico mais tocado no mundo. Richard Wagner disse uma vez, a seu respeito, que era a “abeça mais musical que já encontrara. O seu repertório, incluia já em 1870, peças como An der schönen blauen Donau, No belo Danúbio azul, Künstlerben,Vida de Artista, Geschichten aus dem Wienerwald, Contos dos Bosques de Viena, Wiener Blut, Sangue Vienense e no final da vida, uns tantos milhares de melodias. A partir daquela data, J. Strauss (Filho), escreveu uma série de operetas, O senhor deveria compor operetas, disse-lhe um dia Offenbach, quadrilhas, polcas (alegres), marchas, galopes (adoidados) e até uma ópera, que nunca alcançaram o êxito das valsas, aonde aliás verdadeiramente se manifestava o seu génio. Brahms, músico austríaco que já referi, foi um grande admirador de J. Strauss (filho). Conta-se que um dia escreveu, num leque que lhe apresentou uma dama com um pedido de autógrafo, as notas musicais do início do Danúbio Azul, com as seguintes palavras: Infelizmente não são minhas.
Perfeitamente integradas no espírito frívolo e brilhante da corte de Francisco José, as valsas de J. Strauss (Filho) representam o apogeu do género iniciado por Lanner e seu pai. O seu ritmo estonteante, a viva orquestração e frescura melódica, que a actual juventude não reconhece, são o paradigma de um século que alimentou uma sociedade despreocupada e embriagada, nas seduções e volteio da dança. Claro que esta valsa vienense, nada tem de semelhante com uma paródia qualquer que conheçamos dos salões do Clube Portuense, tocada pelo Galarza e usando smoking. O Rei da Valsa faleceu a 3 de Junho de 1899. Parece que não pretendia entrar no novo século, que muito em breve iria destruir radicalmente o seu mundo, la belle epoque, a velha Áustria. O Imperador Francisco José ainda lhe sobreviveu 17 anos e logo as sepulturas tiveram que receber os milhões de mortos da I Grande Guerra, bem como um mundo que se desmoronava. Por muito tempo, não pareceu que desse desmoronar, um renascer fosse brotar, que os Strauss tanto cantaram, com os sons mais belos, comoventes e empolgantes.
Relativamente a esta época e a esse ambiente, Stendhal escreveu que Viena é uma cidade encantadora (...) aqui o espírito não se desenvolveu tão brilhantemente como nos salons parisienses antes da nossa revolução plebeia. Também a razão não ergueu aqui os seus altares, assim como em Londres. Uma certa discrição, um componente da inteligente política da dinastia dos Habsburg, levou o povo a voltar-se mais para os divertimentos sensuais, que são inofensivos para os dominadores (...). A adorável e encantadora música tornou-se a grande paixão dos vienenses (...). Em Viena, como na antiga Veneza, onde a política e o culto da razão eram desacreditados, o doce prazer tomou conta de todos os corações.
A dinastia dos Strauss, ainda contou com Josef Strauss, o mais talentoso de todos nós, no dizer de J. Strauss II, que também inicialmente e para fugir à influência inevitável do pai e do irmão, pretendeu seguir uma carreira militar não obstante a sua compleição débil, e finalmente Eduard Strauss, embora destinado à carreira consular, que se tornou famoso como chefe de orquestra.
A valsa, para dançar, é um símbolo de uma era irremediavelmente finda. No envolvimento dos pares, no circular vertiginoso e na agitação animada de um amplo salão, lado a lado com incontáveis pares, no resvalar e ondular, no calor dos corpos, na perda ou delírio dos sentidos, que os diabólicos violinos dos prima húngaros ou tziganos estimulavam, expressa-se melhor do que qualquer compêndio ou tratado, a alegria de viver numa certa cultura. O escritor francês, Marcel Brion, que já referi estudou Viena, no tempo de Mozart e de Schubert sintetizou que J. Strauss (Pai) personificou Viena das danças, de 1820, enquanto que Schubert é a Viena que ama, alegre ou enternecida, que se encanta com o sol, depressa comovida, depressa indiferente.
A Filarmónica de Viena, conclui muitos dos seus concertos com o Danúbio Azul, quando a assistência pede bis. Durante muitos anos, após a II Guerra, a Áustria não possuía um hino nacional reconhecido internacionalmente, pelo que a valsa O Danúbio Azul preencheu essa lacuna. Creio que o Concerto de Ano Novo será o de maior audição em todo o ano. A música que para nosso deleite é irradiada pelas rádios e televisão de Viena é normalmente dedicada ao Império da Valsa, e aos seus quatro grandes expoentes: Lanner, os 2 J. Strauss (pai e filho) e Josef Strauss.
Viena estava bem fadada para se tornar a capital da música. Durante oito décadas, melhor dizendo entre 1750 e 1830, aqui se concentrou a mais alta criatividade musical do mundo. Em Viena misturou-se a época barroca italiana com o canto popular alemão. Se tão destacados compositores e intérpretes foram atraídos a Viena, alguma razão de peso haveria de ocorrer, que não o mero acaso. Se na segunda metade do século XVIII e durante uma boa parte do século XIX, Viena se transformou no centro musical do mundo, é porque havia causas profundas e decisivas para isso. Estou cem por cento de acordo. Seria a sua localização geográfica, nas margens de um rio unificador de povos? Ela tinha vantagens, sem dúvida, mas não seria creio eu motivo bastante, tal como não a beleza das paisagens, a magia dos palácios barrocos, os becos e praças, que convidam a passear, a estar, à permanência e ao sonho. A sua história milenar? Outras cidades europeias também a possuem. Elementos humanos têm então de estar então subjacentes, tais como a musicalidade natural de um povo, a sua instrução, os mecenas e protectores de artistas, as misturas raciais que desde tempos imemoriais fizeram confluir povos tão diversos como boémios, húngaros, alpinos, eslavos do sul, judeus e levantinos. Eu gostaria de acrescentar a tudo isto, uma disposição inata para felicidade, que é um traço de carácter muito importante, nem sempre salientado.
Tempos de paz relativamente prolongados, tornaram abastada e frívola, quanto baste, a monarquia do Danúbio. Festas alucinantes com que eram celebrados os acontecimentos, os casamentos dos Príncipes-Bella gerant alii, tu felix Austria, nube, Que outros façam as guerras enquanto tu, ó feliz Áustria te casas, ofereciam motivos para muita música, em todos os extractos sociais. As óperas e concertos eram para a aristocracia, as danças e desfiles para os populares. Viena foi, entre os séculos XVIII e XIX uma cidade voltada alegremente para a música, uma cidade faminta de diversões, com uma sensualidade que se expressava mais propriamente nessas irmãs gémeas, a dança e a música, que era o seu grande património cultural e colectivo.
A felicidade dos vienenses apesar das calamidades públicas como a guerra, a peste, as inundações do Danúbio ou os sofrimentos meramente privados, era feita desta arte de viver.
O ar de Viena sentia-se saturado de melodias, ao fim de alguns anos, que observadores estrangeiros como os diplomatas, estadistas, negociantes, artistas e turistas, naturalmente a qualificaram com uma única expressão, mesmo que divirjam entre si quanto às marcas negativas e positivas da cidade: Viena, a Cidade da Música. O som da música, os acórdãos ecoam ainda das velhas pedras das naves e torres de catedrais, como a de St. Estevão, e ruas tortuosas, no sussurrar dos bosques limítrofes, no abraço das suas gentes e nas brincadeiras das crianças.
Socorrendo-me mais uma vez da minha chamada filosofia barata, ao percorrer a Áustria do Salzkammergut e, no fim da viagem, a cidade de Viena, vieram-me à ideia pensamentos tão musicais como quando o vento passa com um leve sussurrar sobre os bosques, os arbustos e árvores movem-se como se fossem ágeis dançarinos, uma Teresinha, num gracioso ballet. Os animais dançam, pois a música fornece-lhes o ritmo. Onde existem meninas, há vida, existe dança. O homem primitivo cantava e dançava, acompanhava a cadência com o bater das mãos e dos pés. A música e a dança percorrem juntas o Tempo.
A nossa segunda semana na Áustria decorreu em St. Martin B. Lofer, mesmo à entrada do Tirol, num empreendimento chamado Schloss Grubho, situado entre Salzburg, que dista cerca de 45 km, e Kitzbuhel. Tratava-se de um antigo castelo que remonta, parcialmente, a 1325 e pertenceu ao rei da Baviera, agora convertido em apartamentos, com o discreto perfume de coisas passadas. Os quartos têm camas de dossel de quatro colunas e muitos deles tectos pintados, com belos estuques e amplos terraços.
Situado no coração dos Alpes, o Tirol é, de Verão ou de Inverno, um dos principais destinos turísticos da Europa central. Com altas cordilheiras, algumas de neves perpétuas e glaciares, e vales profundos, é desde há séculos depositário de uma cultura ao mesmo tempo imperial e plena de tradições populares. Passear repousadamente no Tirol, continua a ser um deslumbramento para os sentidos e além da variedade das paisagens, pode-se desfrutar o país na sua vertente gastronómico-cultural, tanto do gosto e luso agrado. Ao longo da estrada, ao lado de prados e montanhas verdes que se sucedem ininterruptamente, encontram-se maciços rochosos, bem como restaurantes e estalagens convidativos, alguns ostentando na frontaria uma placa arredondada com uma folha estilizada, contendo a menção Estalagem do Tirol. Essas casas, normalmente sob exploração familiar e caracter tradicional, tanto na decoração como no ambiente, envidam esforços no sentido de oferecer uma hospitalidade dita tirolesa. A cozinha tirolesa conta com agradáveis curiosidades, como as já referidas batatas Gröstl e, obviamente, a doçaria. Também no Tirol, o povoamento continua a ser muito disperso, o que transmite a ideia de um isolamento na vida comunitária. Coloquei uma vez esta questão, tendo-me sido respondido que esse dito isolamento a existir não significa de modo algum espírito retrógrado.
Foi aqui em Loffer que, no dia 19 de Agosto, tive o meu acidente. Ainda hoje não sei explicar o que aconteceu. Seria preciso para o seguro? Quando dei por ela, antes de chegar ao passeio estava no chão, com lágrimas nos olhos, sem me poder mexer. O que me valeu é que o M. estava perto, e o carro também. A A. tinha ido com a C dar uma volta pelas lojas e comprar um vestido típico da Áustria, pelo qual ficara vidrada no dia anterior, uma saia por meio da perna, dois aventais falsos e umas mangas tufadas, tal como se viam nalgumas pessoas da rua. Um bombom, para quem acertar a quem se destinava. Para a A. e C. não, não seria crível. Para a Beatriz também não, ainda era cedo. A Clara é verdade se pudesse comprava tudo, se não fosse o seu anjo da guarda que lhe dizia, tem cautela C, estás a gastar demais. É fácil, o vestido foi para a Teresinha, como é mais que evidente. Nesta viagem aprendi muito, até que os trajes tradicionais austríacos, são orgulhosamente usados em todo o país, e muito especialmente no Salzkammergut. Os homens usam os calções de couro, lederhosen, meias e chapéus de caça com uma pena. As senhoras, mesmo no dia-a-dia, usam também sem qualquer objectivo turístico, saias de pregas, dimdls, casacos de lã e lenços de seda. A Clara achava os chapéus à tirolês com penas, lindos de morrer. O pior é que o seu anjo da guarda, a sua consciência, andava sempre muito perto.
Levado ao posto de saúde aí tiraram-me logo um RX, o médico franziu a testa, e em menos de um quarto de hora tinha uma ambulância à espera, para me transportar ao Hospital de Zell-Am-See, o mais próximo a cerca de 30km de distância. Aqui, depois de uma nova radiografia, e de uma reunião de família em que o inglês da Clara continuou a ser a chave dos hieróglifos, colocaram-me a questão de ser operado de imediato, note-se de graça, antes que o pé e a perna começarem a inchar, ou ser apenas engessado, para aguentar a situação e ser tratado em Portugal. Dado não haver inconveniente, preferi a solução de, contactado o Dr. Dinho ser, eventualmente, operado quando chegasse a Portugal, como aliás aconteceu no Porto. A partir daqui passei a andar de perna engessada até ao joelho, numa cadeira de rodas alugada ao dia, situação que disse me parecer algo obscena. A verdade é que não havia nenhuma alternativa, pois não podia apoiar o pé no chão, dado ter havido uma fractura em três sítios, o que não era o pior, e uma extensa ruptura de ligamentos. Disse que a situação me parecia algo obscena, pois como não tinha dores, não deixei de ver nada, de ir a nenhum sítio ou comer alguma coisa. Claro que isso fiquei-o a dever à boa vontade de todos e ao esforço, muito especial do Manel, o que evitou de ter de regressar a Portugal mais cedo. Seguindo porém os didáticos e profiláticos conselhos da A., quase não bebi mais uma cerveja, vinho nenhum, o que criou todavia um pequeno problema de consciência ao M., aquando nos debatíamos com petiscos nas nossas ceias, que se mantiveram. Que fazer ao vinho e cervejas que tínhamos amorosamente escolhido e já comprado?
Descobri, então, uma interessante bebida, fresca e sem alcool, o Red Bull with soda, que passei a consumir com agrado, nomeadamente aquando do passeio de barco no Danúbio, em Viena. Quem contesta que o português seja imaginativo?
A propósito deste percalço, a C comentou mais tarde com graça que a perna do Fernando deu pano para mangas, mais propriamente gesso para pernas, o que lhe dava uma grande leviandade no andar.
O nosso quarto no hotel era no primeiro andar e porque não havia elevadores no palácio, tínhamos de subir e descer uma escadas relativamente altas e compridas, o que se revelava algo complicado com a cadeira de rodas. O que me valeu foram os músculos do M e a boa vontade da Aninhas e Clara. A C, depois de tudo terminado, comentou que as subidas e descidas eram bem suadas pelos três. O marmanjo estava na maior!.
Foi nesta zona, concretamente em St. Johan in Tirol, que o M demostrou as suas notáveis qualidades atléticas, ao ir fazer um exercício público, de saltos de cama elástica, suspenso por elásticos. Ao ve-lo naqueles exercícios, difíceis e arriscados, que o M. quis que ficassem registados em vídeo para que se acontecesse algo errado, um dia a Beatriz se lembrasse dele. Perante o grande espanto de inúmeros presentes, atentas as acobracias que o Manel fazia, senti um enorme orgulho de ser português na Áustria e lembrei-me daqueles inspirados e profundos versos de uma música do Conjunto António Mafra em que o dom José de Vicente,/ Que é de S. Pedro da Cova,/ Para mostrar que é valente,! Foi dançar a bossa-nova.
A capital do Tirol é Innsbruck, cidade situada no local onde o Sill desagua no Inn, junto a uma ponte antiga. Trata-se de uma cidade relativamente grande, isto é em termos austríacos, mas com uma entrada muito feia, estilo cintura industrial/ferroviária/Barreiro, onde se destaca o Estádio de Patinagem, Olympia-Eisstadion, e a Pista-Trampolim de Saltos, Bergisel-Stadion, com espaço para 40.000 lugares sentados. Os Jogos Olímpicos de Inverno realizaram-se aqui em 1964 e 1976 e a cidade firmou, definitivamente, a sua reputação como uma ímpar estância de desportos de neve, aliás, onde é possível esquiar o ano todo. Mas há que ser um profissional de gabarito para fazer bobsleigh. Todavia, depois de um giro pelo centro histórico, chegamos à conclusão que é uma cidade imperial, de vida cara, onde estão representadas as principais casas e marcas mundiais de todos os ramos, com belos edifícios de arcadas, varandas envidraçadas, pinturas murais e painéis renascentistas.
Innsbruck havia ganho proeminência em fins de século XV, quando Maximiliano I, fez dela capital do império. Apesar de ter concebido o seu mausoléu para esta cidade, Maximiliano I veio a falecer exilado em Wells. De facto, o imperador fora impedido de permanecer em Innsbrcuk, por causa das muitas dívidas da corte. A nossa visita a Innsbruck foi curta, tendo-nos todavia permitido uma volta de carro de cavalos, pelo centro histórico, passando entre o mais pela Marie Theresien Strasse e Arco do Triunfo, conduzido por um cocheiro búlgaro, que se fazia entender através de um mal amanhado castelhano. No centro histórico, reservado a peões, destaca-se a Catedral de S. Jacob, Domkirche zu St. Jakob, em estilo barroco, e na praça adjacente com belas esplanadas, onde nos sentamos, o famoso Telhado Dourado, símbolo do poder dos Habsburg, talvez mais emblemático ainda que a catedral. A varanda deste telhado está coberta por ripas de cobre, quem as contou diz que são 2378, que reflectem a luz do sol. Segundo reza a história, ou a lenda, Maximiliano I saudava daqui os seus súbditos e assistia às festas realizadas em sua honra. O prédio é antigo, remonta a 1500, altura em que ficou pronto e destinava-se a residência dos Príncipes do Estado do Tirol
No dia em que fomos a Innsbruck passamos pela muito curiosa Rattensberg, anunciada como a mais florida aldeia da Áustria, ou será do Tirol?, aonde almoçamos bem, numa esplanada central, umas quantas especialidades regionais, embora acompanhadas pela nossa conhecida e popular, loira Stiegl. Dizem os mais antigos desta região, onde já não chega a memória de nenhum ser vivo, que o vale Alpbachtal, em cujas encostas se situa Rattensberg, deve ser visitado pelo menos uma vez na vida, para se sentir a sua beleza invulgar. Aqui está sediado o conhecido Forum de Alpbach, o Europäische Forum Alpbach, dedicado a assuntos ecológicos e ambientais. Quando lá passamos, por coincidência o Forum estava reunido na sua sessão de verão, com muitos intervenientes, engravatados, mas não só, embora todos muito sérios de pastinha debaixo do braço. A Aninhas ainda pensou, seriamente ao que suponho, em inscrever-se para uma sessão do Forum, a funcionar em secção, com vista a colher apontamentos para fornecer ao Presidente da Junta de Freguesia dos Montes. Mas foi custosamente dissuadida por nós, pois isso alterava inutilmente a tarde, se o Presidente da Junta não acatasse os bons conselhos.
Quem vai ao Tirol também deve visitar Kitzbüel, conhecida como uma das principais e mais antigas estâncias de esqui da Áustria, terra de campeões olímpicos e mundiais, mas que deveu a sua prosperidade inicial à extracção da prata e cobre que se fez até aos fins do século XIX. Esta povoação com cerca de 8.000 habitantes, muito bem arranjada como as demais da Áustria que visitamos, situa-se numa encosta acidentada, tendo ao fundo um vale arborizado e dispõe de umas igrejas antigas, ruas em socalcos e com escadas, bem como várias filas de habitações urbanas, pintadas com cores garridas. Antes de 1927, ano da construção do caminho de ferro, já se dera início à era do esqui. Em 1893, o prefeito de Kitzbüel, encomendou uns esquis na Noruega, com os quais empreendeu a primeira escalada de inverno do pico Kitzbüeler Horn. Aqui numa loja de souvenirs, pertença de um paquistanês muito obsequioso, compramos umas canecas de cerveja, música tradicional do Tirol em CD e cassette, e a Clara o relógio de cuco, com um cuco que sai mesmo da gaiola cuja portinhola abre, que se encontra em Santa Comba. Numa canção popular, a terra mais próxima, Kufstein, é chamada a Perola do Tiro”.
Não sei se foi por influência desta música, muito típica, que a A, a C, o M e eu, pensamos ainda em inscrevermo-nos num curso acelarado de verão para adultos, de iniciação à música tirolesa. A ideia subjacente era convidarmos o Paulo para nos acompanhar à viola ou órgão electrónico e, depois de bem ensaiados, sugerir à Biquica fazermos espectáculos conjuntos de caracter beneficente, lá por alturas do Natal e Ano Novo. Com grande pena minha, esta ideia que me parecia lúcida e com pés-e-cabeça, morreu à nascença.
Perdoem-me, aproveitar esta oportunidade para invocar de novo a minha filosofia, aprendida em livros de bolso, que normalmente uso consumo interno. Durante a viagem à Áustria, várias vezes nos louvámos os quatro, com a deliberada falta de controlo sobre a nossa programação diária. Nunca sabíamos bem quando, aonde e a que hora chegávamos, o que decorria naturalmente e sem sobressaltos, de não ter contas a prestar a ninguém.
Pensando bem, e aqui entra o meu pensamento existencial concluo que não temos grande controlo sobre a nossa vida. Muitas vezes pensamos que sim, que podemos prever as coisas, mas não é assim. Aprendi que se pudermos deixar as coisas fluírem normalmente, a vida encontra o seu caminho e basta segui-lo. Basicamente foi o que fizemos, não obstante reafirmar a capacidade de organização do M. Durante 15 dias, tudo se passou como se se estivesse a escrever um livro, indo nós atrás do enredo. Assim, aprendemos que há coisas que, por bem, não se justifica planear. Quando estou chateado, a A, a minha melhor Amiga, vem ter comigo e encontra instintivamente as palavras e os comportamentos certos, que podem ajudar. Não precisa de planear, de pensar arduamente ou escreve-lo, porque isso surge naturalmente.
A freirinha, representada por Julie Andrews, no Música no Coração tinha toda a razão, quanto a mim, ao cantar que as montanhas estão realmente vivas com o som da música. Ainda hoje, passeando no Salzkammergut, onde o filme foi rodado, parecem-me ecoar aquelas notas inesquecíveis por montes ou prados verdes acima. Como tentei demonstrar, as colinas do Salzkammergut não estão cheias de uma música qualquer, mas da melhor música jamais composta no mundo.
No século XIX, como vimos os Habsburg transladaram-se para o campo, no Salzkammergut. Escolheram Bad Ischl para a sua morada estival, distinta a Kaiservilla das demais villas, pelas dimensões e não tanto pela arquitectura. Enquanto que os soberanos europeus, também em férias, viviam em castelos, o Imperador da Áustria residia na “villa imperial”. Aqui não usava o uniforme oficial, e frequentemente usava uma indumentária de caça, com calções, suspensórios de couro e botas. No Salzkammergut, a recordação dos Habsburg permaneceu ao longo dos anos como algo idílico, que nem as sombras sinistras dos últimos decénios do seu poder, conseguiram mudar. Permanecem ecos desses tempos, as histórias da cidade em que fontes deitavam água, não havia pacotes de Nesquick a boiar nos lagos, a vaca era mungida debaixo da janela, as pessoas eram acordadas com o som dos cascos das patas de cavalos, onde tudo demorava e havia tempo para o tempo. Do Príncipe Herdeiro Rudolfo, frequentemente tido por excêntrico, não ficou aqui memória de nenhuma extravagância. Também a melancólica Imperatriz Isabel se sentia muito bem no Salzkammergut e a rigidez da postura do velho imperador cedia lugar à recordação de um simples cavalheiro, que ia conviver, tomar café e comer doces a casa da Senhora Schratt.
Tudo isto está de acordo com o estilo de vida da região, muito mais que os actos formais da Corte e do Estado ou os acontecimentos obscuros e trágicos que vieram a ocorrer. A pequena história de Bad Ischl, história de uma cidade antiga, destaca o acontecimento que deu origem à Primeira Guerra, ou seja, o ultimatum à Sérvia, assinado na Kaiservilla. Para Bad Ischl, o simbólico ano de 1914 é representado pelo dia 30 de Julho, quando o velho Imperador Francisco José, entrou no combóio e saudou pela última vez, o lugar que foi de felicidade. Esta foi também a despedida definitiva de la belle epoque, que mesmo com o passar do tempo deixou a sua marca indelevelmente romântica. Tenho pensado frequentemente que os povos, com as pessoas, mostram-se capazes de fazer a sua felicidade, com os elementos que o destino pôs à sua disposição.
Vou voltar de novo, como disse antes, à Imperatriz Isabel e a sua relação com Portugal, que lhe serviu de porto de abrigo, por duas vezes. Conforme um biógrafo, Sissi era republicana por influência do pai liberal e sobretudo o seu professor particular de história austríaca.
Muito bela e também profundamente infeliz, a Imperatriz Isabel passou a vida a viajar, numa busca incessante que acontecia simultaneamente no espaço físico do mundo e no seu interior, a sua alma. A sua inquietação não a deixava permanecer em lado nenhum. Sentia-se impelida a partir sempre, a cruzar os mares, a ir mais além, à procura de liberdade, de paz interior, de solidão, em busca de si mesma e de um sentido para a vida. A liberdade era, para Sissi, um valor essencial. Sentia-se qual gaivota, para partir sobre o mar imenso, tendo um dia escrito: Uma gaivota sou, de terra nenhuma,/ Não chamo pátria a nenhuma praia,/ Não me prendem terras ou lugares,/ Eu vou de onda em onda.
Num outro poema, pedia que a deitassem numa praia quando morresse, para contemplar o mar, de modo a que esta fosse a sua última visão. E depois que a atirassem à água, onde fosse mais fundo, pois mesmo que há superfície haja tempestade, no fundo encontrarei a calma.
Isabel terá confessado que tenho a sensação de que sou permanentemente impelida. Cada barco que deixa o porto, desperta-me o desejo de embarcar. Ir para onde ele for, para o Brasil, para a África, não importa para onde, apenas não permanecer num lugar.
Esta necessidade está também presente numa outra poesia: Para onde ainda, minha alma?,/ Estamos no alto mar,/ Ele leva-nos de onda em onda,/ Agora para baixo logo para cima. (...) /Para onde? Eis a pergunta,/ O grande hieroglifo, /O meu amargo tormento da alma,/ O enigma sem fundo.
O seu professor de grego, escreveu oportunamente no seu diário que ela é a rainha das águas correntes. É mais do que isso, é a rainha dos mares.
Oficialmente, quando Isabel veio a Portugal pela primeira vez, em Novembro de 1860, foi por motivos de saúde. A Madeira era conhecida como estância terapêutica, com um clima favorável ao tratamento de tuberculose. Terá sido essa mesmo a razão da viagem? Duvidou-se muito desse diagnóstico médico, a doença seria antes uma desculpa para a sua fuga da corte, cheia de etiquetas e obrigações, que tanto detestava. Outrossim, ela gostava de fazer passeios, montar a cavalo, fazia cavalgadas que chegavam a durar 10horas, e caçar. Admirava a beleza, ela que chegou a ser considerada a monarca mais bela do seu tempo adorava a poesia, em especial o alemão Heinrich Heine e não lhe interessava, nem a política nem o poder. A rigidez da corte austríaca não se compadecia com esta maneira de ser e cedo se sentiu prisioneira desse mundo. Tal como acontecia com o seu filho Rudolfo, que era tido por liberal, antiaristocrático e pró húngaro. Assim começou a distanciar-se e a virar-se para si mesma. Um dos seus biógrafos escreveu que o pretexto da doença abafará tudo isso. Na realidade, pode-se dizer que ela está doente, porque o seu estado de espírito influencia o corpo e o que não passaria de uma pequena anemia, de uma tosse insignificante, com esses comportamentos pode tornar-se uma verdadeira doença.
A sua sogra, com quem nunca se deu bem, terá dito que ela encenou a doença para fugir ao inverno da Áustria e, longe dali, poder viver de acordo com os seus próprios hábitos. Também segundo a sua própria mãe, o problema de Isabel era mais psíquico que físico. Porquê, a Madeira? O Arquiduque Maximiliano, irmão do Imperador, conhecia bem a Madeira. Ali estivera pela primeira vez de 4 a 7 de julho de 1852, no regresso a uma viagem ao Brasil, ali voltou de 6 a 15 de Dezembro de 1859 e ainda de 5 a 12 de Março de 1860. Na Madeira terá tido um romance com a princesa D. Amélia de Bragança, filha de D. Pedro IV, de Portugal, falecida pouco tempo depois, vítima de tuberculose. O Arquiduque, entretanto casado com Carlota de Saxe, filha de Leopoldo I da Bélgica, a caminho de se sentar no trono do México, cuja mulher Carlota veio a mergulhar na loucura, ainda passou outra vez pela Madeira, de 28 a 29 de Abril de 1864. Não admira que tenha ficado ligado à Madeira pelo que é possível que tendo falado desta ilha, tenha assim influenciado Isabel, na escolha. Durante a sua primeira deslocação à Madeira, a certa altura desencadeou-se no mar uma violenta tempestade. Enquanto os outros passageiros se mostraram amedrontados e se sentiam mal, ela admirava o espectáculo, sentia a tempestade, queria participar dela. Em vez de se recolher ao camarote, perante o perigo de ser arrastada pelas ondas, pediu para ser arrastada a um mastro, de modo a admirar o furor da natureza.
De Viena, Isabel apenas teve saudades dos filhos e dos seus cavalos. Após uma separação de meses o casal imperial voltou a ver-se em Maio de 1861.Ao fim de 4 dias nesta cidade os acessos de febre, ataques de tosse e de choro voltaram, tomando proporções preocupantes. O médico particular diagnosticou uma tuberculose e propôs uma estadia em Corfu, que se veio a realizar mais tarde.
Porque terá voltado Isabel, à Madeira? Saúde? Procura de distância da corte? Fuga ao inverno de Viena? Tentativa de recuperar os anos passados?
Quatro anos antes desse regresso, uma tragédia abalou seriamente a vida da Imperatriz, a morte do seu filho Rudolfo, e herdeiro do trono, que se suicidou em Meyerling, a 30 de Janeiro de 1889, depois de matar a amante, por não ter conseguido por razões de Estado o divórcio da mulher a Princesa Stephanie, da Bélgica, para casar com uma bela jovem de 17 anos, a baronesa Maria Vetsera. Este casal tinha feito um pacto de suicídio. A corte abafou a verdade. O corpo da baronesa foi retirado em segredo do local e pôs-se a correr aversão que Rudolfo morrera de um ataque cardíaco. A tragédia parece ter feito parte da vida desta mulher, que teve o seu cunhado preferido, o irmão mais novo do marido, Maximiliano, fuzilado no México a 19 de Junho de 1867, o afogamento do marido da irmã, Ludwig II, e ainda a morte da irmã Sofie, queimada num incêndio de um bar.
Sissi ficou para a história como uma mulher enigmática, quer não viveu nenhum conto de fadas, mas uma vida trágica, coroada por uma morte também trágica, ao ser assassinada na via pública em Geneve (Suíça), nas margens do lago Leman a 10 de Setembro de 1898 por um anarquista italiano, que procurava um grande feito em nome da causa, a apunhalou com um estilete, de certo modo por engano, dado que inicialmente a vítima pretendida era o Príncipe de Orleães, pretendente ao trono de França, tido pelos anarquistas como o grande representante da aristocracia. Aqui a toilette da Imperatriz pode ter sido fatal. Depois de agredida a Imperatriz caiu no chão tendo sido ajudada a levantar-se por populares a quem agradeceu. Mas devido ao apertado espartilho, o sangue passou a sair tão lentamente que ninguém se apercebeu que estava gravemente ferida. Antes de morrer e depois de ter percorrido a pé uma centena e metros perguntou: O que é que aconteceu comigo?
A vida de Isabel acabou por se tornar um mito, que até hoje continua a fascinar as pessoas e que corporizou o glamour, mas também a dificuldade da vida na corte da Áustria, no século XIX.
A cidade do Funchal resolveu prestar-lhe homenagem e nessa sequência os jardins da Hotel Carlton, junto ao Casino ganharam nova vida com a colocação de uma estátua da Imperatriz, em bronze e em tamanho natural.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA(2002)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA(2002)
PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
(II)
W. A. MOZART, POIS CLARO
O REQUIAM (História ou Lenda?)
BAD ISCHL, SISSI E FRANCISCO JOSÉ
OS GIGANTES DE GELO, OS DOCES
A MAIS BELA ALDEIA DO MUNDO JUNTO A UM LAGO AUSTRÍACO
SISSI NA ILHA DA MADEIRA
Fleming de OLiveira
Falando de Salzburg, há obrigatoriamente que falar de Mozart, o seu filho mais conhecido.
Não vou entrar na apreciação da sua vida, numa perspectiva de ordem musical. Isso é tarefa que me transcende totalmente, carecendo eu de conhecimentos e preparação. Deixo isso a especialistas. Que diria a B. se me metesse por esses atalhos, onde de certeza não sairia incólume? Vou, portanto, limitar-me a abordar Mozart, de acordo com um simples perfil biográfico.
Mozart nasceu a 27 de Janeiro de 1756, em Salzburg, tendo sido baptizado logo no dia seguinte, na Catedral da cidade. Foram-lhe dados os nomes de Johannes Chrysostumus Wolfgangus Theophilus. Os dois primeiros nomes raramente os usou. Wolfgangus usou-o na forma germânica Wolfgang e, quanto ao último traduziu-o para latim Amadeus transformando-o sucessivamente em Amadeo ou Amédé, conforme escrevia italiano ou francês.
Certamente Mozart é o caso mais extraordinário de precocidade que a história das artes regista.
Contam-se sobre a sua infância um certo número de feitos musicais, quase maravilhosos, alguns dos quais cabem mais no domínio da fantasia ou lenda do que ao da realidade. Mas não há dúvida que os seus dons invulgares se manifestaram muito cedo, tocando cravo aos 4 anos e compondo aos 5 pequenos minuetes, que o pai corrigia e passava ao papel. Como a sua irmã mais velha se mostrasse igualmente dotada musicalmente, o pai resolveu mostrá-los pelo mundo fora, iniciando uma série de viagens que chegam a durar anos e que em breve tornaram o nome do pequeno Wolfgang, um dos fenómenos mais falados e admirados nas Cortes e salões aristocráticos europeus, tais como Paris, Londres, Haia, Munique, Geneve ou Viena. É em Viena que o ainda jovem Wolfgang, iniciou a sua carreira de compositor de música religiosa, escrevendo e dirigindo para a consagração da igreja de um orfanato, uma missa solene e um ofertório, que infelizmente se perderam. Regressando a Salzburg, o Arcebispo-Príncipe, rendido ao seu talento, nomeou-o seu Konzertmeister, embora sem vencimento e instigando-o a deslocar-se a Milão, Bolonha e Roma. Aqui, Mozart causa enorme sensação ao transcrever, de cor, o célebre Miserere, de Allegri, seguidamente a uma audição na Capela Sistina. Em Nápoles, Mozart chega a ser acusado de dispor de poderes sobrenaturais, de bruxaria inclusivé, pelos seus dotes musicais. De volta a Roma, é feito pelo Papa Clemente XIV, Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro. Com 21 anos, vão restar-lhe apenas 14 anos de vida. Esses anos que vai viver, constituem um dos casos mais assombrosos e pungentes da história das artes, na sua sucessão de triunfos e reveses, de esperanças e decepções, de milagres de génio e de indiferença, de sobre-humano labor e de aflições económicas, de dedicação e de vexames. Em 1877, Mozart, acompanhado da mãe, parte para Paris, para tentar conquistar a cidade, não obstante ter ficado enamorado de uma jovem cantora Aloyisia Weber, com quem pensou casar no regresso. Mas Paris revela-se uma prova muito dura, onde não obtém o sucesso esperado, e sofre o desgosto supremo de ver aí falecer-lhe a mãe. Entretanto novo desgosto o aguarda, pois Aloyisia, entretanto elevada ao estatuto de prima-donna da ópera da corte, não esperou mais por ele. Na sua terra, Salzburg, não afrouxa o seu trabalho de compositor, não obstante as funções de Konzertmeister e de organista da Corte Arquiepiscopal, para que foi nomeado em 1779, pelo arcebispo Colloredo. Em 1780 compõe duas missas, entre as quais a chamada Missa da Coroação, a Missa Solemnis, as Vésperas dos Confessores, uma Regina Coelli, duas sinfonias, uma serenata, um concerto para dois pianos e orquestra, e três sonatas de órgão, até que chega de Munique a encomenda de uma ópera. De Munique, segue Mozart para Viena, chamado pelo Arcebispo Colloredo, então nesta cidade, passando aí a ter a residência permanente. Cortando com o Arcebispo após viva disputa em que se viu tratado como um qualquer lacaio, chamado de mandrião, imbecil e insociável e depois ameaçado, foi corrido brutalmente a pontapé pelo mordomo. Não tendo casado com Aloyisia, vai casar na Catedral de St. Estevão em Viena, com a sua irmã Constanze Weber, um ano mais nova, para quem de certo modo compõe Belmonte e Constança ou o Rapto do Serralho, a ópera em 3 Actos, que vimos representar no Teatro de Marionetas e que constituiu um êxito em Viena, depois reproduzido em Praga. O casamento de Mozart, então com 26 anos, não se revelou uma boa decisão, pois Constanze, de 20 anos, nunca foi boa dona de casa, resultando daí fortes dificuldades materiais para a família, dada a incerteza dos seus rendimentos. A sua insistência junto do Imperador para assumir um cargo fixo, revelaram-se infrutíferas. Ainda pensou em radicar-se em Londres ou Paris para satisfazer as suas prementes necessidades de ordem material. Haydn, a quem dedica algumas obras, fruto de um longo e árduo labor, declarou solenemente depois de as escutar que ele era o maior compositor que conhece em pessoa ou de nome. Entretanto trava conhecimento com Lorenzo da Ponte, célebre dramaturgo, planeando ambos a ópera As Bodas de Fígaro, baseada na comédia de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro que se revelou um êxito estrondoso em Viena e Praga. De regresso a Viena, trás a encomenda de uma ópera para ser apresentada no decurso da temporada de Praga. O drama giocoso Dom Giovanni, obra maior da arte lírica em que tem como parceiro Lorenzo da Ponte, leva a que Mozart seja acolhido triunfantemente em Praga, perante um renovado distanciamento de Viena. Mozart, a este propósito, escreveu a um amigo: Gostaria que você e os meus bons amigos de Viena estivessem aqui nem que fosse só uma noite, para partilharem a minha alegri”. Em 7 de Maio de 1788, Dom Giovanni foi apresentada em Viena e apesar de não ter tido o acolhimento caloroso de Praga, a obra foi repetida durante quinze noites. A situação material de Mozart é por esta altura bastante complicada, mas isso não o impede de trabalhar proficuamente. Em 1788, Mozart compôs em seis semanas, as últimas três grandes sinfonias, cúpula genial da sua produção orquestral. Em Viena, depois de largo interregno As Bodas de Fígaro é reposta com muito sucesso, o que leva que o Imperador lhe encomende uma nova ópera, Cosi Fan Tuti, triunfo supremo da ópera bufa italiana, ainda secundado por Lorenzo da Ponte. A morte do Imperador acarreta a suspensão das representações dessa ópera, o que agrava mais a situação económica de Mozart. Em 1790, é o ano da suprema crise de Mozart, que se traduz também num abrandamento da produção artística. Mas no ano seguinte, ou seja, nos últimos doze meses de vida, a sua produção em ritmo febril, cria obras tão importantes como A Flauta Mágica, ópera feérica destinada ao teatro popular, que teve logo enorme sucesso, La Clemenza di Tito, ópera séria escrita para a coroação de Leopoldo II, em Praga, o maravilhoso motete Ave Verum Corpus, duas cantatas, o Concerto de Piano em si Bemol, o Concerto de Clarinete, várias séries de danças orquestrais, o Quinteto de Cordas em mi Bemol, a Fantasia em fá menor para órgão mecânico, mais tarde transcrita para dois pianos. Mas Mozart encontrava-se esgotado, preso de alucinações e com o Requiem começa a viver com o pressentimento de que escreve o seu próprio canto de morte, e que esta, impiedosa como é, não deixou aliás terminar.
As circunstâncias um tanto misteriosas em que esta obra nasceu deram origem a uma lenda romântica. Estudos recentes, apuraram que o Conde Franz von Walseg-Stuppach, um grande amador de música que tocava flauta e violoncelo e no seu palácio de Viena se realizavam concertos e representações teatrais duas vezes por semana, viu em 14 de Fevereiro, falecer a jovem esposa, antes de completar 21 anos. O Conde para homenagear a sua memória quis mandar compôr uma missa de Requiem que fosse excepcional, sem olhar e custos e que seria estreada em sua casa. Assim, para esse efeito foi escolhido Mozart e para manter o assunto em sigilo, o conde mandou o seu advogado falar com este e fazer a encomenda. A visita desse emissário, alto, magro, com chapéu e roupa cinzenta, ocorreu em Julho. Pediu segredo absoluto, prometeu pagar bem, sem ter dito todavia quem era e por conta de quem ia. Mozart iniciou a produção desta peça, mas a sua saúde ia piorando dia-para-dia. Sabe-se como ocorreram os seus últimos dias de vida. Mozart estava consciente de que o seu fim se aproximava e disse por mais que uma vez que com o Requiem, compunha a música do seu próprio funeral. Aproveitando uma aparente melhoria do seu estado de saúde, alguns amigos foram a sua casa interpretar as partes do Requiem já concluídas, tendo o próprio Mozart cantado a parte do contralto. Só chegaram ao Lacrimosa porquanto o resto não estava terminado. Depois deste serão, a saúde agravou-se rapidamente e no dia seguinte faleceu. O diagnóstico médico referiu que tinha falecido de febre reumática aguda, embora tenha corrido durante muito tempo o boato de que fora envenenado por Salieri, um compositor dito invejoso.
A morte do compositor não provocou a menor comoção em Viena. Mostrou-se Viena digna de Mozart? Deixou-o apagar-se num sofrimento que lhe esgotou as forças e lhe trouxe uma morte prematura. Nunca lhe proporcionou condições que lhe teriam dado a paz de espírito, a tranquilidade para o trabalho. Em torno do funeral correu uma outra lenda. O cadáver não foi conduzido para o cemitério de S. Marcos abandonado por todos, só acompanhado por um cão e dois gatos-pingados. Também é falso que tivesse sido enterrado em vala comum. O que aconteceu é que Mozart, nunca se preocupara em ter sepultura própria e o coveiro não anotou o lugar exacto onde foi enterrado, nem ninguém curou de o verificar na altura. Quando se quis averiguar já não foi possível, averiguar o local da jazida do imortal autor. Mas apesar dessa falha incrível, Mozart é considerado, na história da artes dos sons, como a personalidade mais complexa e universal pela suas múltiplas facetas, onde não estão ausentes a grandeza da concepção, a força dramática e a profunda emoção humana.
Que vimos nós de mais relevante nos arredores de Salzburg?
A nossa primeira semana na Áustria, decorreu como disse em pleno Salzkammergut, a região dos lagos tranquilos, montanhas românticas e a mais turística e visitada do país, no Ferienclub (RCI). O M. ficou muito admirado, logo à chegada, com a eficiência germânica de duas empregadas a darem as informações essenciais. Eu acrescento, sem o pretender contrariar, muito menos desautorizar, que uma delas até dizia que falava ou compreendia espanhol, mas afinal apenas percebia Olé, es una chica mui guapa. Este empreendimento situa-se nas margens do Grundlsee, onde se pode tomar banho, há barcos para alugar e vapor para percursos turísticos. Nos meses de verão, esta região é muito frequentada por pessoas que, mesmo com uma certa idade, gostam de passear a pé por trilhos muito bem marcados, que anunciam o tempo que demoram a decorrer e a respectiva distância, apreciando a paisagem e o ar da montanha. Admito mesmo que esta zona seja particularmente ainda mais bonita na primavera ou outono.
A A. diz-me, frequentemente e sem acrimónia, que sou muito prosaico. Creio que tem alguma razão, como acontece mesmo às mulheres mais inteligentes! Acontece que por vezes, para fugir à regra, tenho porém a ilusão de conseguir ter umas ideias mais elaboradas. Ao passear na Áustria, veio-me à ideia um pensamento tolo dirão os mais críticos, e que embora não tenha registado na altura, vou tentar reproduzir de seguida: Vivemos num mundo em tão rápida mutação, em que uma árvore que hoje está aqui, ainda ontem foi uma pessoa e no dia seguinte poderá ser um bicho ou uma casa de habitação. A transmutação, que foi perseguida, em vão, pelos alquimistas medievais, não me interessa que não corresponda à verdade. Verdade? Interessa-me, sim, a beleza e o facto de nos ser permitido assumir o sentido do efémero, o nos ser dada uma dimensão mais humilde.
Não poderia deixar de começar por me referir a Bad Ischl, uma bela estância termal, nos arredores de Salzburg, que passou a ser frequentada pela alta sociedade e estar na moda a partir do século XIX.
Em Bad Ischl, existe a célebre Pastelaria-Café Zauner, origem do famoso chocolate Zaunerstollen, da qual Francisco José era frequentador habitual. Aqui entramos numa chuvosa tarde de sábado, mas não conseguimos encontrar lugar disponível, para enorme desgosto da Aninhas e Clara que não puderam, assim, tirar uma fotografia, a comer uma fatia de bolo, para mostrar na Escola ou no Banco. Diz-se que as empregadas do Café Zauner, que carregam todo o dia travessas de doces irresistíveis, andam mesmo assim de nariz empertigado, pois sabem-se amadas pelos clientes. Toda a gente sabe que a pastelaria austríaca é a melhor do mundo, mas nestes locais de culto ganha foros de autêntico pecado de gula, que terá de ser perdoado. Disseram-me assim: Tenta comer apenas um Zaunerstollen e vê se consegues ficar por aí. Tive receio de perder a aposta!!! Ainda bem que a Aninhas e a Clara não o experimentaram, senão eram capazes de levar umas caixas ou ficar a arder nas labaredas do inferno. A este propósito a C. disse que a casa Zauner é uma sala de há chiquérrima, onde eu teria gostado de tomar chá com as outras tias
O Zammer é uma outra antiga Pastelaria-Café de Bad Ischl, local favorito de compositores como Brahms e Johann Strauss (Filho), que como muitas outras pessoas da sua época, já atafulhavam a boca de doces deliciosos. Franz Lehar, renomado autor de operetas como A Viúva Alegre, tido como o sacerdote das operetas, gostava tanto de Bad Ischl que mandou construir uma casa nas margens do rio Traun. Em Bad Ischl, realiza-se anualmente entre Julho e Agosto um Festival de Opereta, tendo Lehar como patrono.
Os cafés são ainda hoje, ao iniciar o século XXI, um local de culto para os austríacos. Durante séculos representaram um papel fundamental na vida social do país. Mais que um local para beber café, foram e são pontos de reunião, lugares onde as pessoas também se detêm para saborear bons paladares. Reza a lenda que os café começaram a existir em Viena após a derrota dos Turcos, corria o ano de 1683. Todavia, recentes estudos, permitiram afirmar que o café já era conhecido nessa altura. Foi por alturas do século XVIII que os cafés começaram a ter uma configuração algo semelhante à que chegou aos nossos dias, embora tenham atingido o topo do esplendor nos fins do século XIX, quando passaram a se patrocinados por cenáculos de políticos, artistas, escritores, médicos ou funcionários do Estado. Segundo vimos anunciado nalguns destes locais, podem-se experimentar dezenas, talvez não seja exagero da minha parte, tipos de misturas e variadas formas de o tomar. Seja como for o café é quase sempre servido, numa bandeja, acompanhado por um copo de água e por um chocolatinho. E antigamente?
Houve em Viena e Bad Ischl vários cafés ilustres, alguns desapareceram como em Portugal, cedendo o espaço a bancos e seguradoras, outros conseguiram manter a “fama que vem de longe”, com criados de mesa usando smoking. Eram muito apreciados aqueles em que as pessoas se encontravam depois do teatro para cear. Às vezes havia a sorte de se encontrar lado a lado com o cantor, músico ou comediante que fora o herói da soiré e que continuava a desempenhar o papel de herói na vida chata, do dia-a dia.
Bad Ischl, esta cidade termal, tornou-se conhecida em todo o Império Austríaco, muito especialmente a partir de 1828, depois de a Princesa Sofia ali ter vindo a águas, numa derradeira tentativa de um alarmante caso de infertilidade. O que se passou, não se sabe bem. Foram ou não os banhos de sais naturais, ainda hoje utilizados no balneário da Kaisertherme? A cura aconteceu, que é o que interessa para a nossa pequena história cor-de-rosa e, finda a época termal, a princesa anunciou ao mundo o seu estado interessante, dando à luz, ao fim do tempo devido, aquele veio a ser o futuro Imperador, Francisco José. Mais dois filhos nasceram, entretanto, daquele outrora ventre infértil. A reputação das termas ficou assegurada ad aeternam, principalmente a partir do momento em que a casa real também passou a ter aqui um poiso frequente, com a construção da residência de Verão, um couto de caça, a Kaiservilla. Esta pode ser visitada, como fizeram a A, a C e o M, em todo o seu requinte, porventura maior que o do tempo dos Habsburg. Está situada junto ao rio Ischl, rodeada por um parque imenso e onde no meio de um arvoredo, a Imperatriz Isabel, Sissi, na intimidade, construiu o seu refúgio, um estúdio de fotografia e praticava a arte muito moderna do retrato. Diziam as más-línguas de então, pois que sempre as houve, que Francisco José passava tanto tempo na Kaiservilla, que governava o Império no conforto de uma varanda que dava para a coutada. A A. comentou-me que no palacete há alguns móveis, de tal modo trabalhados, que deverão ter levado uma vida a fazer, que nas vitrines da sala de equitação, os espartilhos que Sissi usava para montar, e que lhe terão sido fatais como veremos mais à frente, são tão finos como o couro usado na selas dos cavalos e que as paredes estão cheias de trofeus de caça, como cabeças de veados, de javalis e corças, em número que atinge pelo menos os 2000. O M porém opinou que a visita à Kaiservilla mostrou a grandeza do império austríaco com as centenas de cabeças de veados caçadas no meio de florestas de coníferas. A C., porém, viu o edifício de uma forma ligeiramente diferente, como um monumento muito curioso, onde abundavam os “chifres” que o Kaiser apanhava quando a Sissi estava com a depressão existencial
Esta ligação romântica à natureza, o Imperador era um atirador inveterado, a Imperatriz montava muito bem a cavalo, enfim ambos gostavam de montanhismo, acabou por se revelar frutuosa e óptima para Bad Ischl. Os muitos veraneantes, passavam o tempo a discutir política, animados piqueniques de cestas às costas, bailes e caminhadas pelas montanhas, com bordão ou bengala, em grupos mais ou menos numerosos. Johann Strauss e Brahms passavam as férias por estas bandas. O mesmo se pode dizer com Gustav Mahler, que compôs as sinfonias nºs 2 e nº 4, em Steinbach-Am-Attersee, não muito longe de Bad Ischl. Este amor pela natureza, não é acho eu, sinal de temperamento misantropo. Quem passeia pela floresta, escala as montanhas, não foge à companhia dos semelhantes, encontra-se com eles de bom grado, terminada a excursão, numa esplanada no alto que nunca falta, para beber um copo ou manter uma cavaqueira.
Nos muitos passeios que demos por esta região, passamos por Braunau-Am-Inn, perto da Alemanha, localidade tristemente conhecida por ter sido a terra natal de Adolf Hitler. Nesta cidade, com muralhas bem conservadas, existe uma Igreja interessante, com um memorial aos mortos das duas Grande-Guerras e uma torre gótica que nos disseram ser a mais alta da Áustria. A praça principal, com bastantes esplanadas e comércio, está rodeada por belos edifícios de cor pastel, com destaque para a Rathaus, Câmara Municipal.
Há a referir também Gmunden, uma popular, bem localizada e próspera estância de férias, que visitamos rapidamente a um fim de tarde, junto ao Traunsee que então, como muitos outros rios e lagos neste verão austríaco, estava a transbordar e que inundava a avenida marginal, aonde passeavam pachorrentamente patos e gansos. Gmunden também ficou a dever parte da sua projecção a Francisco José que a visitava de vez em quando, nomeadamente, para caçar e andar de vapor. Encontramos fundeado junto à margem o Gisela, vapor do século XIX que deve o nome a uma filha do Imperador e que se diz te-lo transportado um dia. Em frente à avenida marginal, existe um palacete do século XV, tipo landschloss, numa ilhota muito pitoresca, aonde se chega normalmente por uma ponte de madeira, esta, quando lá estivemos, coberta de água. Pertenceu ao Arquiduque João Salvador Ort, pessoa tido pelo seu carácter repulsivo, que o adquiriu em 1878, e o transformou, ao que se diz com muito gosto, na Villa Toscana, nome que decorre de ele pertencer à linha toscana dos Habsburg. Quando o Arquiduque João mais tarde renunciou aos seus direitos de Habsburg, depois de se ter incompatibilizado com o Imperador por se opor à monarquia, e casar com a sua amante, uma bailarina, com quem foi para a América do Sul e se perdeu, a propriedade passou a denominar-se Johann Ort Schloss .
Os austríacos chamam O Mundo dos Gigantes de Gelo, ao maior conjunto de grutas de gelo da Europa, onde a Aninhas ia tendo um fanico, aquando da visita. Querem saber como foi isso? É o que também vou contar, com a devida vénia aos protagonistas.
Este fenómeno natural de grutas de gelo, situa-se a cerca de 30km a sul de Salzburg, perto de Werfen, aonde aliás foram filmadas algumas cenas do Música no Coração. Para fazer a visita às grutas, pode-se ir de carro até certa altura, em que termina a estrada alcatroada e se deve estacionar. A partir daí, há que fazer um percurso de uns 15 minutos a pé, também a subir, até chegar a um restaurante, com uma ampla esplanada, acima das núvens, onde se pode petiscar numas compridas mesas com bancos igualmente compridos, descansar um pouco e ver a deslumbrante vista, em baixo. Não me apeteceu fazer a visita das grutas, melhor dizendo receei faze-la, pelo que fiquei cautelosa e comodamente na esplanada.
A A, que como os filhos sabem é muito previdente, tinha metido na mala, ainda em Alcobaça, umas luvas para ela e outras para mim, bem como uns agasalhos mais fortes. Pensava ela com os seus botões: Sabe-se lá o tempo que faz no verão austríaco.... Afinal, tudo isso teve manifesta utilidade, pois a A. e C., munidas de casacos e as minhas luvas, lá se abalançaram na aventura da visita, com uma duração prevista de umas duas horas. O M., esse, foi de corpinho bem feito, ou não fosse um desportista. Antes de partirem, fizemos todos um frugal lanche na esplanada. Claro que enquanto eles foram à visita eu tinha de me entreter. Já tinha filmado com a minha câmara e a do M, as paisagens à volta, os lagos no vale, os circunstantes, os pássaros de cor muito escura e brilhante que com todo o à vontade vinham comer migalhas às mesas, até que reparei numa família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos menores, tipo classe média, que almoçavam com apetite numa mesa comprida, perto da minha. Apontei para a empregada e pedi-lhe, gestualmente, uma dose igual às deles, que me pareceu bem apresentada e, principalmente, apetitosa. Não sabia minimamente o que era, embora tivesse tentado consultar a lista, escrita apenas em alemão. Da típica cozinha austríaca já tinha percebido que é, normalmente, substancial e nutritiva e que a carne é o seu componente principal. O peixe, de água doce, dos rios e lagos, que normalmente se come grelhado e com especiarias, é raro no restaurante e de fraco sabor. Embora exista muita produção de vinho, bebe-se mais cerveja, que é relativamente barata. O risco que portanto corria ao encomendar um prato desconhecido era diminuto. O que então almocei foi afinal o tradicional Gröstet, ou seja, um prato típico do Tirol, feito com batatas às rodelas, porco, cebolas, especiarias, tudo salteado numa frigideira que vem à mesa. À sobremesa, debati-me com uma sachertorte, bolo com uma camada de compota de pêssego por debaixo da cobertura de chocolate, originalmente conhecida como uma tradicional especialidade vienense, mas que hoje em dia se come em toda a Áustria e até se exporta. Nessa altura, pensei comigo próprio que quando fosse a Viena iria comer uma sachertorte, se possível no Hotel Sacher, que ainda existe. A sachertorte é um doce assim tão bom?, perguntarão os menos avisados nesta complexa matéria de doces. Este hotel vienense, muito antigo, fundado em 1876, é conhecido pelo seu café e naturalmente pela sachertorte, foi dirigido até 1930 por Anna Sacher, uma inveterada fumadora de charutos e enteada do fundador, que lhe deu a característica de bom hotel para encontros extraconjugais para ricos e nobres.
Quando a A., a C. e o M. regressaram, esfalfados e sedentos, vim a saber que antes de entrarem nas grutas fizeram mais um percurso de uns dez minutos a pé, por uma estrada de montanha, sempre a subir. O M parece que não queria perder o guia e por isso ia num passo estugado, que as nossas meninas disseram ser-lhes impossível de acompanhar, pois que antes parecia levitar, o que para ele não seria difícil. Recorde-se que além de desportista amador, é jardineiro amador em Santa Comba e com a C., a X. e o R., dançarino amador de tangos e passodobles, em distintos salões de baile do norte de Portugal. O M. depois da visita às grutas de gelo de Werfen declarou que finalmente percebeu a destreza dos austríacos em se equilibrarem no meio de penhascos ou entre escarpas de gelo. A A., que se dedica mais à intelectualidade do que às coisas físicas, teve dificuldades no trajecto e já que o coração lhe batia forte, não de emoção, comoção ou outro sentimento muito feminino, mas de simples e banal cansaço físico, teve de parar um pouco. Segundo contaram, as grutas eram menos interessantes de visitar do que parecia ou era turisticamente anunciado. O percurso interior, ao longo de cortinas de gelo, estalactites e paredes de gelo em certos locais com mais de 20 metros de espessura, tinha de fazer-se frequentemente em fila indiana, em que cada pessoa estava munida de uma lanterna e por vezes tinha que dar a mão ao vizinho.
No século XIX, Hallstatt, no centro da região dos lagos, foi descrita como a mais bela aldeia do mundo junto a um lago. Claro que bem sei quanto valem estes qualificativos, que me recordem a aldeia mais portuguesa de Portugal, na discutível classificação dos concursos do SNI do António Ferro, nos anos 40, mas que ainda hoje é invocada para aquela terra, à falta de melhor. Seja como for, Hallstatt, Património Mundial, é uma lindíssima povoação, a cerca de 50km de Salzburg, que deveu a sua prosperidade também ao sal, conhecido e explorado, há mais de 1000 anos, isto é, ainda antes do tempo da colonização romana. A aldeia, onde durante o dia não há trânsito automóvel, vedado por uma cancela que sobe e desce, encontra-se ensanduichada ente o Hallstättersee a as montanhas Dachstein, sem possibilidades de crescer para nenhum dos ditos lados. Jantamos aqui, bem como de costume, pelas 7 da tarde, numa esplanada no centro da aldeia, ao lado de uma magnífica fonte de pedra e perto da Igreja Paroquial, a Pfarrkiche. Às 21 horas, começo da noite, toda a gente havia debandado e não se encontrava vivalma. Os poucos clientes das esplanadas e restaurantes que ainda restavam, como nós, eram postos delicada e tacitamente no olho da rua. Desta vez, o M. ao pagar 5 Euros por cada café, não se remexeu incomodadamente na cadeira, pois tivemos direito, com o café especial que encomendamos expressamente, a uma caneca de louça, que trouxemos para Portugal como recordação. Aqui em Hallstatt, algo premonitoriamente, tinha comprado uma bengala de alumínio muito leve, com várias ponteiras e um amortecedor, normalmente utilizada seja por homens ou mulheres, novos ou menos novos, para os percursos de montanha, por meio daquele verde magestoso, que parece varrer o céu. Segundo uma opinião abalizada, como a do M., Halstatt é realmente pitoresca por estar junto ao lago e na escarpa das montanhas com correntes de água entre as rochas. Mas realmente bonito e repousante é estar sentado nos bancos de jardim junto ao lago Wolfgangsee.
Entendo que numa viagem de Verão à Áustria é essencial fazer um cruzeiro de barco por um lago, seja no Wörtersee, Neusiedlersee, Hallstattersee ou Wolfgangsee. O nosso passeio de barco, compreendeu um combinado de cruzeiro desde St. Gilgen, com uma viagem em comboio de montanha até Schafberg. Foi uma tarde que reputo inesquecível. O Wolfgangsee é um dos maiores e belos lagos do Salzkammergut, rodeado de muitas casas, hotéis, restaurantes e antigos palacetes, com ancoradouros privativos, onde se praticam desportos náuticos como remo, windsurf, sky aquático e se toma banho, junto às margens, em praias com alguma areia. O combóio a vapor, com carruagens em bancos corridos de madeira, sobe à montanha por uma via tipo estreito, utilizando uma cremalheira, até um ponto relativamente elevado, o Schafbergspitze, 1780m acima do nível do mar, o que lhe permite ser utilizado, praticamente, em todas as condições climatéricas. Assim, depois de andar de barco, subimos à montanha nesse combóio de cuzinho tremido, na verdadeira e plena acepção do termo, até a um ponto, de onde em dias claros se podem avistar sete lagos. No comboio, ia sentado à nossa frente uma família, estilo árabe/muçulmano/turco, composta de um pai severo de cabelo, bigode e óculos de sol escuros, mãe bem roliça de lenço a cobrir o cabelo, ambos com uns 40 anos de idade e duas raparigas adolescentes, com ar ainda muito pouco emancipado. Eles só falavam entre si quando o pai dava o lamiré, utilizando uma linguagem incompreensível e se interpelados, num inglês com um sotaque carregado que desmentia a possibilidade de ser confundidos com alguém de origem britânica. Como eu estava com a câmara de filmar e para evitar mal entendidos de apanhar algumas imagens tidas por inconvenientes, não autorizadas pelo pai de família, meti uma breve conversa com ele, tendo no meu inglês alcobacense com sotaque dos Montes, apurado que eram paquistaneses e que poderia tirar umas imagens femininas, mas apenas a título de recordação da viagem.
Creio ter dito que a Áustria me pareceu um país muito conservador e isso lembrou-me um paralelismo com Portugal, quiçá algo forçado. O Portugal que conhecemos antes do 25 de Abril, parece estar a retornar aos poucos através de um elemento novo que é a televisão, que tem uma função celular, fechar as pessoas em casa a partir de certa hora, o que nos transforma num país disciplinado. Esperavam por esta tirada?
Entremos agora mais concretamente num assunto que, na generalidade, as pessoas apreciam bastante, principalmente nestes tempos de fast-food, embora corra o risco de a A. ao ler estas notas pessoais, a que quero dar um ar saudável, começar logo a pensar ou mesmo dizer: Lá esta ele, não sabe falar de outra coisa.... Outra coisa, para a minha A, não é a outra coisa que estão a pensar, mas sim a banal comidinha, que nos faz esquecer as dolorosas dietas, o colesterol ou as gorduras.
Lendo o menú, num restaurante austríaco, e se bem percebermos o que está lá escrito, como que faremos uma incursão na cultura e história de vários países. E eu que estudei conscenciosamente este assunto, posso dizer que cheguei à conclusão que a cozinha da Áustria mais profunda, tem raízes ao mesmo tempo rurais, aristocráticas e internacionais. Na monarquia multinacional e dualista dos Habsburg, a cozinha do dia-a-dia foi-se consolidando com pratos, como o vulgar e democrático Wiener Schnitzel, que decorre dos escalopes à milanesa que encomendamos mais que uma vez, e que a propósito dos quais a Cl. disse que o que gostava de comer eram os panados com batatas fritas, por serem muito exóticos, o Goulash, que vem de Budapeste e que o M e eu comemos preparado de formas diferentes, mas sendo sempre um prato forte, e uma variada confeitaria/pastelaria daquela que embala o estômago, que não fui capaz de identificar ao todo, mas que se diz com remota origem na Boémia. Há mesmo quem afiance que o mais que celebérrimo Apfelstrudel, folhado de maçã e passas, polvilhado com açúcar, chegou Áustria via Hungria, aquando das invasões turcas. Como temos dito, o amável e sorridente Mozart, de casaca vermelha, suprema encarnação da galanteria setecentista, que por acaso também era músico, ainda hoje serve de tudo e para tudo. Assim, vim a apurar que a história diz que a sua sobremesa favorita era o Salzburger Nockerin claras batidas em castelo com baunilha e cobertas com açúcar.
Bebe-se muito bem na Áustria. Cerveja, claro, de que há muitas marcas e tipos. Aliás a primeira coisa que o M. e eu fizemos quando desembarcamos no aeroporto de Salzburg, via Frankfurt, foi ter um encontro com uma loira fresca, bem conhecida e respeitável de 0,50L de peito.... Mas eles lá também bebem vinho, que nos restaurantes é bastante caro, mas não tanto nos supermercados. Compramos, para as nossas imprescindíveis ceias das 22h no hotel, umas garrafas de vinho, como chianti, italiano, cabernet-sauvignon, francês, e um austríaco riesling branco, frutado, agradável para consumir fresco, de uma vez só, mas que me pareceu um pouco inferior ao alemão homónimo. Ouvimos falar, mas não experimentamos, numa outra bebida espirituosa, muito vulgarizada neste país. Trata-se de uma genebra, disponível numa grande variedade de sabores.
Não vou fazer aqui, a história político-social dos Habsburg, mas alinhar simplesmente alguns factos que nos permitem gozar melhor, locais que visitamos.
Os Habsburg, assim como os demais soberanos das casas reais da Europa, sentiam-se entre si como uma única família e ainda em pleno século XIX, os casamentos e a descendência constituíam o centro das preocupações dinásticas. Por isso, a 16 de Agosto de 1853, a Duquesa Luísa, de uma linha colateral dos Wittelsbach, que detinham o título de Duques da Baviera deslocou-se a Ischl, com a sua filha Helena. Luísa, conjuntamente com a sua irmã, a Arquiduquesa Sofia, acalentava o projecto da união entre Helena e Francisco José, Imperador da Áustria. Com elas também tinha ido a outra filha, Isabel, de 15 anos de idade.
Quando as jovens foram apresentadas ao Imperador, ele enamorou-se à primeira vista da mais nova e no dia seguinte declarou have-la escolhido como esposa. Isabel que, até essa altura sempre vivera no campo, ficou muito confusa e perturbada, com todos estes acontecimentos imprevistos.
Teve início assim um casamento que por inclinação pessoal, beleza e garbo dos noivos e ainda a sua posição social, foi incensado como um autêntico conto de fadas. Todavia, por causa de regras apertadas a que estão sujeitas pessoas de alto nível social, o sonho transformou-se em breve para a jovem Imperatriz Isabel, num pesadelo e profunda depressão. Como apareceu mais tarde em todas as películas sobre Sissi, nomeadamente as protogonizadas por Romy Scnheider, o noivado começou de maneira emocionante, quando o Imperador por ocasião dos festejos do seu aniversário, na Haus Seauer, em Bad Ischl, mais tarde transformada em Hotel Áustria, hoje Museu Cívico, convidou para dançar a jovem Isabel, dando o inequívoco sinal à corte e ao País, de que a queria como Imperatriz. No dia seguinte, teve lugar uma excursão a St. Wolfgang e a 19 de Agosto, decidiu-se efectuar a comunicação oficial do noivado, durante a missa dominical na Igreja Paroquial, de Ischl. De tarde, os noivos foram a Hallstatt, aonde ainda existe uma lápide com uma inscripção em latim, que recorda esse evento, que, traduzida, diz o seguinte: Francisco José I e Isabel vieram aqui em visita no dia do seu noivado, a 19 de Agosto, com as devotas felicitações do Bispo de Linz.
A Arquiduquesa Sofia, quis ocupar-se pessoalmente da instalação do régio par, pelo que adquiriu para eles uma villa em Ischl, para ser utilizada como residência de Verão, onde ampliou as alas laterais até formar um E de Elizabeth/Isabel. Tratava-se da Kaiservilla. Aqui, o soberano começou a passar o Verão, ininterruptamente, até 1914, altura em que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Aqui, celebrou todos os seus aniversários. Aqui, recebeu reis e homens de estado, fez política. Apreciava este lugar acima de tudo, porque era o único onde podia gozar momentos privados e de verdadeira intimidade. Não só o nome de villa, que não de castelo ou palacete, indica o caracter simples da edificação, bem como a decoração e o mobiliário dos aposentos imperiais que, com a excepção de algumas salas centrais, apresentavam-se com uma sóbria comodidade. Os inúmeros trofeus de caça atestavam o hobby do dono da casa. O quarto de dormir do Imperador compunha-se apenas uma despretensiosa cama de madeira de uma única pessoa, duas ou três cadeiras e uns quadros na parede com motivos paisagísticos. Na parte traseira do edifício, ao lado de uma fonte muito bonita e de uma estátua de um adestrador de cães, oferta pessoal da Rainha Vitória, de Inglaterra, começava o enorme parque que alcançava o Jainzenberg. O amor pela natureza era tão vivo em Francisco José como em Isabel. Durante o período estival a vida decorria ali, sem dúvida, mais relaxada e calma que em Viena, no Schloss Hofburg ou no Schloss Schönnbrunn. Porém, não se tratava de férias no sentido actual do termo, o que se traduzia, desde logo, na denominação oficial de estadia imperial em Ischl. Francisco José, começava o dia às quatro da manhã, passava as primeiras horas a despachar a uma pequena escrivaninha, sentado numa cadeira de palhinha, numa saleta de reduzidas dimensões, com reposteiros vermelhos, onde havia ainda uma chaise long, uma lareira e um grande espelho decorativo. O resto do tempo dedicava-o a audiências e reuniões. Desde infância, teve um apurado sentido do dever. Foi um bom soberano que teve em conta, o bem estar dos seus súbditos e que honrou o cargo que lhe estava confiado.
Em Bad Ischl a vida era muito familiar, como se disse. O Imperador queria ter perto o filho herdeiro Rudolfo, as duas filhas com a sua numerosa prole, apesar de ter de renunciar com frequência à sua Mulher. Isabel conduzia a sua vida cada vez mais à sua maneira, mas também apreciava muito Ischl, porque gostava de caminhar, montar a cavalo, realizar excursões a pé a Jainzenberg. Em 1856, mandou construir para si, não longe da villa, o Marmorschlossl, Palacete de Mármore, uma construção de traça fantástica, com laivos de gótico inglês.
Nesse refúgio, foram redigidas muitas cartas e compostas poesias, que revelam a complexa vida espiritual dessa mulher atormentada e inquieta.
Uma destas poesias, encontra-se sob uma pintura da Virgem, numa parede exterior da Kaiservilla:
Ave Maria,
Abre os teus braços,
Estende-os e protege esta Casa no vale a teus pés.
Abençoa este pequeno ninho.
Mesmo que à nossa volta a tempestade sopre furiosa,
O que for protegido por Ti, estará seguro.
Cheia de graça.
Tu o protegerás.
Na corte e nos salões aristocráticos, a etiqueta era levada muito a sério, o que acarretou problemas a Sissi e a Rudolfo. As precedências eram escrupulosamente respeitadas. Em contrapartida, quando se encontravam no campo, passeavam pelos jardins ou nas ruas, as personalidades mais notáveis, mesmo da corte, procuravam passar desapercebidas e misturar-se com a multidão, como se lhe pertencesse. A família real abandonava o protocolo rigoroso quando se imiscuía nos divertimentos populares.
A Imperatriz Sissi veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes. Vou fazer um breve apanhado dessas duas presenças, de acordo com uns apontamentos que me foram disponibilizados pela Secretaria Regional de Cultura e Turismo da Madeira. Adiante, voltarei a este tema com uma abordagem diferente.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz chegou a bordo do navio inglês Victoria e Albert emprestado pelos reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva e 21 tiros. Sua Magestade recebeu a bordo as principais autoridades do distrito, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou do vapor, num bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, que se processou no cais da Pontinha, foi dada outra salva em sua honra, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada “com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas”. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa a Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares e mais funcionários públicos, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi dispensou aqui a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da sua residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Isabel é vista em passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé, a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo que no dia 4 de Dezembro desse ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos, facto que depois de ter sido divulgado na imprensa comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, “conforto e consolação dos aflitos” ou “derradeiro amparo dos órfãos e viúvas”. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal. Por essa altura, um nobre que a visitou relatou em Viena que “Sissi estava melhor mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta”.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa local sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Isabel , acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera em representação do pai, o Rei D. Carlos, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e dois vapores de guerra ingleses. Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, ainda voltou anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz é não oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e teve 50cm de cintura, estava sempre vestida de luto pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
(CONTINUA)
Subscrever:
Mensagens (Atom)