terça-feira, 6 de janeiro de 2009

JôÃO PAULO II-ABNEGADO POR DEUS (EM MEMòRIA)

JOÃO PAULO II-ABENEGADO POR DEUS (EM MEMÓRIA)

Fleming de Oliveira

Estávamos no Algarve, como é habitual na semana a seguir à Páscoa, e na Praia da Oura. A Aninhas, o L. e a T., bem como a M., que foi dar uma mãozinha. Em Vila da Galé, a poucos quilómetros, o Nuno FO e a Paloma. Naqueles dias de primavera incerta, como tem sido todo este ano de 2005, tivemos aquela sensação estranha de que Portugal e o Mundo estavam a correr à bolina, incerta também. A crise anda por aí, bem perceptível. Creio que para potenciar a neurastenia ajudaram as notícias do estado de saúde, muito crítico do Papa João Paulo II. Foi num sábado à tarde, estando com o Nuno, depois de no dia anterior termos comido uns mexilhões divinais, preparados à moda da Paloma, acompanhados de um Douro, que ele havia desencantado num supermercado algarvio recôndito, de quem lhe custava muito despedir-se e por isso lhe vinham as lágrimas aos olhos, que os meios de informação comunicaram ao mundo o falecimento de João Paulo II, o seu reencontro com a Casa do Pai, pelas 20h30m.
A Humanidade que às vezes parece perdida e dominada pelo poder do mal, pelo egoísmo e pelo medo, o Senhor ressuscitado oferece como dono, o seu amor, que perdoa, reconcilia e reabre o ânimo à esperança. É o amor que converte os corações e dá a paz.
Era esta a mensagem preparada por João Paulo II, poucos dias antes da sua morte, para ser lida no Angelus, que assinalava a bênção papal de domingo. Não sendo uma pessoa de família, nem por isso deixava de ter sentimentos de muito respeito por João Paulo II, pelo que não obstante os meus sessenta, senti instalar-se alguma orfandade. Nas minhas notas dos anos anteriores, tive a oportunidade e a necessidade, de registar alguns despretensiosos comentários sobre a postura de João Paulo II. O sentimento das pessoas para, neste início de milénio, abraçarem a fé e iniciarem o percurso do sagrado, esteve bem evidente naqueles que sentiram a morte do Papa, como se esta lhes dissesse directamente respeito, como se fosse um parente muito chegado. Veja-se as multidões que invadiram Roma e o Vaticano, as filas de 2 quilómetros intermináveis de pessoas para se despedirem. Se dúvidas houvesse, entendo que foi este um momento raro, senão único, e cujos os efeitos se irão prolongar por bastante tempo. Os meios de comunicação deram relevo ao testemunho da vida e de fé de um homem, que pôde fazer mover a Humanidade. Esta breve e simples constatação, abafa todos os ruídos expressos em vozes que se consideram reféns da descrença e da intolerância, a mesma que lhe atribuem quando defendeu certos valores. Os nossos olhares convergiram, com emoção, para o caixão de madeira, sem ornamentos, colocado no centro da Praça de São Pedro, tendo à sua volta ricos e pobres, judeus, muçulmanos e cristãos, europeus, americanos e asiáticos, agnósticos e ateus. Todos se vergaram em respeito por um Homem que em vida não deixou ninguém indiferente e na morte se revelou o maior evangelizador do nosso tempo. Na hora da morte, João Paulo II conquistava a Humanidade, com um amor que retirava argumentos aos seus maiores adversários.

Se tivesse que escolher as maiores inquietações e desafios com que a Igreja de Roma se tem de defrontar nos próximos anos, embora não seja a pessoa mais preparada e idónea para o fazer, colocava à frente a enorme crise de vocações e a consequente diminuta ordenação de novos sacerdotes. Mesmo para o leigo e pouco praticante, entendo ser este um dos problemas mais sérios da Igreja. O celibato, o papel das mulheres e as questões económicas, se preocupam as pessoas em geral, também preocupam os Padres e a Igreja.
Quem sou eu para dizer que os padres deveriam ou não poder casar?
Admito que se trata de matéria melindrosa, controversa e complicada, teológica e política, pelo que entendo, sem prejuízo de afrontar preconceitos ancestrais, que a Igreja terá de continuar a pensar no assunto.
E os padres devem receber salário ao fim do mês?
A ideia também não é nova, mas o Patriarcado de Lisboa ainda não definiu posição, não avançou no terreno. Creio que os sacerdotes em paróquias pobres do interior do País, vivem com sérias dificuldades.
E a ascensão das mulheres ao sacerdócio?
Calculo que é assunto para continuar a discutir-se por muito tempo, pois não está suficientemente maduro. Gostaria de saber se existe algum impedimento de ordem teológica, mas haja ou não, o que não é irrelevante claro, não se pode esquecer o peso de uma tradição com dois mil anos.
Como vai ser o novo Papa?
Na minha modesta opinião, entendo que todos os Papas têm de ser um pouco conservadores e, ao mesmo tempo, progressistas.
Como assim?
Conservadores, para preservar o essencial da Fé e garantir a fidelidade aos princípios e fins.
Progressistas, para acompanhar a evolução dos tempos, tal como se espera de um bom político. O grande desafio que parece colocar-se ao novo Papa, será o da capacidade de manter ou alterar o discurso de João Paulo II, em matérias tidas por fundamentais. Várias sensibilidades da Igreja, defendem a procura de soluções mais actuais para o dia a dia dos católicos, enquadrando-as nos Evangelhos, que seriam adaptáveis a todos os tempos, ideias e lugares.
Tenho andado nos últimos anos pela Europa que é o centro do meu mundo, apesar de saber que aqui que o desvio dos valores evangélicos é mais notório e a tentação da idolatria, do bem estar ou do hedonismo, são mais evidentes e difíceis de superar, para acompanhar a moda. Isto pode parecer paradoxal, se se tiver em conta que Cristo e os Evangelhos, são a matriz cultural da nossa Europa, para onde a Turquia otomana, alegadamente laica, quer entrar…, e já bate à porta. E a África e a América do Sul, onde a frescura e a evolução cristãs são evidentes, que rejeitam certo tipo de pompa, de circunstância e ritualismos, procurando viver o Evangelho de uma forma mais simples, alegre e com proselitismo apostólico?


Na manhã de 29 de Setembro de 1978, o mundo soube da morte súbita de João Paulo I, ao fim de 33 dias de pontificado. Quando, dias depois, saiu fumo branco da pequena chaminé da Capela Sistina, onde os Cardeais se encontravam em conclave, o mundo teve uma surpresa. Habemus papam. Não fora eleito um cardeal italiano, como vinha acontecendo ininterruptamente há cerca de 450 anos, mas sim um polaco, arcebispo de Cracóvia, de 58 anos, desportista, homem enérgico, conservador, mas alguém de quem se dizia gostar de estar perto das pessoas. Ao assumir o ministério, as suas palavras foram, não tenhais medo! Abri as portas de par em par para receber Cristo! Abri as fronteiras dos Estados, os sistemas económicos e políticos, a cultura, a civilização e o progresso ao Seu poder redentor!
Desde que João Paulo II foi eleito em 1978, o Mundo transformou-se de tal maneira que os cristãos, talvez dizendo melhor os católicos romanos, ficaram com muita dificuldade, impossibilidade?, de viver uma realidade que sentiram deixar de certa maneira co-existir consigo. Assim, passaram a reclamar que a moral católica se adapte a novos conceitos e realidades da vida que se impuseram nestas últimas três décadas. O poder de João Paulo II, enorme, absoluto e conservador, abafou/puniu com rigorismo teológico, disciplinar e moral, impondo não obstante os avanços do Vaticano II, o silêncio e a obediência a certos teólogos menos ortodoxos, como aconteceu por exemplo em 1985 ao brasileiro Leonardo Boff, o teólogo da libertação.
Como se disse foi um Papa de contradições, mas esteve em todos os grandes acontecimentos do tempo.


Como poderá ser catalogado João Paulo II?
Combateu o nazismo.
Foi importante na derrocada do comunismo.
Deu um contributo decisivo na globalização do mundo, com as suas constantes deslocações. Arrastou multidões de crentes e não só. Não tinha exércitos, como depreciativamente diria Staline, aos Aliados no pós-guerra, mas teve poder, não o poder temporal, mas o poder espiritual, buscando uma dimensão no Homem que nenhum outro poder pode conseguir. Não conseguiu evitar guerras como a do Iraque, eliminar a fome e a sida em África, mas deu uma satisfação ao mundo para além, do dinheiro e do consumo.
João Paulo II era um comunicador. Judeus, muçulmanos e ortodoxos foram unânimes no elogio aos seus esforços no campo do diálogo ecuménico. Para a História fica o Encontro de Assis, que reuniu altos representantes dos principais credos da Humanidade.
Pescador de homens, como talvez nenhum outro Papa, João Paulo II deu grande importância à juventude que fez questão de conduzir aos caminhos da humanidade, tendo sido frequentes os encontros com multidões de jovens, não só em viagens pelo mundo como no Vaticano. Por ocasião do Grande Jubileu do ano 2000, que coincidiu com um encontro em Roma de jovens de todo o mundo, o Papa dizia jovens o Papa sente-se muito feliz na vossa companhia, estava com a Aninhas, a Lena e o João Henriques, na Praça de S. Pedro, completamente cheia, aonde assistimos, com emoção, à Missa presidida por João Paulo II, já doente, cansado e com voz trémula, onde se realizaram simultaneamente vários casamentos e deu os sacramentos.


Eu, Papa da Igreja de Roma, peço perdão em nome de todos os católicos, pelas injustiças infringidas no decurso da História, aos não católicos.
Líder espiritual de centenas de milhões, homem de poder, João Paulo II deu provas de enorme humildade, não hesitando em pedir perdão por acções ou omissões da Igreja ao longo de dois mil anos. Em 1992, fez um acto de contrição público, com especial destaque para a comunidade científica, relativamente a acusações que Roma dirigiu a Galileu e não obstante a Terra move-se. Note-se que, ainda hoje, dizemos que a Terra se move, o Sol nasce e põe-se todos os dias…
Mais tarde, no virar do milénio, o Papa voltou a fazer um mea culpa, desta vez por causa dos silêncios da Igreja face aos crimes cometidos contra os judeus, muito especialmente pelos nazis. Esta iniciativa, que mereceu o aplauso de Israel, revelou-se de importância, pois tratou-se do que foi considerado não apenas um acto de justiça que permitiu relançar a questão do ecumenismo, estabelecendo pontes entre as duas grandes religiões monoteístas, Cristianismo e Judaísmo.


Eu te bendigo, ó Pai por todos os teus pequeninos, a começar da Virgem Maria, Tua humilde serva, até aos pastorinhos Francisca e Jacinta. Que a mensagem das suas vidas permaneça sempre viva para iluminar o caminho da humanidade, disse João Paulo II em Fátima, na última visita que efectuou a 13 de Maio de 2000, durante a qual beatificou Jacinta e Francisco, primos da vidente Lúcia, então ainda viva.
A devoção mariana do Papa era bem conhecida. Pouco depois de ser eleito, às armas pontifícias, numa alusão a Maria, juntou o lema TOTUS TUO, Todo Teu. O facto de ter atribuído a um milagre da Virgem, a Mãe de Deus, o ter escapado ao atentado de 13 de Maio de 1981, na Praça de S. Pedro, levou-o a estabelecer, daí em diante, uma relação muito especial com o fenómeno das aparições de 1917, assumindo a sua condição de peregrino das três vezes que se deslocou a Fátima. Estava seguro de que a Virgem o salvara, estas datas encontram-se ligadas entre si de tal maneira que me pareceu reconhecer nisso um chamamento especial de vir aqui. Vim agradecer à Divina Providência neste lugar, que a Mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão singular.
Fátima, há muito é um dos santuários marianos mais importantes do Mundo, tendo-lhe não obstante o Papa conferido uma acrescida projecção. Foi aqui que o Papa anunciou, em 2000, a terceira parte do segredo de Fátima, a revelação feita pela Senhora mais brilhante que o Sol.
Finalmente, a Igreja Católica, levantava o véu sobre o que a Virgem confiara à discrição dos três pastorinhos, contrariando teorias catastróficas sobre a Humanidade. O segredo referia-se apenas ao Papa e ao seu sofrimento. Dando este sentido ao Segredo de Fátima, assim o atentado falhado de 13 de Maio de 1981 no Vaticano fazia parte de um desígnio divino, vinculava definitivamente Fátima ao seu pontificado. A Fé em Cristo havia de romper todas as barreiras.

Há alguns anos, o Zico ofereceu-me a obra de José Régio POEMAS DE DEUS E DO DIABO, que li de um fôlego, publicada já lá vão uns 80 anos. Retenho daí, o poema Cântico Negro, que ao empurrar-nos para a frente, exige coerência e, no que é mais importante, aquece o sonho de encontrar o nosso caminho, contra ventos e marés. Régio poeta? Nos tempos acelerados que correm, perdeu-se o gosto pela meditação e consome-se o que não a exige ou cansa, o gosto pelo superficial e espectacular, usar e deitar fora. Do imortal Goethe, retenho esta súmula lapidar, creio que retirada do Fausto, o que brilha pertence ao momento e a perfeição à eternidade.
João Paulo II, já se instalou na eternidade, ao gosto de hoje é certo, mas também ao de sempre, um gosto que se estende por muitas fronteiras.


Pedi ao Domingos P. umas considerações sobre a figura ímpar de João Paulo II, que as redigiu em jeito de epitáfio.
Karol Wojtyla era o seu nome;
Paulo, Saulo, foi o Apóstolo das gentes;
Paulo VI, foi o primeiro dos seus predecessores que saiu do Vaticano para, no auge de uma guerra fria prestes a eclodir, gritar com força e autoridade na Assembleia das Nações Unidas: Homens, sede homens!
João XXIII foi o bondoso Papa que, na força da simplicidade, pôs em marcha a poderosa renovação que abriria a Igreja ao mundo do seu tempo.
João Paulo, a homenagem de um Homem forte e corajoso, com uma crença vivida, embora causticada no crisol de uma clandestinidade não escolhida.
Arrasou montanhas, derrubou muros considerados inamovíveis.
Percorreu o horizonte, despertando consciências, maravilhando incrédulos, interpelando indiferentes.
Respeitou outros credos, deu as mãos a todos os filhos do mesmo Deus e pediu perdão pelos erros e crimes de ontem e de hoje.
Peregrino dos caminhos deste mundo, beijou a terra, em todos os palmos onde a santidade se vive.
Arrebatou multidões, foi rasgado pelas balas do ódio, carregou a doença progressiva, lutou até à morte e morreu abençoando.
João Paulo, o Homem que mais se pareceu com o seu Mestre, nos tempos modernos, viveu com todos e para todos e, por isso, todos o têm já no altar da sua devoção.


Antes de João Paulo II, havia falecido a 13 de Fevereiro, Lúcia a última vidente de Fátima, a que falava com a Virgem e a única que a conseguia ouvir. Foi a que sobreviveu à infância, alegadamente porque a Senhora lhe disse que ficaria cá mais tempo. Esta data 13 de Fevereiro, em plena campanha eleitoral para as legislativas interrompida pelo PSD/PP, com algum oportunismo mas sem proveito, ajudou a retocar o mito.
De Lúcia, o País e Mundo pouco ou nada sabiam sobre o que sentia, o que pensava, ou o que dizia A igreja impôs-lhe clausura absoluta. Foram 56 anos, dos quais 31 passados em Espanha, e sempre em silêncio, que cumpriu. Todas as raras aparições foram rigorosa e politicamente controladas. Recebeu os Papas Paulo VI e João Paulo II e participou discretamente em alguma cerimónias no Santuário de Fátima. Em 13 de Maio de 2000, última vez que apareceu em público, assistiu em Fátima à revelação do último segredo por João Paulo II.
Deixou umas memórias escritas, ao que consta encomendadas pelo Bispo de Leiria, José Alves Correia, aquando de uma visita ao Convento de Tuy, onde se encontrava, com o objectivo de registar os três segredos confiados aos Pastorinhos. O primeiro, era o fim próximo da I Guerra Mundial e o segundo, era a reconversão da Rússia que acabava de entrar no domínio soviético. Que melhor tónus para o regime de Salazar?
Morreu tranquilamente, como uma criança nos braços da mãe, despediu-se do mundo que não a conhecia, nem ela conhecia, com honras de Estado e banhos de multidão.

ANDANDO POR ESPANHA (2006)

(I)
-Andando por Espanha (2006).
-Uma canseira de calor e férias.
-Relativisando coisas.
-Alguns símbolos:
-Paella, Guitarra, Fiesta, Flamenco, vino blanco, rojo ou rose (albariño, rioja),
o Rei.
-Alcobaça republicana.
-Comícios anti- república espanhola (Porto 1936).
-O drama da imigração subsariana.
-“Cultura” (Garcia Lorca, Chopin) e Turismo (Holywood em Almeria).
-A hortícola e o Mercoalcobaça que faliu.
-A Herança Mourisca na Andaluzia.


Fleming de Oliveira

Largar as coisas do dia a dia, o escritório, a escola e partir para um sítio qualquer....
Após dias de alguma ansiosa contagem decrescente, eis que chega a hora de a A. trancar a porta da João de Deus, sempre com duas voltas na fechadura, não vá o diabo ou uma ucraniana habilidosa tece-las, abrindo-a com um cartão de crédito, e darmos início à canseira das férias, este ano de novo para Espanha, com o casal J. e L. H.. Para a A, se pudesse escolher sozinha, a praia seria a grande vencedora. Para mim, hoje em dia, outros destinos são bem mais apelativos que a praia.
Gostaria, todavia, de ir a Ítaca, a ilha grega de Ulisses, mas não pela praia. Segundo parece, toda a gente que andou na escola a conhece pelo menos de nome, mas nunca ninguém vai até lá, salvo uns excêntricos muito especiais, pois esta vírgula em pleno Mar Jónico, nada tem a oferecer aos turistas de massas, como os ingleses, alemães ou mesmo a A., que chora por se poder torrar ao sol pois que, segundo diz, lhe faz bem à pele e ossos.
Por outro lado, gostaria de experimentar um dia, se a A. deixasse ou acompanhasse, uma vinoterapia à italiana, como existe segundo me contou o A., médico de família, na zona das benditas cepas do Muscat de Santo Stefano, no Piemonte, plantadas há muitos anos pelos monges franciscanos. O tratamento do doente!!! Começou no caso do meu médico, por um banho no pipo de casco de madeira, onde se encontravam a boiar uvas, mel e óleo de grainhas, temperadas com o sal especial de Guerande.
No que diz respeito a timings, as temperaturas quentes, bem como a calendarização lectiva da A., revelam-se ainda as nossas condicionantes turísticas, lá para fora ou cá por dentro. Agosto encabeça a lista das nossas disponibilidades, pois não podemos dizer preferências. Tirando uns dias na Páscoa, normalmente no Algarve, mas que não sei se a senhora Ministra vai continuar a permitir, férias repartidas está longe de ser uma opção viável, por enquanto, embora não nos desgostasse de todo a inverter. Confesso, que não tenho grande vontade de viajar a um país aonde as pessoas tenham de trepar a um coqueiro para se alimentar ou vestir. As alturas nunca me seduziram, muito menos nesta fase da vida. Também pouco me importa saber o que comem os beduínos do Sahara ou quantas vezes dão de beber aos camelos, antes ou depois de uma travessia no deserto. Dizem-me, o M. e o N. G., que ir os states é um óptimo programa de turismo, o que não duvido, mas a A. e eu receamos ter de comer com frequência, nesse oásis de oportunidades, hamburgers encebolados e engordurados, ainda que ao custo de um dólar, acompanhados por uma cola. Falando a sério, não tenho vontade de ir a um país, seja qual ele for, cujos costumes são totalmente estranhos aos nossos. Todavia, se mesmo assim houver alguém que tenha vontade de ir até aos Mares do Sul, saber como os nativos comeram o Capitão Cook, depois de ter lido na juventude o Robert Louis Stevenson ou o S. Maugham, não o dissuaria para que ficasse em Portugal.
Aqui, não se come o derrotado numas eleições ou no campo de futebol, mas também não se penaliza, nem se leva muito a mal quem promete eleitoral e politicamente, mas não cumpre, não se pede responsabilidade ao funcionário que no serviço faz apenas o que deve ou ainda o que não deve, a troco de umas somas ou o engenheiro que deixa cair uma ponte por falta de manutenção.

Tenho necessidade de sair, de vez em quando, de Alcobaça. Ver novas terras, outras pessoas. Cheirar outro ar. Esquecer o défice. Maldito défice. A subida dos preços não é recebida com apupos ao senhor Ministro das Finanças. O pão subiu. A gasolina subiu muitíssimo, ultrapassando todas as barreiras. Os salários sobem menos que a inflação. O cão da P. cagou no tapete sala de estar. O L. não quis começar a sopa. O D. não subiu ao último degrau do escorrega do parque infantil de Alcobaça. A A. barafusta comigo, por tudo e por nada, pois eu sou teimoso e não aprendo. A culpa é do défice, claro. Sacana do défice que se agarrou ao País como uma lapa, nos marca como um ferrete, e que já vem do tempo da D. Manuela e o Engº Sócrates arrostará até ao fim.

Alcobaça é uma terra envolvida por um outro défice, qual colete de forças que a sufoca, lhe condiciona e limita os movimentos. Uns dizem que também é uma questão de orografia, outros que é a omnipresença, dessa mole enorme e parcialmente desaproveitada que é o Mosteiro, todavia, Património Mundial, e uma das sete maravilhas do nosso País. Não me inclino por uns contra outros, nem acompanho as teses intelectuais do Engenheiro Pedro Tavares. Ambos terão a sua quota parte de razão, mas outras existem que não viabilizam um desenvolvimento e condicionam qualquer estratégia política sustentada. Será que não há saída e Alcobaça apesar da intelectualidade de alguns responsáveis, corre o risco de se ensanduichar entre a Marinha Grande, Nazaré e Caldas da Rainha, transformando-se, definitivamente, numa terra sem ambições de crescimento ou de afirmação de liderança? Pelo menos parece-me que sim, vendo o que se passa nas terras à volta. Na minha opinião, e não desejo ser acusado de maledicência ou de falta de bairrismo, Alcobaça encontra-se em notória perda de poder há anos para cá, não só, nem principalmente, pelas suas condicionantes materiais (orografia, uma baixa enquadrada por montes e o Mosteiro), mas pelo crescente fortalecimento dos seus vizinhos, capazes de melhor reagir, eventualmente superar a contrariedades que a todos nacionalmente consomem.
Este ano (2006), pelo o Natal, o comércio local de Alcobaça, arranjou mais um pretexto para se queixar do peso da crise, nada promovendo para se afirmar (por falta de tempo!!! assim comunicou publicamente a ACSIA). Quase todos os dias ouvimos falar mal da noss terra. Melhor dizendo, quase todos dizemos mal do nosso país e concretamente de Alcobaça. As teses mais comuns, dizem os doutores, baseiam-se na mesquinhez, na inveja, na falta de desenvolvimento, no atraso cultural, na estupidez endémica das massas. Ouvindo certos discursos que passam nas conversas de café ou na comunicação social, seríamos levados a crer que não temos salvação, que não há outra vida para além da deste país ou terra. Mas há.
Nem sempre tenho estado totalmente identificado com o posicionamento municipal (social democrata), por muito pragmática que se reclame ser a liderança do Dr. Sapinho. Se a vida de uma comunidade não se pode confinar às suas opções, ainda que muito boas no papel, a verdade é que ela lhe pode dar um bom e oportuno impulso, mobilizando um esforço alargado a pessoas e instituições. Uma terra sem apetência de cidadania, não será capaz de suportar os ventos e as cheias que assolam os prédios velhos e que chicaneiramente se mantêm degradados, tais como os seus habitantes.

Este ano cumpriram-se cem anos, sobre a enunciação da Teoria da Relatividade. Se entendo o argumento que o Universo é Relativo, já discordo que a ideia da relatividade universal se transporte para o universo particular da humanidade que tem de trabalhar para comer. Estudei que Einstein introduziu na sua teoria, a constante cosmológica para explicar como um universo em expansão como o nosso, se pode deter por via dessa energia obscura, o que parece significar, na minha simplicidade, que o universo que se movia para a frente, agora se encolhe e até pode fazer marcha atrás. Não sei se isto tem sentido, mas admito que sim, por amor ao debate e respeito pelo cientista. Pois bem, se o universo se encolhe ou move para trás, isso preocupa-me tanto, tanto quanto um historiador estilo do bloquista Fernando Rosas, me venha argumentar que a origem dos males do nosso País, neste século XXI, se devem reportar a Afonso Henriques, que em menino bateu na mãe, ou no Nuno Álvares Pereira que combateu os castelhanos. O que me preocupa não é que o universo se retraia ou ande para trás, mas que aceitemos isso, para relativizar, num encolher de ombros os problemas que vão surgindo à volta e compararmo-nos com os nossos vizinhos. Sem ir mais longe, recordo que um dia, estava a conversar com um colega, que me disse que a nossa discordância na apreciação de uma decisão judicial que nos interessava respectivamente, não era muito relevante, porque afinal tudo é relativo, dependia da posição em que estávamos. Verdade seja dita, que este argumento, me enfadou mas só consegui responder-lhe que afinal ele tinha acertado, pois a sua forma de pensar é que era verdadeiramente relativa, não o seu cliente, nem eu.
Ora era a isto a que me queria referir atrás, quando dizia que preferia ficar em Portugal a ir a certos países, após ouvir o meu colega falar da relatividade de argumentos. Se se pode aceitar que o universo é relativo, já não me parece ser aceitável que se transporte esta tese para o universo particular de cada um, conforme os interesses em confronto, os que sofrem porque têm fome, os que choram porque foram despojados e não são amados, os que protestam porque não são ouvidos. Para todos, menos os relativistas de algibeira, o mundo é um lugar de luta, de sofrimento e de esperança, onde tem lugar a fé no acreditar que, como diria Pessoa vale a pena fazer, ainda que nem sempre corra bem. Onde estão esses relativistas ideológicos, de oportunidade e de interesses? Procurei até encontrar a resposta no Google, que me encaminhou para a borbulha de energia obscura, que trava o universo não como constante cosmológica, mas como a medida da inferioridade.

Estar em Espanha e não comer uma paella é, para mim, algo impensável. Tal como calamares, tapas e raciones, acompanhadas por uma loira caña, seja no Ronquilho, Taberna del Pintcho ou noutro sítio interessante.
A paella é, um prato típico espanhol, mas que se come de Portugal à Galiza ou Andaluzia, de origem popular, remontando aos tempos medievais, e que aos poucos se adaptou à disponibilidade de alimentos e características da cada região. Em Valência, que se diz ser a sua terra natal, e aonde com muita pena não podemos ter ido este ano, havia muitos arrozais, o costume e a necessidade de as famílias criarem galinhas e coelhos. Daí, a clássica receita de paella, numa frigideira ampla e rasa, redonda com pegas, que leva arroz, frango, coelhos, caça, caracóis, garrafó (um grão, que lembra feijão branco), judias (vagens, em castelhano), azeite e o açafrão que lhe dá o colorido amarelado, facilitando o seu mexido. Mas há outras receitas, menos puristas segundo especialistas, que misturam carnes, peixe, lulas e marisco.
Tentei saber em Vera(Almeria), numa banca de venda de recuerdos, jornais, livros turísticos, incluindo de gastronomia, a origem da palavra paella. Segundo o funcionário, talvez dono, dado o seu ar pretensamente entendido, e a fumar charuto mal cheiroso, a origem é latina, vem de patella, bandeja usada antigamente e destinada a oferendas aos deuses, especialmente nos rituais da fecundação. Mas há, como li depois numa edição do Círculo de Leitores, quem defenda outra versão. A palavra paella surgiu, quando os rurais regressavam ao fim de semana a casa e em homenagem às esposas, preparavam a iguaria.
A L. e o J. H., depois de inicialmente torcerem desconfiadamente o nariz às paellas de restaurante, compraram uma frigideira de paella, na esperançosa certeza que os dotes culinários daquela, serão capazes de fazer no Casal Pereiro, uma mais gostosa que, eventualmente. comida em Valência, pelo menos a de arroz negro em Mijas, acompanhada por um Monte Velho. Espero que, se isso acontecer, estejamos lá a A. e eu, para emitir uma abalizada e desinteressada (mas consciente…) opinião.
Será este um prato da cozinha genuinamente espanhola? Quando ando em turismo, faço muitas vezes a pergunta, por curiosidade ou mesmo dever. Quando digo dever, não me refiro todavia a qualquer sacrifício. Nesse aspecto, sigo os conselhos de um amigo, vou ao acaso se necessário, ou mesmo na dúvida, em alguns percursos. Na Baviera e Salzburg, comemos tipicamente (o quê?) com a C. e M. em excelentes restaurantes de tipo familiar, situados à beira da estrada, para aproveitar e gozar a grandiosidade do momento, satisfazer a nossa curiosidade, sem preconceitos antropológicos, etnológicos ou gastronómicos.

Espanha, a corda de uma guitarra. O burro imóvel sob a fornalha do meio dia. A arena com o sol e sombra para assistir a touros de morte às cinco da tarde. Bailarinos que cantam uma história dolorosa, a bater palmas e com os tacões. Cegonhas a fazer o ninho na torre da igreja. As tapas e os bocadilhos. E o vinho é claro, desde o albariño, ao venerável e clássico rioja que dormiu calmamente em cascos de madeira ou até o rosé musculado ou entorpecido, qualquer deles a trotar suavemente do copo para a garganta entre baforadas de baunilha...
Gosto do sotaque castelhano, mas também do galego, que na minha opinião já é mais parecido com aquele que com o português. Talvez não aprecie tanto, como o melodioso italiano que é a língua operática, por excelência. Se tivesse vinte ou trinta anos, gostaria de ter a oportunidade de dizer a uma xica madrileña (galega? andaluza?), te quiero, pois que, compare-se, é bem mais bonito, sentido?, que o portuguesíssimo, quero-te, aonde a entoação morre logo no fim, enquanto que na outra (castelhano ou galego) é, a afirmação por demais evidente, logo no início da declaração.
É natural que o galego seja mais aparentado com o castelhano integralista que com o português, embora tivessem sido em tempos uma língua comum. O que se ouve hoje na Galiza não é o galego de antigamente, tal como o português não é o de antanho, que evoluiu. É correcto dizer que o português evoluiu separadamente do castelhano, e por sua vez o galego dentro do castelhano, pois o Gen. Franco tentou aniquilar, na sua perspectiva unificadora-centralizadora, tudo o que fosse autonomia ou língua local.

Não depreciamos nada a estadia de uma semana em Maiorca, o que passa pela vontade de voltar logo que possível, quem sabe para o próximo ano. Claro que não somos do círculo dos Reis de Espanha ou do Abramovitch, que visitou a ilha a bordo do seu yacht. Este é o dono do Chelsea, de Mourinho. O seu barco, Le Grand Bleu, com quem quase nos íamos cruzando em Es Trenc, aloja na coberta dois helicópteros, um veleiro de vinte metros, um submarino e um veículo todo o terreno. A tripulação é composta por um total de sessenta pessoas, onde se incluem os marinheiros da praxe, um piloto de helicópteros, médico e equipa de enfermagem, sem esquecer uma completa equipa de seguranças. Todos eles têm a seu cargo a manutenção do que é considerado o quinto maior yacht do mundo, com um valor estimado em cem milhões de dólares e que pertence do homem mais rico do Reino Unido e o segundo mais rico da Rússia, donde é natural. Abramovich, segundo a Fortune, dispõe de uma conta corrente mais avultada que o Duque de Westminster. Petróleo? Outros negócios?
O barco parou, numa segunda feira de Agosto, em frente a Es Trenc, aprazível praia aonde tínhamos estado no dia anterior. Esta esplêndida praia, durante a semana é dominada por nudistas, amantes da natureza e neo ou falsos hippies. Abramovich, para entretimento da tripulação, instalou um simulador de voo, de F-18. O barco pertenceu anteriormente ao co-fundador da Microsoft, com Bill Gates, que segundo se diz teve de o vender, por não ter dinheiro para o manter!!!
Em Maiorca, encontramos excelentes e paradisíacas praias com palmeiras até à água, não necessariamente muito lotadas, desde que não estejamos no Arenal ou Magaluf. Nunca estive nos Mares do Sul, nem Maiorca tem nada que se lhe compare, mas em Cala Pi, ao tomar uma banhoca, recordei-me da épica cena de Sean Connery e Ursula Andress. Aquele chegou a uma ilha para anular o poder atómico de um mauzão e Bond, que só bebia champanhes das melhores produções francesas, mas também martini, requintado e viril agente com licença para matar, que o Ocidente opunha às forças do mal que tinham sempre uma conotação soviética, encontrou uma bomba emergindo como Vénus das ondas, mas com instinto de sacerdotiza do sexo. A Úrsula A. não se conhecem grandes êxitos na tela, mas em 007 contra o doutor NO, o seu biquini branco e formas redondas, foram suficientes para a deixar para a história. Dizem que Sean Connery melhorou com a idade. Não sei o que é feito de Ursula Andress.

No dia em que fomos dar uma volta de carro pela parte noroeste de Maiorca, estivemos mesmo à porta do Palácio de Marivent, a residência de férias de verão dos Reis de Espanha, em Palma.
Numa pequena praia de acesso difícil, mesmo ao lado do palácio, e virada para este, deparamos com o espectáculo insólito, de umas dezenas de nudistas, homens e mulheres, a passearem-se provocatoriamente. Calculamos que esta manifestação, que veio suscitar a intervenção da Polícia Local, significava uma forma de afrontamento e contestação à presença dos Reis, que nem a reputadamente afável postura e democrática visita de João Carlos I, ao Mercadona (supermercado do bairro) conseguiria aplacar, em termos opinião pública contestatária. De facto, este seria o último lugar em que se esperaria encontrar o Rei de Espanha. A Rainha Dona Sofia não foi ao supermercado, preferiu ir às compras em Palma. Vestido de maneira informal e por seu pé, como qualquer cidadão anónimo ou turista português, João Carlos I dirigiu-se ao supermercado. Seguramente a família real, tem necessidade de fazer as compras para o dia a dia, mas não terá sido propriamente com essa finalidade que o Rei ali se dirigiu. Aliás, ninguém espera que ele se venha a converter em cliente do Mercadona e a pedir, como qualquer um de nós, os bónus de desconto, nos artigos de folheto e em promoção. Já foi dito, não me lembro por quem, que nenhum político é demasiadamente grande para o seu criado de quarto. Lembrei-me então, ao pensar como seria o Rei de Espanha a fazer as compras, num supermercado. Uma personalidade com lugar reservado no jet set e na imprensa cor de rosa, com opinião respeitada e formada sobre muita coisa, como política, economia, relações sociais ou vela, saberá o que é e como se compra uma compota de morango? Acocarado diante de uma prateleira baixa, com óculos sobre o nariz, por muito importante que seja a personalidade, será sempre uma imagem menos edificante a pedir a colaboração de uma funcionária. Perceberia ele à primeira ou segunda as explicações que a pobre lhe iria dando? Nesse momento, os grandes e complexos problemas da Espanha e do Mundo, seriam reduzidos à comparação com a complexa interpretação da literatura que acompanha, nas costas, um frasco de compota. A vida da família real não dá tréguas aos jornalistas e é ela que marca a agenda social em Maiorca, no período de verão. O Rei no supermercado, a Rainha acompanhada de Doña Letícia e Infanta Cristina nas compras num Mercedes Classe S e com uma escolta, mais reduzida que o habitual. A visita de João Carlos I ao Supermercado, por volta do meio dia, causou espanto e curiosidade, tendo sido alvo de manifestações, por parte de clientes e empregados. João Carlos I é tido por pessoa cordial, não apenas entre alguns monárquicos, e perante a timidez duma empregada do supermercado que oferecia aos clientes uma prova de melocotones, o monarca rompeu o gelo, e conversou com a menina.

Sou Republicano, mais por convicção que por tradição. Em Miramar, nunca houve grande interesse pela política. Muito menos intervenção. Verdade seja dita, nunca conheci ao Zico qualquer opinião ou manifestação de teor político. Creio que o Zico era de uma direita pouco liberal, não comprometido cívica ou politicamente. A Zica andou no Colégio Alemão, do Porto, em pleno período do nazismo, o que a marcou muito para sempre, pois que invovcava esse passado com frequência. A República, entendo-a não por força de uma imposição ou tradição familiares, mas pela convicção que é, apesar de tudo, melhor que a Monarquia. Acho divertido ver a Rainha de Inglaterra ou o Rei de Espanha, nas suas aventuras e desventuras familiares, postas a nú, nas revistas cor-de-rosa. No mais não acho relevantes as suas vidas.
Numa perspectiva elaborada, talvez mais teórica que prática, a República representa, para mim, o lugar da coisa pública, dos interesses comuns, da utilidade social e geral sobrepondo-se às paixões privadas, às restrições das classes e à visão genética da linhagem. A Monarquia, em abstracto, acentua o sentido do poder conduzido por direito próprio e isolado, o que me custa a digerir.
Claro que, mais que emitir princípios filosóficos ou doutrinais, cumpre viver o dia a dia democrático, seja em Portugal ou Espanha. Não creio que em Espanha haja muitos monárquicos, mais que republicanos, como não havia em Portugal no tempo em que o regime era esse, como diria o nosso rei D. Carlos I. Por isso, não me revendo em nenhum princípio monárquico, entendo que o importante é aperfeiçoar o regime democrático, julgando-o pelo que faz e deixa fazer, apreciando os seus agentes, onde se pode incluir o Rei nos seus actos e omissões.

Centrando-me a Alcobaça e socorrendo-me de estudos, direi que esta terra foi sempre republicana. As manifestações de regozijo pela implantação da República, foram grandes e o ardor republicano ficara devidamente registado, numa fotografia de 1908, a propósito da visita de Bernardino Machado, que chegou a Presidente da República.
Quando se deu a queda da Monarquia, foi bem recebida por uma parte da elite local, com destaque para José Eduardo Raposo de Magalhães, nomeado Governador Civil de Leiria, pelo Ministro do Interior António José de Almeida. O tempo de Raposo de Magalhães como Governador Civil, foi curto pois que, em Junho de 1911, apresentou o pedido de demissão, recolhendo nesse mesmo dia a casa. A decisão foi consequência das divisões politicas entre os correligionários, o que era uma constante durante a Primeira República e pela qual esta pagou um elevado preço com o 28 de Maio. Além de Raposo de Magalhães, outros assumiram posições de destaque na defesa dos novos ideais, como aconteceu com Américo de Oliveira, que pertenceu à Carbonária.
Após a implantação da República, Leão Azedo, pessoa próxima do Ministro do Interior veio a candidatar-se nas eleições de 28 de Maio de 1911 para a Assembleia Constituinte, pelo círculo de Alcobaça, que nessa altura incluía os concelhos de Óbidos, Peniche, Caldas da Rainha, Nazaré e Pombal.
São escassas as informações fidedignas disponíveis sobre este período, nomeadamente sobre a Carbonária, no distrito de Leiria, com a excepção referida de Américo de Oliveira, de Alcobaça, que combateu em Lisboa pela Revolução. A maioria dos membros da Carbonária pertencia ao Partido Republicano, de Afonso Costa. A Carbonária foi uma sociedade secreta, interclassista em contraposição com a Maçonaria, de carácter elitista. Passados mais de noventa anos após a queda da monarquia, a Carbonária é tida como a alavanca da Revolução Republicana. António Maria da Silva, Luz de Almeida e o Comandante Machado Santos que constituíam a Alta Venda da Carbonária tiveram papel fundamental no derrube do regime.

Em Espanha continua um alargado debate sobre o franquismo, trinta anos depois de ter terminado. O anterior regime continua a ser motivo de estudo e de controvérsia apaixonada.
Segundo inquéritos, mais de metade dos que viveram sobre o regime de Franco, que durou quarenta anos, mostrava-se-lhe relativamente indiferente.
Respondendo em inquéritos de opinião recentemente levados a cabo, 25% dos espanhóis que viveram no tempo da ditadura, diz que se sentia anti-franquista, enquanto que apenas um em oito, reconhece que a apoiava.
Serão pois, em números não despiciendos, os que se definem como anti-franquistas, mas na verdade formam maioria aqueles que dizem que lhe foram indiferentes, o que justifica, que o regime tivesse durado tantos anos.
O Governo do PSOE, de Rodriguez Zapatero, pretende levar avante A Lei da Memória Histórica, alegadamente para por termo a determinadas situações inaceitáveis, repor a verdade histórica e sanar injustiças.
No centro da polémica, está o Vale dos Caídos. Uma clara maioria de Espanhóis (castelhanos), sem exclusão dos que pertenceram à antiga oposição, entende que é melhor deixar o Vale dos Caídos como está, salvo a sua eventual conversão num museu que explique objectivamente o que foi franquismo. O que se deverá excluir, é a sua destruição.
O Vale dos Caídos, o lugar onde estão enterrados Francisco Franco e José António Primo de Rivera, o fundador da Falange, transformou-se, num ponto de romagem de franquistas e falangistas saudosistas, encontra-se a cerca de 58 km de Madrid. As obras começaram cerca de dois anos após o termo da Guerra Civil e por lá passaram, durante dezassete anos, cerca de vinte mil operários, muitos dos quais provenientes das cadeias políticas que, assim, obtiveram algumas reduções nas respectivas penas.
Apenas um grupo minoritário de franquistas e falangistas continua a organizar uma vez por ano uma romagem, que vai perdendo força com o passar do tempo e que se realiza no dia da morte de Franco e de Primo de Rivera, aliás no mesmo 20 de Novembro, embora separadas por um intervalo de 39 anos.

Há cerca de 70 anos, Setembro de 1936, por iniciativa de organizações sindicais afectas ao regime salazarista, realizavam-se em Portugal comícios anticomunistas, quais gritos de denúncia para os dramáticos e sangrentos acontecimentos que se viviam em Espanha. A guerra neste país serviu de pretexto para manifestações de apoio ao regime corporativo, como contraponto aos marxistas e anarquistas.
Numa sessão de propaganda realizada na Foz do Douro, saudou-se cordealmente a Espanha nacionalista e apontou-se a necessidade de mostrar ao mundo inteiro que o Estado Corporativo (português) está contra o comunismo, tal como se salientou o facto de, contra igualdade soviética que atravessa a Espanha se ter erguido o exército nacionalista que, sem cessar, castiga duramente os inimigos da Ordem.
Este comício, foi programado dias depois para o Palácio de Cristal, com uma grande parada anticomunista que ultrapassaria tudo quanto a imaginação concebesse, segundo os propósitos dos promotores, e aonde não poderiam estar ausentes as mães portuguesas.
A estas, um dos sindicatos corporativistas, dirigiu a inequívoca mensagem, as classes dos trabalhadores portugueses não se deixam seduzir pelo ouro vermelho, porque esse quando transformado em pão seria intragável como fel, porque representa a traição.
Hitler discursava, por essa altura, no Congresso de Nuremberga, assestando baterias contra o bolchevismo, pois que o Nacional-Socialismo salvara o povo alemão, dos fomentadores internacionais da desordem e que o sovietismo judeu bolchevista nunca lá iria pôr o pé. Quanto à Guerra Civil que assolava Espanha afirmou que os massacres horrorosos de elementos nacionalistas, a execução de mulheres de oficiais nacionalistas por meios horríveis, entre os quais o lançamento de fogo com o auxílio de gasolina, o massacre de crianças e de raparigas nacionais-socialistas em Espanha, devem intimidar e paralisar forças de resistência dos nacionalistas de outros países no caso de análoga situação. Se esses métodos triunfam e se os karensky modernos se deixam surpreender pelos jacobinos e lenines bolchevistas, a Europa será submergida por um oceanos de sangue e armas.
Assim falava, sem papas na língua, aquele que três anos depois iria incendiar o mundo, cujas marcas ainda persistem.

Um dos assuntos que agitou a política em Espanha, durante o último verão para além dos incêndios catastróficos na Galiza, cujas gentes ainda não esqueceram a tragédia do Prestige, foi o dos emigrantes subsarianos que chegam por mar (e ar) ao Arquipélago das Canárias.
Também aqui, as máfias estão presentes, tendo conseguido introduzir, durante o mês de Agosto, 4.850 emigrantes sem documentos, o que ultrapassou em número, os que haviam chegado durante o ano de 2005.
Os números revelam ter sido, este um ano pior do que o do Governo PP, pelo que a neutralização da chegada maciça de pessoas, converteu-se numa prioridade do Governo.
Passaram já doze anos em que os subsarianos, especialmente provenientes da Mauritânia, Senegal, Gambia, Guiné Conacri e Guiné Bissau, começaram a chegar ao Arquipélago das Canárias em pequenos barcos, como pirogas (cayucos), traineiras, barcaças e botes.
São africanos, normalmente do sexo masculino, sem qualquer documentação, nem qualificação, muitos menores de idade, arriscando tudo para sair da miséria, afinal só se vive uma vez…, na procura do El Dorado europeu, o sonho de um emprego que lhes permita comprar arroz, carro e numa fasquia elevada fazer uma casa para a família que ficou na terra.
As máfias aprenderam depressa as regras (democráticas) da U.E. que se aplicam aos emigrantes e a chegada destes irregulares, os sem papéis, como também lhes chamam, tornou-se imparável, contando-se às dezenas/centenas por dia, sendo também os aeroportos, pontos-fortes do fenómeno migratório.
As imagens dramáticas das frágeis embarcações repletas de pessoas assustadas, em muitos casos feridas, que se sujeitaram no limite das suas forças a viajar de cócoras, molhadas até à medula, e com alguns mortos (por fome, sede ou suicídios), enlouquecimentos, chegadas à costa após oito ou dez dias de mar e muitos quilómetros, produz impacto, alarme social, que chocam e desafiam uma sociedade, habituada a um tipo de padrão e respeito pelos direitos humanos.
Claro que seria bom, muito cristão mesmo, poder acolher toda essa gente e dar-lhe um lugar à mesa da nossa relativa abundância europeia. Mas é bom não esquecer e reconhecer, que esta imigração, inviabiliza as condições para a sua inserção. O problema da emigração clandestina, com os contornos de um tráfico negreiro, não se resume à chegada dos subsarianos às costas das Canárias. O que a princípio parecia uma brincadeira, transformou-se num quebra cabeças para a Guarda Civil.
Agora, centenas de asiáticos, sem documentos e socorrendo-se do apoio das máfias marroquinas, são introduzidos em Espanha, utilizando motas de agua. Estes emigrantes são procedentes da Índia, Paquistão ou Bangladesh e chegam a Marrocos alegadamente como turistas. Uma vez em Rabat, contactam a rede que os distribui pela zona costeira espanhola, que se estende de Almeria a Cadiz. As motas saem de uma pequena localidade a uns seis quilómetros de Ceuta, atravessam o Estreito e desembarcam onde vai calhando. Enquanto preparam o salto para Espanha, os sem papéis alojam-se em pensões ou em casas de marroquinos. Aí esperam o dia indicado pelos traficantes para subir para a mota de água. Este serviço implica um custo que oscila entre 600 e 900€.
Burlar a vigilância da Guarda Civil é relativamente fácil porquanto, as motos andam muito depressa e passam-se informações quando ocorrem as alterações dos turnos dos guardas. Os traficantes passaram a utilizar preferencialmente esta técnica a partir do momento em que a fronteira terrestre entre Ceuta e Marrocos se tornou quase inexpugnável.
As máfias marroquinas preferem trabalhar com os clientes procedentes da Ásia, que oferecem mais vantagens que os subsarianos, pois passam mais facilmente desapercebidos, têm maior poder económico e são menos perseguidos que os africanos. Estas redes além de utilizar as motas de água, utilizam embarcações de recreio, nas quais transportam os irregulares.
Calcula-se que em Espanha vive mais de um milhão e meio de emigrantes sem documentos (entre três a cinco milhões em toda a EU). Isto não impede, antes justifica, que umas dezenas de ONG’s façam um apelo para que a Europa proceda a uma regularização incondicional dos clandestinos.
Num documento apresentado em Madrid, é relembrado aos estados europeus, a dívida histórica para com os países de onde os emigrantes são originários, reclamando que os países mais ricos optem por uma mudança radical nas políticas económicas, que conduza a uma melhor redistribuição da riqueza. As ONG’S envolvidas neste processo, pugnam pelo encerramento imediato e definitivo dos centros de detenção de emigrantes, bem como o termo do seu repatriamento forçado (muitas vezes nem se sabe de onde vêm estes indocumentados), concedendo-lhes o direito de residência, tenham ou não contrato de trabalho válidos nos países aonde chegam.
Corre-se o risco de se conceber que a única forma de contrariar esta invasão de dimensão europeia, seja usar a força. A Espanha, como qualquer outro país, tem o direito de defender as suas fronteiras perante uma invasão, mesmo que dita pacífica, e a obrigação de garantir a justiça, paz social a todos os que vivem dentro dela, por aí terem nascido ou um dia optado por viver e trabalhar.

Gosto de abordar o tema da Cultura, na medida em que o situo no que, na minha perspectiva, é a Alma de um Povo, o nosso Povo, o seu sentir ao longo dos séculos, o que o distingue dos demais pelas suas expressões materiais e espirituais. Os tempos parece que rolam cada vez mais rapidamente, e esta mudança que assume características diferentes, é a que constrói um povo, um País, Portugal. Os Lusíadas mostram-nos o modo de ser português e quinhentista, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, a nossa gesta marítima, colonizadora e civilizacional que parece estar em descrença, a baixa pombalina lisboeta, uma nova face da arquitectura moderna e de um estilo da cidade, a Ordem de Cister, o poder de um Estado/Igreja, dentro de outro Estado. E assim por diante. Isto é a nossa cultura, isto é ser Portugal. Destruir ou abandonar este nosso património cultural, é destruir aos poucos o sentido de unidade ou os alicerces de um Povo. Atravessa o nosso País, tal como a Europa, uma crise que não é só económico-financeira, mas onde são pedidos sacrifícios e contenção. Lastimo reconhecer, nem que seja como a clamar no deserto, que esses sacrifícios incidem muito especialmente no parente pobre do Orçamento. Esquecer ou desprezar a cultura é o equivalente a menosprezar a nossa identidade individual ou colectiva.
Todos sabemos como o turismo, que é uma das actividades que assume cada vez maior peso económico e social em países como Portugal, tem vindo a alterar a vida e os costumes de certas comunidades. Os agricultores e pescadores portugueses foram das classes sociais que mais alterações sofreram, por força do turismo. A política de betão relativamente à qual o J. H. manifesta alguma ambiguidade, a dificuldade entre decidir se se deve construir muito ou pouco e aonde, no litoral ou no interior, e dos campos de golf, eliminou rápida e definitivamente muitas terras agrícolas e comunidades piscatórias, sem que daí se possa concluir definitivamente que foi vantajoso.
As regras das economias de mercado são inexoráveis e não se compadecem com saudosismos, salvo se daí advieram proveitos. Quando há uns anos estivemos na Áustria, tivemos oportunidade de ver quando o nome MOZART, significava em termos de marketing. Para os austríacos em geral, e não apenas os de Salzburgo, MOZART é marca para tudo, desde os festivais, os chocolates, os gifts mais simples, vulgares ou inacreditavelmente pirosos. Mas a verdade é que vendem e isso é o que conta…
Na Andaluzia está a verificar-se um fenómeno com algumas semelhanças. Hotéis, restaurantes, escolas, mesmo de condução auto, ruas, aeroporto de Granada, barcos, eventos, exposições, um prémio internacional de poesia ou um ciclo de flamenco, levam ao limite o nome de Lorca (Frederico Garcia Lorca), o que converte o poeta não apenas numa referência cultural, mas um importante chamariz para os turistas e uma fonte de receitas.
A residência da família Rosales, em Granada, na qual o autor de Bodas de Sangue se refugiou durante uns dias, antes de ser preso e fuzilado, transformou-se num hotel cujo restaurante, especializado na cozinha andaluza/granadina, se chama El Rincon de Lorca.
O gerente de um restaurante andaluz, tomou a iniciativa de confeccionar pratos com o nome lorquiano e decorar as paredes com motivos literários e recordações pessoais, a ele alusivas. Estrangeiros, nomeadamente japoneses, perguntam com frequência pela localização do túmulo do escritor. Muitos homossexuais passaram a escolher o restaurante para realizar as suas festas, e muito especialmente, a partir de 2005, as de casamento. As autoridades responsáveis pelo turismo na Andaluzia, reconhecem a importância destas referências lorquianas e esperam que a figura do poeta venha a ser uma referência turística internacional de Granada, ao mesmo nível da Alhambra. Também se prevê, para breve, a expansão da rota lorquiana. Empresas exploram esta rota, especialmente dirigida a estrangeiros, rumo à casa onde o poeta passou parte da infância, a qual recebe por ano cerca de 20 000 visitantes. Claro que há opiniões contrárias, ditas mais intelectualizadas e contra corrente, quanto ao mérito destas iniciativas mercantilistas. É uma pena que um poeta universal como Lorca, seja utilizado desta forma adulterada, pois o seu nome deveria ser independente do negócio, puro e duro, além de que é incorrecto como pessoas tiram partido disso. É necessário separar bem as coisas, sem prejuízo de se saber que, a maioria dos estrangeiros, só sabe da homossexualidade do poeta e da sua trágica passagem pela Guerra Civil espanhola.
Valdemossa, povoação situada em plena serra e a cerca de 20 km da cidade de Palma, de Maiorca, tem um clima muito temperado e considerado saudável. A fama da localidade, ultrapassou fronteiras a partir do século XIX, quando acolheu personagens como o Arquiduque Luís Salvador, de Habsburg, e muito especialmente a romântica estadia no Convento da Cartuxa, de Frederico Chopin, e George Sand, no inverno de 1838-1839. Vamos contar em poucas palavras a história desta estadia em Valdemossa, a qual marcou a localidade para sempre. Após uma curta passagem por Palma, o músico e compositor polaco Frederico Chopin (O Príncipe dos Pianistas) de 28 anos e de frágil saúde, pois viria a falecer prematuramente tísico, e a escritora francesa Aurore Dupin ou Dudevant, de 34, que para a História ficou mais conhecida pelo seu pseudónimo George Sand, e que era talvez a mulher de maior notoriedade do continente europeu, chegaram ao Convento da Cartuxa a 15 de Dezembro de 1838, para passarem o Inverno e aquele recuperar da saúde. Na primavera desse ano, o par havia iniciado um idílio intenso, que iria durar dez anos, sendo a etapa vivida na Cartuxa, até Fevereiro de 1839, um dos episódios mais famosos da sua relação, evocada pela escritora na sua obra UM INVERNO EM MAIORCA. Antes de ir para Valdemossa, o casal residiu numa casa simples perto de Palma. Rumores que Chopin estava com tuberculose, pois por vezes cuspia sangue, levaram que o senhorio os obrigasse a desocupar a casa. Ajudado pelo cônsul francês, o casal foi procurar refúgio no convento abandonado da Cartuxa, habitado apenas pelo sacristão, um farmacêutico e um operário. Quando se instalaram em Valdemossa, os monges haviam abandonado a Cartuxa há três anos, por força da Lei da Desamortização dos Bens da Igreja, processo com algumas semelhanças com o que ocorreu, pela mesma altura, em Portugal. Na referida obra, George Sand faz muitas alusões a Valdemossa tal como Chopin, na sua correspondência particular. Durante esse Inverno, o par não deixou de trabalhar bastante. Diz a lenda que num dia de mau tempo, Chopin ouviu a chuva gotejar sobre a cama, o que levou a compor a GOTA DE ÁGUA. Chopin, figura típica do romantismo, compositor e virtuoso do piano, delicado e sonhador, reunia as características que o aliavam à poética melancolia dos nocturnos. Evitado pelos habitantes da terra, que não subscreviam algumas atitudes alegadamente licenciosas de Sand, na sua condição de fumadora e fama de rebelde sexual (quando Chopin conheceu George Sand, em 1836 em Paris, referindo-se a ela escreveu para a família que alguma coisa nela me causa repulsa e acrescentou: Como é antipática essa Sand! Será mesmo uma mulher? Estou na dúvida!) o casal passou por tempos difíceis, mesmo longe do ambiente ferino de Paris. G. Sand escreveu a novela SPIRIDON e a segunda versão de LELIA, enquanto Chopin compôs peças de grande força e beleza poética como a referida GOTA DE ÁGUA (prelúdio em Ré Bemol Maior op. 28, nº 15). Outras peças musicais foram concebidas em Valdemossa, como a BALADA, op.38 e o SCHERZO, op. 40. Recordações de ambos, encontram-se distribuídas nas celas da Cartuxa (doravante conhecidos como aposentos Chopin-Sand), que infelizmente não tivemos a oportunidade de visitar, que no conjunto contêm a mais completa colecção sobre a vida e obra de F. Chopin (1810-1849) e George Sand (1804-1876). O frio, a humidade e a desconfiança dos camponeses sobre aquela ligação ilícita, e o piorar do estado de saúde de Chopin, fizeram o casal voltar a França. Valdemossa, hoje em dia aproveita bem a pungente estadia deste famoso par, orgulhando-se e beneficiando da sua relação com a terra. Foi criado, em 1930, o Festival Internacional de Piano, de Valdemossa, o mais antigo do mundo dedicado ao compositor de origem polaca e aonde acorrem intérpretes consagrados, tal como artistas jovens, galardoados com o prémio do Concurso Internacional de Piano F. Chopin, de Varsóvia. Enfim a terra continua a girar comercial, turística e intensamente à volta desta passagem, muito concretamente nos recuerdos, nomes de ruas, cafés, etc.. O livro Um Inverno em Maiorca é vendido em toda a parte.

Durante a semana em que estivemos em Vera, fomos ao deserto de Almeria, no lugar de Tabernas, visitar os antigos estúdios de cinema. Os cenários encontram-se degradados, votados ao abandono, mas chegaram a ser conhecidos como o Holywood Espanhol, onde Serge Leone e Clint Estwood nos anos sessenta e seguintes, rodaram filmes do faroeste, conhecidos como o western spagheti. Ali encontramos um Forte na Fronteira, com os muros em madeira, o Saloon, aonde assistimos a um show com um xerife, dois batoteiros, bebedores de whisky, no meio de tiros de pólvora seca e socos, o Banco, a Cadeia, aonde a A. e a L. entraram e se deixaram fotografar atrás das grades, a Forca, aonde ninguém quis subir, o Dentista, com promoções no arranque de dentes (dois pelo preço de um), as Estrebarias, a Capela, com sala mortuária, a Paragem das Diligências, os Correios, as tendas dos Índios, etc. No Banco era dado relevo, a um dos símbolos da liberdade à americana, o clássico dólar, não o comemorativo de prata, mas o corrente no século XIX, a moeda que mais tarde passou a reinar nos mercados mundiais. Esta moeda, nasceu com uma nação jovem como ali se pretendia salientar, e que lutava pela sua identidade.
Outros filmes, que não de cowboys, também foram rodados no deserto de Almeria, como exteriores do Patton, Lawrence da Arábia, cujo protagonista Peter O’Toole consumia gin logo de manhã e em média uma garrafa por dia. Para a rodagem de algumas cenas do Lawrence da Arábia, foram contratados ciganos para fazerem de árabes, já que a sua tez morena facilitava a maquilhagem e que comiam presunto. Por isso, quando Lawrence se for embora de Almeria, os árabes deixarão de comer presunto.

Enquanto passeávamos pela região de Almeria, víamos muitas estufas, um autêntico mar a perder de vista, o que era um excelente pretexto para falarmos da nossa e da agricultura deles e as comparar.
Recordei-me então de uma história que há anos corria no MERCOALCOBAÇA, a propósito de uma visita que um conjunto de agricultores de Alcobaça fez a Espanha. Quem a contava era o A. G., de uma forma maliciosa e que vou tentar reproduzir.
Um agricultor dos Montes estabeleceu conversa com um agricultor de Zaragoza, na respectiva feira, o qual a certa altura lhe perguntou o tamanho da sua propriedade.
-Pelos padrões de Alcobaça a minha propriedade tem um tamanho razoável, respondeu equivocamente o A. S., dos Montes, esperto como todos os demais salgueiros daquela boa terra.
-Trezentos hectares? insistiu o xico esperto espanhol. Eu quando saio de casa de manhã no jeep, ao meio-dia ainda não percorri metade da herdade.
-Eu sei o que é isso, respondeu o A. S., sem se descoser. Tive de vender o meu jeep espanhol, que era uma merda, só me dava chatices!!!.

Este verão terá sido evitado um violento atentado terrorista a partir do aeroporto de Londres. Depois do 11 de Setembro (Nova Iorque), do 11 de Março (Madrid) e dos atentados no metro de Londres em Julho do ano passado, o mundo ocidental tem vivido sob a permanente ameaça, de se concretizarem iniciativas que superem as barreiras de segurança.
-Ainda bem que não fomos de avião, desabafou muito reconfortadamente a A. com a L., ao assistirem ao noticiário na televisão, ao que esta assentou com a cabeça.

Mais uma vez em Inglaterra, o passaporte britânico de implicados leva-nos a colocar uma questão de difícil resposta. Como integrar milhares de muçulmanos que possuem passaporte ocidental, mas que se identificam, simpatizam e até colaboram com os terroristas? Esta questão preocupa os espanhóis, a braços com a vaga de subsarianos clandestinos a chegar todos os dias às Canárias, como vimos.
Duas poderão ser, em tese, as grandes respostas que a Espanha ainda não conseguiu seleccionar.
Temos, por um lado, o modelo de assimilação adoptado em França que, respeitando fundamentalmente as crenças dos emigrantes, os obriga a aceitar os valores ocidentais. De outro lado, existe o multiculturalismo britânico, que privilegia a liberdade concedida aos recém chegados, lhes permite manter intactos os seus usos e costumes, desde que não ultrapassem ou colidam com os limites da Lei.
Seja como for, isto tem acarretado impasse, em termos políticos. Recorde-se como os violentos distúrbios em França, ateados por jovens norte africanos dos subúrbios de Paris e outras cidades, desacreditaram o modelo francês. O modelo britânico também não saiu nada valorizado, após os atentados do metro de Londres e das recentes detenções de paquistaneses. É verdade que nem todos os muçulmanos britânicos, franceses, portugueses, paquistaneses ou magrebinos, subscrevem os ataques suicidas e terroristas, mas também o é que são uma maioria, os que desaprovam, como desaprovaram a priori, a intervenção no Iraque, bem como os que se radicalizaram posteriormente, por obra e graça dos discursos de alguns imãs e do próprio G. W. Bush. Seria mesquinho e vesgo, endossar exclusiva ou principalmente à política de Bush, Blair, e ainda de Aznar, a responsabilidade do fanatismo que é imputável aos terroristas e aos que os apoiam. Há intelectuais de origem e formação árabes, que lucidamente entendem que nem a retirada do Iraque ou Afeganistão, tal como a criação do Estado da Palestina, lograria eliminar do ocidente a ameaça terrorista.

Creio que só aperfeiçoando a nossa segurança colectiva perante as ameaças e reafirmando os valores que sustentam o nosso passado e cultura, podemos ganhar a guerra.
A UE, e especialmente a França tal como o Reino Unido, deverão debater bem como integrar as suas comunidades muçulmanas, cada vez mais refugiadas nos guetos suburbanos.
Já tenho ouvido defender em Portugal, a necessidade e a viabilidade de uma Aliança de Civilizações.
Salvo o devido respeito pelos seus bem intencionados autores, aonde se poderia incluir Freitas do Amaral, nalguns casos com pretensões a estadistas inovadores e iluminados, e na glosa da mais antiga e peregrina ideia de Diálogo de Civilizações, não percebo bem como desenvolver essa política social. Uma aliança entre o nosso mundo e o muçulmano a jogar futebol para combater o terrorismo internacional, fundamental e fundamentalista islâmico, é como tentar lançar uma ONG, dirigida tanto pelo Capuchinho Vermelho, como pelo Lobo Mau, em benefício das Avozinhas Desamparadas. É uma ideia que parece soar bem nos areópagos diplomáticos, mas não mais que isso. A recente actuação da Scotland Yard, tão oportuna quão reveladora, mostrou bem alguns frutos da política de Aliança de Civilizações. Os islâmicos detidos, que preparavam uma série de atentados em aviões com destino aos EUA, haviam dialogado com os britânicos até à exaustão, são filhos de emigrantes paquistaneses da classe média. Não estamos perante fanáticos sem formação, como os chegados à Europa numa barcaça, após uma dramática travessia do oceano.

A nossa Europa, não é fruto de uma casualidade qualquer, mas de um processo histórico lento e sedimentado, sustentado pelo pensamento grego, pelo direito romano e a ética cristã. Claro que poderia ter sido de outro modo, mas para isso contribuiu o afrontamento dos que nos invadiram há séculos pelo sul.
A reconquista, as cruzadas, a defesa de Constantinopla e dos lugares sagrados na Terra Santa, são factores históricos que alimentaram a nossa formação europeia, da qual nos deveremos, sentir orgulhosos. Não tenho funções políticas, nem perfil para defender uma guerra santa, como resposta à jiahd e ao seu fanatismo.
Mas não subscrevo slogans como a Aliança de Civilizações, que esquecem princípios essenciais da nossa matriz cultural e do modo de ser. Não se pode abrir caminho ao descalabro de uma civilização milenar como a nossa, em homenagem a frases vazias e posturas laxistas, ainda que muito bem (???) intencionadas.

O Papa Bento XVI, um intelectual de elevadíssimo nível, muito mais que um mero bem intencionado, tem denunciado o laicismo e iluminismo que invadem o Ocidente e defendido que Igreja não faz política.
Mas, nem por isso, deixa de entender ser legítimo pedir aos católicos que se oponham com clareza ao risco de decisões políticas e legislativas que contradigam princípios antropológicos e éticos radicados no ser humano, em particular os referentes à tutela da vida humana em todas as suas fases.
Não se estava aqui a referir especificamente ao caso dramático dos subsarianos, mas à defesa da vida desde a sua concepção até à morte natural, assunto complexo que este ano vai voltar a agitar a sociedade portuguesa. Para Bento XVI, tanto a Itália, como o resto do Ocidente, encontram-se numa fase acelerada de secularização em nome de uma cultura que se pretende laicista, universal e autosuficiente, geradora de um novo estilo de vida, onde não há lugar para Deus. Este tipo de cultura, faz um corte radical e profundo não só com o cristianismo, mas com as tradições religiosas e morais da humanidade. As raízes da nossa cultura mirram-se e, perderemos todos.

Todos bem sabemos dos enormes, importantes e belos vestígios da presença mourisca em Espanha, nada comparáveis com os existentes em território português. Os califados da Andaluzia, foram muito mais importantes dos que houve entre nós, acrescendo ainda a circunstância de os mouros apenas terem sido expulsos pelos Reis Católicos, por alturas da chegada de Colombo à América (1492 d. c.). Andar pela Andaluzia é deparar, a todo o tempo, com a esplêndida herança mourisca.
Nos últimos tempos, tem vindo à liça em Espanha um tema que reputo de interessante e que desconhecia totalmente, os filhos de al andaluz. Diz respeito a cerca de cinco milhões de marroquinos, descendentes dos mouros expulsos pelos Reis Católicos (Isabel, de Castela e Fernando, de Aragão) que pretendem que lhes seja reconhecido o direito à nacionalidade espanhola. Têm apelidos espanhóis, falam castelhano e, nalguns casos, ainda conservam a chave da casa que, há cerca de 500 anos, os seus antepassados, compulsivamente e com lágrimas, deixaram em Granada. Sobreviveram a guerras, emigrações, histórias de amores impossíveis e ódios insanáveis, sem perder o orgulho da memória, que é afinal o cordão que os liga à origem espanhola. Sendo para Zapatero, este o ano da Memória Histórica, chamam a atenção que se sentem mais uns tantos exilados de outra Guerra Civil.

Em 1490, prevendo a inevitável queda de Granada e antes de Boabdil sair para o exílio, choras como uma mulher o que não soubeste defender como homem, alguns destes mouros venderam as propriedades, cruzaram o Estreito de Gibraltar e foram começar uma nova vida, nas severas montanhas do Rif. Alguns anos depois, outros mouros, outrora tão abastados, mas menos previdentes, chegaram pobres e a pedir refúgio, após expulsos de suas casas, pelo Decreto de Isabel, a Católica, de 24 de Fevereiro de 1502, que lhes impunha a opção entre a conversão ou a expulsão. A ideia destes marroquinos, não é propriamente voltar a Granada, como rezavam as profecias andaluzes, mas uma reparação moral, numa altura em que instituições como a Santa Sé, assumem erros do passado e, pedem perdão por crimes e injustiças. Este verão, o presidente da Junta Islâmica Espanhola, apresentou uma petição à Junta da Andaluzia, para ser reconhecido o direito preferencial à nacionalidade espanhola aos descendentes destes mouros expulsos.
Note-se que a Lei de Estrangeiros, de 1985, conferiu um tratamento preferencial aos judeus sefarditas, equiparando-os aos ibero-americanos, portugueses, filipinos, andorrenhos, guineenses equatorianos e gibraltenhos, isto é, aqueles que tiveram uma relação, histórica ou de sangue, com Espanha. Todavia, esqueceram-se destes andaluzes, que eram mais espanhóis que quaisquer outros, pois viveram oito séculos na Península. Por isso, dizem que chegou o momento de reparar essa situação de grave e injusto olvídio. Segundo o movimento, não se preocupem os espanhóis que não correm o risco de ser invadidos, mesmo no caso de nos ser concedida a nacionalidade. Felizmente, os descendentes destes andaluzies, vivem bem em geral e não precisam de emigrar. Pretendem, apenas, uma reparação, pela injusta expulsão, tal como aconteceu com os republicanos, no termo da Guerra Civil. Esta petição, no quadro da reparação histórica, não é uma ideia original, pois um historiador marroquino de origem andaluza escreveu uma carta aberta, há cerca de 4 anos, ao Rei João Carlos I, coincidindo com os 500 anos do Decreto de Expulsão, solicitando a revogação dos Éditos de Expulsão e o reconhecimento público do não cumprimento das promessas de Castela, pois quando da capitulação de Granada, se repetiu por dez vezes a fórmula em que se garantiam os direitos destes andaluzies em permanecer para sempre na sua terra, se entregassem a cidade. A verdade é que uma década depois, foram expulsos e perseguidos pela sanha da Inquisição. Ainda hoje essa promessa, não cumprida, acarreta consequências nefastas nas relações hispano-marroquinas, que durante cerca de cinco séculos tem permanecido sob tensão, desconfiança e receio. Com a agravante de os sucessores de Isabel, a Católica, se preocuparem em fazer a guerra ao mouro, nos seus próprios lares.

João Carlos I nunca chegou a dar resposta à carta, que não terá apreciado, pois suspendeu a visita que estava programada a Tetuão, aonde vivem muitos descendentes andaluzes. A cidade foi refundada por um grupo de mouros andaluzes provenientes de Granada, após ter permanecido desabitada durante cerca de um século, em resultado da destruição causada pelas tropas de Henrique III, em 1399. Daí, ser também conhecida como a Filha de Granada, e reputada pelos regressados como o lugar ideal para respirar os ares de Espanha, cantada por poetas e trovadores como o paraíso perdido, onde se pode ter a alegria de nesse rincão de África, manter as tradições. Actualmente, calcula-se que cerca de 13% dos seus habitantes, têm origem andaluza e de acordo com um senso com cerca de 100 anos, foram encontrados centenas de apelidos espanhóis.
Muitos destes habitantes, têm uma ligação afectiva importante a Granada, aonde vão quando podem. Um deles contou na TV, numa reportagem que segui com muito interesse e de certo modo deu origem a estas notas, que ainda se lembra de os seus avós falarem de Granada, da esperança de um dia lá poderem voltar, reconheceu que se sente marroquino, mas parece-lhe que tem duas mães, uma que o gerou (a biológica) e outra que o adoptou (a afectiva).
Os contributos da cultura andaluza à sociedade marroquina do litoral são incontáveis, pois o reino nazari (de Granada) era dos mais avançados do mundo. Tudo isto foi perdido com a expulsão e quem ganhou, de certo modo, foi Marrocos. Os regressados de Granada chegaram com dinheiro para experimentarem novas culturas de cereais, promover avanços da medicina, implantar técnicas de construção civil, desenvolver a culinária, dar nomes a plantas e flores, e introduzir as armas de fogo nos exércitos. Também fundaram bibliotecas e trouxeram consigo a música. É bom não esquecer os muitos que durante oito séculos nasceram, viveram e morreram na península. Em 1492, capitularam perante os castelhanos e obrigados a regressar ao Norte de África, levaram riqueza, cultura e conhecimentos agrícolas que lhes permitiram prosperar.
A segunda leva de andaluzies chegou a Marrocos em princípios do século XVII, como vimos após novo Decreto de Expulsão assinado por Filipe III, Filipe II de Portugal.
Estima-se que entre as duas expulsões, foram cerca de 300.000 os que deixaram a Andaluzia e se espalharam pelo Norte de Africa, Marrocos, Argélia e até zonas da Africa subsariana.

Na nossa saída deste verão, o ponto alto foi a semana em Maiorca, depois de termos estado em Vera-Almeria. Chegamos a Maiorca à noite, num ferry (de nome Frederico Garcia Lorca) que tomamos em Denia, cerca de 5 horas antes. No caminho de carro até Denia, passamos ao lado de Villajoyosa, que o casal Henriques recordava gulosamente pela sua indústria de chocolate, por Alicante e Benidorm, esta uma localidade de turismo e férias que chega a acolher no verão mais de 500.000 pessoas, ao mesmo tempo. Em cada dez pessoas que procura a Comunidade Valenciana para férias, seis vão para Benidorm, qual Nova Iorque de prédios altos de habitação e hotelaria, o que também deixou esmagado o João Henriques, a que se juntam restaurantes e milhentas lojas de quinquilharia. Turistas ingleses e alemães, vão em massa na ânsia de desfrutar de uma estadia preferencialmente barata de sol e praia, numa extensão de vários quilómetros de água limpa e areia fina.
Denia, é uma cidade de média dimensão turística, com origem romana, embora hoje conserve um castelo mouro sobre uma pequena colina. Os romanos dedicaram a cidade (Denia) à deusa Diana, e fizeram dela um porto importante.
Há muito tempo que a A. e eu, desejávamos ir às Baleares, tanto assim, que uns anos atrás, chegamos a ter uma semana marcada na época da Páscoa para Ibiza. De Ibiza, desta vez apenas vimos um pouco da cidade património mundial, a partir do porto, onde o barco faz escala. Ibiza vive a um outro ritmo de Maiorca, festas que ligam a noite ao dia e que exigem produtos para aguentar o ritmo. Mais que Maiorca, Ibiza no Verão, recebe uma montra do jet set, celebridades que desfilam na passadeira vermelha como o rei João Carlos I, ou o príncipe William de Gales com a sua namorada, multimilionários como Paris Hilton que vai pagando as contas e outros, com fama de as não pagarem, desportistas, como José António Camacho, costureiros como a dupla Dolce & Gabanna, gays, transsexuais, drags, heterossexuais, adolescentes e menos adolescentes como a nossa Merche Romero, já sem o Cristiano. Gente da noite, em busca da diversão, prazer e evasão, num ambiente onde os códigos de etiqueta parece não existirem ou, na melhor das hipóteses, não tem limites. É tradicionalmente uma zona quente do tráfico de droga e este ano realizou-se uma grande operação, que terminou com a apreensão de 2.400kg de cocaína, transportada num catamarã. Antes da operação, tinham sido apreendidos 774kg de cocaína e 11.000kg de haxixe. Não se esquece em Ibiza, a descoberta de 23.5000 pastilhas de ectasy enterradas num laranjal. A droga em Ibiza é socialmente aceite, pelo menos tolerada. No tempo da Guerra do Vietname, dizia-se Peace and Love e Love not War, à mistura com umas pétalas de flores à volta do pescoço. Agora a filosofia de vida e comportamentos evoluíram e Ibiza, é Ecstasy and Dance.

Tomamos o ferry em Denia, o J. H. arrumou o Mercedes ao lado de mais uns duzentos e tal automóveis, e lá fomos num percurso de cinco horas. O que são as Baleares? Vou responder para a R. e o N.G. com quem a A. e eu devemos lá ir este ano por 15 dias.
As Ilhas Baleares, foram habitadas desde sempre, havendo conhecimento da existência de sociedades pastoris, com mais de quatro mil anos a.c.
Um dia vieram os Gregos, que utilizaram as ilhas como entreposto comercial, até à sua colonização pelo Império de Cartago.
Quando Cartago entrou em conflito com Roma, e foi vencido Cartago delenda est, esta assumiu o domínio das ilhas e promoveu o seu desenvolvimento.
Mais tarde, os Vândalos atacaram as Baleares acabando com o domínio romano, tendo essa intervenção sido tão destrutiva e violenta que poucos vestígios restam do período romano.
Quando estes foram derrotados pelos Bizantinos, voltou alguma prosperidade às Baleares e instaurou-se uma forma ortodoxa de cristianismo.
Quando no início do Sec. X os mouros ocuparam as ilhas, transformaram-nas num feudo do Emirato Nazari de Córdoba. Ao longo dos 327 anos em que os Mouros permaneceram, todos os habitantes foram obrigados a converter-se ao Islão.
Foi o rei Jaime I, de Aragão, quem se opôs aos Mouros, iniciando a reconquista das Baleares. Após a morte de Jaime I, o território entrou em tumulto, por força das rivalidades existentes entre os seus filhos.
Em meados do Sec. XIV, melhor dizendo em 1344, as ilhas entram novamente em turbulência, quando foram unidas ao Reino de Aragão.
Com o casamento de Fernando, de Aragão e Isabel, de Castela, os Reis Católicos, as Baleares foram absorvidas pelo novo Estado (Espanha), a que se seguiram períodos de perda de importância económica e social.
Após o termo da Guerra Civil iniciou-se, o desenvolvimento do turismo que transformou as Baleares num dos principais destinos turísticos da Europa, a que o rei João Carlos I, no seu pendor desportivo, se associa pelo verão, marcando com a sua presença no iate Fortuna, a agenda social da região.
Não foi por acaso, ou por filantropia, que empresários de Maiorca se associaram há anos para adquirem um novo barco para o Rei, em substituição do anterior, já degradado.
Maiorca tem profundo receio que num próximo verão, a não presença da família real venha a repercutir-se na vida estival.

Quando estivemos instalados em Cala Pi, a cerca de 35 km de Palma, para além de coisas interessantes que visitamos, cumpre destacar o Castelo de Bellver.
É uma edificação situada perto de Palma, em tempos fortaleza real, mais tarde residência de verão e até prisão. Encontra-se rodeada por uma grande mata de pinheiros e dispõe de uma vista magestosa sobre a baía de Palma. Bellver significa, na língua utilizada pelos naturais das Baleares (dialecto de catalão), Bela Vista.
O castelo tem uma original forma redonda que o distingue dos demais castelos ibéricos, sendo um interessante exemplo da arquitectura militar do Sec. XIV. Chegamos ao alto do Castelo de Bellver, passando por uma grande floresta até ao topo da colina de onde se vê o mar, numa vista panorâmica de 360º.
O pátio central arredondado, composto por muitas colunas de base octogonal, encontra-se recheado de estátuas de estilo greco-romano e aí se realizam regularmente à noite concertos musicais.

Cumpre destacar nas voltas que demos por Maiorca, possuidora de uma bela rede de estradas e autoestradas gratuitas, a ida ao Cabo Formentor, na ponta noroeste da ilha. Até lá, o J.H., atento o seu interesse pela construção civil, ficava muito espantado e chamava-nos a atenção, para a extensão e qualidade dos muros de pedra (que deverão sem dúvida ser caríssimos…), à beira da estrada e a defender as propriedades (pública e/ou privadas). O acesso ao Cabo Formentor é bom, graças ao piso da estrada, embora com imensas curvas, destacando-se os miradouros com vista sobre o mar, que assume um forte azul (marinho). Não tivemos a oportunidade de visitar o celebre Hotel Formentor, que abriu em 1929, embora tenhamos tido possibilidade de tomar ao fim da tarde, um banho na praia, em princípio reservada aos seus selectos hóspedes.
Na zona do farol do Cabo Formentor, com a cúpula prateada, o casal Henriques entreteve-se a brincar com um bode, de fartos bigodes e tudo mais que cumpre na espécie, que fotografei até a máquina falhar, enquanto passeava confiadamente entre os turistas.
Uma das coisas que chama à atenção nas Baleares (para além dos muros de pedra e do asseio como diria o J. H.), é a existência de inúmeras reservas, para defesa da vida marinha.
Nas voltas que demos, é bom ainda realçar a beleza e o magnífico banho em Ses Illettes, próximo da cidade de Palma e a praia de Cala Pi onde estivemos alojados durante uma semana.
Como atracções turísticas e culturais, vou referir o percurso de cerca de 20 minutos efectuado entre Soller e Port de Soller, num eléctrico de 1930, que veio de S. Francisco-Califórnia. O percurso vai da cidade à avenida marginal. Tivemos oportunidade de visitar uma interessante exposição permanente de Cerâmica de Picasso, na estação do eléctrico, aonde se destaca o seu relacionamento pessoal com Juan Miro, em exposição de serigrafias.

A A., como distinta senhora, sabe apreciar não apenas a bijutaria, mas outros adereços decorativos, bem mais interessantes e valiosos. No primeiro domingo em Maiorca demos uma volta de carro pela ilha e passamos por Manacor, uma pouco interessante cidade, mas famosa por aquilo que produz, ou seja, as pérolas de cultura. Os padrões de fabrico das pérolas MAJORICA são exigentes, o que acarreta que o seu custo seja relativamente elevado, face à concorrência. A A. ficou com pena, o que compartilho, por em determinada loja, não se ter decidido logo a comprar um colar de pérolas, de uma marca concorrente à Majorica, e que não voltou a encontrar em termos da relação preço qualidade.

O português é, com de há muito se diz, uma pessoa de brandos costumes, que se deixa seduzir por pessoas bem falantes, rapidamente se esquece das promessas feitas nas campanhas eleitorais. Recordo a facilidade com que se esqueceu e aceitou o não cumprimento das promessas do Eng. Sócrates, que o levaram a ganhar as últimas eleições.
Somos um país, aonde as pessoas têm respeitinho pelos que se lhe apresentam como possuindo superioridade e linguagem que parecem encontrar-se à prova de desmentido.

O Engº Sócrates, percebendo a macieza do nosso carácter, carente de dinheiro tal como a boca pelo pão, avançou numa cavalgada infrene na procura de receitas (no que chamou eufemisticamente de alargamento da base tributária!!!), o que é mais fácil que reduzir despesas, dada a necessidade de satisfazer clientelas e equilíbrios partidários, como bem decorre da leitura da II Série, do D. R.
Há tempos, ao reler Alexandre O’Neill, registei que ele falava deste respeitinho, enquanto preparava o seu adeus português, um belo texto sobre o nosso modo de ser.
Mas se não acreditamos totalmente neste paraíso, é porque sabemos que outros existem aqui pertinho da raia. Isto foi objecto de muitas conversas com a L. e o J. H.. Andam-se milhares de km em auto-estradas tão boas como as nossas melhores e, gratuitamente. Vai-se a Espanha às compras, para fazer nascer (ou desfazer) os filhos em Badajoz, os quais um dia, os que vingarem, irão eventualmente para lá estudar medicina e outros cursos inacessíveis. Também, há chocolates, caramelos e no regresso, enche-se o depósito.

Se pensássemos bem, a nossa saúde mental, corria o risco de ficar em perigo, pois o governo português vai-nos até ao fundo do bolso e não protestamos.
Um dia destes quando formos à rua, teremos de pagar taxa de saída. Taxa de consumir a calçada do passeio frente ao Mosteiro ou de gastar ar. Na lógica do governo existir, já pressupõe um encargo colectivo, e numa sociedade justa, ninguém deve existir de graça. Antigamente fazer um filho era gratuito. Era, além do mais, um prazer, mas será que um dia deses irá ser objecto de taxação socrática? Se a morte custa dinheiro e será tributavél, por que não a concepção? A vida no seu itinerário, deverá será paga ao iniciar-se e ao finar-se. De borla, mesmo de borla, só o prometido aborto, num estabelecimento de saúde devidamente autorizado… Pois então, segundo Sócrates, será mais barato abortar (gratuito) que nascer ou morrer.
Há quem nos acuse de sermos mal agradecidos, quando nos rimos de algumas tolas tretas, que nos quiseram impingir. Acho chocante a indiferença ou apatia de grande parte dos cidadãos portugueses, onde não fujo à regra, relativamente à qualidade da nossa vida social e colectiva, que viabiliza a sobrevivência de agentes que praticam abusos e discricionariedades. Por toda a parte, encontramos esses pequenos ditadores, desde o chefe da repartição, o porteiro, o médico funcionário público, o juiz imberbe/elemento irresponsável de um órgão de soberania, o polícia caçador de multas.
Claro, sem prejuízo de reconhecer de vez em quando alguns (mas forçados?) progressos, nas atitudes de tais áreas profissionais. Acho grave o comportamento de algumas figuras, ditas públicas, cujas práticas inquinam o sistema, que se afirmam nada teóricas, mas só pragmáticas no seu discurso populista e ecoável. No espaço de liberdade que o poder lhes confere, acrescido do que resulta da sua proclamada legitimidade democrática (eleição), dão asas aos caprichos, imaginação, e vão-se instalando. Nós nada fazemos, porque no fundo, não é connosco!!!

Terminamos as férias deste ano no Club La Costa, em Mijas Costa, no empreendimento aonde o casal Henriques o ano passado, comprou um time sharing, e que este ano nos deu a possibilidade de gozar uma semana promocional com ele, a bom preço. Isto com um pequeno-almoço que nem na África do Sul (antes do fim do aparteid, a troco de uma sessão de uma manhã com os vendedores de serviço, como já aconteceu com o N. FO, na Páscoa e o N. G., agora connosco em Agosto. Tenho, como muita gente, uma séria reserva quanto aos vendedores de time sharing, que terão uma vida tão difícil e ingrata quanto os vendedores de enciclopédias ou as Testemunhas de Jeová.

Nalguns casos, parece que falam para surdos, sem que ninguém ligue ao que dizem, como era o nosso caso em que íamos de ideia feita. No Club La Costa, mais de 50 portugueses trabalham na venda do time sharing e embora habituados a ser, por vezes, pouco ouvidos, têm sempre de apresentar os seus argumentos. Apresentam-se bem vestidos, nunca desarmam na sua palavra certa, no tom de voz adequado, no sorriso treinado para tudo, até o cliente lhes dizer um claro e definitivo não ou levarem com a porta na cara. A partir daí, embora mantendo a polidez, o tom muda.

Aprecio ver o que se passa no estrangeiro, confrontar as suas experiências com as nossas. Gosto do ouvir os comentários sobre a nossa gente e a nossa terra, bem como os do J. H., embora muitas vezes não esteja de acordo com ele. O H. tem por vezes algumas ideias, diria mesmo interessantes.
É comum dizer-se que ideias toda a gente as têm.
Por isso, só raramente as meras ideias são vendáveis…
Transformar ideias em obra feita, é coisa complicada. Claro que ter ideias é meritório, mas isso não basta para que as obras nasçam e se façam. Todos podemos ter a ideia do que é uma ponte, mas nem por isso somos capazes de a construir sobre o rio. Fico hipnotizado ao ouvir o J. H. discorrer que é uma pena a Nazaré ou S. Martinho do Porto, não terem uma boa e grande avenida marginal, recheada de prédios de qualidade.
Posta deste modo em análise a arguta observação, ficaríamos com a ideia que somos um povo, onde os especialistas e os eleitos, estão arredados do dom do bem pensar, de acolher propostas, incapazes de acompanhar o sentimento popular, bem como de comparticipar com os anónimos no traçar do destino da cidade.
Mas uma consulta pública, mais ou menos indiscriminada, como na prática por vezes imponderadamente se advoga, iria acarretar é certo inúmeras ideias, perante o que se colocaria depois a questão de saber quem as vais seleccionar e com que regras.
Ou quem as vai desenvolver e com que critérios. Em suma, ter ideias é sem dúvida importante, mas mais importante é ser capaz de lhes dar utilidade e sentido.
Vem tudo isto a propósito, do arranjo urbanístico levado a cabo no Rossio de Alcobaça. Admito que a ideia tenha sido interessante, original, muito intelectual, como defende o Engº José Pedro Tavares.
Mas o seu autor (Arq. Birne), quem o acompanhou e lhe pagou, não tiveram minimamente em consideração que uma ideia destas nunca pode ser suficientemente boa ou defensável, se não colher a aceitação daqueles a quem, principalmente, se destina.
O seu destinatário é o Património Mundial ou a Gente da nossa Terra? O pequeno comércio e a restauração de Alcobaça (e eu próprio), repudiam-na firmemente, pois se o turismo antes não se detinha, agora nada disto se modificou, pelo contrário agravou-se. Os habitantes da cidade continuam indiferentes, não podem utilizar as esplanadas uns três meses por ano durante o período do dia, porque a luz, o calor e a aridez incomodam. As noivas de Alcobaça, não querem mais casar no Mosteiro, porque a entrada e saída, antes triunfais, deixaram de o ser pela escadaria frontal, nobre, e solene, em benefício de uma lateral. Os serviços vão-se embora. Mas o projecto mereceu, malgré tout, ao que se diz, o reconhecimento internacional. Agora a Câmara não descarta fazer um referendo municipal às obras.

Propus à A., depois de regressarmos, fazer um breve debate sobre o nosso tempo em Espanha.
-A Espanha pos-Aznar e a da EU está em evolução rápida?
-A Espanha de 2006 está em transformação profunda, quer social quer economicamente. Os casamentos gay, reflectem uma mudança nas mentalidades de parte da sociedade espanhola e foram bandeira do Governo socialista de Zapatero.
-Mas só isso? Interrompi. E a A. prosseguiu que,
-Há outras alterações que vão originar o aparecimento de uma nova Espanha, e julgo que a principal é a do reforço das autonomias.
-Essa dos casamentos gay incomoda-me bastante, tal como a ti. E não tenho opinião firmada sobre o processo das autonomias. És a favor ou contra as autonomias, se é possível por a questão assim redutoramente?
Depois de pensar um pouco disse-me a A. que
-Penso que esse reforço, a prazo, levaria a algumas independências e a uma pulverização da Espanha, não fora o facto de esta estar integrada na União Europeia. Parece-me que o pertencer à Europa será um obstáculo a essa pulverização, porque se a União reconhece e incentiva uma Europa das regiões, certamente não aceita uma Europa de conflitos, de divisionismos e de instabilidade política.
-Estou de acordo com isso, mas há muita gente que não partilha desse pensamento, pois não?
-Provavelmente será esse o escudo protector que manterá, apesar de tudo, a Espanha unida. No entanto nada será como dantes, com o reconhecimento e o diálogo com os grupos separatistas. E nós verificamos estas férias, até por reacções vergonhosas divulgadas na televisão, que os próprios catalães reagem mal à sua “submissão” a Espanha.
-Também notei isso. Olha A., pergunta ao M., o que assistimos este ano em Paris quando fomos ver jogar o Barcelona na final da Liga dos Campeões. Como os catalães se assumem não espanhóis, melhor dizendo anti-espanhóis. Isso impressionou-nos.
A A. não ligou muito a esta observação e prosseguiu que
-O que mais impressiona é o rápido crescimento económico que se sente em Espanha, em dimensões que nos fazem interrogar sobre como sobreviveremos com tal concorrência. Temos a consciência que além de termos sido há muito ultrapassados, a Espanha continua a desenvolver-se a um ritmo muito grande e, mais do que isso, com critério e com objectivos bem definidos.
-E nós o que fazemos? Não gostaria mesmo assim de ser espanhol.
-Continuando, como continuamos, a improvisar e a não termos um rumo definido, nem esperança de o encontrar, vendo como, a nível da gestão pública, ela continua divorciada dos reais interesses da sociedade civil, trabalhando não a par e de mãos dadas com esta, mas contra esta, onde vai buscar a justificação para as suas falhas, não se vislumbra nenhuma inversão no cada vez maior fosso que nos separa de Espanha e da Europa em geral.
-Tal como eu, notaste bem isso este ano…E não é preciso ser arguto, como aliás é o caso da A., argutamente reconhecida pelos filhos e claro na Escola D. Inês de Castro, pelo G., F. e companhia limitada.
-Apercebemo-nos, especialmente em Vera, frequentada quase exclusivamente por espanhóis, que existe em Espanha uma forte classe média, incentivadora de progresso, e não a sua proletarização como acontece connosco.
-Esse tipo de classe média ainda existe entre nós?
-Também nos pareceu que ela se mantém fiel a certos valores, que serão o padrão para um desenvolvimento com critério e nivelando por cima, ao contrário do que infelizmente temos por cá. Foi com agrado que vimos a forma simples como se frequentavam praias de grande qualidade, onde pessoas como nós, liam o seu livro, conversavam em grupo, passeavam com os filhos, muitos vestidos todos de igual.
-No Algarve de hoje já não se vê muito disso, pelo menos em certos locais de jet set. Mal me lembro como era quando há cerca de 50 anos começamos a ir par lá com os nossos Pais e Albufeira antes do Cliff Richard?
-Fez-nos retroceder a um tempo em que em Portugal também era assim, sem espaventos de novo rico, nem imposições de chapadice parola. E, por mim falo, senti saudades.
-Também eu. Em Espanha, qual é para ti a melhor zona turística, tu que aprecias especialmente a praia?
A A, quando se fala em turismo cultural reage, por vezes, com alguma indiferença, por isso defendeu-se na resposta.
-Quanto ao local de turismo melhor, depende da perspectiva. A Costa do Sol continua a ter empreendimentos de qualidade, mas com ingleses e marroquinos a mais, durante o Verão. Continua a ser bom para a Páscoa, menos bom para Agosto. Uma zona que começou por ser para elites, progrediu para um turismo de massas, de qualidade, e com o excesso de construção corre o risco de, a médio prazo, se tornar insuportável.
-Era o que o poderia ter acontecido com a Torralta. E que pensas da zona de Almeria, que não conhecíamos?
-Pessoalmente gostei muito da zona de Vera, óptima para descansar e fruir a Natureza.

PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)

PASSEANDO PELA ÁUSTRIA (2002)
(IV)

Fleming de Oliveira
-O IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO
-FRANCISCO JOSÉ
-ATENTADO EM SERAJEVO
-EXÍLIO EM PORTUGAL
-MUNIQUE E A CERVEJA FRANCISCANUS
-VIENA, NAPOLEÃO, O CONGRESSO QUE DANÇA, O PRATER-FCP CAMPEÃO EUROPEU
(1987)



Entre as grandes potências europeias do princípio do século XX o Império dos Habsburg era o único estado puramente europeu, já que não possuía nenhuma colónia fora do território continental. A Áustria-Hungria, como passou a ser denominada depois de 1867, na realidade eram dois estados. Dispunham de governos separados, um em Viena e outro em Budapeste dirigiam as respectivas partes e havia dois Parlamentos. Os dois estados partilhavam apenas os Ministérios da Guerra, das Finanças e das Relações Exteriores e a Dinastia dos Habsburg. Esta governava onze povos, alemães, húngaros, polacos, checos, eslovacos, eslovenos, sérvios, croatas, ucranianos, italianos e romenos, mas de maneira nenhuma unidos à volta de uma causa comum.

Em 1908, quando a Áustria-Hungria se viu a braços com a mais grave crise internacional antes da I Guerra, Francisco José, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, tinha 78 anos e comemorava o sexagésimo aniversário do seu reinado. Tal como os que o antecederam, Francisco José considerava o Império como um legado dinástico, colocado nas mãos dos Habsburg pela graça de Deus. Ela era o Chefe de Família e de Estado, o mais ilustre patriarca, numa hierarquia de patriarcas. Assim sendo, o respeito e obediência devidos, eram recebidos graciosamente e com confiança. Cedo ele conseguiu desenvolver uma personalidade capaz de ser envolvida num culto, como vimos atrás. O jovem garboso e imberbe que subiu ao trono em 1848, e que teve um fulgurante romance com Sissi, rapidamente se transformou num homem sério, que usava fartas patilhas e um vasto bigode que lhe conferiam um ar nutrido. À medida que a sua imagem se tornou familiar, passou como que a marcar uma era na Europa Central e Oriental. Ninguém tinha tanto poder quanto Francisco José, poder esse que não emanava do povo, na linha de um contrato político à francesa, mas que nunca foi aceite na Áustria. Este era um antiquado governante, por direito divino. Embora os seus poderes tivessem sido limitados em 1867, bem como pelas leis tradicionais da Hungria, os povos do império estavam ligados a ele “quase num sentido feudal”. O Imperador podia declarar a guerra e fazer a paz, convocar e dissolver o parlamento, demitir políticos, presidir ao Conselho de Ministros comum às duas monarquias, este o órgão mais importante do Estado. Durante quase meio século, o Império dos Habsburg fora dominado pelas rivalidades e exigências das diferentes nacionalidades. Até mesmo o movimento operário não escapava à linha de separação nacional. O único ponte de referência, aglutinador, era o Imperador, funcionando muitas vezes como árbitro entre as várias oposições.

Francisco José era em geral estimado, admirado mesmo. Como se disse também atrás, era conscencioso e trabalhador, encantador quando queria e causava boa impressão aos que se aproximavam dele. O seu contacto com os políticos quase se limitava às ocasiões formais. As audiências imperiais eram muito objectivas, tais como reuniões de negócios, sendo privilégio do monarca abordar os assuntos que muito bem entendesse. Decorrido o prazo dessas audiências, de cerca de meia hora, os visitantes deixavam a audiência quase fascinados. Conta-se a anedota? do político social-democrata, que criticava azedamente a família imperial, e que ficou encantado com os vinte minutos da audiência com o imperador. Quando deixou a sala, Francisco José comentou para um camareiro: Não fazes ideia como ele me tratou bem.

Sob certos aspectos, o Estado dos Habsburg, era um anacronismo na Europa de início do Século XX, mas ao invés noutros antecipou muitas inovações, tanto no que diz respeito à economia como às características nacionais, os territórios controlados pelos Habsburg eram extremamente diferenciados. Em Viena, os políticos lidavam concomitantemente com áreas subdesenvolvidas e outras altamente desenvolvidas e industrializadas. Após o Congresso de Berlim de 1878 o Ministério das Finanças, responsável pela administração da Bósnia e Herzegovina, tentou ocupar-se do atraso económico dessas duas províncias de uma forma que até se poderia hoje ser reputada de algo sofisticada. Mas esses problemas que preocupavam a administração pública, já não interessavam aos rebeldes que perturbavam enormemente a administração e a ordem, no período anterior à I Guerra, e que a ela conduziram. A imaginação dos rebeldes, entre eles muitos jovens, fora inflamada por várias teorias de revolta contra a autoridade, pelo anarquismo, pelo nacionalismo ou pelo socialismo. Eles tinham aprendido a atirar, a fazer explosivos, a atravessar fronteiras “a salto”. Tiveram uma boa ocasião para testar tais aptidões e conhecimentos aquando da visita que o herdeiro ao trono dos Habsburg fez a Serajevo no dia 28 de Junho de 1914. Na Bósnia de 1908, tal como bem sabemos neste século XXI, a dificuldade especial era a dificuldade de diálogo. A crise na Bósnia e Herzegovina era terrivelmente complexa. Nada menos que nove nações estiveram envolvidas nas tortuosas negociações que se seguiram à anexação das duas províncias pela Áustria-Hungria em 1908, alegadamente de acordo com o previsto no Congresso de Berlim de 1875, e que findaram com uma vaga de indignação que contaminou vários países. Nas entrelinhas das notas diplomáticas, que tanto contribuíram parta expandir a crise, pairava sempre a ameaça de que a qualquer momento, poderosos interesses poderiam ser lançados uns contra os outros, transformando a Europa num imenso campo de batalha. Como aconteceu. As décadas que antecederam a I Guerra assistiram ao último florescimento de uma era de elegância e privilégios. A geração que sobreviveu ao conflito via este período com saudade. Quatro anos de guerra fizeram desaparecer as sombrinhas, as carruagens e as plumas.

Embora o tema seja sobejamente conhecido, parece-me interessante voltar abordar, despretensiosamente, o atentado de Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina. Nenhum outro assassinato político da história moderna teve tantas e tumultuosas consequências como este, no dia 28 de Junho de 1914, contra o Arquiduque Francisco Fernando, presumível herdeiro do Império dos Habsburg. O assassinato de Serajevo foi um incidente que noutro contexto internacional poderia não ter tamanhas repercussões. Mas no começo do verão de 1914, as relações entre as grandes potências europeias, estavam tão tensas que o assassinato do Arquiduque provocou a eclosão da I Guerra, através de uma série de etapas rápidas e irreversíveis:
-O ultimatum da Áustria à Sérvia no dia 23 de Julho;
-A declaração de guerra no dia 28;
-A mobilização russa;
-A declaração de guerra da Alemanha à Rússia no dia 1 de Agosto e à França no dia 3;
-A declaração de guerra da Inglaterra à Alemanha no dia 4.

O atentado pareceu mesmo uma obra de amadores. Os assassinos eram estudantes, a maioria com menos de vinte anos e pertenciam a uma sociedade secreta a “Jovem Bósnia”, estreitamente ligada à Mão Negra, uma das muitas que havia dentro do Império. Embora, entre 1910 e 1914, tivesse havido seis atentados contra dignitários dos Habsburg, organizados pelo movimento revolucionário dos eslavos do sul, e mais uma dúzia de conspirações que não se materializaram, o atentado de 28 de Junho foi muito mal planeado. Foi bem sucedido graças à sorte e à negligência das autoridades.

A polícia não tomou nenhuma medida séria para proteger o Arquiduque e a sua comitiva, quando entraram em Serajevo. Entretanto, foram feitas muitas reservas e alertas contra esta deslocação, vindas da própria capital da Bósnia-Herzegovina, de Viena, de Budapeste, de Berlim e mesmo dos Estados Unidos. As sociedades secretas de americanos com origem nos eslavos do sul, também conspiravam há muito contra o Arquiduque. A polícia de Nova Iorque suspeitava de um professor universitário, de origem Sérvia, como sendo membro de um dos principais grupos de conspiradores. O Arquiduque era um homem corajoso, mas tinha por vezes atitudes que pareciam fatalistas em relação a advertências que vinha recebendo. Dois meses antes da sua morte, tinha estado em Miramar, perto de Trieste, quando decidiu subitamente fazer uma excursão. Alguém, levantou a óbvia questão da segurança. Precauções? Medidas de segurança? respondeu o Arquiduque. Eu não me preocupo minimamente com isso. Tudo está nas mãos de Deus. Vejam aqui neste mesmo mato, alguém vindo da direita poderia saltar sobre mim. Medos e precauções paralisam a vida de uma pessoa. Ter medo é sempre um mau negócio.

A Esposa do Arquiduque, a Duquesa de Hohenberg. temia muito pela vida do marido na visita a Serajevo e, em muitas ocasiões, exprimiu dúvidas sobre o sentido dessa viagem. O Arquiduque conseguiu, porém, persuadi-la a fazer essa viagem. Até mesmo o Imperador Francisco José terá tentado evitar essa deslocação, pois tinha muitas razões para temer pela vida do seu sucessor. O mal estar decorrente da dominação da Bósnia-Herzegovina pela Áustria era muito forte entre os Sérvios. O Arquiduque escolheu o dia 28 de Junho para essa visita, dia de S. Vito, aliás, a festa mais importante da Sérvia, celebrada desde 28 de Junho de 1389, quando na batalha do Kosovo, o exército otomano derrotou o exército sérvio. Um brevíssimo parêntesis, aqui, para notar como muitos destes nomes balcânicos, são hoje de novo bastante familiares. Com esta derrota, a Sérvia perdeu a independência e isso marcou o início de uma dominação pelos otomanos que durou séculos. Apesar da situação ser explosiva, as precauções de segurança no dia do atentado, foram poucas ou quase inexistentes, comparativamente com as adoptadas aquando da visita de Francisco José, em Junho de 1910. Note-se que quando da visita de Francisco José, centenas de suspeitos foram intimados a deixar as suas casas. A polícia havia elaborado um relatório sobre a Jovem Bósnia, mas fora criticada por ter medo de crianças . No dia anterior, advertira séria e novamente o Arquiduque do perigo da visita. Todavia, esta sugestão foi recusada pelo comité de recepção local, com o peregrino argumento que não se preocupe, essa gente inferior não terá coragem de fazer nada.

Assim, as medidas de segurança, que se impunham rigorosas, foram deixadas nas mãos da Providência. À cautela, a polícia ainda expediu ordens a seus 120 elementos e alguns oficiais para reforçarem a ordem, durante a passagem da comitiva, ao longo de um percurso de 6,5km. Nas medidas policiais houve muita coisa mal feita. Alguns polícias, ficaram desorientados ao ver a certa altura seis automóveis repletos de Habsburg. Mas os conspiradores, embora amadores, estavam bem dedicados à missão. Um deles chegou a perguntar a um polícia qual o carro do Arquiduque. Perante a resposta correcta, lançou uma granada em direcção ao carro de Francisco Fernando, que não foi fatal, mas feriu umas vinte pessoas, entre as quais três da família real, a duquesa de Hohenberg incluída. Apesar de tudo o que aconteceu, foi decidido mesmo assim prosseguir o trajecto pelas ruas de Serajevo. Não seria isto provocar a sorte? pergunto eu. O governador militar da Bósnia que acompanhava o Arquiduque respondeu a uma pergunta explícita deste: Que significam estas bombas, será que jogarão outras, dizendo: Sua Alteza Imperial pode viajar descansado. Eu assumo a responsabilidade.

A única alteração ao percurso foi feita a mero pedido do Arquiduque, de modo a ir visitar um dos oficiais feridos, mas ninguém informou os motoristas dos carros dessa desejada alteração, pelo que o motorista do carro do Arquiduque se limitou a seguir o que ia à sua frente. Intervindo desastradamente, mais uma vez, o governador militar disse ao motorista para parar, pois estava a ir por trajecto errado. O carro parou em frente a um estabelecimento, junto a uma calçada cheia de gente, aonde se encontrava à espera Gravilo Princip, o principal assassino. Nesse instante Gravilo puxou de um revólver. Quando estava pronto a disparar à queima-roupa, um polícia ainda percebeu o que se ia passar e estava quase a agarrar-lhe o pulso, quando foi atingido por um golpe de alguém que estava perto. Foram disparados vários tiros. A Duquesa morreu logo. A bala destinada ao governador militar passou-lhe ao lado. O Arquiduque sobreviveu à esposa pouco tempo.
Às 11h, 30m do dia 28 de Junho de 1914, tudo estava terminado. Os corpos do casal imperial foram transportados para a residência do governador e aí ficaram expostos. A gola da farda do Arquiduque estava aberta e podia ver-se um colar de ouro, com sete amuletos incrustados em ouro e platina. Cada um deles deveria assegurar-lhe protecção contra um determinado tipo de perigo. As mangas estavam arregaçadas e no braço esquerdo podia ver-se a tatuagem de um dragão chinês. Em volta do pescoço da Duquesa havia um colar de ouro, contendo relíquias sagradas para a proteger da doença e do infortúnio.
Era o sinal que a Áustria-Hungria esperava...Um mês depois os grandes exércitos marchavam para a guerra. A crise desencadeada pelo atentado diferia de qualquer outra anterior, porque agora os diplomatas perderam o controlo da situação. Uma vez anunciada a mobilização, as máquinas puseram-se em movimento. O destino da Europa estava selado. Serajevo colocou em movimento uma engrenagem brutal como não havia exemplo, que não mais pode ser contida.

A saga dos Habsburg em Portugal continuou depois de Isabel, Sissi, como já tinha sido iniciada antes da vinda desta. Com o termo da I Guerra e a derrota do Império Austro-Húngaro muita coisa mudou no panorama europeu e mundial. Não vou fazer a história político-militar desses tempos conturbados, mas uma simples evocação dos Habsburg entre nós. O final é triste como convém a estas histórias. Desde a Princesa Maria Leopoldina, futura imperatriz do Brasil, até Carlos, último soberano do Império Austro-Húngaro, todos começaram bem, pelo menos assim-assim, e acabaram mal. Carlos está sepultado na Igreja do Monte-Funchal, perto da casa onde passou os últimos meses de vida. A Madeira, foi o seu porto de abrigo ou de exílio” e também a escala para o passamento aos 34 anos de idade.

Em 1817 desembarcou na Madeira uma jovem princesa estrangeira, Maria Leopoldina filha de Francisco I, da Áustria, que ia a caminho do Brasil, onde a esperava o príncipe D. Pedro, com quem casara por procuração, depois de se conhecerem por retrato. Todavia este casamento foi um autêntico desastre. D. Pedro desprezou-a mal a viu, porque era feia e odiou-a mal a ouviu, porque era culta. No dia em que assume o trono do Brasil, D. Pedro promove a marquesa de Santos a concubina oficial. Leopoldina deu-lhe os filhos que lhe eram exigidos, desmazela-se, engorda e entrega-se à melancolia e à bebida. Antes dos 30 anos morre de um aborto por efeitos de um pontapé que o marido lhe deu, estava ela grávida.

Decorridos 35 anos sobre a passagem de Leopoldina, corria o ano de 1852 chega à Madeira Fernando Maximiliano de Habsburg, irmão do Imperador Francisco José, que se toma de amores pela princesa D. Maria Amélia de Bragança, que ali estava em tratamentos e à procura de melhoras. Parece que eles já se conheciam de Viena. D. Maria Amélia, órfã do segundo casamento de D. Pedro IV era uma jovem bela, viajada, culta e brilhante, que frequentara a corte de Viena onde terá impressionado Maximiliano. Morreu ao fim de 5 meses na Madeira, já Maximiliano tinha seguido viagem.
Quando Maximiliano voltou ao Funchal em 1859, nada faria prever que se iria tornar uma figura patética da história moderna. É aqui de certo modo a continuação da sua lua-de-mel, com a bela Carlota, que entretanto desposara, mas que fica no Funchal durante o inverno, enquanto ele segue para o Brasil. No regresso da América passa uns curtos dias na ilha, deixando a marca de pessoa boa e generosa nos donativos.

Voltando a escalar a ilha em 28 de Abril de 1864, Maximiliano vem já investido do título de Imperador do México. Nunca mais conhecerá horas tão leves como a que ali passou. Em Junho de 1867, a Madeira e o mundo souberam que o Imperador Maximiliano, do México, acusado de traição e usurpação do poder público, morreu num pelotão de fuzilamento. Carlota que viera à Europa “mendigar” apoio para o marido, entra em estado de loucura.
Quando Isabel, Sissi, chega ao Funchal, a cidade está habituada a receber personalidades de relevo. Mas nenhuma outra terá deixado marca tão importante. Segundo Agustina Bessa-Luís, as meninas do Funchal começaram a imitir a Imperatriz no porte, nas indumentárias, nos gostos e até nos caprichos...

A Europa e o Mundo mudaram muito. A Guerra pôs termo a uma ordem há muito moribunda, instaurando outra ainda muito instável, que é uma incógnita. O Império Austro-Húngaro já não existe mais. Carlos I abdica em Novembro de 1918 e no ano seguinte Karl Renner é o primeiro chanceler da República da Áustria. A 25 de Março de 1921, Carlos de Habsburg chegou a Viena, via Suiça e França, com um passaporte espanhol falsificado para prosseguir viagem à Hungria, em companhia dos legitimistas mais próximos. No dia 22 de Outubro desse ano quando a avioneta do casal real aterra na Hungria para arrancar o poder pela força, o governo em sessão desse dia tomou a decisão unânime de o rei Carlos(...) não poderá tomar o exercício dos seus direitos de soberano e terá de abandonar o território da Hungria, outra vez. Depois de falhada a tentativa de restauração, são feitas pressões para abdicar voluntariamente do trono e prepara-se a lei da destronização. Carlos I desembarca na Madeira, a 19 de Novembro de 1921, como derrotado e proscrito, acompanhado de Zita, a esposa. A Inglaterra, e os aliados, impuseram-lhe este destino depois dessa recambolesca tentativa de recuperar o trono da Hungria. Ele assinou a renúncia, sem abdicar dos direitos ao trono. Os sete filhos em breve chegarão da Suíça. Grande número de pessoas acorre ao cais, praia e Estrada da Pontinha para assistir ao desembarque dos ex-imperadores. Os régios viajantes sorriem agradavelmente, agradecendo com muita muita cortesia os cumprimentos que lhes eram dirigidos, embora tentassem esquivar-se a fotografias e filmagens.

O ex-Imperador deve pensar que o espera um exílio longo. Terá missa todos os dias na sua residência, a Villa Victoria. Uma vida familiar, longe de intrigas, fá-lo-à esquecer, confia, dois anos de reinado para que não fora feito. Como chegou lá? A Herança caiu-lhe nas mãos devido ao suicídio de Rudolfo e ao assassinato de Francisco Fernando, respectivamente filho e sobrinho de Francisco José. Pouco tempo antes da sua morte Francisco José comentou que o seu sucessor é realmente um excelente príncipe. O meu povo pode depositar nele toda a confiança. Se a ilha estava habituada a receber personalidades de destaque é a primeira vez que recebe um monarca exilado. Mas estranhou quando cinquenta e tal anos depois, recebeu de passagem para o Brasil, Américo Tomás e Caetano. Qual era o estatuto de Carlos da Áustria? Hóspede ou prisioneiro? Os ilhéus não se queriam ver no papel de carcereiros. Nem este era um Napoleão que também por ali passou a caminho de Santa Helena. Em breve a situação dos ex-imperadores torna-se constrangedora. O casal real vem pobre, sem dinheiro ou rendimentos. Além do mais tem sete filhos, o que obriga a vender jóias. Ao mesmo tempo a Checoeslováquia confisca todos os bens dos Habsburg. Escasseia-lhes dinheiro para tudo, para pagar as dívidas, nomeadamente para se deslocarem à Sé-Catedral onde gostam muito de comungar. Em Lisboa publica-se a notícia da divergência sobre o pagamento das despesas com o exílio, pelo que são auxiliados por vários particulares madeirenses durante a estadia. Portugal pretendia ficar à margem de qualquer tipo de responsabilidade favorecendo uma custódia cujas despesas correriam por conta dos aliados. Carlos passava muitas tardes embrulhado num capote, por causa do frio e humidade, a jogar cartas com um elemento qualquer da comitiva.

De compleição débil, adoeceu em meados de Março. Nas igrejas da Madeira, a população reza pela sua salvação, mas veio a falecer em 1 de Abril de 1922. As missas celebradas nas igrejas do Funchal em sufrágio de Carlos de Habsburg são muito concorridas. No dia 4 de Abril, o Arquiduque Otto, de 12 anos, filho mais velho de Carlos e Zita, é proclamado rei pelos monárquicos austro-húngaros. Os próprios irmãos passam a tratá-lo por magestade. No dia 7 de Abril chegam ao Funchal várias personalidades régias, entre as quais, a Infanta D. Maria Antónia, Duquesa de Parma, filha de D. Miguel de Bragança, que manifestou a sua satisfação por ela poder acolher-se na Madeira, entre Portugueses. Na sala principal da sua casa havia dois retratos a óleo, um de D. João VI e outro de D. Carlota Joaquina, que eram antepassados comuns de Carlos e Zita. Ele era bisneto de D. Pedro IV e ela neta de D. Miguel. Ficou sepultado no cemitério da freguesia enquanto na Igreja não se abriu uma capela para o receber. Mas o coração foi mandado para Viena, a fim de se reunir aos dos outros Habsburg. A ex-Imperatriz Zita e os seus filhos deixaram a Madeira no dia 19 de Maio com destino a Espanha. O seu oitavo filho, aliás uma menina, nasceu em Espanha, dois meses depois da morte do pai, facto que por gentileza foi comunicado à população do Funchal a pedido da ex-imperatriz Zita. Esta, durante um longo exílio pela Europa, veio por várias vezes ao Funchal, rezar junto ao túmulo do marido. Faleceu em 1989.

Em 1 de Abril de 1972, 50 anos após a sua morte e assinalando esse meio século, quis a Santa Sé proceder à abertura do túmulo do soberano. A exumação dos restos mortais de Carlos I foi feita na presença dos técnicos necessários à operação, uma comissão nomeada pelo Vaticano a pedido da Causa de Beatificação de Carlos de Áustri”

Retenho muito pouco da nossa rápida deslocação Munique, num dia que esteve péssimo, pois não parou de chover. De Lofer a Munique são menos de 150km, em boa estrada, parte do percurso em auto-estrada, a A1. Chegamos a Munique, deixamos o carro num parque de estacionamento coberto e saímos para a rua. Era em Munique, chovia e hora de almoço, como diria o nosso Eça. À nossa frente encontrava-se um restaurante/cervejaria de aspecto agradável. Não á tarde, nem cedo, pensaram pronta e diligentemente a Aninhas, a Clara e o Manel. Eu estava de acordo com eles, como sempre. São horas de ir à papa. Entramos. O restaurante era agradável, regional. Comecei por experimentar uma morena de 0,33 l, de caixa de peito, com ar fresco, que despachei como aperitivo. Ao almocei defrontei-me com um prato de salsichas variadas, com sauerkrutt, à alemã. As grandes cervejarias, tão típicas de Munique segundo se diz, não eram bem neste local da cidade, onde nos encontrávamos, a zona da Estação do Caminho de Ferro. É uma zona um pouco incaracterística, mais suja, com muito turco e magrebino nas ruas. De tarde, tentamos dar uma volta a pé, perdão pelo meu lapso de escrita, eu deslocava-me desde há uns dias em cadeira de rodas privativa, mas a chuva não nos permitia andar. Uma volta de bus turístico, sempre com chuva, não foi suficiente para nos chegar a fazer agradar da cidade. Quando deixamos o bus eram apenas 4,h 30m, da tarde, fomos direitos ao parque de estacionamento, para regressarmos a Loffer. Tínhamos perfeita noção da zona onde estávamos mas, não obstante, não dávamos com a porta de acesso ao parque. Até que a C se lembrou que do restaurante, aonde almoçáramos, tinha trazido como recordação para os seus meninos, umas bases em cartão onde as bebidas, especialmente cervejas, são servidas. E como sabíamos, por um saber de experiência feito de muito anos, ser ela uma rapariga muito desembaraçada, e com um inglês bancário, um alemão com um duro sotaque bávaro aprendido no Carolina, nada nos admirou ter anunciado, com ar decidido, que ia perguntar na portaria de um hotel por onde passávamos, onde era o restaurante de onde fora trazida a dita base redonda de cartão, que diligentemente mostrava. Como o parque de estacionamento era ao lado do restaurante, o problema estava sanado. O certo é que nós, que ficamos à chuva na rua, da parte de fora do hotel, notámos muito espantados que o criado apenas abanava, negativamente, a cabeça às persistentes perguntas da C, que lhe mostrava a rodela de cartão. O criado desconhecia aonde era o restaurante onde almoçáramos. Não era possível!!!. A verdade é que ele tinha toda a razão para abanar a cabeça e pensar que, afinal, aquela desembaraçada tripeira, a quem faltava o ar de emigrante, estava totalmente desorientada. O que a C lhe mostrava era, apenas, a marca da cerveja Franziscanus que era servida e se fazia publicidade daquela maneira!!! A este propósito a C filosofou baixinho, mas eu captei: Imaginem como era empurrarmos a cadeira de rodas e o Fernando com guarda-chuva enquanto que procurávamos o parque de estacionamento que se chamava Franziscanus.

O nosso destino na Áustria, não era propriamente Viena, mas Salzburg.
Parece-me interessante, agora que vou falar de Viena, fazer sem pretensiosismos uma pequenaintrodução histórica da cidade, com o objectivo de se poder compreender um pouco do que ainda é e tenta ser neste momento, procurando eventos que lhe moldaram o carácter.
A conquista de Viena por Napoleão foi uma humilhação para o país e para a monarquia de Francisco I. Em 1797, quando Napoleão declarou a sua intenção de atingir a Áustria no coração, apoderando-se de Viena, a vontade de lutar contra os franceses inflamava toda a gente. Todas as classes sociais se organizaram militarmente de acordo com os seus recursos e aptidões. Nesta cidade, musical por excelência, todos os actos fundamentais da vida eram acompanhados por música. Beethoven e Haydn, por exemplo, compuseram trechos adequados às circunstâncias, e até para serem cantados nos campos de batalha. Embora o imperador francês tivesse aceite assinar um preliminar de paz, nem por isso o perigo foi afastado da capital. A guerra não tinha acabado, Napoleão não tinha renunciado a introduzir a República na Áustria. Uma hábil propaganda foi começando a semear a desordem e a agitação interna. A guerra vai recomeçar com sorte diversa e passa pela humilhação que foi a desaparição em 1801 do Sacro-Império Romano-Germânico.

Por esta razão Francisco II e seus sucessores não podiam usar mais o título de uma Alemanha, que deixou de existir. Conservou apenas o de Imperador da Áustria e nessa qualidade assumiu o de Francisco I. Perante a eventualidade de um ataque ou de um cerco a Viena, que não tinha defesas, não lhe restou outra alternativa senão capitular, render-se, para evitar o esmagamento. A rendição não foi totalmente sem condições. Os franceses deveriam assegurar o respeito pela religião católica, dos edifícios públicos e a salvaguarda das pessoas e bens. Assim, os regimentos franceses entraram em Viena, sem darem um tiro, calmamente numa cidade onde durante séculos nenhum exército estrangeiro penetrara. A partir daqui, os Vienenses passaram a ver frequentemente Bonaparte a atravessar a cidade a galope, escoltado por marechais e ajudantes de campo. No começo da ocupação, Napoleão ainda pensou ficar em Hofburg mas depois decidiu-se por Schönbrunn, onde o seu filho, O Rei de Roma, morreu ao fim de uma muito curta vida. Passava revistas às tropas, organizava paradas e desfiles, assistia a ballet, óperas e tragédias por grupos vienenses aos quais se juntavam muitos outros artistas vindos de Paris, num cerimonial tanto tumultuoso como pretensioso, que contrariava a distinção da corte vienense. Foi este um dos períodos mais inquietantes e patéticos da história de Viena, o tempo em que os exércitos franceses se instalaram na cidade, como seus senhores. O optimismo vienense sofrera um cruel desmentido. Houvera o convencimento que no fim tudo se arranjaria, mas as coisas não se arranjaram, afinal, como se supunha. A Revolução Francesa era o espelho disso, rolaram as cabeças de soberanos e muitos nobres.

Embora amputada populacional e territorialmente, a Áustria resistia como podia a Napoleão, pelo que em 1809 o povo preparou-se de novo para enfrentar a guerra e resistir aos franceses que queriam voltar. Com os franceses nos arredores da cidade, os estafetas trouxeram o recado que o imperador aguardava que fosse aprontado o seu apartamento no Schönbrunn, onde estivera 4 anos antes. Mais uma vez a cidade rendeu-se aos franceses. As portas abriram-se, a bandeira branca foi hasteada, até que foi celebrado um armistício. Para muitos vienenses foi um alívio. Havia a esperança que os franceses se fossem embora de vez, que acabassem a humilhação e a dor. Diz-se que o velho mestre Haydn, não suportou e morreu de desgosto. Salieri tinha executado a sua oratória A Criação, antes da tomada da cidade. A 28 de Março, na Aula Magna da Universidade, assistiu-se ao espectáculo comovente de Beethoven beijar com fervor a cabeça e as mãos do mestre. Quando este morreu a 31 de Maio, suprema ironia, foram os uniformes franceses que lhe rodearam o caixão, por ordem expressa de Bonaparte.

Mas a cidade ia-se habituando aos poucos aos hábitos e presença dos franceses e os vienenses deixaram de considerar o imperador como o papão corso. Os liberais agradeciam aos franceses terem aberto as portas ao fim da censura, em particular, o que permitia o fermentar de ideias subversivas, e uma propaganda mais ou menos hostil aos Habsburg. A resistência ia abrandando à medida que se constatava que os franceses não eram os terroristas que lhes haviam descrito. Mas a natureza do papão corso acabava sempre por vir à tona, pelo que foi com incredulidade, assombro pasmado, que se soube que o Imperador Francisco I aceitara dar a sua filha Maria Luísa em casamento a este aventureiro coroado. Um casamento, nestas circunstâncias, não podia acabar bem, pensaram os austríacos lembrando-se do exemplo recente de Maria Antonieta. As considerações políticas, que lhe estavam subjacentes, não foram suficientes para o sucesso de felicidade conjugal ou mesmo de uma aliança política estável. O casamento foi celebrado no dia 11 de Março de 1810 por procuração, em Viena. O nubente não compareceu.

Depois da derrota de Napoleão Bonaparte, em 1814, as potências europeias vitoriosas reuniram-se em Congresso, no chamado Congresso de Viena de 1815, para restaurar a ordem que aquele tão violentamente alterara. Os monarcas e governantes europeus, passaram um ano na cidade, em debates, intrigas, recepções sociais, resultando daí as bases de um regime reaccionário, que todavia permitiu manter a paz, até uma série de revoluções varrer a Europa, em meados do século. Há várias maneiras, como é natural, de abordar este Congresso de Viena de 1815, seja numa tolerante e distante perspectiva mundana-social, seja conforme os olhos muito severos de um Lord Byron ou ainda de acordo com o papel desempenhado pelos actores, vistos pela população contemporânea da cidade.

Como tenho dito, não sou historiador, investigador, e se afloro aqui estas questões, que para os entendidos não são originais, nem novidade, é por puro prazer e meu exclusivo entretimento. Durante o Congresso, muito mais importante que as coisas alegadamente sérias que ali se abordavam, importava aos vienenses o borbulhar dos escândalos que ressoavam nos bastidores, as novidades verdadeiras ou falsas de alcova, frescas de manhãzinha, que diziam respeito à vida privada dos personagens quais semideuses ou meros comediantes ou as grandes e excitantes festas e almoçaradas que se realizavam, de preferência com bailes. Os populares, os burgueses, afinal todos basbaques da cidade, tinham deste modo a pequena ilusão de participar, ainda que de forma modesta, numa comédia à escala europeia, quer dizer mundial. Mais que os proventos materiais que se puderam tirar deste enorme fluxo de gente de fora, há que destacar sem pretensões moralistas, o mau efeito que o espectáculo causou no povo simples. As desordens, pelo menos brejeirices, dos grandes de muitos países, numa cidade pacata e apreciadora de prazeres inocentes pareciam justificar comportamentos que estavam habituados a criticar e nunca tinham visto nos seus soberanos. Conhecem-se muitas bisbilhotices do Congresso que Dança. Muita gente houve que quis deixar, imortalizar, as suas recordações. Seis soberanos, mais de setecentos diplomatas, seus secretários, criadagem, invadiram de repente a cidade de Viena e provocaram grande perturbação na vida do dia-a-dia. Àqueles juntaram-se um grande número de aventureiros, de exploradores, de jogadores, espiões à procura de segredos ou de belas raparigas, num total que se estima em cerca de cem mil pessoas.
Se se pretender fazer um balanço do que o Congresso trouxe a Viena, talvez haja de concluir que ele é deficitário. Vejamos, porém, que nestes momentos aproveita logo o comércio de luxo. Mas também os vendedores de prazeres, restaurantes, salões de baile, fornecedores de carne fresca, àqueles gulosos ricos. Quando as luzes do Congresso se apagaram, terminaram as valsas e se dispersou outra vez pela Europa aquela chuva de estrelas, a cidade voltou ao seu ritmo, à velha fisionomia. Mais ou menos, é certo. Quando perguntaram, uma vez a um diplomata inglês, como ia o Congresso, este respondeu, numa síntese que ficou famosa: O Congresso dança.

Após o Congresso de Viena, Francisco I e o seu ministro o Príncipe Matternich, impuseram um regime autocrático, excluindo da vida política as classes médias, que se refugiaram na vida artística e doméstica que caracterizaram a chamada época Biedermeier. A revolução de 1848 em que o operariado se aliou com as classes médias, afastou Francisco I e Matternich, mas levou as novo e longo período conservador com Francisco José. Este tentou dar um novo esplendor à cidade e ao Império, mas o poder dos Habsburg era definitiva e irremediavelmente declinante. Falar de Viena do século XIX sem destacar o Congresso de Viena de 1815, seria um lapso grosseiramente histórico tal como não falar da musica, o que já fizemos.

Mas ir à Áustria e não visitar Viena seria como ir a Roma e não ver o Papa, como diria a A, no seu jeito muito proverbial de falar, como era perita nos idos de menina e moça. Assim arrancamos de Lofer para Viena num a sexta-feira de manhã, para lá permanecermos até domingo à noite, altura do regresso a Portugal, via Frankfurt. Tínhamos pedido à Abreu que contactasse o hotel em Viena, para ter uma cadeira de rodas à minha espera. A outra que tinha alugado, aquando do resto da estadia em Lofer, entregamo-la em Zell-am-See. Mas quando chegamos ao hotel foi-nos dito, com ar sobranceiramente olímpico, por uma recepcionista de cabelo rapado e que não olhava de frente, que ali não era nenhum hospital, pelo que não tinham cadeira de rodas á minha espera. Felizmente era ainda sexta-feira de tarde e por mero acaso muito perto havia um estabelecimento de artigos de ortopedia, onde foi possível alugar uma outra, para utilizar até ao aeroporto de Viena. De acordo com a C. que via as coisas muito bem mas só depois comentava a Ana com toda a sua paciência lá ia levando a sua ao seu moinho, isto é, o Fernando a todos os lados, apesar de nem sempre ser bem compreendida. De facto, esperávamos que o assunto fosse ali resolvido com uma outra cadeira à minha disposição, bem como aquando do transbordo em Frankfurt. Assim aconteceu. Entregamos o carro na Avis, no terminal do Aeroporto, passei para uma cadeira de rodas e a partir daí fui acompanhado permanentemente por um bagageiro ou por uns assistentes sanitários, beneficiando de facilidades de check-in, na Tyrolean Airway. Esta companhia é uma subsidiária da Lufthansa, suponho que para voos domésticos, utilizando pequenos jactos ou turbo-hélices. Também está sediada na Austria, a pequena Lauda Air, que pertence ao antigo piloto da Ferrari e campeão do mundo, Nicky Lauda. No trajecto de Viena para Frankfurt, tal como daqui para Salzburg, na nossa classe turística da Tyrolean Airways, foi servido no voo que dura cerca de 1h,30m, uma sanduíche de queijo, em pão já seco, e um copo de água para desentupir. E é se queres!!, como diria o outro. Em Frankfurt, fui levado ao colo para sair do avião, depositado depois noutra cadeira de rodas, conduzido para uma sala de espera especial para doentes, com TV e serviço de refrescos, onde estava um outro português, com destino ao Porto. Daí, a Aninhas e eu fomos levados até à manga do avião, num autocarro só para nós e para o outro passageiro senhor de um ar tristíssimo, que vinha todo partido, engessado de pés e braços, de Atenas, onde tivera um acidente na rua. Quando chegamos ao Porto tínhamos desta vez todas as bagagens, para grande descanso das nossas meninas, que agora já não confiavam da mesma maneira, na luso-eficiência.


A nossa estadia em Viena deu apenas para ficar com uma pálida ideia da cidade. Ao fim e ao cabo tivemos praticamente um dia e meio para visitas e, como apuramos depois, não foi aproveitado da melhor maneira. Vimos porém que o deslumbrante esplendor com que Viena se apresenta nos tempos que correm e se embelezou após tantos sofrimentos, como foi o cerco dos turcos, a coragem como foi reconstruída após o desastre que foi a II Guerra, mostram o dom que “as fadas” lhe concederam, de saber sorrir à felicidade e à tragédia, renascendo das cinzas se necessário e ser um fonte do nosso perene deslumbre.
Entramos em Viena pela movimentadíssima auto-estrada A1, que atravessa a Áustria, provindo de Munique e seguindo depois para Budapeste. Apenas com uma vulgaríssima planta de cidade na mão, a C e o M (que tipo eficiente, este!!!? conseguiram fazer-nos chegar ao hotel, sem um mínimo engano, sem discussões e sem ser necessário perguntar coisa alguma.
O ambiente de Viena é totalmente diferente do que encontramos no resto do país. É uma cidade exuberante, movimentada, com milhão e meio de habitantes, em que as pessoas andam na rua, falam em voz alta e se deitam tarde. Mas nem sempre foi assim tão exuberante, nem sempre os seus habitantes viveram une belle epoque. Durante a II Guerra, a cidade foi intensamente bombardeada e ficou muitíssimo danificada. Hoje em dia, não encontramos vestígios desse tempo. À semelhança de Berlim, depois da guerra, foi dividida em quatro sectores, cada qual ocupado por um dos aliados até 1956.

Creio que Viena se orgulha mesmo do seu passado histórico. Os vestígios dos Habsburg, são inúmeros e encontram-se por toda a parte. Todavia, no que diz respeito à avaliação dos tempos do nazismo, admito que existe demasiada benevolência entre os austríacos, ao invés do que acontece na Alemanha.
Mozart, acerca de Viena, com quem nunca teve relacionamento fácil, segundo reza a história, escreveu assim em 1781:
Os vienenses não apreciam e não compreendem nada que seja sério e sensato; só gostam de paródias, mascaradas, truques de magia, farsas palhaçadas.

Acerca de Viena abordarei apenas três ou quatro assuntos: o centro histórico, com ruelas, ruas estreitas e vastos pátios, e a Catedral de St. Estevão (Stefansdom), Schloss Schönbrunn, o Palácio Hofburg e o Danúbio.
Mesmo numa cidade como Viena, onde há edifícios de grande porte e imponentes, a Catedral de St. Estevão, com origens em meados do século XII, mas reconstruída a partir do século XIV, em pleno centro histórico, a alma da cidade, com o seu telhado colorido e a sua torre gótica visível à distância, é uma imagem de referência e de visita obrigatória. Como diria um escritor romântico no século XIX: Aqui até os anjos de pedra, esculpidos por cima das portas, cantam
Quem entra em Viena pela A1 vindo de Salzburg, passa mesmo ao lado do Schloss (Palácio) Schönbrunn. Trata-se de um dos mais imponentes Palácios da Europa, património mundial como o mosteiro de Alcobaça, construído em meados do século XVIII, pela Imperatriz Maria Teresa, como residência de Verão. Schönbrunn, deve o nome a uma “bela fonte”, aqui descoberta no século XVII pelo Imperador Matthias e pretendeu, de início, rivalizar com Versalhes. Mesmo tendo sido reduzido o projecto inicial, o palácio contém 1441 divisões, mais que o necessário, creio eu, para albergar os 16 filhos da fogosa Imperatriz, mais o seu amante.
Este palácio, barroco ou rococó, é um sinal do gosto pelo espectáculo, comum a todas as classes sociais, e insere-se na “idade de ouro”, na verdadeira acepção do termo. Há quem defenda que não existe aqui, propriamente, nenhum espírito de ostentação na predilecção pela magnificência, mas até um agradável desejo de satisfazer os olhos do povo, apresentando-lhe um edifício magnífico. Assim se compreende também que para além da beleza dos interiores, os arquitectos tenham traçado fachadas de beleza, de perfeita simetria, para serem vistas por todos e capazes de ser de uma alegria imperecível.

A A, a C e o M. foram visitar, rapidamente, o palácio, enquanto que eu fiquei na minha cadeira de rodas, confortavelmente a apanhar sol, numa mesa de esplanada nos enormes e multifloridos jardins adjacentes. Segundo me contaram ao regressar, gostaram muito de ver o recheio do palácio, com destaque para os espartanos aposentos de Francisco José e os mais luxuosos de Sissi, as baixelas de mesa de louça e metais, o mobiliário, a tapeçaria e os salões estatais com frescos, lacados, embutidos, estuques, espelhos e tudo o mais do género. E ainda a “Sala dos Milhões”, que deve o nome, segundo reza a história, ao seu custo de um milhão de florins, que mesmo no tempo da vida barata era uma fortuna. Mas, para a Aninhas, o mais impressionante foi a Grande Galeria, que há duzentos anos para cá, tem sido utilizada em cerimónias oficiais muito importantes, como o Congresso de Viena, de 1814-1815, banquetes imperiais e a Conferência de Viena, em 1961, USA/URSS, com J.F. Kennedy e Nikita Kruschtev, em plena guerra-fria.

Em Viena, e já em ar de despedida, ainda fizemos uma visita rápida, num Domingo de manhã cheio de sol de verão, ao Palácio Imperial de Hofburg. Este Palácio remonta ao século XIII, quando Rudolf I, fundador da Dinastia dos Habsburg, pretendeu construir uma fortaleza. Todavia só séculos depois, em princípios do século XVII, se transformou em residência oficial da corte, que se manteve até pouco tempo antes da queda dos Habsburg em 1918, e onde, entre outros eventos, passaram a realizar-se os casamentos reais. É um complexo enorme, e segundo li num guia ocupa uma área de cerca de 240.000m2, tem 2600 quartos, 19 pátios, 18 alas e 54 escadarias principais, uma autêntica cidade dentro da cidade. Nos aposentos de Francisco José e Sissi, que são visitáveis, ainda se encontram os respectivos instrumentos e ginástica. Na grande sala das recepções oficiais existe um óleo da Imperatriz Isabel, Sissi, que muito impressionou a A, pelas semelhanças que encontrou com a Diana de Gales.

Para além da parte visitável/museu aberta ao turismo, está aqui instalada a Presidência da República da Austria. Na Burgkapell, o edifício mais antigo do complexo do palácio, durante a missa de Domingo, interpreta peças de Mozart e Schubert o Coro dos Pequenos Cantores de Viena, também conhecido como o Coro Masculino de Viena ou o Wiener Sangerknaben acompanhado pela Orquestra da Ópera Estadual de Viena. Tive curiosidade em saber melhor que coro tão famoso é este, para cujas apresentações todos os lugares estão sempre lotados. Foi fundado em 1498, pelo imperador Maximiliano I, e desde então com excepção do período post I Grande-Guerra, entre 1918 e 1924, participou nos serviços religiosos daquela Capela do Palácio. Haydn e Schubert, não desmereceram fazer parte deste coro, embora na altura ainda não se usasse, como hoje, o fato de marinheiro, como indumentária. Não assistimos à missa, mas disseram-nos que, mesmo os afortunados fiéis que conseguem um lugar pago, não conseguem ver o Coro actuar, apenas ouvi-lo. Neste enorme complexo funciona outra instituição emblemática da Áustria, a Escola de Equitação Espanhola, que não tivemos oportunidade de visitar. Quando falei há tempos com o Tio Mário sobre a nossa estadia em Viena, foi o único assunto por que se interessou ou mostrou conhecer. Segundo reza a história, a Escola de Equitação Espanhola, terá sido fundada em 1576 para cultivo de alta escola de equitação, criando e ensinando cavalos espanhóis.

Dando uma volta de automóvel, Viena by night, passamos pelo Prater, perto do Danúbio. O Prater, que em latim significa prado, foi inicialmente uma coutada de caça imperial, aberto ao público em 1766 por José II, é hoje um lugar de diversão da cidade, uma grande feira popular, com variedade de barracas, espectáculos e cafés ao ar livre. Para os vienenses, o Prater é quase sinónimo da Roda Gigante, construída em 1897, cuja altura máxima atinge 65m e de onde, segundo se diz, podem ser apreciadas vistas espectaculares. A roda gira muito devagar, a 0,75m por segundo, o que é bom em termos turísticos, pois proporciona boa visão. Para os portugueses, melhor dizendo para os portistas/andrades/dragões, o Prater é sinónimo de uma noite de glória. Foi no Estádio do Prater, qual Coliseu, que visitamos por fora, que o F. C. Porto, em 1987 se sagrou Campeão Europeu de Clubes, derrotando o Bayern de Munique, com o célebre golo de calcanhar, marcado por Madjer. Viena, portanto, será sempre uma cidade mítica para o F. C. Porto. Foi aí que o clube atingiu o topo, o ponto mais alto da sua vida desportiva, numa das mais belas e emocionantes finais de sempre. No momento em que escrevo estas notas, passados 15 anos, o F. C. Porto regressou a Viena para defrontar pela primeira vez em competições da UEFA, uma equipa austríaca. O clube das Antas e os seus dirigentes tiveram memória e convidaram alguns dos protagonistas dessa inesquecível vitória, como o capitão João Pinto e o técnico Artur Jorge. Todos celebraram essa jornada, como o Rui Fleming também faria, com a alegria de um novo triunfo, que deverá proporcionar ao F. C. Porto a continuidade na Taça UEFA, de 2002/2003.

Quando passamos ao lado do Estádio do Prater, instintivamente lembrei-me do Rui Fleming. A que propósito? O Rui Fleming disse-me um dia que a vitória do F. C. Porto, em Viena de Áustria, foi o dia mais feliz da sua vida, logo seguido daquele em que lhe nasceu o primeiro filho. Muitos anos mais tarde, o Rui ainda trazia na carteira, junto ao coração, o bilhete plastificado que lhe deu o ingresso a esse memorável jogo da bola.

Diz-se que o vienense foi sempre guloso, gosta da boa cozinha, principalmente das sobremesas e doçarias, como bolos e pasteis, que gozam como se sabe de fama mundial. Não o censuro, nem ajuízo mal tal inclinação, tanto mais que reconheço que há vícios piores que a glutoneria. Fora os pratos ditos locais à base de açúcar, farinha, ovos e cremes que têm um consumo enorme, a cozinha austríaca acolhe, com sincretismo, as melhores especialidades culinárias das regiões fronteiriças, como já referi. A culinária austríaca, que nos 15 dias apenas tivemos maré de aflorar, é um deleite para os olhos, para o olfacto e para a barriga. Houve mesmo, antigos viajantes, com desvios para Lutero, que atribuíram a gulodice ao catolicismo, uma religião de aparências e de apego a sólidos valores materiais, bem como à monarquia austríaca, que encoraja o povo apenas ao bem-viver e ao bem-comer, embora um número significativo como castigo venha a morrer de apoplexia. Bem feito, que o que é doce ou faz mal ou é pecado!. Isto faz-me lembrar vagamente as considerações azedas do inglês William Beckford, quando em fins do século XVIII visitou o Mosteiro de Alcobaça.

Viena é, de há muito, uma cidade com muita vida, indústria, comércio e serviços, aonde a corte tinha uma influência marcante. Se bem que a população repartisse as diversões e o trabalho, é bem humano que até preferisse aquelas a este.
Um escritor inglês, Eduard Schulz, contou num jornal da época, os seus encontros com Beethoven, em 1823. Fizera na companhia do músico, grandes passeios a pé, nos arredores de Baden, não longe de Viena, onde este então vivia. Beethoven é bom caminhante e gosta de fazer excursões compridas, principalmente em regiões bravias e românticas. Contaram-me que passeia noites inteiras e que já aconteceu estar ausente de casa durante dias. Pararam para comer numa taberna, ao ar livre, o que encantava o compositor. Mas o que não lhe agradou, foi a ementa. As refeições vienenses são célebres na Europa, escreve Schulz, e o que nos prepararam era tão luxuoso que Beethoven não conseguiu calar censuras a tão desperdício. Para quê tantos pratos diferentes? exclamou. O homem coloca-se bem pouco acima dos animais, quando a mesa constitui o seu prazer favorito...

Sem dúvida que Beethoven era um grande músico. Mas seria mesmo um homem completo? pergunto eu.
Não sei se se recordam, mas atrás já falei do Hotel Sacher, de Viena, talvez o mais famoso da cidade, de quartos caros e opulentos. Mais uma vez, a A e a C iam morrendo de pena por não termos tido possibilidade de lhe fazer ainda que uma breve visita, de preferência para lanchar a especialidade da casa, em local que foi frequentado, desde início, pela realeza, aristocracia e alta burguesia vienense e europeia. Neste século XXI, o café enche-se de japoneses e outros turistas, à procura de ambiente e do bolo de chocolate. Nas numerosas salas de estar, com paredes de mármore e reposteiros de veludo vermelho, ecoa ainda algum prestígio passado.

Pareceu-nos obrigatório dar uma volta de barco no Belo Danúbio Azul. Acontece que o decantado Danúbio, só é azul ou azulado na imaginação de Johann Strauss (II), pois é cor de jade e bastante lodacento, pelo menos na sua travessia por Viena, aquela pequeníssima parte dele que vimos. As suas margens podem ser interessantes para andar a passear pé, têm agradáveis esplanadas onde se pode erguer um copo de vinho ou uma caneca de cerveja, e ancoradouros. O passeio de barco no dizer da C. foi uma desilusão. O que é muito pouco importante numa viagem como esta. Foi uma expectativa gorada sem graça nenhuma.