terça-feira, 6 de janeiro de 2009

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA

(I)


FALANDO SOBRE A FAMÍLIA

Fleming de Oliveira



-Os nossos afectos
-A nossa gente
-A Casa de Miramar (com janelas verdes)
-Fleming de Oliveira de ontem, hoje e amanhã
-Porto, Miramar, Alcobaça, Mataduços (Aveiro), Figueira da Foz e Carnaxide (Lisboa)
-Regressando a Matosinhos (a nossa origem FO-1916)
-É gostoso ser Avô
-O espírito de Natal?

1)

Tenho (temos), uma Família. A nossa Família tem um nome que não repudia, muito pelo contrário. Não sou (não somos), não quero (não queremos) ser anónimos, gosto (gostamos), tenho (temos), mesmo necessidade de saber de onde venho (vimos), embora não receie descobrir, eventualmente, nos antecedentes, uma grande mistura social. Admito, sem que isso me faça corar ou perturbar, que na Família, nos antepassados, possa haver além de ilustres nobres ou burgueses, muito democráticos bebedolas, padres e até vadios.
O Zico(meu Pai) dedicou alguns dos seus últimos anos a procurar, com afinco e uma curiosidade interessantes, registos junto de amigos, parentes, arquivos nacionais, registos paroquiais, Torre do Tombo, etc. e até estrangeiros, Edimburgo/Glasgow. Assim veio, em Parentes Meus, recuperar um pouco da memória da nossa frondosa rede familiar, que ainda teve tempo de deixar publicada em livro, patrocinado pela editora do Arnaldo Jorge F. Tenho a ideia de ouvir o Zico queixar-se que, as gerações recentes, são as que menos informações disponibilizaram para fazer a Árvore, o que não me admira especialmente. Creio que o seu rigor foi notável nalguns casos e o possível, ao definir com alguma dedução nomeadamente nas cores, o nosso brasão Fleming, que teve noutros ramos anglo-escoceses versões diversas (desenho que na versão do Zico, na minha opinião rigoroso foi apenas no lema LET THE DEED SHAW, mas que a partir daí nós, os Fleming de Oliveira-Miramar, começamos a considerar o oficial e que a Inês tem divulgado, nataliciamente, na porcelana decorativa).
Nos tempos antigos, os romanos tinham apenas um nome. No entanto, mais tarde, passaram a usar três nomes. O nome próprio vinha à frente e chamava-se praenomen. Depois vinha o nomen que designava o clã. O último nome, respeitava à família e era conhecido como cognomen. Alguns romanos, acrescentavam um quarto nome, o agonomen, para homenagear antepassados ilustres ou eventos memoráveis. Quando o Império Romano começou a esboroar-se, os nomes de família confundiram-se e os nomes próprios tornaram-se costume de novo.
Durante a baixa Idade Média, as pessoas eram especialmente conhecidas pelo nome próprio, como agora parece ser uma prática muito popular, mas que me irrita um pouco. Mas surgiu a necessidade de adicionar outro nome para distinguir as pessoas. Então surgiu a característica, como a função profissional da pessoa, ou nome do pai. No século XI, o uso de um segundo nome, tornou-se tão comum que, em certos meios sociais mais elevados, era mal visto não o ter. Mas mesmo tendo sido este o início para todos os sobrenomes que existem hoje, grande parte dos usados na Idade Média, nada a ver com a família, isto é, nenhum é verdadeiramente de características hereditárias. No respeitante aos nomes hereditários, isto é, os nomes que eram passados de pai para filho via linha masculina, como por exemplo presentemente o nosso Fleming de Oliveira, é por vezes difícil definir com exactidão quando ou como surgiram, embora se saiba que é uma prática que remonta à aristocracia veneziana, já pelos idos dos séculos X ou XI. No nosso caso FO, isso é bem fácil, não é preciso ir tão longe, como veremos à frente. Os descobridores de antanho, ao regressar a casa, espalharam-na pela Europa. A França, as Ilhas Britânicas, a Alemanha, Espanha e Portugal começaram a utilizar esta prática para distinguir os indivíduos que haviam se tornado notáveis. No século XIV, já se encontra o sobrenome em documentos escritos nas línguas locais europeias, como a portuguesa. O poder real impôs, rapidamente, a utilização de documentos para deixar registados os actos relevantes. Assim, cada vez mais foi importante identificar, com rigor, os intervenientes. Em algumas comunidades urbanas mais populosas, os nomes próprios deixaram de ser suficientes para distinguir as pessoas. No campo, atento o direito de sucessão hereditária nas terras, era preciso algo que indicasse o vínculo da pessoa à terra, para evitar dúvidas de maior e abusos. Não é surpresa dizer-se que, no antigamente da Europa e em Portugal, era prioridade das famílias ter filhos varões, desde logo para manter o nome e os bens. Afinal, era pela linha masculina que se passava o sobrenome e os bens às novas gerações, pelo que constituía, um grande desgosto e perda, uma família não possuir descendentes varões. Os sobrenomes foram inicialmente usados pelos nobres e senhores da terra, como no caso Fleming, da Escócia de antigamente, em tempos mesmo anteriores a Robert The Bruce, como sabemos de Parentes Meus. Os primeiros Fleming foram barões e latifundiários terra-tenentes, que terão recebido o sobrenome a partir de seus feudos, propriedades de origem e fixou-se através da transmissão hereditária. Mais tarde terá havido na Escócia, Fleming comerciantes e até plebeus.
É tarefa complicada classificar, hoje em dia nalguns casos, os nomes de família, por causa das sucessivas mudanças de ortografia e pronúncia. Mas não o nosso Fleming. Muitas palavras, tem assumido significado diferente ao longo do tempo, ou hoje em dia encontram-se obsoletas. Muitos desses nomes dependeram da competência de quem os escreveu no assento de nascimento. O mesmo nome pode estar escrito de diferentes maneiras, até mesmo no mesmo documento.
Os nomes de família chegaram, até nós, de diferentes maneiras. A grande maioria dos sobrenomes evoluiu de 4 fontes principais (ocupação, localidade, nome do pai, característica física) o que não foi o caso Fleming.
A família Fleming de Oliveira, representa um personalizado grupo social primário e nuclear. Somos um grupo, ou um número de grupos domésticos ligados entre si por descendência (demonstrada) a partir de um tronco comum, no nosso caso FO, o matrimónio de Augusto J. de Oliveira e Lícia P. V. Fleming. Dentro de uma família existe sempre um grau de parentesco. Membros de uma mesma família costumam por isso compartilhar do sobrenome, herdado dos ascendentes directos, como o nosso caso. A família FO é unida por laços capazes de manter os seus membros moral, material e reciprocamente durante uma vida e mesmo gerações. Assim esperamos que possa acontecer.
Sendo a mais velha da sua geração, a quarta a partir dos FO’s, a Teresinha Fleming Gaspar, nunca conheceu a Casa de Miramar, sobre a qual tenho escrito algumas coisas. Mas, tal com o Dodo e o Luís, vai crescendo com algumas histórias que dela se contam, ouvindo referir os tempos idos, em que nunca havia silêncio, mas sempre alguma confusão e amuos circunstanciais, e se reuniam não sei quantos à mesa, não apenas no Natal, ao fim de semana, o que dava para perceber quanto era um clã unido, embora por vezes discutindo, com mais ou menos calor. Lá, a mesa era sempre grande, tão grande que frequentemente era encerada e limpa pela Carminda, com a máquina utilizada para o soalho. Era sempre a mesma mesa grande, mesmo quando nos últimos anos durante a semana apenas era usada pelos Zicos. Na sala de jantar nunca houve televisão, esta ficava na sala de estar ao lado, sem possibilidade de ser alcançada pelo campo de visão de quem se encontrava à mesa. Sempre foi assim, tanto quanto me lembro, e ainda me lembro bem de quando chegou a televisão a nossa Casa, pelas meus doze ou treze anos. Nunca houve tabuleiros para ver televisão. As refeições à hora certa, por vezes incomodativamente certa, 13h para o almoço, 20h para o jantar, eram um momento importante do dia para partilhar histórias ou preocupações e, muito especialmente ao Domingo, nunca se sabia antecipadamente e com rigor quantos estariam presente. Viriam a Clara e o Manel, do Porto? A Xica e o Rui, de Miramar? A Ana e o Fernando, de Alcobaça? Havia sempre alguém que aparecia sem avisar, o que consumia muito a Carminda, que fingia ficar nervosa e barafustava risonhamente.
-Será que a comida chega, D. Mariazinha?
Há muitos episódios que ficaram para a história da Família, que gostamos de recordar ainda hoje quando nos encontramos.
Aos poucos foi-se cristalizando em mim, a ideia de dentro do possível, recriar não aquela casa, mas fazer uma outra minha, com a Aninhas, sem que isso fosse ocupar qualquer vazio ou o regresso a uma origem. Nunca mais voltei à Casa de Miramar, partir do momento em que a Zica de lá saiu. Falar hoje naquela Casa, é algo que, se fosse dado à lágrima fácil, me iria marejar os olhos, tão bem nítida é a sua memória.
Temos uma casa nos Montes, com quem pretendo ter uma relação boa, se possível cada vez forte, graças à Aninhas. Chamei-lhe um dia a Casa das Festas, o que parece até simpático, porque não há ali vestígios de dores. As poucas notícias que o telefone me traz de vez em quando, nunca foram más. Citadino por natureza, pelo menos assim pensei durante muito tempo, adapto-me optimamente ao fim de semana no campo, embora por vezes nem chegue a sair das quatro paredes da casa. Ainda hoje, mesmo lá, me custa a imaginar sem a gravata de tantos anos. Assim, congratulo-me com o reconhecimento que a vida pode proporcionar afinal ambientes bem agradáveis, nesta procura de felicidade, como diria o filósofo Kant.
A idade acaba por nos roubar a inocência e a candura, e nunca a trazer de volta. Emigrei, para Alcobaça, há muitos anos, para me fixar num escritório de Advogados, em frente ao Mosteiro. Cada vez vou menos ao Norte, a Miramar, tanto mais que tenho pouca vontade de passar diante da nossa Casa. Há algum tempo, ao descer a Avenida Vasco da Gama, em direcção ao mar, à praia semi-desértica e sem grande deslumbre romântico, recordei-me de uns versos de Tomás António de Gonzaga, bacharel de Coimbra, e depois Desembargador nos trópicos. Quem ainda se lembra dele e da sua Marília de Dirceu? São estes, os sítios? São estes, mas eu o mesmo não sou.
Às vezes acusam-me de ser frio. Pergunto-me, admitindo mesmo que assim seja ou possa parecer, se isso será saudável. Pensando bem, entendo que não, pois que essa frieza, embora seja compreensível em certos casos, é na verdade falsa, batoteira. Ouvi uma vez dizer que, a frieza, é o congelador do desespero, evita que a dor nos faça desabar. Nem sempre a vida tem-me sido fácil (uma vez até pensei… em voz baixa, estou preparado mas, se for possível, não quero ainda), não me queixo muito e admito que, nesse caso, a frieza actua como uma defesa contra o risco de uma emoção surgir como um incontrolado furacão, que nos apanha e machuca severamente. Houve dias que me pareceram pesadas portas de ferro, de que não tinha chave. As horas passavam lentas (valendo-me a T., nos seus três anos, que me defendeu dessa tenaz que me apertava e, assim, me tornou resistente) e esmagavam com uma derrota. Tenho uma situação clínica que suponho estar controlada (embora haja que ter prudência, segundo me dizem), e para isso também me bastou o importantíssimo sentimento de solidariedade e companhia da Aninhas e o amor da Família. Com um a.v.c. a vida passa a ser diferente, como sabe quem por isso já passou, a marcar um distanciamento em relação ao que era a outra realidade, e assim será até entregar a alma ao Criador.
Aprendi nestes anos, alguma coisa positiva, em termos de cultura e vivência terrestre (claro que desaprendi outras menores, mas para essas tenho o Nuno G., ainda à mão ou à distância de um telefone). Como o vento que volta, a derrota (qual espada quebrada num conflito) e a vitória (qual taça erguida numa ara) estão sempre presentes na rotação do tempo que passa.
Há muitos anos em Itália, Francisco, de Assis, precisamente no ano de 1223, teve a ideia de celebrar de forma diferente com os cidadãos da cidade, a missa da véspera de Natal e recuperar o Presépio, isto é, o lugar onde Jesus nasceu, se recolhe o gado, o curral, o estábulo, para poder torná-lo mais real e o dar a conhecer ao mundo. Assim, segundo se diz, nasceu o primeiro presépio, e essa missa em vez de celebrada numa igreja, foi no interior de uma gruta para onde levou pessoas, um boi, burro e feno, logo com muitos a aplaudir a iniciativa e a relembrar a noite em que Ele nasceu. A ideia frutificou, pois foi motivada por dois tipos de representações da Natividade, a plástica e a teatral, espalhou-se pelos quatro cantos, assumindo contornos vários, mas sempre com a presença de S. José, Nossa Senhora, Menino e os animais que, segundo a narração dos textos evangélicos, estavam a aquecer o ambiente no estábulo. Passou este a ser, durante séculos, um dos maiores símbolos do Natal, na síntese de que a sua essência assentava nas circunstâncias penosas do nascimento, aliando-se o cântico dos anjos, à adoração dos pastores e ao recebimento da mensagem do Deus feito homem, aos sentimentos do amor pelo próximo. A primeira representação plástica do Natal é atribuída a S. Helena, mãe do imperador Constantino. O nascimento de Jesus começou cedo a ser celebrado entre os cristãos, sabendo-se de peregrinações a Belém desde o século III, para visitar o seu local do nascimento.
Porque estava ali uma Família, passou esta a ser considerada a Festa por excelência da Família, assumindo cada vez mais relevo, mesmo para os menos crentes. As famílias procuram reunir-se, como nós já fazíamos em Miramar, agora em Aveiro, relevando-se sofregamente os traços comuns, enquanto que a Biquica e Domingos recordam-nos de forma muito calorosa, gentil e apropriadamente, a ideia criativa do cristianismo. As distâncias deixam de ser relevantes, assim como o tempo que demora a percorre-las. A Família vem de longe e de perto para se reunir, para estar junto. É algo aparentemente simples, mas simultaneamente extraordinário que nos enhe de orgulho, satisfação, paz e felicidade. Foi um pouco como este, o Natal da minha infância, da Família FO de Miramar (Menino Jesus que ainda distribuía presentes, crianças excitadas, bacalhau cozido, mexidos, presépio com musgo, Missa do Galo, beija pé do Menino e calor dentro de casa). Há uma voz, um som, um cheiro que nos faz regressar a casa para estarmos com os nossos. Mesmo que Natal seja sempre o mesmo, este ano com a Zica já inexorável e fisicamente ausente, mas especialmente presente, será sempre o acontecimento mágico do ano. A despedida da Zica já ocorrera há muito tempo e isso foi terrível. Não sabíamos se sofria. O sofrimento dos que lhe estavam fisicamente mais próximos, como a Núnú e a Clara, era mais inquieto do que o dos irmãos, perante esse desconhecimento. Assim, permaneceu a Zica numa longa queda imóvel, à espera do fim. A Zica foi-se de vez, para um passamento infinito, mas que há anos lhe havia retirado as palavras da boca e que portanto a fechou antes do tempo. Há muito que só tínhamos da Zica, e era tanto, a gostosa memória, a saudade dos nossos tempos de meninos, mais tarde pais de meninos, de Miramar e da Casa, que serão para sempre nosso património sentimental e afectivo.

2)

-Como viste o Natal deste ano em tua casa? perguntei ao Domingos.
-O Natal de 2006 foi vivido na experiência do reencontro entre a chegada e a partida, num ciclo gerador de vida em que todos somos um elo insubstituível. Folhas nascidas, folhas caídas, todos nos revemos na lágrima que desliza e limpa o olhar fixando-o no silêncio que se fez palavra, numa ausência que se fez presença.
-A Zica já cá não viria nunca, mas sentimos neste momento, na sua ausência, uma forte e idesmentível presença espiritual.
-Parafraseando Bernanos, o olhar da Mãe é o único olhar verdadeiramente infantil, o único verdadeiro olhar de criança, que se ergue para fitar as nossas fraquezas, dificuldades e limitações. Por isso, embora com a emoção mais contida, foi Natal com as mesmas luzes, ornamentos, memórias e evocações ancestrais.
Antes de se dar início à Consoada, a Leonorzinha fez a leitura bíblica da narrativa do nascimento da Luz que se colocou nas encruzilhadas e no termo de todos os caminhos, e disse que:
-Enquanto a chuva escorrer da vidraça //E furar o telhado daquele farrapo de homem que além passa,//Enquanto o pão não entrar com a Justiça, lado a lado, mão a mão, //Nem Jesus vem andar pelos caminhos, onde os outros vão.//Um dia quando for Natal //(e já não for Dezembro) //E o mundo for espaço, onde cabe um só abraço,//Então Jesus virá e será a flor de tudo, //ORedentor Universal//Quando o Homem quiser será Natal.
(in, Manuel Sérgio).
O jantar servido na mais pura tradição como se impõe, e na baixela que muitas vezes nos serviu em Miramar, consistiu num bacalhau cozido com todos, rabanadas, bolo rei, etc., aconchegado por um Valdoeiro tinto (Bairrada) nada inferior ao que o Domingos nos tem habituado doutras vezes. Ficou ainda um cantinho para o bolo de aniversário da Raquel, que foi presenteada com os PARABÉNS A VOCÊ, numa versão para duas violas de arco, da autoria da Teresinha (grande). Seria impensável ir a Aveiro e não ter oportunidade de compartilhar da subtileza musical das meninas, que se apresentaram num duo, rigorosamente a preceito.
Abriu-se a noite solitária e invasora//Cheia de avisos apressados,//Abriu-se a noite austera e percursora//E cercou a cidade pecadora//Dos Homens descuidados…//Abriu-se a noite milenária e súbita//E com ela se abriu,//À flor da Terra Mãe,//Na encosta dos tempos//A gruta que os caminhos demandaram//Como lugar de refúgio e//Escondimento…//Ela aí está, acessível, singela,//Como o sonho dos humildes,//Exterior ao festim dos poderosos,//Fechado contra ela.
//Ela aí está e, lá dentro,//Deixa ver o cenário://O deserto e três reis,//A choupana dos simples,
//Canções,//Uma estrela…//Abriu-se a noite…//Tudo inútil e precário!//Abriu-se a noite… //O mundo é leve como um sonho!//Abriu-se a noite…//Que é dos homens e das coisas?//Abriu-se a noite…//E fechou-se…//E reabriu-se, //Descerrando em paz místicos véus!//Abriu-se a noite…//…E fechou-se//…E reabriu-se,//Como Deus!
(III Nocturno do Natal- João Maia)
Antes de se chegar à altura da troca dos presentes, em Aveiro ainda não vem propriamente o Pai Natal, houve a oportunidade de em coro à mesa, e acompanhado instrumentalmente com uma conhecida melodia, se cantarem quadras de boas vindas, simbolizando o gosto da Biquica e Domingos em terem a família reunida, no que se vai tornando a cultura e tradição natalícia pós-Miramar:
Flemings, Almeidas e Limas,//Silvas, Araújos e Gaspar,//Juntos na Casa dos Peixotos//Puseram-se todos a cantar,
GLORIA IN EXCELSIS DEO
Uns vem de longe, outros de perto//Pelas estradas sem parar,//Guiados pela mesma estrela//Que no presépio vai pousar,
GLORIA IN EXCELSIS DEO
Daqui a um ano cá voltaremos//Com a Família a aumentar,//Um novo canto entoaremos//Para o Natal celebrar
GLORIA IN ECELSIS DEO
Com a Família a aumentar?
Sim, óptimo, lá para o começo do verão teremos um novo(a) Fleming Almeida Araújo! Daqui um beijinho para a Titinha.
Foi no calor de gestos sempre repetidos mas sempre novos, porque nunca são iguais, que se seguiu o desatar dos atacadores do sapatinho, sintetizou muito bem o Domingos.
Mas além da Consoada em Aveiro, e sem pretender fazer-lhe concorrência, estamos ainda a institucionalizar o jantar em casa (ou por conta) da Inês, por alturas do Natal, acontecimento que passa a ser imprescindível para nós FO’s. Este ano ainda mais, com a memória e a saudade da Zica especialmente presentes, e a necessidade de nos apoiarmos uns nos outros. Por isso, ninguém quis (podia) faltar ao encontro, que se desejava ainda mais sereno e fraterno, no Sol dos Pequeninos, na noite do dia 23 de Dezembro.
-Como foi, Paulo?
Note-se que, o meu cunhado, é pessoa de excelente e reconhecidos bom gosto e sensibilidade, pelo que aprecio os seus comentários e a sua prosa, como tenho demonstrado.
-Com o declinar da tardinha, a luz foi-se paulatinamente apagando, num lento adeus a Miramar, sem vassalagens nem preconceitos quanto à inexorável noite vindoura. O mar calmo e espelhado, estranhamente nostálgico, paciente e observador, parecia admirar a azáfama e o movimento que transbordava do Sol dos Pequeninos. Tanto empenho, dedicação, esmero e uma vontade do tamanho do mundo, para tudo ser perfeito no jantar dessa noite: ambiente, decoração, comida, bebidas e acima de tudo conforto, carinho e demais componentes do que se chama vulgarmente calor humano.
-Tens toda a razão, sentimos todos isso muito bem em tua casa!
-Assim, logo me ocorreu uma frase que alguém me dissera na véspera em Agramonte, estaremos bem melhor uns com os outros ao jantar amanhã, que de qualquer outra maneira…
Antes da despedida, cantaram-se os parabéns. Essa promessa de vida transformou todos os epílogos possíveis ou prováveis, no melhor.
-Muito obrigado. Lá nos encontraremos de novo, antes do verão, a celebrar com a Bitinha e o Eduardo.

3)

Hoje em dia há cada vez mais equívocos, que impõem uma verdadeira ditadura do politicamente correcto, e exigem pessoas disponíveis para aceitar ou sugerir constrangimentos à vida colectiva, às suas tradições e até à sua religião. Isto com o argumento de não incomodar outros (que vieram depois), mas que pelo seu lado, reclamam e usufruem das mais amplas liberdades. Espero não chegar a ver um tempo português, em que só se farão celebrações de Natal com carácter consumista para satisfazer pequenos interesses, para não perturbar crianças ou adultos de outros lugares e costumes. Por isso, aprecio de sobremaneira Aveiro, aonde se responde, sem constrangimentos, a esse desafio que está a envenenar o nosso Natal, festejando-o à vista de todos, com naturalidade, empenho e ainda que diferente do que por aí vai, mas muito especialmente sem perder de vista as marcas de uma festa religiosa e de família. Um Natal com recordações (cheiros, paladares, afectos) comuns, discussões de circunstância, onde o que não foi dito nunca será revelado, e até com amuos (sempre injustificados) de alguns ausentes ou presentes. Claro que tenho de aceitar que as coisas mudem, mas que ao menos neste assunto pareçam estar na mesma e nos possamos continuar a sentir bem a jantar em casa da Biquica, na confusa animação da troca de presentes, na companhia de uma vaquinha, um burro, uma Nossa Senhora, um S. José e o Menino nas palhinhas deitado.
Sendo eu mais ou menos crente embora conforme os dias da semana, mas tendo todas as raízes na civilização cristã, concebo o nascimento do Menino como o símbolo da renovação da vida e da esperança de realização indissolúvel da condição humana.
Quando éramos meninos, íamos no Natal ao circo do Coliseu, com a Carminda, como já referi em apontamentos anteriores. Havia circo que nos divertia e fascinava. Não há nunca Natal que não me recorde do circo da nossa infância, a elegância do passo dos cavalos a andar em círculo, a voz tronitruante do apresentador vestido como um marechal cheio de alamares, a lentidão subtil dos elefantes, os cães amestrados cumprindo as ordens dos domadores, trapezistas que nos sufocavam a respiração e nos faziam fixar o olhar no perigo do abismo sem rede, enquanto comíamos sandes de marmelada, os palhaços perversos e gentis com a sua música atabalhoada, alternada entre as notas do rico e do pobre. Lembro o Natal e lembro o circo, recordando-me um pouco do que era a vida, antes dela fazer de mim o que sou hoje. Por isso não há Natal que não volte ao circo…
É muito vulgar dizer-se que agora o tempo anda mais depressa. Creio que a suposta celeridade do tempo, não é matéria acertada, mas tão só uma afirmação como qualquer outra, para encher uma conversa ou introduzir um tema, mesmo que invoquemos o ritmo de vida moderna, a globalização ou a perversidade da tecnologia das comunicações. Recordo-me de ouvir iguais comentários ou desabafos, quer aos meus Pais ou Sogros e, seguramente, estes também poderiam dizer o mesmo dos seus antepassados. Ontem, como hoje, barafustamos contra a falta de tempo, de oportunidade de se fazer o que seria necessário ou desejável. No meu caso, sentindo que os dias se vão sucedendo sem serem muito diferentes uns dos outros, sem grandes novidades nem sobressaltos (o que acarretaria a sensaboria total de escrever uma auto biografia), admito que cada mês que passa se assemelha em termos relativos a uma semana de sete dias. Mesmo assim até ao próximo Natal faltam 12 meses…
Tenho Fé? Acho que sim, mas uma fé que não passa concomitantemente por bater contrictamente no peito, ir todos os domingos à missa, mas reconhecer que devemos estar atentos para evoluir, nos aperfeiçoarmos, que a vida é um lugar de permanente combate, onde a Vitória só perde e a Derrota só ganha, quando se negam, convertendo-se naquela contra quem lutam. Depois de ter passado por algumas provas mais ou menos fáceis, percebi que os olhos que fitavam o sol no dia 15 de Novembro de 1969 (dia em que acabei o curso de Direito, na U.C.) estavam muito menos abertos, que no dia em que a Aninhas me fez nos Montes um almoço FO, para comemorar os 60 anos. Então percebi que aquilo que há tempos me pareceu uma derrota, no seu fantasma, se poderia converter num pequeno caso de reabilitação. Quero arredar a frase pessimista, que uma vez notei num livro melancólico, não deixo de ter chegado aquela idade em que a vida se torna para cada homem uma derrota aceite.
Como confessei, atravesso nesta fase da vida, uma espécie de oceano, não totalmente deserto, nem mortal. É vasto, tem algumas cores e felizmente ilhas. Sempre que a Aninhas me dá alguma força, sinto-me mesmo mais forte, sempre que a oiço aprendo depois a ouvir-me melhor, sempre que lhe toco, sinto-me mais vivo. Nem sempre todavia foi assim. Entrei, por força das circunstâncias, há uns anos num bote que me parece o errado no destino final e, agora reconheço estar demasiado e irremediavelmente longe da minha terra e de onde desejaria nunca ter saído.
Demasiado longe? Há coisas que não se devem registar, como a Aninhas me ensinou muito bem mas, dento do possível, estou a tentar regressar a algumas coisas, anteriores à enxurrada que quase me atolou. As questões, vão-se mantendo ainda que evoluindo. O essencial jamais será acessório, pelo menos assim o quero encarar. Mas, ao contrário do que diria Mozart, no tão cantado e decantado Nessum Dorma, todo o mundo civilizado, mesmo um snob impenitente, dorme diante do ecrã de TV, e dorme só…Não é verdade?
Falemos mais um pouco de nós, os Fleming de Oliveira. O afecto define-nos, gostaria eu de poder asseverar sem receio de desmentidos pontuais, e mesmo correndo o risco de se rirem de utilizar uma expressão desactualizada. Doutro modo, atravessamos a vida com pudores e deixamos de ligar, ignoramos, o que de mais profundo pode ocorrer nos outros parentes, acabando por nos tornar pessoas menos interessantes. Olhemos à volta, e confirmem-me não ser verdade que a deficiência afectiva nos vai consumindo rapidamente e cresce de forma mais que proporcional ao lixo que se vai acumulando todos os dias, no contentor da esquina da rua.
O Becus FO, gosta muito destas coisas, bem sei. É, diria eu, uma pessoa excelente para compartilhar certas ideias de solidariedade familiar.
-Queres recordar como foi o nosso último encontro FO?
Claro que quer, a minha pergunta era pura retórica. Antigamente os FO’s, ainda que só os de Miramar, não enchiam uma página A4. Hoje, connosco e os outros, seria preciso fazer uma lista completa, para não faltar ninguém. Todos são imprescindíveis, ninguém nunca substitui ninguém, especialmente os que amamos e nos deixaram, pois não há eternos.
-E a tradição cumpriu-se, disse-me o Becus. Será que já podemos chamar tradição a este encontro?
-Não tenhas dúvidas, caro Primo, asseverei.
-Até porque a nossa Família F.O., continuou o Becus, desde sempre, desde os nossos Avós Lícia Fleming e Augusto Johnston de Oliveira se reuniu frequentemente. Fosse em festas de aniversário, fosse aos fins-de-semana, nas Ceias de Natal, nas férias, em passeios, eu sei lá… e depois continuando pelos nossos pais e tios em Miramar e Matosinhos, sempre se reuniu.
Que saudade do tempo em que éramos para eles e eles para nós sempre os primeiros.
-Se bem te recordas, meu caro primo, poucos dias terão passado sem que eu tivesse, durante anos até ir para a Universidade de Coimbra, deixado de ir a tua casa de Serpa Pinto.
-Mas voltando ao tema inicial, a tradição cumpriu-se no passado sábado, dia 21 de Outubro de 2006. O II ENCONTRO F.O., desta vez, teve lugar na região norte do país, mais concretamente na CASA DA RIBEIRA DE CIMA, em Maureles, no Marco de Canavezes. Os meus irmãos Zinha (que se esmerou) e Zé Kitolas acolheram-nos de braços abertos na sua casa, num dia de encomenda. E digo dia de encomenda pois estamos em pleno Outono e que Outono…! Chuva, chuva, chuva e mais chuva. Mas o S. Pedro que nestas matérias é quem paga ou recebe as favas, esteve sem dúvida alguma do lado dos F.O., permitindo que o almoço decorresse no exterior, chegando mesmo a brilhar o astro-rei.
-Como foi o almocinho? À maneira?
-Depois das chouriças e linguiças assadas (nas brasas) mesmo ali, foi servido um excelente cabrito à moda de Marco, com as famosas batatinhas no forno. Tenho de salientar aqui que todo o repasto foi regado com um verde branco da região (verde, mas bastante graduado esclareço!!!), servido bem fresco e a preceito. Mas diga-se que o mais importante para além destas iguarias bem recheadas de doces e salgados, foi o CONBÍBIO, como se diz no Norte. Conta aqui, fala acolá, assim se foi passando a tarde, tendo havido tempo ainda de fôlego, para alguns mais novos, fazerem um agradável, mas custoso passeio até ao Rio Tâmega.
-Para molhar os pés? E depois?
-Estavam alguns F.O. em sossego e amena cavaqueira quando, ao som das marchas escocesas, entram na sala duas personagens que passo a explicar: o Kitolas e, eu próprio, com as bandeiras da Escócia e de Portugal a acenar, em estilo de parada. Os restantes F.O. aplaudem com grande entusiasmo e a alegria contagia-se, mesmo aos mais pequenotes.
-Mas o nosso II Encontro foi só comes, verde e música? Que se pode destacar mais?
-Passa-se depois à parte mais séria e formal do II Encontro F.O. Na sala estava colocada uma mesa comprida com as bandeiras da Escócia e de Portugal e um cartaz assinalando o evento, ficando na presidência o Pai Mário, o primo Fernando e o anfitrião Zé Kitolas. O Pai Mário fez uma resenha dos seus Pais e nossos Avós Lícia e Augusto contando vários episódios, salientando também as diferenças entre os dois irmãos Fernando e Mário, sempre escutado com muita atenção e respeito por todos os F.O. ali presentes. Falou, de seguida, o primo Fernando que assinalou nas suas palavras a importância do passado dos nossos Avós, mas muito mais importante saber transmitir aos nossos filhos e netos os valores que nós próprios recebemos. O Zé Kitolas agradeceu a todos a presença e pediu para se juntarem em grupos para se fazerem as fotos que irão ficar como mais um marco importante na História dos Fleming de Oliveira.
-Algumas destas fotos ficaram mesmo boas. Não é vulgar juntarem-se, amenamente, quatro gerações pela linha masculina, pois não? O teu Pai, eu, o Miguel e o Diogo, todos Fleming de Oliveira. Nem tu, nem nenhum dos teus irmãos homens, pode ainda entrar neste clube restrito e selecto de quatro gerações FO, espicacei-o.
-É evidente que se torna difícil reunir todos os F.O. pois eles estão dispersos desde Matosinhos a Miramar, de Alcobaça à Figueira da Foz, de Lisboa ao Porto, Senhora da Hora, Leça da Palmeira, etc., mas onde quer que se encontrem serão sempre uns F.O. genuínos. E para a próxima haverá mais, se Deus quiser…

4)

Para falar de nós, os Fleming de Oliveira do século XXI, é interessante, necessário mesmo, ir à origem deste tronco, com perto de cem anos de existência, este ano fez noventa, e que começou como casamento dos Avós Augusto Oliveira e Lícia Fleming. É, o que me proponho fazer. A Família, é o pilar da verdadeira educação, a iniciação, sendo a escola tão só a sua continuação. Os jovens que se reconhecem em realidades culturais e ancestrais definidas, como reputo serem as nossas, aderem a elas e gostam de as viver. Este estímulo é fundamental, embora a educação, o venha depois a desenvolver e fazer frutificar. Bem desejaria que a nossa família dentro das suas possibilidades, fosse capaz de orientar os filhos e netos, e assim por diante enquanto houver FO, sem prejuízo das novidades e interesses de cada época, porque eles fazem parte da cultura que constitui a nossa existência e identidade.
Augusto Johnston de Oliveira, filho (legítimo, isto é fruto de casamento, como antigamente se dizia) de Ismael Adelino de Oliveira e de Amélia de Sousa Johnston de Oliveira, nasceu em 23 de Maio 1881, na Freguesia de Cedofeita/Porto, onde aliás foi baptizado na igreja românica existente ao lado do liceu, após o 25 de Abril de novo Rodrigues de Freitas, e casou na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, na quinta-feira, 8 de Novembro de 1916, dia invernoso, tanto em terra como no mar (havia-se virado, dentro do porto de Leixões e sem outras consequências que não materiais, um barco-vigia pertencente a um pesqueiro). Pelas dez horas do dia anterior, fora realizado o enlace matrimonial civil, na respectiva conservatória, segundo o regime de comunhão geral de bens, nos termos das Leis da República, com a Avó Lícia, Pereira de Vasconcelos Fleming, filha (legítima), nascida a 18 de Fevereiro de 1898, de Rodrigo Martins Fleming, conceituado Director da Companhia de Seguros Garantia e membro da Creche de Matosinhos, e (obviamente) de Ana Pereira de Vasconcelos. O noivo, empregado comercial, chefe da casa Pinto Leite & Filhos em Lisboa, tinha trinta e cinco anos de idade.
A noiva, doméstica e gentil menina, com apenas com dezoito anos, vivia em Matosinhos, mas tinha nascido no Porto. Por causa da idade, a noiva teve de obter autorização dos pais para se casar. Foram padrinhos de casamento no acto civil, por parte do noivo, os Senhores Eduardo Rodrigues de Paula, solteiro, negociante, e Virgílio da Costa Neves, casado, engenheiro, e por parte da noiva, os Senhores Ernesto Augusto Castro Guimarães, casado, proprietário, e Manuel António Rodrigues Júnior, solteiro, estudante de engenharia. Após o auspicioso enlace religioso, durante o qual a gentil menina se quedou, como é da praxe, ao lado esquerdo do futuro marido, foi servido aos convidados um delicado copo de água, em casa dos pais da noiva, aonde os recém casados chegaram numa carruagem de cavalos que seguiu na cauda do cortejo. Ali a bisavó Ana, fora a primeira a chegar da igreja para receber os convidados. A mãe do noivo, a bisavó Amélia, já era falecida na altura. Na cerimónia religiosa, paraninfaram os noivos, pessoas que possuem excelentes qualidades de alma e coração e que portanto mereciam um interminável lua de mel e um risonho futuro, por parte da noiva, o sr. Luís de Andrade Vilares e esposa D. Maria de Andrade Vilares e por parte do noivo o sr. Fernando Pinto Homem de Almeida, que exibiu procuração passada pelo Dr. Joaquim Emílio Pinto Leite, patrão do noivo, e D. Regina Johnston de Oliveira Jordão.
Querem saber em que consistiram algumas prendas que formavam a corbeille dos noivos? Vou contar adiante, pois recolhi esses dados no jornal O Badalo, de 12 de Novembro de 1916, que noticiou o casamento na terceira página, a três colunas. Os tempos não eram de grande desafogo, acalmia político-social e prosperidade. Na Rua do Godinho, em Matosinhos, vivia uma família de pescadores que ocupava o passeio com roupa a corar, lenha e caruma, chegando mesmo a vir, com a sua pouca educação, fazer para ali a limpeza da cabeça. Que o digam ainda as dificuldades de vida na Creche, aonde o menino Tomás Alves Junior, filho do Sr. Tomas Alves, conceituado arrendatário do Central Hotel, de 1ª ordem, com magníficos aposentos, confortáveis e higiénicos, sito na Rua Brito Capelo veio, mais uma vez, trazer um pacote de cascas de ovos. Este facto, tido por muito meritório, embora na linha de um pedido público, mereceu destaque no referido O Badalo, semanário de Matosinhos, que aliás foi o fundador da dita Creche (protectora da infância e pobreza local, inaugurada a 16 de Setembro de 1916). Estas cascas de ovos, eram aplicadas a conselho médico, como medicamento às criancinhas. Portugal, havia pouco, era uma República e a Europa estava em plena e devastadora guerra, há mais de dois anos. Em 1915, partiram de Lisboa para Angola contingentes expedicionários, para fazer face a ataques de tropas alemãs. Notícias que chegavam por telégrafo, davam conta de que indígenas, na região do Cunene, se haviam também revoltado contra os portugueses. Esta perturbação, não era menor que a causada pelos boches. Temia-se, por um lado, que uma aparente retirada dos alemães de Angola apenas visasse por em marcha um plano para por cobro à soberania portuguesa. Os nossos soldados embarcavam em Lisboa, na Ponte do Arsenal, com a missão de conservar em mãos portuguesas as tão cobiçadas possessões africanas. Aliás, soube-se que em conversações havidas em 1913 entre a Grã-Bretanha (nosso fiel aliado?) e a Alemanha, se colocara sobre a mesa a hipótese de partilha das colónias portuguesas. A Alemanha declarou guerra a Portugal, no desenvolvimento do pedido feito pelo nosso fiel aliado britânico para requisitar os navios mercantes alemães refugiados em portos do Continente, Ilhas e Colónias. Portugal também tinha interesse nesta operação, pois precisava de navios para o seu comércio internacional e com o ultramar. Entre Fevereiro e Julho de 1916, o governo republicano requisitou setenta navios alemães e dois austro-húngaros acostados em portos nacionais. Portugal entrava formalmente no conflito. Em Julho de 1916, foi constituído em Tancos, sob o comando do General Norton de Matos, o C.E.P. (Corpo Expedicionário Português), formado por trinta mil homens para ir combater na Europa (França e Flandres) ao lado da Inglaterra. O Parlamento, pouco depois, votou a (re)introdução da pena de morte em situação de guerra, Lei nº 635, de 28 de Setembro de 1916, no meio de grande agitação nas bancadas, dado isso ter significado a revisão da Constituição de 1911. Era a pena de morte em caso de guerra com país estrangeiro em tanto quanto essa pena seja indispensável e apenas no teatro de guerra. A abolição da pena de morte para crimes políticos havia passado a constar do artº 16º do Acto Adicional à Carta Constitucional (05.07.1852). A partir daqui, a abolição da pena de morte, para todos os crimes, foi levada por várias vezes ao Parlamento, sem ser possível encontrar consenso. Mas em 1867, finalmente foi aprovada uma proposta de lei que aboliu a pena de morte para todos os crimes, com excepção dos militares-Lei de 1 de Julho de 1867. Relativamente a crimes militares a pena de morte manteve-se até ao Decreto com força de Lei, de 16 de Março de 1911, que a aboliu, vindo a Constituição de 1911 a prever que em nenhum caso poderia ser aplicada tal pena. Com redacção ligeiramente diferente este regime veio todavia a vigorar até 1976, dado que a Constituição no artº 24º/2 estabeleceu que em caso algum haverá pena de morte. No centenário da abolição da pena de morte, em 1967 (ainda não se previa o 25 de Abril…) Miguel Torga escreveu que a tragédia do homem, cadáver adiado, como lhe chamou Fernando Pessoa, não necessita dum remate extemporâneo no palco. É tensa bastante para dispensar um fim artificial, gizado por magarefes, megalómanos, potentados, racismos e ortodoxias. Por isso, humanos que somos, exijamos de forma inequívoca que seja dado a todos os povos um código de humanidade. Um código que garanta a cada cidadão o direito de morrer a sua própria morte.
Não sei se o Avô Augusto O. fez tropa mas, seja como for, quando se casou, em 1916, com os seus trinta e cinco anos, já não tinha idade para ser convocado para a guerra. Mas não obstante o ambiente social, o casamento teve um inequívoco toque burguês. Vejamos, portanto algumas prendas. Do noivo Augusto, à noiva Lícia, uns brincos de brilhantes; dos padrinhos da noiva, um envelope com um cheque; da Srª D. Cacilda Augusta Marques, um rico pendantif de brilhantes; da Srª D. Esménia e D. Guilhermina Marques, um estojo de colheres de sopa à Luís XV e uma teia de finíssimo linho; do Sr. Artur Môreda e esposa, um estojo de toillete, em prata; da Srª D. B. Lyvia Môreda e marido, uma manilha de ouro; do Sr. José Adrião da Rocha, uma palmatória de prata; da Srª Condessa de S. Salvador de Matosinhos, um broche de diamantes e pérolas; da Srª D. Maria Percina de Vasconcelos Morais Leite, um estojo com duas riquíssimas garrafas de cristal de cores, com encrustações de prata dourada, e uma manteigueira também de prata; da Srª D. Carminda Guerra e marido, um estojo de toillete; da Srª D. Maria Guerra de Andrade, uma caixa para pó de arroz de cristal e prata; da Srª D. Alzira Andersen, um estojo de colheres para doce; da Srª D. Olsília Andrade, uma pulseira de ouro; da Srª D. Alcina Ribeiro de Sousa, um pendantif de rubis e pérolas; da Srª D. Ema de Sousa, um paliteiro de prata; do Sr. Castro Guimarães, um envelope com um cheque; das Srªs D. Maria Cândida Môreda e D. Maria Isabel Môreda, um estojo de colheres de chá; de D. Maria Augusta Môreda uma salva para copo de água; da Srª D. Maria Antonieta Pinto da Silva, um garfo para conservas; da Srª D. Beatriz de Vasconcelos Trepa e marido, uma palmatória de prata; da Srª D. Clementina Pereira de Vasconcelos, um estojo de colheres para café; da Srª D. Maria Vasconcelos Monteiro, uma palmatória de prata; do Sr. Jorge Fleming e esposa, um solitário de prata; do Sr. Vasco Fleming e esposa, um estojo de colheres de chá; do Sr. Vasco Fleming Júnior, um paliteiro de prata; do Sr. Fernando Pinto Homem, uma caneca de cristal e prata; do Sr. António Costa, uma caneca de cristal e prata; do Sr. Paulo Barbosa, uma salva de prata; do Sr. Arnaldo Fleming, um cofre de cristal e prata; do Sr. Cardia Pires e esposa, uma caixa de pó de arroz, de cristal e prata; da Srª D. Regina Jordão, uma caixa de pó de arroz de cristal e prata, e uma colher de copo de água; da Srª D. Lúcia Johnston, uma colher de copo de água; do Sr. Ismael Adelino de Oliveira (pai do noivo), um par de argolas de prata; do Sr. Ismael Oliveira e esposa, um garfo para conservas; da Srª D. Inês Praça, um estojo de colheres para café; da Srª D. Violante e Srª D. Maria Inês Praça, um par de argolas de prata; da Srª D. Maria Alice e Srª D. Edith Maciel, uma estátua de terracota; da Srª D. Almerinda Carvalho, uma caneca de cristal e prata; da Srª D. Laura Ferreira Guimarães, uma medalha de ouro; da Srª D. Virgínia Rodrigues e filhos, uma saladeira de cristal e prata; da Srª D. Luísa Johnston e marido, uma salva de prata; do Sr. Joaquim Forbes Bessa, um estojo de colheres de prata; do Sr. Francisco Leite de Vasconcelos Pereira, um rico serviço de jantar e outro de almoço e café; da Srª D. Maria Isabel Pereira de Vasconcelos, umas figuras de biscuit; da Srª D. Maria do Carmo Pereira de Vasconcelos, uns brincos de ouro e esmalte; da Srª D. Maria José Pereira de Vasconcelos, uma alfineteira de prata; do Sr. Luciano Oliveira, um lindo quadro; da Srª D. Sofia Oliveira, madrinha de baptismo do noivo, talheres de prata; dos meninos Arnaldo e João Osório, uma colher de copos de água; da Srª D. Estefânia e marido, um talher para doce; da Srª D. Mercedes da Silva e marido, uma colher para pasteis; da Srª D. Emília da Silva Gomes, um cofre de charão com chá; da Srª D. Elvira Leão, um trabalho de pintura e pena; do Sr. Virgílio Neves uma manteigueira de cristal e prata; do Sr. Eduardo Rodrigues um guarda-chuva e bengala com castões de ouro; da Srª D. Lucinda Ferreira, uma alfineteira de prata; da Srª D. Ermelinda Morais Leite, uma colher para molho; da Srª D. Deolinda Amorim, uma escova para cabelo; da Srª D. Maria Branca, aplicações de rendas de bilros; da Srª D. Teresa da Cunha, uma colher para copo de água; da Srª D. Maria Sofia Oliveira, uns naperons de rendas de bilros; da Joalheria Queiroz, as alianças em ouro para os noivos; do Sr. Carlos Johnston de Oliveira, um estojo de colheres de chá; da Srª D. Alexandra Sevide da Cunha, um serviço de linho para jantar; de seus pais, recebeu a noiva um riquíssimo enxoval.
Quando este ano tivemos de desfazer o andar da Foz, aonde vivia a Zica, entre as coisas que me coube, estava uma salva de prata, com um belo monograma, comemorativa dos 25 anos de casados dos Avós Ana e Rodrigo Fleming (18.01.1921), a qual acabei por oferecer à Paula. Registo que também fiquei, com as taças de champanhe em prata, comemorativas dos 25 anos de casados dos Zicos (13.05.1979), o quadro a óleo da Zica (traço Martim Maqueda) que sempre esteve na sala de estar em Miramar e a meias, com o Nuno, umas chávenas de porcelana Vista Alegre, que creio que vieram da casa da Boavista.
Já vimos, num breve apontamento, como corria a vida no meio piscatório de Matosinhos nesses tempos longínquos. E na vila? O gaz de iluminação para fins públicos ou domésticos falhava frequentemente, deixando as pessoas às escuras, a partir das 22 horas. Os valentes pescadores de Matosinhos emocionaram-se ao saberem que na costa algarvia havia sido apanhado um submarino alemão, numa rede de pesca. Ora, com tanta rede para a pesca da sardinha no porto de Leixões, que pena isso não ter acontecido por cá…As pessoas queixavam-se de haver muitos cães vadios pelas ruas e depois da forma como a Câmara Municipal os caçava. Pois não é verdade que o pessoal municipal, tanto apanhava cães na rede, a torto como a direito, nomeadamente alguns animais que vão ao colo de donos ou das criadas? O senhor Aurélio Lima, queixou-se publicamente que, por motivo da mudança de uma fonte que a Exmª Câmara autorizou, quando perto da noite se dirigia para a residência da senhora sua mãe, saiu-lhe ao caminho o Sr. Félix Ferreira, residente em Bouças de Baixo que, com uma enxada, o tentou severamente agredir. O que valeu ao emboscado, pessoa conhecida pela forma correcta como sempre soube conduzir-se na vida (no seu proclamado dizer), foi a presença de dois amigos que, evitaram o pior, um crime de forma cobarde e infame, que este cavalheiro queria praticar.
E como era a moda? Os vestidos não eram tão caídos, como outrora, e assim deixou de ser fácil a um cavalheiro lançar olhares cúpidos e descobrir os segredos do feitio do delicioso corpo feminino, os quais eram impenetráveis como um mistério, o que poderia constituir um tormento. Havia porém boas novidades no calçado, pois o que usavam as elegantes de Matosinhos deixava muito a desejar, na opinião de certos entendidos. A bota começou a aparecer à luz do dia, com toda a sua garradice provocadora. Botinhas, agora feitas por medida, à mão, com arte e esmero por humildes artistas (mas poetas da mais inspirada imaginação), sobre as quais descansam um corpinho donairoso, cujos deliciosos contornos mal se ocultam por entre umas rendas. Uma botinha assim é, por assim dizer, o complemento indispensável do vestuário de toda a bela matosinhense, que se preze.
Como terá sido o namoro dos Avós de Matosinhos, durante muito ou pouco tempo, a marcação dos esponsais, as suas ilusões ou enganos? Não sei, nunca ouvi falar disso lá em Casa, mas possivelmente um namoro sem nada de especial, à moda da época, princípios do século XX, em tempo de turbulência no País, guerra na Europa, não obstante a grande oscilação etária entre ambos. Namoro recatado nos galanteios e com dificuldades, à distância, com algumas cumplicidades, eventualmente num baile, ou numa reunião de família, através de olhares furtivos, discretamente na rua ou até na missa do Domingo, sempre vigiado cuidadosa e afincadamente às ardilosas solicitações masculinas, pela autoridade paternal do bisavô Rodrigo e esposa Ana. Eram estas as normas burguesas, com inequívocos laivos de religiosidade, mesmo entre os republicanos, que segundo o padrão de época se ensinavam às meninas para ascender à categoria de senhoras pelo casamento, evitando comportamentos reprováveis. Sabendo-se que a Família era entendida, no início do século XX, como uma base fundamental da sociedade e com uma missão divina (Deus, Pátria, Família), impunha-se, acima de tudo, a necessidade de educar a menina dentro da sua classe, para desempenhar bem a sua missão de Dona de Casa, de Esposa e Mãe, com asseio, actividade, economia, tudo o que importa ao governo de um lar. Em suma, a educação de uma menina era bem diferente da de um rapaz, tendo em atenção a missão da mulher, que ia recrutar o seu fundamento na teologia moral da Igreja, mesmo entre os menos praticantes. Claro, que neste tempo, como sempre, também existia alguma malandrice. Segundo O Badalo, e ao arrepio deste tom convencional, foi publicado por esta altura, o interessante anúncio: AMA DE PRIMEIRO LEITE PRECISA-SE. PRECISA-SE UMA AMA DE PRIMEIRO LEITE PARA ALIMENTAR UM MENINO MUITO ROBUSTO E JÁ CRIADO. Um menino robusto e já crescido não estava mal! Era capaz, digo eu, de ser algum marmanjão de vinte anos!!!
O Avô Oliveira faleceu em Matosinhos, muitos anos depois, vítima de doença prolongada, na sua residência, sita na Avenida de Serpa Pinto, nº 729, hoje desaparecida, para dar lugar a um bloco de apartamentos, no dia 19 de Dezembro de 1961. Nunca mais esquecerei esta data, estava eu no Colégio Brotero, porque também foi nesse dia que a União Indiana invadiu e tomou Goa pela força das armas, dando origem ao fim do Império Colonial Português.
Foi o Avô Oliveira, até à sua aposentação, Chefe de Relações Públicas do Banco Português do Atlântico. As qualidades de especialista bancário e no comércio, levaram-no inicialmente a ser convidado para abrir uma filial em Lisboa, da Casa Bancária Pintp Leite, aonde o jovem casal fixou residência e onde o Avô Oliveira. Pouco tempo depois, o bom relacionamento com os lisboetas que bem conhecia, tornaram o Avô Oliveira, um elemento respeitado na praça. Mas as saudades dos pais da Licinha Fleming, menina prendada de dezoito anos, a quem tanto queriam, casada com um homem feito e vivido, fizeram-nos regressar ao Porto. Aqui, o Avô Oliveira, passou para o ramo de seguros, ao qual aliás segundo fui algumas vezes ouvindo comentar em casa, nunca se adaptou plenamente. Algum tempo passado, veio a ser convidado para integrar os quadros da Caixa Geral dos Depósitos, na qual atingiu funções de relevo. Anos mais tarde, ingressou na Casa Bancária Cupertino de Miranda, que se viria a transformar no Banco Português do Atlântico, do qual foi também um dos fundadores, e aonde ficou até se reformar.
Usava capachinho (chinó), que retirava apenas para dormir, muito burguesmente colarinhos engomados, polainas no Inverno e, obviamente, como imagem de marca, um chapéu à bancário. A sua competência e simpatia, contribuíram significativamente para o desenvolvimento do B.P.A..
Quando excedeu o limite de idade, o Avô Oliveira refugiou-se na sua casa de Matosinhos, onde a companhia e o carinho da Família, Mulher, Filho, Nora e Netos, aliviaram os seus sofrimentos até ao termo dos seus dias, com 82 anos.
A Avó Lícia, P. V. Fleming teve a biografia referida há alguns anos n’O Comércio de Leixões, publicação centenária dirigida por Santos Lessa, actualmente suspensa, recordando-se ali uma grande Senhora, Esposa, Mãe e Avó, que se dedicou com energia ao social, às Conferências de S. Vicente de Paulo e foi responsável, durante muitos anos, pelo Lar (inicialmente chamado Refúgio) de Santa Cruz, em Matosinhos, destinado à protecção e educação de raparigas desvalidas, preparando-as para a vida, como se dizia antigamente e aonde existe um memorial de mármore assinalando o facto. Num outro semanário de Matosinhos, ainda em vida, foi-lhe feita uma homenagem com a presença da família próxima, no decurso da qual foi sugerida a atribuição de uma medalha de ouro pela sua acção de benemerência. Esta medalha nunca chegou a ser entregue, por entretanto ter falecido. Não foi, tanto quanto me recordo ou sei avaliar, o paradigma da mulher portuguesa segundo um futuro António Ferro, da propaganda da moral pública e progresso da Nação de Salazar que ainda não despontara, mulher-menina, boneca frágil, calma, servil, obediente, passiva, que procurava no marido o apoio paterno. Pelo contrário, recordo-me bem, era uma pessoa de grande calma, não se perturbando, nem comovendo em vão, irradiando no olhar e gesto, paz e segurança ao redor. Sem desprimor, a sua educação de tipo conservador, era fundamentalmente doméstica. Só mais tarde, as raparigas portuguesas começaram a iniciar um percurso escolar, ao nível do primário e secundário, o que aliás consigo não aconteceu, pois não passou do ensino elementar. O grande papel que a Licinha reservou para si, para nosso orgulho de FO’s, foi o de Esposa, Mãe e Avó. Os Avós Augusto, Johnston de Oliveira e Lícia, Pereira de Vasconcelos Fleming, que em 1916 deram origem aos FO’s que hoje somos, foram um notável e exemplar casal, que deixou grande número de amigos, com os quem conviveu e soube manter as melhores relações e respeitabilidade social. As personalidades dos Avós FO, inseridas no tempo em que floresceram, não estão esquecidas, pois ainda hoje continuam a ser recordadas, especialmente por matosinhenses e claro por nós, os seus descendentes FO’s. Admito perfeitamente, mas aqui já estou a divagar, que a Avó Licinha, tendo consciência do passo que a certa altura iria dar, o casamento, ponderou a escolha de um marido a quem e a pudesse fazer feliz, mas ainda na forma de em geral proceder na vida, digna, recta, expressiva e porque não dizer, sofredora, se necessário. E assim foi, com muita gente mesmo fora de casa a reclamar o seu serviço, a que nunca se furtou, por vezes prazenteiramente! Ou seja, sem prejuízo do tempo para as obras sociais (ser útil ao semelhante), um procedimento que apelasse ao espaço doméstico, alguma cozinha (que belos bifes com batata frita lá se comiam, como recordou a Náná) e regras de convivência exterior.
Os filhos do primeiro casal FO, Fernando A., o Zico que deu origem ao ramo FO de Miramar, e Mário A., que deu origem ao ramo FO de Matosinhos, deram-lhes bastantes netos, e alguns bisnetos como a Raquel, a Paula e o Miguel, de cuja presença apenas a Avó Lícia, ainda de boa saúde e que não prescindia de um copito de branco ao almoço, mas só de branco, pôde gozar em Miramar.

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Admito todavia que haja que pense que eu deveria ser já uma peça de museu, pois não troco de telemóvel todos os seis meses, de carro cada cem mil quilómetros, não tenho gps, nem televisor de plasma.
Já passei os sessenta. Isso não é relevante para mais ninguém, salvo para mim ou Aninhas. No entanto, gosto de regressar a momentos antigos, de preferência bem passados e memórias gostosas e doces. Não querendo apenas passar pela vida, com ela dancei pisando-lhe calos, rodopiando depressa, sentindo o vento, salpicando-me com a chuva, aspirando as estações, as primaveras, os verões, os outonos e os invernos…
Um belo dia, a Raquelinha deu-nos uma menina de caracóis e mãos esguias, que transpirava ao chupar sofregamente a tetina do biberão. Aquela menina, sangue do nosso sangue, tornou-se logo no símbolo da mocidade ida, do nosso júbilo e do nosso futuro. O espantoso é que todos desde os pais, aos avós FO’s ou Gaspar’s e tios, se reclamaram de direitos, pelo menos, o seu direito de a amar, ser amado e se rever nela.
Sim, tenho a certeza de que a vida deu à Aninhas e a mim (e falo apenas por nós), a T. e depois os outros dois que se seguiram, como grande compensação pelas mutilações trazidas pela velhice. São três amores novos que temos neste 2006, que vêm ocupar o lugar deixado por quaisquer arroubos ou interesses antigos.
Sim, tenho a certeza que os nossos três netos são melhores que namorados, como diria o Zico se cá estivesse, pois que os calores da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.
Nem tudo são flores, no nosso caminho de Avós. Há, acima de tudo, o entrave maior, os grandes rivais dos avós como nós, que são os respectivos pais. Não importa que esses pais, sejam a filha ou o filho. Não deixam por isso de ser os pais do nosso neto. Não nos importa que eles, ainda que só com oportunismo, ensinem o(a) menino(a) a dar miminhos e a chamar-nos Minanos. São lisonjas, pensamos nós mesmo assim enlevados, a Aninhas e eu.
No fundo, os pais são mesmo os nossos rivais. Os pais tem todas as vantagens de domesticidade e de uma presença constante. Dormem com eles, dão-lhes banho, e comida, aturam as birras, limpam-lhes o tútú ou levam-nos a fazer chichi, vestem-nos, embalam-nos de noite se ou quando têm pesadelos com a presença de maus.
Contra si tem porém a rotina do dia a dia, a obrigação de ouvir as veementes reclamações, de educar e o grande e inalienável ónus de castigar. Mas…
Já nós, os avós, não temos (não tenho), não queremos (não quero), nem podemos (não posso) ter, direitos semelhantes, oferecemos (ofereço) a sedução da novidade do fim de semana, muitas vezes nos Montes, aonde existe um espantalho para afastar a D. Birra. Moramos noutra casa e noutra terra. Trazemos presentes. Fazemos coisas não programadas. Levamos a passear, e não ralhamos nunca. Deixamos os meninos lambuzar a cara com gelado, mexer na terra com as mãos, sujar a roupa, afugentamos os pesadelos e os maus façanhudos. Não temos pretensões pedagógicas, que deixamos aos pais. Não nos incomodam as rabugices encarniçadas, mesmo com o volume no máximo, que parece uma melodiosa peça de Mozart.
Somos confidentes das horas de algum ressentimento, o último recurso dos momentos de reclamação, das soluções miraculosas para as situações insolúveis, ou de opressão psicológica (?), os aliados nas crises de rebeldia juvenil. Umas férias passadas em nossa casa longe dos pais, é uma fuga à rotina, tem os encantos de uma Aventura dos Cinco. Na nossa casa, não há linha divisória rigorosa entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina doméstica diária. Dormir sem ser obrigado a lavar os dentes, recusar a sopa, meter o dedo no copo de vinho, destruir revistas, esconder coisas, riscar uma parede e depois dizer que não fui eu, ou foi sem querer, não foi Avó?, entornar água no chão, puxar o rabo ao minicão da Tia Paula...
Fazer uma birra e em vez de apanhar um oportuno tabefe, ir para os braços da avó Aninhas, e lá escutar a defesa sobre os perigos e os erros da educação moderna... entre as fungadelas dos pais.
Dizem-nos que no reino dos céus, o cristão vai beneficiar de requintados prazeres. Porém, nenhum está acima do que é entrar na loja do chinês, de mãos dadas num neto caprichoso que não quer desmontar da mota para satisfação do dono e gáudio de populares que se juntaram à porta para assistir à cena. E, ainda recordo, como a Aninhas e eu, nós avós bem-aventurados, tínhamos orgulho em passear na rua a nossa T., de ver os outros morrer de inveja.
Creio poder dizer que sempre houve um tácito entendimento entre os Minanos e netos, mesmo na hora em que os pais castigam, e quando eles olham para nós, sabendo que, se nesse momento não intervimos abertamente, pelo menos lhes damos solidariedade…
Até há coisas negativas que se podem virar em sorrisos, como quando aquela jarra de cristal pintado se quebrou, porque o menino bateu nela com uma bola que chutou. A Aninhas e eu somos capazes de dizer, com o ar mais aliviado, se não agradecido pela maré, que ainda bem ninguém se magoou, pois a culpa foi mesma da bola, não foi? Era apenas uma bugiganga com cem anos, não existe dinheiro que a pague. Para da próxima vez espantar a D. Culpa, já mandámos fazer um eficiente espantalho, que se encontra nos Montes, sempre pronto a servir.
Tanto quanto sei os Mandamentos, dos cristãos romanos, ortodoxos, presbiterianos, calvinistas, judeus, muçulmanos, monárquicos ou até republicanos, são dez, leis imemoriais criadas para reger a relação dos seres humanos entre si e com as coisas. Peça central da nossa cultura ou forma de pensar, para materializar as ideias em pessoas, ou emoções, a síntese dos Mandamentos é amar e ser amado. Nesse desenvolvimento, amar e honrar os Maiores, é um preceito de comportamento, correlacionado com a vida em sociedade e família.
Mas, a tradicional pirâmide das relações sociais virou do avesso no último século. Antes, nunca houve dúvidas que a pater-maternidade era a forma perfeita de amar e ser amado. Cheguei a esta conclusão há muito tempo, especialmente em Alcobaça, não por ser Alcobaça como é manifesto, ao analisar as interacções entre ancestrais e descendentes, aqueles que nunca morrem (os Zicos, a D. Ana e o Dr. Amílcar), estes (a Raquelinha, a Paula e o Miguel) que para a Aninhas e para mim nunca crescem devidamente.
Dentro da estrutura cultural de que falo, ser filho é um passo entre o nascimento e a independência, que permite um dia o saber fazer. A criança é um pestanejo na história de uma família. A feitura dos mais novos começa obviamente na gestação e continua pela vida dentro, na transferência de habilidades e técnicas que permitem entender as palavras, os conceitos, as relações adequadas e necessárias, a evitar ou a alimentar.
Ser filho, é parte extra-uterina da procriação. Mas tão só numa perspectiva material. Há um dia em que o mais novo opta, pelo seu estilo de vida e define actividades não pensadas ou desenvolvidas no seu anterior grupo doméstico. E, se usar a gentileza e emotividade, manipulará muito graciosamente os mais velhos para dentro das suas ideias ou imporá o seu sentir e pensar, definindo nesse momento o termo do nascimento e a libertação das reduzidas definições familiares. E começa, separado dos seus ancestrais, a ser adulto.
A coabitação de gerações nunca foi fácil, mas disso nem a Aninhas nem eu, nos queixamos. Mal começaram os meus meninos a aprender a optar (saíram cedo de casa para ir estudar no Porto ou Lisboa), a amar e ser amados fora do lar, a casa ancestral de Alcobaça passou a ser um sítio de passagem e as opiniões da Aninhas e minhas, cantigas de Santa Maria...
O amor do mais novo não é comparável ao do adulto ainda jovem. O mais novo, tem a paixão e o calor que os seus adultos um dia tiveram. O mais novo ama com o corpo, sente, não pensa. Avança sem reparar nas consequências. Jura lealdade, mesmo ao Pai ou à Mãe, que não sabe se pode ou deve um dia manter, até chegar a outro compromisso.
Lentamente, com a sua inteligência e bom senso, define as formas de agir para converter o seu novo mundo numa actividade que se adeque aos seus objectivos e necessidades. O agir jovem é ousado e aponta aquilo que os velhos, como nós, deveriam"fazer. Deveriam!!!, para não ficarem limitados aos dissentimentos acumulados nos anos de vida com os mais velhos. Esses que eles não querem ouvir, têm agora os seus, aprendidos com a sua própria sabedoria e não o saber do mais grande, um saber alegadamente obsoleto, que precisa de ser evitado.
Se o nascimento dos filhos acaba no dia da sua emancipação, a infância do adulto começa nesse dia.
É hábito, necessidade?, dos mais antigos dar lições aos descendentes, sejam eles crescidos ou já não. Reconheço, em mim, esse vício junto da Raquel, Paula ou Miguel. No que diz respeito, ao Nuno G. só vou dando opiniões jurídicas e já com algum receio. Tenho observado muito benevolentemente a atitude dos meus meninos, ao manifestar uma aceitação parcial, com dia e hora marcados, para continuar a agir com liberdade dentro dos seus novo e nosso antigo grupo familiar. Toca ao adulto saber ver, ouvir e calar. Passa-se a ser filho dos filhos. A aceitar as suas recomendações e as suas imposições, especialmente no que diz respeito à privacidade e à criação dos rebentos. À nossa frente, muito concretamente não o esquece a Aninhas, há uma outra família que, ainda que com origem em nós, é um grupo diferente, para os quais o saber e as nossas experiências, podem não fazer sentido, especialmente na comunicação com a terceira geração.
Eis que passamos a ser filhos, mesmo inadvertidamente, na observação da linguagem, objectivos e comportamentos, dos seres que criamos e, que, natural e culturalmente, um dia também são adultos e pais como nós.
Daí o antigo Mandamento, virado hoje do avesso:
Honra os teus filhos, sê submisso a eles para ter uma longa vida na terra e cumprir as responsabilidades primordiais da família.
No próximo ano, vou fazer sessenta e dois anos, e num passo um pouco menino, algo trôpego e desajeitado, incapaz de dar um chuto na bola, gostaria de continuar a poder ir andando de mãos dadas com a Aninhas ou os netos, procurar musgo para fazer um presépio ou uma cascata joanina, ou numa noite sem nuvens, redescobrir a estrela de cada um. Falo muito do tempo de ontem em que se faziam universos, tinha os braços protectores dos Pais, mas quero ser ainda do de hoje e se possível do de amanhã. Mas escrevo umas patacoadas (livros, artigos?), plantei árvores no pátio da casa e tenho três filhos. Já fiz algo, muito do que queria fazer.

5)

Vou contar uma história, que mete um(a) oliveira, e que aprendi há muitos anos quando vim para Alcobaça. Quem a contava, era o velho Sousa P., de Aljubarrota, que no tempo do Dr. Magalhães passava pelo escritório, para pôr a conversa em dia, como dizia.
Numa manhã de Domingo, um senhor juiz, homem sessentão e com boa situação na vida, passeava a cavalo, ali pelos lados da Serra d’Aire e Candeeiros, quando deparou com um camponês, ainda mais velho que ele, que plantava uma oliveira.
Do alto do seu cavalo, quis saber se o camponês ainda pensava vir a saborear o fruto dessa árvore, que demora uns anos a dar a primeira colheita.
O velhote, levantou-se em sinal de respeito, tirou o barrete e disse:
-Meu senhor, se ainda estou vivo, é porque me alimento do que outros antes de mim fizeram e plantaram. Portanto, planto uma oliveira como eu (o seu nome era Oliveira), para que os meus filhos um dia possam comer dela.
O juiz gostou tanto da resposta, que premiou o camponês com uma moeda. Enquanto este guardava, a moeda na algibeira, abriu-se num sorriso e comentou que, notável foi a rapidez com que a oliveira começou a dar seus frutos.
O juiz voltou a apreciar o comentário do camponês e deu-lhe outra moeda. Tão contente ficou o velhote que levou as mãos em direcção ao céu e disse:
-Meu senhor, o mais admirável desta árvore foi já ter sido capaz de dar duas boas colheitas no mesmo ano.
O juiz mais admirado ainda lhe deu outra moeda. Mas antes que o meu homónimo e bibaço Oliveira reagisse, retomou o caminho rumo
ao seu destino.
Um dia, o Zico estendeu as mãos//Para o nada e fez-se espaço.//Um dia, a Zica estendeu as mãos//E fez-se o encontro.//Um dia, o amor tornou-se vida //Das suas vidas e eu existi.//Mãe, o céu sem limites, revela-me o teu amor//A vastidão do mar, //Fala-me da tua bondade,//As agruras, reflectem o teu heroísmo,//A beleza da flor, orienta o teu caminho.

Tudo isso encerravas no teu enorme peito,//Silenciosa, serena,//Continuaste a labutar no quotidiano da vida.

Um dia o amor se tornou vida,//E eu existi.//Um dia partiste//E eu fiquei.//Obrigado Ziquinha,//Até sempre.
FALANDO SOBRE A FAMÍLIA


UM SARAU ROMÂNTICO EM MATADUÇOS

Fleming de Oliveira

Fomos mais uma vez a Mataduços. Em casa do Domingos e da Biquica, há calor e normalmente sol. Desta vez, o almoço, que belo lombo de porco assado foi servido pela Biquica, que nem o da Carminda ao domingo, acompanhado de entrada por um Valdoeiro, das Caves Messias da Bairrada, de que aliás só havia duas garrafas, guardadas pelo Domingos para os grandes dias, foi o aperitivo para uma soirée musical, no melhor estilo de um romântico Salão da Marquesa de Alorna, música do no coração, como é apanágio agora do Grande Auditório da Mataduços.
Teve a Família FO, o grato privilégio de assistir ao concerto de Apresentação Mundial do Trio MarTeLeo, integrado pela Mara no violoncelo, Teresa P., na viola 1 e Leonor P., na viola 2. Querem saber qual foi o Programa?
Courante 1 (correntxl)………………………………………….………….……………………….de Michael Praetorius
Courante 2 (correntxl)…………….……………………………………………………….……….de Michael Praetorius
Ut (utxeh) Re Mi Fa Sol La……….…………………………………………………………………...de William Daman
Trio in F Major…………………………….…………………………………………………………….…….de C. P. E. Bach
Sonata à 3 Dessus
Fuga………………………………………………………………………………………………………………..Antoine Dornel

O trio das meninas, [FdO1] foi acompanhado ao piano pela Profª Florence Lobo e à Flauta Tenor e Flauta Baixo pelo Prof. Pedro Bento e, muito atentamente, pelo Domingos e Biquica. A Biquica teve necessidade de prevenir, os FO’s incautos, que algumas peças apresentadas tinham vários andamentos e que só se batem palmas no fim. Mas o entusiasmo dos FO’s era tanto, que por vezes alguém se descuidava…, como a Inês.
A Família FO gostou tanto do sarau, que não se importaria nada de repetir a sessão…, mesmo sem almoço.
Ouviste Domingos ou estás distraído?
Pedi ao Domingos umas informações sobre esta reunião. Como vos surgiu a ideia?
Um belo dia, os telefones tocaram em casa dos vários membros do clã. Do outro lado da linha, a voz sempre canora da Tia Bikika, a convidar para um almocinho familiar. Mas, a que propósito?
Bom, convenhamos que para reunir a família todos os propósitos são bons. Mas… nem era Natal, nem Páscoa, nem festa de aniversário. O mistério surgiu e os alvitres foram congeminando razões para uma surpresa não adivinhada. E uma das tias arreou o acanhamento e afoitou-se: Ó Bikika, tu estás grávida?... Bom, tudo era possível e o segredinho não era para menos. Mas a gravidez era outra. De facto, a Família de Mataduços ia dar à luz …mas era um concerto… Era intérprete o trio MarTeLeo (Mara em violoncelo, Teresa e Leonor em viola de arco), com a colaboração de Florence Lobo (mãe da Mara) em piano e de Pedro Bento (marido da Florence) em flauta de bisel.


Isso foi a música. E agora o que me dizes de coisas importantes como o almocinho, Domingos?
Depois de um lombinho de porco estufado no forno, regado com uma pinga da Quinta de Valdoeiro, reuniu-se o público, como se fora a toque de campa tangida.
E o trio MarTeLeo puxou do profissionalismo que do Conservatório vai respingando e … vamos a isto, com garbo e arreganho, sem deixar créditos por mãos alheias. Por entre as arcadas dos três instrumentos de corda desfilaram, em primeiro lugar, duas pequenas peças de Michael Praetorius, com o reforço da flauta de bisel baixo. Seguiu-se Ut-re-mi-fa-sol-la, de William Daman. Finalmente, o jovem trio acrescentou ao deleite do repasto, a saborosa interpretação de uma sonata de Carl Phillipp Emmanuel Bach. Vergado à insistência acalorada dos aplausos, o promissor trio contemplou tão selecta assistência com um encore.
Eram 16.45 horas do dia 12 de Novembro, do ano da graça de 2005.



[FdO1]
A ESCOLA PORTUGUESA
A USALCOA, um caso diferente


Fleming de Oliveira


No meu tempo de menino, tinha a ideia que a Escola era agradável e até risonha, não obstante o Senhor Professor, de vez em quando, fazer um ar muito carrancudo e dar uma palmadas, com a menina dos cinco olhos.

Não sou saudosista, nem tenho por hábito recordar o passado como os bons velhos tempos, outrossim, prefiro brindar ao futuro.
Como é evidente, mesmo os bons tempos, têm alguma carga de menos bons tempos.

Quando já se viveram alguns anos, acrescentamos ao prazer de estar por cá, o óptimo prazer de rememorar o nosso crescimento.
Somos capazes de olhar o passado, de perceber um pouco o que nos moldou e descobrir a génese da nossa forma de estar.

A Escola sempre me interessou e preocupou, não só por lhe ter dedicado muitos anos como aluno, e pelos filhos, mas também por continuar a estar todos os dias presente na minha vida familiar, através da Mulher.

Cada vez tenho mais a ideia de que a Escola não pode ser estática, tem de ser tanto ou mais didática no sentido de ensinar matérias curriculares, mas de preparar para a vida, educar e instruir, dialecticamente as pessoas, de forma crítica e racional.

Estamos em Democracia, em Liberdade, e logo vem aligeiradamente à mente de alguns menos preparados, infelizmente por falta de escola, que ser livre é fazer o que se quer, que a escola é um depositório de meninos, cuja missão principal é dar-lhes um dia um canudo.

Numa Escola, tem de haver regras, deveres e direitos, princípios orientadores, sem os quais nunca será possível atingir os seus objectivos.

Se a Escola se propõe educar, instruir, estes são objectivos que dizem tanto respeito aos professores, educandos, encarregados de educação, funcionários, sociedade em geral.

Numa escola, têm de ser observados códigos de conduta, sejam eles apelidados de deontológicos ou morais.
Modificáveis é certo, de acordo com o tempo, mas sempre numa base fundamental de respeito, responsabilidade, colaboração / solidariedade.
A escola tem de ter uma entidade superior, que se poderá chamar Conselho Directivo, Reitoria ou Ministério, cuja missão é zelar pela prossecução do seu objectivo.

Quem ensina é o docente, quem aprende é o discente, o educando.
Quando a escola falha, a culpa é de todos, e assim o que era bonita escola deixa de o ser.
Os alunos não gostam de aprender, os professores não gostam de ensinar, os encarregados de educação não gostam de educar, os funcionários não gostam da escola.

A que propósito vem estas vagas considerações sobre a Escola Tradicional?
Os jovens de hoje em nada são iguais aos que o eram há cinquenta e mais anos atrás.
Mas seja em Lisboa, Porto ou Alcobaça, hoje ou ontem, continuam a ter um grande denominador comum, querem amor, sexo, carros, dinheiro, moda e sucesso/estatuto.
A sua cultura é todavia diferente, não digo que menor ou menos valiosa, mas recebem-na de forma diferente.
Até à adolescência vivi sem televisão, li mesmo à noite muitos livros uns que percebi, outros que não percebi, para os quais não estava preparado.
Mas todos eles faziam parte daquela cultura bem burguesa, que era a da minha casa, a dos meus Pais.

Esta nossa escola a USALCOA também é diferente. Aqui não entram nem os métodos antigos ou os modernos, por isso não os comparo, o mal estar ou a tristeza, esta só por causa da idade, não se pretende mais formar cidadãos, dar diplomas, mas quando muito dar-lhes algum complemento, que sirva mesmo assim para ajudar a sua cidadania e a reforma….

Falar de Escola, é falar de poesia.
Parece-me que hoje existe uma certa vergonha, será apenas pudor?, de dizer versos. Antigamente, decorávamos, para declamar, a primeira estância de OS LUSÍADAS, e essa melopia, bem ritmada, deixou-nos um espaço de reflexão aprofundado, e que mais tarde, depois dos 40 anos, fui recuperar e levar, mundo fora, com alguma emoção, no Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra, na sua identificação com o Portugal de sempre, em Macau, gruta de Camões, África do Sul, Cabo da Boa Esperança ou Brasil, Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. Por via da poesia, não necessariamente épica, tenho tentado alcançar um utópico-sublime, transformando esses princípios elementares de cultura e educação, em algo duradouro e invisível para muito mortal, eventualmente mais novo, que vai além do óbvio de todos os dias.
FALANDO SOBRE A FAMÍLIA


PAIS, AVÓS, FILHOS E NETOS…

Fleming de OLiveira

Antigamente, na Casa de Miramar, o Dia da Mãe era a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora. Mesmo quando se decidiu mudar a data, continuamos a ter o nosso Dia da Mãe, a 8 de Dezembro e assim o comemorávamos até ao fim, sob a batuta do Zico. Que pena tenho de não poder falar mais com a Zica…, nunca é altura para poder deixar de falar com as Mães, mas posso ao menos falar com a Aninhas, que não é a minha, mas a Mãe dos meus filhos.
No que diz respeito à Zica, nunca deixou de me imaginar como um bebé, tanto mais que nunca me chegou a ver doente. Na cama onde se encontra e de onde não mais sairá, será sempre uma presença, um norte e um raio de luz, embora eu arranje por vezes pretextos para fugir à complexidade de certos desafios que a vida lhe apresenta. Da Zica recordamos nós com saudade, os filhos e os netos mais velhos, belos e interessantes momentos.

A Mãe gosta mais da P. e do M.! A Mãe gosta mais da R. e do M.! A Mãe gosta mais da R. e da P.! A Mãe gosta mais deles do que de mim! A Mãe gosta mais do D. que do L. e da T…
Conheço bem esta ladainha e não fico impressionado, embora agora a veja renovada na nova geração. Admito que, a seu modo, cada um dos meus filhos, netos agora, gostaria, sem que daí lhes impute egoísmo, de ser o único e o favorito. Embora dando-se bem entre si, creio que adorando-se mesmo, se utilizam este argumento em desespero de causa, é porque sabem ou supõem que cala lá fundo da Aninhas. Não creio ser necessário dizer que, dos três, a Aninhas não gosta mais de um que de outro. Sei bem quanto esse argumento a atinge, apesar de também o saber injusto mas, mesmo assim, dá-lhe logo vontade de chorar, porque como Mãe, há sempre no seu espírito o receio de alguma vez poder suscitar uma réstia de dúvidas, dado nunca ser possível tratar todos por igual. Afinal, eles são diferentes, surgiram em momentos diferentes. Como é que poderíamos ter um filho favorito, pergunto eu ainda que só retoricamente, sem prejuízo de reconhecer que o relacionamento com um, é necessariamente distinto do outro?

E os Avós (homens), o que pensam e sentem sobre este assunto? Poderia também responder que não tenho nenhum neto favorito, o que não quer dizer que não assuma a diferenciação entre os três. Confesso, porém, que tenho a minha neta preferida, como nunca escondi e sempre disse. Isto nada tem a ver com amor, pois isso nem se põe em causa. Não me concebo, daqui em Alcobaça, sem ter de vez em quando a minha T. preferida, pois que se há alguém a quem devo muito depois de gostosos dias de convalescençano quarto, é a ela. É a menina mais meiguinha (por vezes) que existe, a mais dócil (por vezes) e menos egoísta (por vezes), pondo os Minanos sempre em lugar dianteiro (por vezes), pelo que criamos desde sempre suponho uma recíproca relação de confiança. A minha T. tem algo que acho importantíssimo, abraça muitos dos mesmos valores, gosta das mesmas tradições e causas familiares que nós e de uma forma que sei mesmo que fazem parte dela. Não quero ser injusto, mas a identificação com a T. parece-me, por vezes, mais fácil que com a R., P. ou M., os netos rapazes ainda são bebés, o que me leva a correr o risco de, doravante, me começarem a apontar o dedo, em ar de censura por descriminação. Será por isso que, nos eventuais defeitos da T., eu só vejo virtudes, será por me parecer que ela é mesmo parecida com os Minanos, que sou mais tolerante? Preferida ou não, gosto de lhe dar mimo, de a sentar ao colo (o que já vai sendo raro), afagar-lhe a cabeça, falar-lhe, sem que conscientemente lhe peça mais que receber um pouquinho de mimo. Não sei o que a vida nos irá ainda proporcionar, as pessoas mudam, as circunstâncias aproximam-nos ou afastam-nos, pelo que se um dia a T. em vez de ser a doutora maria joão, quiser ser cabeleireira na Figueira da Foz, irá faze-lo sem rupturas.

Muita gente pensa em Avós mais como sinónimo de um cais para navios em riscos de naufragar, de que pessoas vivendo uma determinada fase da vida, possivelmente com menos certezas e mais angústias, em suma, como diria redundantemente o meu antigo psiquiatra de Gaia, com mais crise do que outras idades. Muita gente também pensa que, a instituição avós, está em risco de desaparecer. Não creio, pois é uma honra indestrutível, embora admita que tende a transformar-se, como muitas outras, de uma sociedade em transição. Se tenho pouco voz política e social, não queria também perde-la na Família (nem nos meus irmãos), enquanto puder contar histórias, recordar tempos idos, mesmo com reconhecida falta de rigor, prolongando o que puder ser prolongado nos vindouros, o que se foi esgotando nas gerações precedentes.
Vocês podem ensinar-me a viver com os pés assentes na terra, e eu ensino-vos a voar.
Vocês ensinam-me como defender o coração, e eu como ele pode ser aberto sem se perder.
Vocês ensinam-me a deixar de ser exagerado e pouco sincero, e eu ajudo a serem mais condescendentes com os outros.
Vocês dão-me um pequenino mimo e eu se pudesse daria a em troca uma noite de lua cheia diferente de todas as que já houve!!!.

Há uns tempos colaborei com a T. num trabalho de casa, dedicado a Almada Negreiros. Dias depois, li estes seus versos que não resisto aqui citar e que gostaria de dedicar à Zica, gasta pela doença e por não sei quantos filhos, a quem devo muitos carinhos e a que nunca me mostrei inferiorizado:
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!
Mãe!
Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede!
Eu prometo saber viajar.
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe!
Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Como a mesa.
Mãe!
Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Mãe!
NÓS, OS JURISTAS ROMÂNTICOS

Fleming de Oliveira

.Por conviver, lado a lado, com os lados melhor e pior das pessoas, a advocacia é uma actividade que muito toca os que a exercem. O privilégio de comunicar directamente, ouvir as queixas, aconselhar e até dar palavras de esperança, transforma o Advogado num observador excepcional e experiente.
Quem não percorreu este percurso, que assume especial relevância fora dos grandes centros urbanos, dificilmente compreende a magia de perceber algumas complexas reacções humanas.
É essa condição que tem conferido à advocacia, ao longo da História, a dignidade de comunicação, em muitos casos com a complacência, se não mesmo com oposição do poder autoritário, que nunca consegue retirar o lado sombrio da sua postura política.
Quando se diz que a vida de advogado não é fácil, não existe exagero, nem presunção contida. Os que voluntária e conscientemente optaram pela advocacia, como foi o meu caso (mais na barra) e do N.G. (mais consultiva), devem estar preparados para uma vida de espinhos, no meio de incompreensão, os maus modos ou a impertinência de outros agentes. Se fossemos todos funcionários públicos, haveria justiça N.G.? Sempre entendi que a advocacia é bom comportamento, civilização e ética, pelo que tive o cuidado de jamais subestimar ou desprezar o saber de um colega no exercício da profissão. Mas vou notando, com desencanto, o número de profissionais do foro sem princípios, que esquecem regras basilares decorrentes do Estatuto. Com esses sim, tenho dificuldade em manter-me civilizado.
Estou convencido que a aprendizagem de histórias extraordinárias, recolhidas no recato de um gabinete onde o pormenor é decisivo, contribui para desenvolver o pendor literário de alguns juristas, senhores de uma prosa e estilo literário de correcção ímpar. O advogado, que se preze, é o exemplo acabado de quem precisa de saber manejar a caneta, agora o computador, para fazer valer as suas ideias, tal como os princípios que norteiam o Estado de Direito Democrático. Com essa arma poderosa, num pulso forte e com uma boa carga, como acontecia com a velha BIC, muito pode o jurista fazer pelo País. Desenvolver um bom combate, pode começar por ser capaz de manejar bem, muito bem mesmo, a caneta no dia a dia. Brincando com este ideia, diria parafraseando um amigo meu da escola de Coimbra, que os advogados deveriam ter direito a porte e uso de caneta
Quando há cerca de 30 anos regressei da Guiné e iniciei a advocacia em Alcobaça, no escritório do Dr. Magalhães, conheci um colega muito bem disposto e brejeiro da Nazaré, que me sintetizou o que era ser advogado de província. Registei e agora, com a devida vénia, vou invocá-lo.
-Trabalhamos em horários estranhos;
-Pagam-nos para fazer o cliente feliz;
-O nosso trabalho vai para além do expediente;
-Somos pagos para realizar as ideias do cliente;
-Os nossos amigos distanciam-se e só andamos com outros iguais;
-Quando vamos ao encontro do cliente, temos que estar sempre apresentáveis;
-Mas quando regressamos, parecemos saídos do inferno;
-O cliente quer pagar-nos sempre menos do que deve e espera que façamos maravilhas;
-Se as coisas dão errado, a culpa é sempre nossa;
-Todos os dias, olhamos para o espelho e pensamos
NÃO VOU PASSAR O RESTO DA VIDA FAZER ISTO;
Em suma, somos como as (…), profissão duvidosa, alternativa ou o que lhe quiserem chamar.
A minha experiência profissional, ajudou-me a entender que o conceito de cultura, vai muito para além do do agricultor (cultivo e amanho da terra), sem desprimor para este.
O conhecimento da História, foi assunto particularmente exigente na formação dos estudantes do meu tempo e depois dos profissionais do foro.
Os românticos e a nova burguesia esclarecida, juristas incluídos, viveram activamente, nestes últimos dois séculos, os movimentos revolucionários, nos quais deram vazão ao espírito militante e aventureiro.
Em França, as revoluções do século XIX, contaram com o apoio de escritores e juristas.
Em Portugal, o movimento iniciado em 1820 e prosseguido pelas lutas liberais, opôs a burguesia progressista, com muitos juristas da Escola de Coimbra, à aristocracia conservadora, imobilista e passadista.
Foi neste terreno que germinou o espírito do romantismo, sendo Garrett e Herculano, como outros exilados, pioneiros e expoentes combatentes da liberdade. O romantismo foi, no gosto pela aventura e novidade, uma época de exageros que cultivou o lado sombrio da vida, ao qual os seus intérpretes deram corpo a muita obra. O romantismo medrou com o desenvolvimento económico e político e terminou com a grande revolução industrial, que após meados do século XIX transformou, a Europa.
O optimismo das convicções revolucionárias dos românticos, não acompanhou o progresso das ciências e das mudanças sociais, mais preocupados com o conhecimento real da natureza e o esclarecimento da verdade.
O lirismo que inspirara e dera forma ao romantismo na sua concepção melancólico-sombria da vida, desvaneceu-se por lhe faltar um suporte e um objectivo, embora admita que, no conjunto, a obra seja formalmente correcta e bela.
Já me tenho interrogado, o que me leva a escrever, ainda que em privado, nalguns casos, de alma nua e exposta. Quantas vezes me fogem as palavras por entre os dedos no teclado, não tenho mão nelas, precipitadas, sem sentido. Bem gostava de saber desta ofício de escrita, mas quando muito cumpro o ritual de as alinhar, na busca de um sentido para o pensamento. Ser escritor, não é, nem pode ser isto. Tem de ser alguma coisa de maior, que permita ao leitor entender a realidade para além da simples aparência, um acertar de coordenadas que permitam levar cabo a vida de um modo escorreito ou pelo menos sem escolhos de maior, navegar sem percalços apesar de não saber o porto do destino. No frio de uma audácia tímida, envergonhada aceito, vou escrevendo, os dedos no computador não param, como o pensamento. Apago, ao que suponho, serem preconceitos e receios, os que a sociedade, a família?, nos martela dia a dia, na sala de estar, no café ou na televisão. O tempo passa fluído, como se fosse um momento só. Sem que se espere, ou o espere, o momento seguinte surge e com ele formas, nem sempre perceptíveis. Vou escrevendo como sei, devagar, tentando saborear os impulsos de conseguir obter, um dia, uma conclusão definitiva, qual alquimia!!!, elaborando-os mais, profusa e insaciadamente.
Não sou obviamente um Camões, nem um psicanalista, mas apelo intimamente a umas musas que gostaria de conhecer que me permitiriam abordar de forma mais interessante figuras, quadros, emoções, esboços, imagens mais ou menos definidas. Li uma vez que as pessoas mais insuportáveis são os homens que se acham geniais e as mulheres que se acham irresistíveis.
Assim me vou vestindo de usado, tendo deste modo uma forma de prazer interminável e imprescindível. Afugento o frio e a fome. Acalmo a dor. Canto, como posso, a alegria se a há de viver e ser avô, e da forma possível.
Mas acima de tudo, ouso neste meu momento de escrever, sonhar um pouco. Por isso, é que a escrita é, para mim, uma tentação.
Utilizo a ficção? Claro, porque em parte tem a ver com a minha escrita, quando se prolonga na procura de um contorno, a metáfora e como forma de aceitar o silêncio. E ao aceitar tacitamente algumas regras de convivência e/ou de exclusão. Por isso, nesta escrita, como tenho dito, não se pode procurar, encontrar uma linguagem puramente literal, transparente por ou para si própria, embora se remeta e aproxime de si mesma, onde o mundo e a vida nascem com e para a palavra, numa indeterminação entre ambas. Para aliviar essa carga, sou até capaz de alguns delírios para abrir mundos, iluminar coisas (que exageros meus…!!!), reacender potencialidades antigas.
Como disse, tenho visto algumas coisas de carácter pessoal e profissional no meu escritório, de conteúdo mais ou menos interessante, ético ou até dramático.
Atravesso, neste momento, um deserto? Admito que sim, mas não totalmente estéril.
Não estou, nem quero estar imune à influência dos outros próximos. Se isso fosse possível, extinguiam-se a História e as Heranças, que tanto prezamos. Em Miramar, falava-se por vezes no Senhor de La Palisse, quando o Zico pretendia salientar uma evidência ou uma redundância. Na verdade, correndo esse risco, atrevo-me a concluir definitivamente que somos influenciados pelo que nos rodeia. André Malraux, que li há anos, e hoje parece um pouco esquecido, escreveu na Condição Humana que são precisos sessenta anos para fazer um homem e quando está pronto para começar a viver, morre.
Falando de pessoas notáveis, e eu aprecio especialmente os das letras, não posso esquecer Sócrates, o filósofo e sábio grego da douta ignorância que considerava que sem esta, o espírito nunca poderia dar à luz. Daí que a dúvida e a disponibilidade para ela, fossem já uma forma superior de sabedoria. Só sei que nada sei!!! Que maior lição de humildade intelectual se pode ainda hoje achar?
A minha reverência ante a lei é antiga, prende-se a algumas recordações da juventude, mesmo anteriores à frequência da Universidade de Coimbra, no tempo em que no Porto ia em Cedofeita, ao então chamado Tribunal de Polícia, assistir a julgamentos e pedir ao bom juíz Quintela uma defesa oficiosa.
Sonhava ser um dia advogado no Porto, sei lá, num escritório como o do Sá Carneiro, na Rua da Picaria.
O chamariz dos advogados que, como o Araújo de Barros, actuavam em casos mediáticos era-me tão irresistível, quanto o anúncio de que a Callas iria de novo cantar ópera no Teatro S. João.
Desde o momento em que pela primeira vez entrei no Palácio da Justiça (cível) do Porto, o chão frio de mármore, os frescos das paredes, as pastas e as togas que pareciam esvoaçar com frenesim abaixo e acima nos corredores e elevadores, presas às mãos dos advogados, o cheiro característico dos livros, papéis e tinta preta que emanava da Secretaria, as placas nos ângulos das paredes, indicando as Salas de Audiências e gabinetes dos magistrados, era magicamente belo e excitante. Via o escrivão a carimbar papéis, cosendo os processos com uma agulha grossa e grande, enquanto muitos outros (ao tempo eram só homens) se encontravam agarrados a uma máquina de escrever, batendo nas teclas com nítida dificuldade e algo dramaticamente.
Li, muitas vezes, descrições do encantamento de crianças que vão ao circo pela primeira vez. Acredito que as suas sensações não se comparam ao arrebatamento que sentia há mais de 40 anos ao caminhar no interior do Tribunal Cível, com o Zico, para falar com o pai do Dr. Miguel Veiga, como muito mais tarde no Foro de S. Paulo, com o saudoso Dr. A. Gonçalves, ou no Palácio da Justiça, em Paris com o L.M.F. ou a A..
No entanto, o mais excitante para mim era a pesada porta que se abria para a Sala dos Julgamentos. Era como um portal místico. Passada a porta, contemplava o advogado cuja fama me lavava até lá e já identificava, pelo menos de vista. Por vezes, parecia aos olhos do leigo, não estar a fazer nada, apenas sentado indolentemente na cadeira. Para mim, no entanto, percebia (supunha perceber) que sua imobilidade era aparente, física, deveria estar mergulhando nos seus planos de acção.
Outras vezes, uma testemunha estava a ser questionada. Observava os demais advogados, também circunspectos, aparentemente indolentes ou distraídos, acompanhava a reacção ao depoimento prestado, via um advogado erguer-se (como que acordar) de repente, talvez, para fazer uma objecção, a boca do juiz a movimentar-se, o advogado a sentar-se de novo.
Às vezes, minha visita coincidia com as alegações, talvez o momento mais empolgante. Adorava ver o advogado a falar de pé na bancada no melhor estilo, óculos na ponta do nariz, o queixo a mover-se, gesticular, empunhando papéis ou uma caneta, via-o respirar fundo, aparentemente a sucumbir ao império da emoção da causa. Quase podia adivinhar algumas palavras que iria dizer, mesmo não conhecendo a causa em discussão. Quando o juiz se inclinava para a frente e redobrava de atenção, sentia que o advogado estava a desenvolver uma argumentação persuasiva. Ao invés quando via os demais intervenientes sentados, à vontade, mostrando desinteresse ou a bocejar (sem ser por razões tácticas), compreendia que o meu advogado não estava em situação fácil.
Quando ousava ainda em jovem, entrar na Grande Sala dos Actos/Julgamentos, tentava guiar-me por anteriores impressões, as palavras ouvidas pareciam-me ainda pairar no espaço. Tudo aquilo era o símbolo de uma prece, como se eu estivesse de joelhos. Algum dia, estava certo disso, eu abriria aquelas portas, entraria na Sala não como jovem, mas como advogado feito, participando da mais alta função social, a Administração da Justiça.
Realizei parcialmente meu sonho, embora não no Porto. Abri as portas de muitos de Tribunais no País, mas a excitação jamais se finou. O desafio era sempre novo. A luta sempre intensa. A surpresa estva presente.
O julgamento era mais que a ruidosa excitação de um combate, mas o palco onde as palavras são armas e a inteligência o principal instrumento de defesa e ataque.
É a busca da verdade. Diógenes, com sua lanterna, seria um bom substituto para o símbolo cego da Justiça. A tarefa do advogado consiste na reconstrução dos acontecimentos passados, aos quais acrescenta fatos persuasivos a favor de seu cliente. Age como o arqueólogo, que precisa pesquisar a exumar velhas provas da verdade. Como pode saber onde procurar e o que procurar? Este é o supremo teste preparatório pois a preparação adequada de um caso a ser levado a julgamento é a chave para o sucesso. O homem estúpido deverá fazer como se fosse inteligente, a inteligente como se fosse talentoso a o talentoso como se fosse genial.
Alguns momentos, que antecediam a sessão de julgamento, eram nervosos, angustiosos e muitas vezes, não obstante a tarimba de uns anos, me senti como se fosse a primeira vez.
Na manhã do dia em que começa o julgamento, todos os indícios são de insuportável trepidação. As mãos ficam pegajosas, o suor acumula-se por sobre as sobrancelhas, as faces ora se mostram pálidas, ora coradas, os olhos avermelham-se, as vozes tomam-se agudas, há um frequente bocejar, os lábios ficam secos e as visitas ao banheiro são frequentes.
É o momento em que o advogado, embora sofra dos mesmos sintomas, embora também seu pulso se acelere, deve incutir confiança ao exército hesitante ao seu redor. Nessas ocasiões, cumprimento os clientes e as testemunhas efusiva, cordial e jovialmente, incutindo-lhes tranquilidade e confiança. Devem contagiar-se com minha serenidade. Agarram-se a isso e daí retiram forças. Em todos os instantes, o advogado deve ser a central de energia, distribuindo-a por todos. Quando consegue criar em torno dele uma atmosfera de segurança, é como se proporcionasse oxigénio, que alivia a respiração atormentada.
Em consequência, também o Júri é envolvido e influenciado pelo ar confiante do advogado e o efeito psicológico por isto causado sobre as convicções é incalculável.
Sempre fui de opinião e a transmiti a colegas mais novos, nomeadamente ao N.G., que um dos erros mais frequentes nos interrogatórios, constitui a tentativa de espremer a testemunha, em busca de uma afirmação valiosa para o cliente. É preciso que haja discernimento para se avaliar se a vantagem supera a risco.
Já vi, uma testemunha desferir um golpe arrasador, que poderia ser evitado, caso o advogado não se apegasse demasiado à tentativa de obter uma afirmação de valor secundário.
Dentro do nosso sistema da livre apreciação da prova, a inquirição de testemunha pode ser a chave do sucesso da causa pois, há um tempo psicológico para o advogado aventurar-se com uma testemunha.
Uma pergunta dirigida no momento em que a resistência da testemunha hostil é vigorosa, pode ser ao fim e ao cabo ineficiente. A mesma pergunta lançada no momento em que a testemunha estiver confusa, e com o moral baixo, poderá provocar uma confissão. O advogado deve ter sensibilidade para sentir o estado de espírito da testemunha que tem diante de si, e variar a técnica do interrogatório, de acordo com as circunstâncias.
Nunca concordei, nesse sentido, com a estratégia utilizada por certos colegas para reduzir, pelo ridículo, a importância das acusações do queixoso ou a argumentação do acusado, cobrindo-as de observações sarcásticas.
Tal estratégia, além de deontologicamente discutível, está sujeita ao risco de pesados contra-ataques. Quando é possível demonstrar que factos foram desprezados pela defesa ou pela acusação, que brincou levianamente com a verdade, a atitude displicente pode ser relevada como ofensiva. Por isso, os arrazoados espirituosos, que desprezam a prova, têm vida precária.
Senhores Juízes, caros Colegas… Um assassino e um difamador não diferem entre si!!! Ambos são criminosos, embora usem armas diferentes.
Quando um utiliza a pena e a máquina de impressão, para destruir o que um homem possui de mais precioso, isto é a sua reputação, abre oportunidade para que um dos nossos Juízes, em sua sabedoria, dê uma lição a esse homem e a outros que o imitam, condenando-o à indemnização punitiva.
Normalmente durmo bem, o que não quer dizer que lá pela meia-noite não adormeça cansado e acorde ás nove exausto e triste. Lembro-me de ler ou ouvir desde pequeno que, nascemos sós e que quando morremos também ninguém nos acompanha na viagem. Os antigos senhores enterravam-se com os escravos para não irem sozinhos. Por cá ou para lá, fazemos os possíveis por não estar sozinhos, até na morte. Solidão é coisa bem diversa, de que me não queixo, é muito mais que passar dias, noites, semanas sem ninguém ao lado. É mais que constatar que, quando ao fim do dia chegamos a casa, não há ninguém à espera. Felizmente tenho a A. Pode haver espaço na cama de casal, mas mesmo assim tenho sempre alguém que está perto e presente com carinho e atenção, que não deixa chorar, nem fugir.
Eu leio e escrevo, sofregamente por vezes, e mesmo quando parece que tenho o coração fechado, ele passa de repente a bombear mais forte no peito cansado, o que me permite, desfolhar o passado, como se fosse um livro aonde não existe mágoa, nem tristeza. Mas se houver resquícios de mágoa, penitencio-me em silêncio, pois não vale a pena incomodar os outros, mais que o necessário.
Gostaria de poder voltar a certos dias de amena primavera coimbrã, a A. e eu cada um com o seu livro a namorar no Parque, os dois com sonhos semelhantes. Sendo isso uma quimera, quero ouvi-la, tocar-lhe, senti-la próximo a descansar junto à TV, se possível com alguns mimos de permeio, viver o dia como se soubesse que ainda há muitos pela frente.
Tenho um enorme receio da doença mental, não por desprezar quem sofre mas, principalmente por ter a ideia que a raia que nos separa da insanidade, não é tão forte ou sólida como as vezes queremos acreditar.
Ultimamente tenho tido informações detalhadas sobre um amigo e colega dos tempos da Faculdade, cujo estado de sanidade muito deteriorado, se tem vindo a agravar irremediavelmente e, como tal determinou o seu internamento, de onde possivelmente não mais sairá.
Depois de muitos anos, em que o meu grupo da Julinha esteve distante, voltou a reunir, em casa de uns e outros. As distâncias separaram-nos fisicamente, uns ficaram no Norte, outros vieram para o Centro e outros fixaram-se no Sul, mas no momento do reencontro, tudo passou a soar como se fosse sempre hoje, um hoje pegado a um ontem incomensurável, onde pelo caminho cabem filhos, netos, profissão, moléstia, uma extensão de lembranças, laços, sentimentos e aventuras em comum. Olhamo-nos um pouco espantados, mas tendo sempre como presente, eterna e consistente, a mesma cumplicidade: Estás mais gordo, careca, ainda não tens barriga, bebes um copo? sais à noite?, etc, etc.
Claro que o tempo e a distância causaram lacunas. Mas nestes reencontros, tudo são proveitos. Não há cerimónias de maior, como poderia haver? Há sempre alguém que mais afoitamente pergunta se, aquele cheirinho que vem da cozinha, é mesmo para nós. Petisca-se devagarinho. Vem logo um(a), bem intencionado(a), sugerir que não haja hoje exageros, nos comes e nos bebes. Temos mais de sessenta e de prestar contas não só à mulher, como aos filhos e aos filhos dos filhos. Encanta-me ver os filhos, cúmplices nestes encontros de jarretas. O N.G. gosta de participar, ver o velho e o novo em uníssono, e releva a aceitação e estima que, depois deste tempo todo, sentimos reciprocamente como amigos e colegas. Ao fim de dois copos, parece a animação ser igual a um festim. As conversas corriqueiras sucedem-se a outras ainda mais corriqueiras, mas são saboreadas como um manjar de marquês, afugentando-se os ares que noutros locais deveriam ser assumidamente doutos, pois a cumplicidade renova-se, como se nunca tivesse sido suspensa.
Assim, sentimos haver o amanhã.
Mas, estas reuniões estão algo comprometidas, porque começam a faltar alguns. Na verdade, assustam-me as manifestações de desequilíbrio ou sofrimento mental, pelos reflexos que têm nos próprios, bem como nos mais próximos.
Admito tentar evitar, mais não seja por defesa própria, os deprimidos, os obsessivos compulsivos, os paranóicos, os bipolares ou mesmo os neuróticos, confessando ser capaz de mudar de passeio, perante alguns casos que conheço, ainda que tão só de simplesmente angustiados, tristes ou falhados. Mas neste caso, isso é impossível. Sei bem que para além do disparado automaticamente tudo vai, tudo está bem, muitas vezes se esconde um enorme sofrimento, incapaz de se traduzir por palavras, pois que existe o risco de se passar a ficar associado a um rótulo difícil de retirar. Ouço aqui ou acolá, queixas de doenças politicamente correctas, como enxaquecas ou úlceras, hipertensão arterial, mas que mesmo para um leigo não são mais que o sintoma de um tipo de angústia que, nem às paredes confesso, e que assusta ao ponto de podermos entrar em pânico, onde nenhum xanax é capaz de valer.
Não admira que, por vezes, a noite nos oprima e esperemos, com o ouvido perto da rádio, longe de uma voz, a segurança que a luz do sol afinal volta sempre a trazer.
Bem gostaria de ser capaz de pôr a mão na consciência, sem esquecer que dentro dela existe uma arrecadação, para onde se mandam um conjunto de vivências amargas, atiradas sem rei nem roque, como tralha para o lixo e supunha esquecidas. Não serão crimes, falsificações, abusos ou outras situações normalmente traumatizantes, mas tão só os desencontros que fazem parte da história da vida. Admito ser esse lixo que povoa sonhos e pesadelos, quando aligeiro a vigilância à arrecadação e que ao cair sobre o peito, me retira o ar.
Trazendo ao consciente esses lixos, bom seria sintetizá-los para que percam o poder de assombrar a vida.
Acontece porém que sendo um ponto de partida, a coragem e a capacidade do auto-conhecimento, não são fáceis de encontrar, tal como recuperar a auto-estima, através de meros e bons propósitos, entre dois pensamentos uns mais animosos, outros mais acabrunhantes. Ao fim deste tempo todo, cheguei definitivamente à conclusão que a vida interior é muito mais complexa do que aquilo que alguma vez fui levado a supor e que, cada um de nós, mesmo assim, só sabe um bocadinho de nada. Nesse sentido, se viver nalguns casos é complicado, ainda mais será viver bem.

FALANDO SOBRE A FAMÍILIA

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA

FESTA/CONGRESSO F.O., EM MONTES-ALCOBAÇA

Fleming de OLiveira

Há muito tempo que tinha vontade de reunir na Casa dos Montes-Alcobaça, todos os FO, ramos de Miramar e de Matosinhos, mas isso não era de todo fácil de concretizar, porque se encontram dispersos.
Este ano de 2005, as coisas conjugaram-se no sentido de se poder demonstrar a importância da nossa referência comum, que se prolongará para sempre, a que não foi estranho, a disponibilidade e labuta da Aninhas, obviamente sem a qual nada feito. Entre outros pretextos, refiram-se os meus sessenta anos, os anos da Paula e o lançamento familiar de AS REGRAS DA CASA (ano 2005), preparado colectivamente ao longo do ano.
Esteve toda a gente, como era desejável, todos se manifestaram antes e depois qual coro oscilante, ritmado e harmónico de cabeças querendo, com tal, gesto manifestar a aquiescência à ideia. Criamos o Livro de Honra.


Claro, aqui, não é mais a Casa.
Longe estão, o som dos passos no soalho de madeira e na escada, forrados a alcatifa, entrecruzados com a melodia filtrada do chilrear, inaudível por força do hábito, enquanto ou quando havia meninos de uma ou outra geração ou o ralhar amável, misturado com o bater das panelas e tachos da Carminda, vindo da cozinha. É uma emoção ter pertencido aquela Casa, onde se partilhavam frases comuns, expressas embora cada qual a seu modo, onde mais que a aprendizagem, o crescimento e a luta pela técnica, foi o despertar dos sentidos, enriquecendo-nos mutuamente e criando os laços que perduram indelevelmente, apesar da distância e de algumas malandrices, naturais, como hoje diz a Náná. Parece-me que tudo aquilo era absolutamente normal e imprescindível da vida, desde a dor, quando havia, porque não?, a alegria, a paixão, a saudade, a melancolia, o afago, a angústia, quando havia, porque não?, o êxtase, com que abríamos o leque da afectividade na maior amplitude, com exuberância comovida nos momentos-chave como quando o Zico fez a última cadeira e acabou o curso de Direito em Coimbra, Pai de seis filhos.

Longe vão também os tempos em que em casa e os bons mestres, nos ensinavam que o melhor critério para avaliar uma pessoa é olhar-lhe na cara.
Esta prosinha vai crescendo no corpo e seguindo em afloramentos algo descontinuados. Pretende, à minha maneira, expressar momentos presentes e passados, recordações de gentes e lugares. Por isso, corre como uma ideia à moda do jazz, isto é, nasce de um pequena melodia que vai ganhando forma nos sucessivos ensaios.

Em tempos como os actuais a desertificarem-se, a amizade ou os afectos, palavras que mesmo assim andam nas bocas do mundo, a propósito de tudo e de mais alguma coisa, a Família, é seguramente um oásis aonde, é possível ainda beber-se de uma pura e feliz convicção.
Parece-me por vezes, nesta altura da minha vida, que os anos, se limitaram a passar, que perdi a capacidade de acreditar no presente e pior ainda no futuro. Dos meus tempos de rapaz, em Coimbra, em que na Julinha ouvia no gira-disco em vinil, com algum respeito, o Jacques Brel, recordo os versos que nos permitiam tomar diferentes barcos, seja um da Fé, outro do Cepticismo, um para Miramar, outro um dia para Alcobaça, Lisboa ou Figueira da Foz, pois cada um de nós, à sua maneira desajeitada, procura um porto.

E tal porto, mais do que um porto de chegada, é um lugar de começos, mesmo que de coisas simples e elementares, um porto de partida.

Quanto a mim, infelizmente suponho que nunca alcançarei esse porto, pelo menos o de chegada, embora gosto de saber que há lá em casa a Aninhas que, na sua enorme Fé, acredita que tal pode ainda acontecer. Se conseguir arrancar, talvez me deixe acordar por uma nova vontade de viver, independentemente da idade! O corpo parou de crescer, a minha importante saúde pode queixar-se de um conjunto de inclemências, mas o espírito será activo, enquanto preservar a música da vida e a riqueza de se sentir jovem.
No meu caso pessoal que tenho alguns problemas de saúde, gostaria de poder continuar a dar certa contribuição ao pessoal menor, dado que a vida é para se viver enquanto se vive e não nos faltam as heranças recebidas, que são a nossa maior riqueza.

A procura de afectos, carinho, comoção, amor, amizade?, ora nem mais, assim é que se fala!, na reunião do nosso Congresso FO, expressão possivelmente pomposa no dizer do Nuno FO, pois que lhe quis dar especial simbolismo e estado de espírito, determinou a convocação para o sábado, dia 5 de Março de 2005, por acaso nesse dia a Biquica também faz anos, em meu nome, do Nuno, do M e do D M, todos FO pelo lado masculino, com vista homenagear a Família, a sua promoção, não propriamente a apologia num estilo standard.

A N. diz que chega a comover-me ver os irmãos todos juntos, a acrescentar a isto todo o resto da família, cunhadas e cunhados, sobrinhos, sobrinhos netos, primos direitos que há muitos anos não via, para além dos filhos dos primos que desconhecia em absoluto. Isto mete-me muita impressão, porque quando éramos miúdos a relação era mais próxima. Entre nós, como não podia deixar de ser, tinha que haver as nossas quezílias, senão, não éramos irmãos.


Nós, FO, somos uma Família com laços fortes. Mesmo quando hoje ainda discutimos, discutíamos, aceitamo-nos como pessoas distintas, mas com uma identidade comum e isso é importante para o bem estar, felicidade, de cada um. Mas como família, também incorporamos alguns segredos ou contradições.
Normalmente, o irmão é o que está mais próximo e, no entanto, há tantas coisas que desconhecemos dele.
De alguma maneira, o silêncio a capacidade de não dizer algo, é potenciadora de uma enorme função familiar e social.
A coesão social ou familiar não pode assentar na mentira, obviamente, mas pelo menos na boa gestão do silêncio.
Contar a verdade nem sempre faz bem, por melhor que seja a intenção de uma Mãe, mas um história colorida pode fazer conviver melhor com a realidade.
Aqui está o cerne do meu especial interesse, que começou tão só com a tradição oral da nossa identidade comum, que o Zico mais tarde em Parentes Meus tentou registar e que agora tento imprecisamente desenvolver.
Quando nascemos em casa fomos, segundos depois, para o regaço da Zica, que começou logo a dizer que éramos bonitos, queridos e pouco depois, conjuntamente com o Zico, começou a contar quem eram os Avós ou os Tios.
Mais tarde, em momentos críticos da vida, fomos pondo algumas coisas em questão, como nos convencemos que podemos substituir essas lendas por verdades, ou vice versa. Eu sou quem dizem que sou, ou não sou quem dizem que sou? Não quero ter a consciência que estou a substituir, para os meus netos, uma lenda por outra tão verdadeira ou falsa quanto a que recebi à partida, embora aquela se adapte melhor ao desejo de quem gostaríamos de ser. Admito que há aqui recriação, pois a nossa identidade é o que queríamos, gostaríamos ser, com o que não conseguimos ser, acrescido do que nos contaram que éramos. Em suma, e sem pretender discorrer filosoficamente sobre um tema tão volátil, chego à conclusão que a nossa identidade não é nenhuma falsidade, mas necessariamente uma pequena e benévola ficção.
Nesta altura, assumo a ideia da morte com alguma naturalidade, não conformismo é claro. Mas a conclusão de que só temos uma única vida é tremenda, sendo este um espaço onde posso lutar contra isso e me leva, por momentos, a crer que estou a viver uma outra ou outras vidas.
O passado é um lugar estranho.
Todos os que andaram por lá connosco, estão hoje bem diferentes, mudados, com excepção dos que se já foram. Antigamente, não tínhamos tantas rugas, cabelos brancos e eu não andava trôpego e de bengala. Gostava de trautear, ainda que desafinadamente, o Elvis, a Françoise Hardy ou o John Halliday, ao mesmo tempo que dançava apertadinho se pudesse, e ainda andava na escola a ensaiar as primeiras letras. É daí que vem a minha mácula de romantismo vetusto e pardo, como diria a T., mas com salpicos de lamechice, como me imputa a Aninhas, que é muito pragmática e veemente no seu pulmão, como os filhos e netos bem sabem, o que fez de mim ainda aos sessenta, um incurável e tolo sonhador. Mas também sou capaz de olhar para certo passado com algum sarcasmo, rir-me das minhas próprias insuficiências e assumir, com complacência, a estupidez de outros. Por isso, me sinto perdido num tempo em que a gasolina é cara, os clientes vão aparecendo menos, os casamentos são precários, se não um luxo das elites político-religiosamente correctas, as pessoas aguentam-se com dificuldade em relações estáveis. E mesmo quando a vida está irremediavelmente longe do que foram alguns sonhos e desejos, gosto de ouvir e de trautear baixinho melodias tão simples e complexas como é pau, é pedra, é o fim do caminho, é o resto de tu, é um pouco sozinho, rezando para que sejam as águas de Março, fechando o verão e que haja uma promessa de vida no teu coração.

Numa época de intensidade de acontecimentos confusos, onde se conjugam a malvadez, a calúnia, o império dos sentidos, surge com frequência a ansiedade, a agitação ou aquilo que hoje, mais vulgarmente, se chama a depressão. Os problemas são mais que as soluções. Quando posso, gosto de parar um pouco.
Estas notas, são um excelente momento de pausa no dia a dia em que me desligo de uma certa turbulência ao redor, na procura de uma serenidade interior.
Quanto mais desligo, mais sereno fico, e quanto mais sereno fico mais lúcido estou, relativizando peripécias. Reputo-me pessoa algo lúcida, para criar condições para estabelecer a ponte entre o natural e harmonioso.

Na universidade da vida, mais do que na de Coimbra, aprende-se não ser possível que outros façam, ainda que remuneradamente, o que cada um tem de fazer por si. Mesmo enquanto Advogado, é a conclusão fatal a que há muito cheguei.
Quem o não fizer por si, deixa a tarefa por cumprir. Mas quem se disponibiliza ou tem condições para tal, vai descobrir potencialidades necessárias se não para refazer o caminho, pelo menos corrigir a trajectória.

Nesta caminhada pela vida, temos como referi necessidade de invocar mestres, pessoas com dons especiais, como um Cristo, ou tão só um Filósofo ou um Poeta, que nos ensinaram a sentir e ver a vida, na sua beleza e complexidade.
Esses mestres sabedores, podem ser pessoas comuns, que se cruzam connosco todos os dias, não precisam de ser de nome feito, basta uma postura humilde para retratar a vida com o seu exemplo.
Tenho necessidade de dedicar algumas notas à A., que é a pessoa que aceitou ser a Mulher, Mãe, Avó e tudo o mais, da nossa vida e governar a nossa Casa de Alcobaça. Que é capaz, mesmo cansada, de no Inverno se levantar de noite para puxar um cobertor de modo a não apanharmos frio, de nos ouvir ressonar, dizer disparates ou coisas menos agradáveis sem recriminações de vulto, embora um pouco veementes, que mesmo que não olhe todos os dias para nós, marido, filhos e consortes ou netos, olha todos os dias por nós, que sem tiradas poéticas, se dá e partilha sem reservas a vida, as preocupações e alegrias, fica em silêncio a pensar com os seus botões, com um pequeno e quase imperceptível tique de encolher os ombros, como diz a Paula, e embora não aprecie cozinha faz muito mais que o básico.

Quando era garoto, aprendi com o Zico a ler o jornal todos os dias, a não acreditar em todas as histórias e com alguns colegas do liceu a desconfiar das mulheres, para lhes descobrir todos os defeitos. As mulheres, as meninas, esticam sempre a corda, disse-me uma vez o meu amigo Rodrigo C. que era muito sabido, já fumava e bebia Macieira, não obstante os seus 13 ou 14 anos, nunca lhes dês o que te pedirem à primeira e nunca mostres que precisas delas. Claro que não segui esta prática com a Aninhas.


O N. FO que dá um especial relevo a estas questões dos afectos e da Família, disse-me sobre o Congresso FO que foi uma reunião esperada por muitos e intervencionada por alguns. Desde o momento em que o Fernando nos mobilizou para um evento familiar nunca antes realizado, pelo menos nos moldes propostos, surgiu por parte de cada um aquele entusiasmo próprio de quem se irá rever no sucesso global e que pretende incutir o seu cunho pessoal. Isto tem a ver com os preparativos que começaram muitos meses antes, quando cada qual emprestou algo da sua vivência e experiência pessoais na elaboração do livro, com relatos muito pitorescos, que viria a ser apresentado num dos momentos altos desse dia de Março. A minha colaboração foi, um modesto, mas muito empenhado trabalho de recolha de imagens e do seu tratamento sequencial apoiado por música de escolha muito criteriosa.
O N. FO, com gosto e amorosamente, como é desde pequenino e ao longo de mais de cinquenta anos bem vividos, comidos e rega(la)dos, recuperou para DVD filmes e imagens, algo esquecidos de todos nós, a partir dos anos 70, que se revelaram um sucesso e emocionantes para os mais novos e outros de chegada recente aos FO.
Reconheço que com um pouco mais de tempo melhoraria o efeito final. Teve sempre um objectivo: provocar algum impacto ou surpreender de alguma forma.
O que aconteceu, sem dúvida.

A Casa de Família, em Miramar, é a primeira imagem, que passa gradualmente de um preto e branco para um efeito de aguarela e depois se desvanece. Este trabalho seguir-se-á nos tempos próximos, pois muito há a fazer com aquelas e muitas outras imagens por enquanto guardadas. A reunião de Família, pomposamente apelidada de Congresso, não terá surgido só porque os seus promotores gostam de festas e de receber bem. Era algo que faltava, para celebrar o nosso sentido espírito de Família, para o manter vivo e transmiti-lo, e homenagear os F.O. ascendentes recordando e homenageando os ausentes. Como seria de esperar, também os F.O de Matosinhos mobilizaram-se, comparecendo na totalidade. O Zé trabalhou, afanosamente, para nos mostrar num powerpoint um pouco da investigação que fez sobre os nossos, remotos e desconhecidos, antepassados, durante uma viagem à Escócia. Excelente montagem fotográfica, acompanhada por cuidadosos e interessantes comentários .Após a recepção aos congressistas, seguiram-se as apresentações entre os vários primos que não se conheciam, com momentos de espanto, naturalmente, de quem já se tinha ouvido falar tanto, mas sem o conhecimento presencial, entre os mais novos. O salão ia aquecendo com as emoções a despertarem e a fornalha da lareira a ajudar. Aí o João começa a disparar flash’s e a captar com a sua mestria as expressões que se vão sucedendo por entre a passagem de copos do bom branco, verde branco e tinto, oferecido pelo meu amigo C., de Paredes, que acabou num ápice, não estivessem presentes os FO pois que, como aprendi na Casa de Matosinhos, em garoto com o Tio A. F., se puderem pegam numa mulher pela cintura e numa garrafa pelo gargalo…, que se erguem no ar. Seguiu-se o almoço organizado e preparado sob a batuta da Ana, que nunca deixa esses créditos por mãos alheias. Já na Adega/Salão do Alambique e das reuniões, como a T. lhe passou a chamar, adaptada para o efeito, se encontravam a mesa da Presidência, com cadeiras de madeira com assento de veludo antigo e costas altas como se impõe nestes momentos cerimoniais, uma mesa com toalha branca, uma garrafa de vinho tratado do Douro Fleming’s, e copos para os brindes da praxe, e as cadeiras da assembleia. Nada foi deixado ao acaso e até o aquecimento tinha sido previsto. De um lado, o antigo alambique servia de testemunho de épocas passadas, donde jorraram, no tempo do Dr. Amílcar, litros de aguardente, bagaceira, ainda hoje cuidadosamente conservada e sem pressas de envelhecer.
Do outro, um écran donde se esperaria ver um desfiar de memórias visuais surpreendentes.
Essas imagens têm mais de 30 anos desde o casamento em Alcobaça, aos baptizados em Miramar e Alcobaça, à primeira papa da Raquel, em Cinfães, os Zicos, a D. Ana e o Dr. Amílcar, e que o N. recuperou.

Estes filmes são como os caprichos.
Mudos, mesmo quando uma música dolente ou animada tenta amaciar as palavras que dissemos numa mocidade antiga e riscada do tempo, em que as nossas meninas apareciam muito compostinhas, de mala no antebraço, saia pelo joelho ou abaixo, os nossos meninos com calças à boca de sino e o Dr. Amílcar de chapéu escuro e gravata na praia.
Claro que a vida já não é como nesses filmes, mas é bom poder ver a fita sempre que apetecer, porque é verdadeira e aí nada mudou.
Conhecemos de sobra cada olhar, cada expressão de rosto, cada beijo dado.
A I. e a P., e a B., convém não esquecer, contribuíram para animar a assistência com a entrega de pequenos estandartes, que se agitavam com palavras de ordem à mistura.
Parecia quase um comício, dos tempos do PREC…
É hora das palavras e da solenidade, mas com a simplicidade, não somos de muita cagança, segundo se diz para consumo externo com mais ou menos verdade ou pelo menos cai bem dizer, que nos caracteriza. Dir-se-ia que os discursos tiveram a eloquência dos sábios, não necessariamente eruditos, com a moderação dos humildes. Penso que as palavras tocaram fundo na Família, pena que os discursos não tivessem sido lidos, pois teríamos certamente alguns excertos aqui.



A eleição do tio Mário para Presidente Honorário e Vitalício do Congresso, o próximo se houver e se não houver percalços de percurso serei eu, constituiu um reconhecimento da autoridade espiritual da grande Família F.O. e do carinho que todos lhe devotamos neste momento é ele, por direito próprio, o Patriarca.
Por fim, a entrega de volumes de Parentes Meus aos mais novos. Já no fim da festa, se estabeleciam conversas mais próximas entre os primos e se ponderava a possibilidade de se repetirem estes encontros, seria muito interessante.
Mas quem se candidata?
O Zé?, pois nos tempos que correm não é frequente juntarem-se primos em 5º grau! Só em famílias Grandes e Extraordinárias!

Neste e noutros assuntos, gosto muito de ouvir o P. S., mesmo reconhecendo-lhe alguns delírios de imaginação, que todavia me deixam encantado. O Paulo S. nunca se faz rogado para emitir um juízo, preferencialmente polémico.
Como foi isso, P.? ele que é um FO de gabarito há cerca de 30 anos e presentemente muito mais que honorário. Entende o P. S. que, não há reunião de família sem procura de socialização, conhecer os novos e abraçar os velhos, em doses maciças de gabação, de um para todos e de quase todos para um, em gostosíssima animação, espécie de alegria horizontal, entre algazarras de falação, às vezes até mete discurso, servida em doce emoção, juras e promessas, a favor de uma recordação a que não faltará sempre uma oportuna gravação e/ou até filmação. Os exageros na deglutição passam aos copos na comemoração ou mera confraternização, levantando de onde em onde uma ligeira preocupação, com este ou aquele, isto ou aquilo, imediatamente ultrapassada numa boa relação, que soa a colaboração na futurização abrangente da valorização.
Como se vê o P S., pessoa sensível, está em excelente forma intelectual e num estado de lucidez apreciável.
Quem supõe que ele é só músculo e beleza, está muitíssimo equivocado. Não é verdade Inês? E porque deixas mesmo ele tocar ad lib o cavaquinho?
E que mais, meu caro P. S.?
Tudo isto obriga ao profissionalismo da organização que, definida a localização os Montes é muito bom, Mira espectacular, ouviu Amigo e Compadre Gaspar? aposta numa participação e comunhão, várias raízes, um só tronco, muitos ramos, tendo a máxima atenção, para não faltarem bolos da Pousadinha, por exemplo, levando ao êxito a consagração. Pessoalmente acrescentaria a dignificação, Tio Mário e seguintes, que a convenção FO concretizou, na atribuição de uma afirmação plena de intenção com a aceitação geral eivada de convicção, sem excepção. Nada, nem a mais pequena divagação ganhou espaço de intervenção, nem tão pouco se afirmou a prossecução da mais humilde invenção. Foi como foi escrito e subscrito, comido e bebido, pois claro, sentido e vivido em permanente ovação.
O P. S. sentiu-se no dever de esclarecer, eventualmente junto de alguém menos letrado que um FO que possa vir a ler isto, ou seja, aqueles com a quarta classe feita administrativamente depois do 25 de Abril, o que aliás não é o caso de nenhum de nós, a propósito da forma ligeira como esteve a discorrer pois, que vários prefixos diferentes na forma e conteúdo mais variados e díspares se uniram pelo mesmo sufixo cão, e que tem pena que a fonética desta minha sensibilidade corresponda a um erro de ortografia, mas quem não sabe que ao ler à porta do Mercado do Bolhão o letreiro: BENDE-SE FRUTA! está imediata e cabalmente informado da pretensão?

Na cerimónia solene depois do almoço, presidida pelo Tio Mário, realizada na sala do Alambique cheia como um ovo, devidamente pintada, chão arranjado, mais ou menos bem/mal aquecida com salamandra e a gás, preparada com uma Mesa de Honra e cadeiras cerimoniais de veludo e costas altas ainda de Casa do Dr. Amílcar, a Paula e a Benedita até arranjaram, como disse, umas bandeirinhas FO, feitas em papel, que distribuíram para serem agitadas nos momentos de vibração, uma garrafa de Douro e uns copos para os brindes, abri a sessão dizendo umas palavras de circunstância, tal como depois o Zé, e finalmente o Tio Mário. Este falou bem, com a propriedade e sentimento que lhe reconhecemos, salientando as nossas origens comuns na Casa de Matosinhos e, muito especialmente, a sua relação com o Zico, o que nos deixou algo emocionados e sensibilizados. Como se isso não bastasse, como não bastava mesmo, leu-nos uma carta que guardava religiosamente e que o Zico lhe escreveu, pouco antes do seu casamento com a Tia M C, em 18 de Dezembro de 1942, que desconhecíamos, mas que não resisto em registar, graças ao B, e a transcrever:

Vezúvio
(local no Douro onde o Zico trabalhou pela primeira vez, após ter tirado no Porto o curso de Engenheiro Técnico/Instituto Industrial, como ao tempo se dizia e de que nunca gostou),
12 de Dezembro de 1942
Meu caro irmão:
É esta a primeira carta que te dedico, desde que para aqui vim. Não deves reparar que assim seja, porque as cartas que escrevo para os Pais dizem-te tanto respeito como a eles, porque todos são família e por isso igualmente queridos. Agora, porém, o caso é diferente; embora irmãos, embora amigos, a tua vida vai dentro em breve ser muito outra, porque vais constituir um novo lar, uma nova família e essa preencherá para futuro todas as tuas atenções, todas as tuas canseiras e afectos e por muito que te custe a acreditá-la, a verdade é que os que ficam, os que continuam a vida ordinária (devo esclarecer que ordinário significa aqui usual, do costume) não representarão já para ti senão uma parcela do que representavam. Embora não me sinta nesta ocasião com aspirações a D. Francisco Manuel de Melo, escrevendo uma Nova Carta de Guia de Casados, o que é certo é que não esqueço que sou teu irmão mais velho e que, muito embora, te não vá dar conselhos, de que graças a Deus não precisas, além de que tens em casa quem com mais acerto e experiência tos pudesse dar, deixa-me que te diga que fazes bem em casar. E crê que não é uma opinião emitida de ânimo leve, expressa, como tantas vezes se faz apenas por respeitaras ideias e as acções alheias. Não, esta é fruto de muito pensar no teu casamento. Já algumas vezes te tenho ouvido dizer que te prendes sem ter gozado a vida. Eu também já assim pensei a teu respeito. Hoje sou eu quem te diz que fazes bem. Gozar a vida como geralmente se diz significa quási sempre e com raras excepções: estragar a vida, criar hábitos falsos que lhe dão sabor apenas transitório e que, se não são vícios a eles se assemelham muito o mais das vezes. Criar um lar. Constituindo família, é chamar sobre quem dá esse passo responsabilidades que nunca mais se alijam e negá-las é tentar contra princípios cristãos que presidem às intenções mais nobres. Responsabilidades todos temos obrigação de as ter na vida e desgraçado de quem as não tem, como temos direito de aspirar a elas, mas nenhuma acredita, traz as compensações e os gozos espirituais que traz o casamento quando como o teu, é honesto e empreendedor. Tens o beneplácito absoluto dos que têm direito a te serem os mais queridos e quando o não tivesses tinhas a tranquilidade do teu espírito pela certeza do que pretendes e solidez de carácter que te distingue e se alguma vez uma pulsação mais acelerada te faz lembrar que vais modificar para sempre a tua vida um só instante, lembra-te do que acabo de te dizer e ri-te dela. Poderia dizer-te isto num discurso no Grande Dia, mas além de não ter jeito para falar, são coisas a que ninguém mais interessam e que só servem para gáudio da galeria a quem não ligo meio.
Meu caro Mário, ainda nos veremos se Deus quizer contigo solteiro, mas é esta a última carta que te escrevo nesse não menos agradável estado. Por isso recebe por conta um apertado abraço o teu irmão e sincero amigo
Fernando


O Tio M., além de cavaleiro tauromáquico amador, a sua grande paixão que praticava no redondel e com uma tourinha durante o trabalho, mesmo na fábrica de camisas da Rua da Picaria ou 31 de Janeiro, foi um bom garfo e copo de tinto, desportista nadador em estilo livre, guarda redes do Leixões ou keeper, expressão antiga e demodé que ainda utiliza. Um cavalheiro-marialva, lembro-me que quando há perto de 50 anos se começaram a divulgar os gira-discos, ofereceu aos Zicos um disco, ainda em vinil como é evidente, de 45 rotações, com o Fado do Caldas.

Para registar um depoimento consistente sobre o Tio M., quem melhor para isso que o de um Filho? Foi o que diligenciei junto do B. que me disse que, como tu bem sabes o meu Pai, é uma pessoa dotada de muito boas e variadas características.
É uma pessoa naturalmente com uma grande paixão pela Família, pelos seus mais próximos, mas também com enormes apetências para muitas áreas.
Como é usual hoje dizer-se, um homem multifacetado que se fez na Escola da Vida. É uma longa lista de traços e atitudes que o definem e que o tem acompanhado, ao longo de quase estes 85 anos. Anos bem preenchidos, com altos e baixos.
Se fosse o meu Pai a dizer, diria baixos e baixos mais bem preenchidos, tenho a certeza que têm sido.
O Tio M encontra-se em muito boa forma, intelectual e fisicamente activo.
Ainda monta a cavalo.
Recordo que, sempre se disse na Família, que tinha boa cabeça e memória. O que me é confirmado pelo B., para explicar o conteúdo dos versos melo-dramáticos sobre o Pijama, parodiando o tema Fado Hilário, que em tempos escreveu e que recitou no nosso Congresso.
(I PARTE)
O meu pijama velhinho//Tem uma enorme costura//Hei-de levar-te comigo//Quando for p’rá sepultura.
O meu pijama velhinho//Com que cuidados se trata//A ver se com muito jeitinho //Fará as Bodas de Prata.
Eu quero que o meu pijama//Tenha a mesma sorte que eu//Que quando acabar vá direitinho//Bater às Portas do Céu.
Ai o Mário disse em dia//Que jamais será lavado//Já tantas bolandas levou//Está quási todo rasgado.
Ao dormir com este pijama//Durmo quási que nú.//Fico c’as costas de fora//Do pescoço até ao cú.
Até aqui tu bem chegaste//Nas costuras é qu’eu estouro//Chegaste às Bodas de Prata//Veremos se chegas às d’Ouro.//As calças que foram compridas//Não passam de velhos calções//Já não podem ser descidas//Devidos aos grandes rasgões.
Já foi novo e foi bem feito//Como a coisa se transforma!!!//Agora que está tão velhinho//E se encontra quási desfeito, //Depois de tanto serviço//Será justo, coitadinho, //Possa passar à reforma.
(II PARTE)

A história deste pijama//Que tem pilhas de piada,//Só o lava a Maria Cândida//Com vergonha da criada.
Talvez isso vos interesse//E vós gostásseis de ve-lo,//Talvez a moda pegasse//E servisse de modelo.
Passadas as Bodas de Prata//Não mais o visto digo eu,//Irá p’rá Feira da Ladra//Ou p’ra qualquer outro museu.
O que conto é chalaça//Que agora me lembrou//P’ra qualidade que muito tem//Muito tempo ele durou.
O que mais piada tem //Que se ria quem quiser,//Não gastei nele um vintém//Quem m’o deu foi a Mulher.
Se alguém m’o vir vestido//E vir a figura que faço//Vendo o pijama assim em tiras//Chama-me logo, um palhaço.
O pijama de que eu falo//De que já tão pouco resta,//É muito raro usá-lo//Só sai em dias de festa.
Sempre que visto o pijama//Provoca um novo rasgão//P’ra passar no corredor //Tenho que vestir o roupão.
Um pequeno movimento//Que eu faça sem dar por ela,//Abre mais nesse momento//É mais uma rasgadela.
Quando envergo este pijama//E me vejo nele envolto,//Tenho sonhos cor de rosa//Porque durmo a sono-solto.
Adeus pijama, que partes,//Tenho tanta pena disso,//Vais ser agora afastado//Vais abandonar o serviço.
Como surgiram estas rimas, que desconhecíamos, e a que propósito de quê? perguntei intrigado ao B..
Não sei se saberás, mas… provavelmente saberás, o meu Pai tem uma grande enorme facilidade para falar em público, um orador que sabe, seja perante quem for, falar e falar bem. É um dom. É inato e fá-lo muito bem, com muito à vontade.
Claro que me lembro, pois o Tio M, adorava um bom discurso, tal como uma boa piada, se tivesse oportunidade. E se não … arranjava-a, na mesma. Continua o B, para além desta capacidade para transmitir oralmente o que lhe vai no pensamento, tem uma enorme veia poética, que tem vindo a expressar nos mais variados temas e locais. Não são poemas eruditos, mas são poemas inteligentes e com muito humor. Sem rascunhos, directamente na sua inseparável máquina de escrever lá saem as quadras uma a seguir às outras, com grande fluência.
Como disseste, são muitos os temas que o teu Pai aborda, mas tem preferência por algum?
Sejam para o cavalo, seja para o dia de S. Martinho, para a rádio ou revista, sejam para os netos, sejam para as Bodas de Prata, sejam para um Pijama, sejam para um consulta de psiquiatria, para qualquer tema, aí está Ele a escrever.
Na verdade com propósito e bem, continua o B, dizendo-me que o Pai, é uma pessoa que ama profundamente a vida com positivismo. Como normalmente é uma pessoa bem-humorada, a sua veia poética vem ao de cima e a sua musa inspiradora, recomenda-lhe que saia mais uma poesia. Há coisa na vida que cada um de nós tem mais apetência, maior afinidade, mais facilidade e assim o cantor que “canta ao desafio” que em poucos segundos tem de ter uma resposta pronta para continuar, o meu Pai tem também essa capacidade para em poucos minutos e sem rascunhos, fazer umas quadras bem a preceito.
Mas insisto como e porque surgem os versos sobre o Pijama que pareceram tão importantes para serem invocados nesse momento?
O B. explicou-me que é uma obra em duas partes, escrita directamente para o papel, sem qualquer rascunho, como hoje se diz ao vivo e em directo. Quanto à sua importância…
Trata-se da história de um pijama oferecido pela minha Mãe, que se tem conservado, sabe Deus como, ao longo de tantos anos. Este pijama da história, terá a bonita idade de, aproximadamente, 60 anos. O Pijama faz o Casamento. O Pijama faz as Bodas de Prata. O Pijama faz as Bodas de Ouro.
Em suma, o Pijama é peça indissociável da sua vida e, os versos relatam as várias fases por que passou e pode ser cantado com a música do Fado Hilário, notória nas quatro primeiras quadras.
Como disse, neste encontro FO a 5 de Março, festejaram-se além da Família, os meus 60, 22.02. os anos da Paula, 26.02, da N,, 16.02 e também os da B, 05.03.
O Domingos P., que passará a ser um dos nossos trovadores de estimação, e isto sem pretender faze-lo entrar em competição com o P. S. pois cada qual é… como é, cada macaco no seu galho, preparou-nos uns versos que foram cantados, com as velas sopradas.

PARABÉNS AO FERNANDO
Os últimos são os primeiros,//Nesta festa de arrombar,//Parabéns ao Tio Fernando//Vamos lá todos cantar.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?//Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe //Da Família F. O.
Foi em Fev’reiro, vinte e dois//Que o Fernando veio ao mundo//Para ser o primogénito//E um irmão bem cá do fundo.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?//Há! E muito, sim sinhó, //Porque ele é o big chefe // Da Família F. O.
São Primaveras ou Invernos?//Contá-los é que eu não quero.//Mas diga lá se não gosta //De ganhar por seis a zero?
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?// Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe//Da Família F. O.
Sacou da pena ou da caneta//(Que pró caso tanto faz),//E escreveu-nos um livro//Com mão certa e perspicaz.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada? //Há! E muito, sim sinhó, //Porque ele é o big chefe//Da Família F. O.
Pois este livro teu e nosso//Tem que se comemorar,//Com um familiar brinde//Nesta casa de encantar.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada? // Há! E muito, sim sinhó, // Porque ele é o big chefe//Da Família F.O.
Ergam taça de champanhe//Pró livro não ficar só,//Ele é vida e memória//Da Família F.O.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada//Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe//Da Família F.O.


Para a aniversariante Tia NUNU, cantaram-se os seguintes:
Parabéns Tia Nunu,//Farta de trabalhar,á e muitoHá//Conquistou meio mundo//A fazer o colar.
Vejam bem esta jóia//Que está sempre a brilhar,//Só falta escolher//E depois… é comprar.


E para a PAULA, também aniversariante:
Vinte e seis de Fev’reiro,//Temos que festejar//Os anos da Paulinha//Com a taça no ar.
Na cozinha dá cartas,//E nos doces também.//Muito honra a escola//Da Ana, sua Mãe.
A Biquica, que era a aniversariante do dia, teve também o seu minuto de glória e fama, graças à letra do Domingos P.
Parabéns à Bikika,//Do bel canto uma estrela//Mete as cantaroleiras//Todas numa chinela.//Os quilos não lhe pesam//Nem a roupa a comprime,//Num corpinho danone//De mui jovem menina.


O P. S. fez-se acompanhar aos Montes do seu mini cavaquinho especial e de bolso. E ao final da tarde, à volta de um pequeno lanche, animou-nos com as suas modas e cantares, neste caso bem adaptadas ao momento, glosando uma Rusga tradicional do Senhor da Pedra, interpretada que nem o Rancho Folclórico de Manhouce, com a Isabel Silvestre, que até é sua prima afastada, o Tio Gregório era Silvestre.
Eu vim do Senhor da Pedra,//Mesmo sem beber nas fontes //De Alcobaça é que não saio,//Sem beber aqui nos Montes.
Meu rico Senhor da Pedra,//Diz-me lá o que se passa//Não me dás do teu farnel//Vim comer a Alcobaça.
Ora siga a Rusga,//Assim mesmo e à maneira//Comer bem e bem beber,//É nos Fleming de Oliveira.
Hei-de ir ao Senhor da Pedra//Todos os anos lá hei-de ir//Mas quem vai comer aos Montes//Vai ao Céu e torna a vir.


O D. P., além de poeta, músico, é um doutor. Pedi-lhe a sua opinião sobre o Congresso FO. Com a sua delicadeza, sensibilidade e eloquência, disse-me Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.
Isto é, em Português do século XXI, para os incultos que já não estudaram latim, quer dizer,
Como é belo e saudável ver os irmãos unidos.
Então Domingos P., diz-me lá o que é que achas!
Disse que, não é o início de um sermão do Pe. António Vieira. Nem tão pouco é o exórdio de uma tirada oratória de um preclaro orador, dos que outrora embeveciam corações e fulminavam remorsos com a fluência do verbo e o fascínio persuasivo de uma retórica impertérrita e eficaz. Não é, não senhor! É, tão somente, uma abscôndita, vejam como ele é um doutor e sabe cada palavra difícil!, citação dos livros sagrados, que traduz, de corpo inteiro, aquela tarde simples e saborosa de cinco de Março, passada na Casa dos Montes, acolhendo quatro gerações da Família F. O. Já lá vão uns meses e, passando ao lado do relato dos factos, quero apenas aqui deixar três recordações, que não serão nunca desalojadas de um cantinho privilegiado na minha memória. Lembro, em primeiro lugar, o anfitrião da Assembleia Constituinte da Confraria F. O., cada um chama-lhe uma coisa Congresso, Fundação, Plenário, mas o que interessa não é o nome…, que propôs os Estatutos, com notável solenidade, profissionalismo e poder persuasivo, apanágio de uma carreira longa e experiente na sua arte. O Fernando, arrancou da Assembleia uma retumbante aprovação dos estatutos, por unanimidade e aclamação. Em segundo lugar, ficará sempre gravado na minha memória o Presidente vitalício da recém-criada Confraria F. O. O Tio Mário traduziu, na sua intervenção, o objectivo do ponto único dos estatutos: o encontro e o convívio da Família. A prosa divertida e o versejar fluente do Tio Mário congregam irresistivelmente a família à sua volta. Quem resiste ao doce versinho picante, onde a malícia, mal espreita, logo se esconde? Em terceiro lugar, recordo que esteve nos Montes a árvore da família: o tronco, os ramos, os botões, as flores e as folhas-de cores variegadas, mas nem murchas nem caídas!... Mas a árvore que se vê não é tudo. Faltam as raízes!... E que encantador foi o regresso às origens, explanado pelo Kitolas, num relato intenso e apaixonado, de uma busca peregrina em demanda das raízes desta árvore que, neste jardim à beira mar plantado, continua a crescer!

Como é belo e saudável ver os irmãos unidos.


Gosto de passar ao papel, registar, temas familiares, mesmo que pareçam menores. Quando somos novos, parece que há alguma reserva ou pudor em nos pronunciarmos sobre aquilo que nos antecedeu, talvez por receio de sermos considerados pelos da mesma idade, como cotas ou bota de elástico, que se riam de nós. Recordo o desdém, manifestado perante os outros relativamente ao antigo, mesmo já pensando ao invés. Mais tarde começamos a perceber o que os mais velhos diziam e a imitá-los. Em Miramar, no início dos gira-discos, os Zicos preferiam, o Maurice Chevalier, aos Beatles. E embora não perdido de amores por aquele ou pela Piaff, indo a Paris, sou capaz de comprar uma antologia de intérpretes dos anos 50 ou 60, como aliás fez o Manel quando lá estivemos em 2003. É isto que também distingue os novos, dos menos novos como nós. A nostalgia daqueles leva-os para o futuro, a dos outros leva-nos para os idos…

Que saudades daqueles restaurantes de Coimbra como A DEMOCRÁTICA, com um empregado baixo e rotundo, ostentando três ou quatro cabelos que cruzam uma lustrosa careca, uma camisa muito branca sem mangas, pano no braço peludo e que nos tratava a todos por doutores, não fosse algum não ser, e a dona de cabelo grisalho enrodilhado num carrapito, usando uma bata de sarja em xadrez miudinho, com os pés metidos num tecido farfalhudo.
Dado o Zé Q. ter, felizmente, uma vida muito ocupada, pedi como disse ao B. uns comentários finais sobre esta nossa Reunião Magna, ao que ele anuiu com gosto e me deixou encavacado, mas a que não posso deixar de dar o devido destaque. Disse o B que, acho que esteve bem patente em vocês, anfitriões, a alegria de poder juntar toda a grande Família FO. Teve direito naturalmente ao repasto bem regado e a preceito, teve um hino FO, cinema, cerimónia de investidura e entronização, diaporama, bandeira, recordações de faiança com o brasão, etc., etc., etc.. Por muito completa que possa ser a minha descrição desse dia tão bem passado aí em Alcobaça, haverá sempre muito mais para contar. O importante foi para mim e para os meus mais próximos juntar a Família FO, voltar a ver primos que por variadíssimos motivos não se viam há muito tempo, bem como conhecer novos elementos do clã. Com tanta descendência FO vamos continuar a expandirmo-nos por todo o lado. Se eu fosse jornalista provavelmente o título a inserir na primeira página do jornal poderia muito bem ser este:
GRANDE ENCONTRO DA FAMÍLIA FLEMING DE OLIVEIRA EM ALCOBAÇA EXCEDEU AS EXPECTATIVAS
ou então,
O ENCONTRO FO FOI POSSÍVEL EM ALCOBAÇA
ou então ainda,
A FAMÍLIA FO EM CONGRESSO EM ALCOBAÇA
outro ainda,
ALCOBAÇA FOI O LUGAR DE ENCONTRO DE UMA GRANDE FAMÍLIA - FLEMING DE OLIVEIRA.


A N. realça que, o que mais a cativa nestas reuniões é o ambiente de família que por muito que se não diga, foi muito forte em casa dos Pais, apesar das dificuldades que havia. Sermos oito é uma coisa que me orgulha e tenho pena que não sejamos mais.