sexta-feira, 7 de maio de 2010

OS VÍCIOS DA I REPÚBLICA

Os vícios da I República.

O Decálogo do Estado Novo, segundo António Ferro.

O Reviralho.

O último Regedor da I República, na freguesia da Maiorga (António Fadigas).

O primeiro Regedor, do Estado Novo, na freguesia de Alpedriz e a barriga do boi.

Um Regedor no Vimeiro-Alcobaça.

Uma boa Feira de S. Bernardo.

O circo desceu à cidade.

Os robertos e o vendedor da banha da cobra.

Um baeta especial e um outro encontrado no depósito de água, de Caldas da Rainha.

O atentado contra a linha férrea e telegráfica, em Pataias.

O 7 de Fevereiro de 1927.

1931, o ano de todas as conspirações.

A Profª Zulmira Marques

O Pireza foi assaltado por pessoal, possivelmente, do Fisco, na estrada de Pataias-Alcobaça.

A música no coreto da Vila(como é bonita) e o mercado semanal.



(II)



Óscar Santos, presidente da Junta de Freguesia dos Montes, conhece como poucos histórias da sua terra.


Recorda-se de ouvir histórias do barbeiro que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana. Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas.



Há quarenta, cinquenta ou mais anos, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina afiava numa assentadura, fita de couro, posta num suporte de madeira. Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor. Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo. Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar. O barbeiro todavia nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas como Cós ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.



Já que falamos de barbeiros e o Baltasar, barbeiro de Alcobaça? Isso é outra história que já tínhamos ouvido de passagem. Por alturas de 1934/35 ocorreram umas estranhas mortes em Caldas da Rainha, ao que se dizia em consequência do consumo de água da rede inquinada com tifo.




A Delegação de Saúde começou a investigar a situação, fazendo análises na rede pública, na nascente às Águas Santas. Os resultados foram aí inconclusivos, mas por via de dúvidas foi proibida a apanha e venda dos bivalves da Foz de Arelho. Mas o surto de de intoxicações e mortes por tifo (?) prosseguia.




Em último recurso, mandou-se proceder à análise da água canalizada recebida em casas particulares. E, para grande surpresa, chegou-se à conclusão que, o foco da infecção não estava na nascente, mas no depósito da água para abastecimento da rede. Este situava-se na parte mais alta da cidade, junto à mata, perto do Hospital. Depois de esvaziada a água do depósito, com grande emoção foi descoberto um corpo, em elevado estado de decomposição, junto a uma grade de ferro, destinada a impedir a entrada de sólidos na canalização.




Apesar do mau estado do corpo, que ali estava há tempos, conseguiu-se apurar a identidade do morto, também pela aliança de casamento, que tinha no dedo. Segundo Altino do Couto, na altura com 14 ou 15 anos, e que andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, de Caldas da Rainha e chegou a ver o corpo estendido numa padiola, acabado de retirar do depósito, apurou-se que se tratava de Baltasar, barbeiro, em Alcobaça, dono de um estabelecimento em frente, ao actual, Café Portugal, na rua Alexandre Herculano, sito entre a loja de ferragens de Gilberto Magalhães Coutinho e a Farmácia Belo Marques. Identificado o corpo, apurou-se que o Baltasar vinha anunciando à mulher (que não o levou a sério) que se iria matar (por nunca devidamente esclarecidas razões de dinheiro ou saias?) e que ninguém mais o encontraria. O barbeiro Baltasar, de acordo com o Dr. Hermínio Marques, que o chegou a conhecer, pois era quem lhe cortava o cabelo em rapaz, tratava-se de pessoa de cerca de cinquenta anos, educada, respeitada e estimada, pelo que o seu desaparecimento, sem deixar rastos, teve algum impacto na vila de Alcobaça, onde criou emoção. Conforme ainda contou o Dr. Hermínio Marques, o barbeiro matou-se, ingerindo previamente um potente veneno. Depois atirou-se para o depósito da água da rede pública e lá ficou durante algum tempo.




Durante meses, a população de Caldas da Rainha bebeu da água, onde esteve mergulhado o corpo do infeliz Baltasar, e apesar de a Câmara Municipal, ter anunciado uma desinfecção total e eficaz no depósito da água, gente houve que durante algum tempo se recusou a voltar a beber água da rede, ou tê-la mesmo em casa.



Que recoradações acarreta o barbeiro Baltasar? Nos anos trinta, haveria uma meia dúzia de barbeiros na vila de Alcobaça, cada qual com uma clientela própria, a que não era estranho o respectivo estatuto social. Era um tempo em que o cantar cadenciado da tesoura, manobrada com mestria, ecoava na pequena barbearia, emprestando ao ambiente um ritmo e um toque muito especiais, que os clientes apreciavam.




A barbearia de Baltasar era um espaço pequeno, com um espelho ao alto, uma só cadeira assente numa base redonda metálica. O baeta Baltasar usava uma bata branca, abotoada ao lado, e fazia caprichadamente uma barba escanhoada, com uma navalha afiada em assentadores de fita de couro, pedras para deixar a cara coberta de frescura, e dominava os cabelos mais rebeldes, graças a um fixador que ele mesmo fazia, com um pó comprado na drogaria, misturado em água, a que adicionava perfume, conforme o gosto do cliente.




Baltasar, segundo os muito poucos que dele se lembram e nos contaram, foi sempre barbeiro, profissão que começou a aprender em rapaz, apenas interrompida pela tropa. O pai, também de nome Baltasar, tinha a seu modo uma pequena história de vida. Pobre, começou a vida profissional abrindo covas para colocar postes, entrando embora sem vínculo para os C.T.T., aonde chegou ao posto de guarda-fios, cuja função era subir aos postes. A história do avô paterno, tem algo de estranho, pois ao nascer foi rejeitado pelos pais e colocado na roda, em Lisboa (roda giratória onde eram deixados os bébés indesejados. Para o identificarem eventualmente um dia, os pais colocaram-lha ao lado uma pequena Bíblia). O avô de Baltasar, cujo nome não apuramos, terá sido adoptado por uma família de Caldas da Rainha ou arredores, que não lhe deu instrução, nem cumpriu a obrigação de pelo menos uma vez por ano o levar ao orfanato. No tempo em que o futuro barbeiro Baltasar, ainda não tinha barba para se escanhoar, era frequente os rapazes, concluída a terceira ou quarta classes e que não iam prosseguir estudos por falta de posses, começarem a aprender uma profissão, onde nada ganhavam. A primeira tarefa que coube ao Baltasar, foi na barbearia de um tio, a fazer trabalhos menores, como varrer e apanhar os cabelos do chão e depois fazer barbas. A sua primeira remuneração foi de três tostões por dia, mas só ao fim de três meses. Tempos difíceis em que se fazia muito e se ganhava quase nada. O aprendiz Baltasar teve de esperar dois anos para ficar a saber que iria receber quarenta escudos por mês, (uma muito especial atenção por parte do tio), o que significava que já aprendera o mínimo, não dava golpes na cara do cliente, e merecia a confiança do patrão e, claro, do cliente. Assim, até à idade das sortes, Baltasar ficou-se pela barbearia. Mas, depois de passar uns tempos em Leiria arrumadas a farda e botas, voltou aos cortes de cabelo e às barbas bem escanhoadas, como impunha o cliente.




Na barbearia do Baltasar, vendiam-se cigarros. Era o tempo em que se ia ao barbeiro não apenas para cortar o cabelo, fazer ou aparar a barba, mas para pôr a conversa em dia, pois no barbeiro falava-se de tudo, e até se podia ler-se o jornal de graça. Enquanto Baltasar manobrava a tesoura ou fazia a barba, em gestos demorados e calmos, o tempo passado com o cliente, acabava por ser quase um confessionário. A pessoa gosta de ouvir e também tem sempre algo para contar.Antigamente, quem quisesse conhecer histórias e vidas, ia ao barbeiro ou encostava-se à porta.




O assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pêlo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente. Os barbeiros também foram acabando. Entretanto em Alcobaça estabeleceram-se outros que por sua vez já lá vão, como o Nabais, o Zé do Aço (estabelecimento ao lado da antiga Casa Sineiro), o Artur Barbeiro (ao lado do actual Café Restaurante Trindadde), o Maleiro (na Rua Alexandre Herculano perto da actual loja de Gilberto Magalhães Coutinho) ou o Baeta (em frente ao Mosteiro).




Um barbeiro em Alcobaça era senhor de estabelecimento discreto, muito discreto, em geral pequeno com o chão aos quadradinhos vermelhos e bejes, paredes revestidas de azulejos brancos e vários espelhos sem moldura. Uma ou duas cadeiras de barbeiro, difíceis de consertar, porque não havia peças em Alcobaça (só em Lisboa) que lhe valessem. O som da rádio (telefonia), saía de umas pequenas colunas e mesmo, ainda que com pouco uso, parecia que o aparelho queria mostrar que já precisava de reforma. Um ou dois calendários de parede mostravam dias longos, cansados os pés e braços de tanto labutar. Na mesa de madeira ao lado das quatro ou cinco cadeiras para quem esperava, por princípio nunca havia marcações, encontravam-se revistas e jornais, por vezes com alguns dias.



Os sucessivos movimentos reviralhistas que ocorreram entre 1926 e 26 de Agosto de 1931, isto é, o movimento comandado pelos Ten. Cor. Sarmento de Beires e Utra Machado, Cor. Dias Antunes e facilmente vencido no dia em que se declarou, aliás era esperado, levaram à criação de um clima que, sem dúvida, dificultou o processo de consolidação do regime onde Salazar já pontificava. Ao mesmo tempo, obrigou os novos dirigentes a tentar uma conciliação com o republicanismo conservador, fazendo-lhe concessões que atrasaram a sua institucionalização.




O atentado ocorrido contra as linhas férrea e telegráfica em Pataias, no dia 13 de Janeiro de 1931, pelas 12h20m, segundo a versão que a Profª. Zulmira Marques colheu no Processo n° 4881/PSES (e que muito amavelmente nos facultou), elaborado e pendente na PIDE e vamos seguir de perto, envolveu personalidades do meio sócio-político alcobacense, entre os quais o seu pai José Sanches Furtado, Alberto Serrano de Sousa, Lino Catarino, Bernardo da Silva (cunhado de Alberto Serrano), João Oua (taxista), Manuel Ferreira Quartel (comunista), José Carlos Afonso, Joaquim Ferreira da Silva, Alfredo Bernardo dos Foros, Serafim Amaral, Joaquim Belo Marques, José Alves Pereira e Sousa (estes dois já fugidos da polícia política), Custódio Maldonado de Freitas (farmaceûtico, de Caldas da Rainha). O caso aconteceu aquando da passagem do comboio que transportava os Regimentos de Artilharia 4 e Infantaria 7. Estes regimentos vinham de Lisboa para por termo ao clima de agitação civil (ainda não era a revolta dos vidreiros) que se fazia sentir na Marinha Grande. Estes activistas planearam o corte dos fios telefónicos e telegráficos, bem como o rebentamento da linha de caminho de ferro, inseridos no contexto de um Golpe de Estado contra a ditadura. As linhas telefónicas foram cortadas em Ganilhos (localidade perto de Aljubarrota), a 2 km, da vila de Alcobaça. As linhas telegráficas, por sua vez, foram cortadas perto de Pataias. Por fim, o atentado à linha de caminhos de ferro, foi realizado ao km 137,960 da via férrea. Os elementos operacionais foram fundamentalmente, Alberto Serrano de Sousa, Bernardo da Silva, Manuel Ferreira Quartel, Alfredo Bernardo dos Foros e Lino Catarino.




Os processos de averiguações, junto da Delegação de Alcobaça da Polícia de Segurança do Estado, por parte de alguns dos intervenientes no processo, os que mais directamente estiveram envolvidos e que não fugiram do país, decorreram entre Janeiro a Novembro de 1931.




A 14 de Janeiro de 1931, conjuntamente com o Administrador do Concelho Manuel da Silva Carolino, compareceu na qualidade de testemunha Joaquim Tereso de Figueiredo, para esclarecer se tinha estado com Bernardo da Silva (empregado de José Sanches Furtado) no dia anterior, ao que respondeu que tinha visto a pessoa em causa a conversar com José de Morais.




No mesmo dia, compareceu para depor Raúl Ferreira da Bernarda, para se averiguar se tinha visto no dia anterior Alberto Serrano de Sousa, a caminho de Pataias. A resposta foi positiva, pois declarou que quando estava à espera da camionete viu Alberto Serrano de Sousa dentro do automóvel de Joaquim Ferreira da Silva, conduzido por José Faibner, seu empregado, os dois supostamente a caminho de Pataias.




Por fim, compareceu o motorista Manuel Marques, a quem foi perguntado onde tinha estado no dia anterior, 13 de Janeiro, ao que respondeu que estava na praça de táxis quando chegou Bernardo da Silva a saber se o carro estava disponível. A sua resposta foi negativa, tendo no entanto dito que poderia fazer o serviço mas apenas no carro do seu colega José Moreira. Então, foi lhe solicitado que guiasse o automóvel até à casa de Raimundo Ferreira Daniel e daí para Pataias, para a casa e estabelecimento de José Tereso de Figueiredo. No local, Bernardo e Tereso falaram, ao que lhe foi ordenado de seguida, que regressasse a Alcobaça em direcção à oficina de Albertino Ferreira.




A 16 de Abril, compareceu José Sanches Furtado para ser interrogado a propósito do seu empregado Bernardo da Silva. Foi-lhe perguntarado se tinha ido com este no dia 13 a Pataias, ao que respondeu que não, pois encontrava-se em casa quando pelas 11,00h telefonou o seu empregado a pedir autorização para ir a Pataias falar com um empreiteiro de estrada, sobre um negócio de gasolina (o visado era agente da Companhia Petróleos e Gasolina conjuntamente com Bernardo da Silva). Foi ainda lhe perguntado se conhecia um indivíduo dos Montes, chamado Fernando, pois tinha sido enviado para este um bilhete em seu nome, a pedir para levar uma égua ao apeadeiro de Pataias, o que este negou.




Após um breve período, durante o qual o paradeiro esteve incerto, compareceu no dia 6 de Novembro, perante as autoridades, Bernardo da Silva. Relatou que no dia 13 de Janeiro cerca das 10,15h da manhã o seu patrão José Sanches Furtado lhe confidenciou que nesse dia havia chegado a Alcobaça um indivíduo chamado José Alves Pereira de Sousa (José Tezo), o qual juntamente com o farmacêutico Joaquim Bello Marques, haviam encarregado o cunhado de Bernardo da Silva, o Alberto Serrano de Sousa, de ir dinamitar a linha férrea. O interrogado contou mais que no dia 9 de Janeiro à meia-noite andava a passear com o seu cunhado Alberto Serrano de Sousa, quando chegou junto dele Acácio Morais para o informar que Maldonado de Freitas (na altura farmacêutico nas Caldas da Rainha) se encontrava na farmácia Campião-Alcobaça a conversar com Joaquim Ferreira da Silva, tendo-lhe sido pedido para ir chamar o seu patrão José Sanches Furtado. Posteriormente, este lhe teria dito que a ordem para avançar com o plano do corte dos fios telefónicos e telegráficos e da sabotagem da linha férrea, teria sido dada em carta lacrada, que Maldonado de Freitas entregara a José Sanches Furtado para a fazer chegar a José Carlos Afonso (sócio da Companhia de Moagem Leiriense).




Foram ainda interrogados Serafim Coelho do Amaral, João Pereira da Trindade, David Pinto, Afonso Justino, Amadeu dos Santos, Faustino Policarpo Timóteo, Francisco Pereira Quartel e Alfredo Bernardo, mas os respectivos autos de declarações não estavam acessíveis no processo consultado pela Profª Zulmira Marques.




Depois destes acontecimentos conseguiram fugir para Espanha, Joaquim Belo Marques, Joaquim Ferreira da Silva e José Sanches Furtado, enquanto foram presos Manuel Ferreira Quartel, Lino Catarino, Alberto Serrano de Sousa, Custódio Maldonado de Freitas e Bernardo da Silva.




Seja com for, no rescaldo do 26 de Agosto de 1931, o Conselho de Ministros decidiu eliminar os funcionários do Estado, suspeitos estarem contra a Situação. Mas em de Dezembro de 1931, por ser Natal,segundo O Ecos do Alcoa, o Governo da República, mostrando mais uma vez os desejos de pacificação e os seus sentimentos e clemência, autorizou o regresso de alguns deportados políticos, entre os quais vimos os nomes dos nossos conterrâneos Serafim Amaral, Lino Catarino e João Pereira da Trindade, por quem e por cujo regresso ainda há pouco tempo e expontaneamente se empenhou a Comissão Concelhia da União Nacional. O Governo da Ditadura e da Rèpública procedendo assim para os inimigos no momento em que nos bastidores revolucionários se preparam novas arremetidas contra a segurança do Estado, demonstra uma confiança e uma força que muito nos aprás registar. Oxalá que aos que regressam o passado sirva de exemplo.



O primeiro grande afrontamento reviralhista, a nível nacional, que fez tremer a ditadura, ocorrera entre 3 e 7 de Fevereiro de 1927, chefiado pelo Gen. Sousa Dias, sempre ele, com o apoio de personalidades, como o Comdt. Jaime de Morais, cap. médico Jaime Cortezão, cap. Sarmento Pimentel. Durante uns cinco dias, a guerra civil assentou arraiais na Praça da Batalha-Porto, tendo o movimento sido secundado três dias depois em Lisboa numa revolta dirigida pelo Com. Agatão Lança e Almirante Luís da Câmara Leme. Essa morosidade acabou por ser determinante, fatal, e o movimento fracassou. Os revoltosos acabaram por não lhes ver reconhecida, tal como noutras circunstâncias, a qualidade de paladinos do dever, vindo cerca de um milhar a ter de recorrer ao exílio ou sofrer a deportação (Madeira. Açores, Angola, Guiné e Timor). Esta revolta veio a ser conhecida como A Revolta Sangrenta. As forças da Ditadura, acabaram por vencer em toda a linha, e dos confrontos resultaram cerca de duzentos mortos e um milhar de feridos.



Em Janeiro, os partidos haviam enviado notas às Embaixadas em Lisboa, recusando assumir eventuais responsabilidades no empréstimo estrangeiro, que o novo Governo tinha solicitado, sem cobertura do poder legislativo. Era a abertura de hostilidades em mais uma frente. Afonso Costa embora demitido da sua representação na Sociedade das Nações, vinha com alguma frequência a Portugal, agitar os espíritos e o ambiente.




A Ditadura impôs de imediato o saneamento do funcionalismo, encerramento de Associações Secretas, supressão do direito à greve, e outras medidas repressivas. Salazar, no acto de posse em 27 de Abril de 1928, tendo na mão um pequeno papel de notas, havia proferido frases tão lapidares como sem muito bem o que quero e para onde vou, o que ninguém durante a Republica ousara ou fora capaz de dizer. O tempo de João Franco já lá ia, há cerca de vinte anos e falhara.




Salazar, na sua severidade algo desdenhosa, pretendia ensinar, com o poder que a pasta das Finanças lhe conferia que, o País precisa sobretudo de ter na sua (dele) inteligência e honestidade uma absoluta confiança. Dessem-lhe tempo, que aliás não podia ser de poucos meses. Entretanto o País podia estudar, representar, reclamar, discutir, que o fizesse como entendesse, todavia em limites que se veriam oportunamente. Mas, que obedeça quando chegar a hora de mandar. Foram frases que ficariam gravadas nos anais da nossa História. Pouco tempo depois, na mesma linha, declarou numa entrevista a O Século que, eu só falo quando quero e só digo o que quero quando falo. Iniciava-se um poder absoluto, a cuja oposição correspondia o risco ou a ameaça de partir para o exílio ou prisão.

.O ano de 1931, foi mais tarde considerado, como o ano de todas as conspirações, de certo modo tão complicado como trinta anos depois haveria de ser 1961, se é possível comparar. Aproveitando para apoiar o descontentamento popular decorrente de medidas para resolver a chamada crise das subsistências, um grupo de deportados políticos levados para a Madeira, de onde se destacava o Ten. Manuel Camões, em ligação com unidades militares do Funchal, proclamou o estado revolucionário, A República da Madeira, prendeu autoridades civis e militares, ocupou alguns serviços públicos e obteve a colaboração, sempre pronta, do Gen. Sousa Dias. Da Madeira, chegaram inúmeros e veementes apelos ao Continente, cuja adesão não se consumou, apesar do clima de agitação que se vivia. Em Espanha acabava de se implantar a II República. A Revolta da Madeira, que ainda chegou a estender-se aos Açores, S. Tomé e Príncipe e Guiné, terminou com o envio de expedições militares, comandadas pelo próprio Ministro da Marinha e com o apoio do governo britânico. Em Alcobaça, o acontevimento foicomentado depreciativamente no Ecos do Alcoa, os revoltosos da Madeira tentaram vender cara a rendição. Reconhecemos hoje ter-lhe feito uma Justiça que não merecem. A luta no Funchal, acabou por demonstrar a mais ridícula e vergonhosa das abdicações. Tudo foi ridículo. Desde os mais espaventosos rádios, anunciando ao Mundo a derrota das forças governamentais, a destruição dos nossos vasos de guerra, até aos rádios que a Liga de Párias enviava para a Madeira anunciando a queda do governo, a marcha das tropas sôbre Lisboa, até ao célebre aguentem-se até ao dia 1 de Maio, tudo, tudo, foi vergonhoso e queixotesco. E… bastou que Sousa Dias dissesse se quizerem fugir, fujam porque eu fico, para que todos os valentões fossem pedir guarida a bordo de barcos e nas casas em que tremulava ao vento a bandeira inglesa.




Com mais ou menos propaganda de agitação, com origem em Lisboa ou na província, o ambiente nacional andava enevoado pelo que o governo se viu na necessidade de mandar publicar em meados de Novembro, de 1931, uma Nota Oficiosa: Tendo-se feito espalhar boatos para alarmar a opinião pública fazendo-se crer na possibilidade de graves alterações da Ordem Pública por elementos comunistas, o Governo pode, desde já afirmar ter tomado todas providências para jugular qualquer movimento com aquele carácter ou outro, sendo enexorável na repressão que haja de fazer, para garantir à população o sossego a que tem direito.



O termo Reviralho, chegou a ser utilizado e assumido e sem complexos, pelos próprios apoiantes no País e em Alcobaça, como alguns por tradição oral ainda hoje recordam. A relevância da expressão foi tal, que um jornal republicano, publicado clandestinamente em Lisboa, no Verão de 1927, se intitulava O Reviralho. Porém, entre os sectores mais à esquerda, como o PC e anarquistas, o termo ganhou uma conotação associada à ideia de um processo político que, apesar de se pretender revolucionário, era inconsequente, ineficaz, e acabava por ocupar indevidamente o espaço político e de acção dos verdadeiros revolucionários, como eles se reputavam. O Reviralho surge como um messianismo ligado a um outro D. Sebastião, O Reviralho que há-de vir....




O Reviralhismo, decorre também como vimos de uma esquerda republicana político-intelectual afastada do poder com o 28 de Maio e dos militares irrequietos, ligados às intentonas da I República. A este grupo associa-se parte da intelectualidade liberal portuguesa, com destaque para o grupo da Seara Nova, que ficaria conhecido pelos seareiros, onde sobressai António Sérgio. Quando ficou patente o carácter ditatorial do regime e se esboroaram as esperanças na sua transitoriedade, associaram-se ao Reviralho alguns sectores do centro e centro-direita, ligados aos antigos partidos democráticos e liberais, que tendo apoiado ou consentido tacitamente a instauração da ditadura, deixariam de se reconhecer nela.




O movimento reviralhista veio também a ser apoiado pelo menos tacticamente pela esquerda radical, aí se incluindo o PC e a Confederação Geral do Trabalho, CGT, que, embora duvidando dos méritos dos golpes militares, secundavam-no como forma de minar a estabilidade do regime.




O reviralhismo não foi, repete-se, um movimento uniforme, tendo-se movimentado num campo político-dialéctico, de maneira tanto mais rica e contraditória, quanto o seu apoio social de base se foi empobrecendo. Os protagonistas do reviralho, dada a heterogeneidade da sua base de apoio, a politização do operariado da metalomecânica, ferroviários, indústria do vidro, e de alguma população urbana, que tinha resultado das grandes convulsões sócio-políticas da fase final da Monarquia e da I República, eram muito diversos. Os reviralhistas, como constatámos em Alcobaça, distribuíam-se por diversos sectores sociais, pouco mais tendo em comum do que algumas difusas razões que animavam as suas convicções políticas, mas nunca foram muito numerosos, constituindo uma elite, na acepção literal e redutora da palavra. Esta unidade na diversidade, era paradoxalmente o factor de coesão mais forte e um dos que melhor ajuda a individualizar o conceito de reviralhismo, enquanto grupo.




Embora sem perder de vista a sua natureza essencialmente não organizada, já que não dispunha de estruturas orgânicas, nem hierarquia institucionalizada, o Reviralhismo pode-se considerar um movimento conduzido pelo escol desapossado do poder, onde predominavam antigos ministros, senadores, deputados, militares, quadros da administração pública, comerciantes, professores e muitos profissionais liberais. Nesse contexto, a profundidade das crenças e do ideário que os animava era aparentemente grande, já que eram levados a agir em situações adversas, nas quais o destino previsível, quase inevitável, perante o insucesso, era o afastamento de Exército, da Função Pública, a deportação para as ilhas, colónias, o exílio ou a prisão. No limite, era a morte, o que aconteceu a alguns participantes nos movimentos revolucionários deportados para o Tarrafal.




Até ao final formal do reviralhismo, e mesmo depois, nunca deixou de estar presente uma corrente, minimalista no programa político, e maximalista na constituição do bloco político, que assentava o principal objectivo no derrube do Estado Novo, mesmo que em sua substituição surgisse um outro regime forte, ainda algo indefinido, liderado talvez por um militar, mas capaz de garantir a transição democrática. Aqui se enquadravam as candidaturas de Norton de Matos e Humberto Delgado.




A dualidade de propósitos do Reviralhismo, associada à memória ainda viva das lutas travadas durante a I República, onde muitos do reviralho se tinham posicionado em campos opostos seria, ao fim e ao resto, o principal motivo de desunião entre as várias sensibilidades, acarretando a falta de coesão na acção e a indefinição estratégica do movimento. Esta situação, contrastava com a crescente união em torno de um projecto comum, que caracterizava e radicalizava os apoiantes do novo regime autoritário-corporativo. Ricos ou pobres, católicos ou ateus, republicanos ou monárquicos, fascistas ou democratas, civis, militares ou mesmo donas de casa, esperaram por uma Revolução que lhes desse tranquilidade e aspirações.




Sentindo-se reconfortada pela evolução política europeia, onde era crescente a fraqueza dos regimes democráticos, como em Itália onde Mussolini pôs a pata, no dizer de Vasco da Gama Fernandes,a escrever de Valência de Alcântara-Espanha, para o Voz de Alcobaça, e na Alemanha, a direita anti-liberal portuguesa reforçara-se com algumas alianças tácticas e de circunstância no republicanismo conservador. Tinha agora consigo o grosso das Forças Armadas, da Igreja, do povo em geral conservador, analfabeto e apolítico das zonas rurais.




Embora o golpe não tenha sido a única forma de oposição à ditadura, particularmente a partir de 1931 quando foi constituída a Aliança Republicana e Socialista (ARS), apenas uma parte minoritária da oposição parecia acreditar na possibilidade de uma transição democrática, via processo eleitoral. Tal explica que mesmo os elementos mais destacados dos movimentos que advogavam a transição pacífica, acabassem por participar nas intentonas reviralhistas. Se o poder ditatorial se instalara pela força, também só pela força poderia ser desalojado. Esta crença era em geral aceite, mesmo pelos grupos ou indivíduos que se posicionavam fora do bloco reviralhista, embora na oposição não comunista, nem anarquista.



Ao privilegiar a estratégia insurreccional, a acção do Reviralhismo ficou aliada à instrumentalização das unidades militares especialmente sediadas em zonas mais urbanas. Para tal, tentou constituir no seio dessas unidades núcleos clandestinos, os quais eram enquadrados politicamente por civis, provenientes maioritariamente, do funcionalismo público, comércio e profissões liberais, onde normalmente se integravam alguns advogados.




Neste aspecto, o Reviralhismo manteve e reproduziu algumas semelhanças com formas organizativas e as tácticas que caracterizaram os movimentos revolucionários da fase final da Monarquia e da I República, fiel à que tinha sido a base político-social do republicanismo. Na selecção de operacionais foi dado relevo aos ferroviários, motoristas, empregados dos telefones e telégrafos e muto especialmente os que possuíssem experiência na manipulação de material bélico e explosivo, instrumentos indispensáveis nas intentonas. Estes operacionais, eram em geral arredados do conhecimento do plano de acção, até pouco antes da sua prevista eclosão do movimento.




Face às perturbações que as suas acções provocavam na vida das populações, pelo cansaço e repúdio ao golpismo que décadas de instabilidade republicana tinham inevitavelmente trazido à generalidade da população portuguesa, este reviralho teve fraco apoio na opinião pública, sendo-lhe naturalmente adversos a Igreja, as famílias e os grandes meios de comunicação social, sujeitos a censura. As dificuldades de comunicação e de imagem do Reviralhismo eram grandes, nunca tendo conseguido fazer chegar uma mensagem forte junto do grande público, especialmente o rural. Muitas das características da ditadura, e depois do salazarismo, resultaram da sua propagada intenção de conter a restauração do republicanismo democrático, parlamentarista e anticlerical. Embora algum republicanismo conservador tenha consentido tácita e inicialmente a ditadura como referimos, e os salazaristas tivessem procurado integrar no seu projecto esta corrente, por razões de oportunismo e sedimentação, mas não de convicção, o que aliás foi recíproco, as arremetidas conspiratórias do republicanismo de esquerda e das suas adjacências comunista e anarquista, exerceram uma profunda influência sobre a estruturação e consolidação do novo regime, com destaque para a instauração em breve da censura e a criação da polícia política.




A criação da União Nacional, em 1930, surge no contexto da resposta da ditadura e das forças que a apoiavam, à pressão do reviralho, procurando, através do enquadramento das elites a que apelava e dos quadros do funcionalismo público conservador, até aí com forte influência republicano-democrática, reduzir a influência revolucionária e introduzir mecanismos de controlo e de redução das tensões. Assim se criava um espaço controlado onde, pelo menos formalmente, era permitida a participação cívica. Na prática, este objectivo era pouco consensual, não era bem assim em 1930, pelo menos em Alcobaça.




Registe-se que um grupo de 4 indivíduos que se supõe serem funcionários do Fisco, surpeenderam na estrada de Pataias uns carreiros que vinham buscar cal, saqueando-lhes os bolsos; o mesmo aconteceu a vários trabalhadores que andavam nos seus trabalhos ali próximos, que foram intimados a mostrar os seus fatos; nada foi encontrado a uns e outros, apenas a um pobre homem de Fanhais, a quem chamam O Pireza, foi aplicado uma multa por lhe ser encontrado na algibeira um canudo de fazer isca.




Não obstante esses lamentáveis acidentes de percurso, a que as novas autoridades político-policiais não davam expressa cobertura, a ditadura consolidou-se e anular em parte o reviralhismo, fazendo uso das condições sociais e do enquadramento externo que a vitória franquista em Espanha, lhe potenciou.




Numa atitude que não terá sido comum entre os reviralhistas, o capitão Nuno Cruz, vagamente aparentado com a nossa família portuense pelo lado materno, que viria a morrer no exílio em Madrid, depois de uma acidentada fuga da prisão, por participação numa intentona, reconheceu que, apesar do grande empenhamento de todos os participantes, nunca fora possível juntar forças militares bastantes para vencer e apontava como causa do fracasso a dolorosa verdade em que muitos se recusam a crer, sendo sempre mais fácil procurar as causas do insucesso nas fraquezas do nosso campo, que gostosamente se espiolham, do que na força do inimigo, que sempre ao nosso orgulho custam a reconhecer.




O fracasso da oposição à ditadura em que se traduziu o ano de 1931, em particular o insucesso do movimento de 26 de Agosto e a eficácia da repressão que se lhe seguiu, marcou o Reviralhismo. É portanto, por esta altura, que se vão desnudando alguns factos do tempo da República.




Assim nos relata, por exemplo, o Ecos do Alcoa, de 10 de Setembro de 1931, sob a epígrafe-A Honra… do Partido Democrático-:




Meu Ilustre e Querido Amigo Pimenta, não conseguimos apurar quem seria este senhor Pimenta: Não se esqueça de me recomendar o assunto que sabe e além disso receber o portador, nosso querido amigo e cooreligionário João Branco que tratará junto de si dum assunto que muito me interessa e pelo qual tenho o maior dos empenhos. Um amigo nosso, (não conseguimos também apurar a sua identidade), foi condenado pela Boa Hora em dois meses de cadeia por um assunto que ele lhe contará. É necessário que pelo Ministério da Justiça seja deferido um requerimento que se deve fazer, a fim de a pena ser cumprida na Cadeia de Alcobaça, onde se arranjarão as coisas de forma a ele nem sequer lá dar entrada. É um caso de menos importância e pelo qual a política que defendemos e apoiamos se interessa e faz caso de honra. Já vê por isso, o meu amigo, o quanto é urgente e preciso que isto se consiga e faça. Mande no seu afeiçoado e Amgº Obgº
José Henriques Barreto
(Admnistrador).



.Uma das lembranças fortes da infância de alguns alcobacenses mais idosos é o coreto, um exemplar talvez não muito interessante, mas que dominava o principal largo da vila de Alcobaça, isto é, a praça fronteiriça ao Mosteiro. Esta praça, além dos nomes que assumiu sucessivamente conforme as circunstâncias, foi como sabe bastante alterada com intervenções mais ou menos felizes e o coreto já não está há muitos anos, desde meados dos anos trinta, graças a decisão (pouco feliz) de Manuel Carolino. Foram, porém, muitos os concertos que ali se deram, abrilhantados pelas bandas da Cela (com o maestro Melro), Vestearia, Pataias, Maiorga e Filarmónica de Alcobaça (longe ainda estavam os tempos da Orquestra Típica e Coral), com o seu reportório de qualidade, que incluía música clássica, árias de óperas, além das marchas e peças populares de raiz mais ou menos folclórica. As pessoas ocupavam o espaço fronteiriço imediato onde havia vários choupos, as famílias passeavam e algumas levavam mesmo cadeiras, para assistirem mais comodamente ao espectáculo. Mas isso já lá vai. É pena, porque a Música Ao Ar Livre, nesses tempos da outra senhora, criava uma atmosfera positiva e ocasionava animação. Afinal, eram bons espaços culturais, uma reivindicação habitual dos nossos eruditos locais de hoje.




A Banda, aproximava-se em passo certo, cadenciado, largo, ao som de uma marcha. À frente vinha o maestro, muito hirto, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, postava-se até um homem que vendia jogo, e nesse momento se esquecia de apregoar a sorte grande. Indiferentes, as meninas-famílias continuavam a venda de rifas ou o peditório para os bombeiros, tal como os vendedores de tremoços ou pevides.



Os coretos fazem parte da história urbana. Era lá que se realizavam os concertos das Bandas de Música e outras apresentações. Porque será que na nossa época já não há coretos para as Bandas de Música realizarem concertos? Caíram em desuso, bem sabemos. Hoje prefere-se as salas de espectáculos, com condições ambientais e acústicas, som apropriado e outros requisitos. Acreditamos, todavia, que teria cabimento haver um Coreto em Alcobaça. Nós vimos actuar bandas em coretos ou outros locais ao ar livre, por essas cidades da Europa, especialmente no verão da Alemanha e Áustria. Porque cá não mais, seguindo uma boa tradição portuguesa?




Era por ali que também se realizava, ao Domingo, o Mercado Semanal, muitíssimo concorrido, e onde se vendia de tudo, especialmente aos alcobacenses das redondezas, que se deslocavam em família, bem aperaltados, em burros ou carros de bois. Para complementar a atracção e o movimento, que por vezes eram tão intenso que as pessoas andavam aos encontrões, funcionavam umas lojas no primeiro andar da Ala Norte do Mosteiro. Para guardar os animais durante o dia, havia vários locais espalhados pela vila (Piçarra, Portas de Fora e até ao lado do Palácio do Pena), onde lhes era dado palha e recolhidas as necessidades, para depois se vender como estrume. Como se chegava ao mercado?




Vinha-se a pé, a cavalo, em carros de bois, ou mais tarde na carreira. O dia de mercado era festivo. As pessoas vinham com os seus melhores fatos. No mercado, tudo tinha o lugar ostumeiro, nos mesmos sítios há um ror de anos. Tudo se encontrava arrumado pela mesma ordem e na mesma hora. Os que vendiam tinham o seu cantinho reservado. Os que compravam sabiam onde encontrar o que precisavam. Armavamm-se as barracas de madeira e lona onde eram expostos e vendidos a fruta, hortícula e os artigos manufacturados. O visitante encontrava roupa feita de lã ou algodão, ferragens, cutelarias, calçado e chancas, bem como quinquilharias. As mercadorias vendidas no mercado constituíam o essencial para as necessidades do povo. Ao lado da área dos produtos que o lavrador vendia, encontrava-se a dos produtos que o lavrador comprava. Se já não se encontram mais o burel, o linho ou a estopa, não faltam num mercado dos nossos dias os tecidos de algodão, de nylon, de terilene, os tapetes e as mantas, os produtos chineses etc.. Júlio Correia, que trabalhou muitos anos na construção civil em terras de França, lembra-se muito bem como era o mercado do seu tempo de meninice. Comecei a vir vender tinha nove anos. Naquela altura fazia os sete quilómetros descalço, em cima do gelo e tudo, porque o meu pai não tinha dinheiro para me comprar sapatos, diz, adiantando que os calos que ganhou serviam de sapatos. Vinha carregado com abóboras, feijão e outras coisas, como galinhas e coelhos, refere ainda Júlio Correia.



No mercado semanal dos nossos dias já não se encontram as malgas de Málaga, da Corticeira ou de Massarelos, mas não faltam a louça inglesa e chinesa. Os utensílios em madeira estão a desaparecer. As gamelas foram substituídas pelas bacias de plástico. Já não há também garfos de ferro. Os talheres vêm de Guimarães ou da Benedita, e os vidros se não da Marinha Grande, talvez do Oriente. Não podemos deixar também de referenciar aqui algumas figuras típicas do mercado, como a mulher dos tremoços, a vendedora dos doces cobertos de açúcar, o homem que reparava os guarda-chuvas, as aguadeiras ou mesmo o aldrabão da feira (o tradicional vendedor da banha de cobra).

REGEDORES EM ALCOBAÇA (no termo da República e durante o Estado Novo)

Os vícios da I República.

O Decálogo do Estado Novo, segundo António Ferro.

O Reviralho.

O último Regedor da I República, na freguesia da Maiorga (António Fadigas).

O primeiro Regedor, do Estado Novo, na freguesia de Alpedriz e a barriga do boi.

Um Regedor no Vimeiro-Alcobaça.

Uma boa Feira de S. Bernardo.

O circo desceu à cidade.

Os robertos e o vendedor da banha da cobra.

Um baeta especial e um outro encontrado no depósito de água, de Caldas da Rainha.

O atentado contra a linha férrea e telegráfica, em Pataias.

O 7 de Fevereiro de 1927.

1931, o ano de todas as conspirações.

A Profª Zulmira Marques

O Pireza foi assaltado por pessoal, possivelmente, do Fisco, na estrada de Pataias-Alcobaça.


A música no coreto da Vila(como é bonita) e o mercado semanal.







Estado Novo é a designação que o regime saído do 28 de Maio de 1926, assumiu após a entrada em vigor da Constituição de 1933.



Para os jovens que nasceram por alturas do 25 de Abril de 1974, e se tornaram adultos em clima de democracia, o salazarismo e a sua retórica são velharias bafientes de um passado enterrado, que nem concebem.




Mas nem por isso, deixa de ter interesse recordar, especialmente para eles, a miséria que foi o facciosismo ou fanatismo do poder, as manobras de bastidores que viciaram durante quase cinco décadas a vontade colectiva.




Estas notas não são isso, muito menos só isso.




São histórias de pessoas ou instituições, ainda que meras curiosidades, onde cabe o feel good, que diz respeito a pequenos e simples prazeres, como a comida, saúde, a diversão ou mesmo a calhandrice e algumas coisas menos agradáveis ou recomendáveis.



A Constituição de 1933 nasceu da necessidade de legitimação e consolidação do regime nascido de um golpe militar que pusera cobro a uma democracia parlamentar, cujo governo concentrou em si os poderes executivo e legislativo, passando a governar, legislar, por meio de decretos com força de lei.




A 31 de Maio de 1926, acabada a primeira experiência (pretensamente) democrática em Portugal, alguns deputados ao saírem da sala de sessões do Congresso, ainda clamaram um Viva a República.




O regime parlamentar mais instável da Europa, tinha caído, e iria dar lugar ao sistema autoritário mais longo da Europa.



Porque razão caiu a I República?




Não cabe no âmbito e na economia deste texto fazer essa análise.




Perfunctoriamente se dirá que na primavera de 1925, a República Parlamentar havia chegado a um beco sem saída. Quem lesse o Diário das Sessões das Câmaras do Congresso, podia chamar a este, como aconteceu com alguma propriedade, a sala do permanente Carnaval. Durante o último ano da República, houve quatro tentativas militares para derrubarem o governo, mas só a última, a 28 de Maio de 1926, conseguiu o objectivo. Em 1926, os portugueses em geral tinham perdido as ilusões sobre as virtualidades do regime que fora a primeira tentativa persistente de Portugal, para estabelecer e manter uma democracia parlamentar.




Apesar das intenções e dos generosos ideais republicanos, não foi possível criar um sistema estável, progressivo e duradouro. O regime foi prejudicado pela frequência da violência pública, pela instabilidade política, pela falta de continuidade administrativa e (no que nos parece altamente relevante) a incapacidade de encadear um projecto, supostamente progressista, num país sem cultura de literacia, de pão, de habitação ou de justiça.




Com 45 governos, em quinze anos e oito meses, a República foi um regime onde a instabilidade foi elevada ao mais alto nível, as paixões se chocavam, o edifício social era impotente para segurar as forças que permitiram aos militares derrubá-lo e estabelecer uma Ditadura (desta vez um novo regime e não apenas mais um governo).




Pensadores (idealistas) de esquerda, acusaram a República de ser demasiado fraca, lenta e tímida nas reformas e no suporte nos seus ideais.




Críticos da direita (não democrática), e de alguns republicanos, coincidiram no ênfase, que dadas as estruturas e condições políticas, o colapso era inevitável.




O historiador Oliveira Marques escreveu que, a República, não era o começo de algo estruturalmente novo, mas antes a última fase de algo que começara muito antes em 1820. A República significou o clímax de um processo, o resultado natural da evolução do liberalismo monárquico, pelo que não teve futuro.




Devia morrer e ser substituída por algo completamente diferente. A opção dos tempos era porém o fascismo.




Apesar das medidas, logo seguidas de contra medidas, a opinião pública, continuava em maré desfavoravelmente crescente. A imprensa, cada vez mais hostil e virulenta, tentava convencer o público, especialmente o urbano, que a salvação nacional passava por algo mais profundo que uma simples mudança de governo.





Esta campanha, que encontrava ressonância em discursos, mesmo no Congresso, bem como nos directórios de alguns partidos, passou a mensagem que a República se esgotara, que o sistema impunha uma mudança radical, mesmo que para tal fosse sacada a ferros.




A conspiração era quase o modo de vida de alguns políticos no tempo da República.




Não era só a direita conservadora que queria mudar o governo, mas também uma esquerda que pretendia derrubar os Democráticos e desarticular o seu domínio sobre as eleições para o Congresso.




O certo é que era bem mais fácil fazer protestos, desenvolver tácticas destrutivas (de direita ou de esquerda), levar a cabo intentonas, do que organizar um verdadeiro Golpe de Estado.




Para isso, era necessário dispor de chefes prestigiados e hábeis, que dessem respeitabilidade ao movimento, que precisava de unidade, aonde só então havia desunião e conflitos (muitos de origem pessoal). O movimento que veio a dar origem ao 28 de Maio, conjugou os esforços, desde logo, para desacreditar as forças no terreno, bem como, para convencer as Forças Armadas a juntarem-se à conspiração.




É errado considerar o 28 de Maio, como um movimento puramente militar, se bem que, tenha sido em grande parte um movimento de Oficiais do Exército, embora no contexto da rivalidade politica e da luta pelo poder, a que não eram alheios. Apesar das suas origens, a Ditadura não foi um regime militar, salvo na fase inicial até 1928, em que os militares administraram o Estado. Outrossim, foram os civis, entre os quais, prestigiados universitários que passaram a formularam a política.




A complexidade da conspiração, que levou ao pronunciamento, leva-nos a relevar duas características fundamentais que o distinguem de qualquer outro, durante a República:




-Não houve derramamento de sangue e;




-O País soube que Oficiais se encontravam a planear um movimento sério, antes mesmo, de sair para a rua.



Assim, a reacção à queda do Governo de António Maria da Silva foi inicialmente, não de incredibilidade ou reacção, mas de confiança ou expectativa. A impunidade e o desespero dos anos de 1925 e 1926, tinham-se espalhado pelo País, já que no campo político uma conspiração gerava, tradicionalmente, uma outra. Tinha havido, muitas intentonas, antes do 28 de Maio, e depois dele, ainda haveria mais (mas a partir daqui sempre goradas, até ao 25 de Abril), e se a Revolução de 1926 não foi a panaceia para as dificuldades dos portugueses, a verdade indiscutível é que República não conseguiu mais recuperar do golpe que recebeu. O regime iniciado com a Ditadura, estabelecida em 1926, atingiu a maior idade, nas décadas de 1930/1940, entrou em diversos graus de degeneração, a partir das décadas de 1950 e 1960.




Apesar do falhanço da República, esta permaneceu como uma referência na mente e no coração demais que uma geração de portugueses. Os primeiros republicanos, desejavam ganhar o respeito da Europa (diz-se que isso foi determinante na decisão de fazer Portugal entra na Guerra), e muito especialmente os moderados lamentavam o terror popular que esta procurava ou em que se deixava enredar. Desejavam uma sociedade justa, um Governo respeitável, de que os cidadãos se pudessem orgulhar. Estes ideais não morreram, com a Ditadura ou com o Estado-Novo. Alguns líderes viveram até ao fim, na esperança de dias melhores. A História, como se sabe, raramente dá aos revolucionários a liberdade de escolher os seus momentos de poder ou de montar o seu cavalo. A tragédia dos primeiros republicanos, foi que a sua oportunidade coincidiu com a I Guerra, lançou o alarme sobre as colónias de África, e com a pior crise económico-financeira que o País recordava, o que impediu a satisfação das aspirações de várias classes.



Quando um republicano e democrata, como Adelino Palma Carlos, tomou posse como primeiro-ministro a 15 de Maio de 1974, declarou: (…) Aqueles que nunca conheceram a liberdade, terão talvez dificuldade em compreender, senão talvez depois da experiência à beira da qual pairamos que ela requer de todos uma autodisciplina para que se evite que a nossa liberdade acabe com (a liberdade) dos outros. Os homens da minha geração, que conheciam a liberdade, que a perderam depois e só agora a recuperaram, não precisam de aprender esta lição; mas tal como tentamos manter a chama da nossa fé, assim também esperamos que este conceito seja compreendido e que cada indivíduo espere com paciência e disciplina, que as suas ambições se concretizem. O Mundo novo que todos nós desejamos, não pode ser construído sobre o ódio. (…)



É mesmo de algumas curiosidades desse tempo que também iremos falar. Mas não esquecemos, repete-se, as não-curiosidades tão importantes como a ausência de liberdades cívicas, como a de associação ou da imprensa, a repressão dos adversários políticos, a censura prévia, os presos políticos e os tribunais plenários. Enfim, esses atropelos às liberdades do cidadão que foram amplamente praticados ao longo de 48 anos. O Estado Novo adquiriu depois do 25 de Abril um novo apelido. Saiu da longa noite e tornou-se O Antigo Regime.



O período cronológico que corresponde ao Estado Novo pode, pois, compreender-se entre 11 de Abril de 1933, data da promulgação e entrada em vigor da Constituição plebiscitada por um pouco mais de milhão e meio de portugueses, cujo projecto deve ser essencialmente atribuído a Salazar, ainda apenas Ministro das Finanças, assessorado por colaboradores muito próximos, como os Professores da Faculdade de Direito de Coimbra, Fezas Vital, José Alberto dos Reis, Manuel Rodrigues ou Mário de Figueiredo e ainda o jovem e prometedor Marcelo Caetano, e o 25 de Abril. O processo foi iniciado com a Ditadura Militar que, por sua vez, saiu do golpe de 28 de Maio, até ao outro golpe de 25 de Abril, de 1974. Entre 1926 a 1933, decorre a fase de transição da Ditadura Nacional para o Estado Novo, sete anos de ditadura assumida, após a queda da I República. Inicialmente, terão havido algumas dúvidas sobre se o regresso a uma normalidade constitucional deveria passar pela aprovação de uma nova lei fundamental ou pela revisão da Constituição de 1911. Vingou a primeira tese, depressa dissipada a outra, o que foi considerado na imprensa como notícia sensacional, logo que se soube da existência de um projecto em curso. Com o governo do Gen. Domingos de Oliveira, em Janeiro de 1930, e o início da implantação dos ideais salazaristas, começam a ficar criadas as condições para a sementeira de uma nova ordem, interpretada e até advinhada pelos homens de escola que sabem dar consistência a tendências latentes, mas ignoradas ou passivas no seio da sociedade. Em 5 de Julho de 1932, Salazar tornou-se o primeiro civil a chefiar um governo depois do 28 de Maio. Para consumo externo, Salazar continuava a projectar a imagem de um homem inteiramente dedicado à grande tarefa a que se propôs, sanear as finanças do País. Já em 1928, enquanto Ministro das Finanças, vindo da Facudade de Direito de Coimbra, onde bastantes anos o Conselho da Faculdade havia votado a classificação final de 19 valores e muito bom com distinção, declarou numa entrevista que a política não me interessa nada (!!!). Todavia, começou a tecer laboriosamente a sua teia, sem nunca desesperar, de acordo com a ideia que deve o Estado ser tão forte (gentil, civilizado) que não precise de ser violento (brandos costumes). Depois as coisas mudaram, quando passaram lá fora a haver coisas novas e terríveis. E criou-se a PVDE que, como a sua sucessora, não renegava a violência, a tortura ou o espancamento para obter confissões, muito especialmente dos operários e camponeses, ao invés dos intelectuais, profissionais liberais, os burgueses. E depois o Campo do Tarrafal (a Frente Popular surgira vitoriosa em Espanha), como ainda se verá.



Logo em 1934, António Ferro viria definir o Decálogo do Estado Novo, autoritário e presidencial que repudiava o individualismo e o liberalismo retinto de 1911, a balbúrdia parlamentar e tinha como um dos slogans de marca Portugueses se sois pela disciplina e ordem, votai a nova Constituição:




1. O Estado Novo representa o acordo e a síntese de tudo o que é permanente e de tudo o que é novo, das tradições vivas da Pátria e dos seus impulsos mais avançados. Representa, numa palavra, a vanguar­da moral, social e política.




2. O Estado Novo é a garantia da independência e unidade da Nação, do equilíbrio de todos os seus va­lores orgânicos, da fecunda aliança de todas as suas energias criadoras.




3. O Estado Novo não se subordina a nenhuma classe. Subordina, porém, todas as classes à suprema harmonia do interesse Nacional.




4. O Estado Novo repudia as velhas fórmulas Autoridade sem liberdade, Liberdade sem Autoridade e substitui-as por esta: Autoridade e Liberdades.




5. No Estado Novo o indivíduo existe, socialmente, como fazendo parte dos grupos naturais (famílias),profissionais (corporações), territoriais (municípios) e é nessa qualidade que lhe são reconhecidos todos os necessários direitos. Para o Estado Novo, não há direitos abstractos do Homem, há direitos concretos dos homens.




6. Não há Estado forte onde o Poder Executivo o não é. O Parlamentarismo subordinava o Governo à ti­rania da assembleia política, através da ditadura irresponsável e tumultuária dos partidos. O Estado No­vo garante a existência do Estado forte, pela segurança, independência e continuidade da chefia do Esta­do e do Governo.




7. Dentro do Estado Novo, a representação nacional não é de ficções ou de grupos efémeros. É dos elementos reais e permanentes da vida nacional: famílias, municípios, associações, corporações, etc.




8. Todos os portugueses têm direito a uma vida livre e digna, mas deve ser atendida, antes de mais na­da, em conjunto, o direito de Portugal à mesma vida livre e digna. O bem geral suplanta, e contém, o bem individual. Salazar disse: temos obrigação de sacrificar tudo por todos: não devemos sacrificar-nos todos por alguns.




9. O Estado Novo quer reintegrar Portugal na sua grandeza histórica, na plenitude da sua civilização universalista de vasto império. Querer voltar afazer de Portugal uma das maiores potências espirituais do mundo.




10. Os inimigos do Estado Novo são inimigos da Nação. Ao serviço da Nação, isto é: da ordem, do interesse comum e da justiça para todos, pode e deve ser usada a força, que realiza, neste caso, a legítima de­fesa da Pátria.



Em 1930, num conhecido discurso, integrando-se no movimento de reacção ao demo-liberalismo e à ameaça bolchevista, que passava com sucesso por vários países da Europa, Salazar referia a propósito do 28 de Maio que, este teve ocasião de eclodir, sem dúvida; com a cor local que lhe dá a especial gravidade dos nossos problemas certamente; com a modalidade que haviam de imprimir-lhe as circunstâncias da política portuguesa e a nossa maneira de ser e de sentir, a Ditadura ainda que indecisa, titubeante e irregular na marcha e na acção é um fenómeno dos que da mesma ordem dos que por esse mundo, nesta hora, com parlamentos ou sem eles, se observam tentando colocar o poder em situação de prestígio e de força contra as arremetidas da desordem, e em condições de trabalhar e de agir pela Nação.




Foi contra estes e outros pressupostos e propósitos, que começou a aparecer a contestação, mais ou menos democrática, reviralhista ou legal, não obstante haver em Portugal uma forte classe conservadora-católica, com interesses na agricultura, comércio e África, que sofrera com os efeitos da crise económica de 1921, da desvalorização da moeda, da instabilidade político-social fruto do parlamentarismo e da partidocracia, mas que não rejeitava uma redefinição do papel do Estado, dotado de autonomia e autoridade. É bem sabido, aliás o caso não é exclusivamente português, que a maior parte das pessoas prefere (ainda que o não confesse) a segurança, à liberdade cívica. Esquecem esses, porém, que se todos alinhassem pelo mesmo diapasão, não disporiam das liberdades e direitos de que depois disfrutam e acham tão natural, como o ar para respirar. Por isso, também estas notas para os mais jovens se tiverem paciência para as percorrer.
A oposição e o País em geral, foram avisados que a propósito da discussão pública do projecto de Constituição de 1933, não se permitiriam ataques pessoais, discussões de outras questões marginais a pretexto do seu debate, nem críticas que ultrapassassem o plano meramente político.



Na história da resistência o período que medeia até à II Guerra, tem-se ressentido de uma certa obscuridade, diríamos mesmo, de desvalorização. Entre 1930 e Julho de 1932, quando Salazar finalmente constituiu governo, é pois a fase de transição para a institucionalização do Estado Novo e que passa pela aprovação plebescitária da Constituição. A vida cívica de um Povo, tal como a das pessoas e famílias, é pontuada por eventos por vezes discretos, que ao lado dos maiores, emergem recorrentemente na nossa memória, assinalam a continuidade de uma luta quotidiana, para além dos momentos mais empolgantes, eventualmente efémeros. Não o iremos pois esquecer no texto que se seguirá, que não pretende ser a história desse período, muito menos do Estado Novo no País ou Alcobaça. A partir de 1933, a Constituição consagrou uma nova orientação do País, de acordo com três traços principais, o nacionalismo, (com o colonialismo implícito, sendo que quanto a este não divergiu muito da República), o autoritarismo (com a anulação das instituições parlamentares, representativas, bem como a controlo do poder local, no caso de Alcobaça bem representado pelo eternoecontroverso Manuel da Silva Carolino), e o corporativismo (a anulação do livre jogo, pretensamente isento de tensões sociais).



Reviralhismo, é designação corrente, vulgarmente conferida à actividade política pró-insurreccional, contestatária, desenvolvida entre 1926 e 1940, pela oposição republicana, democrática, liberal e anticlerical. A I República, deu grande ênfase à instrução e cultura do Povo, imputando à Igreja Católica e ao clero o atrazo cívico. O reviralho alcobacense seguiu de perto estes princípios, procedimentos, e revia-se no Voz Alcobaça até ser suapenso,ao escrever que na parte do Claustro (do Mosteiro) ressoou muita palmada com que a menina dos cinco olhos, manejada por homens de dois olhos, profligava as mãos dos que não satisfaziam. Foi a República que aboliu a palmatória (mas terá sido mesmo?) mas como quem não soubesse ou não pudessensinar sem bater, a régua passou a ter uma aplicação suplementar: a palmatoada foi substituída em muita parte pela règuada. A palmatória tornava-se perigosa ante as vistas dos inspectores, mas a régua tornava-se insuspeita como as linhas rectas que permitia traçar. Todavia, segundo alguns autores, o seu clímax no período compreendido entre 1926 e 1931, o Reviralhismo afirmou-se como a frente mais importante de combate ao regime da Ditadura Nacional, bem como depois de 1933ao Estado Novo. Embora apresentando uma diminuta unidade de acção e coerência política com intervenientes múltiplos, irrequietos e estratégias diversas, o Reviralhismo, acabou por se caracterizar como um movimento essencialmente republicano, que procurou, através da pena, de mais de uma dezena de revoltas ou atentados fracassados, a reposição revirar da situação democrática, das liberdades individuais e públicas que o 28 de Maio eliminara.



Mário Fadigas, da Maiorga, gosta de recordar a pequena história do último Regedor da I República, na freguesia. O seu pai, António Fadigas da Silva, que vivia com a mãe, nunca frequentou a escola, tendo realizado o exame da 4ª classe na tropa, depois de ter aprendido a ler com os serrralheiros da extinta Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça (COFTA), para onde foi trabalhar com 10 anos. Republicano, reviralhista, foi todavia pouco interventivo politicamente, e ao que se diz terá sido maçon. 2º Sargento de Artilharia de Costa, esteve nas trincheiras em França, durante a I Guerra. Felizmente não foi gaseado, tendo-se oferecido para o C.E.P., dada a admiração que nutria por Afonso Costa. Embora simpatizante do Partido Democrático, nunca se inscreveu nele e embora vivesse num meio rural, segundo o filho Mário nos contou, não sabia plantar uma batata, nunca foi agricultor. Era essencialmente um serralheiro. António Fadigas da Silva, com trinta anos de idade, foi nomeado por Alvará, escrito à mão em papel azul e com selo branco do Governo Civil de Leiria, datado de 8 de Maio de 1925, Regedor Efectivo da Freguesia da Maiorga, sob proposta do delegado do governo em Alcobaça, tendo tomado posse no dia 14. A verdade é que não ocupou o lugar por muito tempo pois, com o 28 de Maio, pediu a imediata exoneração, tendo-lhe a mesma sido concedida por Alvará do novo Governador Civil de Leiria, Cap. Henrique Pereira do Vale, natural da Cela-Alcobaça, datado de 24 de Junho de 1926. Mário Soares, de acordo com uma entrevista que tivemos com Fadigas pediu-lhe há uns anos, quando uma vez o visitou em sua casa na Maiorga, que oferecesse ao Museu da República, os Alvarás de Nomeação e de Exoneração de seu pai, que ainda guarda ciosa e cuidadosamente.



Alguns anos mais tarde era Regedor no Vimeiro Ti’ Joaquim sapateiro. Lá no Vimeiro, Ti’ Joaquim, era de facto a alta instância e o senhor da última palavra. Era sapateiro e regedor (bem gostaria de ter sido Presidente da Junta, mas como não sabia ler nem escrever o Presidente da Câmara de Alcobaça nunca o nomeou), mestre na arte da sovela, no passar do sebo com grande rigor, para evitar ao fio qualquer problema, quando cosia a gáspea à sola.




Ti’ Joaquim percebia tanto de gáspeas, de solas, como de pessoas, pois se necessário tanto batia numas, quanto nas outras. Chamava à razão o calaceiro, dirimia zangas quanto a extremas e conjugais, desmascarava o trapaceiro e os seus argumentos soezes, bem como não perdoava ao taberneiro o crime gravíssimo de deitar água no vinho. Se uma cabra distraída fazia a pastagem numa vinha, comendo ora a erva, ora as videiras, ficavam de dieta durante dois dias, pelo menos a cabra e pastor. Tendo Ti’Joaquim tanta aceitação popular para ser regedor ou até eventualmente ser Presidente da Junta (o problema como se referiu era não ter andado na escola), nunca se achegou ao rabecão. É que se a moldar a sola ele era audaz e bom pastor, a tocar as reses (os vizinhos), eventualmente não seria mais que capataz, se ousasse ir além de regedor. E por ali se quedou.



O que era um Regedor? Regedor era a designação da autoridade administrativa do grau mais baixo, a qual funciona em cada freguesia, subordinada ao Presidente da Câmara Municipal que livremente o nomeava e exonerava. O termo regedor serviu, outrora, para a designação de altos cargos como Regedor de Justiça, que presidia ao Tribunal da Casa da Suplicação. O Regedor, durante o Estado Novo, era um vulgar cidadão, com a missão de manter a ordem na pequena circunscrição, que é a freguesia. O Regedor tinha as atribuições definidas no Código Administrativo, de natureza administrativa e policial. No actual ordenamento jurídico, já não existe a figura do Regedor. O Regedor fazia um relatório das actividades que entregava com regularidade na Câmara Municipal, que depois encaminhava para o Governo Civil. O Regedor tinha a função de zelar pelas pessoas e pelos bens da freguesia. Não recebia ordenado por um trabalho que lhe ocupava muito tempo. Quando havia necessidade de prender alguém, o Regedor era o responsável pelo preso, tinha que o levar a Alcobaça a pé. Se a prisão acontecesse à tarde, ficava toda a noite a vigiá-lo e a esposa mantinha o lume aceso para se aquecerem, e fazer café para não adormecerem. Havia casais que discutiam ou brigavam, pelo que acontecia por vezes um deles ir queixar-se ao Regedor, que assim fazia de conselheiro matrimonial. O Regedor era testemunha, juiz, e a sua palavra valia mais do que um documento.




No tempo da II Guerra, não havia comida com fartura, pois tinha de ser racionada. Mesmo que alguém tivesse muito dinheiro, podia não comprar o que quisesse. A cada família era atribuído um número de senhas, que eram distribuídas pelo Regedor.




Inácio Catarino, dos Montes, ainda conheceu o primeiro Regedor da freguesia de Alpedriz dos tempos do Estado Novo, o carpinteiro e agricultor José Alves Catarino, e que tinha como cabo de ordens José Carreira. Também conheceu alguns que se lhe seguiram como José Santo, José Henriques Salgueiro, Fernando Gomes Loureiro e recorda Presidentes da Junta como José Ribeiro Malhó, José Rodrigues Ascenço, Francisco Rodrigues Ascenço Franco ou José Salgueiro Rodrigues Franco, todos dos Montes e inscritos na União Nacional (U.N.), ou pelo menos adeptos do regime. Lembra-se da vez em que o Regedor José Santo denunciou Afonso Salgueiro como perigoso conspirador político, o que determinou que este fosse conduzido aos calabouços do Governo Civil de Leiria para averiguações. Afonso Salgueiro sempre se assumiu como republicano, adepto de Afonso Costa e anticlerical, mas nunca foi pessoa de significativa acção política, pelo que era manifestamente sem sentido, injusta e inquietante a sua detenção. Assim foi libertado ao fim de dois ou três dias, o que não impediu que durante algum tempo se louvasse junto dos amigos dessa incursão pela política. Quando regressou a casa, nos Montes, as pessoas perguntavam-lhe se havia provado a barriga do boi (isto é, se tinha levado com cavalo marinho), o que sempre negou, alegando que tinham tido pena dele, por ter um filho deficiente.



A Feira de S. Bernardo, realiza-se há muitos anos em Alcobaça, umas vezes com mais animação ou interesse que outras. O certo é que, não obstante a descaracterização que hoje em dia apresenta, aliás como muitas outras que por esse País se realizam, nem por isso deixa de estar enraizada nos hábitos da terra.
As festas e romarias são uma componente importante da cultura popular do povo português. Numerosas e variadas, acontecem um pouco por todo o país e fazem parte das tradições e memórias de um povo que pretende preservar e manter actual a cultura secular que lhe confere uma identidade própria. Apesar de decorrerem ao longo do ano, é nos meses de Julho e Agosto que acontece a maior parte das festas e romarias em Portugal, unindo quase sempre a componente religiosa a um programa popular.




A Feira de S. Bernardo teve sempre uma componente essencialmente lúdica. Falando com pessoas idosas ou consultando notícias de jornais, atrevemo-nos a dizer que a Feira de S. Bernardo, quando no Rossio, era o ponto de encontro dos alcobacenses da terra com os de fora, a ocasião para mercadejar algumas coisas, beber uns copos com os amigos e foliar durante algum tempo. E pôr a coversa em dia, porque a vida não é só canseiras. O que era uma boa Feira, no dizer dos antigos, lá pelos anos trinta?




No tempo da República e dos primórdios do Estado Novo, da parte da tarde as tendas lado a lado pejavam, como convinha, no Largo do Rossio, em longas fileiras, e vendiam de tudo, fazendas, bugigangas, algodão doce, ouro, ouro sim, ouro de lei, ou prata contrastada, como o material do Maneca de Febres, porque o metal é que tem valor amanhã, no meio de enorme algazarra e estridência de conversas, de realejos ou outros instrumentos menos afinados, interpretados por cegos (que afinal talvez não o fossem…) que faziam números com saltimbancos e artistas de circo, enquanto se comiam tremoços ou pevides. Havia a tômbola das panelas que era muito procurada, pelas mulheres, na esperança de poder sair uma peça, que mesmo de refugo iria fazer muito geito na decoração da cozinha ou no serviço da casa. Também havia as tendas do vai um tirinho o q´rido, das caixas com furinhos que davam prémios e as dos matraquilhos.




O povo gostava de ir passear e ver. Famílias inteiras, com ar grave e pasmado, rapazes vestidos à maruja, paravam diante dos artistas a quem davam uns cobres, ajustavam o preço de um alguidar ou de uma peça de fazenda, tiravam medidas para o rapaz fazer um par de botas de carneira, iam ao mercado do gado, da fruta, da hortaliça ou do peixe da Nazaré (oh qu’ rida, oh freguesa!). Tudo era bom de apreciar. As ciganas liam a buena dicha, as vendedeiras de limonada faziam negócio com as mulheres e crianças. Alcobaça, em Agosto, com pó e algumas moscas quanto baste à mistura, fazia sede que também se matava moderamente na tenda da ginjinha. As mulheres apreciavam muito as pesadas mantas listadas de Minde, a lã azul fiada para as saias, as loiças da Olaria, de Alcobaça, com motivos pintados à mão simples e ingénuos, mas já a começar a vulgarizar os decalques, os vidrados amarelos ou verdes das Caldas da Rainha. Os homens, de pesado cajado, frequentavam principalmente, a feira do gado, faziam alguns negócios com dinheiro vivo (como poderia ser de outra forma?), entre dois copos de tinto, acompanhados de pequenos queijos de cabra ou de ovelha, da serra, vendidos em poceiros cobertos por alvas toalhas e, claro, sempre com o marisco, os tremoços e pevides. Esta era sim, uma boa Feira de S. Bernardo, com a PSP e a GNR sempre por perto e atentas à malandragem (além dos ciganos, havia outros… como os carteiristas) e às brigas do mau vinho. Os carteiristas que frequentavam as festas e romarias do país, como a Feira de S. Bernardo, eram normalmente provenientes do norte e bem referenciados pela polícia, pois usavam habitualmente um caracteríistico pequeno chapéu. A Polícia detinha-os preventivamente pelo tempo das festas, mesmo que nada tivessem ainda feito. A história dos carteiristas foi uma vez contada a Altino pelo Chefe Martins, da P.S.P., que depois foi motorista da Olaria, aquando de uma viagem em serviço que fizeram ao Porto. Os anos passaram. Algumas coisas mudaram outras nem tanto.



Durante a Feira havia circo. Em primeiro lugar apareciam os cartazes espalhados pela vila, ilustrados com animais ferozes, palhaços ou trapezistas, homens e mulheres gordos, tatuados e anões. Depois vinham as carruagens, puxadas por camionetas ou mesmo animais, que desfilavam com música, um tambor ou corneta pelas ruas. Era este ainda o tempo do grande espectáculo (o maior espectáculo do mundo), exibido em tendas redondas de lona onde entrava a chuva e seguramente o vento, a arena colorida, as luzes feéricas, os maillots lustrosos das mulheres, os corpos atléticos dos homens. Os palhaços, os animais. Os trapezistas, lá nas alturas.




Senhoras e Senhores, Meninas e Meninos, benvindos ao circo!!! Senhoras e Crianças, não pagam... Senhoras e Crianças, não pagam!!!




João Matias lembra-se que devia ter aí uns seis anos quando pela primeira vez o pai o levou ao circo, que assentava no Parque da Gafa. Mas para a criança que era, aquele foi um dos maiores acontecimentos da ainda muito curta vida. Gostou das trapezistas, riu-se com os palhaços mas, sobretudo, ficou fascinado com o atleta das argolas. Nunca mais o esqueceu. O fascínio do circo resiste a tudo e tem o condão de persistir na memória de crianças, jovens e adultos. O das argolas era um velho, de cabelos brancos e estatura pequena. Os músculos como que lhe saltavam da roupa, e nas argolas não deixou de fazer um Cristo, com uns braços trémulos. Esperado, esperado, era o momento dos palhaços. O de cara branca, o palhaço rico, e o outro, o pobre. O rico, servia para enganar o pobre, que superava pela esperteza os ardis que o cercavam. A assistência projectava-se no azougado pobretana. João Matias ria. A música evolava-se da concertina inglesa e de um xilofone de garrafas penduradas, líquidos coloridos em escala harmonizada na subtilidade dos martelinhos. Ninguém dava pelo desconforto das bancadas duras de madeira.



E o teatro de fantoches ou de robertos? O teatro de Robertos era um dos principais divertimentos (quase obrigatório) das feiras, romarias e até praias do século XX, como recordam Altino Ribeiro e Tó Lopes. Este estilo de teatro entrou, porém, em desuso em meados do século XX. Nos seus tempos de criança, na altura da feira, apareciam os Robertos, tão ansiados pela criançada. Trata-se de espectáculos de fácil compreensão, com uma manipulação rápida e cheia de acção, cuja característica importante é o uso pelo fantocheiro de uma palheta na boca que lhe permite ampliar e distorcer a voz, produzindo efeitos surpreendentes, algoridículos e que abordam rábulas tradicionais, que reproduzem a animação de rua (à moda antiga), algum acontecimento e centram a atenção do público com o alarido e picardias dos bonecos. Tó Lopes, em criança, gostava muito de ver os robertos e lembra-se bem de um número especialmente apreciado, pois metia (muito fantasiosamente) o Marquês de Pombal e a expulsão dos Jesuítas. Os adultos e a criançada achavam-lhe muita graça, pagava-se cinco tostões. Mas o tema mais corrente era o de um homem mal comportado, um touro para assustar e uma mulher que zangada com o comportamento do marido lhe pregava umas valentes pauladas no final.




Nos dias que correm, é difícil verem-se os Robertos, mas, de certeza, que haveria muitas crianças que gostariam de assistir a um espectáculo, com os nossos saudosos e deliciosos Robertos.



João Matias, já rapazote com pêlos a aparecer na cara, também não se esquece mais do vendedor da banha da cobra que aparecia todos os anos na Feira de S. Bernardo. O vendedor da banha da cobra não é uma personagem de ficção, pois existe, sempre existiu, evoluiu, é muito hábil e astuto.




Todos sabemos, João Matias sem dúvida, que a banha da cobra não serve para nada, mas a convicção que o vendedor transmite, através duma oratória estudada e estruturada, é capaz de convencer pessoas sobre as capacidades infinitas do milagroso medicamento. Impigens, mau olhado, torcicolos, urticária, febre dos fenos, dentes, nervos, escleroses, artroses, entorses, diarreias, sarampo, escarlatina, espinhela caída, dores das cruzes, doenças do miolo, verrugas, cravos, etc., são alguns dos males que a banha da cobra afasta a quem a quiser comprar.




Matias parece que ainda tem no ouvido essa oratória, não custa nem 20, nem 15, nem dez. Custa apenas cinco, e quem levar dois tubos leva um totalmente de graça. Um para aquele senhor, outro para aquela menina, e enquanto eu vou lá à frente receber o dinheiro, a minha mulher vai lá atrás distribuir o pacote.




Se é certo que a banha da cobra não cura nada, também não consta que daí tenha saído algum mal para a saúde pública ou para o mundo. Não custa dez nem quinze, custa apenas vinte e cinco tostões, e quem levar dois tubos leva um de graça.




Era assim tentador! É assim que ainda conserva no ouvido o pregão com que na feira, o vendedor da banha da cobra anunciava as virtudes miraculosas daquela mistela, de composição indecifrável. E não havia mal ou maleita onde o seu resultado não fosse prodigioso. E para que não houvesse dúvidas, os argumentos eram um primor de explicação:




-Se bocência tem uma dor de dentes, fique a saber que não é o dente que lhe dói. O dente é corno, o corno é osso e o osso não dói, o que dói é o nervo.



Cremos que a grande maioria das pessoas, não apenas de Alcobaça, não acreditava naquilo, mas inexplicavelmente comprava, pelo que a vida de vendedor de ilusões ia andando embora com dificuldade. O homem era vigarista, golpista ou apenas um desenrascado a fazer pela vida? Há uma palavra tipicamente portuguesa, que caracteriza bem o nosso povo, o Desenrascanço, muito próprio do Xico Esperto, de que aliás já falámos. Saudade e desenrascanço são palavras/expressões que provavelmente conseguem definir um povo na perfeição. Vivemos saudosos do passado, desenrascando o futuro. Esta palavra (desenrascanço) é difícil de traduzir para uma outra língua, talvez por ter um significado menos romântico que o de saudade. Não recordamos alguém a referi-la como bastião da língua e maneira de ser português. O desenrascanço português é conhecido desde tempos antigos. Diz-se que durante as viagens marítimas era frequente navios de outros países levarem um português na tripulação, com o propósito de este tomar conta do navio em tempos de crise. No meio de uma tempestade, o Português ficaria com total controlo do navio, e daria uso ao seu dom do desenrascanço para livrar o navio da tormenta.



Ouvimos contar a seguinte história que se terá passado na Feira de S. Bernardo em meados dos anos cinquenta. O GNR reformado Joaquim Meneses tinha uma vaga ideia de a ouvir a colegas mais velhos, quando muitos anos depois foi colocado no Posto de Alcobaça. Ainda música entoava no ar quando no sábado, por volta da meia noite, várias pessoas se envolveram em confrontos físicos. A principal vítima da sessão de pancadaria foi o Luís da Horta, da Moita do Poço, que garantiu ter sido agredido pelo Secretário da Junta de Freguesia de Turquel, com um pau de eucalipto com 2 metros de comprimento e mais de dois centímetros de diâmetro…




-Deu-me com o pau nas costas umas cinco vezes, contou Luís. Um gesto que foi seguido por mais dois conterrâneos do Secretário da Junta.




-Os paus destes eram mais pequenos, mas mais grossos, afirmou o agredido, tão grossos que acabaram por lhe abrir a cabeça, que foi suturada com sete pontos no Hospital de Alcobaça, onde chegou bastante atordoado.




O jovem apresentou queixa por agressão contra o Secretário da Junta e os dois amigos, na Guarda Nacional Republicana. De acordo com as informações colhidas junto Chefe do Posto da G.N.R., uma patrulha foi chamada por volta da uma da madrugada de sábado, com a informação é de que estariam a decorrer desacatos no recinto da Feira. Chegada ao local, a patrulha (3 homens) deparou com o facto já consumado, pois o Luís da Horta já teria levado as pauladas, estava no chão, com a cara ensanguentada e a gemer.




-Só sei que ainda havia gente a bater-me, a dar-me pontapés nas costas e na barriga, garantiu depois.




O caricato da situação é que o assunto que terá dado iniciou a zaragata, nada tinha a ver com o Secretário da Junta, com esta ou mesmo com o Luís da Horta. Mas sim, com um irmão deste e um rapaz do Carvalhal, que terá sido apanhado, algum tempo antes, a roubar um cabrito.




O Secretário da Junta mostrou-se muito espantado pelo facto do seu nome estar envolvido na questão.




-Não tenho nada a ver com o assunto. Na altura dos acontecimentos até estava sentado a beber um copo e a petiscar com uns amigos. Referindo nunca se ter metido em zaragatas (não se esqueça que faço parte da Junta…), salientou que até andava de muletas por ter um problema numa perna, que o obrigou a fazer uma cirurgia em Leiria.




-Acha que com a perna assim eu estava em condições de bater em alguém?, perguntou ao Comandante do Posto da G.N.R, adiantando que se o Luis apresentou queixa contra si irá também fazer outra por difamação.



Falar de uma festa popular portuguesa e esquecer o Poço da Morte seria uma falta grave.




O primitivo Poço da Morte, era em madeira, e nele pontificavam os motoqueiros pai, mãe e um filho, já que no cartaz aparecia a imagem dos três, como recorda Matias. Circulavam numa estrutura cilíndrica, a girar sempre à volta até ficarem paralelos ao chão. Era um trio de fascinantes corajosos aventureiros que, com os palhaços, ilusionistas e acrobatas do circo, preenchia o imaginário de muita gente que ia à Feira. O público ficava a ver na parte superior, tendo apenas uns cabos de aço como limite, para que numa manobra imprevista (e possível) não levasse com eles.




Desafiavam a morte, no dizer do apresentador, cruzando-se com arrojo, audácia e emoção a alta velocidade de olhos vendados pela bandeira portuguesa, que depois era desfraldada triunfantemente, para gáudio da assistência e vibrantes aplausos. Especialmente emocionantes eram as voltas de moto, com o artista (filho) sentado de lado virado para o fundo do Poço, sem mãos no volante e de braços cruzados. Suscitavam emoções fortes em João Matias, que ia acompanhado pelo pai, espalhando entre os demais espectadores um clima de euforia e ansiedade, apimentado pelo ruído ensurdecedor das motos sem escape e o cheiro de gasolina mal queimada.



Anos depois (nos anos sessenta) a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça, interpretava com Luísa Dionísio e outros, com muito agrado, um número com música de António Gavino e letra de Alberto Goucha:




Com mê fato dominguêro

Vim de casal e mais três

O mê irmão que é padêro

O mê burro e o Inês.




E na Fêra d’encontrões

Que levê no meu corpinho

Perdi todos os botões

De mê fato tão novinho.




No carrossel é que é

Dez tostões uma voltinha

Nem me tinha já de pé

Tanta volta dá a pinha.




Mas gostei e não lamento

O dinhêro que gastava

E quis levar o jumento

Só p’ra ver o qu’aquilo dava.




Logo naquele momento

Disse ao Inês ao acaso

Olha lá traz o jumento

Que um a mais não faz é caso.




E a bruxa leu as sinas

Disse ao Inês em segredo

Há de ter oito meninas

Deixe lá não tenha medo.




À Fêra não volto mais

Enquanto tiver memoira

Mas vês outros que voltais

Ouçam o resto da história.




Deus quis assim, nós também

Casámos eu e o Inês

A bruxa falara bem

Meninas só faltam três.




Arre burro!

REI D. CARLOS I, VITORINO FROIS, JOSÉ TANGANHO E CONCHITA CITRON. O CÃO DE ÁGUA PORTUGUÊS E VASCO BENSAÚDE (antes de Barack Obama levar um para a Casa

NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
REI D. CARLOS I, VITORINO FROIS, JOSÉ TANGANHO E CONCHITA CITRON.
O CÃO DE ÁGUA PORTUGUÊS E VASCO BENSAÚDE (antes de Barack Obama levar um para a Casa Branca)


Vitorino de Avelar Fróis, natural e residente em Alfeizerão, abastado proprietário rural da Quinta Nova de S. José, agricultor e criador de gado bravo, foi nos primeiros anos do século XX, um dos mais distintos e famosos cavaleiros tauromáquicos do País, mestre dos cavaleiros portugueses.
Pessoa muito estimada, de fino trato e bem relacionada, era das relações do Rei D. Carlos que o chegou a visitar mais que uma vez Alfeizerão e ali fazer piqueniques, com uma personalidade vincada, algo marialva e extravagante, de farto bigode retorcido e bem apessoado, tinha a fama, embora não saibamos se o proveito, de ser um apreciador do belo sexo, pertenceu a uma família de cavaleiros tauromáquicos profissionais, tal como seu pai, embora este não tivesse atingido tanta projecção.

Extravagante?
Fróis tinha na sua ganaderia um touro que começou a ser amestrado logo à nascença. Quando havia visitas na quinta e Vitorino Fróis as queria impressionar, avisava que tinha uma surpresa, mas que para isso, seria em absoluto necessário que todos se mantivessem tão calados e sossegados, quanto possível. Então mandava o animal entrar na sala, seguro por umas cordas, por mera precaução, por dois empregados, a fim de dar a volta à mesa.
Os convidados ficavam estupefactos, assustados nalguns casos, e as senhoras davam gritinhos histéricos. Na verdade, em termos de corpulência e cor, nada distinguia esse animal de qualquer outro bravo toiro de lide.

D. Carlos está, segundo se diz, associado à receita do Pão de Ló de Alfeizerão. A história conta-se em breves palavras. Diz-se que este cartão de visita da doçaria do Oeste, foi criado a partir de um erro de fabrico, no final do século XIX, aquando de uma visita de D. Carlos a S. Martinho do Porto e a Alfeizerão. Parece que uma das empregadas estava tão nervosa com a visita real, que tirou o pão-de-ló antes do tempo habitual de cozedura. Mas afinal, o resultado foi que o erro, ficou melhor que o original. A receita teria sido foi levada para a antiga vila piscatória de Alfeizerão pelas religiosas do Mosteiro de Cós, a variante feminina dos monges cistercienses de Alcobaça. Apesar da antiguidade da receita, a fama só veio no início do século XX, com a utilização de S. Martinho do Porto como estância de férias para as classes altas e de todos os que paravam em Alfeizerão, sito na antiga estrada Porto-Lisboa.

Fróis, como recorda o saudoso José Tempero, costumava dizer eu não morro, nem que me matem, faleceu por alturas de 1938 e encontra-se sepultado em Alfeizerão.
Exibicionista?
Preparou a sua última morada, de uma forma meticulosa e com antecedência. Como tinha muitos pinhais, mandou atempadamente cortar o seu melhor pinheiro, que em seguida foi serrado em pranchas, para fazer um caixão à precisa medida. Antigamente, os caixões não eram de tamanho standart, indo o cangalheiro a casa colher as medidas do defunto. As tábuas do futuro caixão, encontravam-se guardadas num armazém/palheiro da quinta, ao lado de uma lápide em mármore com o nome, data de nascimento e, em aberto, a data do falecimento. Esta lápide ainda existe no cemitério de Alfeizerão.

O cavaleiro dos anos cinquenta, João Branco Núncio (alcunhado o Califa de Alcácer), muito mais tarde, numa entrevista em que lhe foi perguntado o que pensava do toureio, a cavalo, respondeu que, vejo-o como uma manifestação artística que, pelas suas dificuldades e emoções, nos prende e apaixona até ao mais fundo da nossa alma.
-Encontra alguma explicação para a sua aficion?
-Creio que em parte a minha aficion, ao toiro, teve o seu início nas faenas da amancia, dos bois bravos, para o trabalho. Além disso a leitura da revista La Lídia, que meu avô materno assinava, também não é estranha ao facto.
-Quais as diferenças e semelhanças, entre o toureio montado e o apeado?
-Fundamentalmente não lhe vejo diferença, acho até que as regras básicas que os regem são as mesmas.
-O seu modo característico de tourear foi inspirado por alguém?
-Dediquei atenção a todos os toureiros que vi, mas, muito em especial, ao Sr. Vitorino Fróis que executava o toureio de maneira diferente. Aquilo que vi aos outros tentei aproximá-lo mais do toureio a pé, não esquecendo que, apesar de estarmos a cavalo, há necessidade absoluta de saber interpretar o toiro.

João Núncio deu, um importante contributo, para a divulgação da corrida de touros à portuguesa, no estrangeiro.
É sabido que os touros na Europa são lidados em Espanha, Portugal e no Sul de França.
Por alturas de 1966, João Núncio foi convidado a fazer uma corrida na praça de Bayonne, o que fez montando o famoso Quo Vadis. Segundo reza a história, foi a primeira corrida à portuguesa, realizada em França. Posteriormente, muitos cavaleiros, toureiros e forcados portugueses actuaram em praças francesas.

Afinal, o contributo de Vitorino Frois em João Branco Núncio, foi relevante no sentido de este transformar o toureiro a cavalo em Portugal e no estrangeiro. O seu descendente, José Luís Núncio Fragoso opinou que nos inícios do século XX, dá-se a reposição da sorte de caras, por força de uma actuação de Vitorino Fróis, ante touros da ganadaria do Rei D. Carlos, num momento em que se tenta impor o touro puro para toureio equestre.

Touros puros eram aqueles que nunca haviam sido corridos. Ora, se um touro já foi toureado, na vez seguinte, já percebe o que vai acontecer, e então o toureiro tem de jogar às escondidas com ele.
Sobre Vitorino Fróis, o crítico A. Vasco Lucas escreveu em 1995, ao que supomos nessa linha de entendimento, que (…) o toureio a cavalo poderá dividir-se em duas partes distintas, ou seja, antes e depois de João Núncio, pois foi o génio deste que marcou a grande viragem da tauromaquia equestre, transportando para esta os conceitos e regras da revolução belmontina operada no toureio apeado. Assim antes do Califa de Alcácer, os touros eram lidados sem apuros técnicos, corridos a dar a cova e farpeados sem o aguentar e o carregar das sortes, nem o domínio e tempo das investidas. Logo foi com com a concepção nuncista, ténue e anteriormente vislumbrada por Vitorino Fróis, que surgiu o tourear de caras, única sorte onde existem todos os tempos de toureio (…).

A relação de Vitorino Fróis com a casa real e o Rei D. Carlos advinha também do interesse de ambos pela Festa Brava. A ganadaria da Casa de Bragança estava situada no Alentejo, aonde Vitorino Fróis ia por vezes e a manada, no ano de 1901, que pastava em Ameixieira, era composta por 75 cabeças. As vacas eram oriundas de uma ganadaria espanhola e das ganadarias portuguesas de Máximo Falcão e Emílio Infante da Câmara. O primeiro semental, segundo José Tanganho, foi o toiro Caraça, com ferro Infante da Câmara, que foi lidado em praça, por Vitorino Fróis, e foi depois corrido mais 10 vezes, facto espantoso pois, normalmente, hoje em dia é ponto de honra (não sabemos mesmo se de lei) que nenhum touro pode ser lidado mais que uma vez. Este animal veio a ser pegado de caras por D. Carlos, num festival taurino na sua herdade, onde foram convidados vários dos seus amigos como Simão da Veiga (pai), Conde de Arnoso, José Calazans (forcado), Duarte Pinto Coelho, Theodoro Gonçalves, Vitorino Fróis e Alfredo Marreca.

Conta-se (há quem como António Guerra, da Maiorga, diga que é lenda) que no auge da fama, Vitorino Fróis foi fazer uma corrida a Espanha, o que aliás acontecia com regularidade, estimulada pela tradicional rivalidade entre portugueses e espanhóis, bem como pela respectiva aficion.
Antes do início da corrida, o seu encarregado dos cavalos, veio comunicar-lhe que tinha visto um indivíduo, às escondidas, a aguçar com uma grosa, os chifres do toiro que lhe saira na sorte para lidar. Perante isto, Fróis ordenou ao empregado que fosse, de pronto, comprar duas navalhas de ponta e mola e que depois, também sem que ninguém o visse, as amarrasse abertas nos cornos do boi. Quando o corpulento e negro animal de quinhentos e muitos quilos, entrou a babar-se na arena e o público se apercebeu da situação, entrou como que em histeria. Vitorino Fróis saiu-se muito bem, sem que as pontas das navalhas tocassem ainda que ao de leve o cavalo, pelo que no fim da lide, foi na boa tradição tauromáquica espanhola, levado da arena em ombros.

Perante tamanho arreganho, Fróis foi convidado por um grupo de aficionados para um jantar de homenagem.
Estando já todos à mesa, um empregado negro abeirou-se dele e disse-lhe subtilmente que não jantasse, porque corria o risco de ser envenenado… Fróis arranjou uma desculpa qualquer, e já não assistiu ao jantar. No dia seguinte, convenceu o negro a ir morar para a quinta de Alfeizerão e, ao mesmo tempo, comunicou à família e empregados, entre os quais o feitor António Tempero Junior (pai de José Tempero) que aquele iria por lá ficar enquanto quisesse, com direito a cama, mesa e roupa lavada. E assim foi durante alguns anos até que acabou por regressar à sua terra.

Quando o feitor Tempero, cessou funções na Quinta Nova de S. José para se dedicar ao comércio e agricultura, foi sucedido por José Bernardo Tanganho, que granjeou alguma fama como cavaleiro tauromáquico, e especialmente depois de vencer, em Outubro de 1925, o Circuito Hípico de Portugal, uma volta a Portugal a cavalo, prova muito dura, montado no Favorito, aonde participaram 45 concorrentes, dos quais apenas 3 não eram militares. Como foi isso? Numa entrevista de Tanganho, nos anos sessenta, ao Século Ilustrado contou que, estava eu um dia nas Caldas da Rainha, com o tenente-coronal José Mousinho…José Mousinho, (…, era genro de Vitorino Fróis, que foi o nosso primeiro mestre do toreio a cavalo. Creio que ainda era da família do Mousinho de Albuquerque… Bom. Estávamos nós a tomar café na barraca de um judeu qualquer, quando vimos passar a cavalo o capitão Silva Dias. Vejo-o todos os dias-disse eu-Que é que ele anda a fazer?Anda a treinar o cavalo para o raid-explicou-me o José Mousinho. Qual raid?! A volta a Portugal a cavalo. Cá para mim, resolvi logo. -Também vou entrar nisso. Tenho uma égua que não há quem possa com a vida dela. Era a égua de uma tipóia de aluguer que eu me governava. Mas toda a gente me queria tirar aquilo da cabeça: -Tu és doido? Os militares andam a treinar os cavalos há três meses e já só faltam quinze dias…
E prosseguiu: Agarrei no animal e, sem parar, fui com ele das Caldas a Alcobaça, Nazaré, S. Martinho, Foz do Arelho, Peniche…Mas acabei por desistir da égua, quando vi que ela tinha uma assentadura. Nessa altura, quando viram que eu tencionava mesmo levar a minha por diante, apareceram-me várias pessoas a oferecer cavalos. Escolhi o do lavrador António Joaquim, do Cartaxo, um cavalo que andava também engatado a uma charrette, e levei-o das Caldas à Foz do Arelho. Quando lá cheguei, fiquei uns dez ou doze dias em exercícios: amarrava o cavalo a uma bateira e punha-o a fazer força para ganhar pulmão.

O País vibrou com o raid que sde disputou, durou dezoito dias, sob sol e chuva, umas vezes a pé, outras a cavalo montado. Inicialmente passou desapercebido, mas aos poucos foi criando interesse pela rivalidade entre o capitão Rogério Tavares e o civil José Tanganho. Afirmava-se, que o civil estava a dar água pela barba ao militar. Sob aplausos frenéticos das pesoas por onde passava, percorreu as quatro partidas de Portugal (do Minho ao Algarve). Rompi três pares de botas em dezoito dias… Andava dez metros a cavalo e vinte a pé, para o animal se aguentar. E percorria 100, 150 e até 250 quilómetros por dia, sem horário fixo. Alguns casos que aconteceram durante a prova, foram curiosos e ficaram registados. Na etapa Odemira-Monchique, que deveria ser através da serra, o guia, que devia acompanhar os concorrentes, não conhecia o caminho, pelo que andaram perdidos, até darem com o casebre de um pastor. O percurso de Moncorvo a Bragança foi feito debaixo de um autêntico dilúvio. Em Arcos de Valdevez, não havia cavalariças, nem ração, mas isso foi devido a razões políticas. Ao chegar a Vila Franca de Xira, o meu cavalo o Favorito começou a fraquejar e houve quem me desse uma garrafa de vinho do Porto para o animal beber e arribar (isto é uma sopa de cavalo cansado). O cavalo bebeu e passados alguns metros estava com uma grande bebedeira…E para ali vim eu, com o cavalo a curti-la…Tive de o trazer à mão e foi assim que o capitão Rogério Tavares chegou a Lisboa em primeiro lugar, isto é, à minha frente.

No dia da chegada a Lisboa, apesar da chuva miudinha que caía, os caminhos que levavam ao Pote de Água tinham grande movimento, bem como o Campo Grande. Ao passar um grupo de cavaleiros que constituíam a guarda avançada, dizia-se que era o capitão Tavares que iria ganhar. Quando este passou, o povo ficou em silêncio, ninguém queria acreditar. Nessa altura José Tanganho vinha ainda a cerca de 7 quilómetros, a pé, com o cavalo pela mão, consolado por um grupo de apoiantes, que davam vivas ao que consideravam ser o vencedor moral. Quando finalmente chegou ao Campo Grande, dois bombeiros quiseram oferecer a Tanganho um cálice de porto, mas o multidão desvairada ao ver fardas gritava: Não bebas que te querem envenenar. Acontece que tendo o cavalo Emir, pertença do capitão Tavares, morrido durante a noite, ao que se diz por cansaço, Tanganho sagrou-se vencedor do raid pois, ficou à frente nas provas finais do Jockey Club (trote e saltos de sebes). Foi o delírio no meio. O público invadiu a pista do Jockey Club, levou Tanganho em triunfo, organizou um grandioso cortejo até à Câmara Municipal onde estava preparada uma recepção para consagração dos vencedores e entrega de prémios A classificação final ficou assim ordenada :1º)- José Tanganho; 2º)- Ten. Brandão de Brito; 3º)- Cap. Silva Dias.

Daí em diante, Tanganho foi contratado para se exibir no Coliseu de Lisboa e Palácio de Cristal, do Porto, ganhando por cada exibição o cachet de vinte mil escudos, quantia muitíssimo elevada (milionária?) para a época.

A 8 de Outubro, Castello Lopes estreou, no cinema Condes, O Bicho da Serra de Sintra, filme de Artur Costa de Macedo (também director de fotografia) e João de Sousa Fonseca (argumentista e protagonista), para Sociedade do Turismo de Sintra. Em complemento projectou-se, Touradas Portuguesas, com os distintos artistas cavaleiros Simão da Veiga (Filho), D. Ruy da Câmara, António Luís Lopes e José Tanganho.
No dia 16 de Novembro, o Cinema Tivoli, em Lisboa, estriou o documentário de actualidade, Circuito Hípico de Portugal.
Por insistências de Vitorino Fróis, Tanganho veio a tomar alternativa como cavaleiro tauromáquico, em 1926, no Campo Pequeno. Durante algum tempo, onde se exibia, meninas prendadas tocavam ou cantavam a Marcha do Tanganho, cuja letra dizia: O Tanganho leva o cavalo e o cavalo leva o Tanganho e das janelas enfeitadas nalgumas vezes com garridas colgaduras, despejavam sobre o herói bandejas e açafates de pétalas. Por instâncias da mulher, abandonou a tauromaquia ao fim de algum tempo, regressando a Caldas da Rainha, de onde era natural.

Tanganho, ainda foi preparador de cavalos, da conhecida e graciosa cavaleira tauromáquica Conchita Citron nascida no Chile, embora por muitos considerada peruana, dado neste país ter vivido desde muito nova, e que nos anos cinquenta atingiu notoriedade em Portugal e frequentou Alfeizerão com assiduidade. Conchita Citron também deixou marca, entre nós, como a criadora do cão de água português, raça em vias de extinção. Cochita Citron veio para a Europa para tourear em Espanha, o que lhe não foi permitido pelo franquismo por ser mulher.
Tanganho, depois de ter estado a trabalhar durante cerca de dez anos em Moçambique, faleceu na casa de David Ribeiro Teles, no Ribatejo, no Monte do Biscainho, a 12 de Fevereiro de 1968. No dia seguinte, o jornal O Século publicou a notícia na secção de necrologia, além de lhe ter dedicado uma página de homenagem.

Vasco Bensaúde foi um homem discreto, embora muito rico, e criador de cães, registados todavia em nome do filho Filipe e como tal apresentados em exposições. A certa altura, tomou conhecimento da existência de uma bem sucedida criadora de perdigueiros portugueses, Conchita Citron, que havia casado com o aristocrata português, D. Francisco Castelo Branco. Esta, impedida pelas leis espanholas de ser matadora de touros, tornou-se cavaleira tauromáquica, e veio viver para Portugal.
Bem sucedidos foram os seus perdigueiros portugueses, que criava na quinta situada na margem sul do Tejo, a Quinta do Índio (reminiscências da sua origem?). Um dia Bensaúde, convidou Conchita Citron e marido para almoçar, onde lhe fez a oferta de ficar com o seu canil, como herança. Conchita nunca mais viu Vasco Bensaúde, nem os seus cães. Bensáude veio a morrer em Agosto de 1967 e mais tarde, a família contactou-a para vir buscar (reclamar) a herança. Assim, Conchita Citron, levou os 14 cães do canil Algarbiorum, de Bensaúde, para a Quinta do Índio, juntamente com os respectivos ficheiros.
Registou o seu novo canil, com o nome Al-Gharb Começou a criar e a apresentar os cães de água em exposições e concursos. Achava que os esforços de Vasco Bensáude na selecção, recuperação e preservação da raça, mereciam ser reconhecidos e considerando Portugal um país pobre de gente sem recursos para manter tão maravilhosos cães, recusava-se a vende-los para o mercado nacional, sendo apenas alguns oferecidos a pessoas de extrema confiança e jamais fêmeas. Bem relacionada no estrangeiro, começou uma campanha de publicidade junto de americanos ricos. Mas poucas fêmeas fugiram ao seu controle.

Com o 25 de Abril, algumas pessoas sairam do país e abandonaram as propriedades que eram ocupadas pelos trabalhadores e sindicatos. Foi o caso da Quinta do Índio, então com 32 cães de água nos canis. Muitos dos animais foram soltos ou fugiram e quando no fim do Verão de 1974, D. Francisco de Castelo Branco conseguiu ir á propriedade, restavam 15 cães, a maioria gravemente doente e com problemas de pele. Levou-os ao Canil Municipal de Lisboa para abate, mas segundo o enfermeiro Fernandes, alguns poderiam ser salvos, tendo-se assim recusado a abater 3.
D. Francisco Castelo Branco levou de volta esses 3 cães mas nunca mais ninguém soube deles.

Conchita Citron, portuguesa por casamento, pouco depois saiu do país com a família para o México, e não levou cão algum.

José Tanganho faleceu algo esquecido, mas não obstante o seu passamento foi objecto como se disse de algum destaque no jornal O Século, que lhe dedicou várias colunas e uma foto. De facto, haverá muitíssima gente, mesmo em Alfeizerão, que já não se recorda nem do nome de José Tanganho.

Só em 1970 vai surgir em Portugal a primeira mulher toureira (a pé) profissional, que aliás não fez grande carreira. Foi o caso de Ana Maria, natural de Azambuja, que ficou assim conhecida na arena, como Ana Maria d’Azambuja e que, com 16 anos, obteve a carteira profissional. Azambuja, é terra onde há bastantes aficionados e apreciadores da tourada, bem como a Tertúlia Tauromáquica Azambujense, sita numa antiga taberna, um museu vivo que comprova a aficcion do homem que um dia quis ser toureiro, mas o coração não me deixou, confessa com a mão no peito para reforçar a nota. Trata-se de António Salema, que colecciona na Tertúlia artefactos que dizem respeito à festa brava. Para alimentar a sua paixão, usou a energia a ensinar outros, como Ana Maria d’Azambuja. As fotos dos pupilos estão expostas a comprovar o carinho do mestre pelos seus discípulos, onde a de Pedrito de Portugal ocupa um lugar de destaque.