terça-feira, 11 de maio de 2010

A BATALHA DE ALJUBARROTA, A BÍBLIA (ganhada aos Castelhanos) E OUTRAS COISAS, DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Com a saída rápida e forçada dos monges do Mosteiro, aquando da extinção das ordens religiosas, o seu recheio foi quase todo despojado.


A Igreja viu perderem-se definitivamente, muitos quadros de valor, indo outros para Lisboa, por ordem do governo, com o objectivo de formar então uma galeria de pintura, que se levou a efeito na Academia Real das Belas Artes. Na Sacristia, guardavam-se preciosidades únicas, como vasos sagrados, alfaias, ferramentas que se extraviaram, enquanto algumas foram a tempo de constituir colecções de arte ornamental, no então chamado Museu Nacional de Belas Artes. É sobejamente sabido que a Biblioteca de Alcobaça, era das maiores do País, se não a maior, notável pelo grande número de volumes e obras nela conservadas.



Não é nosso objectivo descreve-las aqui. Basta referir que iam desde o sec. XI ao sec. XVIII e encontram-se hoje em dia, as que se salvaram da voragem e pilhagem destruidoras, em recato na Biblioteca Nacional e na Torre do Tombo. O período filipino, as invasões francesas e o saque de 1833, foram os grandes responsáveis por perdas inestimáveis, quer pelo seu valor histórico, quer pela sua importância literária e artística.



Bastantes anos mais tarde, por alturas de 1948, o então Conservador da Biblioteca Nacional, Dr. António Ataíde de Melo, tornou-se tristemente célebre por se ter envolvido no desaparecimento, por furto, de raridades provenientes de Alcobaça, guardadas naquela biblioteca, facto pelo que veio a ser preso, só não tendo sido levado a julgamento porque, entretanto, faleceu.



Com a derrota dos castelhanos, em Aljubarrota, muitos fugiram desordenadamente e cheios de pavor. Frei Manuel dos Santos, cronista de Alcobaça, refere que a peonagem dos Coutos de Alcobaça mais vizinha do local da batalha e que até ali andava ao largo, à sombra do Mosteiro, soando as primeiras vozes da vitória, foram-se chegando e já desembaraçados do susto deram-se em roubar e matar nos vencidos castelhanos com tal voragem que até as mulheres, ainda que tímidas por natureza matavam neles aos pares, seguindo exemplo de outra forneira que, segundo a tradição, matou sete castelhanos com a tão decantada pá de fornear.



De acordo com o mesmo cronista, D. João I, ficou três dias no campo de batalha a fim de assegurar a posse, como era costume, partindo então em marcha triunfal para o Mosteiro de Alcobaça, onde chegou em 20 de Agosto de 1833.



O povo saiu à estrada e aclamava delirantemente o vencedor, entregava-se a danças e folias próprias do tempo e ao som de ininterruptas vivas, acompanhou D. João I e o seu exército até Alcobaça, onde foi recebido perante a comunidade dos monges. D. João ordenou que aos de maior nome, que morreram em Aljubarrota, se fizesse sepultura no Claustro do Mosteiro de Alcobaça, como urna de tão leais cinzas.



Do campo de Aljubarrota para o Mosteiro foram levados, pois, alguns cadáveres de nobres portugueses, tendo o rei oferecido alguns despojos da batalha. Entre estes, há a destacar, a bandeira de Castela, o ceptro do Rei de Castela, um oratório de prata, os caldeiros de cobre onde se fazia a comida para o exército invasor, um dos quais está exposto na Sala dos Reis e uma Bíblia, hoje denominada a Bíblia de Aljubarrota, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa.



Chamam-se Codices Alcobacenses, a um fundo de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional e Torre do Tombo que pertenceram ao acervo do Mosteiro de Alcobaça, de onde foram levados depois de 1834. Alguns desses documentos provêm de Claraval, trazidos pelos monges fundadores de Alcobaça, mas a maioria é de calígrafos portugueses, quase todos da Ordem de Cister.



Os códigos destinavam-se, fundamentalmente, à formação espiritual dos monges de tipo litúrgico. Com os Códices de Alcobaça levados da sua Biblioteca para a Torre do Tombo, há uma obra que é uma dupla preciosidade, por ser artística e histórica.



Trata-se como se disse da chamada Bíblia de Aljubarrota que se diz ganha por D. João I, aos Castelhanos. Este manuscrito foi entregue ao Mosteiro de Alcobaça pelo Condestável D. Nun’Álvares Pereira e no princípio lê-se:



Bíblia ganhada na Batalha de Aljubarrota que el Rey Dom João o primeiro da gloriosa memória a qual era do próprio Rey de Castela foy ganhada dentro da sua própria tenda como consta da sua memória que está d’este próprio livro.

A (fantasiosa) PRINCESA RATTAZI, PORTUGAL a vol d'oiseau E ALCOBAÇA

I-NOTA PRÉVIA



PORTUGAL A VOL D’OISEAU (Portugal visto por alto), é uma obra curiosa, conscientemente polémica e, como tal, tem ainda hoje de ser encarada. Não foi assim entendido em Portugal, aquando da sua publicação em França em 1879 e, os nossos escritores e políticos, já então muito intelectuais e sérios, entre os quais há a destacar Camilo Castelo Branco, sentiram-se ofendidos com algumas observações e erros nela expressos.



Salvo melhor opinião, a Princesa Rattazi, francesa nascida em 1833 e falecida em 1902, que não era especialmente culta, nem estudiosa, mas ousada de juízo e uma grande viajante que gostava de ver o mundo, não deixou de manifestar profunda simpatia por este pequeno reino que supunha adormecido para não dizer morto. Por outro lado, se pretendeu corrigir erros inconcebíveis espalhados pela Europa acerca de Portugal, também é certo que deu letra de forma a outras incorrecções e imprecisões devidas, fundamentalmente, ao conhecimento por alto que teve do nosso País.



No prefácio da obra, necessário para compreender o seu sentido, reconhece a autora que uns dirão que eu vi como um cego e estudei como um idiota, embelezando a todo o custo e desfigurando de propósito, todavia estes deverão corar por não terem em conta o humorismo do livro, escrito a intervalos, a correr e por alto, como indica o seu título.



Não se vai traduzir aqui ou publicar, a totalidade do livro da Princesa Rattazi mas, apenas, a parte em que ela descreve a visita a Alcobaça. Os nossos leitores verão, em relação a Alcobaça, que a autora revela desconhecimento de alguns factos tidos por correntes entre nós, fantasia outros e inventa alguns, seguramente para dar mais interesse ou colorido à sua escrita.



No fim deste trabalho de tradução, que se vai apresentar, daremos conta de algumas dessas incorrecções, em notas da nossa autoria.



II-A VISITA A ALCOBAÇA



De Caldas da Rainha fiz uma excursão a Alcobaça. Os meus amigos portuenses haviam-me vivamente aconselhado a não deixar de visitar este local curioso, onde os túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro atraiem uma multidão de curiosos ou de peregrinos, especialmente os enamorados pela lenda comovente dos dois amantes coroados.



Partimos às oito horas da manhã, numa caleche puxada desta vez por vigorosos cavalos. A estrada é um perpétuo encantamento, uma fantasmagoria, onde o sol e a beleza da natureza desempenham o papel principal. Encostas suaves, atapetadas de folhagem, de flores, de heras, escondem no fundo minúsculas casas, perdidas sob a ramagem, enquanto colinas rodeiam uma cintura verdejante de prados, de vales, de habitações, à volta dos quais pastam rebanhos dóceis e azinhagas estreitas ziguezagueiam como serpentes. Tudo isto iluminado pelo azul mais puro e pela luz mais radiosa. Eis, o espectáculo que gozamos durante três horas.



Longas alamedas sombrias, bordejadas de plátanos gigantescos, precedem a nossa chegada a Alcobaça e assemelham-se às avenidas de qualquer castelo grandioso, ao mesmo tempo solitárias e alegres com o chilrear dos pássaros e o rumorejar do vento na folhagem.



Alcobaça é banhada por dois rios, o Alcoa e o Baça. A vila, perdido o antigo esplendor, nada mais oferece de notável que o Mosteiro. Por si próprios os claustros são cidades, a sacristia uma igreja, e a Igreja uma basílica, disse um autor português. É, com efeito, verdade.



O Mosteiro foi fundado em 1148, pelo Rei Afonso Henriques, como manifestação de agradecimento pela vitória de Campo de Ourique, que assegurou a fundação da monarquia portuguesa. Os religiosos da Ordem de Cister, fundada por S. Bernardo, para aí foram chamados e, em breve, tornaram-se senhores do ar e da água. O Rei deu-lhes as terras que a vista podia abarcar do alto da igreja o que, na prática, quer dizer uma extensão enorme (1).



A fachada está admiravelmente conservada. A Igreja é do mais puro estilo gótico. Compõe-se de três naves ligadas entre si por arcos de abóbada duma altura espantosa. A humidade deu um tom esverdeado às pedras, o tempo abriu-lhes fendas. O edifício está quase abandonado, mas continua magnífico no seu conjunto e os detalhes permanecem intactos.



Os portais carunchosos dão acesso à sacristia e ao claustro. Uma parte serve de quartel, restaura-se outra para aí instalar uma escola ou um seminário e a terceira cai em ruínas. Todavia, o aspecto geral é grandioso. A erva cresce em tudo o que é sítio, as cobras deslizam assobiando, enrolando-se nas colunas que suportam as abóbadas circulares. Os túmulos dos monges, confundem-se com as lages do pavimento e com as pedras que apresentam inscrições nas paredes. Aqui e acolá, rodeado de heras, de plantas trepadoras, descobrem-se os restos de duas paredes ligando dois pisos do Mosteiro. Julgamos ver a todo o tempo uma aparição fantástica e sobressaltamo-nos ao menor ruído, como se sombras misteriosas nos tocassem nos seus movimentos etéreos.



Os altares das capelas particulares estão todos repletos de ornamentos. Em frente aos túmulos de Inês de Castro e de D. Pedro, encontra-se uma representação da morte e S. Bernardo, rodeado dos seus discípulos, que é do trabalho mais fino e da expressão mais curiosa! Atrás do altar-mor, existe um dédalo imenso, cortado por capelas particulares em honra de santos e santas. Na sacristia, encontram-se dois móveis antigos de elevado valor. Perto da sacristia, existe uma sala circular onde a luz do dia entra pelo tecto dividido em pequenos nichos, como um pombal, que se chama Escrínio das Relíquias. Em cada um destes nichos dourados, encontra-se a cabeça de um santo ou santa em tamanho natural, numa redoma de vidro. Durante as guerras civis, a maior parte destas relíquias perdeu-se (2) .



Os túmulos de Inês de Castro e do seu real esposo são maravilhosos! É pedra, marfim, renda? Os dois sarcófagos estão de pés de um para os do outro, a fim de no dizer da lenda, quando no Dia do Juizo Final a trombeta do arcanjo acordar os dois amantes, o seu primeiro olhar seja um olhar de amor. A estátua de Inês de Castro é jacente, sustentada por anjos que a olham chorosos, segurando uma coroa sobre a sua cabeça. Na mão direita tem um colar de pérolas. A seus pés vêm-se vestígios de cães, que foram partidos ou arrancados e que deviam simbolizar a fidelidade. Os quatro lados do túmulo, estão cobertos de baixo-relevos admiráveis. O túmulo propriamente dito, está apoiado em seis esfinges, cujas faces destruídas e sem relevo, testemunham a curiosidade dos visitantes. O sarcófago de D. Pedro, o Justiceiro, está seguro por seis leões. A sua figura nobre respira suavidade, a mão direita empunha uma espada. A seus pés estira-se um cão de caça. Nos cantos da capela, encontram-se três pequenas arcas em pedra, cujo trabalho admirável está meio apagado pelo tempo e que contêm os restos mortais dos três filhos de Inês de Castro.



Os sarcófagos de Inês de Castro e de D. Pedro foram infelizmente pilhados e mutilados. A figura de Inês de Castro foi muito deteriorada. O guia, vendo a minha indignação perante estes actos de vandalismo, disse-me com uma voz tornada profunda pela ressonância do lugar, estas palavras, seguramente as únicas que sabe na nossa língua, mutilados pelos franceses, sem juntar mais qualquer comentário. Senti-me incomodada (3 e 4).



Percorremos a Igreja, o claustro, mas eu continuava instintivamente perseguida por aquelas palavras que se me configuravam como uma censura e uma ameaça.



A biblioteca é uma sala imensa, que continha 100.000 volumes que foram transportados, uns para Lisboa, outros para Braga. Ela foi restaurada, decorada com belas pinturas e com uma galeria circular, totalmente dourada. Ajuizar-se-à do seu tamanho quando se souber que 999 monges viviam no Mosteiro e se reuniam nesta sala para trabalhar e estudar. Não podia haver em Alcobaça um número de monges que atingisse mil. Assim, havia por isso 999 celas. Que imensidão!!! Nas proximidades encontram-se os aposentos do Prior e a sua capela, dedicada a Santa Constança. As celas são pequenas, todas iguais. A maior parte está em ruínas. Quanto à cozinha ela é gigantesca.



O forno, que se encontra no centro e cuja chaminé à distância tem a forma sinistra de mitra de bispo, pode assar no espeto dois bois inteiros. Aqui e acolá existem mesas de pedra para cortar a carne e o pão, bem como uma banca enorme onde a louça se lava sozinha, servida por água que aí chega em abundância através de canais subterrâneos... Uma cozinha de Titã!



A torre é relativamente menos alta do que se julgaria à primeira vista. Talvez o rei, havendo achado imprudente a sua promessa, tivesse tomado depois as suas precauções. Mesmo assim, subi 72 degraus e encontrei-me sobre um terraço admirável, com os sinos aos meus pés e toda a região disposta como num leque aberto.



Para lá chegar, passei pelos celeiros. José poderia ter lá guardado não sete anos, mas a colheita de um século!



Dei por mim espantada e encantada. Que homens eram estes que podiam deixar tais marcas da sua passagem! Ao fim de vários séculos, o seu poderio manifesta-se em monumentos imperecíveis que permanecem de pé como a memória de um povo de gigantes!



O sol ia descendo. O encantamento do lugar permanecia, mas ia-se suavizando. Pequenas núvens corriam por aí, tingiam de púrpura o horizonte e maculavam a lua, que nascia muito pálida, atrás de um pinhal de troncos delgados e flexíveis.



O odor de violeta perfumava o ar, as flores protegiam as corolas delicadas e colocavam-se sob as folhas protectoras, os pastores regressavam a cantar aos seus lares, donde saía um fumo azulado e onde os esperavam as mulheres e filhos... Camponesas tisnadas pelo sol, de grandes olhos negros, caminhavam com alegria, carregando à cabeça molhos de espigas misturadas com papoilas e flores silvestres, enquanto que rapariguinhas, de joelhos à borda da estrada, pediam esmola sorrindo a despeito do tom fúnebre das suas súplicas. Doce esplendor de Portugal! Que clima! Teu céu permanentemente radioso! Teu hino é o da primavera e as tuas crianças desconhecem o aborrecimento, a doença ou a tristeza (7) .



O meu regresso foi assinalado por um incidente bastante pitoresco. Um burrico cinzento, bem tratado e luzidio, sem dúvida manso, depois de saltar uma sebe florida, veio cantar-nos um melodioso hi, han, tão intenso, que nos obrigou a tapar os ouvidos. Sem dúvida deixamos ali um amigo.



III-NOTAS AO TEXTO DA PRINCESA RATTAZI



1- A LENDA DA FUNDAÇÃO DO MOSTEIRO



Não é fácil saber, ou apurar, em que condições foi fundada por D. Afonso Henriques, a Abadia de Alcobaça.



Hoje em dia, quando a propósito ainda se fala em lendas, ou seja se procura ou invoca uma explicação não científica ou crítica para o facto, é desde logo em Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister, que vamos deparar.



A lenda mais conhecida, também chamada Novella do Voto, resume-se em que D. Afonso Henriques, em 1147, resolvendo sair de Coimbra para tomar Santarém aos mouros e conhecendo as dificuldades do empreendimento, agravadas pelo facto de as suas tropas serem pouco numerosas, resolveu invocar a ajuda de Bernardo, Abade de Claraval, já com fama de santidade, tanto mais que se tratava de uma batalha em honra da cristandade. Ao chegar ao alto da Serra de Albardos, no lugar onde mais tarde veio a ser construído o Arco da Memória, decidiu D. Afonso Henriques, em voto solene, conceder a Bernardo de Claraval, toda a terra que dali se avistava, para nela fundar um convento da Ordem. Esta versão, fantasiosa, mas bela, foi muito divulgada ao longo dos séculos, tendo vindo a ter uma excelente representação artística nos azulejos da Sala dos Reis.



Como todos os portugueses sabem, nunca houve batalha de Campo de Ourique como diz a Princesa Rattazi, com influência na fundação da nacionalidade.



2-DEPRADAÇÕES NO MOSTEIRO E UTILIZAÇÕES QUE LHE FORAM DADAS



Mesmo antes da extinção das ordens religiosas em Portugal, o Mosteiro de Alcobaça fora pilhado e saqueado por uma população hostil e até enraivecida, por alturas de levantamento de cariz liberal, ocorrido, em 16 de Outubro de 1833.



Durante as lutas liberais, os monges, à revelia dos ventos da história, colocaram-se ao lado de D. Miguel. Este, por várias vezes, manifestou ao Abade de Alcobaça a sua vontade de visitar o Mosteiro, na boa tradição dos Reis de Portugal. Isso veio a acontecer a 8 de Agosto de 1830, aliás nessa condição, com a recepção possível numa terra em que a população se revelava anticlerical e a vida conventual nada tinha de especialmente digna ou de faustosa.



O Mosteiro vivia, por essa altura, com muitas dificuldades financeiras, dívidas a particulares que atingiam cifras avultadas. O terramoto de 1755 e as invasões francesas, autêntico desastre nacional, acabaram por causar-lhe danos, de que não mais se recomporia.



Depois de 1834, e do saque incontrolado a que foi sujeito durante onze dias, parte de Mosteiro foi transformado em quartel, outra em espaço afecto à administração pública, como a Câmara Municipal, Repartição de Finanças, Tribunal, Cadeia, Asilo de Mendicidade e o restante vendido a particulares.



O teatro da vila chegou durante anos a funcionar no Refeitório. Desde então e até aos anos 50, o Mosteiro foi objecto de obras ditas de restauro, nem sempre bem planificadas ou executadas. Em todo o caso, o simples visitante, dificilmente será hoje em dia capaz de fazer ideia do que era o Mosteiro, já não nos tempos de grandeza e opulência, mas pelo menos quando foi abandonado pelos frades.



O Mosteiro estava lamentavelmente votado ao desleixo e ao abandono quando a Princesa Rattazi o visitou em 1879, aliás pouco antes de Ramalho Ortigão, que o descreveu nas Farpas, vol. 1. A delapidação e o vandalismo eram constantes, se não no recheio que se perdera totalmente, ou fora transferido, ainda com alguma oportunidade, como a Biblioteca, mas na parte monumental propriamente dita.



Alcobaça possuía alfaias riquíssimas e seculares, vasos sagrados, candelabros e tocheiros de prata e paramentos que os franceses levaram aquando das invasões. O restante, acabou por desaparecer às mãos da população, e não só, depois da extinção das ordens religiosas.



Em princípio, a Regra da Ordem, proibia a presença de imagens na Igreja, o que não quer dizer que ela fosse mesmo acatada ou que ali elas não existissem, como aliás acontecia noutras partes do monumento.



3- OS TÚMULOS



Sobre os túmulos de D. Pedro e de D. Inês de Castro, muito se tem dito e escrito em Portugal e no estrangeiro, pois são reputados como das obras mais importantes da escultura funerária do ocidente.



Segundo Cocheril, inicialmente os dois túmulos estavam colocados lado a lado no braço sul do transepto da Igreja, com os pés virados para nascente, sendo o de Inês de Castro à direita do de D. Pedro.



Foram em várias alturas abertos estes túmulos, entre outras que se saiba por D. João III em 1524 e D. Sebastião em 1 de Agosto de 1569. Vieira Natividade in MOSTEIRO DE ALCOBAÇA(1885), refere que D. Sebastião por uma doida fantasia de criança andou pelo reino vendo os restos mortais dos seus antepassados. Logo dessa vez, o de Inês de Castro foi muito danificado. Durante a 3ª invasão francesa em 1810, os soldados do Conde de Erlon assaltaram o Mosteiro e, entre outros actos de vandalismo que praticaram, arrombaram os túmulos que estavam no cruzeiro da Igreja, destruíram completamente e de forma irreparável algumas edículas e retiraram os corpos.



Possivelmente em 1827, os dois túmulos foram transferidos para Sala dos Túmulos e aí colocados em frente um do outro, criando-se assim a lenda que a Princesa Rattazi descreve.



A actual localização, o de D. Inês no lado norte e o de D. Pedro no lado sul do transepto, é apenas de 1956, após as últimas obras no Mosteiro. Refere ainda a Princesa Rattazi a existência de 3 pequenos túmulos, contendo os restos mortais dos três filhos de Inês de Castro. Efectivamente, no Panteão Real, há três sarcófagos pequenos, não identificados, eventualmente destinados a crianças. Nenhum historiador responsável os atribui aos filhos de Inês de Castro. Assim, a Princesa Rattazi em 1879, tal como Ramalho Ortigão em 1886, quando visitou o Mosteiro, aceitou como boa mais uma lenda romântica.



4-O FUNERAL DE INÊS DE CASTRO



Transcreve-se a seguir, por curiosa e pouco divulgada, a descrição que in ALCOBAÇA ILUSTRADA, Frei Manuel dos Santos faz da transladação de Coimbra para Alcobaça dos restos mortais de Inês de Castro.



Para efeitos da dita transladação procedeu El-Rei D.Pedro da maneira seguinte: mandou lavrar grande quantidade de tochas de cera fina; deu ordens necessárias aos povos que corta a estrada real de Coimbra até Alcobaça e chamou a Stª Clara a nobreza e o mais luzido do Reino; e sendo isto ordenado, assinou El-Rei o dia: viam-se da porta da Igreja de Stª Clara-a-Velha em primeiro lugar o Cabido, as Religiões e o Clero da Cidade; logo sucessivamente pela estrada adiante postos em duas fileiras cada um tem seu círio aceso na mão as pessoas que foram necessárias para se encher a grande distância de caminho, que há da Igreja de Stª Clara até ao real Mosteiro de Alcobaça, que são as mesmas dezassete léguas que diz Faria, todos em silêncio esperando que passasse pelo meio das duas fileiras o real e fúnebre acompanhamento. Vinha o cadáver da Rainha em liteira ou andas, a qual cobria um pano de brocado arrastando as pontas até ao chão; precediam grande número de Eclesiásticos a cavalo; seguia-se a liteira ; logo os Bispos do Porto, de Lisboa e Viseu e o Abade de Alcobaça; atrás El-Rei e os Senhores que seguiam a Corte. Finalmemte chegou a Alcobaça por entre tantas línguas de fogo, que assim aplaudiam e davam a palma ao amor e desanimada beleza ainda triunfante depois de morta; e apeando-se os da comitiva à porta do Mosteiro foram pôr o corpo da Rainha na Igreja sem fazerem por então outra coisa. No outro dia oficiou os funerais em Pontifical o Bispo de Viseu; e no fim fez El-Rei descobrir o cadáver acomodando-o como puderam em uma cadeira e trazendo o Abade uma coroa prevenida outra vez deram princípio a nova e celebradíssima cerimónia de beijarem a fria mão de D. Inês como sua Rainha todos os que eram presentes; por remate da acção depositaram o Real cadáver na elegante e soberbíssima sepultura, que o esperava; e nela descança até ao último dia da ressureição universal.



5-A BIBLIOTECA DO MOSTEIRO



A Biblioteca do Mosteiro era famosa não só pela beleza e elegância da sua decoração, de que há ainda vestígios, mas também ou principalmente, e isso é que a tornou relevante, pela riqueza e número de códices e livros impressos que possuía. Como se sabe, a sala onde funcionou, está na parte monumental ocupada actualmente pelo Lar Residencial. Em ligação com a Biblioteca, além de oficinas de encadernação, instalaram os monges cistercienses nos finais do século XVI, uma tipografia onde foram posteriormente impressas obras importantes, como as da historiografia oficial do reino. Na verdade, após Frei Bernardo de Brito, os cronistas de Alcobaça foram nomeados cronistas-mor do reino, elaboraram obra considerável, frequentemente porém sem rigor histórico, para satisfazer alguns imperativos meramente conjunturais.



Segundo M. Vieira Natividade, in Mosteiro de Alcobaça, ao lado da Livraria existiam uns quartos bastante espaçosos que eram destinados a encerrar os livros proibidos, os livros dos grandes pensadores, que só aos monges velhos e de reconhecido fervor religioso era permitido ler, porque, esses por certo se não deixariam arrastar pelas doutrinas dos novos filósofos. Esta afirmação, foi desenvolvida noutro contexto por Umberto Eco em O Nome da Rosa.



6-QUANTOS MONGES HAVIA EM ALCOBAÇA?



A Princesa Rattazi recolheu no seu texto mais uma outra lenda muito divulgada, que ainda hoje se mantém, ou seja, que Alcobaça não podia receber mais que 999 monges e que esse número chegou efectivamente a ser atingido. Ramalho Ortigão, in Farpas, de 1886, referiu que os dormitórios do convento tinham celas para 999 religiosos e a casa dispunha, além disso, de vastos aposentos para hóspedes, quartos para criados, livraria, gabinetes de estudo, cavalariças, adegas enormes, celeiros, boticas, lojas de barbeiro e numerosas oficinas de impressores, de encadernadores, de marceneiros, de carpinteiros, de ferreiros, de escultores, de barristas, de imaginadores, etc., etc..



Segundo Dom Maur Cocheril, in Alcobaça-Abadia Cisterciense de Portugal, o número de monges variou ao longo dos tempos, tendo chegado a atingir uns 150, reduzidos a 110 no século XVII, em 1762 a 139, sendo Alcobaça um dos mosteiros cistercienses masculinos com mais população.



Os monges dormiam vestidos, em leitos modestos, separados entre si por tabiques pouco altos e, portanto, sem privacidade.



7-AS FANTASIAS DA PRINCESA RATTAZI



Como vimos do texto que apresentamos, a Princesa Rattazi não tinha pudor em fantasiar sem limites, nalguns casos por falta de cuidado na recolha das fontes noutros, por puro humorismo ou espírito satírico.



Somos de opinião que a divulgação que o livro teve, foi mais fruto das críticas exaltadas que lhe foram feitas do que pelos méritos que, de facto, não tinha. Todavia, mais de 100 anos após a sua publicação, pareceu-nos interessante apresentar aquele extracto.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

França, Agosto de 2003 - VII

FRANÇA
Versalhes e o Rei-Sol
HISTÒRIAS COM A ANINHAS, CLARA E MANEL
(2003)

Para a visita a Versalhes tínhamos reservado um dia completo, a partir de Rambouillet.
Contávamos com a existência de grande movimento de turistas, muito calor e a oportunidade de dar uma volta pela cidade, que dizem ser interessante, bem como pelos Trianons e jardins.
Mas como vai sendo costume nas nossas viagens, não vale a pena fazer grandes programações. O programa é para ser adaptado em cada momento, em função da oportunidade.

Já tinha ido várias vezes a Versailhes, mas de cada uma delas parece ser sempre uma experiência nova.
Que posso dizer sobre Versalhes?
Diz a História ou a Lenda (não apurei bem), que quando Luís XIV viu o castelo do seu Ministro das Finanças, decidiu fazer um para si, mas obviamente melhor e maior.

O resultado é aquilo que fomos ver neste Verão de 2003, um dos monumentos mais sumptuosos, mais impressionantes, mais vastos e mais visitados do mundo, construído a partir de um pequeno pavilhão de caça, entre 1664 e 1715, ou seja, o ano em que o rei faleceu.
Aqui se passaram muitos momentos marcantes da história da França e do Mundo.

Destaco, como mero exemplo, que na Galeria dos Espelhos, foi assinado o Tratado de Versalhes, que pôs fim à I Guerra Mundial e impôs condições muito severas à Alemanha, potência vencida, que por isso terá despertado o espírito revanchista de Hitler.
Foi em Versalhes que, em 1789, se reuniram pela última vez os Estados Gerais e que começou a agonia da antiga monarquia dos Capetos, que governava a França desde 987.
Mais que um símbolo solar (Rei-Sol) Versalhes foi o da Monarquia, dita do Antigo Regime (Ancien Regime), também dita absoluta, de direito divino e pessoal.

O Palácio de Versalhes situa-se num parque concebido pelo célebre arquitecto de jardins, Le Notre.
É tão grande, que existe um mini comboio para o visitar e levar os turistas aos Trianons, palacetes estes que funcionaram na origem, como ninhos de amor. Nós não utilizamos o comboio, pois preferimos o ar condicionado do nosso Peugeot, para dar essa volta.



O Grande Trianon foi construído por Luis XIV para gozar dos favores da sua favorita, Madame Maintenon. Bonaparte também tinha uma atracção muito especial por este retiro, que lhe parecia mais humano que o grande palácio e, aí, devaneou algum tempo com a Maria Luísa de Áustria. Por sua vez, Luís XV, em meados do século XVIII mandou construir o Petit Trianon, para a sua amante, Madame de Pompadour.

Os belos jardins do nosso Palácio de Queluz, são aliás muitas vezes comparados aos de Versalhes, passe o exagero. Embora um pouco mais recentes, acho que também merecem uma visita atenta, pois revelam uma concepção cenográfica de largos recursos, dentro do gosto francês dominante. Os jardins de Queluz, como se recorda, foram planeados em 1760, para o casamento do infante D. Pedro com a futura D. Maria I.

Não é possível, nem está no meu objectivo, fazer aqui uma história, ainda que pequena, do palácio de Versalhes. Luís XIV instalou-se definitivamente em Versalhes em 1682 e abandonou Paris, que aliás pouco apreciava, para sempre. Não voltará a Paris entre 1693 e 1700.
Note-se que o reinado de Luís durou 55 anos, desde a sua juventude à velhice. Ora, como é bom de ver, o porte do rei determinou, em grande medida, o dos seus cortesãos, empenhados em imitá-lo e se possível agradar-lhe. O jovem e, porventura, garboso monarca de 1660, nada tinha de comum com o melancólico ancião de 1710.

Antes de sair para França, nestas férias, fui consultar, entre os meus livros, A VIDA QUOTIDIANA NO TEMPO DE LUÍS XIV, de Georges Mongrédien, reputado historiador francês, perito nesta época. Ora, segundo este autor, sem pretender seguir ano por ano, uma evolução difícil de captar, pode admitir-se a existência de períodos de juventude e de velhice, cuja ruptura se fixa no decénio de 1680, que assinala a presença da Senhora de Maintenon e a residência regular da corte em Versalhes.

Segundo os historiadores, há em Versalhes os períodos antes e depois de Me. de Maintenon, bastante característicos e distintos.
O Rei-Sol, deixou com o tempo de ser o jovem galante, cujos desconcertos legitimavam uma licenciosidade em geral, ao redor do qual se construíam intrigas políticas e de alcova, para passar a ser o homem altamente enfadado, a dar indícios de esclorose.
O que domina em Versalhes, no fim do século XVII parece pois ser o enfado, o tédio da melancolia, mas ninguém se atreve a lamentar-se em voz alta. Acabou o espaço da fantasia, os cenários de magníficos festejos que se prolongavam por dias, incessantemente renovados e que acarretavam enormes despesas ao erário, e do imprevisto. A rotina do rei é doravante, permanente e sem surpresa.
Depois de 20 anos de fantasias e prazeres, em que o rei dava o tom e a corte o seguia, no que foi a apoteose do Rei-Sol, tudo muda com a chegada de Me. de Maintenon, com que ainda irá casar depois de enviuvar, que substituiu a favorita Me. de Montespan.



Agora, passou a ser o tempo de um recolhimento devoto e beato, que parece atrair ao rei as desgraças públicas e os lutos privados. Sob a influência da Senhora de Maintenon, os interesses de Luís XIV centram-se na salvação da alma. O partido católico e o clero levam a melhor e colhem, enfim, o fruto de tantos anos de porfia. Foram-se as festas, os corrocéis, as amantes e os escândalos. No plano espiritual assiste-se, pois, a uma completa reviravolta do monarca; ele provoca, já se vê, evolução idêntica nos cortesãos que de libertinos, se tornam devotos voluntários. Iguais preocupações se registam no plano político: é a altura em que se incuba a revogação do Édito de Nantes e todas as medidas de excepção (incluindo as perseguições) que a acompanham. Quanto mais avança o reinado e se acentuam os efeitos das dificuldades financeiras, das misérias e das revoltas, dos reveses militares e dos lutos familiares dos últimos anos, tanto mais se denuncia o cariz sombrio desta corte a envelhecer, cujos apetites de gozo, demasiado refreados de novo transbordarão sob a Regência.(in, A VIDA QUOTIDIANA NO TEMPO DE LUÍS XIV, já citada)

A vida palaciana alterou-se, completamente. A fantasia cedeu passo a um protocolo rigoroso e imutável, quotidianamente repetido e a corte passou a dispor de um número imenso de pessoal, que chegou a rondar 10.000 pessoas. Que tipo de gente?
Nobres de todas as condições, clérigos, lacaios, soldados, parasitas, gravitavam na órbita do palácio, que os vestia e alimentava.

Versalhes transformou-se numa vasta maquinaria, regulada tal qual uma geringonça de relógio; todos os dias, à mesma hora, se assiste ao levantar do rei, à missa do rei, ao almoço do rei, à caçada do rei, ao jantar do rei, ao deitar do rei. A preocupação mais obcecante passa a consistir quem lhe dará a camisa ao erguer-se de manhã, e quem segurará a candeia na altura de ir para a cama.(in, A VIDA QUOTIDIANA...)

A visita metódica ao conjunto de Versalhes exigiria a um perito ou estudioso vários dias. O turista, como nós, cujos objectivos são muito menos ambiciosos, deve visitar pelo menos, os Grandes Apartamentos do Rei, a Capela, a inigualável Galeria dos Espelhos, onde se fizeram bailes, desenrolaram jogos e se faziam as audiências, os Apartamentos da Rainha e a Ópera Real. Se tiver tempo, é agradável passear pelos jardins e dar uma saltada aos Trianons. Note-se que a Ópera de Versalhes, que existe hoje, não é do tempo de Luís XIV, pois foi edificada com vista a festas e espectáculos comemorativos do casamento de Luis XVI e Maria Antonieta. Foi com pena, mas desta vez não a fomos visitar.

Quando atrás falei do Louvre, referi o célebre quadro de David, representando a coroação de Napoleão, em 02.12.1804. Visitando Versalhes, parece-nos ver lá exposta a mesma obra. Claro que isso não é possível. Então o que se passa?
A primeira versão desta obra-prima encontra-se no Louvre, enquanto que a de Versalhes foi acabada em 1822, pelo mesmo artista. Esta pintura em La Salle du Sacre, como outras expostas na parede, glorifica a epopeia napoleónica, tal como quis Luís Filipe, quando transformou o palácio no museu que é hoje.
Visitamos Versalhes um pouco a correr.
Só para ultrapassar o pátio de entrada, e entrar no palácio propriamente dito, tivemos de nos sujeitar às inclemências do calor e do sol. A fila era enorme e houve entre nós, já não me lembro bem, quem começasse logo com necessidade de ir fazer chichi.
O que dava lugar a uma enorme canseira, com mais sol, calor, perda de lugar na fila e tudo o mais. Até que a Aninhas providencialmente se recordou e socorreu da minha qualidade de handicapé, com direito a entrada especial (gratuita, inclusivé para um acompanhante), à frente dos demais visitantes (se não fosse assim ainda hoje estávamos à espera de entrar), acompanhado por uma funcionária de crachat e bem fardada, subida em elevador reservado a altas individualidades.
Mas... sentado em carrinho de rodas, como sempre diligente e amorosamente empurrado pela Aninhas, sendo-nos lícito andar, se necessário, em contra-mão!!! Acabou por ser para mim e todos, uma verdadeira mordomia, sem mais necessidade de subir e descer escadas, e permitiu-me tirar de novo umas excelentes imagens em vídeo.
Foi-me todavia aconselhado a não sair do carrinho.

Creio que foi nesta visita que o Manel, aquele conhecido burguês empedernido e muito convencional, ficou chocado com o luxo e ostentação do palácio do Rei-Sol, e veio para o calor do ar livre comer uma bucha, enquanto mais tradicionalmente fomos ao bar, também quente, mas menos quente.

A propósito de Versalhes, a Paula contou-me um dia destes, um pequeno episódio, ocorrido quando lá foi com a Raquel e que pela graça que tem, vou registá-lo gostosamente nestas notas familiares. Fomos a Versalhes de comboio. Mais uma vez peguei-me com a Raquel. Achava um desperdício irmos gastar um dinheirão para alugar bicicletes para passear nos jardins. E logo eu que ando sempre cansada. A Raquel levou a melhor, lá me convenceu, mas para isso acabei por abdicar do consumismo num dos shoppings que tínhamos combinado visitar, porque depois deste passeio ficamos totalmente depenadas. Mas afinal valeu a pena. A Raquel por vezes também tem razão.

O regresso da Clara e do Manel ao Porto também, merece ser referido aqui. Supunham eles que vinham, tal como na ida, na Air Luxor. Mas não foi isso que aconteceu. Vou dar a palavra ao Manel, quando me sentei no avião das LAM (linhas aéreas de Moçambique) e vi pela primeira vez as hospedeiras pretas (e eram todas) fiquei com dúvidas se chegaria a Portugal. Mas afinal depois até achei curioso ver no ecran as indicações de velocidade e altitude instantâneas, coisa que nunca tinha visto. No entanto fiquei convencido que o piloto devia ser Português( e branco).

França, Agosto de 2003 - VI

Fontainebleau,
A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte
(2003)

Foi, aproveitando a nossa estadia em Paris na casa do Rebelo e o seu carro, um CITROEN XM, que fomos com ele visitar Le Château de Fontainebleau.

Este palácio que não rivaliza (artisticamente falando) com Versalhes, situa-se no meio de um enorme maciço florestal, segundo se diz de cerca de 17.000 hectares e nasceu fruto da paixão dos reis de França pela caça.
Para a Clara, Versalhes é beleza e ostentação, enquanto que Fontainebleau é só beleza.
Remonta este palácio a meados do século XII, altura em que era pouco mais que um albergue de caça e de cujo original nada resta mais que algumas fundações.

O grande impulsionador de Fontainebleau foi, porém, François I, que gostava tanto do local que lhe chamava a sua casa e decidiu transformar o velho edifício, ainda com telhado em colmo, numa palácio à boa maneira italiana. François I reuniu em Fontainebleau as mais variadas colecções de pinturas, entre as quais as de Leonardo da Vinci e a Gioconda, ali fazendo um centro artístico, aonde acudiam artistas de toda a Europa. Ao longo dos séculos o palácio foi crescendo, mesmo no tempo de Luís XIV, que previlegiou, notoriamente, Versalhes como bem se sabe.
Se raramente Luís XIV foi a Fontainebleau, salvo no outono ou na época da caça, nem por isso deixou de receber hóspedes famosos, como Cristina da Suécia, rainha que abdicou aos 28 anos, depois de abjurar o luteranismo para o catolicismo.
Cristina viajou pela Europa, seguida por uma comitiva faustosa e inquietante, composta por muitos aventureiros, tal como o seu amante Monaldeschi. Os factos que a seguir vou referir, anotei-os de um livro de História e parece-me interessante destacá-los aqui.

Quando Cristina chegou a França, o Cardeal Mazarino, alojou-a em Fontainebleau.
Apercebendo-se que o seu arrogante e oportunista favorito a traía, furiosa decidiu condená-lo à morte, se não confessasse a sua traição.
Cristina recebeu o amante na presença do padre Le Bel, superior do Convento dos Trinitários de Fontainebleau e fez-lhe violentas acusações.
Ele defendeu-se mal, engasgou-se e não conseguiu justificar-se, pelo que a rainha o deixou sem lhe conceder, um mero olhar ou oportunidade.
O favorito recebeu os últimos as sacramentos do padre Le Bel e em seguida o capitão dos guardas da rainha e dois soldados entraram de espadas empunhadas.
Monaldeschi, a tremer, descomposto, lançou-se aos seus pés, implorando clemência.
Em vão.
Os executores atiraram-se a ele e como a sua cota de malha impedia um golpe decisivo e mortal, cortaram-lhe a garganta.
A agonia, durou mais de um quarto de hora.
Para a oração fúnebre, a impetuosa Cristina, dirigiu ainda uma breve mensagem ao Cardeal Mazarino, salientando que não tinha nenhuma razão para se arrepender do que fez ao Monaldeschi, mas mais de cem mil para estar furiosa. Alguns dias após estes acontecimentos, a sueca deixava Fontainebleau e a França.



O palácio sofreu grandes depredações, durante a Revolução Francesa. O mobiliário foi vendido ao desbarato e saqueado por populares. O palácio foi negligenciado, sem sofrer todavia danos excessivos do furor popular, já que não simbolizava da mesma forma os contestados faustos e glórias reaisde Versalhes.

Em 1803, o então Primeiro Cônsul, Bonaparte decidiu instalar ali a Escola Militar Superior (A Academia Militar), mais tarde transferida para Saint-Cyr.
O Imperador gostava de Fontainebleau, ali foi muitas vezes e ordenou importantes restauros, no edifício, no mobiliário e nos jardins. Segundo a Clara, os apartamentos do Imperador eram tão pequenos como ele.
Em 1804, o Papa Pio VII que veio de propósito para a Coroação de Napoleão e Josefina, ficou instalado no Palácio.
Foi porém entre 30 de Março e 20 de Abril de 1814 que o palácio terá vivido algumas das suas horas mais sombrias, relacionadas com a queda de Napoleão. Em 6 de Abril, este abdicou sem condições e a 20 tomou, a partir daí, o caminho do exílio, para a Ilha de Elba, fazendo então o seu memorável e emocionante adeus à Guarda.

O palácio não recuperou mais os fastos de outrora. Luís-Filipe, interessou-se por ele, salvou-o da ruína, mas fez-lhe restauros muito discutíveis. Citando um autor francês, Fontainebleau, assumiu no ancien regime o lugar de residência real logo a seguir a Versalhes, onde em ambos os casos se respirava o ar cortesão. A rota de Fontainebleau tal como Versalhes, encontrava-se no caminho privado do rei.

Ao percorrer Fontainebleau, o turista de hoje pode ficar surpreendido com a sucessão de estilos que apresenta o palácio. Em Santa Helena, Napoleão recordava-o com nostalgia é ali a verdadeira morada real, que perdura pelos séculos e embora não seja rigorosamente um castelo de arquitecto, é um lugar para se viver bem. Era sem dúvida e lugar mais cómodo e bem situado da Europa.
Para o Manel, Versalhes e Fontainebleau são como o Louvre sumptuosos, mas também não são muito o meu género, aprecio mais o subtil que o grandioso.
Às vezes, o Manel que é um burguês e conservador tripeiro, parece querer ceder a uma certa postura, mais inclinada para o proletariado! Foi, porém, em Fontainebleau que no respectivo lago dos desejos (aquele onde se lança uma moeda de costas e faz um pedido) e Manel ainda tentou fazer um pedido sem gastar uma moeda!!!



Um dia destes comentei com a Clara, para ver se a atrapalhava, que aquela gente, parece que não tinha, nestes palácios, locais para fazer as necessidades fisiológicas.
Pelo menos nunca os mostram.
Mas segundo a Aninhas, a minha dúvida não é extraordinária, pois ainda hoje há quem as faça fora do bacio!
Sabem o que a Clara me respondeu, prontamente? Devia haver 5 criados com um pote.

Foi no regresso de Fontainebleau a Paris que íamos quase perdendo a Aninhas. Será verdade?
Ou conversa da treta?
Parámos numa terra qualquer, cujo nome de momento não recordo com segurança, mas suponho ser Montreau, para irmos visitar a sua igreja românica com mais de 1000 anos e curiosa pelas suas duas torres desiguais. Eram quase 19h e esta era uma igreja, não muito frequentada por turistas, de tal modo que as respectivas chaves se encontravam na posse de uma guardiã, velhota, que ao ver-nos sair, a Clara Manel e eu, resolveu fechar de seguida a porta à chave. A certa altura, percebemos que a Aninhas e o Rebelo tinham ficado lá dentro, mas apesar de barafustarem não se ouviam cá fora.
A velhota, felizmente, estava ainda perto e o assunto resolveu-se de imediato, saindo ambos um pouco ofegantes, embora pelo seu pé. A Aninhas não precisou de água..

Mas, como já disse e se sabe, é muito perspicaz, incapaz de se precipitar num juízo errado, tal como acontecia com o Cavaco que nunca se enganava, quando fala é sempre pela forma mais certeira e irrepreensível, o que incomoda, entendeu que a velhota por pura malandrice os tinha deixado lá dentro, o que todavia não chegamos a esclarecer. Mas se a Aninhas o diz... é de certeza pura verdade. O certo é que, tal como o Santa Maria, no dizer do Salazar, a Aninhas está connosco.

França, Agosto de 2003, V

(V)

FRANÇA (AGOSTO DE 2003)
Os Campeonatos Mundiais de Atletismo
Atentado contra Sérgio Vieira de Melo
O calor e os acontecimentos relacionados (uma grave questão social)
E Portugal?Incêndios

E como iam as coisas, ao mesmo tempo, em Portugal?
Claro, a questão mais marcante também foi o calor e os fogos, o que, mesmo em França, nos deixava algo sobressaltados.
Hoje, enquanto escrevo estas notas, em pleno Outono, esperava que o País soubesse a verdade, sobre os mortos por excesso de calor. Mas não, isso é um dossier encerrado!
O Ministério da Saúde veio com uma tese insustentável e que ainda mantém para este efeito, quanto a mim politicamente muito ridícula, baseada nas avaliações médicas das causas de morte inseridas nas declarações de óbito, que como se sabe não precisam a causa da falha do órgão que lhe deu origem. Não façam de nós mais trouxas do que somos.
Nem brinquem com os nossos sentimentos.
Com este peregrino critério, displicentemente administrativo, tentou-se escamotear ao País uma grave realidade. O que nos permite afirmar para o ano, se necessário, que infelizmente ainda não foi desta que aprendemos a lição, embora Durão Barroso diga, desde já, o contrário, a propósito dos fogos ou o M.A.I. ouse dizer que os Bombeiros Voluntários não têm a preparação adequada.
Ouvi a um comentador de pena, respeitável, assegurar que a vaga de calor deste ano foi, entre nós, o acontecimento natural mais grave desde o terramoto de 1755. Entendo, política e tecnicamente indefensável, equivaler um risco gerador da morte de 9 pessoas, a um outro de cerca de 1350, como o apurado pelo I.R.J.. O Ministro da Saúde, ter-se-á vangloriado de a maior parte das mortes (claro as não contabilizadas de acordo com os critérios administrativos apontados acima) ocorridas em Portugal, não ter acontecido em estabelecimentos tutelados pelo I.N.S. Mas, salvo o devido respeito, aqui a emenda é pior que o soneto, porquanto nos leva a concluir que esses morreram sem o cuidado do Estado, incapaz de cumprir a sua missão, na solidão das residências e dos lares para idosos.



O País não pode assim aprender a lição, mau grado o que anuncia Durão Barroso, se governantes antes dele não a tiverem aprendido, bem aprendida.
Alguns fazedores de opinião dizem que estamos assim a ver a democracia funcionar, perante a queda de ministros em consequência de pequenos escândalos e erros, a mediatização da justiça e a sua confusão com o poder político. Se o poder político se revelar fraco, será facilmente ultrapassado por outros poderes, como o poder económico, o poder religioso, o poder dos sindicatos ou das associações patronais, e tornará esta choldra ingovernável, com se queixava D. Carlos, mesmo antes de haver escutas telefónicas.
Foi a falta de poder político, a falta de autoridade e nunca o seu excesso, que a nossa I República deu lugar ao Estado Novo.

Os povos, tal como as pessoas, necessitam de sentir uma dose q.b. de auto-estima, para continuar a construir o futuro, vencer as dificuldades inerentes ao transitório da existência.
Assim, entendo ser condição de sobrevivência, como comunidades, que as nações acreditem nas suas potencialidades e construam projectos colectivos, que confiram espaço ao sonho e à esperança. As sociedades antigas estabeleceram princípios de conteúdo ético preciso, reguladores da conduta dos cidadãos e das instituições de forma a evitar disfunções, injustiças, arbitrariedades, que minorizam a vida social e corroem a auto-estima.
Sei que isto era no antigamente, no tempo da palavra de honra, antes da moda da contratualização escrita, da outorga notarial, das certificações, dos registos, cada vez mais necessário.

Entendo que em Portugal, mau grado a jovem democracia, se vive um momento histórico perturbante, com sinais de agravamento, assente numa indefinição daqueles valores, antes tidos como ancestrais, mas que permitiram, mesmo assim, manter a nossa identidade, ainda que em momentos de grande dificuldade, em que crescem a trafulhice, as burlas e as infidelidades. Parece ainda que outrora, os nossos maiores, foram capazes de ultrapassar uma aparente congénita incapacidade (geográfica), que nos entala entre a Europa e o Atlântico, e escrever páginas saborosas de História, de que muito nos orgulhamos, de vez quando.

Sendo assim, custa-me a compreender como parece, estarmos a perder o orgulho de ser a nação europeia com mais antiga definição territorial, a maior homogeneidade social, étnica e cultural, bem como a auto-estima perante alguns acontecimentos e contrariedades que nos têm assolado.



Os desafios que a construção europeia tem equacionado a esta nossa comunidade, e que a Aninhas tanto quanto sei e admiro, defende com muito empenhamento junto dos seus alunos, exigem que voltemos a assumir a condição de ser capazes de desempenhar um papel relevantemente activo na condução, construção e progresso do nosso tempo. A Aninhas referiu-me com muito acerto e a propósito, no que a acompanho embora sem a sua responsabilidade, que um das coisas que mais a marcou em França foi a preocupação dos franceses em manterem viva a memória dos seus notáveis.

Tenho acompanhado, algo fascinado, as comemorações dos 25 anos de pontificado de João Paulo II, pelo que pretendo a este propósito fazer aqui uma breve declaração, começando por citar o Cardeal Ratzinger, este é o Papa para quem a cruz não tem sido só uma palavra. Para mim e muito boa gente, católicos ou não, João Paulo II é o retrato acabado de um chefe que não recua perante a dor, num desafio aos seus limites (físicos),mas continua comoventemente apostado em cumprir, até ao fim.
Nestes 25 anos, entre tanto desnorte, com a sua força da razão e do bom senso, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e os muros entre Homens, Religiões, Ideologias e Civilizações.

Mas este Papa é também um Papa (frequente e muito convenientemente quando necessário) incompreendido, agarrado a valores, indiferente a ventos e marés.
Os governantes, como os nossos, ainda que em certos casos católicos assumidos, gostam de o incensar, quando convém, mas tão só em abstracto. Nunca ouvi, o nosso Ministro da Segurança Social (Bagão Felix), que se reclama fervoroso adepto do Sumo Pontífice, rejeitar na prática o princípio (nada marxista) da prioridade do trabalho em confronto com o capital, de parte da Ministra das Finanças (M. Ferreira Leite), encómios à teorização papal da contraposição liberal à globalização da solidariedadeou mesmo o Ministro da Defesa (Paulo Portas) divergir de João Paulo II quanto ao apoio à intervenção militar no Iraque.

Claro que os governantes políticos têm sempre possibilidade de se socorrer da necessidade do pragmatismo.
Termino este depoimento, com uma citação do Cardeal Patriarca: De João Paulo II, os Homens podem não ter ouvido aquilo que gostavam de ouvir, mas se estiverem abertos ao amor, sentiram-se por certo amados por Deus.

França, Agosto de 2003, IV

FRANÇA (2003)
Paris é um Museu




A Revolução de 1789, não fez construir grandes monumentos em Paris, com a notável excepção do enorme e patriótico Champ-de- Mars. Nesse período, como referimos, houve grandes saques populares e confiscações.
Bonaparte, quando se tornou Primeiro-Cônsul afirmou, segundo reza a História, que se Paris ficar mais bonita então deve demolir-se mais do que construir-se. Porque não arrasar de todo o quarteirão da Cité, se essa enorme ruína só serve para dar guarida a ratazanas? Como Imperador bem podia realizar o sonho de a transformar na mais bela capital do mundo e assim mandou abrir a Rua Rivoli, quatro pontes sobre o Sena, erguer o Arco sobre o Carroussel e dar início ao colossal Arco do Triunfo. Na Praça de Vendome, por onde os quatro passamos tantas vezes nos autocarros turísticos vermelhos, e para honrar a Grande Armée, foi erigida uma coluna algo semelhante à Coluna de Trajano, em Roma, fundida com o bronze dos canhões inimigos, capturados em Austerlitz. Trata-se de uma verdadeira referência da época de Napoleão, decorada com um baixo-relevo representando as proezas da Grande Armée.

A propósito de concertos acho que devo referir ao que assistimos, a Aninhas e eu, de música coral em Paris, na Madeleine, com a presença de um grupo britânico misto, possuidor de um virtuosismo e de uma sonoridade raros para os cerca de 30 elementos, interpretando música polifónica e ainda um outro, no dia em que fomos passear até Chartres. Aqui, assistimos os 4, a meio da tarde de um acalorado Domingo, na Catedral, a um concerto de órgão, integrado no Festival International d’Orgue de Chartres, que se realiza todos os anos no Verão. Estes concertos, que são alegadamente gratuitos, têm a presença dos melhores recitalistas franceses e estrangeiros e neles é utilizado o esplendoroso Grande-Órgão. Todavia, as pessoas, peregrinos, turistas ou simples melómanos como nós, são aconselhadas a contribuir (simples apelo, à generosidade) à saída do espectáculo, com 5 Euros, pelo menos.
Já que falo neste magnífico concerto de órgão, vou adiantar alguma coisa sobre uma das catedrais mais imponentes de França, perto da qual já tinha estado, por várias vezes, mas nunca visitara.
Melhor de que quaisquer minhas, as palavras de um conhecido autor francês, sobre a Catedral de Chartres, que passo a citar, com a devida vénia:
(...) Para todos aqueles que vão andando ou são transportados até Chartres, atentos e com o olhar fixo na Catedral de Nossa Senhora, aparecem em primeiro lugar os dois campanários arranhando o céu fixo sobre a planície de Beauce, veludos pardos das lavras, verdes tecidos dos trigos nascentes, brocardo de casulos das messes e dos sóis. Os turistas e peregrinos que atravessam a rica planície, vêem subir ao céu e no horizonte a Catedral, chamando aquele que acredita no Evangelho e, ainda mais, aquele que não acredita, o mais esperado.
E mais adiante:
Há séculos que homens sobem às alturas de Chartres para encontrar Deus, tomando os múltiplos aspectos das divindades pagãs associadas às forças da natureza, erguendo pedras gigantescas ou, como os Celtas que vieram de seguida, celebrando com a força e os carvalhos frondosos sagrados, as fontes, a terra mãe e o céu dos astros e do trovão.
E para finalizar:
A Catedral do século XIII eleva-se sobre os muros da cripta, onde se continua a praticar o culto e as peregrinações. Ela conserva, no Oeste, a fachada do século XII assim como as suas torres, poupadas pelo incêndio. Os temas dos três portais, inspiram-se no pensamento dos mestres da escola episcopal no seu apogeu (...).
Para além do gótico da pedra, Chartres impõe-se pelos seus vitrais, que são dos mais famosos do mundo. Também aqui vou socorrer-me da pena, do mesmo ilustre autor francês:
A Catedral, se bem que tenha perdido oito vitrais, sacrificados pelos cónegos do capítulo no século XVIII, pois o gosto do tempo fazia com que eles desprezassem a Idade Média e desejassem o conforto de uma boa iluminação, e mais oito destruídos pelos revolucionários, guardou e restaurou uma boa parte do tesouro que constituem os seus vitrais do século XIII, assim como quatro grandes janelas do século XII, poupadas pelo incêndio de 1194.(...). Os mestres vidraceiros, fizeram em cada janela o que os mestres pedreiros realizaram no exterior. Associando ao seu trabalho os doadores, os príncipes e as princesas, os grandes e pequenos senhores, os cónegos, os mercadores e todas estas pessoas de diversas profissões que estão representadas nos vitrais, eles permitem-nos, assim como aos peregrinos e aos visitantes actuais, reencontrar aqueles que aqui nos antecederam para rezar a Nossa Senhora(...).
A maioria dos vitrais, pode ser lida de baixo para cima e da esquerda para a direita. Os doadores, figuram geralmente no início das composições que mostram a vida de Jesus, da Virgem e dos Santos, parábolas e milagres ou evocam, simbolizando-as, a vida dos homens e a sua Redenção (...).

Há muito tempo que planeávamos ir visitar o Museu d’Orsay, o que ainda não tinha acontecido aquando de outras estadas em Paris. Como muito bem se sabe, este Museu situa-se no local onde funcionou a antiga e encerrada Gare d’Orsay, uma estação de caminho-de-ferro de fins do século XIX. Hoje é um dos mais prestigiados museus de Paris, dando vida e divulgação a artistas famosos que executaram obras entre meados do século XIX e o início da Primeira Guerra. Este edifício, construído em ferro para a Exposição Universal de Paris, esteve praticamente condenado ao camartelo, tendo sido poupado por força de veementes e justos protestos. A nave central, onde outrora potentes locomotivas a vapor expeliam os fumos, foi transformada num cenário de exposição de artistas do século XIX como os Impressionistas, os Post-Impressionistas, os Realistas, Pintores, Académicos e Mobiliário (marceneiros). Para o Manel, ir ao Museu d’Orsay era fundamental, nomeadamente, para ver os Impressionistas que o deslumbram. Aliás, adiantou-me o seguinte comentário que diz muito, o Louvre é um colosso no seu todo, mas as obras individuais não me sensibilizam tanto como as do Museu d’Orsay, porque nasci e cresci a ver e ouvir falar de impressionismo e no Museu d’Orsay vi obras que ma habituei a considerar como muito sublimes.
A Clara esclareceu, modestamente, que foi quando casei que aprendi a conhecer os Impressionistas.
E agora como conhecedora, que se reclama, é a pintura que entendo melhor. No que é secundada pela Aninhas.
Para mim, embora menos culto e preparado, também era uma decisão incontroversa. Além do mais estava imenso calor nesse dia! Claro que, eu não pretendo demonstrar aqui, nem cultura nem erudição de almanaque, mas sempre direi, para que fique registado, que fui estudar algumas coisas para poder mais tarde discutir, conversar pelo menos, com o meu culto cunhado Manel. Afinal o que é isso do Impressionismo? Como surge?
É preciso remontar alguns anos atrás, segundo os estudiosos da matéria. A Terceira República surge em França, na seguimento das lutas entre a Assembleia Nacional, dominada pela Monarquia, e o Governo Revolucionário, mais conhecido como a Comuna de Paris. Em breve, este governo pareceu obter sucesso, ao demonstrar a viabilidade teórica do socialismo, modelo que mais tarde orientaria Karl Marx. O restabelecimento da paz coincidiu com o nascimento do Impressionismo, movimento artístico liderado, entre outros, por Monet, Renoir, Cezanne e Manet que fizeram a primeira exposição ainda num estúdio de fotografia e que deram origem ao vocábulo em já em 1877.
Visitamos o Museu d’Orsay, vendo os Impressionistas, Post-Impressionistas, artistas como Daumier, Toulouse-Lautrec, esculturas, uma maravilhosa maquete do centro de Paris, com destaque para a zona da Ópera e da Madeleine. De entre as obras mais famosas aqui expostas, poderia destacar, a título de curiosidade, o Dejeuner sur L’Herbe, de Manet, recusado pelo Salão de 1863 e a obra realista L’Origine du Monde, uma representação gráfica do sexo feminino, que continua ainda hoje a chocar alguns.
A minha neta preferida, ou seja a Teresinha, é uma menina talentosa e de fina sensibilidade artística que a herdou segundo diz da Tia Paula e do Avô Gaspar.
O pai dela, o Nuno, anda a gastar um dinheirão com umas telas de cores muito fortes, da autoria de uma tal porto-riquenha que vive na Figueira. A Teresinha não aprova estas compras, tanto mais que acha que pinta melhor que ela, porque as da porto-riquenha é tudo “peixeirada”.A Teresinha gosta de pintar árvores, andorinhas e flores. Mas o que aprecia verdadeiramente em termos de arte é o ballet, pois é mais cor de rosa.



Já que falo de museus, acho que devo ainda referir a visita ao Museu Rodin, instalado no Hôtel-Biron, aonde o artista Augusto Rodin (1840-1917) tinha o seu estúdio. Não sei bem porque razão, mas este era um desejo profundo e antigo da Aninhas, afinal algo frustrado pois, como depois me disse em Alcobaça, gostei mas esperava melhor. A Aninhas diz que tem um desvelo muito especial pelas mãos do Rodin, não tendo comprado nenhuma, porque só se fossem as duas, os originais não estavam à venda e as réplicas eram caras demais, para ter na casa dos Montes ou na de Alcobaça, entre as duas janelas da sala, como acharia o lugar apropriado. Este museu, como se vê do próprio nome, é dedicado ao artista que se celebrizou com as suas esculturas, entre as quais se destacam o célebre e controverso Beijo ( ou seja a paixão eterna, imortalizada em mármore branco), exposto numa sala exclusiva e O Pensador, este em bronze, em exibição no amplo jardim, conjuntamente com outras obras. Curiosamente ou não, a excelente condição física expressa por O Pensador na sua monumental estátua, contrasta com as decrépitas e contorcidas personagens de As Portas do Inferno.

Não podíamos, estando em Paris, deixar de ir até à Torre Eiffel. Desta vez, não subimos a nenhum piso, a pé (segundo consta até ao topo, são só 1665 de graus) ou de elevador, ficamos numa esplanada, ao lado de um dos pilares, a ver o movimento de turistas, pretos do Senegal a propor artesanato, beber umas águas ou colas, não sei bem. Era um domingo à tarde, estava um calor tremendo, tínhamos almoçado, ao ar livre, no Trocadero e turistas como nós, eram mais que muitos. Curiosamente, uns dois dias antes de termos partido para França, a nossa televisão deu grande ênfase e até transmitiu em directo, um incêndio na Torre Eiffel. Via-se sair muito fumo, mas só fumaça, como diria o outro, mas nem por isso deixou de ser notícia. O que se passou afinal? Parece que certas partes da Torre tinham sido pintadas há pouco tempo, a tinta ainda estava fresca, pelo que um pequeno fogo, facilmente controlado e sem importância de maior, fez aquele fumo escuro e aparato. Ainda bem que a Aninhas não soube disto, se não achava ali um grande óbice, para sair de casa para Paris. Recordo-me, por exemplo, das inundações em Istambul, o mau tempo na Áustria, que em qualquer caso não impediram, felizmente, o sucesso das nossas viagens.
À Torre Eiffel, ainda voltamos a Aninhas e eu, para ver as suas iluminações. Tínhamos ficado muito interessados, com essas iluminações aquando do passeio de barco, by night. Pelas 22h, 23h e 24h, a Torre torna-se um esplendor de luzes a brilhar, a piscar, a acender ou a apagar, deslocando para a o terraço em frente ao Palais de Chaillot, milhares de pessoas que os autocarros e o metro despejam, para depois se acotovelarem, olharem espantados, dispararem ansiosamente a suas máquinas, perante esse notável espectáculo de luz e se retirarem prontamente de seguida.

É óbvio que não poderíamos deixar de ir, os quatro, a Montmartre, ver a omnipresente, majestosa e radiosamente branca Basílica do Sacré-Coeur, sita numa colina que domina, com a sua longa e ampla escadaria, onde ainda parece manter-se o Paris dos mitos e dos telhados. A Basílica do Sacré-Coeur não é propriamente um monumento antigo.
Como surge?
Dois abastados negociantes, por alturas de 1870, no início da guerra Franco-Prussiana, fizeram a promessa de perante o bom sucesso da guerra, mandar erigir uma igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. A obra teve início em 1875, mas só foi consagrada pelo Papa em 1919, na sequência do resultado vitorioso da França, na I Guerra Mundial. Quando os quatro lá fomos a primeira vez, estava uma noite abafadíssima, saindo nós numa estação de Metro longe e errada, pelo que chegamos estourados e a suar, à escadaria do Sacré-Coeur, pejada de gente a ver a cidade, nomeadamente, jovens de todo o mundo a cantar em grupo, acompanhados com violas ou harmónios. Sendo embora noite, o ar estava tão pesado, espesso, que acabamos por não ir à Place du Tertre, mesmo ali ao lado. A Clara, o Manel e a Aninhas ainda lá voltaram, uma vez de dia, mas como não quiseram fazer um retrato a lápis, enfiaram o enorme e orelhudo barrete de uma silhueta (mais baratinha), recortada em papel com uma tesoura de bicos. A questão é que quando me mostraram essas silhuetas, não consegui perceber quem era quem !
Depois, quando a Clara e o Manel já tinham regressado a Portugal, ainda lá voltei de dia com a Aninhas, dando umas voltas por aquelas ruas estreitas, ouvindo uma cantora de rua acompanhada ao realejo, (re)lembrando a Piaf, almoçando numa esplanada, passeando num minibus ecológico, comprando numa loja de souvenires umas torre eiffel de plástico, para trazer como recordação às empregadas, e uns xailes para as nossas Filhas e Nora. Com alguma má-língua, mas sem maldade, adianto a que a Aninhas ainda admitiu (que fique claro, não é verdade, nem por sonhos) em iniciar um negócio, com esta deslocação, pois parece que é aí que a costureira Maria Júlia, vai todos os anos fazer compras, para depois revender a bom preço, às suas criteriosas e exigentes clientes do Porto. Como se compreende estes locais nada têm de comum com as boutiques e armazéns mais famosos, que noutro contexto tornariam impensável a sua não visita, numa ida a Paris. Andávamos, desta vez, a passear pelo Sacré-Coeur e lembrei-me do Nuno, o Santo. Se ele ler estas notas, talvez se recorde que no Verão do ano em que acabou o curso de Engenharia, ou seja em Setembro de 1977, ele que até chegou a pensar ser um dia engenheiro hidráulico, por ter os olhos azuis, o Zico, tal como tinha feito comigo, mandou-o, passar uns tempos a Inglaterra, para se internacionalizar na coisa. Como a Aninhas e eu por acaso estávamos nessa altura em Paris, o Nuno, o Santo, foi de camioneta lá ter connosco, para depois regressarmos juntos de carro, ainda era o Peugeot 305, para Portugal. Lembro-me muito bem, e isso até está devidamente documentado em Super 8, o Nuno, o Santo nas escadas do Sacré-Coeur, plagiando o Santo António, que como se sabe fez um estupendo e memorável sermão aos peixes. O Nuno estava antes a fazer um sermão aos pombos que lhe vinham confiadamente comer à mão e saltar para o ombro.
Quando o Nuno, o Santo chegou até nós em Paris, segundo me recordou um dia destes, explicou que as tentativas para arranjar trabalho(em Inglaterra) saíram furadas: o tempo da apanha da fruta já tinha terminado, e nos restaurantes (alguns portugueses) não consegui esconder a minha ignorância e a falta de experiência na arte de servir à mesa.
Aflito, ligou para Portugal a pedir mais dinheiro ao Zico e assim o reforço monetário que o Pai me mandou através da Isabel Eça de Queiroz (à altura na Embaixada de Portugal) deu para comprar uma passagem de hovercraft através da Mancha(900$00...) e manter o alojamento numa casa particular em Croydon, Surrey, e pouco mais. As refeições eram “pobres” pelo que devo ter emagrecido uns bons quilos. Se fosse hoje até me dava jeito.



Será que a Paloma apreciaria um Santo mais magro?
Continuando a dar o tempo de palavra ao nosso Santo acrescentou ele que encontrei-me com o Fernando e a Ana que estavam por lá (Paris) havia uma semana, tiveram mesmo de me aturar (ora ora , que exagero o teu!!!) até ao regresso a casa; agora digo eu, foram mesmo muito bons para mim, uns santos, como nunca os chamei. Obrigado pela mãozinha.
Aproveito eu a ocasião, para daqui pedir desculpa ao Santo pela “discussãozita” que o levou uma manhã, a perder-se de nós nos Campos Elíseos e de uma pequena patifaria que a Aninhas e eu lhe fizemos, será que ele se recorda disso?, aquando do regresso a Portugal. Isso hoje seguramente não aconteceria. No nosso regresso, estava previsto, como aliás aconteceu, passar por Andorra, onde compramos uma serviço de copos em Cristal d’Arques, e o Santo encontrou o João Beato. Mas como o Nuno, o Santo vinha tesíssimo (teso, no exclusivo sentido de já ter gasto todo o dinheiro que o Zico lhe tinha dado para a viagem, que fique claro para quem me ler), enquanto a Aninhas e eu fomos dormir para o hotel, com quarto de banho, lençóis lavados e o resto, ele dormiu no carro, apesar de um pouco de frio. Nesta altura, como o Nuno estava sem massa pelo que comia perante a nossa indiferença grandes baguettes com camembert e fiambre ou enchidos variados deixando para o fim a cerveja em qualquer café de preço acessível.
Na viagem para Portugal houve um facto que bastante traumatizou o Nuno e que ele hoje em dia recorda, com alguma comoção e que revela o quão desalmado sou. O que foi, Nuno? Diz-nos lá: No regresso já ao chegar aos Pirinéus franceses, o Fernando indo na auto-estrada vê uma pomba no piso, sem se mexer. Aponta-lhe o rodado como se fosse passar o carro por cima dela, para a assustar. Mas não conseguiu os seus intentos, pois a pomba não se assustou e a roda da frente passou-lhe “todinha” por cima.
Não acham mesmo que o Santo é uma boa e sensível alma?

França, Agosto de 2003 - III

(III)


FRANÇA (AGOSTO DE 2003)
Os Campeonatos Mundiais de Atletismo
Atentado contra Sérgio Vieira de Melo
O calor e os acontecimentos relacionados (uma grave questão social)
E Portugal?Incêndios


O efeito do calor nas pessoas teve em França um impacto, sem equivalente em Portugal.
Os nossos garotos, que estavam no Algarve, a Sónia com oito meses de pré-Diogo, falavam do farto calor mas que, para compensar, tomavam banho. Quando a Sónia nos disse pelo telemóvel que tinham ido nesse dia tomar banho aos canudos, ficamos algo intrigados.
E interrogámo-nos.
Seria algum sítio novo?
Alguém conhecido deles, com casa no Algarve com o nome de canudo? Nada disso! Canudos eram os escorregas (parque de diversões)...
Aliás, e note-se que ele não é nenhum bombo de festa foi no mar, que mais uma vez a Paula encontrou o Tio Nuno, o Santo, embora desta vez, como disse, sem escafandro.
Em Portugal, foi a calamidade dos incêndios, de que íamos tendo todos os dias algum conhecimento, através dos nossos anfitriões, que ouvem habitualmente, todas as noites pela RDP, RR ou RTP (Internacional), as notícias de Portugal.



Vejamos mais alguns factos que ocorreram em França, admito que um pouco macabros, mas elucidativos da dimensão da tragédia que ali se viveu e que na altura não nos apercebemos bem, como disse.
Como em muitas situações que se conhecem, a desgraça de uns, é o lucro de outros. O negócio do funerário passou a decorrer em pleno gás, sete dias em sete, de noite e com horas suplementares, enquanto que os fabricantes de urnas, floristas e canteiros, não tinham capacidade para satisfazer os pedidos. A fábrica de urnas, que serve normalmente a região de Paris, chegou e produzir 500 por dia, ou seja mais 50% do que é normal.
Para facilitar o trabalho dos profissionais, o Governo permitiu, excepcionalmente, que os veículos pesados que transportassem material, com fins funerários, pudessem transitar todos os dias e horas, fins de semana compreendidos, até 1 de Setembro. Só no fim de semana de 15 de Agosto, foram vendidas, mais de 1200 urnas, na região parisiense.

Vou contar agora um caso que emocionou a opinião pública francesa, esse sim que nos apercebemos.
Em Orleães, ao que creio, o cadáver de um homem idoso que a família em férias na praia deixou sozinho em casa, foi descoberto vinte e um dias após a morte por hipertermia, graças ao cheiro pestilento que exalava do apartamento.
Verdade seja dita, para a Aninhas o calor nunca lhe retirou o apetite, mas apenas como ela frizoumuito bem fez-lhe sede. Mas a sua grande vantagem é que como é muito seca, praticamente não transpira nada.



As agências funerárias (Pompes Funeraires como lá se usa), exercendo uma actividade mal-amada, num país onde tudo também é pretexto para discussão, senão mesmo quezília, não fossem latinos, passaram a ser acusadas de se estar a aproveitar indevidamente do momento, atrasando os funerais, por períodos que chegavam a ultrapassar uma semana.
Como resposta, ciosas da imagem, as agências anunciaram, com destaque, que suportavam elas próprias os encargos frigoríficos, para além de 3 dias, decorrentes das inevitáveis demoras dos respectivos funerais.

Estas e outras questões dão-me para pensar, analisar ou discutir, principalmente pelo insólito que contêm.
Será que as missas de corpo presente ou de sétimo dia, caíram em desuso na região de Paris?
A questão por mim suscitada, não me parece de todo absurda, se se tiver em atenção que tendo havido para aí uns 5.000 óbitos, as igrejas estavam estranhamente calmas. Assim nos pareceu, pelo menos nas que entrámos. Não foi assim, ao que se diz, em toda a França.
Houve padres que fizeram mais do dobro dos funerais do que é habitual. Houve mesmo um caso em que se fez ao mesmo tempo a missa de dois defuntos, à maneira dos baptismos colectivos.
Segundo comentava um jornal francês, as igrejas de Paris não pareciam minimamente afectadas pela tragédia.
É verdade que nem todos os defuntos são católicos, mas num país em que 80% da população é baptizada, é bem de supor que a maioria dos que faleceram, gostaria de ter um funeral, de acordo com os seus princípios religiosos.
O próprio Arcebispo de Paris viu-se na necessidade de vir a terreiro manifestar a sua perplexidade, perante a decalage entre os números apontados pela comunicação social e as agências funerárias por um lado, e o serviço dos padres por outro.
CONTINUA