A COZINHA NO SÉCULO XVIII (1752)
O Mosteiro de Alcobaça sofreu bastantes melhoramentos nos séculos XVII e XVIII. O número de conversos diminuiu e o edifício que lhes era destinado, passou a revelar-se inútil. O Abade precisava de instalações. Era necessário arranjar salas para as deliberações dos Capítulos Gerais da Congregação Autónoma, bem como para a administração da própria congregação. Desejava-se também criar uma hospedaria digna de príncipes e reis que ali se alojavam, por ocasião das suas deslocações. A evolução da disciplina monástica tornara inúteis algumas das divisões da Abadia. Os monges iriam trabalhar em células e não frequentavam as salas de trabalho e o calafactório.
A partir de certa altura, os monges abandonaram a austeridade dos tempos difíceis e iniciais, passando a dormir em celas individuais, em prejuízo dos dormitórios colectivos (26).
No século XVII, utilizou-se o edifício dos conversos para alojar o Abade e instalar uma hospedaria. Na maioria das abadias foi esta parte do edifício transformada em Palácio Abacial.
O de Alcobaça foi demolido e outro construído no seu lugar, mas encostado ao claustro. A Ruela dos Conversos desapareceu. Talvez esta ruela tenha sido suprimida ou estreitada durante a construção no tempo de D. Diniz. Com efeito, a Ala do Claustro, bordejando o edifício dos conversos, parece ter sido recuada, e isso por causa dos trabalhos, como nos leva a pensar o enorme maciço de alvenaria que se acha no ângulo noroeste do claustro. Nestas condições, o claustro teria invadido a ruela, como nas abadias catalãs de Poblet e de Santa Creus.
Na extremidade do Celeiro primitivo preparou-se a Sala dos Reis, que comunicava com a nave da Igreja pela antiga porta dos conversos. Entre o refeitório e o novo corpo de aposentos, no lugar da cozinha e do seu pátio, o Rei D. Afonso VI, também quis ligar o seu nome ao edifício monumental de Alcobaça, fundando um claustro; porém a revolução palaciana que o precipitou do trono ao fundo de um cárcere, não lhe permitiu acabá-lo (27).
Para substituir a cozinha desaparecida, os monges utilizaram o calafactório tornado inútil. Aí encontravam o essencial: uma grande chaminé e água no pátio.
A sala de trabalho, também desactivada, substituiu o celeiro primitivo, suprimido ao mesmo tempo que a ala dos monges.
Atribuiu-se ao Marquês de Pombal a iniciativa dos grandes trabalhos que modificaram o aspecto exterior do Mosteiro. Os monges condescenderam ao gosto da época, levantando imponentes construções. Isto era vulgar na Europa. Não nos devemos precipitar ao acusá-los, como se tem feito. As construções medievais de Alcobaça devem ser estudadas em comparação com as demais da Europa dos séculos XII e XIII, tais como as dos séculos XVII e XVIII com as abadias reconstruídas por essa altura e, ainda, com a arquitectura civil. O novo corpo do edifício, que foi construído sobre a fachada, à direita da Igreja, estava destinado ao Colégio da Nossa Senhora da Conceição e ao alojamento dos monges mais velhos. Os arco-botantes que escoram a extremidade do chamado Dormitório do Cardeal, ou seja, do Cardeal D. Afonso, Abade Comendatário, não devem ser entendidos como manifestação de ostentação, pois foram construídos para consolidar a construção abalada pelo tremor de terra de 1755. O gosto da época exigia uma simetria, de que as demais construções contemporâneas nos fornecem exemplos. Alcobaça não podia ser excepção. Ao longo da (antiga) estrada de Lisboa ao Porto, o pátio da cozinha primitiva desapareceu englobado no novo Claustro de D. Afonso VI. Entre o calafactório e a extremidade da sala dos monges subsistia um vazio: o pátio do calafactório. Construiu-se uma parede que enchia esse enorme edifício. O Dormitório do Cardeal foi elevado e encimado por uma estátua de D. Afonso Henriques.
A estátua de D. Afonso Henriques foi colocada em 6 de Novembro de 1632, sob o reinado de Filipe III, que veio a Alcobaça de propósito. Algum tempo antes, o mar havia atirado à praia de S. Martinho do Porto, um enorme madeiro, que foi transportado por muitas juntas de bois para Alcobaça. Depois de muito cortado e desbastado, serviu de guindaste para a colocação da estátua no alto da frontaria.
Em 17 de Abril de 1952, aquando de uma violenta trovoada que caiu sobre a Vila, foi a estátua atingida por uma faísca, sofrendo danos na cabeça e na coroa. A parte central da fachada do mosteiro foi acrescentada no século XVIIL Nessa altura foram construídas as torres.
Em 1881, uma faísca havia destruído a parte superior da torre do lado esquerdo. A ala sul da fachada, data também do século XVIII e nela estiveram a partir de certa altura, melhor dizendo, após a extinção das ordens religiosas, até à tentativa de restituição da traça original, residências particulares e arrecadações (28).
Para restabelecer a simetria, a nova fachada da cozinha foi também elevada em um piso com duas janelas cegas.
A primeira cornija desta fachada, corresponde à cobertura do refeitório, enquanto que a segunda prolonga a primitiva cobertura do dormitório. Esta parede, rectificando a fachada do Mosteiro, delimitava ao mesmo tempo a cozinha nova. Se se quiser tomar a devida nota as dimensões desta não ultrapassavam, em plano, as do calafactório do seu pátio e em altura as do dormitório.
Manuel Vieira Natividade chamou a atenção para as suas dimensões.
A cozinha mede 28,83 metros de comprimento, 5,66 ms. de largura e 18 ms. de altura. Os monges de Alcobaça não tiveram o trabalho de fazer passar um braço do Rio Alcoa pela cozinha, pela muito simples razão que esta canalização existia desde o século XIII, no mesmo lugar. Quanto às dimensões da levada, convém reduzi-las às devidas proporções. O canal de chegada não mede mais de 35 cm de largura. A chaminé ocupava o lugar do calafactório. A sala contígua, conhecida hoje por Adega, e sobre cujo destino muito se discutiu, é simplesmente a antiga sala de trabalho dos monges. O chão, é construído em vastos degraus para acompanhar o declive, muito pronunciado. Nestes degraus era fácil colocar mesas.
No refeitório, existem ainda as janelas primitivas, tornadas já úteis, desde que o calafactório foi englobado na cozinha em 1752. Elas permitem, pelo menos, determinar com segurança as dimensões do calafactório. A chaminé exterior pode, a bem dizer, ser criticada, mas apenas em nome da estética.
É lícito conjecturar se as suas dimensões extraordinárias, em termos de altura, são fundamentalmente devidas ao cuidado de evitar que fumo dos fogões fosse rebatido sobre as paredes do edifício do Mosteiro. Não há que ir mais longe nem remontar ao século XVII, para encontrar condutas de fumo tão altas como esta.
Seja como for, as dimensões reais desta cozinha, não têm relação com a vasta cúpula de 60 pés de diâmetro que causava a admiração e ao mesmo tempo escandalizava o virtuoso William Beckford.
Não se concebe todavia a necessidade de dispor de numerosas pontes sobre um tanque que não mede mais que 5 metros de comprimento por 3 metros e meio de largura e é rodeado por um espaço suficiente para a circulação de pessoas.
O Marquês de Fronteira talvez tenha exagerado. Informa-nos que um grande caldeirão estava sob a chaminé central da cozinha. Na polémica que se seguiu à pilhagem de Alcobaça, em 1833, faz alusão aos caldeirões que foram roubados. Conheciam-se 3 em Alcobaça.
O mais pequeno, escapou à pilhagem e encontra-se hoje em dia, em exposição, na Sala dos Reis. A origem dos caldeirões é bem conhecida. Depois de vitória de Aljubarrota, os portugueses confiaram à guarda dos monges os três enormes caldeirões onde os castelhanos prepararam a alimentação da sua tropa. De acordo com o cronista Frei Manuel dos Santos:
(…)No caldeirão maior, quando estava na cozinha do rei de Castela, fazia-se nele comer para 293 criados, os quais, segundo se conclui da grande capacidade da caldeira, não deviam comer pouco (29).
O troféu exposto no claustro estava acompanhado duma inscrição evocativa das vitórias portuguesas. Esta inscrição, está hoje na Sala dos Reis com o caldeirão, salvo da pilhagem.
O terceiro destes utensílios fora transportado pelos monges para uma das suas granjas. Está fora de questão a existência de um quarto pertença dos religiosos.
A última referência feita ao segundo caldeirão, a propósito da sua exposição no claustro, teve lugar em 1744. Espantava a sua estranha corpulência , a ponto de Pinho Leal estimar que nele se podiam assar 4 bois ao mesmo tempo, afirmação talvez tão temerária como para a chaminé da cozinha. Este pormenor leva-nos a pensar que o monstruoso caldeirão do Marquês de Fronteira não era mais que o enorme utensílio primitivo dos castelhanos devolvido ao seu destino primitivo pelos monges e por eles colocado sob a base da chaminé do calafactório.
No Mosteiro de Alcobaça existiu durante muitos anos, cerca de 450, um muito célebre caldeirão, também conhecido por Caldeirão de Alcobaça, tomado em 14 de Agosto de 1385 a D. João de Castela, na Batalha de Aljubarrota, por Gonçalo Rodrigues, que por isso ficou conhecido doravante porCaldeira. Diz-se na tradição popular, que no tal caldeirão, que era de cobre, se podiam cozinhar 4 bois de cada vez. Este caldeirão, foi dado com outros dois mais pequenos ao Mosteiro de Alcobaça, por D. João I para eterna lembrança da vitória de Aljubarrota , no dizer do cronista Frei Manuel dos Santos.
Um dos mais pequenos, foi mandado pelos frades para um lagar de azeite na Fervença, pertencendo segundo Pinho Leal, a uma tal D. Francisca Jacinta Pereira (Portugal Antigo e Moderno, vol. I).
O outro, segundo o mesmo autor, foi colocado pêlos frades no forno, mantendo-se hoje na Sala dos Reis. O caldeirão maior, era de metal mais fino e estava no claustro para ser visto mais facilmente. Batendo-se-lhe com uma pedra, o som cobria o repique de todos os sinos. Era de tão extraordinária corpulência que, quando servia na cozinha do rei de Castela, fazia nele comida, a que chamavam badulaque, ou seja, guisado de fígado e bofe de vaca, para 293 pessoas. Este caldeirão desapareceu após a fuga dos monges e o saque do Mosteiro, havendo polémica sobre o seu destino. Na pedra, onde estava assente, havia a seguinte inscrição:
HIC EST ILLE DEBES, TOTO CANTATUS IN ORBE QUEM LUSITANI, DURO, GENS ÁSPERA BELLO DE CASTELLANIS SPOLIUM MEMORABILE CASTRIS ERIPUERE; CIBOS HIC OLIM COXERAT HOSTI AT NUNC EST NOSTRITERTIS SINE FINE TRIUMPH .
Traduzido para português significa:
Eis o caldeirão, famoso no mundo inteiro que os lusitanos, povo valente na dura guerra tomaram ao exército castelhano, despojo memorável. Ele servia outrora para fazer a comida do inimigo. Ele é hoje, do nosso triunfo, imperecível testemunho.
O Dr. António Luís de Seabra, mais tarde Visconde de Seabra, tomou posse como Corregedor Interino de Alcobaça, sendo exonerado pouco tempo depois. A sua passagem por Alcobaça, foi por nós estudada e publicada no jornal O ALCOA. Os tempos eram de intensas paixões e tensões políticas. Não se esqueça que o País vivia a luta fratricida entre miguelistas e liberais. O Visconde de Seabra, que atingiu os mais altos postos da Nação, como os de Reitor da Universidade de Coimbra e Ministro da Justiça, e que deixou o seu nome ligado ao primeiro Código Civil Português, também conhecido por Código de Seabra, chegou a ser acusado, ao que se crê sem fundamento e por mera chicana, do furto deste caldeirão. O mais provável é que após a fuga dos monges e a vinda de Seabra para Alcobaça tenha ocorrido o seu desaparecimento. Segundo ainda Pinho Leal, na sua referida obra, andou durante muito tempo em voga a seguinte quadra:
NO ANO DE TRINTA E QUATRO
LÁ SE FOI O CALDEIRÃO! SÓ NOS FICOU POR MEMÓRIA,
UM VISCONDE ... E A INSCRIÇÃO!
De facto ficou a inscrição, mas não o caldeirão (30).
A transformação do calafactório em cozinha, explica-se pela necessidade de instalar uma nova cozinha no lugar da que foi suprimida. Esta razão, era suficiente, sem que fosse obrigatório recorrer à justificação de glutonaria ou sibaritismo dos monges cistercienses. As suas dimensões eram condicionadas pelas construções que a delimitavam. A ribeira existia há vários séculos no mesmo sítio em que ainda se pode ver hoje. Ela alimentava a fonte que se encontra na fachada que por causa disso, se chama Largo do Chafariz. Esta praça corresponde ao antigo pátio que separava o Mosteiro das dependências, onde se guardavam os instrumentos agrícolas.
Estas dependências, no lado oposto à fachada do Refeitório, estão hoje em dia ocupadas por estabelecimentos comerciais, cafés e habitações. A actual Praça D. Afonso Henriques, era outrora um pátio que fazia parte das dependências do Mosteiro, foi conhecida como Largo do Chafariz, dado a fonte ali existente, que já não jorra água que se veja. A zona envolvente do Mosteiro, com destaque para a actualmente denominada Praça 25 de Abril, neste ano de 2005 encontra-se a ser intervencionada urbanisticamente, de acordo com a perspectiva de melhor valorizar, como se impõe, a frontaria principal do edifício.
Foi em 1839 que se demoliram os muros para se fazer a comunicação do quadro do Mosteiro com a Vila. Destas demolições, resultou a junção do Largo do Chafariz com o Rossio, hoje Praça 25 de Abril, entretanto também chamada Dr. Oliveira Salazar, actualmente em grandes obras como se referiu.
O nome de Praça de D. Afonso Henriques vem de 17 de Janeiro de 1876 e aqui realizou-se durante muito tempo o mercado da hortaliça. Foi pavimentada e arranjada em 1948, tendo as velhas árvores sido substituídas pelos actuais plátanos. Alguns destes plátanos foram derrubados em 2004 para permitir (o progresso?) e as obras em curso na praça. Liga com a actual Praça da República, pelos Arco de Cister e Arco de Claraval. O Arco de Cister, chamou-se Arco do Vazão enquanto que o Arco de Claraval, Arco do Chafariz. A actual denominação provém de 1876. A Praça da República foi também em tempos um pátio das dependências do Mosteiro, tendo recebido naquele ano e dia o nome de Praça das Amoreiras. Em 17 de Maio de 1886, recebeu o nome de Praça Príncipe D. Carlos e em 8 Outubro de 1910, (obviamente?) a de Praça da República. Realizou- se aqui também o mercado do peixe, nome porque chegou a ser conhecida (31).
Pode-se, pois, encontrar uma explicação tanto no que diz respeito ao arranjo da cozinha, como à transformação da Sala dos Monges em Celeiro. Resta-nos , e isso é importante, a acusação de gula, solidamente alicerçada na existência do que foi qualificada da Cozinha de Titã, Cozinha de Gargântua ou mais simplesmente de templo de gastronomia ou de glutonaria.
(CONTINUA)
quinta-feira, 20 de maio de 2010
D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte III) A ALA DO REFEITÓRIO (SEC. XIII)
A ALA DO REFEITÓRIO (SEC. XIII)
Havia um plano tipo das Abadias Cistercienses.
Com algumas variantes, esse plano encontrava-se em toda a parte. O Mosteiro consistia essencialmente, num quadrilátero. Num dos lados, situava-se a Igreja. O prolongamento de um dos braços do Transepto, formava a Ala dos Monges, na qual se encontrava a partir da Igreja:
-(I)-A Sacristia;
-(II)-A Sala do Capítulo;
-(III)-A Sala dos Monges.
-(IV)-A passagem que comunicava com o exterior, a escada que conduzia ao Dormitório, sito no andar superior, um ou dois Parlatórios.
No lado oposto, encontrava-se a Ala dos Conversos, que compreendia o Celeiro, sempre contígua à Igreja, uma passagem, bem como
(V)-O Refeitório dos Conversos.
No piso superior, encontrava-se o Dormitório.
A passagem servia, normalmente, de entrada no Mosteiro.
Por esta altura, não havia ainda Palácio Abacial, nem salas de recepção. Quase sempre entre o edifício e o claustro, existia um espaço, de largura variável, chamado Ruela dos Conversos, que comunicava com a Igreja, por uma porta situada nos baixos da nave.
Esta porta ainda existe em Alcobaça.
Faz a comunicação da Sala dos Reis com a nave da Igreja (20). Paralelamente à Igreja, ligando a Ala dos Monges à dos Conversos, achava-se a Ala do Refeitório.
Repare-se na ordem, vindo das instalações dos monges:
(VI)-O Calafactório;
(VII)-O Refeitório dos Monges;
(VIII)-A Cozinha.
Havia em Alcobaça, como em todas as demais Abadias da Ordem de Cister, duas comunidades: a dos Monges de Coro e a dos Conversos.
A partir do século XI designados como conversos aqueles que renunciando à vida temporal, abraçaram a religião, a fim de se penitenciarem e levarem até à morte, uma vida de perfeição. Terá sido São Gualberto, quem primeiro lhes deu essa designação, para os distinguir dos monges de coro e dosfrades. Como comunidades distintas, os conversos e os monges de coro, tinham hábitos, ocupações e funções diferentes.
Os conversos assistiam às cerimónias religiosas ou litúrgicas fora do coro. Ocupavam-se, sob a orientação de um monge de coro, das relações do mosteiro com o exterior, como a recolha das dádivas, a visita dos doentes, o bodo aos pobres, a catequese, o trabalho das granjas e do mosteiro. O próprio vestuário era diferente, tal como o local onde habitavam no mosteiro. Os conversos de Alcobaça, usavam uma veste de lã grossa e crua e habitavam a Ala dos Conversos, na qual existia um refeitório, um celeiro e um dormitório próprios. Segundo Dom Maur Cocheril, os horários e o regime regime alimentar, menos severos para os conversos, eram diferentes dos monges de coro. Simplificando, poder-se-ia dizer que havia nos Mosteiros de Cister, uma população constituída por monges de coro, que se dedicava ao estudo, ao culto e ao ministério e outra, a dos conversos que se dedicava aos demais trabalhos. Aliás, esta divisão, também foi utilizada nos mosteiros femininos. O termo converso caiu em desuso e foi substituído por Irmão-leigo. Os Cistercienses eram conhecidos por Monges Brancos. Os monges de coro vestiam um hábito branco, sobre o qual assentava um esculápio preto que caía à frente, na parte de trás até ao meio da perna e era provido de capuz. Quando tinham de ir ao coro, os monges vestiam cogula, uma veste muito ampla de capuz e mangas, que caía até ao chão (21).
O Mosteiro Cisterciense tem uma lógica rigorosa, onde nada é deixado ao acaso ou dá lugar à fantasia. Para empregar uma expressão vulgar, o plano é funcional.
De todo ello ha resultado un plan consagrado por la tradicion, del cual uno puede raramente aportarse sin incovenientes, plan que tiene todas ventajes y es fruto combinado de la sabidoria y de la experiência practica. Oratório, Capitulo, Dormitório, Refectório, Cocina, Despensa, todo comunicando por el claustro, forma um conjunto adaptado a su fin (22).
Cada uma das divisões, que acabamos de enumerar, correspondia a uma necessidade da vida claustral. Na Ala dos Monges, encontrava-se tudo o que é necessário para satisfazer as preocupações espirituais dos religiosos de coro: Sacristia, Sala do Capítulo ou de Leitura.
Está fora de questão a existência de um celeiro nesta parte do edifício. A Ala dos Conversos, estava separada pela Ruela do Mosteiro, propriamente dito, pois os conversos formavam uma comunidade verdadeiramente distinta da dos Monges de Coro, com necessidades e actividades diversas.
Os dois refeitórios, dos monges e dos conversos, achavam-se situados nas extremidades e na mesma ala. Numa época em que não se dispunha dos modernos meios de aquecimento, era indispensável reservar uma sala, onde os religiosos que trabalhavam na Sala dos Monges, se pudessem aquecer no Inverno.
O calafactório existia para aquecimento dos monges e bem como para realização de pe quenos trabalhos, durante o mau tempo. Antes de partirem para as suas ocupações, os monges iam ensebar as sandálias, depois dos ofícios matinais (23). Esta sala servia os copistas.
O calafactório devia, portanto, encontrar-se o mais perto possível da Sala de Trabalho e o seu lugar normal era entre esta e o refeitório. Tal como a cozinha, era a divisão da abadia que possuía chaminé. Esta era, por vezes, colocada ao centro a fim de permitir ao maior número possível de monges aproximar-se do fogo. O sistema de aquecimento da Abadia de Longpont (Aisne), possuía ainda uma chaminé central, cujas dimensões não eram nada inferiores às de Alcobaça.
Quanto à cozinha, sempre de dimensões modestas, estava instalada entre os dois refeitórios. Ela comunicava com o dos monges, por uma abertura que permitia a passagem dos pratos. Assinalemos, enfim, mais em frente à entrada do refeitório dos monges e deitando sobre o alpendre, um edículo de vastas proporções, no centro do qual se achava uma fonte, o Lavabo. A Ala do Refeitório era destinada aos serviços domésticos do Mosteiro. Razões elementares de higiene exigiam que aí existisse um esgoto. Com efeito, não somente era necessário eliminar os restos da cozinha, mas também, e este detalhe tem importância, porque as latrinas encontravam-se sempre na extremidade do edifício dos monges ou dos conversos. O esgoto era indispensável à enfermaria. Por motivos de segurança, numa época em que as epidemias eram sempre de recear, a enfermaria estava instalada fora dos lugares conventuais, por detrás da Ala dos Monges. A fonte do lavabo devia também ser profusamente alimentada. As suas grandes dimensões, explicam-se pois era lá que se fazia a grande tonsura dos monges.
Os monges de coro eram tonsurados sete vezes ao ano, enquanto os conversos usavam cabelo cortado rente e sem coroa. Segundo a disciplina monástica antiga, os monges de coro rapavam a barba, o que os distinguia dos conversos, leigos, não clérigos, a quem era permitido deixar crescer a barba e o bigode (24).
Por tudo isto , havia uma rede de canalizações subterrâneas, ou mesmo ao ar livre, com inclinação suficiente para encaminhar todo o tipo de restos e alimentar as fontes destinadas aos usos domésticos. O declive do chão, determinava a orientação do Mosteiro. A Ala do Refeitório, para recolher as águas, encontrava-se sempre no ponto mais baixo. Não é necessário procurar mais longe, a causa porque Alcobaça, que reproduz de muito perto o plano de Claraval, está orientada ao inverso da abadia francesa.
É manifesto que a água era necessária para alimentar as oficinas e outras instalações situadas no recinto do Mosteiro. A mudança da localização das abadias, tão frequente nos séculos XII e XIII, não tem outra explicação muitas vezes que não seja a necessidade de dispor de água em quantidade suficiente. Frei António Brandão, na sua Monarquia Lusitana, qualifica Alcobaça como o Retrato de Claraval.
Marcel Aubert, no seu estudo sobre a arquitectura cisterciense, reproduz o plano de uma abadia, onde junto à fachada lateral da Igreja, oposta ao claustro, próximo do local onde passa o aqueduto subterrâneo que atravessa, desenha uma pequena construção circular, de forma arredondada, a curta distância da mesma fachada, mas ligada a ela por um corredor. O claustro ficava sempre do lado onde corriam as águas destinadas a limpezas. Por isso, o chão do claustro era inclinado e a Sala dos Monges mantinha essa inclinação por meio de degraus. Assim, servia-se a limpeza e a necessidade de escoar as águas (25).
Os trabalhos de condução da água eram, por vezes, muito importantes. Em Inglaterra, a enfermaria de Fountains é atravessada ao cumprimento por sete canalizações subterrâneas. Em Portugal, o exemplo mais interessante, encontra- se em S. João de Tarouca, onde se podem ainda observar os vestígios dos consideráveis trabalhos levados a cabo pêlos monges. Uma derivação do Rio Alcoa passa por detrás da cabeceira da Igreja de Alcobaça. As suas águas serviam os jardins e as oficinas. Ela alimentava o esgoto colector que passava no chão da cozinha primitiva. Uma outra derivação, achava-se sob a nave da Igreja. Uma inscrição na parede do lado colateral-norte indica o respectivo lugar. Esta derivação, alimentava a fonte do lavabo e passando sob a Sala de Aquecimento, o calafactório, lançava-se no esgoto.
Por tudo isto se conclui que havia, desde a construção do Mosteiro, um sistema de canalizações bastante complexo, que ainda subsiste. Os arquitectos que reconstruíam no século XVIII a Ala do Refeitório, utilizaram-no da melhor forma.
(CONTINUA)
Havia um plano tipo das Abadias Cistercienses.
Com algumas variantes, esse plano encontrava-se em toda a parte. O Mosteiro consistia essencialmente, num quadrilátero. Num dos lados, situava-se a Igreja. O prolongamento de um dos braços do Transepto, formava a Ala dos Monges, na qual se encontrava a partir da Igreja:
-(I)-A Sacristia;
-(II)-A Sala do Capítulo;
-(III)-A Sala dos Monges.
-(IV)-A passagem que comunicava com o exterior, a escada que conduzia ao Dormitório, sito no andar superior, um ou dois Parlatórios.
No lado oposto, encontrava-se a Ala dos Conversos, que compreendia o Celeiro, sempre contígua à Igreja, uma passagem, bem como
(V)-O Refeitório dos Conversos.
No piso superior, encontrava-se o Dormitório.
A passagem servia, normalmente, de entrada no Mosteiro.
Por esta altura, não havia ainda Palácio Abacial, nem salas de recepção. Quase sempre entre o edifício e o claustro, existia um espaço, de largura variável, chamado Ruela dos Conversos, que comunicava com a Igreja, por uma porta situada nos baixos da nave.
Esta porta ainda existe em Alcobaça.
Faz a comunicação da Sala dos Reis com a nave da Igreja (20). Paralelamente à Igreja, ligando a Ala dos Monges à dos Conversos, achava-se a Ala do Refeitório.
Repare-se na ordem, vindo das instalações dos monges:
(VI)-O Calafactório;
(VII)-O Refeitório dos Monges;
(VIII)-A Cozinha.
Havia em Alcobaça, como em todas as demais Abadias da Ordem de Cister, duas comunidades: a dos Monges de Coro e a dos Conversos.
A partir do século XI designados como conversos aqueles que renunciando à vida temporal, abraçaram a religião, a fim de se penitenciarem e levarem até à morte, uma vida de perfeição. Terá sido São Gualberto, quem primeiro lhes deu essa designação, para os distinguir dos monges de coro e dosfrades. Como comunidades distintas, os conversos e os monges de coro, tinham hábitos, ocupações e funções diferentes.
Os conversos assistiam às cerimónias religiosas ou litúrgicas fora do coro. Ocupavam-se, sob a orientação de um monge de coro, das relações do mosteiro com o exterior, como a recolha das dádivas, a visita dos doentes, o bodo aos pobres, a catequese, o trabalho das granjas e do mosteiro. O próprio vestuário era diferente, tal como o local onde habitavam no mosteiro. Os conversos de Alcobaça, usavam uma veste de lã grossa e crua e habitavam a Ala dos Conversos, na qual existia um refeitório, um celeiro e um dormitório próprios. Segundo Dom Maur Cocheril, os horários e o regime regime alimentar, menos severos para os conversos, eram diferentes dos monges de coro. Simplificando, poder-se-ia dizer que havia nos Mosteiros de Cister, uma população constituída por monges de coro, que se dedicava ao estudo, ao culto e ao ministério e outra, a dos conversos que se dedicava aos demais trabalhos. Aliás, esta divisão, também foi utilizada nos mosteiros femininos. O termo converso caiu em desuso e foi substituído por Irmão-leigo. Os Cistercienses eram conhecidos por Monges Brancos. Os monges de coro vestiam um hábito branco, sobre o qual assentava um esculápio preto que caía à frente, na parte de trás até ao meio da perna e era provido de capuz. Quando tinham de ir ao coro, os monges vestiam cogula, uma veste muito ampla de capuz e mangas, que caía até ao chão (21).
O Mosteiro Cisterciense tem uma lógica rigorosa, onde nada é deixado ao acaso ou dá lugar à fantasia. Para empregar uma expressão vulgar, o plano é funcional.
De todo ello ha resultado un plan consagrado por la tradicion, del cual uno puede raramente aportarse sin incovenientes, plan que tiene todas ventajes y es fruto combinado de la sabidoria y de la experiência practica. Oratório, Capitulo, Dormitório, Refectório, Cocina, Despensa, todo comunicando por el claustro, forma um conjunto adaptado a su fin (22).
Cada uma das divisões, que acabamos de enumerar, correspondia a uma necessidade da vida claustral. Na Ala dos Monges, encontrava-se tudo o que é necessário para satisfazer as preocupações espirituais dos religiosos de coro: Sacristia, Sala do Capítulo ou de Leitura.
Está fora de questão a existência de um celeiro nesta parte do edifício. A Ala dos Conversos, estava separada pela Ruela do Mosteiro, propriamente dito, pois os conversos formavam uma comunidade verdadeiramente distinta da dos Monges de Coro, com necessidades e actividades diversas.
Os dois refeitórios, dos monges e dos conversos, achavam-se situados nas extremidades e na mesma ala. Numa época em que não se dispunha dos modernos meios de aquecimento, era indispensável reservar uma sala, onde os religiosos que trabalhavam na Sala dos Monges, se pudessem aquecer no Inverno.
O calafactório existia para aquecimento dos monges e bem como para realização de pe quenos trabalhos, durante o mau tempo. Antes de partirem para as suas ocupações, os monges iam ensebar as sandálias, depois dos ofícios matinais (23). Esta sala servia os copistas.
O calafactório devia, portanto, encontrar-se o mais perto possível da Sala de Trabalho e o seu lugar normal era entre esta e o refeitório. Tal como a cozinha, era a divisão da abadia que possuía chaminé. Esta era, por vezes, colocada ao centro a fim de permitir ao maior número possível de monges aproximar-se do fogo. O sistema de aquecimento da Abadia de Longpont (Aisne), possuía ainda uma chaminé central, cujas dimensões não eram nada inferiores às de Alcobaça.
Quanto à cozinha, sempre de dimensões modestas, estava instalada entre os dois refeitórios. Ela comunicava com o dos monges, por uma abertura que permitia a passagem dos pratos. Assinalemos, enfim, mais em frente à entrada do refeitório dos monges e deitando sobre o alpendre, um edículo de vastas proporções, no centro do qual se achava uma fonte, o Lavabo. A Ala do Refeitório era destinada aos serviços domésticos do Mosteiro. Razões elementares de higiene exigiam que aí existisse um esgoto. Com efeito, não somente era necessário eliminar os restos da cozinha, mas também, e este detalhe tem importância, porque as latrinas encontravam-se sempre na extremidade do edifício dos monges ou dos conversos. O esgoto era indispensável à enfermaria. Por motivos de segurança, numa época em que as epidemias eram sempre de recear, a enfermaria estava instalada fora dos lugares conventuais, por detrás da Ala dos Monges. A fonte do lavabo devia também ser profusamente alimentada. As suas grandes dimensões, explicam-se pois era lá que se fazia a grande tonsura dos monges.
Os monges de coro eram tonsurados sete vezes ao ano, enquanto os conversos usavam cabelo cortado rente e sem coroa. Segundo a disciplina monástica antiga, os monges de coro rapavam a barba, o que os distinguia dos conversos, leigos, não clérigos, a quem era permitido deixar crescer a barba e o bigode (24).
Por tudo isto , havia uma rede de canalizações subterrâneas, ou mesmo ao ar livre, com inclinação suficiente para encaminhar todo o tipo de restos e alimentar as fontes destinadas aos usos domésticos. O declive do chão, determinava a orientação do Mosteiro. A Ala do Refeitório, para recolher as águas, encontrava-se sempre no ponto mais baixo. Não é necessário procurar mais longe, a causa porque Alcobaça, que reproduz de muito perto o plano de Claraval, está orientada ao inverso da abadia francesa.
É manifesto que a água era necessária para alimentar as oficinas e outras instalações situadas no recinto do Mosteiro. A mudança da localização das abadias, tão frequente nos séculos XII e XIII, não tem outra explicação muitas vezes que não seja a necessidade de dispor de água em quantidade suficiente. Frei António Brandão, na sua Monarquia Lusitana, qualifica Alcobaça como o Retrato de Claraval.
Marcel Aubert, no seu estudo sobre a arquitectura cisterciense, reproduz o plano de uma abadia, onde junto à fachada lateral da Igreja, oposta ao claustro, próximo do local onde passa o aqueduto subterrâneo que atravessa, desenha uma pequena construção circular, de forma arredondada, a curta distância da mesma fachada, mas ligada a ela por um corredor. O claustro ficava sempre do lado onde corriam as águas destinadas a limpezas. Por isso, o chão do claustro era inclinado e a Sala dos Monges mantinha essa inclinação por meio de degraus. Assim, servia-se a limpeza e a necessidade de escoar as águas (25).
Os trabalhos de condução da água eram, por vezes, muito importantes. Em Inglaterra, a enfermaria de Fountains é atravessada ao cumprimento por sete canalizações subterrâneas. Em Portugal, o exemplo mais interessante, encontra- se em S. João de Tarouca, onde se podem ainda observar os vestígios dos consideráveis trabalhos levados a cabo pêlos monges. Uma derivação do Rio Alcoa passa por detrás da cabeceira da Igreja de Alcobaça. As suas águas serviam os jardins e as oficinas. Ela alimentava o esgoto colector que passava no chão da cozinha primitiva. Uma outra derivação, achava-se sob a nave da Igreja. Uma inscrição na parede do lado colateral-norte indica o respectivo lugar. Esta derivação, alimentava a fonte do lavabo e passando sob a Sala de Aquecimento, o calafactório, lançava-se no esgoto.
Por tudo isto se conclui que havia, desde a construção do Mosteiro, um sistema de canalizações bastante complexo, que ainda subsiste. Os arquitectos que reconstruíam no século XVIII a Ala do Refeitório, utilizaram-no da melhor forma.
(CONTINUA)
quinta-feira, 13 de maio de 2010
D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte II) A cozinha do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça
A cozinha do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça, é um monumento que merece atenção.
Escreveu-se muito sobre este assunto e algumas das conclusões prejudicaram a reputação dos monges. Não se trata aqui de fazer um processo de intenções a Beckford ou a todos os que nele se inspiraram. Desejamos verificar, através dos textos, e interrogando a própria construção, certas afirmações que ainda persistem, tanto mais que os visados não estão cá para se defenderem. A descrição de Beckford tornou-se clássica e, algumas das suas expressões pertencem ao que se poderia chamar o folclore de Alcobaça.
(...)entraram os Grão-Priores de mãos dadas e em conjunto. Para a cozinha, disseram em perfeito uníssono e imediatamente. Então ajuizará se fomos falhos de zelo para o regalar. Um convite, nestes termos, era irresistível. Os três prelados, mostraram-me o caminho do que é, estou convencido, o templo da gastronomia mais notável de toda a Europa. (...).Todavia os meus olhos nunca viram em convento moderno de França, Itália ou Alemanha, um espaço tão grande dedicado a uma finalidade culinária. No centro desta sala imensa, de diâmetro não inferior a 60 pés, corria um riacho alegre, da mais límpida água, que atravessava reservatórios de madeira perfurada, que continham os mais belos peixes de rio, de todas as espécies e tamanhos. De um lado acumulavam-se as espécies de caça. Do outro, legumes e frutos, de uma variedade infinita. Além, uma longa linha de fogões, seguida de fornos e perto destes, montes de açúcar, cântaros cheios de puro azeite e uma quantidade enorme de doçaria que, um grupo de numerosos irmãos leigos e ajudantes, estendiam e formavam em cem feitios diferentes, ao mesmo tempo que cantavam tão alegremente como pássaros num campo de trigo (6).
Seria deselegante recusar o mérito poético e o poder evocativo desta entusiástica descrição. Ela prova que o prazer da mesa, não era a menor das virtudes de Beckford.
A descrição que por sua vez faz mais tarde o Marquês de Fronteira, é bastante mais prosaica:
(…)Entretanto, conduziram-me à cozinha, a qual correspondia, em tudo ao refeitório. Um grande caldeirão dava nas vistas, estando colocado numa formidável chaminé de ferro. Para o limpar, entrava um moço dentro, que, enquanto com a pá de ferro deitava para fora o resto da comida e o lavava, não era visto de fora, tal era o tamanho do caldeirão! Grande quantidade de fornalhas de ferro guarneciam a parede, uma banca de dimensões extraordinárias ocupava o centro da cozinha, rodeada por doze cozinheiros, e um rio bastante caudaloso e com uma corrente rápida, tanto de Verão como de Inverno, atravessava a cozinha, havendo várias pontes para se passar de um lado para outro. Com muita facilidade se podia inundar a cozinha aos Religiosos para a lavar, mas isto raramente acontecia, sendo repugnante o estado de porcaria em que se achava (7).
Poder-se-ia salientar algumas contradições entre estas duas visitas e respectivas descrições.
O texto da Excursão ... foi escrito em 1834 e 1835, quer dizer 4 anos mais tarde.
Beckford declarou que esta narrativa foi redigida de acordo com apontamentos reduzidos.
Rose Macaulay, nota aí um conjunto de incidentes, de fantasias e de descrições, ao mesmo tempo deliciosas e divertidas, em parte recordações, em parte imaginação, pensadas em noites de insónia. Os detalhes da descrição da cozinha, como os do banquete que se seguiu, não devem por isso ser aceites sem reservas.
Merimée, havia já chamado a atenção para o facto de que todas as grandes enfabulações necessitam de um detalhe minimamente credível, seja ele qual for .
Aqui, os detalhes são abundantes, mas subsiste logo a suspeita instintiva, quando se sabe que o autor não passou mais que umas horas na Abadia, não participou minimamente na vida conventual e, reviveu, com muita imaginação, quarenta anos mais tarde, todas as cenas que descreveu.
Pelo contrário, o Marquês de Fronteira, que permaneceu uma dezena de dias na Abadia, conviveu com os monges, na medida do possível. Enfim, o estilo jocoso e ligeiro do viajante inglês, dissimula a intenção de ridicularizar e de fazer alusões equívocas, especialmente deploráveis num velho de 75 anos.
(…) Quando a mesa se levantou, quatro lindos noviços, rapazes de 15 ou 1 anos, cuja candura inocente os aproximava da afectação, entraram oscilando perfumadores em filigrana de Goa, onde fumegavam o odorífero calamba e as melhores qualidades de aloés (8).
Pode-se aceitar, todavia com uma certa boa vontade e admitir com André Parreaux que, o interesse da Excursão..., não está aí, ou seja, na descrição fiel de acontecimentos autênticos. Ela reside, principalmente, no valor literário duma obra cujas críticas têm, desde há mais de um século, reconhecido a sua superior qualidade .
Os cistercienses de Alcobaça foram vítimas destas circunstâncias. Quaisquer que tenham sido as intenções de Beckford, e os méritos literário e artístico da sua obra, dedicaremos as páginas seguintes à crítica da mais célebre descrição da cozinha do mosteiro e do banquete.
Além das vastas proporções deste templo de culinária e da incrível acumulação de vitualhas, que tanto divertiram Beckford e seus companheiros, alguns outros pormenores espantaram os visitantes.
Encontram-se, muito bem resumidos, no texto de F. Batista Zagallo:
Nessa parte há ainda digno de ver-se a cozinha, amplíssima, com os seus tanques de mármore, servidos com profusão de água que corre por uma torneira colocada em cada um deles, a colossal chaminé em que se assava um boi, o vasto tanque aberto no pavimento ao fundo, destinado ao depósito de peixe, e fornecido de água por um copioso caudal derivado da levada e a espessa mesa destinada ao corte da carne (9).
O número de bois que os monges assavam na colossal chaminé, nunca poderá ser determinado com exactidão.
Ramalho Ortigão visitou o Mosteiro em 1886 e escreveu em AS FARPAS que a cozinha, é verdadeiramente monumental, é de uma altura catedralesca, em abóbada forrada de tijolos esmaltados e medindo perto de trinta metros de comprimento. A chaminé, colocada ao centro da casa, sobre colunas de ferro, é de tais dimensões, que permitia assar no espeto a um tempo, sobre o lar que ela cobre, seis ou oito bois. Em roda estão os fornos de mármore, servidos de água por grossas torneiras de bronze. A um topo vê-se a abertura em que deve ter girado a grande roda destinada a passar comidas para o refeitório (10).
Para Zagallo e Vilhena Barbosa (11), ela não servia para mais que um.
Manuel Vieira Natividade, dá as dimensões exactas e calcula que três bois podiam ser assados à vontade.
(…) Contígua ao refeitório fica a cozinha, que é o assombro de todos os visitantes, pela sua grandeza e pela sua disposição. Passa como lenda que na sua chaminé, se podia assar um boi inteiro, mas nós afiançamos que esse animal triplicado ainda deixaria vasto campo para se fazerem acepipes e badulaques para os reverendos frades (12).
Somos de opinião que é este autor quem tem razão. O GUIA DE PORTUGAL (13), calcula que podiam-se assar no espeto, ao mesmo tempo, seis ou sete bois.
É da mesma opinião o autor da excelente obra AS ESTRADAS DE PORTUGAL (14).
Varela Altamira num certo ROTEIRO DAS MUITAS E VARIADAS COISAS editado em 1939, que não podemos consultar, informa o turista que a chaminé possui tais proporções que se podiam assar ao mesmo tempo oito bois (15).
Fixemo-nos nele e veremos que o número de bois sacrificados em conjunto ao apetite, este ardor fisiológico dos bernardos de Alcobaça, não aumentou desde 1939.
É manifesto que uma chaminé, dotada de tão curiosas propriedades e capaz de crescer segundo a óptica e o estado de espírito dos que a descrevem, é um monumento de valor excepcional que há que rodear de todos os cuidados. O autor da nota sobre Alcobaça na GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA faz um judicioso e pequeno comentário: A enorme cozinha actual, é ladeada de altas chaminés parietais, com a vasta lareira central, de ampla mesa para tassalhar os blocos de vianda, tudo em duplicação da craveira comum, como se as vitualhas fossem preparadas para o insondável estômago de Gargântua.
Não era necessário mais nada para transformar Alcobaça numa Abadia de Telemo, equipada com uma Cozinha de Gargântua ou Titã, digna do que Beckford estigmatizou, possuído de virtuosa indignação, com o epíteto de Templo de Gastronomia, ou Glutonoria. Manuel Pinheiro Chagas, escreveu que tinham grande reputação de ignorância e de glutões os frades Bernardos, sempre bernardo o frade espesso das picarescas lendas populares. Confirmou essa tradição José Agostinho de Macedo, na sue célebre dedicatória do poema OS BURROS, ao Geral dos bernardos... Mas é certo que a sua tradição é
Injusta na sua generalidade .
Almeida Garrett, no poema D. Branca, na cena entre os frades bentos e bemardos não foi muito lisonjeiro para estes últimos. A despeito do muito de bom que fez, o frade alcobacense tornou-se, com o tempo sinónimo de estúpido e de glutão. Dicionários antigos como o Morais, definem Bernardo como sujeito muito gordo e estúpido que só se preocupa com a glutonaria, ou Cândido de Figueiredo, bernardoestúpido e gordo, reflectindo o que entrara na gíria e nos conceitos mais populares (16).
Poderíamos limitarmo-nos a reproduzir, sem comentários, a conclusão de Varela Altamira:
(…)Até onde se pode ir? Não se sabe. O laboratório culinário conventual está sempre no mesmo lugar, com a sua alta chaminé recoberta de azulejos brancos. Não se fizeram lá quaisquer obras desde 1834 e as suas dimensões permaneceram as mesmas. Todavia, em menos de um século, a cozinha observada por diversas pessoas multiplicou oito vezes o seu volume. É também possível que um boi do século passado, valha um rebanho de hoje em dia, época de vacas magras que atravessamos (17).
Como vimos e sabemos, a cozinha não é apenas isto, a chaminé. Na verdade, não há acordo quanto ao destino do tanque aberto no pavimento. Uns, vêm aí um viveiro onde se conservava o peixe fresco. Outros, pensam que servia para a limpeza da cozinha e talvez da loiça conventual.
Ele mede 5 metros de comprimento por 3 metros de largura. Admite-se, com facilidade, mas sem razão, que os monges eram uns sibaritas que desviaram um braço do Rio Alcoa para o fazer passar na cozinha.
O alcobacense Bernardo Villa-Nova escreveu que um dos tanques é escavado no pavimento e abundantemente alimentado de água por um braço ramificado da levada que, por sua vez, é uma ramificação do Rio Alcoa (18).
Luis Augusto Rebelo da Silva (1812-1817), que já referimos supra, foi um notável escritor que escolheu Alcobaça para alguns capítulos do seu romance LÁGRIMAS E TESOUROS , com o sub-títuloFRAGMENTOS DE UMA HISTÓRIA VERDADEIRA baseado na visita que Beckford fez ao Mosteiro.
Vamos reproduzir alguns passos da dita obra, hoje em dia difícil de encontrar, em que é descrita a cozinha de Alcobaça:
(…) A cozinha justificava o orgulho do Abade Geral. Era o templo mais sumptuoso que podia dedicar-se aos ritos de Comus. Beckford, maravilhado, não se atrevia a acreditar no que estava vendo. Em nenhum dos conventos de França, de Itália ou da Alemanha, que visitara, contemplara tão vasta e admirável fábrica. Mestre Simon Cabarrus erguia as mãos e expressava o seu espanto, em interjeições mais ou menos ortodoxas. De facto, os estrangeiros, que a experiência e peregrinação habilitam a ser juízes, diziam que dificilmente apontariam em toda a Europa outra casa semelhante para competir com a de Alcobaça em grandeza e esplendor (...). Nesta cozinha, ou mais exacto, nesta sala espaçosíssima e lavada, que media sessenta pés de alto, trabalhava uma legião de mestres, de ajudantes e de serventes, com mangas e túnicas arregaçadas. Atravessava a casa pelo meio um rio de águas vivas, um verdadeiro rio, braço do Alcoa, e murmurando ia entornar tesouros líquidos nos amplos reservatórios, aonde nadavam peixes de todas as qualidades e tamanhos (...). Mesas enormes de pau e de mármore ostentavam de um lado hortaliças, os legumes e as frutas acabadas de colher, enquanto do outro se viam também a monte, as vítimas inumeráveis sacrificadas pela espingarda de conteiros à faustosa hospitalidade dos seus amos. Perdizes, patos bravos, galinhas, narcejas, lebres, coelhos, e veados, acusando ainda no sangue fresco o chumbo recente, esperavam em vistosa confusão pelas ordens do leigo emérito, ao qual o Dom Abade Geral confiaria o inteiro domínio daquelas regiões (19).
(CONTINUA)
Escreveu-se muito sobre este assunto e algumas das conclusões prejudicaram a reputação dos monges. Não se trata aqui de fazer um processo de intenções a Beckford ou a todos os que nele se inspiraram. Desejamos verificar, através dos textos, e interrogando a própria construção, certas afirmações que ainda persistem, tanto mais que os visados não estão cá para se defenderem. A descrição de Beckford tornou-se clássica e, algumas das suas expressões pertencem ao que se poderia chamar o folclore de Alcobaça.
(...)entraram os Grão-Priores de mãos dadas e em conjunto. Para a cozinha, disseram em perfeito uníssono e imediatamente. Então ajuizará se fomos falhos de zelo para o regalar. Um convite, nestes termos, era irresistível. Os três prelados, mostraram-me o caminho do que é, estou convencido, o templo da gastronomia mais notável de toda a Europa. (...).Todavia os meus olhos nunca viram em convento moderno de França, Itália ou Alemanha, um espaço tão grande dedicado a uma finalidade culinária. No centro desta sala imensa, de diâmetro não inferior a 60 pés, corria um riacho alegre, da mais límpida água, que atravessava reservatórios de madeira perfurada, que continham os mais belos peixes de rio, de todas as espécies e tamanhos. De um lado acumulavam-se as espécies de caça. Do outro, legumes e frutos, de uma variedade infinita. Além, uma longa linha de fogões, seguida de fornos e perto destes, montes de açúcar, cântaros cheios de puro azeite e uma quantidade enorme de doçaria que, um grupo de numerosos irmãos leigos e ajudantes, estendiam e formavam em cem feitios diferentes, ao mesmo tempo que cantavam tão alegremente como pássaros num campo de trigo (6).
Seria deselegante recusar o mérito poético e o poder evocativo desta entusiástica descrição. Ela prova que o prazer da mesa, não era a menor das virtudes de Beckford.
A descrição que por sua vez faz mais tarde o Marquês de Fronteira, é bastante mais prosaica:
(…)Entretanto, conduziram-me à cozinha, a qual correspondia, em tudo ao refeitório. Um grande caldeirão dava nas vistas, estando colocado numa formidável chaminé de ferro. Para o limpar, entrava um moço dentro, que, enquanto com a pá de ferro deitava para fora o resto da comida e o lavava, não era visto de fora, tal era o tamanho do caldeirão! Grande quantidade de fornalhas de ferro guarneciam a parede, uma banca de dimensões extraordinárias ocupava o centro da cozinha, rodeada por doze cozinheiros, e um rio bastante caudaloso e com uma corrente rápida, tanto de Verão como de Inverno, atravessava a cozinha, havendo várias pontes para se passar de um lado para outro. Com muita facilidade se podia inundar a cozinha aos Religiosos para a lavar, mas isto raramente acontecia, sendo repugnante o estado de porcaria em que se achava (7).
Poder-se-ia salientar algumas contradições entre estas duas visitas e respectivas descrições.
O texto da Excursão ... foi escrito em 1834 e 1835, quer dizer 4 anos mais tarde.
Beckford declarou que esta narrativa foi redigida de acordo com apontamentos reduzidos.
Rose Macaulay, nota aí um conjunto de incidentes, de fantasias e de descrições, ao mesmo tempo deliciosas e divertidas, em parte recordações, em parte imaginação, pensadas em noites de insónia. Os detalhes da descrição da cozinha, como os do banquete que se seguiu, não devem por isso ser aceites sem reservas.
Merimée, havia já chamado a atenção para o facto de que todas as grandes enfabulações necessitam de um detalhe minimamente credível, seja ele qual for .
Aqui, os detalhes são abundantes, mas subsiste logo a suspeita instintiva, quando se sabe que o autor não passou mais que umas horas na Abadia, não participou minimamente na vida conventual e, reviveu, com muita imaginação, quarenta anos mais tarde, todas as cenas que descreveu.
Pelo contrário, o Marquês de Fronteira, que permaneceu uma dezena de dias na Abadia, conviveu com os monges, na medida do possível. Enfim, o estilo jocoso e ligeiro do viajante inglês, dissimula a intenção de ridicularizar e de fazer alusões equívocas, especialmente deploráveis num velho de 75 anos.
(…) Quando a mesa se levantou, quatro lindos noviços, rapazes de 15 ou 1 anos, cuja candura inocente os aproximava da afectação, entraram oscilando perfumadores em filigrana de Goa, onde fumegavam o odorífero calamba e as melhores qualidades de aloés (8).
Pode-se aceitar, todavia com uma certa boa vontade e admitir com André Parreaux que, o interesse da Excursão..., não está aí, ou seja, na descrição fiel de acontecimentos autênticos. Ela reside, principalmente, no valor literário duma obra cujas críticas têm, desde há mais de um século, reconhecido a sua superior qualidade .
Os cistercienses de Alcobaça foram vítimas destas circunstâncias. Quaisquer que tenham sido as intenções de Beckford, e os méritos literário e artístico da sua obra, dedicaremos as páginas seguintes à crítica da mais célebre descrição da cozinha do mosteiro e do banquete.
Além das vastas proporções deste templo de culinária e da incrível acumulação de vitualhas, que tanto divertiram Beckford e seus companheiros, alguns outros pormenores espantaram os visitantes.
Encontram-se, muito bem resumidos, no texto de F. Batista Zagallo:
Nessa parte há ainda digno de ver-se a cozinha, amplíssima, com os seus tanques de mármore, servidos com profusão de água que corre por uma torneira colocada em cada um deles, a colossal chaminé em que se assava um boi, o vasto tanque aberto no pavimento ao fundo, destinado ao depósito de peixe, e fornecido de água por um copioso caudal derivado da levada e a espessa mesa destinada ao corte da carne (9).
O número de bois que os monges assavam na colossal chaminé, nunca poderá ser determinado com exactidão.
Ramalho Ortigão visitou o Mosteiro em 1886 e escreveu em AS FARPAS que a cozinha, é verdadeiramente monumental, é de uma altura catedralesca, em abóbada forrada de tijolos esmaltados e medindo perto de trinta metros de comprimento. A chaminé, colocada ao centro da casa, sobre colunas de ferro, é de tais dimensões, que permitia assar no espeto a um tempo, sobre o lar que ela cobre, seis ou oito bois. Em roda estão os fornos de mármore, servidos de água por grossas torneiras de bronze. A um topo vê-se a abertura em que deve ter girado a grande roda destinada a passar comidas para o refeitório (10).
Para Zagallo e Vilhena Barbosa (11), ela não servia para mais que um.
Manuel Vieira Natividade, dá as dimensões exactas e calcula que três bois podiam ser assados à vontade.
(…) Contígua ao refeitório fica a cozinha, que é o assombro de todos os visitantes, pela sua grandeza e pela sua disposição. Passa como lenda que na sua chaminé, se podia assar um boi inteiro, mas nós afiançamos que esse animal triplicado ainda deixaria vasto campo para se fazerem acepipes e badulaques para os reverendos frades (12).
Somos de opinião que é este autor quem tem razão. O GUIA DE PORTUGAL (13), calcula que podiam-se assar no espeto, ao mesmo tempo, seis ou sete bois.
É da mesma opinião o autor da excelente obra AS ESTRADAS DE PORTUGAL (14).
Varela Altamira num certo ROTEIRO DAS MUITAS E VARIADAS COISAS editado em 1939, que não podemos consultar, informa o turista que a chaminé possui tais proporções que se podiam assar ao mesmo tempo oito bois (15).
Fixemo-nos nele e veremos que o número de bois sacrificados em conjunto ao apetite, este ardor fisiológico dos bernardos de Alcobaça, não aumentou desde 1939.
É manifesto que uma chaminé, dotada de tão curiosas propriedades e capaz de crescer segundo a óptica e o estado de espírito dos que a descrevem, é um monumento de valor excepcional que há que rodear de todos os cuidados. O autor da nota sobre Alcobaça na GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA faz um judicioso e pequeno comentário: A enorme cozinha actual, é ladeada de altas chaminés parietais, com a vasta lareira central, de ampla mesa para tassalhar os blocos de vianda, tudo em duplicação da craveira comum, como se as vitualhas fossem preparadas para o insondável estômago de Gargântua.
Não era necessário mais nada para transformar Alcobaça numa Abadia de Telemo, equipada com uma Cozinha de Gargântua ou Titã, digna do que Beckford estigmatizou, possuído de virtuosa indignação, com o epíteto de Templo de Gastronomia, ou Glutonoria. Manuel Pinheiro Chagas, escreveu que tinham grande reputação de ignorância e de glutões os frades Bernardos, sempre bernardo o frade espesso das picarescas lendas populares. Confirmou essa tradição José Agostinho de Macedo, na sue célebre dedicatória do poema OS BURROS, ao Geral dos bernardos... Mas é certo que a sua tradição é
Injusta na sua generalidade .
Almeida Garrett, no poema D. Branca, na cena entre os frades bentos e bemardos não foi muito lisonjeiro para estes últimos. A despeito do muito de bom que fez, o frade alcobacense tornou-se, com o tempo sinónimo de estúpido e de glutão. Dicionários antigos como o Morais, definem Bernardo como sujeito muito gordo e estúpido que só se preocupa com a glutonaria, ou Cândido de Figueiredo, bernardoestúpido e gordo, reflectindo o que entrara na gíria e nos conceitos mais populares (16).
Poderíamos limitarmo-nos a reproduzir, sem comentários, a conclusão de Varela Altamira:
(…)Até onde se pode ir? Não se sabe. O laboratório culinário conventual está sempre no mesmo lugar, com a sua alta chaminé recoberta de azulejos brancos. Não se fizeram lá quaisquer obras desde 1834 e as suas dimensões permaneceram as mesmas. Todavia, em menos de um século, a cozinha observada por diversas pessoas multiplicou oito vezes o seu volume. É também possível que um boi do século passado, valha um rebanho de hoje em dia, época de vacas magras que atravessamos (17).
Como vimos e sabemos, a cozinha não é apenas isto, a chaminé. Na verdade, não há acordo quanto ao destino do tanque aberto no pavimento. Uns, vêm aí um viveiro onde se conservava o peixe fresco. Outros, pensam que servia para a limpeza da cozinha e talvez da loiça conventual.
Ele mede 5 metros de comprimento por 3 metros de largura. Admite-se, com facilidade, mas sem razão, que os monges eram uns sibaritas que desviaram um braço do Rio Alcoa para o fazer passar na cozinha.
O alcobacense Bernardo Villa-Nova escreveu que um dos tanques é escavado no pavimento e abundantemente alimentado de água por um braço ramificado da levada que, por sua vez, é uma ramificação do Rio Alcoa (18).
Luis Augusto Rebelo da Silva (1812-1817), que já referimos supra, foi um notável escritor que escolheu Alcobaça para alguns capítulos do seu romance LÁGRIMAS E TESOUROS , com o sub-títuloFRAGMENTOS DE UMA HISTÓRIA VERDADEIRA baseado na visita que Beckford fez ao Mosteiro.
Vamos reproduzir alguns passos da dita obra, hoje em dia difícil de encontrar, em que é descrita a cozinha de Alcobaça:
(…) A cozinha justificava o orgulho do Abade Geral. Era o templo mais sumptuoso que podia dedicar-se aos ritos de Comus. Beckford, maravilhado, não se atrevia a acreditar no que estava vendo. Em nenhum dos conventos de França, de Itália ou da Alemanha, que visitara, contemplara tão vasta e admirável fábrica. Mestre Simon Cabarrus erguia as mãos e expressava o seu espanto, em interjeições mais ou menos ortodoxas. De facto, os estrangeiros, que a experiência e peregrinação habilitam a ser juízes, diziam que dificilmente apontariam em toda a Europa outra casa semelhante para competir com a de Alcobaça em grandeza e esplendor (...). Nesta cozinha, ou mais exacto, nesta sala espaçosíssima e lavada, que media sessenta pés de alto, trabalhava uma legião de mestres, de ajudantes e de serventes, com mangas e túnicas arregaçadas. Atravessava a casa pelo meio um rio de águas vivas, um verdadeiro rio, braço do Alcoa, e murmurando ia entornar tesouros líquidos nos amplos reservatórios, aonde nadavam peixes de todas as qualidades e tamanhos (...). Mesas enormes de pau e de mármore ostentavam de um lado hortaliças, os legumes e as frutas acabadas de colher, enquanto do outro se viam também a monte, as vítimas inumeráveis sacrificadas pela espingarda de conteiros à faustosa hospitalidade dos seus amos. Perdizes, patos bravos, galinhas, narcejas, lebres, coelhos, e veados, acusando ainda no sangue fresco o chumbo recente, esperavam em vistosa confusão pelas ordens do leigo emérito, ao qual o Dom Abade Geral confiaria o inteiro domínio daquelas regiões (19).
(CONTINUA)
D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte I) NOTA PRÉVIA
NOTA PRÉVIA
Este texto foi publicado pela primeira vez, no jornal regional REGIÃO DE CISTER, no ano de 1994.
A versão que agora se apresenta, corresponde fundamentalmente à primeira, embora num ponto ou noutro, corrigida e actualizada.
NOTA INTRODUTÓRIA
William Beckford, mais que o próprio monge cisterciense de Alcobaça, é sem dúvida a personagem que perpassa destacadamente ao longo da obra que ora apresentamos pela primeira vez em português, da autoria de Dom Maur Cocheril, intitulada no original WILLIAM BECKFORD ET LA CUISINE D'ALCOBAÇA (Porto-1969).
Para os menos conhecedores, diremos que William Beckford foi um incansável viajante e escritor romântico, nascido em Inglaterra, no seio de uma família muito rica, de nobreza recente, mas muito bem relacionada, de origem colonial e que faleceu em 1844.
Mas não só.
Todas as actividades a que se dedicou, como a arquitectura e o coleccionismo de objectos de arte, conferem-lhe um lugar de relevo na cultura inglesa do tempo.
A sua obra literária, vasta, interessante e variada, levanta problemas que revelam a multiplicidade de facetas do século em que surgiu e onde Portugal representa um papel de importância. O nome de W. Beckford está ligado, à história da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, que descreveu, de forma pitoresca, teatralizada, exagerada talvez, o que originou forte irritação e animosidade, nomeadamente nos meios políticos, religiosos e pretensamente intelectuais do nosso País.
Temos algumas dúvidas se as críticas a W. Beckford, designadamente as aduzidas por Dom Maur Cocheril, como veremos adiante, são de todo correctas e ajustadas.
Beckford de facto, serviu durante muito tempo à maledicência e à lenda, que se manteve quase até aos nossos dias, e que veio a destruir a sua reputação e a pôr fim a uma carreira, que poderia ter sido brilhante. Em contrapartida, ganhou-se no nosso entender, um autêntico escritor. Veio por três vezes a Portugal.
A primeira, de Março a Novembro de 1787, deu origem ao que veio a ser publicado, entre nós, com o título de DIÁRIO DE WILLIAM BECKFORD EM PORTUGAL E ESPANHA (1). Foi, de certo modo, por acidente que o inglês, então com 27 anos de idade, chegou a Portugal, já que isso se deveu ao facto de ter enjoado fortemente durante os nove dias que durou o percurso marítimo entre Falmouth e Lisboa, escala do seu destino à Jamaica, onde iria visitar plantações de açúcar da família.
Da segunda vez, entre Novembro de 1793 e Outubro de 1795, redigiu um diário que, 4O anos mais tarde, desenvolveu e publicou em Inglaterra sob o título RECOLLECTIONS OF AN EXCURSION TO THE MONASTERIES OF ALCOBAÇA AND BATALHA, que muitos consideram a sua melhor obra. Pelo menos, a mais conhecida.
Da terceira visita a Portugal, não consta que tenha escrito qualquer obra. Parece útil observar aos nossos leitores, acerca da obra de W. Beckford e em especial a Excursão... que o seu valor histórico não pode ser exaltado em demasia, nem pura e simplesmente rejeitado como uma mera fantasia. A obra de Beckford, considerada como menor, por críticos de rigorosa e limitada formação histórica, tem de ser apreciada numa perspectiva mais ampla de ficção narrativa. Neste sentido, não acompanhamos um compatriota de Beckford, Rose Macaulay, ao escrever em THEY WENT TO PORTUGAL (2) que, aquele, não tinha pejo de mentir, desde que a mentira pudesse concorrer para, de alguma forma, fazer realçar os coturnos em que se manifestava a sua personalidade sem escrúpulos, perversa, fátua, mentirosa e corruptora da juventude.
É pois, com os devidos cuidados que tem de ser lida a obra de W. Beckford, de modo a que os seus escritos não sejam rejeitados, por interpretados à letra ou com grandes preconceitos de rigor. Salvo melhor opinião, Dom Maur Cocheril não conseguiu evitar de todo esta postura, como iremos tentar benevolamente demonstrar.
W. Beckford foi uma personalidade complexa e possuída de vincado inconformismo. Nas suas contradições e contrastes é, sem dúvida, representativo da época de transição que viveu, os fins do século XVIII, os excessos da Revolução Francesa e os princípios do século XIX. Algumas das suas amizades e reacções em público, conduziram muito especialmente que a sua família e a conservadora sociedade inglesa, o considerassem um proscrito, que se impunha marginalizar. Não foram indiferentes a esta reacção, as críticas aceradas, a pessoas e a instituições, bem como o seu relacionamento íntimo e algo equívoco, apesar do casamento, com um jovem efeminado e belo, bastante mais novo, que veio a ter influência importante na sua vida.
Seja como for, estamos perante alguém extremamente dotado, que nos deixou, no que ora mais interessa, quadros vivos da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, boémia, nobre ou religiosa, que conheceu calorosamente, mas nem sempre com a intimidade que quis aparentar nos seus escritos.
A corte portuguesa de D. Maria I, revelou-se como o baluarte que só caiu após forte resistência, graças aliás aos esforços denodados do jovem Marquês de Marialva e com a oposição firme do Embaixador de Inglaterra.
Frequentemente, na literatura portuguesa e estrangeira, W. Beckford é acusado de manifesto cinismo religioso. Dom Maur Cocheril, não anda longe destes críticos. Beckford, foi com as suas virtudes e defeitos, o que poderíamos apelidar de um homem do mundo, sem rejeitar a sua inconfundível origem britânica. Rico, educado, relacionado, viajado e tolerante, não evitava sacrificar eventualmente um amigo, a troco de uma boa piada ou para desenvolver através da escrita um conceito estético.
A Excursão..., tornou-se com o tempo e especialmente em Portugal, um clássico da literatura de viagens. Além da célebre descrição da recepção e do banquete que lhe foram oferecidos pelos monges, em 7 e 8 de Junho de 1794, ponto de partida para pequena obra de D. Maur Cocheril, no que diz respeito a Alcobaça, W. Beckford escreveu com alguma ligeireza e graça acerca das laranjeiras do Claustro D. Dinis, da maior coelheira do mundo, duma bela cantora, outrora algo leviana, chamada Francisca, que trocara Queluz por este obscuro retiro, agora sob a direcção espiritual do Dom Abade Geral e, de uma representação teatral sobre a vida e morte de Inês de Castro. Para nossa surpresa, quiçá espanto, de portugueses cultos e sérios, diz ter assistido, escrita por um italiano, a uma cruciante tragédia de Dona Inês de Castro e do cruel assassinato daquela adorável dama e de seus inocentes filhos. Será representada no palco. O papel de Dona Inês é feito pelo Senhor Agostinho José.
Na nossa opinião, nenhum destes apontamentos retira interesse à Excursão... e cremos que por isso, ou apesar disso, não desdenhou Dom Maur Cocheril fazer a pequena obra que agora apresentamos e pretende ser também a defesa da Ordem de Cister.
As descrições da vida portuguesa feitas por Beckford, com os trajes, dança, música, luxo, gastronomia, procura de prazer nas classes elevadas e no clero, revelam o paradoxo entre o fervor religioso que aparentam ou não excluem, e as dificuldades com que se debatia o povo, e que ele bem compreendeu.
Vejamos, de novo, o caso da representação teatral de Inês de Castro, drama por demais conhecido, e tido como assistido por Beckford. Ocorrida ou não como a descreveu, não ficam dúvidas que o autor inglês introduziu na sua obra um elemento cómico apreciável, decorrente da sua qualidade de fino escritor que era. Admitimos que representação teatral pode ter-lhe sido sugerida não só pelo que leu, mas pelo que conhecia também da vida portuguesa e o Mosteiro de Alcobaça não deixava de se encaixar no quadro que pintou. Aliás, antes e depois de Beckford, outros autores referiram com liberdade o episódio de Inês de Castro nos seus textos. Músicos e mais tarde cineastas, nacionais e estrangeiros. Não nos repugna defender, contra alguma corrente mais ortodoxa, que esta descrição pode não ser o relato fiel de uma representação ou um acontecimento, mas uma peça inspirada em várias fontes e com a liberdade criativa permitida a um autor.
Para nós, as características da obra de Beckford, que a tornam aliciante, decorrem do sentimento de que mesmo quando critica, o faz sem maldade, alguém que aponta defeitos com compreensão e algum desvelo. O exagero da crítica depreciativa, aceitou como bom, mas sem razão, o pressuposto da inexistência de ambientes extravagantes, irregulares ou até fantásticos que no clero em geral e em Alcobaça em particular, seriam fruto apenas da imaginação fértil do autor inglês.
Vieira Natividade e o Gen. Lúcio Lobo foram autores em 1914 de uma versão livre daquela obra, no que diz respeito a Alcobaça e Batalha e que não chegou a entrar no mercado. A Semana Alcobacense publicou alguns excertos daquela tradução. O jornal O Alcoa, também publicou da Excursão ... a parte que diz respeito à recepção e banquete nos números 1748 e seguintes, numa versão nossa (3). Outras e meritórias edições já surgiram à luz do dia.
Somos de opinião que Dom Maur Cocheril, seguiu de perto as críticas, algo preconceituosas, que Vieira Natividade e Lúcio Lobo desde logo fizeram ao texto de Beckford, o que não é de todo de estranhar, dado o relacionamento que tinha com a Família de Natividade mas, principalmente, pela sua filiação na Ordem de Cister, de que era indefectível defensor.
Já Natividade havia referido, desfavoravelmente, que Beckford não assumiu a responsabilidade da sua crítica e por isso, só publicou o seu livro em 1835, após a extinção das ordens religiosas entre nós. Ainda Natividade e Lobo, em notas à citada tradução, censuram as referências lendárias e inverosímeis e apontam a ironia atroz do livro de Beckford, a que atribuem mero valor etnográfico. Rebelo da Silva, que adiante voltaremos a referir, ao escolher Beckford como protagonista do seu romance Lágrimas e Tesouros, apercebeu-se que este não era um viajante inculto, despreocupado ou brincalhão, mas alguém que se integrava razoavelmente no ambiente e reagia, com as devidas reservas, quase como um... português.
Fidelino de Figueiredo, também escreveu que William Beckford não tem a vulgar psicologia atribuída aos ingleses, é bem o português do século XVIII, como o conhecia Rebelo.
Talvez aqui se filie uma das razões da popularidade, ainda que contraditória, que a obra de Beckford atingiu em Portugal.
Hoje em dia, não se pode falar da história da Ordem de Cister em Portugal e dos Monges Brancos, sem invocar Dom Maur Cocheril. William Beckford e a Cozinha de Alcobaça é um mero intervalo na vasta e importante obra que deixou e, como tal, tem de ser entendido. Todavia, tem interesse e uma curiosidade muito própria para os alcobacenses, estudiosos ou meros curiosos de Cister, o que nos levou a decidir apresentá-la agora em português, também em versão livre e com algumas notas da nossa autoria, intercaladas no texto. Dom Maur Cocheril, no prefácio ao seu trabalho, refere que confessamos sentir um certo embaraço ao trazer uma nota discordante a tal concerto de elogios.
Por sua vez, Veríssimo Serrão, no prefácio a Alcobaça-Abadia Cisterciense de Portugal, de Dom Maur Cocheril, enquadrou bem a personalidade e a formação deste, para compreendermos o sentido do seu embaraço.
Sob as arcadas góticas do venerando mosteiro, deslumbrado pela imensidão das naves, pela elegância do claustro e pela harmonia do refeitório, vivia ele o sonho de uma ordem religiosa que se cumpria na realização de um nobre ideal de vida (4).
Nascido em 1914 em França e falecido em 1982 na Abadia Cisterciense de Notre Dame de Port-du-Salut (Mayenne), onde professara 40 anos antes, Dom Maur Cocheril dedicou muito tempo da sua vida, também aventurosa, ao estudo da Ordem de Cister em Portugal. Nós, que privilegiadamente ainda chegamos a conhece-lo, notámos, com facilidade, a sua verdadeira paixão pela nossa terra, a quem deu o seu melhor e aonde gostaria de ser enterrado. Isso não aconteceu ainda.
A Câmara Municipal de Alcobaca, numa singela homenagem, atribuiu o nome de Dom Maur Cocheril à antiga Travessa da Cadeia. Trata-se da artéria que liga a hoje chamada Praça 25 de Abril, às Ruas Eng. Duarte Pacheco e Miguel Bombarda. Chamava-se Travessa da Cadeia, obviamente, por ter existido ali a prisão da Vila, que era nos números 49 e 50 do prédio que também serviu de Paços do Concelho. Em 7 de Julho de 1915, recebeu o nome de 14 de Maio e em 9 de Dezembro de 1918 o de Rua 1º de Dezembro, passando novamente a designar-se por Rua 14 de Maio, em 1 de Junho de 1923 e Travessa da Cadeia em 27 de Maio de 1928.
Alcobaça minha abadia, os frades partiram tu permaneces solitária no teu vale, erguendo as tuas duas torres para o céu fechado, para o céu da Estremadura, que já não te ouve (5).
Ao tomarem a defesa dos absolutistas, os monges de Alcobaça foram atingidos pela queda de D. Miguel. O medo fez fugir os monges, o edifício foi assaltado e pilhado pela população, conseguindo-se salvar muitos dos livros e manuscritos para a Torre do Tombo e Biblioteca Nacional.
Foi na Colecção de Manuscritos do Fundo Geral da Biblioteca Nacional de Lisboa, Códice 1814, fls.181 e seguintes que José da Cunha Saraiva, encontrou a muito interessante Relação Da Vinda De El-Rey O Sr. D. Miguel A Este Real Mosteiro De Alcobaça.
Achamos oportuno transcrever a seguinte passagem referente à última visita real a Alcobaça, em 1830, na fase de decadência monacal e pouco antes da extinção das ordens religiosas:
Sahio S. Magd.e do seu quarto acompanhado dos m.mos que lhe tinhão assistido ao Beijamão, acrescendo mais aos asistentes o M.e D.or Fr. Fortunato de S. Boaventura, e se deregirão a Igreja, vendo primeiro o Altar de S. Miguel, e S. Sebastião, e os da Charola, subio atrás do Altar Mor para ver a Igreja em quanto a Comunid.e estava a vésperas, foi a Caza dos Tumullos, que admirou, e disse que havia de mandar compor o de D. Beatriz, para a outra vez que viesse, dahi foi ao Tranzito de N.S.S. Bernardo, a Capella de S. Pedro, a Sachrestia, aonde viu o Cálix d'ouro, a Custódia, e o mais digno de se ver, entrou no Sanctuário , Capella do S.r. dos Passos, e foi ao Claustro, Capitolo, Refeitório, o Caldeiro da Batalha d'Aljubarrota, a Cozinha, e fazendo em todas as partes varias perguntas a que satisfez o M. e Fr. Fortunato, foi a Livraria, e vio com curiosidade, os manos screptos, e Biblias, que m.m gostou de ver, e no quarto dos poribidos, mostrandolhe od.o P.e Mestre os Padres de Pavia, e dizendo lhe que era a nossa ruina e que na Alemanha estavão prohibidos também ca hade suceder o m.mo, desceu ao Cartório, vio, e leo nos Livros Dourados, e quando lhe apresentarão as Doaçaens nos pergaminhos, disse, agora me sento Eu e assim o fez em huma cadeira que estava, e vio miudam. te tudo, e fez várias perguntas e reflexoens.
Em 30 de Maio de 1834, foram extintos os mosteiros e expulsas de Portugal as ordens religiosas. Os Monges Brancos, os Bernardos, abandonaram definitivamente Alcobaça e a Ordem de Cister, tão intimamente ligada ao passado de grandeza ou até de dor do nosso País, deixou de ter, desde então, representantes entre nós. Noutros países, sobreviveu a convulsões políticas e sociais, constatando-se que nalgumas partes do mundo, desde o Japão, à Europa e Estados Unidos, ainda existem cistercienses que praticam, com fervor e até intransigência, os mesmos Usos e Costumes dos fundadores de Tarouca e Alcobaça.
A Igreja de Alcobaça era ornamentada com quadros a óleo, em ricas molduras de talha dourada, tendo sido despojada de uma grande parte, bem como das alfaias para o culto e ornato, após a supressão das ordens religiosas.
Olhando todos os dias o Mosteiro de Alcobaça, sentimos a mágua que decorre de termos, pouco mais que um belo edifício, restaurado e conservado é certo, património mundial, a maior Igreja que os cistercienses eregeram em Portugal à glória de Deus e que povoaram durante 7 séculos. A Ordem que em Portugal deu a medida de sua capacidade, desapareceu de um dia para o outro, e com ela todos as outras comunidades irmãs e dependentes e quase a sua memória. Foi uma morte real, definitiva mesmo.
Muitas vezes temo-nos interrogado porque razão este império, poderosamente civilizado, tão (des)conforme a exigência ou dimensão humanas, pereceu assim e não mais se reconstituiu. Seria interessante concluir que tal se deveu à vitória do cristianismo. Cremos que é errado. Assim, sugerimos a procura de várias causas, ainda que contraditórias, mesma que a soma delas apresente um resultado inclusivo. A Ordem de Cister, em Portugal, desintegrou-se, minada por uma desagregação interna, sequência de querelas intestinas, invasões não detidas, rancores acumulados, vinganças sociais, despertares com sobressaltos.
Entendemos, que seria interessante trazer ao nosso Mosteiro um pouco de vida e calor humano. E sem que legitimamente se possa concluir que os últimos anos dos monges em Alcobaça, com a sua lassidão ou bonomia, nos fazem esquecer os séculos de virtude, recordaremos aqui o relato de um episódio que, embora não sendo especialmente notável ou fidedigno, tem a marca dos frades que eram, sempre essencialmente, humanos e vulgares mortais.
Dom Maur Cocheril, o primeiro monge cisterciense a rezar missa no Mosteiro de Alcobaça após a extinção das ordens religiosas, tal como Beckford bem merece esta pequena homenagem.
(CONTINUA)
Este texto foi publicado pela primeira vez, no jornal regional REGIÃO DE CISTER, no ano de 1994.
A versão que agora se apresenta, corresponde fundamentalmente à primeira, embora num ponto ou noutro, corrigida e actualizada.
NOTA INTRODUTÓRIA
William Beckford, mais que o próprio monge cisterciense de Alcobaça, é sem dúvida a personagem que perpassa destacadamente ao longo da obra que ora apresentamos pela primeira vez em português, da autoria de Dom Maur Cocheril, intitulada no original WILLIAM BECKFORD ET LA CUISINE D'ALCOBAÇA (Porto-1969).
Para os menos conhecedores, diremos que William Beckford foi um incansável viajante e escritor romântico, nascido em Inglaterra, no seio de uma família muito rica, de nobreza recente, mas muito bem relacionada, de origem colonial e que faleceu em 1844.
Mas não só.
Todas as actividades a que se dedicou, como a arquitectura e o coleccionismo de objectos de arte, conferem-lhe um lugar de relevo na cultura inglesa do tempo.
A sua obra literária, vasta, interessante e variada, levanta problemas que revelam a multiplicidade de facetas do século em que surgiu e onde Portugal representa um papel de importância. O nome de W. Beckford está ligado, à história da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, que descreveu, de forma pitoresca, teatralizada, exagerada talvez, o que originou forte irritação e animosidade, nomeadamente nos meios políticos, religiosos e pretensamente intelectuais do nosso País.
Temos algumas dúvidas se as críticas a W. Beckford, designadamente as aduzidas por Dom Maur Cocheril, como veremos adiante, são de todo correctas e ajustadas.
Beckford de facto, serviu durante muito tempo à maledicência e à lenda, que se manteve quase até aos nossos dias, e que veio a destruir a sua reputação e a pôr fim a uma carreira, que poderia ter sido brilhante. Em contrapartida, ganhou-se no nosso entender, um autêntico escritor. Veio por três vezes a Portugal.
A primeira, de Março a Novembro de 1787, deu origem ao que veio a ser publicado, entre nós, com o título de DIÁRIO DE WILLIAM BECKFORD EM PORTUGAL E ESPANHA (1). Foi, de certo modo, por acidente que o inglês, então com 27 anos de idade, chegou a Portugal, já que isso se deveu ao facto de ter enjoado fortemente durante os nove dias que durou o percurso marítimo entre Falmouth e Lisboa, escala do seu destino à Jamaica, onde iria visitar plantações de açúcar da família.
Da segunda vez, entre Novembro de 1793 e Outubro de 1795, redigiu um diário que, 4O anos mais tarde, desenvolveu e publicou em Inglaterra sob o título RECOLLECTIONS OF AN EXCURSION TO THE MONASTERIES OF ALCOBAÇA AND BATALHA, que muitos consideram a sua melhor obra. Pelo menos, a mais conhecida.
Da terceira visita a Portugal, não consta que tenha escrito qualquer obra. Parece útil observar aos nossos leitores, acerca da obra de W. Beckford e em especial a Excursão... que o seu valor histórico não pode ser exaltado em demasia, nem pura e simplesmente rejeitado como uma mera fantasia. A obra de Beckford, considerada como menor, por críticos de rigorosa e limitada formação histórica, tem de ser apreciada numa perspectiva mais ampla de ficção narrativa. Neste sentido, não acompanhamos um compatriota de Beckford, Rose Macaulay, ao escrever em THEY WENT TO PORTUGAL (2) que, aquele, não tinha pejo de mentir, desde que a mentira pudesse concorrer para, de alguma forma, fazer realçar os coturnos em que se manifestava a sua personalidade sem escrúpulos, perversa, fátua, mentirosa e corruptora da juventude.
É pois, com os devidos cuidados que tem de ser lida a obra de W. Beckford, de modo a que os seus escritos não sejam rejeitados, por interpretados à letra ou com grandes preconceitos de rigor. Salvo melhor opinião, Dom Maur Cocheril não conseguiu evitar de todo esta postura, como iremos tentar benevolamente demonstrar.
W. Beckford foi uma personalidade complexa e possuída de vincado inconformismo. Nas suas contradições e contrastes é, sem dúvida, representativo da época de transição que viveu, os fins do século XVIII, os excessos da Revolução Francesa e os princípios do século XIX. Algumas das suas amizades e reacções em público, conduziram muito especialmente que a sua família e a conservadora sociedade inglesa, o considerassem um proscrito, que se impunha marginalizar. Não foram indiferentes a esta reacção, as críticas aceradas, a pessoas e a instituições, bem como o seu relacionamento íntimo e algo equívoco, apesar do casamento, com um jovem efeminado e belo, bastante mais novo, que veio a ter influência importante na sua vida.
Seja como for, estamos perante alguém extremamente dotado, que nos deixou, no que ora mais interessa, quadros vivos da sociedade portuguesa dos fins do século XVIII, boémia, nobre ou religiosa, que conheceu calorosamente, mas nem sempre com a intimidade que quis aparentar nos seus escritos.
A corte portuguesa de D. Maria I, revelou-se como o baluarte que só caiu após forte resistência, graças aliás aos esforços denodados do jovem Marquês de Marialva e com a oposição firme do Embaixador de Inglaterra.
Frequentemente, na literatura portuguesa e estrangeira, W. Beckford é acusado de manifesto cinismo religioso. Dom Maur Cocheril, não anda longe destes críticos. Beckford, foi com as suas virtudes e defeitos, o que poderíamos apelidar de um homem do mundo, sem rejeitar a sua inconfundível origem britânica. Rico, educado, relacionado, viajado e tolerante, não evitava sacrificar eventualmente um amigo, a troco de uma boa piada ou para desenvolver através da escrita um conceito estético.
A Excursão..., tornou-se com o tempo e especialmente em Portugal, um clássico da literatura de viagens. Além da célebre descrição da recepção e do banquete que lhe foram oferecidos pelos monges, em 7 e 8 de Junho de 1794, ponto de partida para pequena obra de D. Maur Cocheril, no que diz respeito a Alcobaça, W. Beckford escreveu com alguma ligeireza e graça acerca das laranjeiras do Claustro D. Dinis, da maior coelheira do mundo, duma bela cantora, outrora algo leviana, chamada Francisca, que trocara Queluz por este obscuro retiro, agora sob a direcção espiritual do Dom Abade Geral e, de uma representação teatral sobre a vida e morte de Inês de Castro. Para nossa surpresa, quiçá espanto, de portugueses cultos e sérios, diz ter assistido, escrita por um italiano, a uma cruciante tragédia de Dona Inês de Castro e do cruel assassinato daquela adorável dama e de seus inocentes filhos. Será representada no palco. O papel de Dona Inês é feito pelo Senhor Agostinho José.
Na nossa opinião, nenhum destes apontamentos retira interesse à Excursão... e cremos que por isso, ou apesar disso, não desdenhou Dom Maur Cocheril fazer a pequena obra que agora apresentamos e pretende ser também a defesa da Ordem de Cister.
As descrições da vida portuguesa feitas por Beckford, com os trajes, dança, música, luxo, gastronomia, procura de prazer nas classes elevadas e no clero, revelam o paradoxo entre o fervor religioso que aparentam ou não excluem, e as dificuldades com que se debatia o povo, e que ele bem compreendeu.
Vejamos, de novo, o caso da representação teatral de Inês de Castro, drama por demais conhecido, e tido como assistido por Beckford. Ocorrida ou não como a descreveu, não ficam dúvidas que o autor inglês introduziu na sua obra um elemento cómico apreciável, decorrente da sua qualidade de fino escritor que era. Admitimos que representação teatral pode ter-lhe sido sugerida não só pelo que leu, mas pelo que conhecia também da vida portuguesa e o Mosteiro de Alcobaça não deixava de se encaixar no quadro que pintou. Aliás, antes e depois de Beckford, outros autores referiram com liberdade o episódio de Inês de Castro nos seus textos. Músicos e mais tarde cineastas, nacionais e estrangeiros. Não nos repugna defender, contra alguma corrente mais ortodoxa, que esta descrição pode não ser o relato fiel de uma representação ou um acontecimento, mas uma peça inspirada em várias fontes e com a liberdade criativa permitida a um autor.
Para nós, as características da obra de Beckford, que a tornam aliciante, decorrem do sentimento de que mesmo quando critica, o faz sem maldade, alguém que aponta defeitos com compreensão e algum desvelo. O exagero da crítica depreciativa, aceitou como bom, mas sem razão, o pressuposto da inexistência de ambientes extravagantes, irregulares ou até fantásticos que no clero em geral e em Alcobaça em particular, seriam fruto apenas da imaginação fértil do autor inglês.
Vieira Natividade e o Gen. Lúcio Lobo foram autores em 1914 de uma versão livre daquela obra, no que diz respeito a Alcobaça e Batalha e que não chegou a entrar no mercado. A Semana Alcobacense publicou alguns excertos daquela tradução. O jornal O Alcoa, também publicou da Excursão ... a parte que diz respeito à recepção e banquete nos números 1748 e seguintes, numa versão nossa (3). Outras e meritórias edições já surgiram à luz do dia.
Somos de opinião que Dom Maur Cocheril, seguiu de perto as críticas, algo preconceituosas, que Vieira Natividade e Lúcio Lobo desde logo fizeram ao texto de Beckford, o que não é de todo de estranhar, dado o relacionamento que tinha com a Família de Natividade mas, principalmente, pela sua filiação na Ordem de Cister, de que era indefectível defensor.
Já Natividade havia referido, desfavoravelmente, que Beckford não assumiu a responsabilidade da sua crítica e por isso, só publicou o seu livro em 1835, após a extinção das ordens religiosas entre nós. Ainda Natividade e Lobo, em notas à citada tradução, censuram as referências lendárias e inverosímeis e apontam a ironia atroz do livro de Beckford, a que atribuem mero valor etnográfico. Rebelo da Silva, que adiante voltaremos a referir, ao escolher Beckford como protagonista do seu romance Lágrimas e Tesouros, apercebeu-se que este não era um viajante inculto, despreocupado ou brincalhão, mas alguém que se integrava razoavelmente no ambiente e reagia, com as devidas reservas, quase como um... português.
Fidelino de Figueiredo, também escreveu que William Beckford não tem a vulgar psicologia atribuída aos ingleses, é bem o português do século XVIII, como o conhecia Rebelo.
Talvez aqui se filie uma das razões da popularidade, ainda que contraditória, que a obra de Beckford atingiu em Portugal.
Hoje em dia, não se pode falar da história da Ordem de Cister em Portugal e dos Monges Brancos, sem invocar Dom Maur Cocheril. William Beckford e a Cozinha de Alcobaça é um mero intervalo na vasta e importante obra que deixou e, como tal, tem de ser entendido. Todavia, tem interesse e uma curiosidade muito própria para os alcobacenses, estudiosos ou meros curiosos de Cister, o que nos levou a decidir apresentá-la agora em português, também em versão livre e com algumas notas da nossa autoria, intercaladas no texto. Dom Maur Cocheril, no prefácio ao seu trabalho, refere que confessamos sentir um certo embaraço ao trazer uma nota discordante a tal concerto de elogios.
Por sua vez, Veríssimo Serrão, no prefácio a Alcobaça-Abadia Cisterciense de Portugal, de Dom Maur Cocheril, enquadrou bem a personalidade e a formação deste, para compreendermos o sentido do seu embaraço.
Sob as arcadas góticas do venerando mosteiro, deslumbrado pela imensidão das naves, pela elegância do claustro e pela harmonia do refeitório, vivia ele o sonho de uma ordem religiosa que se cumpria na realização de um nobre ideal de vida (4).
Nascido em 1914 em França e falecido em 1982 na Abadia Cisterciense de Notre Dame de Port-du-Salut (Mayenne), onde professara 40 anos antes, Dom Maur Cocheril dedicou muito tempo da sua vida, também aventurosa, ao estudo da Ordem de Cister em Portugal. Nós, que privilegiadamente ainda chegamos a conhece-lo, notámos, com facilidade, a sua verdadeira paixão pela nossa terra, a quem deu o seu melhor e aonde gostaria de ser enterrado. Isso não aconteceu ainda.
A Câmara Municipal de Alcobaca, numa singela homenagem, atribuiu o nome de Dom Maur Cocheril à antiga Travessa da Cadeia. Trata-se da artéria que liga a hoje chamada Praça 25 de Abril, às Ruas Eng. Duarte Pacheco e Miguel Bombarda. Chamava-se Travessa da Cadeia, obviamente, por ter existido ali a prisão da Vila, que era nos números 49 e 50 do prédio que também serviu de Paços do Concelho. Em 7 de Julho de 1915, recebeu o nome de 14 de Maio e em 9 de Dezembro de 1918 o de Rua 1º de Dezembro, passando novamente a designar-se por Rua 14 de Maio, em 1 de Junho de 1923 e Travessa da Cadeia em 27 de Maio de 1928.
Alcobaça minha abadia, os frades partiram tu permaneces solitária no teu vale, erguendo as tuas duas torres para o céu fechado, para o céu da Estremadura, que já não te ouve (5).
Ao tomarem a defesa dos absolutistas, os monges de Alcobaça foram atingidos pela queda de D. Miguel. O medo fez fugir os monges, o edifício foi assaltado e pilhado pela população, conseguindo-se salvar muitos dos livros e manuscritos para a Torre do Tombo e Biblioteca Nacional.
Foi na Colecção de Manuscritos do Fundo Geral da Biblioteca Nacional de Lisboa, Códice 1814, fls.181 e seguintes que José da Cunha Saraiva, encontrou a muito interessante Relação Da Vinda De El-Rey O Sr. D. Miguel A Este Real Mosteiro De Alcobaça.
Achamos oportuno transcrever a seguinte passagem referente à última visita real a Alcobaça, em 1830, na fase de decadência monacal e pouco antes da extinção das ordens religiosas:
Sahio S. Magd.e do seu quarto acompanhado dos m.mos que lhe tinhão assistido ao Beijamão, acrescendo mais aos asistentes o M.e D.or Fr. Fortunato de S. Boaventura, e se deregirão a Igreja, vendo primeiro o Altar de S. Miguel, e S. Sebastião, e os da Charola, subio atrás do Altar Mor para ver a Igreja em quanto a Comunid.e estava a vésperas, foi a Caza dos Tumullos, que admirou, e disse que havia de mandar compor o de D. Beatriz, para a outra vez que viesse, dahi foi ao Tranzito de N.S.S. Bernardo, a Capella de S. Pedro, a Sachrestia, aonde viu o Cálix d'ouro, a Custódia, e o mais digno de se ver, entrou no Sanctuário , Capella do S.r. dos Passos, e foi ao Claustro, Capitolo, Refeitório, o Caldeiro da Batalha d'Aljubarrota, a Cozinha, e fazendo em todas as partes varias perguntas a que satisfez o M. e Fr. Fortunato, foi a Livraria, e vio com curiosidade, os manos screptos, e Biblias, que m.m gostou de ver, e no quarto dos poribidos, mostrandolhe od.o P.e Mestre os Padres de Pavia, e dizendo lhe que era a nossa ruina e que na Alemanha estavão prohibidos também ca hade suceder o m.mo, desceu ao Cartório, vio, e leo nos Livros Dourados, e quando lhe apresentarão as Doaçaens nos pergaminhos, disse, agora me sento Eu e assim o fez em huma cadeira que estava, e vio miudam. te tudo, e fez várias perguntas e reflexoens.
Em 30 de Maio de 1834, foram extintos os mosteiros e expulsas de Portugal as ordens religiosas. Os Monges Brancos, os Bernardos, abandonaram definitivamente Alcobaça e a Ordem de Cister, tão intimamente ligada ao passado de grandeza ou até de dor do nosso País, deixou de ter, desde então, representantes entre nós. Noutros países, sobreviveu a convulsões políticas e sociais, constatando-se que nalgumas partes do mundo, desde o Japão, à Europa e Estados Unidos, ainda existem cistercienses que praticam, com fervor e até intransigência, os mesmos Usos e Costumes dos fundadores de Tarouca e Alcobaça.
A Igreja de Alcobaça era ornamentada com quadros a óleo, em ricas molduras de talha dourada, tendo sido despojada de uma grande parte, bem como das alfaias para o culto e ornato, após a supressão das ordens religiosas.
Olhando todos os dias o Mosteiro de Alcobaça, sentimos a mágua que decorre de termos, pouco mais que um belo edifício, restaurado e conservado é certo, património mundial, a maior Igreja que os cistercienses eregeram em Portugal à glória de Deus e que povoaram durante 7 séculos. A Ordem que em Portugal deu a medida de sua capacidade, desapareceu de um dia para o outro, e com ela todos as outras comunidades irmãs e dependentes e quase a sua memória. Foi uma morte real, definitiva mesmo.
Muitas vezes temo-nos interrogado porque razão este império, poderosamente civilizado, tão (des)conforme a exigência ou dimensão humanas, pereceu assim e não mais se reconstituiu. Seria interessante concluir que tal se deveu à vitória do cristianismo. Cremos que é errado. Assim, sugerimos a procura de várias causas, ainda que contraditórias, mesma que a soma delas apresente um resultado inclusivo. A Ordem de Cister, em Portugal, desintegrou-se, minada por uma desagregação interna, sequência de querelas intestinas, invasões não detidas, rancores acumulados, vinganças sociais, despertares com sobressaltos.
Entendemos, que seria interessante trazer ao nosso Mosteiro um pouco de vida e calor humano. E sem que legitimamente se possa concluir que os últimos anos dos monges em Alcobaça, com a sua lassidão ou bonomia, nos fazem esquecer os séculos de virtude, recordaremos aqui o relato de um episódio que, embora não sendo especialmente notável ou fidedigno, tem a marca dos frades que eram, sempre essencialmente, humanos e vulgares mortais.
Dom Maur Cocheril, o primeiro monge cisterciense a rezar missa no Mosteiro de Alcobaça após a extinção das ordens religiosas, tal como Beckford bem merece esta pequena homenagem.
(CONTINUA)
terça-feira, 11 de maio de 2010
A taberna (à portuguesa) do António Justo. Uma história com o Carranca
Havia bastantes daquelas vendas, aliás em qualquer recanto do Portugal, aquelas que numa porta era a mercearia e na outra a taberna. Normalmente, eram conhecidas pelo nome ou alcunha do proprietário, como eram os casos do António Justo, do Zé Magala, do Manel Enganado, do Zé Pé-Dorido, do Paiva das Iscas, etc., etc. Lá dentro, na do António Justo que funcionou até quase ao 25 de Abril, respirava-se um ambiente muito tradicional, proporcionado pelo balcão de cimento, forrado com uma toalha plástica. O vinho era servido directamente do garrafão ou do pipo. Mesas só havia duas. Uma redonda feita em pedra dos moleanos e outra de madeira. As prateleiras eram empedra branca e suportavam garrafas de vinho com mais de vinte anos, ou bagaço. Foi neste cenário que António Justo falecido há cerca de dez anos, passou os seus dias, quando decidiu pouco depois de se casar, abandonar o trabalho do campo e estabelecer-se como taberneiro. Os primeiros tempos não foram pera doce. Para ganhar meio tostão, era preciso vender um litro de vinho. Coisa que não era nada fácil, especialmente numa época em que os trabalhadores rurais ganhavam cerca de oito escudos por dia.
Quando a malta vinha do trabalho, de regresso a casa, costumava parar na taberna. Mas havia dias em que não acontecia, porque o dinheiro não abundava. Alguns optavam por beber um copito de branco ou tinto e pagar só ao fim da semana, quando recebiam. Era uma miséria , lembra Francisco Justo, filho do taberneiro com olhar vivo a sobressair da face, também já enrugada.
Das tabernas, podem-se contar histórias com maior ou menor graça (ou desgraça), com justificação para se preservarem de geração em geração. O estabelecimento não tinha hora para abrir, nem para fechar. Às vezes começava a funcionar às sete da manhã.O meu pai, fiel ao trabalho, era conhecido pela assiduidade na abertura das portas do estaminé. Os clientes eram só homens.As senhoras não vinham cá e eu não as censuro, porque já nessa altura havia cafés e locais mais apropriados, justifica enquanto se prepara para beber um copo de tinto, na boa tradição familiar. Quando pousou o recipiente, adiantou uma máxima que diz ter aprendido com o pai: Um copo bem lavado é fundamental, mesmo que o vinho seja ruim. Se estiver manchado, o vinho nem sabe bem.
António Justo nunca gostou do que chamava palavras feias. E quando se reformou dizia que o melhor que guardou de uma vida atrás do balcão, foram as amizades. Vinha muita gente de fora visitá-lo.Houve pessoas que voltaram pois costumavam vir à taberna do meu pai, quando andavam a caçar, conta Francisco Justo por entre um sorriso.
Para além da arte de aviar copos de vinho e bagaço, o velho Justo tinha uma veia de poeta repentista. Um dos letreiros, que tinha atrás do balcão, foi feito por ele e rezava mais ou menos assim:
Um copo não se fia
Nem à noite, nem no dia
Porque o fiado me dá muita pena
A pena dá-me cuidado
Antes quero viver sem cena
Desculpa, meu amigo
Do que vender fiado.
Histórias? Esta aconteceu na taberna do António Justo, frequentada assiduamente pelo Carranca. Não lhe era atribuído, ou conhecido outro nome (carranca de carrancudo?). Não era propriamente um tipo afável, o Carranca era um misto de boçal e conflituoso contestatário, habituado a lidar com gado. Mas o certo é que a sua ausência, rara, muito rara mesmo era logo notada na taberna do Justo. Apesar do seu controverso feitio, havia quem questionasse:
-Tão o Carranca, está doente?
O curioso no meio de tudo isto era que o Carranca não deixava de ser uma pessoa querida de certo modo, embora sem o saber, e apreciado pelos demais fregueses da casa do Justo sem, no entanto o quererem confessar em voz alta.
Certo dia, por graçola, ou por resposta pelos seus maus humores ou alguns dichotes contundentes, convenceram o Justo a servir-lhe vinagre em vez de vinho branco. Certamente que o Carranca, nos seus azedos ditos e de álcool em excesso, nem iria notar…
O homem, depois de algum tempo a mirar o copo, afinal o Carranca também bebia com o olhar, virou-o de uma rápida assentada. De seguida, mirou de novo o copo, passou o olhar de viés pelos comparsas, e, com um ar muito circunspecto, murmurou ao dono da taberna:
-Ó Justo, chega aqui, se fazes favor.
Já no reservado, para que conste o Carranca era amigo do seu amigo e tido por nada invejoso, quis saber:
-Ainda cá tens muito deste branco?
E perante a resposta afirmativa do Justo, aconselhou-o afavelmente:
-Desta vez ainda serviu, mas olha vê se o gastas depressa, pois já tem um picozinho azedo!
Quando a malta vinha do trabalho, de regresso a casa, costumava parar na taberna. Mas havia dias em que não acontecia, porque o dinheiro não abundava. Alguns optavam por beber um copito de branco ou tinto e pagar só ao fim da semana, quando recebiam. Era uma miséria , lembra Francisco Justo, filho do taberneiro com olhar vivo a sobressair da face, também já enrugada.
Das tabernas, podem-se contar histórias com maior ou menor graça (ou desgraça), com justificação para se preservarem de geração em geração. O estabelecimento não tinha hora para abrir, nem para fechar. Às vezes começava a funcionar às sete da manhã.O meu pai, fiel ao trabalho, era conhecido pela assiduidade na abertura das portas do estaminé. Os clientes eram só homens.As senhoras não vinham cá e eu não as censuro, porque já nessa altura havia cafés e locais mais apropriados, justifica enquanto se prepara para beber um copo de tinto, na boa tradição familiar. Quando pousou o recipiente, adiantou uma máxima que diz ter aprendido com o pai: Um copo bem lavado é fundamental, mesmo que o vinho seja ruim. Se estiver manchado, o vinho nem sabe bem.
António Justo nunca gostou do que chamava palavras feias. E quando se reformou dizia que o melhor que guardou de uma vida atrás do balcão, foram as amizades. Vinha muita gente de fora visitá-lo.Houve pessoas que voltaram pois costumavam vir à taberna do meu pai, quando andavam a caçar, conta Francisco Justo por entre um sorriso.
Para além da arte de aviar copos de vinho e bagaço, o velho Justo tinha uma veia de poeta repentista. Um dos letreiros, que tinha atrás do balcão, foi feito por ele e rezava mais ou menos assim:
Um copo não se fia
Nem à noite, nem no dia
Porque o fiado me dá muita pena
A pena dá-me cuidado
Antes quero viver sem cena
Desculpa, meu amigo
Do que vender fiado.
Histórias? Esta aconteceu na taberna do António Justo, frequentada assiduamente pelo Carranca. Não lhe era atribuído, ou conhecido outro nome (carranca de carrancudo?). Não era propriamente um tipo afável, o Carranca era um misto de boçal e conflituoso contestatário, habituado a lidar com gado. Mas o certo é que a sua ausência, rara, muito rara mesmo era logo notada na taberna do Justo. Apesar do seu controverso feitio, havia quem questionasse:
-Tão o Carranca, está doente?
O curioso no meio de tudo isto era que o Carranca não deixava de ser uma pessoa querida de certo modo, embora sem o saber, e apreciado pelos demais fregueses da casa do Justo sem, no entanto o quererem confessar em voz alta.
Certo dia, por graçola, ou por resposta pelos seus maus humores ou alguns dichotes contundentes, convenceram o Justo a servir-lhe vinagre em vez de vinho branco. Certamente que o Carranca, nos seus azedos ditos e de álcool em excesso, nem iria notar…
O homem, depois de algum tempo a mirar o copo, afinal o Carranca também bebia com o olhar, virou-o de uma rápida assentada. De seguida, mirou de novo o copo, passou o olhar de viés pelos comparsas, e, com um ar muito circunspecto, murmurou ao dono da taberna:
-Ó Justo, chega aqui, se fazes favor.
Já no reservado, para que conste o Carranca era amigo do seu amigo e tido por nada invejoso, quis saber:
-Ainda cá tens muito deste branco?
E perante a resposta afirmativa do Justo, aconselhou-o afavelmente:
-Desta vez ainda serviu, mas olha vê se o gastas depressa, pois já tem um picozinho azedo!
A REPRESENTAÇÃO DE A CASTRO (de António Ferreira), AMÉLIA REY COLLAÇO E O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
Ainda está na memória dos alcobacenses mais idosos, a representação, de A Castro, de António Ferreira, no adro do Mosteiro de Alcobaça, pela companhia de Amélia Rey Collaço e marido Robles Monteiro, na noite de 25 de Agosto de 1935, numa encenação de Júlio Dantas, no que então foi considerado como uma manifestação artística sem par, aliás repetida anos depois também com sucesso. Segundo o Diário de Notícias, Amélia Rey Colaço acabara de encontrar a expressão definitiva de um espectáculo nacional. No templo gótico transformado pela magia da luz, aconteceu um milagre. Nesta representação grandiosa e imponente, que incluiu o enterro de Inês, participaram cerca de 400 figurantes, que utilizaram adereços do Torneio Medieval e do Cortejo realizados por Leitão de Barros, em Lisboa. O espectáculo começou com Palmira Bastos a dizer um poema alusivo de Afonso Lopes Vieira que passamos a transcrever:
Na Estremadura, coração de Portugal
Entre mosteiros e castelos e memórias
Alcobaça rebrilha entre as mais altas glórias,
Primeiro Afonso invocou Claraval.
Povo da nobre Vila! Ante vós neste adro
Vamos representar a tragédia de chama
E compor para vós o mais formoso quadro
Que o amor neste mundo inspirou quem ama.
Perto daqui, lá dentro, os túmulos de encanto
Monumentos que o mundo aqui vem admirar
Vibram de beijos, de saudades e de pranto.
E assistem entre nós (noss’alma e adivinha)
Eternos na paixão, sombras dispersas no ar,
D. Pedro Rei do Amor, e Dona Inês Rainha!.
De acordo com o alcobacense José Alberto Vasco, a memória cultural alcobacense tem guardado um lugar muito especial para duas históricas representações daquela tragédia clássica de António Ferreira em Alcobaça (…), a primeira em 25 de Agosto de 1935 e a segunda em 30 de Agosto de 1941. Meritória e mais moderna encenação de A Castro foi também apresentada no Mosteiro de Alcobaça em 30 de Setembro de 1983, por João Mota e a sua Comuna-Teatro de Pesquisa, merecendo aqui também especial referência uma outra representação, mais recente, ocorrida no Cine-Teatro de Alcobaça, em 10 de Março de 2001. Desta vez a peça teatral apresentada foi a também belíssima Linda Inês, escrita pelo transmontano Armando Martins Janeira, então representada pela Acta-Companhia de Teatro do Algarve (…).Histórica oportunidade seria perdida em 22 de Agosto de 1968, data de uma actuação do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio, na escadaria frontal do Mosteiro. Nessa noite, foram apresentados os bailados Fantasia Romântica, Um Tema Alentejano e A Ilha dos Amores, mas não um dos mais importantes bailados até então estreados por aquela companhia -Inês de Castro-, concebida pelo compositor português Ruy Coelho.
Na Estremadura, coração de Portugal
Entre mosteiros e castelos e memórias
Alcobaça rebrilha entre as mais altas glórias,
Primeiro Afonso invocou Claraval.
Povo da nobre Vila! Ante vós neste adro
Vamos representar a tragédia de chama
E compor para vós o mais formoso quadro
Que o amor neste mundo inspirou quem ama.
Perto daqui, lá dentro, os túmulos de encanto
Monumentos que o mundo aqui vem admirar
Vibram de beijos, de saudades e de pranto.
E assistem entre nós (noss’alma e adivinha)
Eternos na paixão, sombras dispersas no ar,
D. Pedro Rei do Amor, e Dona Inês Rainha!.
De acordo com o alcobacense José Alberto Vasco, a memória cultural alcobacense tem guardado um lugar muito especial para duas históricas representações daquela tragédia clássica de António Ferreira em Alcobaça (…), a primeira em 25 de Agosto de 1935 e a segunda em 30 de Agosto de 1941. Meritória e mais moderna encenação de A Castro foi também apresentada no Mosteiro de Alcobaça em 30 de Setembro de 1983, por João Mota e a sua Comuna-Teatro de Pesquisa, merecendo aqui também especial referência uma outra representação, mais recente, ocorrida no Cine-Teatro de Alcobaça, em 10 de Março de 2001. Desta vez a peça teatral apresentada foi a também belíssima Linda Inês, escrita pelo transmontano Armando Martins Janeira, então representada pela Acta-Companhia de Teatro do Algarve (…).Histórica oportunidade seria perdida em 22 de Agosto de 1968, data de uma actuação do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio, na escadaria frontal do Mosteiro. Nessa noite, foram apresentados os bailados Fantasia Romântica, Um Tema Alentejano e A Ilha dos Amores, mas não um dos mais importantes bailados até então estreados por aquela companhia -Inês de Castro-, concebida pelo compositor português Ruy Coelho.
A moral e os bons costumes na praia
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A MORAL E OS BONS COSTUMES NA PRAIA E NÃO SÓ
EM QUE SE FALA DO CATITINHA
Catitinha
.O Estado Novo, a partir de certa altura, ainda antes da II Guerra, havia começado a investir no turismo balnear, um pouco em detrimento do tradicional turismo termal, como forma de captar mais receitas e divisas.
As praias, por excelência, eram a Costa do Estoril, Figueira da Foz, Espinho e Póvoa de Varzim.
Até o Algarve, zona periférica, se tornar o grande factor de atracção, ainda iria mediar muito tempo.
O desenvolvimento do turismo, acarretou alterações nos hábitos e na moral nacionais.
A praia, o sol e o calor, estavam conotados como uma vida menos regrada, mais despretensiosa ou liberal.
Apesar dos apelos e de alguma condescendência aos novos hábitos, o Salazarismo, continuava a impor uma moral puritana, por alguns já considerada obsoleta. O País sofreu um choque com a chegada da vaga de refugiados, cujos hábitos e cultura eram bem diferentes. Ainda nos recordamos de ouvir dizer com ar galhofeiro, misto de depreciativo, que a esplanada da Pastelaria Suiça nos Restauradores, nos tempos da II Guerra, era conhecida como a nossa BONPERNASSA, pela relação com a exibição de pernas de mulheres, que até fumavam em público.
O Dec.Lei nº 31247, de 1941, afixado em editais pelas capitanias marítimas,havia imposto às senhoras, sob pena de multa, um fato de banho adequado, inteiro, sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido nas axilas, os homens calção justo à perna e reforço da parte da frente cobrindo o ventre, o que dava muita canseira aos zelosos cabos-do-mar, envolvidos nas praias, qual jogo de gato e rato.
Num país com um regime que obrigava as professoras primárias a pedir autorização ao governo para casar, as mulheres a ter autorização do marido para exercer comércio ou ir ao estrangeiro, não é de espantar que a indumentária das pessoas fosse regulamentada, não sendo permitidos certos modelos considerados ousados.
Tudo, enfim, em nome da moral e dos bons costumes.
Ou, como justificava o referido Decreto-Lei, relativo aos modelos de fato de banho, para salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam.
Ainda magro e adolescente, lembramo-nos de termos de usar um fato de banho com calção quase até aos joelhos, com uma saia dianteira que ocultasse eventuais entusiasmos (viris) e uma camiseta de alças, à moda dos antigos olímpicos, que tapasse algum pêlo que ousadamente despontasse no peito.
O cabo de mar, uma autoridade vestido de branco da cabeça (boné) aos pés (sapatos), era o fiscal intransigente na defesa da moral.
Hoje, se alguém se apresentasse numa praia portuguesa, nos preparos que a lei prescrevia então, seria alvo de suspeita e não por parte de um polícia, mas de um psiquiatra, que duvidaria da sanidade mental.
As regras que impunham decência no vestuário continuaram legalmente em vigor por vários anos.
Mas, com o correr do tempo, na prática foram cada vez mais sendo postas em causa.
Para isso, muito contribuiu o turismo que, na década de sessenta, começou a procurar o nosso país como local de veraneio, onde cada vez mais, apareciam ingleses, franceses, holandeses e alemães, com indumentárias ousadas para os nossos padrões e costumes.
Foi, recorde-se, a época da mini-saia (a britânica Mary Quant) e do biquini, das longas e despenteadas cabeleiras para os rapazes (beatlemania). E se muito boa gente, ainda se escandalizava com a pouca-vergonha das vestimentas dos estrangeiros, outros, especialmente a juventude, adoptavam alegremente as novas modas.
O Manel Bexiga, que é nazareno, recorda um caso, ocorrido nos primeiros anos da década de sessenta, na praia.
Se é verídico ou anedota não podemos atestar.
Conta ele que por lá apareceram umas francesas, de biquini, num areal onde todas as senhoras e raparigas ainda só usavam fato-de-banho.
Então o cabo do mar foi falar com elas, tentando, com as poucas palavras em francês que aprendeu com a irmã concierge em Paris, ou talvez mais por gestos, explicar-lhes que ali, na Nazaré, só era permitido usar fato-de-banho de uma peça. Só uma peça, uma só, tentava o pobre homem explicar.
Então as francesas disseram que sim, tinham compreendido muito bem, só não sabiam era qual das duas peças era para tirar, a de cima ou a de baixo.
Quando as férias eram um mês de praia, com casa e barraca alugadas, metade do Ribatejo e Estremadura mudava-se para a Nazaré apesar da água frias, com o picadeiro, a lota, o salva-vidas e o grande promontório do Sítio.
Havia, nesta e em praias como a Figueira da Foz, no ambiente um certo charme de gente fina, como se fosse de luva branca. Uma nova burguesia que se queria afirmar como distinta, adoptava estereótipos em voga para se identificar.
A praia, era o palco por excelência da infância e adolescência, e despertava o imaginário para a vida, singrando nas ondas da água ou nas da areia. À beira das barracas listadas a azul ou a verde, quando a tarde esmorecia e a brisa se levantava, jogava-se o prego, o anelinho, o ring. Acertar com o anel de borracha na eleita pertencia ao ritual da iniciação.
Quando as gaivotas voavam atrás das traineiras que regressavam, com o sol a queimar de oiro a babugem das ondas, sentados na areia, passavam no grupo segredos, afagos de mão ou beijos castos sempre recusados em alarido ao dono da prenda que está para sair.
Segundo o crepitar do brilho do amor, ele ou ela, tudo combinado na força da fuga do olhar, quando o anel passava nas mãos em concha fechada.
Fora desta, nas mesas das esplanadas ou cafés, o vocabulário pretendia-se mais cuidadoso, mas de circunstância. Os vereaneantes bem aperaltados, embora já um pouco leves no trajar, à inglesa, iam para a sala para uma batidela de cartas (king, bridge ou canasta). Enquanto isso, as mães de família com os penteados alteados e enformados, metidas em vestidos já graciosamente decotados, abanavam os leques para fazer frente aos caloraços, e matavam o tempo bebericando um chá ou um refresco à espera do consorte.
As raparigas exibiam vestidos camiseiros, de godé, nylons ululantes, meias de seda (de vidro), realçando a curvatura da perna depilada que se vinha calçar no sapatinho. Muitos rapazes trajavam de branco, calça, camisa e sapatos.
E não faltavam os bailes de estação, com o que se pretendia recuperar a belle epoque, organizando para o efeito concursos, como a mais bela da praia, o mais original vestido de chita ou o baile das vindimas. Rapazes e meninas espigavam na hora do picadeiro (após o jantar), para cá e para lá, olhares melados no momento de cruzarem, ancorados nas regras da civilidade e etiqueta.
As mães pensavam que tendo as filhas debaixo de olho podiam adormecer sossegadas.
Dos pais sabia-se que mantinham as aparências e talvez rezassem pela virgindade das filhas. Tudo funcionava regularmente, como convinha.
Mas com o tempo tudo mudou. Bolacha americana era doce e torradinha.
Porquê americana? Soava, mas não sabia a liberdade.
Era redonda e de reticulado impresso. Na marcha sobre a areia quente, ouviu-se mais tarde olha a língua da sogra, sem adjectivos. Será que também eixou de ser doce e torradinha? Eram iguais no açúcar e na consistência mas esta parecia transportar algo entre brejeirice e anedotário. Virara espátula recurvada e longa, comida a dentadinhas demoradas. As bolachas não eram para matar a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Sempre que aparecia, um mundo de gente pequena abeirava-se dele. Era o Catitinha, um homenzarrão velhote de longas barbas, que percorria as praias do país de norte a sul, do Minho ao Algarve, brincava com todos os miúdos e tinha um apito para chamá-los.
Nunca o vimos pedir, mas também nunca o vimos com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, possivelmente não faltava quem lhe tapasse a fome e o frio, porque todos (mesmo mais velhos) já antes o tinham ouvido. Ninguém lhe pagava, ninguém lhe agradecia.
O Catitinha para muitos era como uma instituição, um avô de todos.
Dizia-se que tinha sofrido um grande desgosto, a morte de um filho, e ficou sem tino.
Por essa altura, o jornal satírico Os Ridículos, publicou uma caricatura de um cabo do mar em funções, devidamente uniformizado de branco, boné e sapatos, utilizando uma fita métrica para medir uma banhista de formas generosas e arredondadas, com o comentário que doravante os fatos de banho, das senhoras, não podem ter menos de de metro e meio de pano nas costas. Segundo preconizanva a M.P.F., que pretendia guiar as mulheres de Portugal e criara mesmo um modelo oficial, os fatos de banho femininos excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras eram proibidos pela moral cristã.
Em 1955, O Alcoa, de 22 de Setembro, na primeira página e com todo o destaque, sob a epígrafe de Decência e Moralidade nas Praias-Escárnio da Autoridade e Inimigo da Pátria, alertava os leitores sob a pena de M.J., exprimindo um forte grito de desabafo de um banhista da Nazaré, para o despertar desta nova realidade de impudor que alastrava, parecendo que os homens entraravam em competição desenfreada com as mulheres. (…) Como é possível isto em Portugal? (e aqui ao nosso lado na Nazaré?, acresecentamos nós.) E a nossa surpresa não tem limites, quando somos informados que neste nosso País existe lei, muito clara e categórica, que desce até à determinação da qualidade, dimensões, e locais de uso dos fatos de banho, não deixando de mencionar as graves penas em que incorrem os transgressores (…). Afinal para quê? Para que quem chegue verifique, que grande parte, talvez a maior parte dos banhistas, se apresentam na praia e até fora dela, desacatando as ordens legais e a autoridade. Efectivamente, fez-se tudo quanto podia para o desprestígio da autoridade e para sancionar o libérrimo reinado da tanga (…).
Ainda bem que a vida muda, embora por momentos isso nos pareça acarretar desconforto.
Recentemente, na praia, vimos um homem das Bolas de Berlim.
Estávamos com a nossa neta. Nem pensamos duas vezes. Chamamos por ele e pedimos uma bola, mas foi uma profunda desilusão. O homem não tinha bolas com creme e vendeu-nos uma muito seca, pela qual não obstante cobrou um euro.
A partir daqui nem pensar mais no antigo e esquecido pregão frut’ó chocolate, que nos levaria direito ao bar da praia e obrigaria a comprar um gelado, a um preço exorbitante.
Afinal, a praia também mudou muito.
Longe vão as Bolas de Berlim fresquinhas ou caracóis, como apregoavam as mulheres fardadas de branco que, de manhã à noite, caminhavam na areia, com as caixas de lata cheias de bolos, à cabeça.
Mas também havia, os vendedores de bolacha americana. Estes eram homens e a lata cilíndrica que transportavam às costas tinha uma espécie de roleta na tampa. Bolacha americana doce e torradinha!
Porquê americana? Soava bem, mas não sabia a liberdade... Era redonda e de reticulado impresso. Na marcha sobre a areia quente, ouvia-se também um olha a língua da sogra, neste caso sem adjectivos, como convinha. As bolachas não eram para a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Não há mais cabo do mar, Bolas de Berlim com creme, vendedores de barquilhos, nem o homem dos gelados, factos muito importantes, na praia da nossa adolescência.
A MORAL E OS BONS COSTUMES NA PRAIA E NÃO SÓ
EM QUE SE FALA DO CATITINHA
Catitinha
.O Estado Novo, a partir de certa altura, ainda antes da II Guerra, havia começado a investir no turismo balnear, um pouco em detrimento do tradicional turismo termal, como forma de captar mais receitas e divisas.
As praias, por excelência, eram a Costa do Estoril, Figueira da Foz, Espinho e Póvoa de Varzim.
Até o Algarve, zona periférica, se tornar o grande factor de atracção, ainda iria mediar muito tempo.
O desenvolvimento do turismo, acarretou alterações nos hábitos e na moral nacionais.
A praia, o sol e o calor, estavam conotados como uma vida menos regrada, mais despretensiosa ou liberal.
Apesar dos apelos e de alguma condescendência aos novos hábitos, o Salazarismo, continuava a impor uma moral puritana, por alguns já considerada obsoleta. O País sofreu um choque com a chegada da vaga de refugiados, cujos hábitos e cultura eram bem diferentes. Ainda nos recordamos de ouvir dizer com ar galhofeiro, misto de depreciativo, que a esplanada da Pastelaria Suiça nos Restauradores, nos tempos da II Guerra, era conhecida como a nossa BONPERNASSA, pela relação com a exibição de pernas de mulheres, que até fumavam em público.
O Dec.Lei nº 31247, de 1941, afixado em editais pelas capitanias marítimas,havia imposto às senhoras, sob pena de multa, um fato de banho adequado, inteiro, sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido nas axilas, os homens calção justo à perna e reforço da parte da frente cobrindo o ventre, o que dava muita canseira aos zelosos cabos-do-mar, envolvidos nas praias, qual jogo de gato e rato.
Num país com um regime que obrigava as professoras primárias a pedir autorização ao governo para casar, as mulheres a ter autorização do marido para exercer comércio ou ir ao estrangeiro, não é de espantar que a indumentária das pessoas fosse regulamentada, não sendo permitidos certos modelos considerados ousados.
Tudo, enfim, em nome da moral e dos bons costumes.
Ou, como justificava o referido Decreto-Lei, relativo aos modelos de fato de banho, para salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam.
Ainda magro e adolescente, lembramo-nos de termos de usar um fato de banho com calção quase até aos joelhos, com uma saia dianteira que ocultasse eventuais entusiasmos (viris) e uma camiseta de alças, à moda dos antigos olímpicos, que tapasse algum pêlo que ousadamente despontasse no peito.
O cabo de mar, uma autoridade vestido de branco da cabeça (boné) aos pés (sapatos), era o fiscal intransigente na defesa da moral.
Hoje, se alguém se apresentasse numa praia portuguesa, nos preparos que a lei prescrevia então, seria alvo de suspeita e não por parte de um polícia, mas de um psiquiatra, que duvidaria da sanidade mental.
As regras que impunham decência no vestuário continuaram legalmente em vigor por vários anos.
Mas, com o correr do tempo, na prática foram cada vez mais sendo postas em causa.
Para isso, muito contribuiu o turismo que, na década de sessenta, começou a procurar o nosso país como local de veraneio, onde cada vez mais, apareciam ingleses, franceses, holandeses e alemães, com indumentárias ousadas para os nossos padrões e costumes.
Foi, recorde-se, a época da mini-saia (a britânica Mary Quant) e do biquini, das longas e despenteadas cabeleiras para os rapazes (beatlemania). E se muito boa gente, ainda se escandalizava com a pouca-vergonha das vestimentas dos estrangeiros, outros, especialmente a juventude, adoptavam alegremente as novas modas.
O Manel Bexiga, que é nazareno, recorda um caso, ocorrido nos primeiros anos da década de sessenta, na praia.
Se é verídico ou anedota não podemos atestar.
Conta ele que por lá apareceram umas francesas, de biquini, num areal onde todas as senhoras e raparigas ainda só usavam fato-de-banho.
Então o cabo do mar foi falar com elas, tentando, com as poucas palavras em francês que aprendeu com a irmã concierge em Paris, ou talvez mais por gestos, explicar-lhes que ali, na Nazaré, só era permitido usar fato-de-banho de uma peça. Só uma peça, uma só, tentava o pobre homem explicar.
Então as francesas disseram que sim, tinham compreendido muito bem, só não sabiam era qual das duas peças era para tirar, a de cima ou a de baixo.
Quando as férias eram um mês de praia, com casa e barraca alugadas, metade do Ribatejo e Estremadura mudava-se para a Nazaré apesar da água frias, com o picadeiro, a lota, o salva-vidas e o grande promontório do Sítio.
Havia, nesta e em praias como a Figueira da Foz, no ambiente um certo charme de gente fina, como se fosse de luva branca. Uma nova burguesia que se queria afirmar como distinta, adoptava estereótipos em voga para se identificar.
A praia, era o palco por excelência da infância e adolescência, e despertava o imaginário para a vida, singrando nas ondas da água ou nas da areia. À beira das barracas listadas a azul ou a verde, quando a tarde esmorecia e a brisa se levantava, jogava-se o prego, o anelinho, o ring. Acertar com o anel de borracha na eleita pertencia ao ritual da iniciação.
Quando as gaivotas voavam atrás das traineiras que regressavam, com o sol a queimar de oiro a babugem das ondas, sentados na areia, passavam no grupo segredos, afagos de mão ou beijos castos sempre recusados em alarido ao dono da prenda que está para sair.
Segundo o crepitar do brilho do amor, ele ou ela, tudo combinado na força da fuga do olhar, quando o anel passava nas mãos em concha fechada.
Fora desta, nas mesas das esplanadas ou cafés, o vocabulário pretendia-se mais cuidadoso, mas de circunstância. Os vereaneantes bem aperaltados, embora já um pouco leves no trajar, à inglesa, iam para a sala para uma batidela de cartas (king, bridge ou canasta). Enquanto isso, as mães de família com os penteados alteados e enformados, metidas em vestidos já graciosamente decotados, abanavam os leques para fazer frente aos caloraços, e matavam o tempo bebericando um chá ou um refresco à espera do consorte.
As raparigas exibiam vestidos camiseiros, de godé, nylons ululantes, meias de seda (de vidro), realçando a curvatura da perna depilada que se vinha calçar no sapatinho. Muitos rapazes trajavam de branco, calça, camisa e sapatos.
E não faltavam os bailes de estação, com o que se pretendia recuperar a belle epoque, organizando para o efeito concursos, como a mais bela da praia, o mais original vestido de chita ou o baile das vindimas. Rapazes e meninas espigavam na hora do picadeiro (após o jantar), para cá e para lá, olhares melados no momento de cruzarem, ancorados nas regras da civilidade e etiqueta.
As mães pensavam que tendo as filhas debaixo de olho podiam adormecer sossegadas.
Dos pais sabia-se que mantinham as aparências e talvez rezassem pela virgindade das filhas. Tudo funcionava regularmente, como convinha.
Mas com o tempo tudo mudou. Bolacha americana era doce e torradinha.
Porquê americana? Soava, mas não sabia a liberdade.
Era redonda e de reticulado impresso. Na marcha sobre a areia quente, ouviu-se mais tarde olha a língua da sogra, sem adjectivos. Será que também eixou de ser doce e torradinha? Eram iguais no açúcar e na consistência mas esta parecia transportar algo entre brejeirice e anedotário. Virara espátula recurvada e longa, comida a dentadinhas demoradas. As bolachas não eram para matar a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Sempre que aparecia, um mundo de gente pequena abeirava-se dele. Era o Catitinha, um homenzarrão velhote de longas barbas, que percorria as praias do país de norte a sul, do Minho ao Algarve, brincava com todos os miúdos e tinha um apito para chamá-los.
Nunca o vimos pedir, mas também nunca o vimos com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, possivelmente não faltava quem lhe tapasse a fome e o frio, porque todos (mesmo mais velhos) já antes o tinham ouvido. Ninguém lhe pagava, ninguém lhe agradecia.
O Catitinha para muitos era como uma instituição, um avô de todos.
Dizia-se que tinha sofrido um grande desgosto, a morte de um filho, e ficou sem tino.
Por essa altura, o jornal satírico Os Ridículos, publicou uma caricatura de um cabo do mar em funções, devidamente uniformizado de branco, boné e sapatos, utilizando uma fita métrica para medir uma banhista de formas generosas e arredondadas, com o comentário que doravante os fatos de banho, das senhoras, não podem ter menos de de metro e meio de pano nas costas. Segundo preconizanva a M.P.F., que pretendia guiar as mulheres de Portugal e criara mesmo um modelo oficial, os fatos de banho femininos excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras eram proibidos pela moral cristã.
Em 1955, O Alcoa, de 22 de Setembro, na primeira página e com todo o destaque, sob a epígrafe de Decência e Moralidade nas Praias-Escárnio da Autoridade e Inimigo da Pátria, alertava os leitores sob a pena de M.J., exprimindo um forte grito de desabafo de um banhista da Nazaré, para o despertar desta nova realidade de impudor que alastrava, parecendo que os homens entraravam em competição desenfreada com as mulheres. (…) Como é possível isto em Portugal? (e aqui ao nosso lado na Nazaré?, acresecentamos nós.) E a nossa surpresa não tem limites, quando somos informados que neste nosso País existe lei, muito clara e categórica, que desce até à determinação da qualidade, dimensões, e locais de uso dos fatos de banho, não deixando de mencionar as graves penas em que incorrem os transgressores (…). Afinal para quê? Para que quem chegue verifique, que grande parte, talvez a maior parte dos banhistas, se apresentam na praia e até fora dela, desacatando as ordens legais e a autoridade. Efectivamente, fez-se tudo quanto podia para o desprestígio da autoridade e para sancionar o libérrimo reinado da tanga (…).
Ainda bem que a vida muda, embora por momentos isso nos pareça acarretar desconforto.
Recentemente, na praia, vimos um homem das Bolas de Berlim.
Estávamos com a nossa neta. Nem pensamos duas vezes. Chamamos por ele e pedimos uma bola, mas foi uma profunda desilusão. O homem não tinha bolas com creme e vendeu-nos uma muito seca, pela qual não obstante cobrou um euro.
A partir daqui nem pensar mais no antigo e esquecido pregão frut’ó chocolate, que nos levaria direito ao bar da praia e obrigaria a comprar um gelado, a um preço exorbitante.
Afinal, a praia também mudou muito.
Longe vão as Bolas de Berlim fresquinhas ou caracóis, como apregoavam as mulheres fardadas de branco que, de manhã à noite, caminhavam na areia, com as caixas de lata cheias de bolos, à cabeça.
Mas também havia, os vendedores de bolacha americana. Estes eram homens e a lata cilíndrica que transportavam às costas tinha uma espécie de roleta na tampa. Bolacha americana doce e torradinha!
Porquê americana? Soava bem, mas não sabia a liberdade... Era redonda e de reticulado impresso. Na marcha sobre a areia quente, ouvia-se também um olha a língua da sogra, neste caso sem adjectivos, como convinha. As bolachas não eram para a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Não há mais cabo do mar, Bolas de Berlim com creme, vendedores de barquilhos, nem o homem dos gelados, factos muito importantes, na praia da nossa adolescência.
Subscrever:
Mensagens (Atom)