quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ensaios (Cap. IV) UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ

-E VIVAM AS MULHERES

- EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA

-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

-O FUTURO NO FEMININO?

-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)

-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO


Hoje vou contar uma história, pretensamente ilustrativa de algumas das dificuldades de comunicação que afligem as pessoas.

E só a esse título é que ela vem a propósito, se é que vem. Numa primeira análise, os meus leitores dirão, com um encolher de ombros e a resmonear, que não, o problema de comunicação, afinal, é meu.

Mas admito que não seja rigorosamente assim, pois conhecendo a economia e a harmonia social do nosso País, mais concretamente da nossa região, é por isso que sendo uma história, aceito que benevolamente mereça a qualificação de anedota.

O preto é preto.

A verdade é só uma e se um fala verdade o outro deve estar a mentir.

Se todos são filhos de Deus, também o são os que não vão em missas.

Os ciganos são ladrões.

E o Diabo é grande, apesar de haver alguns apóstolos importados do Brasil que nos querem poupar as delícias do Inferno e propor-nos em contrapartida as agruras do Céu.

A tradição já não é o que era.

O progresso é como uma auto-estrada.

Isto é assim ou devia ser.

Estão a perceber?

Talvez não.

O problema é meu?

Por mais voltas que dê e me socorra do latim, alguns clientes que vêm ao meu escritório têm mesmo dificuldade de compreender certas coisas que acho bem pouco subtis.

Mais alguns exemplos. Porque é que a justiça é tão lenta, porque é que se soltam alguns malandros, porque é que não se deixa trabalhar quem pode e quer e aquele que mais trabalha não é o que mais ganha?

É que vistas as coisas, elas são bem mais subtis do que parecem. Ou deviam parecer.

Vejamos se percebem o que quero dizer!

O preconceito pode ser um filho do medo, cheio de saúde, longe de se dispor a entregar a alma a Deus ou ao Diabo.

Se não houvesse preconceitos como é que se poderiam catalogar os bons e maus rapazes? Certas pessoas têm dificuldade de se exprimir embora sejam tão portugueses como nós. Outros têm menor facilidade em compreender.

Não se faz a prova que por ser analfabeto o seu problema seja menos importante, não importante, desimportante ou merecedor de outro qualificativo qualquer.

Passou-se no café.

Um deles era um homem de cara enrugada, o outro um rapazola que até compreendia línguas, mas ambos bebiam o seu copo, terceiro ou o quarto, sabe-se lá em qual deles iam.

-Percebeu o que eu disse? A adesão ao euro”vai ser boa para todos nós, argumentava sem qualquer pudor o rapazola que há uns dias tinham chegado da Alemanha.

Mas o homem mais velho não percebia.

-Não percebe? Vou explicar-lhe de novo.

Recomeça a explicação, numa narrativa que leva o tempo da velocidade de um copo.

-Seu burro, que não percebe nada. É por causa de vocês que este País não anda.

O homem de cara enrugada pelos anos, ele que não tinha pedido nenhuma explicação, sentiu-se ofendido e apareceu-me no dia seguinte no escritório.

Claro que ele não veio para eu lhe explicar os méritos do euro, mas para ver se se devia queixar dado não achar óbvio que o outro o rotulasse publicamente de burro.

Compreendia-se claramente, olhando para a sua cara, que de certas coisas ele pouco percebia ou nada.

Mas chamar-lhe burro é que não aceitava.

Foi então que de repente me lembrei da historieta que antigamente se contava, como uma anedota, para explicar o inexplicável.

Um cego passeava com um amigo, que a certa altura lhe disse:

-Como me apetecia um copo de leite...

-Sei o que é beber, mas que é isso de leite? - perguntou o cego.

-Um líquido branco.

-Líquido sei, mas como é que o branco se distingue do preto?

-Branco é a cor das penas daquele cisne.

-Penas sei o que é, e um cisne?

-É um pato grande, com um pescoço torto e comprido.

-Pescoço sei, mas o que é torto?

Sem paciência o amigo pegou num braço do cego e esticou-o. “Isto é direito”. De seguida torceu-o e disse que isto é torto.

-Até que enfim , disse o cego, finalmente percebi o que é o leite”.

Se o rapazola fosse mais paciente, e tivesse outra capacidade de comunicação, talvez tivesse utilizado outra argumentação para fazer compreender ao velhote afinal o que é o “euro”.

Ensaios (Cap. III) EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA

-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ

-E VIVAM AS MULHERES

- EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA

-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

-O FUTURO NO FEMININO?

-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)

-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO



Desde sempre o homem procurou a harmonia, partindo do pressuposto que é inalienável da beleza. Assim argumentavam os clássicos e com eles me identifico.

Podem-me dizer que este é um conceito esteticamente mais que retrógrado mas, queiramos ou não, na vida e portanto na natureza tudo se resume, afinal, a umas tantas linhas harmoniosamente rectas ou curvas.

Com traços redondos ou direitos, tudo se desenha ou contorna.

A partir de rectas ou curvas, é possível dar todas as definições, com exemplos de símbolos da natureza que nos rodeia. Vejamos!

Horizontal ou verticalmente o homem pode ser uma recta, ou seja, a linha mais curta entre dois pontos, o finito ou o infinito.

Perpendiculares são os caminhos, quebrados são porém os desejos ou os raciocínios.

As casas que habitamos têm quadrados ou rectângulos e as copas dos plátanos da Praça D. Afonso Henriques, em frente ao meu escritório, desenham meios círculos ou triângulos.

Duas paralelas no espaço, é exemplo tão comezinho que se encontra em qualquer grupo de pessoas em passo lado a lado, cujos caminhos tão próximos, estão sempre afastados.

Oblíquas, verticais, horizontais, cruzadas ou meros pontos, tudo isto está contido na vida, e persiste com tanta nitidez, que não é difícil distinguir, entre os homens, os que são oblíquos ou verticais.

E os simples ou grande pontos!

Tenho especial apreço por duas formas de que lhes vou falar ainda, se tiverem paciência para me seguir nestas divagações diletantes.

Revejo na ogiva uma referência ao estranho, melhor dizendo, ao Divino.

Creio que essa especial sensibilidade decorre de viver de há muito paredes meias com algumas ogivas, das mais belas, que o compasso ou o cinzel do homem medieval português foi capaz de legar.

Claro, as ogivas do Mosteiro de Alcobaça.

Partindo de semi-rectas, duas curvas inclinam-se uma para a outra, subindo sempre até se encontrarem num ponto comum.

Suponho que por almejarem uma ideia de elevação, os artífices das grandes catedrais as utilizaram com uso desmedido, quase se poderia dizer de abuso. Olhemos por um momento o portal do nosso Mosteiro, em que duas linhas nascidas em separado, partindo de um base comum, como que se erguem na vastidão do espaço.

Não, não se tocam no infinito porque são apenas obra do homem.

Creio que foi Rodin, e cito de memória, que levantou em escultura a sua catedral gótica, com duas mãos humanas postas em gesto de uma ogiva.

Não tenho dúvidas em concluir, a ogiva geométrica é uma das figuras mais conseguidas, desde logo por encontrar na espécie dos seres vivos e racionais, a réplica mais certa.

Mas também como poderia deixar de não apreciar a geometria do ovo?

Pois esta sugere a imagem mais feliz e concludente da vida.

Na sua simplicidade complexa contém o embrião e todas as células de que precisa a vida. Veio de repente à minha memória um apontamento de vida que vou contar e que sempre me sensibilizou.

Nos meus tempos de rapazinho de calções, a dar os primeiros passos na instrução primária, tinha um colega e vizinho cuja mãe punha uma galinha a chocar para dar os pintos no seu dia de anos para cuja festa, com mais outros meninos, era convidado.

Ela nunca se enganava e nós quando lá íamos, entre uns pontapés na bola, um refresco de grozelha e uma mousse de chocolate, maravilhvamo-nos a ver os pintos quebrar a casca e nascer. Era um belo programa e, apesar de repetido durante alguns anos, nunca nos fartámos dele.

Um amigo, que alia a fama de arguto à de cínico inveterado, diz que beleza é apenas um dos possíveis nomes de um ideal e que a paixão pela beleza é um simples sentimentalismo, um êxtase.

-Porquê ?, perguntei-lhe inquieto.

-É simples. A beleza não se pode contemplar por muito tempo. Depois de um objecto belo nos transmitir a magia da sensação, o meu espírito põe-se de imediato a divagar. Não compreendo como há pessoas que ficam indefinidamente a olhar uma obra de arte ou uma paisagem. A beleza, como êxtase, é tão simples como o apetite, há pouco a dizer sobre ela. Come-se e pronto. Tudo o que se pode dizer ou recomendar sobre a Gioconda, possivelmente um dos quadros mais célebres de todos os tempos, e que conterá a beleza mais pura, é ide ao Louvre e olhai. Para além disto será a sua história, biografia ou outra coisa qualquer complementar. À beleza, para lhe dar conteúdo, há que acrescentar algumas qualidades, como a ternura, o amor ou o interesse humano. Como perfeição que é, a beleza desperta a atenção apenas por um breve momento, é um beco sem saída, é um cume da montanha que uma vez alcançado não leva a parte alguma.-Beleza não é o que satisfaz o nosso sentido estético?, ainda argumentei.

-Mas quem quer ser satisfeito, quem considera que uma migalha vale um banquete?

Bom, caros leitores, veio isto tudo, muito simples e prosaicamente, a propósito da harmonia ou da geometria do mundo.

Mas para mim, continuo a pensar sem me importar de ser apelidado de conservador, que a ogiva e o ovo são dos símbolos mais perfeitos de um programa de vivência interior...

Ensaios (Cap. II) E VIVAM AS MULHERES

-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ

-E VIVAM AS MULHERES

- EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA

-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

-O FUTURO NO FEMININO?

-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)

-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO



Em trabalho, faço os possíveis para não ceder a emoções.

Mas quando aquele cliente, que conhecia vagamente há alguns anos, me entrou porta dentro no escritório, com ar destroçado, e começou a contar a custo o seu problema, que aqui não vem ao caso, mesmo fazendo esforço, senti um nó na garganta.

E não mais o esqueci.

A morte de uma jovem, uma jovem esposa, é um acontecimento inaceitável. Direi mesmo absolutamente insuportável, por ser contra as regras da natureza.

A literatura portuguesa dos nossos dias, nomeadamente a poesia que, aliás, não se encontra entre o meu género preferido, ao que conheço não dá especial relevo a este género de tristezas.

É um assunto bem estafado, dirão alguns, com excepção daqueles que expõem cruamente os sentimentos, a troco de tempo de antena.

Não me considero um inexperiente que vá falar de poesia no momento em que um cliente, nem que fosse um bom amigo, tem o coração dilacerado.

Falo-lhe se necessário, cuidadosa e simplesmente de outras coisas, ainda que comezinhas, como convém e se espera de alguém que é chamado a ser mais que um jurista, porque nesse momento palavras como amor, desespero, vingança ou indemnização, causar-lhe-iam tão só horror.

-Gostava tanto da sua companhia, mais talvez que amor por ela , confessou-me muito desageitadamente.

Percebi então, na sua simplicidade complexa, que aquela frase me recordava uma situação que não consegui logo identificar, que o desespero daquele homem, pela perda da mulher, era maior do que se tivesse tido por ela uma grande paixão.

Aparentemente estranho, sem dúvida.

Mas talvez já não, se se aceitar que o homem apaixonado aceita transferir a paixão para outra pessoa, que o mais importante é a paixão e menos o seu objecto.

Os lutos da amizade são bem mais pesados que os lutos da paixão, pois não se curam facilmente , pensei para mim.

Há duas dezenas de anos, em África, em plena guerra e no mato inóspito, quando se perdia um amigo não era possível substitui-lo por outro.

Não faço generalizações, impróprias, sobre esta matéria.

Trabalho, no meu dia a dia, sobre hipóteses é certo, determinando caminhos ou soluções, muito pouco técnicas por vezes, segundo os casos expostos pelos clientes, que se revelam tão verdadeiros como um qualquer mentiroso profissional.

As minhas estatísticas, passe o pretensiosismo, têm o mérito de me permitir concluir que, mesmo utilizando dados viciados, se pode exprimir alguma verdade.

E procurar o caminho certo.

Era o caso?

Creio que não.

O tempo foi passando, até que me encontrei a gostar de conversar sobre os mais variados assuntos com aquele cliente, agora virado amigo.

Umas vezes bebíamos um uisque que tive a sorte de conservar para certos momentos e num recanto escondido a que ninguém, em casa, tinha acesso.

A conversa soltava-se e, curiosamente, quase aceitando em mim o papel de psicanalista, voltava com frequência ao tema da sua mulher perdida, de tão terna afeição.

-Atira para fora esse anel, disse-lhe com crueza, numa vibrante tirada de ocasião, quando já nos tratávamos por tu. A Luíza desapareceu, pelo que o que te resta é simplesmente apaixonares-te, como acontece com a generalidade das pessoas normais como nós, e descobrir com algum prazer como o coração faz a classificação dos sentimentos, segundo uma hierarquia ainda que arbitrária.

-Tens razão, concedeu sem constrangimento. Já me apaixonei por dez mulheres, o que nunca me acontecera com a Luíza. Mas o que sinto é a sua falta.

Acerca de mulheres, apesar dos meus cinquenta anos, tenho de reconhecer uma ignorância quase infantil, o que me impede de discorrer utilmente sobre o assunto.

Mas na convivência com o meu amigo, percebi que não há nada que se compare ao poder falar-se livremente das pessoas sobre que se teve uma terna inclinação.

Claro que não poderia dizer-lhe que volatizada a sua Luíza, ele tinha ainda assim preservado a felicidade.

Era uma fórmula demasiadamente linear para ser compreendida.

Porque o seu e o nosso estilo de vida, a sua e a nossa defesa, inclui com naturalidade a paixão de apreciar e cumprimentar as mulheres que nos rodeiam pelas suas toiletes, pela sua presença e aroma ou interessá-las pela variedade de algumas histórias ainda que chatas que se dispõem a escutar de nós.
-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ

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-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

-O FUTURO NO FEMININO?

-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)

-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO



Há senhores, que se supõem do mundo, e mandam os seus subordinados cuspir no espelho. Até os treinam nessa arte.

Os meios de comunicação social que controlam, e nos entram em casa sem pedir licença, não comunicam, os estabelecimentos de educação para onde mandamos os filhos deseducam e o ministro, que seria suposto ser da sua confiança e ter a paixão de dialogar, ao invés, entra mudo e sai calado, à procura do respeito perdido.

Se pudessem, e bem o tentam, ensinavam-nos a pensar pelas suas cabeças, a sentir bater apenas o seu coração, a trilhar caminhos corridos pelas suas pernas.

Argumentam que assim seria melhor, começando pelos mais pequenos que deveriam naturalmente digerir as ideias pré-fabricadas e seguir as emoções dos homens e mulheres que vivem sentados o dia a dia.

Antigamente, dizia-se entre nós, era a ditadura.

Possivelmente um argumento tão mau como outro qualquer.

Agora, sentimos uma inefável presença que nos convence, subtilmente, que a incapacidade não é uma doença, mas uma fatalidade.

Paradoxalmente, o soit-disant poder democrático, diz-nos o que se pode dizer e o que se pode fazer, e define o politicamente correcto o que não pode ser.

Dizemos aos netos, o que então não dissemos aos filhos, desatem as vozes, des-sonhem os sonhos.

Gostaria, de descobrir o real maravilhoso e o fantástico, situá-los no exacto ponto de encontro da nossa terra e concluir que, jamais pode ser uma perda se, do matrimónio entre a mentira e o medo nascer a coragem e, das dúvidas, a certeza.

Os sonhos, prenunciam a realidade possível e os delírios uma forma de razão.

Isto não muda mesmo?

Somos o que fazemos para mudar o que somos.

A identidade que assumimos, não é qual peça de cristal colocada numa redoma, mas a síntese das contradições com que nos defrontamos cada dia que passa.

Acredito nesta fé, impalpável e fugidia.

É a única digna de confiança, não por lhe faltar o racionalismo, mas por ser contemporânea do bicho-homem, mesmo daquele que não tem graça, é desgraçado mas sagrado, que tem em si a louca aventura de viver no mundo, que se reconhece em mais que um grão de poeira e, um fugaz momento na infinita solidão do universo.

Há um sítio no mundo que é o ponto de encontro entre o ontem e o hoje, onde se reconhecem e, por vezes, se abraçam.

Estudei o assunto com toda a atenção e, digo-vos, que esse sítio é o amanhã.

Têm o som do futuro algumas vozes que chegam sussurradas do passado e nos recordam que somos filhos de uma terra que não se aluga, muito menos se vende.

As vozes que não se calam, os sonhos que se des-sonham, anunciam que o mundo é possível, ainda doutro modo, menos envenenador do solo que não é lixeira, do ar que é para respirar e da água dos rios que não são cloacas.

É possível, ainda ou já, um sistema sem vínculos?

Não, redondamente que não.

Desde logo porque os calados virariam os perguntadores, os demandados seriam os demandadores, não se reconhecia mais que as quezílias e divisões pudessem um dia qualquer deixar de ser ilhotas constituindo terra firme.

E isso seria mau?

Um sistema sem vínculos condenar-nos-ia à solidão.

A emoção nada teria a haver com a razão, o sexo seria independente do amor, a vida privada passaria definitivamente ao lado da vida pública, o trabalho ofenderia o prazer e a linguagem escrita opor-se-ia ao descomprometimento da falada.

E o ponto de encontro, afinal?

Um sistema sem vínculos divorciaria o ontem do hoje, pelo que a história ficaria doravante parada, adormecida, porque não dizer?, morta.

Os textos que ensinam os grandes combates e os conceitos sublimes dos mestres pensadores, os monumentos de mármore que permanecem imutáveis ou as estátuas de bronze que se plantam nos jardins, seriam os armários poeirentos onde se guardam os disfarces velhos.

A história oficial enche a nossa memória de factos inúteis.

Temos lutado, quixotescamente, contra a amnésia e gostaríamos de não tropeçar, mais uma vez, em degraus mil vezes tropeçados, de modo a história não se assemelhar a um carrocel de movimento perpétuo.

D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte V) A GASTRONOMIA DO MOSTEIRO

A GASTRONOMIA DO MOSTEIRO

Alcobaça era um mosteiro muito populoso.

Não existem dados fidedignos relativamente a esta questão, nomeadamente para os primeiros séculos. Podemos, todavia, fazer alguns juízos, ainda que de forma indirecta. Vejamos.

O coro manuelino, compreendia 156 cadeiras, 78 de cada lado e era o maior do País. Por detrás delas erguiam-se, entre colunas, nichos com figuras em relevo, representando papas, cardeais, bispos e outras figuras ilustres da Ordem de Cister. As dimensões da Sala do Capítulo, onde os monges se sentavam em duas bancadas ao logo das paredes, sugerem-nos números semelhantes. O coro dos conversos, não tinha dimensões inferiores ao dos monges de coro. Não corremos grande risco, salvo melhor opinião, se dissermos que nos séculos XI e XII, o mosteiro podia albergar, à vontade, cerca de 150 monges de coro e número superior de conversos, estes que viviam normalmente nas granjas do mosteiro. Em 1535, segundo aPEREGRINATIO HISPANICA (Paris 1970) havia 11 monges e 17 noviços, na sequência da reforma da Comenda de Alcobaça. O Cardeal D. Afonso, fixou o número de monges de coro em 40, os noviços em 5 e os conversos em 15 (32).

Rejeitando a lenda dos 999 monges, é todavia de reconhecer que o número de religiosos era considerável, pelo menos em alturas de maior prosperidade. Beckford, diz que encontrou 400 monges.

(…) A comunidade, incluindo monges, noviços e subordinados, em número não inferior a 400, alinhava-se em imponente cortejo na vasta esplanada situada em frente ao mosteiro, para nos apresentar as boas-vindas (33).

O número é sem dúvida exagerado. O Marquês da Fronteira, que tomou as suas refeições no refeitório, contou 270 pessoas. Tratava-se, mesmo então, de um número extraordinário, já que os monges de outras abadias, tinham-se deslocado a Alcobaça, por ocasião de uma festa importante e porque compareceram ali os monges todos sem excepção . Tinham-se juntado à c omunidade, os estudantes do Colégio de Nossa Senhora da Conceição, os seus professores, os antigos abades e religiosos de outros mosteiros (34).

De acordo com um cronista, havia no mosteiro 356 monges e 37 conversos anteriormente aos Éditos de D. José, interditando o recrutamento monástico.

Um documento mais fidedigno, o Códice 1485 da Biblioteca Nacional de Lisboa, não indica mais que 139 monges de coro em 1762. A estes monges convém acrescentar os criados, muito numerosos. A cozinha devia ainda satisfazer as necessidades dos hóspedes de passagem que, como Beckford, permaneciam na hospedaria. Os soberanos portugueses vinham ali com a corte. Em tais condições, era necessário manter importantes serviços e instalações da cozinha. Em certos momentos havia mesmo que alimentar mais de 400 pessoas. Que valor dar ao testemunho de Beckford? Notemos, desde logo, que ele e seus companheiros foram tratados como h óspedes excepcionais tal como aliás, teve o cuidado de frisar:

(…) Um aviso especial do Secretário de Estado fora expedido anteriormente, recomendando aos monges a mais agradável recepção ao Grão-Prior e seus companheiros (35).

O comportamento de Beckford espantou um pouco os monges. Eis como, o nosso viajante, se alojou nas instalações aonde o conduziram:

(…) Armei o meu leito numa das espaçosas alcovas, com surpresa manifesta, senão de desgosto, do monge que tinha sido destacado para o meu serviço. Logo que pude fiz as minhas abluções: lavei os pés tão calmamente como se estivesse à porta da tenda de Abraão. Estava num calmo e perfeito repouso, quando três trovejantes pancadas na porta anunciaram que o Abade, em pessoa, me ia acompanhar à sala do festim (36).

Vem de seguida, a descrição famosa do banquete:

(…)No centro desta majestosa sala estava montada uma grande mesa, coberta de linho bordado e franjado e rodeada de quatro grandes poltronas para o hóspede e os três prelados. O festim compunha-se não apenas dos melhores pratos habituais, mas de raridades e coisas delicadas fora da época e de países distantes: lampreias de conserva, iguarias do Brasil e outras mais estranhas ainda, vindas da China, (ninhos de andorinha comestíveis e barbatanas de tubarão) preparados, segundo a última moda de Macau por um Irmão chinês. A doçaria e a fruta encontravam-se numa sala ao lado, mais espaçosa e sumptuosa, para onde nos retiramos, ao abrigo dos fortes odores exalados pêlos molhos e carnes (37).

Esta descrição evoca, irresistivelmente, as gravuras inglesas do século anterior, onde se vêm monges gordos de cara rosada vestidos com fantasias, bebendo vinhos finos em lautas comezainas, num salão luxuoso, servidos por meninos do coro usando sotainas vermelhas. Após isto, sem dúvida para fazer um pouco de exercício, o nosso homem quis esboçar um passo de dança:

(…) Mortalmente fatigado por estar imóvel e desejoso de fazer alguma coisa que saísse do trivial, insinuei que gostaria de dançar e que não veria inconveniente em ter como par um dos Reverendíssimos Priores. Porém, nada consegui, eles conservaram a sua dignidade. Bocejando desapiedadamente, suspirava pela hora em que me seria permitido ir para a cama, o que fiz muito satisfeito, depois de a todos ter dado as boas noites e as ter recebido em grande e renovado cerimonial (38).

Nesta época, a música em Portugal, tanto a erudita como a popular, era uma das manifestações mais apreciadas. W. Beckford sempre demonstrou um gosto e interesse pela arte musical, e refere-se frequentemente a tal. Um dos motivos porque Beckford se terá sentido atraído por Portugal, resulta da forma pouco fleumática como os portugueses se comportavam em contraposição à postura forçada dos ingleses e dos próprios monges bernardos. A dança para Beckford está presente em quase todos os ambientes. Todos dançam, sejam os nobres, os clérigos ou o povo, em palácios, conventos ou mesmo na rua.

Na Excursão... Beckford deixa claro que até as danças lascivas, eram executadas nos mosteiros, como o de Alcobaça. A música fazia parte da vida conventual e isso está bem nítido na descrição que faz de Alcobaça. É interessante ter em conta a que Beckford faz do concerto que antecedeu a representação de mês de Castro, a que atrás fizemos referência, descrevendo os instrumentos que constituíam a orquestra e até o programa (39).

(…) No dia seguinte, 8 de Junho, a jornada começou por um copioso pequeno- almoço.

(…) Três veneráveis padres, de aspecto grave e solene, fizeram a sua aparição. Tendo-os saudado tão baixo quanto fez Abraão aos seus angélicos visitantes, recebi deles em resposta, grandes reverências e fui convidado a acompanhá-los ao pequeno-almoço. Obedeci de bom grado. Eram sete e um quarto e tinha a fome de um noviço. O Prior de Aviz, que tinha ceado com abundância na noite anterior, não apareceu. Mas o de S. Vicente, que era todo benevolência e boa disposição, fez as honras à refeição e com graça e cordialidade, preparou o chá tão sabiamente quanto o sabia fazer uma perfeita viúva da cristandade. O Monsenhor de Alcobaça, encontrava-se ausente, retido disseram-me e creio sinceramente, por negócios urgentes e importantes (40).

Da parte da tarde, preparou-se a caravana que iria escoltar os viajantes até à Batalha. Um monge lembrou a Beckford que foi ele quem manifestou o desejo de visitar o mosteiro. O nosso delicado viajante não teve dúvidas: Nada havia da minha parte a objectar a este acordo. Imaginava, todavia, poder descobrir nele um secreto desejo de ser libertado da nossa deliciosa companhia, bem como do tumulto e do meio constrangimento que provocava. Arvorei o meu melhor sorriso de assentimento e gratidão, mas ouvir era obedecer. Tudo o que me havia trazido a este local foi confirmado pelo trio dos Grandes-Priores durante a refeição, copiosa e magnífica como habitual (41).

Entre as variadas obras de Beckford sobre Portugal é na Excursão... que o interesse e o destaque à gastronomia são maiores. Não é por acaso que a descrição começa pelo que designou como otemplo da gastronomia ou glutonaria .

O seu gosto pela gastronomia e a capacidade com que descreve certas cenas, transforma a narrativa num quadro cheio de movimento e cor que parece como que fotografado, mencionando os pormenores, e todos os alimentos raros e exóticos que foram apresentados. Por tudo isto, mas não só, somos da opinião que W. Beckford foi de facto um conhecedor dos hábitos alimentares dos portugueses e os descreveu muito interessantemente (42).

Não é de espantar que esta descrição, tão rapidamente conhecida, tenha tido real sucesso.

A própria personalidade de Beckford contribuiu para a divulgação da sua obra, a que não foi estranho a sua lenda. Escritores de nomeada, como o referido Rebelo da Silva e Carlos Malheiro Dias, aproveitaram elementos da obra de W. Beckford e que haviam entrado na tradição oral. Rebelo da Silva escreveu o herege inglês de que tantas fábulas corriam pelo povo português . Em Lágrimas e Tesouros, como sabemos, este escritor socorreu-se bastante de Beckford e, desse modo, bem potenciou a sua lenda. Rebelo da Silva confessa que para o esboço, por desgraça imperfeitíssima após ser de lápis nosso, das feições e costumes da sociedade portuguesa no último quartel do século XVIII, consultamos a cada passo as relações e notícias mais dignas de conceito, sobretudo as curiosas páginas, que deixou escritas da sua viagem a Portugal, o opulento e espirituoso Beckford, que é o herói principal da nossa fábula. Em muitos lugares cobrimos de colorido transparente o desenho, que o inglês traçou com a sua mão segura e amestrada. Tudo lhe pertence, cena, disposição das pessoas, acessórios e expressões. Os primeiros capítulos desta novela foram inspirados pelas recreativas cartas que ele intitulou Alcobaça e Batalha e dividiu em dias de jornada (43).

Outros viajantes, também apreciaram a hospitalidade dos monges de Alcobaça neste fim de século.

A. Parreaux, reproduz os textos mais característicos, a propósito da região de Alcobaça. Na maior parte confirmam o que se sabe sobre a inteligente administração dos monges. A sua apreciação pode resumir-se no seguinte:

(…) O sistema de agricultura aplicado nesta região é excelente e o mérito é devido aos elevados conhecimentos dos monges bernardos em todas as questões que dizem respeito à economia rural .

Ele cita textos em sentido oposto, embora menos numerosos. A respeito dos de Twiss e de Dalrymple anota que é preciso não esquecer que são apaixonadamente anticatólicos, que frequentemente se indignam contra os monges em geral e os de Alcobaça em particular .

Ao julgamento de Twiss, não é de espantar se a vizinhança, muitas milhas em redor, não tem provisões e que seja tão difícil encontrar aí um ovo ou legumes como se viajasse de S. Petersburgo à China, tudo engolido na voragem monacal , pode opôr-se o de J. Vieira Natividade. Na segunda metade do século XVII, os monges plantaram os grandes olivais da Serra dos Candeeiros. A Granja de Vale de Ventos, foi transformada e produziu o melhor mel e frutos de Portugal.

O Abade Frei Manuel Mendonça, primo do Marquês de Pombal, arrendou os domínios de Famalicão, Alfeizerão, Valado de Frades e Maiorga. Os laranjais e limoeiros ocupavam os domínios de Évora de Alcobaça, Cela, Alcobaça, Vimeiro, Aljubarrota, Turquel, Benedita e Ataíja. Os vinhedos contavam-se entre os mais famosos da Europa. Se os pomares de Alcobaça são reputados e constituem, hoje em dia, uma das mais importantes fontes de receita da região, os laranjais e limoeiros quase desapareceram após a expulsão dos cisterciences (44). O inglês J. Murphy, que permaneceu no Mosteiro 4 anos antes de Beckford, exprimiu-se assim:

(…) Os rendimentos dos monges de Alcobaça (...), sofreram nos últimos anos algumas reduções, mas muitas pessoas pensam que ainda são consideráveis. Para isso fundamentam-se na circunstância da riqueza levar primeiro à dissipação e só depois à oração. Esta observação não me parece minimamente aplicável aos monges de Alcobaça, porque durante as três semanas que passei no mosteiro, apenas vi sobriedade, recolhimento (...). A maior parte das crianças da região são mantidas e educadas pelos monges. Não apenas a sobremesa é dada aos pobres, mas ainda duas vezes por semana, se fazem distribuições particulares (...). Os que reclamam contra a riqueza do mosteiro, procurem em Portugal uma pessoa que, possuindo rendimentos iguais ao seu, os partilhe como os monges de Alcobaça, com os seus irmãos infelizes . (45).

A justiça exige que estas linhas de um compatriota e contemporâneo de W. Beckford, sejam citadas, quando se pretende fazer o julgamento dos monges de Alcobaça.

O Marquês de Fronteira foi testemunha dos últimos dias do Mosteiro. Em 1824 participou numa refeição:

(…)Nos dias santos da Ordem, comiam peixe. O número de pratos não era considerável, mas as quantidades ou rações de cada religioso eram espantosas. Os leigos ou criados apresentavam em frente de cada um dos religiosos uma terrina com sopa que chegaria bem para três indivíduos de apetite regular, uma bandeja trazida por dois criados vinha cheia de pratos com enormes postas de peixe... (46).

Vinha depois do peixe, o azeite, o vinagre e a fruta. A refeição tomava-se em silêncio:

(…)Durante o jantar um Religioso lia, no púlpito, em voz alta, algumas passagens das Escrituras ou da Vida dos Santos. Ao toque duma sineta pelo Dom Abade, levantou-se a comunidade, dando graças a Deus, cantando e saindo do refeitório, dois a dois e, atravessando a casa do De Profundis, dirigiu-se ao coro. Era uma respeitável coluna, entre Religiosos e leigos, de duzentos frades. O seu estrondoso cântico ressoava pêlos Claustros e abóbadas do convento, até chegarem ao coro onde começaram as vésperas (47).

Que tenha havido monges e prelados glutões, em Alcobaça, não é de espantar. Este defeito, fora já estigmatizado pêlos Abades e escritores monásticos da Idade Média, bem colocados para o apreciar. Por isso, convém saber ler e interpretar os textos antes de extrair conclusões.

Dom Jean Leclerq assinala que o tema dos glutões que se atafulhavam de comidas refinadas até mais não, tornou-se um lugar comum do género satírico .

Ele cita as descrições de S. Pedro Damião, de Pedro, o Venerável e de S. Bernardo. Mas, acrescentava, vamos reter estas descrições como documentos históricos acerca da exacta composição das ementas, nos locais e nas datas em que escreveram? Nenhum deles soube resistir ao prazer de escrever uma bela página que exigia pouco esforço. É bem difícil ridicularizar sem perder as proporções (48).

Para permitir, na justa medida, apreciar o valor das descrições respeitantes a uma refeição conventual, note-se que pela mesma altura, segundo Pedro, o Venerável, comia-se carne em Cluny, enquanto que, com S. Bernardo, se fazia abstinência.

Para se estudar uma regra monástica, em lugar e tempo bem determinados, convém recorrer, em primeiro lugar, aos textos e documentos que a regulamentam e nos podem fornecer as normas de apreciação. Tais documentos e textos existem para a Alcobaça do século XVIII. Pode-se consultar, por exemplo, a correspondência dos monges com os Superiores, entre outros, os manuscritos 1482 e 1485 do Fundo Geral da Biblioteca Nacional. Aí se encontrarão preciosas informações de Frei Manuel de Figueiredo, monge de Alcobaça, datadas de 1770 e dos anos seguintes.

Também se deverá reportar às Actas dos Capítulos Gerais, às suas prescrições e sanções aos culpados. Enfim, existe uma colecção importante, cuja consulta é indispensável, Os Usos e Costumes de Cister.

Desde a origem da ordem, a disciplina foi regulada minuciosamente. Os costumes monásticos foram reunidos numa colecção conhecida sob o nome de Usos ou Costumes de Cister. A Congregação Autónoma de Alcobaça, possuía também a sua. Estas regras só podiam ser modificadas ou adoptadas em Capítulo Geral. O texto oficial obrigava os monges e devia ser observado por todos. Possuímos a última edição dos Usos e Costumes de Alcobaça (49).

É possível que monges relaxados, aqui ou acolá, tenham desprezado ou voluntariamente ignorado algumas prescrições. Todavia, não de pode admitir, sem sérias razões, que textos elaborados em sessões capitulares, pelos Superiores do Mosteiro, impostos ao conjunto dos monges, promulgados pelo Capítulo e publicados de acordo com a ordem do Abade Geral, não tenham sido observados.

No caso preciso que nos interessa, trata-se da Abadia onde residia o Abade Geral e onde se reuniam os Padres Capitulantes. Aceitar sem discussão, as descrições satíricas de W. Bekford e recusar crédito ao texto de Os usos e Costumes seria tomar partido da forma mais simples.

Não podemos reproduzir, aqui, o longo capítulo consagrado às refeições. Vejamos, em resumo, o que há (50).

As prescrições dizem respeito à leitura que deve ser feita durante a refeição ao comportamento do leitor e da comunidade, aos livros que se devem ler e à ordem em que são apresentados os extractos das Santas Escrituras e da Regra.

Os monges devem esperar o sinal do Abade para começar a refeição.

(…)Feito sinal pelo Prelado... descubram os monges pão... e encostados a Mesa, principiem a refeição com aquela modéstia e seriedade que convém a Religiosos e Religiosos Monges (51).
Estarão todos a Mesa com muita composição interior e exterior, atendendo mais a refeição espiritual da lição, que à material do corpo. Nenhum Religioso que se atreva a levantar os olhos mais que para ver com grande modéstia que lhes falta e lha põem diante: guardarão todos grande silêncio, e para pedir o que se lhes falta, usarão de sinais (52).

O monge cisterciense trabalhava em comum, mas em silêncio. Fazia as suas leituras no claustro e às refeições acatava o silêncio, substituindo as palavras por gestos. Isto, pelo menos, nos tempos de maior rigor da disciplina monástica. Havia um código de sinais que referia o modo de os fazer e um Livro de Linguagem por Sinais .

Os monges guardavam por princípio austero silêncio, para melhor se puderem concentrar em Deus. Para tal, utilizavam uma linguagem por meio de sinais codificados, que para nós tem algo pitoresco. Como foi dito por Mário Martins, isto poderia fazer-nos crer, como que estar perante um grupo de mudos a gesticular. Os sinais utilizados pelos monges seriam fundamentalmente do tipo natural e do tipo arbitrário. Os primeiros tenderiam a representar aproximada e mimicamente o real. Os segundos, não seriam mais que puras convenções. Vejamos alguns. Se o que hoje nos é estranho e escapa poderia ao tempo ter um significado mais preciso. Como exemplo de gesto natural, na representação de um livro, o monge movia a mão como uma folha de árvore. Como gesto arbitrário ou convencional, diremos ainda a título de exemplo, que uma mulher se representava pelo trazer o dedo indicador na sobrancelha.

Segundo Mário Martins, este gesto poderia ter origem ou significar historicamente, o uso que as mulheres teriam em tempos idos de cortar o cabelo caído sobre a testa ou de o deixar cair até lá.

Por princípio pois os monges mantinham o silêncio. Segundo a Disciplina dos Monges , de Hugo de S. Vítor, havia lugares para falar e estar calado, para serem ditas as coisas em público ou privado. E criticam os que não sabem ouvir a não ser com as bocas abertas (53).

(…) Tenhão os serventes muito cuidado em ver o que falta aos Religiosos, para que se evite a necessidade de o pedirem. As porções darão por sua ordem sem diferencia, ainda que lhes pareça alguma melhor que a outra .

O monge que faz barulho, ou quebra um objecto, deve-se humilhar no meio do refeitório. As regras de limpeza, de higiene e de civilidade são lembradas em várias ocasiões.

Descrevem-se, com detalhe, as penitências a fazer no refeitório. São enumeradas as longas orações que devem ser recitadas, dirigindo-se à Igreja para a acção de graças, tais como as de dizer antes e depois das refeições Todos os monges devem por sua vez, servir à mesa, salvo os que professaram há mais de 50 anos (54).

O capítulo termina com as prescrições respeitando aos jejuns, abstinência e ao uso de carne e peixe.

Os monges estavam em geral dispensados do jejum durante o tempo pascal. Durante os dois primeiros dias, o jejum é mitigado por um prato de favas e um pouco de queijo, servidos à refeição da tarde. É o que os Usos e Costumes chamam jejum mitigado ou meia ceia. O terceiro dia só tem uma única refeição. É o jejum absoluto ou rigoroso.

Desde o Pentecostes até 13 de Setembro, o jejum é absoluto à sexta-feira e mitigado à quarta- feira.

Desde 14 de Setembro até à Páscoa, há em princípio jejum todos os dias, salvo ao domingo. Por derrogação e até à Quaresma propriamente dita, só há jejum absoluto à quarta-feira e sexta-feira. A segunda-feira e sábado são dias de jejum mitigado. Durante o período do Advento o jejum é absoluto, salvo ao domingo e alguns dias de festa.

Os monges comem carne ao domingo, excepto durante o Advento e a Quaresma. Eles também a comem à terça-feira e à quinta-feira, salvo durante o Advento e a Quaresma, a partir do domingo da Quinquagésima. O livro dos Usos e Costumes precisa que se come carne ao almoço, graças a uma dispensa acordada com Roma e à noite em virtude de um costume. Nos mosteiros portugueses da Beira, os monges comem também carne à segunda-feira. Os dias em que o peixe substitui a carne são previstos. Resulta desta legislação, tão detalhada para as ementas, onde nada é deixado ao acaso, que os monges, a quem se criou a fama de glutões e bons vivants, jejuavam durante uma boa terça parte do ano, na qual se limitam a fazer uma única refeição por dia. A tentação bem humana, de substituir a qualidade pela quantidade, compreende-se e desculpa-se. O jejum era mitigado por uma merenda durante o resto do ano. Só era suprimido no período pascal.

Chegou mesm a haver em certa altura, como que umas regras de boas maneiras à mesa, expressas na referida obra da Disciplina dos Monges, de Hugo de São Vítor.

(…) Cuidado com a língua, por que ela então destrava-se bastante por a queetura do comer. Não andar cõ os olhos catando e veendo o que os outros comem ou fazem (…). Não devem os monges apetecer comidas delicadas, dizendo que o seu estômago é incapaz de moer manjares grosseiros. Comam do mesmo nem melhor nem pior, sem obrigar também o dispenseiro a buscar peixes pequenos do fondo dos peegos ou ervas e raízes dos montes (55).

Não temos a ingenuidade de pensar, que estas linhas, são suficientes para acabar de vez, com uma lenda tenaz. Para que o erro de uma testemunha se torne o de muitos homens, (escreveu Marc Bloch,) é necessário também que o estado da sociedade favoreça esta difusão . E acrescenta: O erro quase sempre é orientado antecipadamente. Sobretudo ele não se espalha por si, ganha vida quando se alia aos preconceitos de uma opinião vulgar. Torna-se então o espelho onde a consciência colectiva contempla as suas próprias marcas (56).

O sucesso das descrições de W. Beckford e das anedotas acerca dos bernardos, a proliferação de uma literatura dita freirática no século XIX, encontram resposta nestas linhas, senão justificação.

Voltando a W. Beckford e à sua Excursão... pode-se eventualmente censurar o Abade por ter concedido muitas atenções com vista a honrar o seu hóspede. Esta agradeceu à sua maneira. Era não só um excelente escritor, mas ainda um humorista. Ao ridicularizar os que tão bem o receberam, não se comportou como um cavalheiro.

NOTA FINAL

Quantas recordações, quantas memórias de vulto estão ligadas a este Mosteiro de Alcobaça.

As instituições tal como os homens envelhecem. Estes vão enfraquecendo, os órgãos vão funcionando pior, até que chegam a parar. É a morte. Naquelas, a relaxação começa lentamente e miná-las, a descaracterizar a sua actuação, bem como os princípios e ideais que lhes deram origem e que forjaram a sua criação.

A sua acção vai deste deste modo minguando, tal como a autoridade e o prestígio, que foram condição essencial da sua vida e força.

Fica todavia o monumento como que corpo sem alma, mas que não deixa de simbolizar o pensamento e a fé de quem o criou e que deve ser respeitado como testemunha venerada dos antepassados e maiores.

Muito de bom, e seguramente de menos bom, fizeram os monges de Alcobaça. O rigor histórico, impõem-nos essa referência. O que aos monges sobejava do seu sustento e das obras, despendiam-no com esmolas. Até à sua extinção, o Mosteiro de Alcobaça foi sem dúvida uma grande casa de caridade, que dava e recebia hospedagem franca e gratuita aos viajantes que pediam agasalho e na portaria matava-se a fome a todos os pobres, e não eram poucos, que solicitavam alimento.

Supomos não ser muito conhecido, ou pelo menos está esquecido, o seguinte trecho de Fr. Fortunato de S. Boaventura que indignado e com vibração respondia a Fr. Joaquim de S. Rosa Viterbo que não morria de amores pelos alcobacenses:

(…) Nós, os Monges de Alcobaça temos sido usurpadores! Felizes e ditosas usurpações que nos derão com que podessemos segurar .

Não obstante estes factos, não foi por acaso que o ódio ao frade bernardo se revelou tão brutal, quando foi possível de se exprimir. Os vexames e gravames que os direitos senhoriais dos monges de Alcobaça impuseram aos povos das redondezas, autênticos colonizados, mais que gente livre e honrada, tiveram pesado encargo e tributo.

Pareceu-nos sobejamente interessante apresentar esta pequena obra de Dom Maur de Cocheril e sem negar, obviamente o seu mérito, contribuir com algumas notas discordantes, que pretendem reflectir a nossa verdade histórica e cultural sobrea época que estivemos a estudar.

NOTAS AO TEXTO

(1)-Ed. da Biblioteca Nac., int. e notas de Boyd Alexander; trad. e pref. de João Gaspar Simões.

(2)-Londres, 1946.

(3)-Veja-se o texto da versão original, int. e notas de André Parreaux, Collection Portugaise de lnstitut Français au Portugal, Lisboa- Paris,1956.

(4)-Ed. Imp. Nac.-Casa da Moeda, Lisboa, 1989.

(5)-Dom Maur Cocheril, Cister em Portugal.

(6)-Excursão...

(7)-Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna, D. José Trazimundo Mascaranhas Barreto, Imp. Nac., Lisboa.

(8)-Excursão...

(9)-Descripção succinta do Mosteiro de Santa Maria e Brevissima noticia do que he digno de ver-se na Villa de Alcobaça, Alcobaça, 1892. Publicado sem o nome do autor.

(10)-Ramalho Ortigão, As Farpas, Tomo I, cit e notas de Fleming de Oliveira.

(11)-Monumentos de Portugal Históricos, Artísticos e Archeológicos, Inácio de Vilhena Barboza, Lisboa, 1886.

(12)- M. Vieira Natividade, Mosteiro de Alcobaça, Coimbra, 1885.

(13)-Guia de Portugal, Tomo II, Lisboa, 1927, texto de Afonso Lopes Vieira.

(14)-As Estradas de Portugal, Raul Proença, ed. act. por Sant'Ana Dionísio, Porto, s/d..

(15)-Citado por Armando Lucena, Mosteiro de Alcobaça, Monografias de Arte, extraído de A arte sacra em Portugal. S. d., nem local.

(16)-Manuel Pinheiro Chagas, Dicionário Popular, Lisboa, 1876, vol. II, Alcobaça, e nota de Fleming de Oliveira.

(17)- d. cit. por Armando Lucena.

(18)-Bernardo Villa-Nova, O Mosteiro de Alcobaça, Lisboa, 1947.

(19)-(20)- (21) - Notas de Fleming de Oliveira.

(22)-Dom Alexis Presse, En La Escuela de San Benito, Abadia de Poblet, 1959;

(23)-(24)-(25)-(26)-Notas de Fleming de Oliveira.

(27)-Vilhena Barboza, Monumentos ...

(28)- Notas de Fleming de Oliveira.

(29)-Cit. por Bernardo Villa-Nova, Os Caldeirões de Aljubarrota, Bol. Junta da Prov. da Estremadura, Serie II, n Q X.

(30)-(31)-(32)-Notas de Fleming de Oliveira.

(33) - Excursão...

(34) - Citação e notas de Fleming de Oliveira.

(35)-(36)-(37)-(38) - Excursão...

(39) - Notas de Fleming de Oliveira.

(40)-(41)-Excursão...

(42)-(43)-Citação e notas de Fleming de Oliveira.

(44)- (45) -Rev. W. M. Kinsey, Portugal Ilustrated, in a Series of Letters, Londres, 1829.

-Richard Twiss, Travels Through Portugal and Spain in 1772 and 1773, Londres, 1775.

-J. Vieira Natividade em, Os Monges Agrónomos do Mosteiro de Alcobaça, Alcobaça . 1942.

-J. C. Murphy, Traveis in Portugal, Through the Provinces of Entre-o- Douro e Minho, Estremadura and Alem-tejo, In the Years 1789 e 1796 .

(46)-(47)-Memórias…

(48)-Dom Jean Leclercq, Aspectes Litteraires de l’Oeuvre de Saint Bernard, in Cahiers de Civilization Medievel, Poitiers, l 9 Ano, n º 4,1958.

(49)-Livro dos Usos e Cerimónias da Congregação de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de S. Bernardo do Reino de Portugal. Impresso por mandado do Reverendíssimo Senhor D. Abade Geral, Esmoler Mor, Tomo II, na offic. de António Rodrigues Galhardo, Anno M.DCCC.LXXX.VIII.

(50)-Ob. Cit. Livro IV. Do Rito que hão de observar os Monges em várias funções e ministérios particulares da nossa Congregação Cap. XLIV. Do que hão de observar os Monges no Refeitório e do Leitor e Serventes de mesa , pp. 373 a 400.

(51)-(52)-Ob. cit. pp. 375 e 377.

(53)-Notas de Fleming de Oliveira.

Ver por todos Mário Martins, in Broteria.

(54)-Ob. cit. pp. 379 a 398. Previlégio acordado pelo Capítulo Geral de 1756.

(55)-Mário Martins, in Broteria, cit. por Fleming de Olive

(56)-Marc Bloch, Apologie pour l’Histoire ou Metier d' Historicien, Paris, 1959.

D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte IV) A COZINHA NO SÉCULO XVIII (1752)

A COZINHA NO SÉCULO XVIII (1752)

O Mosteiro de Alcobaça sofreu bastantes melhoramentos nos séculos XVII e XVIII. O número de conversos diminuiu e o edifício que lhes era destinado, passou a revelar-se inútil. O Abade precisava de instalações. Era necessário arranjar salas para as deliberações dos Capítulos Gerais da Congregação Autónoma, bem como para a administração da própria congregação. Desejava-se também criar uma hospedaria digna de príncipes e reis que ali se alojavam, por ocasião das suas deslocações. A evolução da disciplina monástica tornara inúteis algumas das divisões da Abadia. Os monges iriam trabalhar em células e não frequentavam as salas de trabalho e o calafactório.

A partir de certa altura, os monges abandonaram a austeridade dos tempos difíceis e iniciais, passando a dormir em celas individuais, em prejuízo dos dormitórios colectivos (26).

No século XVII, utilizou-se o edifício dos conversos para alojar o Abade e instalar uma hospedaria. Na maioria das abadias foi esta parte do edifício transformada em Palácio Abacial.

O de Alcobaça foi demolido e outro construído no seu lugar, mas encostado ao claustro. A Ruela dos Conversos desapareceu. Talvez esta ruela tenha sido suprimida ou estreitada durante a construção no tempo de D. Diniz. Com efeito, a Ala do Claustro, bordejando o edifício dos conversos, parece ter sido recuada, e isso por causa dos trabalhos, como nos leva a pensar o enorme maciço de alvenaria que se acha no ângulo noroeste do claustro. Nestas condições, o claustro teria invadido a ruela, como nas abadias catalãs de Poblet e de Santa Creus.

Na extremidade do Celeiro primitivo preparou-se a Sala dos Reis, que comunicava com a nave da Igreja pela antiga porta dos conversos. Entre o refeitório e o novo corpo de aposentos, no lugar da cozinha e do seu pátio, o Rei D. Afonso VI, também quis ligar o seu nome ao edifício monumental de Alcobaça, fundando um claustro; porém a revolução palaciana que o precipitou do trono ao fundo de um cárcere, não lhe permitiu acabá-lo (27).

Para substituir a cozinha desaparecida, os monges utilizaram o calafactório tornado inútil. Aí encontravam o essencial: uma grande chaminé e água no pátio.

A sala de trabalho, também desactivada, substituiu o celeiro primitivo, suprimido ao mesmo tempo que a ala dos monges.

Atribuiu-se ao Marquês de Pombal a iniciativa dos grandes trabalhos que modificaram o aspecto exterior do Mosteiro. Os monges condescenderam ao gosto da época, levantando imponentes construções. Isto era vulgar na Europa. Não nos devemos precipitar ao acusá-los, como se tem feito. As construções medievais de Alcobaça devem ser estudadas em comparação com as demais da Europa dos séculos XII e XIII, tais como as dos séculos XVII e XVIII com as abadias reconstruídas por essa altura e, ainda, com a arquitectura civil. O novo corpo do edifício, que foi construído sobre a fachada, à direita da Igreja, estava destinado ao Colégio da Nossa Senhora da Conceição e ao alojamento dos monges mais velhos. Os arco-botantes que escoram a extremidade do chamado Dormitório do Cardeal, ou seja, do Cardeal D. Afonso, Abade Comendatário, não devem ser entendidos como manifestação de ostentação, pois foram construídos para consolidar a construção abalada pelo tremor de terra de 1755. O gosto da época exigia uma simetria, de que as demais construções contemporâneas nos fornecem exemplos. Alcobaça não podia ser excepção. Ao longo da (antiga) estrada de Lisboa ao Porto, o pátio da cozinha primitiva desapareceu englobado no novo Claustro de D. Afonso VI. Entre o calafactório e a extremidade da sala dos monges subsistia um vazio: o pátio do calafactório. Construiu-se uma parede que enchia esse enorme edifício. O Dormitório do Cardeal foi elevado e encimado por uma estátua de D. Afonso Henriques.

A estátua de D. Afonso Henriques foi colocada em 6 de Novembro de 1632, sob o reinado de Filipe III, que veio a Alcobaça de propósito. Algum tempo antes, o mar havia atirado à praia de S. Martinho do Porto, um enorme madeiro, que foi transportado por muitas juntas de bois para Alcobaça. Depois de muito cortado e desbastado, serviu de guindaste para a colocação da estátua no alto da frontaria.

Em 17 de Abril de 1952, aquando de uma violenta trovoada que caiu sobre a Vila, foi a estátua atingida por uma faísca, sofrendo danos na cabeça e na coroa. A parte central da fachada do mosteiro foi acrescentada no século XVIIL Nessa altura foram construídas as torres.

Em 1881, uma faísca havia destruído a parte superior da torre do lado esquerdo. A ala sul da fachada, data também do século XVIII e nela estiveram a partir de certa altura, melhor dizendo, após a extinção das ordens religiosas, até à tentativa de restituição da traça original, residências particulares e arrecadações (28).

Para restabelecer a simetria, a nova fachada da cozinha foi também elevada em um piso com duas janelas cegas.

A primeira cornija desta fachada, corresponde à cobertura do refeitório, enquanto que a segunda prolonga a primitiva cobertura do dormitório. Esta parede, rectificando a fachada do Mosteiro, delimitava ao mesmo tempo a cozinha nova. Se se quiser tomar a devida nota as dimensões desta não ultrapassavam, em plano, as do calafactório do seu pátio e em altura as do dormitório.

Manuel Vieira Natividade chamou a atenção para as suas dimensões.

A cozinha mede 28,83 metros de comprimento, 5,66 ms. de largura e 18 ms. de altura. Os monges de Alcobaça não tiveram o trabalho de fazer passar um braço do Rio Alcoa pela cozinha, pela muito simples razão que esta canalização existia desde o século XIII, no mesmo lugar. Quanto às dimensões da levada, convém reduzi-las às devidas proporções. O canal de chegada não mede mais de 35 cm de largura. A chaminé ocupava o lugar do calafactório. A sala contígua, conhecida hoje por Adega, e sobre cujo destino muito se discutiu, é simplesmente a antiga sala de trabalho dos monges. O chão, é construído em vastos degraus para acompanhar o declive, muito pronunciado. Nestes degraus era fácil colocar mesas.

No refeitório, existem ainda as janelas primitivas, tornadas já úteis, desde que o calafactório foi englobado na cozinha em 1752. Elas permitem, pelo menos, determinar com segurança as dimensões do calafactório. A chaminé exterior pode, a bem dizer, ser criticada, mas apenas em nome da estética.

É lícito conjecturar se as suas dimensões extraordinárias, em termos de altura, são fundamentalmente devidas ao cuidado de evitar que fumo dos fogões fosse rebatido sobre as paredes do edifício do Mosteiro. Não há que ir mais longe nem remontar ao século XVII, para encontrar condutas de fumo tão altas como esta.

Seja como for, as dimensões reais desta cozinha, não têm relação com a vasta cúpula de 60 pés de diâmetro que causava a admiração e ao mesmo tempo escandalizava o virtuoso William Beckford.

Não se concebe todavia a necessidade de dispor de numerosas pontes sobre um tanque que não mede mais que 5 metros de comprimento por 3 metros e meio de largura e é rodeado por um espaço suficiente para a circulação de pessoas.

O Marquês de Fronteira talvez tenha exagerado. Informa-nos que um grande caldeirão estava sob a chaminé central da cozinha. Na polémica que se seguiu à pilhagem de Alcobaça, em 1833, faz alusão aos caldeirões que foram roubados. Conheciam-se 3 em Alcobaça.

O mais pequeno, escapou à pilhagem e encontra-se hoje em dia, em exposição, na Sala dos Reis. A origem dos caldeirões é bem conhecida. Depois de vitória de Aljubarrota, os portugueses confiaram à guarda dos monges os três enormes caldeirões onde os castelhanos prepararam a alimentação da sua tropa. De acordo com o cronista Frei Manuel dos Santos:

(…)No caldeirão maior, quando estava na cozinha do rei de Castela, fazia-se nele comer para 293 criados, os quais, segundo se conclui da grande capacidade da caldeira, não deviam comer pouco (29).

O troféu exposto no claustro estava acompanhado duma inscrição evocativa das vitórias portuguesas. Esta inscrição, está hoje na Sala dos Reis com o caldeirão, salvo da pilhagem.

O terceiro destes utensílios fora transportado pelos monges para uma das suas granjas. Está fora de questão a existência de um quarto pertença dos religiosos.

A última referência feita ao segundo caldeirão, a propósito da sua exposição no claustro, teve lugar em 1744. Espantava a sua estranha corpulência , a ponto de Pinho Leal estimar que nele se podiam assar 4 bois ao mesmo tempo, afirmação talvez tão temerária como para a chaminé da cozinha. Este pormenor leva-nos a pensar que o monstruoso caldeirão do Marquês de Fronteira não era mais que o enorme utensílio primitivo dos castelhanos devolvido ao seu destino primitivo pelos monges e por eles colocado sob a base da chaminé do calafactório.

No Mosteiro de Alcobaça existiu durante muitos anos, cerca de 450, um muito célebre caldeirão, também conhecido por Caldeirão de Alcobaça, tomado em 14 de Agosto de 1385 a D. João de Castela, na Batalha de Aljubarrota, por Gonçalo Rodrigues, que por isso ficou conhecido doravante porCaldeira. Diz-se na tradição popular, que no tal caldeirão, que era de cobre, se podiam cozinhar 4 bois de cada vez. Este caldeirão, foi dado com outros dois mais pequenos ao Mosteiro de Alcobaça, por D. João I para eterna lembrança da vitória de Aljubarrota , no dizer do cronista Frei Manuel dos Santos.

Um dos mais pequenos, foi mandado pelos frades para um lagar de azeite na Fervença, pertencendo segundo Pinho Leal, a uma tal D. Francisca Jacinta Pereira (Portugal Antigo e Moderno, vol. I).

O outro, segundo o mesmo autor, foi colocado pêlos frades no forno, mantendo-se hoje na Sala dos Reis. O caldeirão maior, era de metal mais fino e estava no claustro para ser visto mais facilmente. Batendo-se-lhe com uma pedra, o som cobria o repique de todos os sinos. Era de tão extraordinária corpulência que, quando servia na cozinha do rei de Castela, fazia nele comida, a que chamavam badulaque, ou seja, guisado de fígado e bofe de vaca, para 293 pessoas. Este caldeirão desapareceu após a fuga dos monges e o saque do Mosteiro, havendo polémica sobre o seu destino. Na pedra, onde estava assente, havia a seguinte inscrição:

HIC EST ILLE DEBES, TOTO CANTATUS IN ORBE QUEM LUSITANI, DURO, GENS ÁSPERA BELLO DE CASTELLANIS SPOLIUM MEMORABILE CASTRIS ERIPUERE; CIBOS HIC OLIM COXERAT HOSTI AT NUNC EST NOSTRITERTIS SINE FINE TRIUMPH .

Traduzido para português significa:

Eis o caldeirão, famoso no mundo inteiro que os lusitanos, povo valente na dura guerra tomaram ao exército castelhano, despojo memorável. Ele servia outrora para fazer a comida do inimigo. Ele é hoje, do nosso triunfo, imperecível testemunho.

O Dr. António Luís de Seabra, mais tarde Visconde de Seabra, tomou posse como Corregedor Interino de Alcobaça, sendo exonerado pouco tempo depois. A sua passagem por Alcobaça, foi por nós estudada e publicada no jornal O ALCOA. Os tempos eram de intensas paixões e tensões políticas. Não se esqueça que o País vivia a luta fratricida entre miguelistas e liberais. O Visconde de Seabra, que atingiu os mais altos postos da Nação, como os de Reitor da Universidade de Coimbra e Ministro da Justiça, e que deixou o seu nome ligado ao primeiro Código Civil Português, também conhecido por Código de Seabra, chegou a ser acusado, ao que se crê sem fundamento e por mera chicana, do furto deste caldeirão. O mais provável é que após a fuga dos monges e a vinda de Seabra para Alcobaça tenha ocorrido o seu desaparecimento. Segundo ainda Pinho Leal, na sua referida obra, andou durante muito tempo em voga a seguinte quadra:

NO ANO DE TRINTA E QUATRO

LÁ SE FOI O CALDEIRÃO! SÓ NOS FICOU POR MEMÓRIA,

UM VISCONDE ... E A INSCRIÇÃO!

De facto ficou a inscrição, mas não o caldeirão (30).

A transformação do calafactório em cozinha, explica-se pela necessidade de instalar uma nova cozinha no lugar da que foi suprimida. Esta razão, era suficiente, sem que fosse obrigatório recorrer à justificação de glutonaria ou sibaritismo dos monges cistercienses. As suas dimensões eram condicionadas pelas construções que a delimitavam. A ribeira existia há vários séculos no mesmo sítio em que ainda se pode ver hoje. Ela alimentava a fonte que se encontra na fachada que por causa disso, se chama Largo do Chafariz. Esta praça corresponde ao antigo pátio que separava o Mosteiro das dependências, onde se guardavam os instrumentos agrícolas.

Estas dependências, no lado oposto à fachada do Refeitório, estão hoje em dia ocupadas por estabelecimentos comerciais, cafés e habitações. A actual Praça D. Afonso Henriques, era outrora um pátio que fazia parte das dependências do Mosteiro, foi conhecida como Largo do Chafariz, dado a fonte ali existente, que já não jorra água que se veja. A zona envolvente do Mosteiro, com destaque para a actualmente denominada Praça 25 de Abril, neste ano de 2005 encontra-se a ser intervencionada urbanisticamente, de acordo com a perspectiva de melhor valorizar, como se impõe, a frontaria principal do edifício.

Foi em 1839 que se demoliram os muros para se fazer a comunicação do quadro do Mosteiro com a Vila. Destas demolições, resultou a junção do Largo do Chafariz com o Rossio, hoje Praça 25 de Abril, entretanto também chamada Dr. Oliveira Salazar, actualmente em grandes obras como se referiu.

O nome de Praça de D. Afonso Henriques vem de 17 de Janeiro de 1876 e aqui realizou-se durante muito tempo o mercado da hortaliça. Foi pavimentada e arranjada em 1948, tendo as velhas árvores sido substituídas pelos actuais plátanos. Alguns destes plátanos foram derrubados em 2004 para permitir (o progresso?) e as obras em curso na praça. Liga com a actual Praça da República, pelos Arco de Cister e Arco de Claraval. O Arco de Cister, chamou-se Arco do Vazão enquanto que o Arco de Claraval, Arco do Chafariz. A actual denominação provém de 1876. A Praça da República foi também em tempos um pátio das dependências do Mosteiro, tendo recebido naquele ano e dia o nome de Praça das Amoreiras. Em 17 de Maio de 1886, recebeu o nome de Praça Príncipe D. Carlos e em 8 Outubro de 1910, (obviamente?) a de Praça da República. Realizou- se aqui também o mercado do peixe, nome porque chegou a ser conhecida (31).

Pode-se, pois, encontrar uma explicação tanto no que diz respeito ao arranjo da cozinha, como à transformação da Sala dos Monges em Celeiro. Resta-nos , e isso é importante, a acusação de gula, solidamente alicerçada na existência do que foi qualificada da Cozinha de Titã, Cozinha de Gargântua ou mais simplesmente de templo de gastronomia ou de glutonaria.

(CONTINUA)

D. MAUR COCHERIL, W. BECKFORD E A COZINHA DE ALCOBAÇA (Parte III) A ALA DO REFEITÓRIO (SEC. XIII)

A ALA DO REFEITÓRIO (SEC. XIII)

Havia um plano tipo das Abadias Cistercienses.

Com algumas variantes, esse plano encontrava-se em toda a parte. O Mosteiro consistia essencialmente, num quadrilátero. Num dos lados, situava-se a Igreja. O prolongamento de um dos braços do Transepto, formava a Ala dos Monges, na qual se encontrava a partir da Igreja:

-(I)-A Sacristia;

-(II)-A Sala do Capítulo;

-(III)-A Sala dos Monges.

-(IV)-A passagem que comunicava com o exterior, a escada que conduzia ao Dormitório, sito no andar superior, um ou dois Parlatórios.

No lado oposto, encontrava-se a Ala dos Conversos, que compreendia o Celeiro, sempre contígua à Igreja, uma passagem, bem como

(V)-O Refeitório dos Conversos.

No piso superior, encontrava-se o Dormitório.

A passagem servia, normalmente, de entrada no Mosteiro.

Por esta altura, não havia ainda Palácio Abacial, nem salas de recepção. Quase sempre entre o edifício e o claustro, existia um espaço, de largura variável, chamado Ruela dos Conversos, que comunicava com a Igreja, por uma porta situada nos baixos da nave.

Esta porta ainda existe em Alcobaça.

Faz a comunicação da Sala dos Reis com a nave da Igreja (20). Paralelamente à Igreja, ligando a Ala dos Monges à dos Conversos, achava-se a Ala do Refeitório.

Repare-se na ordem, vindo das instalações dos monges:

(VI)-O Calafactório;

(VII)-O Refeitório dos Monges;

(VIII)-A Cozinha.

Havia em Alcobaça, como em todas as demais Abadias da Ordem de Cister, duas comunidades: a dos Monges de Coro e a dos Conversos.

A partir do século XI designados como conversos aqueles que renunciando à vida temporal, abraçaram a religião, a fim de se penitenciarem e levarem até à morte, uma vida de perfeição. Terá sido São Gualberto, quem primeiro lhes deu essa designação, para os distinguir dos monges de coro e dosfrades. Como comunidades distintas, os conversos e os monges de coro, tinham hábitos, ocupações e funções diferentes.

Os conversos assistiam às cerimónias religiosas ou litúrgicas fora do coro. Ocupavam-se, sob a orientação de um monge de coro, das relações do mosteiro com o exterior, como a recolha das dádivas, a visita dos doentes, o bodo aos pobres, a catequese, o trabalho das granjas e do mosteiro. O próprio vestuário era diferente, tal como o local onde habitavam no mosteiro. Os conversos de Alcobaça, usavam uma veste de lã grossa e crua e habitavam a Ala dos Conversos, na qual existia um refeitório, um celeiro e um dormitório próprios. Segundo Dom Maur Cocheril, os horários e o regime regime alimentar, menos severos para os conversos, eram diferentes dos monges de coro. Simplificando, poder-se-ia dizer que havia nos Mosteiros de Cister, uma população constituída por monges de coro, que se dedicava ao estudo, ao culto e ao ministério e outra, a dos conversos que se dedicava aos demais trabalhos. Aliás, esta divisão, também foi utilizada nos mosteiros femininos. O termo converso caiu em desuso e foi substituído por Irmão-leigo. Os Cistercienses eram conhecidos por Monges Brancos. Os monges de coro vestiam um hábito branco, sobre o qual assentava um esculápio preto que caía à frente, na parte de trás até ao meio da perna e era provido de capuz. Quando tinham de ir ao coro, os monges vestiam cogula, uma veste muito ampla de capuz e mangas, que caía até ao chão (21).

O Mosteiro Cisterciense tem uma lógica rigorosa, onde nada é deixado ao acaso ou dá lugar à fantasia. Para empregar uma expressão vulgar, o plano é funcional.

De todo ello ha resultado un plan consagrado por la tradicion, del cual uno puede raramente aportarse sin incovenientes, plan que tiene todas ventajes y es fruto combinado de la sabidoria y de la experiência practica. Oratório, Capitulo, Dormitório, Refectório, Cocina, Despensa, todo comunicando por el claustro, forma um conjunto adaptado a su fin (22).

Cada uma das divisões, que acabamos de enumerar, correspondia a uma necessidade da vida claustral. Na Ala dos Monges, encontrava-se tudo o que é necessário para satisfazer as preocupações espirituais dos religiosos de coro: Sacristia, Sala do Capítulo ou de Leitura.

Está fora de questão a existência de um celeiro nesta parte do edifício. A Ala dos Conversos, estava separada pela Ruela do Mosteiro, propriamente dito, pois os conversos formavam uma comunidade verdadeiramente distinta da dos Monges de Coro, com necessidades e actividades diversas.

Os dois refeitórios, dos monges e dos conversos, achavam-se situados nas extremidades e na mesma ala. Numa época em que não se dispunha dos modernos meios de aquecimento, era indispensável reservar uma sala, onde os religiosos que trabalhavam na Sala dos Monges, se pudessem aquecer no Inverno.

O calafactório existia para aquecimento dos monges e bem como para realização de pe quenos trabalhos, durante o mau tempo. Antes de partirem para as suas ocupações, os monges iam ensebar as sandálias, depois dos ofícios matinais (23). Esta sala servia os copistas.

O calafactório devia, portanto, encontrar-se o mais perto possível da Sala de Trabalho e o seu lugar normal era entre esta e o refeitório. Tal como a cozinha, era a divisão da abadia que possuía chaminé. Esta era, por vezes, colocada ao centro a fim de permitir ao maior número possível de monges aproximar-se do fogo. O sistema de aquecimento da Abadia de Longpont (Aisne), possuía ainda uma chaminé central, cujas dimensões não eram nada inferiores às de Alcobaça.

Quanto à cozinha, sempre de dimensões modestas, estava instalada entre os dois refeitórios. Ela comunicava com o dos monges, por uma abertura que permitia a passagem dos pratos. Assinalemos, enfim, mais em frente à entrada do refeitório dos monges e deitando sobre o alpendre, um edículo de vastas proporções, no centro do qual se achava uma fonte, o Lavabo. A Ala do Refeitório era destinada aos serviços domésticos do Mosteiro. Razões elementares de higiene exigiam que aí existisse um esgoto. Com efeito, não somente era necessário eliminar os restos da cozinha, mas também, e este detalhe tem importância, porque as latrinas encontravam-se sempre na extremidade do edifício dos monges ou dos conversos. O esgoto era indispensável à enfermaria. Por motivos de segurança, numa época em que as epidemias eram sempre de recear, a enfermaria estava instalada fora dos lugares conventuais, por detrás da Ala dos Monges. A fonte do lavabo devia também ser profusamente alimentada. As suas grandes dimensões, explicam-se pois era lá que se fazia a grande tonsura dos monges.

Os monges de coro eram tonsurados sete vezes ao ano, enquanto os conversos usavam cabelo cortado rente e sem coroa. Segundo a disciplina monástica antiga, os monges de coro rapavam a barba, o que os distinguia dos conversos, leigos, não clérigos, a quem era permitido deixar crescer a barba e o bigode (24).

Por tudo isto , havia uma rede de canalizações subterrâneas, ou mesmo ao ar livre, com inclinação suficiente para encaminhar todo o tipo de restos e alimentar as fontes destinadas aos usos domésticos. O declive do chão, determinava a orientação do Mosteiro. A Ala do Refeitório, para recolher as águas, encontrava-se sempre no ponto mais baixo. Não é necessário procurar mais longe, a causa porque Alcobaça, que reproduz de muito perto o plano de Claraval, está orientada ao inverso da abadia francesa.

É manifesto que a água era necessária para alimentar as oficinas e outras instalações situadas no recinto do Mosteiro. A mudança da localização das abadias, tão frequente nos séculos XII e XIII, não tem outra explicação muitas vezes que não seja a necessidade de dispor de água em quantidade suficiente. Frei António Brandão, na sua Monarquia Lusitana, qualifica Alcobaça como o Retrato de Claraval.

Marcel Aubert, no seu estudo sobre a arquitectura cisterciense, reproduz o plano de uma abadia, onde junto à fachada lateral da Igreja, oposta ao claustro, próximo do local onde passa o aqueduto subterrâneo que atravessa, desenha uma pequena construção circular, de forma arredondada, a curta distância da mesma fachada, mas ligada a ela por um corredor. O claustro ficava sempre do lado onde corriam as águas destinadas a limpezas. Por isso, o chão do claustro era inclinado e a Sala dos Monges mantinha essa inclinação por meio de degraus. Assim, servia-se a limpeza e a necessidade de escoar as águas (25).

Os trabalhos de condução da água eram, por vezes, muito importantes. Em Inglaterra, a enfermaria de Fountains é atravessada ao cumprimento por sete canalizações subterrâneas. Em Portugal, o exemplo mais interessante, encontra- se em S. João de Tarouca, onde se podem ainda observar os vestígios dos consideráveis trabalhos levados a cabo pêlos monges. Uma derivação do Rio Alcoa passa por detrás da cabeceira da Igreja de Alcobaça. As suas águas serviam os jardins e as oficinas. Ela alimentava o esgoto colector que passava no chão da cozinha primitiva. Uma outra derivação, achava-se sob a nave da Igreja. Uma inscrição na parede do lado colateral-norte indica o respectivo lugar. Esta derivação, alimentava a fonte do lavabo e passando sob a Sala de Aquecimento, o calafactório, lançava-se no esgoto.

Por tudo isto se conclui que havia, desde a construção do Mosteiro, um sistema de canalizações bastante complexo, que ainda subsiste. Os arquitectos que reconstruíam no século XVIII a Ala do Refeitório, utilizaram-no da melhor forma.

(CONTINUA)