O Cálice, com que o Papa Bento XVI celebrou Missa na sua visita a Valência em Julho de 2006 é, segundo uma tradição muito antiga, o que Jesus utilizou na Última Ceia. Segundo as Escrituras, Jesus e seus Discípulos celebraram a Última Ceia, na Quinta Feira, dia anterior à Paixão e morte do Senhor. Na Ceia Pascal, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio, e segundo o costume dos judeus terão sido utilizados, então, os melhores utensílios que houvesse. O Cálice deveria ser digno da missão que lhe era destinada.
Não há conhecimento preciso do itinerário do Cálice nos primeiros anos, após 33 d.c. Só chegou a lenda. Saiu um dia, como veremos, das Catacumbas de Roma, após dois seus possuidores terem morrido, um degolado e outro na fogueira. Será autêntica esta versão/versão?
Não falta quem recuse valor à relíquia e, neste caso concreto, com o argumento que ao longo da história surgiram em lugares bem dispersos, vários cálices que se reclamam de igual procedência, a Última Ceia. Muita gente tem Fé no valor, não tanto da relíquia em si, mas em Cristo ressuscitado. Ademais, será bem legítimo admitir que após o Pentecostes, os Apóstolos tenham feito os possíveis, para salvaguardar como grandes tesouros, as relíquias associadas à Paixão do Senhor.
Em 1437, chegou a Valência, como recompensa à cidade por parte de Afonso IV, O Magnânimo, pela ajuda prestada, na conquista de Nápoles. Aqui temos dados concretos.
O Papa Bento XVI, esteve em Julho de 2006 em Valência-Espanha, numa curta, mas talvez, num das mais importantes deslocações que, até então, efectuou ao estrangeiro, nessa qualidade. Parece-me que merece ser-lhe dado o devido destaque, dado o contexto em que se inseriu, o 5º Encontro Internacional das Famílias, organizado pelo PP (Partido Popular) e por grupos religiosos como o Opus Dei. O que se passa em Espanha, interessa-me bastante, tendo em conta os ventos que de lá sopram.
Na cerimónia que marcou o encerramento do 5º Encontro das Famílias, o próximo será apenas daqui a três anos no México, o Papa Bento XVI voltou a destacar os valores do casamento cristão, muito concretamente a união indissolúvel, entre um homem e uma mulher.
Como fora previamente anunciado, o Primeiro Ministro Zapatero, não esteve presente na celebração da Eucaristia, cabendo a representação do Estado à Família Real, no que foi considerado uma afronta, sem precedentes, na história das visitas papais. Quando fomos à Nicarágua, Daniel Ortega (Presidente) foi à missa. Em Varsóvia, durante o período comunista, Jaruzelski (Presidente e Chefe de Governo pró-soviético) fez o mesmo. Até em Cuba, Fidel não se esquivou à missa, comentou o porta-voz do Vaticano, que teme que o exemplo espanhol seja seguido por outros governos, nomeadamente europeus. Segundo os analistas espanhóis, Zapatero terá querido manifestar, de forma bem clara, a intenção de não aceitar intromissões, sejam elas seculares ou religiosas, na sua política social. O Papa evitou referências explícitas ao governo socialista, presidido por um ateu assumido, qual besta negra para as instituições eclesiásticas, que adoptou medidas que o Vaticano tem criticado, por alegadamente secularizarem a sociedade, atentarem contra valores fundamentais, convidando os fiéis a resistir-lhes, em suma, por as considerar ameaçadoras e desrespeitosas para com a instituição familiar. O Presidente do Conselho Pontifício para a Família, um cardeal colombiano, considerou que, está em curso um enfraquecimento da Família, que se pode traduzir num eclipse de Deus.
Destaco na Espanha, sob o Governo Zapatero, a profunda e rápida revolução na legislação e nos costumes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a possibilidade adopção de crianças por casais homossexuais, a liberalização do divórcio e do aborto, a exclusão do ensino religioso como disciplina obrigatória no ensino público, o corte das subvenções do Estado à Igreja. Tudo isto se insere, segundo o Vaticano, na linha de uma cultura que valoriza a liberdade individual do indivíduo, enquanto sujeito autónomo, como se ele se bastasse a si próprio, uma via que conduz à organização da vida social unicamente a partir de desejos subjectivos, sem referência a uma verdade objectiva prévia, como a dignidade de todo o ser humano, seus direitos e deveres.
Qual é a alternativa? Segundo Bento XVI, a maravilhosa realidade da Família, de acordo com os preceitos cristãos, assenta nos valores do casamento entre homem e mulher, no direito e dever inalienáveis de transmitirem aos filhos um património de experiências, entre as quais a Fé em Deus. É por isso que reconhecer e apoiar esta instituição, é um dos serviços mais importantes que podemos prestar para o bem comum e para o verdadeiro desenvolvimento dos homens e da sociedade. É a maior garantia para assegurar a dignidade, igualdade e verdadeira libertação da pessoa humana.
Com Zapatero a evitar declarações sobre a visita de Bento XVI, acabou por ser o Rei Juan Carlos I a comentá-la, destacando o papel da família, como núcleo essencial da vida. Por sua vez, Bento XVI rejeitou o entendimento que a sua deslocação tivesse uma eminente conotação política, pois prefere fazer luz sobre os aspectos positivos, a centrar-se nos negativos.
Mas, voltemos à questão do Santo Cálice, do Graal.
O conceito mais popular e menos elaborado do Graal, consiste no cálice que Jesus teria usado na Última Ceia e José de Arimateia recolhido o Seu sangue, escorrido da chaga aberta pelo centurião Gaius Cassinus Longinus (mais tarde S. Longino ou S. Longuinho, como é popularmente conhecido na Igreja Católica), durante a crucificação. O sangue fora recolhido quando José de Arimateia preparava o corpo para o sepultar condignamente, após o ter recebido de Pilatos.
Ao chegarem a Jesus, vendo-o já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou-Lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água (JO 19:34-35). Um soldado tomou uma lança e furou-lhe o lado e saiu sangue e água. Novamente Jesus clamou em voz e entregou o seu fôlego. E eis que a cortina do Templo se rasgou em duas do alto a baixo, a terra tremeu e as rochas se fenderam (Mateus 27:49/51).
Esta lança, A Lança Sagrada, que com este nome passou à História, era um temível gládio, cruel e letal artefacto bélico romano, concebido de modo a causar severas lesões e graves hemorragias. A partir de então foi cobiçada como troféu, desde logo pelos romanos, graças aos seus poderes alegadamente divinos, sendo um dos objectos mais interessantes e máximos da história do cristianismo. Rezam as tradições antigas que quem a possuísse tornar-se-ia senhor do mundo, invencível, dotado de poderes sem limite.
O costume existente na Roma antiga (ano 36 d.c.), fazia com que os crucificados, criminosos de delitos comuns, pois que como cidadãos de pleno direito que não eram, estavam sujeitos à pena capital, tivessem os pés quebrados a fim de facilitar a sua retirada da cruz. Os relatos bíblicos referem que, no caso de Jesus, os pés já se encontravam soltos, pelo que um dos soldados, em vez de lhe quebrar os pés, perfurou o corpo trespassando o tórax com uma lança entre a quarta e a quinta costela. O líquido, sangue e água, terá respingado do corpo na sua vista, curando-o de uma grave doença ocular, possivelmente cataratas. Mais tarde, esse soldado, outrora quase cego, converteu-se arrependido do seu acto insano e cruel, abandonou o exército, transformou-se num monge e, segundo a tradição, foi pela Cesareia e Capadócia. Acabou preso, torturado, com os dentes arrancados e a língua cortada. Há poucos relatos sobre a vida de S. Longinus, mas um pode ser encontrado como tendo sido o soldado que perfurou Jesus com uma lança (JO 19:34). Longinus, provavelmente pelo facto de o nome ser derivado do grego e significar lança. Experiências recentes, demonstraram que dificilmente o corpo de um adulto se mantém seguro por pregos, que são insuficientes para suster o peso. Daí, tem-se a ideia que Jesus foi em primeiro lugar atado pelos braços com cordas e depois as mãos e pulsos pregados. Na arte litúrgica, S. Longinus é representado como um soldado com lança apontada aos olhos ou ainda de abraços abertos, segurando uma lança. Herodes, O Grande, Rei da Judeia (37 a.c./4 d.c), é referido como um dos seus primeiros proprietários. Em 570 d.c., registos dizem que ela terá estado em exposição na Basílica de Monte Sião, em Jerusalém, juntamente com a Coroa de Espinhos. Pelo seu carácter sagrado, os cruzados assumiram como missão recuperar o tesouro, levando-o para Roma.
O incidente do soldado Longinus foi registado por S. João como prova de que na morte de Cristo, haviam sido cumpridas velhas profecias, já do Antigo Testamento pois, nenhum dos seus ossos será quebrado e verão que o trespassam.
Existe outra variante sobre o papel de Gaius Casssius na crucificação de Jesus. Fora afastado do serviço activo por causa de cataratas nos olhos. Enviado a Jerusalém, ali ficou como observador dos movimentos políticos e religiosos da Palestina e, durante cerca de dois anos, acompanhou Jesus de perto e até ao fim na sua actividade messiânica. Ao seguir o processo de condenação e execução onde era acusado de minar a autoridade de Roma, impressionou-se com a Sua dignidade ao suportar o martírio. Os sacerdotes judeus defendiam que era necessário mutilar o corpo, para desmentir a proclamada condição de Messias, pois uma vez que, de acordo com as Antigas Escrituras, os Seus ossos não seriam quebrados. Gaius Cassius, impressionado com o tétrico espectáculo e com a grandeza de Jesus, decidiu impedir a mutilação. Assim, esporeou o cavalo rumo à cruz e trespassou o tórax do crucificado, procedimento, aliás, costumeiro entre os soldados romanos quando se queriam assegurar que o inimigo, ferido no campo de batalha, estava morto. Não se sabe Gaius Cassius tomou a lança da mão do comandante romano que a usava em nome de Herodes ou se utilizou a sua própria lança. Seja como for, esta lenda também vingou e corre paralela à outra.
Muito, mais ou menos romanceadamente, se poderia ainda escrever sobre a Lança Sagrada. Na primeira Cruzada, em 1097, quando os cruzados sitiavam Antioquia, no norte da Síria, foram surpreendidos pelos homens do sultão de Mossul. Com fome e mal armados, os cruzados pareciam destinados ao fracasso, quando Raimond, de Toulouse, recebeu um pobre padre provençal, de nome Pedro Bartolomeu, que disse que o Apóstolo André lhe tinha aparecido em sonhos e revelara que uma relíquia capaz de trazer a vitória aos cruzados, a lança que trespassara Jesus na cruz, se encontrava enterrada numa igreja da cidade. Raimond seguiu o padre e mandou doze dos seus homens escavar o solo, enquanto os demais esperavam no exterior. Quase ao fim da tarde, foi o próprio Pedro Bartolomeu quem descobriu a Lança Sagrada e a entregou aos cruzados. A partir deste momento, na posse da relíquia, os cruzados tornaram-se invencíveis e tomaram a cidade de Antioquia que sitiavam. Através dos tempos a Lança Sagrada despertou a cobiça e a ambição de muitas personalidades históricas. O Papa Inocêncio VIII, foi detentor da Lança Sagrada, desconhecendo-se a razão de ela um dia ter saído do Vaticano, vindo a cair nas mãos de governantes, guerreiros e soberanos (pelo menos uns 45) e leigos. Frederico Barba Roxa tela-à tido em seu poder.
Segundo e sempre de acordo com a lenda, os que a possuíram ao longo de quase dois mil anos, vieram a ter um fim trágico ou misterioso. Consta que durante a Revolução Francesa, terá saído da Biblioteca Nacional de Paris, tendo Napoleão desenvolvido esforços para se apoderar dela. O Kaiser Guilherme, da Prússia, também se apoderou da Lança Sagrada. De mão em mão, de tragédia em tragédia, a Lança de Longinus chegou à posse dos Habsburgos, na Áustria, até ser guardada no Hofsburg Treasure Museum, de Viena. A tradição mágica da Lança Sagrada continuou a propagar-se e a chegar ao interesse e conhecimento de outros.
Richard Wagner era um dos compositores preferidos de A. Hitler. A sua música épica, promovia, segundo o entendimento de certas correntes, as bases de uma nova sociedade e influenciou a acção do Partido Nacional Socialista. A ópera Parsifal desenvolveu o tema da Lança Sagrada, despertando a partir daí a atenção do então jovem A. Hitler, ao tempo cerca de vinte anos. Sabe-se que este fez visitas ao Museu Hofsburg, em Viena, e se deteve fascinado diante da vitrina daquele símbolo sagrado, materialmente não mais que um rústico pedaço de metal. E veio a deixar escrito que eu percebi imediatamente que este era um momento importante da minha vida. Fiquei, silenciosamente a contemplá-la durante alguns minutos, alheio a tudo o que se passava à volta. Ela pareceu-me conter um significado secreto e profundo que fugiu à minha compreensão, um significado que senti no íntimo do meu ser, que ainda não podia trazer à tona do inconsciente. Senti como se a tivesse já segurado nas mãos há séculos atrás e que, uma vez, a reclamei como talismã de poder e mantive o destino do mundo nas minhas mãos. Que espécie de loucura era essa que invadiu a minha mente e cresceu como um tumor no peito?
Não tardou muito que Hitler conquistasse o poder.
Relembrando as visitas que Hitler fez em Viena de Áustria, à Lança Sagrada, o Dr. Walter Stein escreveu que naquela ocasião em que primeiro ficámos de um lado para outro em frente da Lança do Destino, pareceu-me que Hitler se encontrava em transe tão profundo que se assemelhava a um tipo de catarse e a um total eclipse do seu subconsciente.
Referindo-se a esses acontecimentos, Hitler declarou mais tarde numa entrevista que vagueei como um sonâmbulo por onde a Providência me conduziu.
Heinrich Himmler, um dos mentores espirituais do nazismo, era um interessado e estudioso das Ciências Ocultas. Por sua vez, Hitler que mantinha interesse por artefactos e relíquias religiosas, ainda que de origem judaica, não demorou a ambicionar a posse da Lança Sagrada. Aquando da anexação (Ansclhuss) da Áustria, em Abril de 1938, determinou o seu confisco ao Museu de Viena, enviando-a para a Alemanha, como era prática nas pilhagens de obras de arte ordenadas especialomente em proveito de Göring, indústrias e produtos dos territórios ocupados, no que era considerado natural muito concretamente se se tratasse da União Soviética. Como aconteceu com todos os outros conquistadores, detentores da Lança Sagrada, o poder de Hitler um dia findou, as tropas Aliadas tomaram Berlim e ele suicidou-se, antes de ser capturado. H. Himmler, algo tempo antes, havia decidido que a Lança Sagrada precisava de medidas especiais de protecção, um abrigo alternativo numa Alemanha a ficar em ruínas. Fez publicamente anunciar a remoção (aliás do que seria apenas uma réplica), conjuntamente com outras peças, para um ponto não identificado, enquanto que a verdadeira Lança Sagrada iria para um novo esconderijo, a salvo dos inimigos do Reich. Um oficial nazi que participou na operação, ao fazer a relação das peças que deveriam ser removidas, consignou a Lança de Mauritius (o nome oficial da peça). Havia entre as peças históricas do Reich, uma relíquia com um nome parecido, a Espada de Mauritius, que pertenceu a Mauritius, comandante da Legião Tebana que com ela nas mãos, morreu martirizado por ordem do imperador romano Maximiano, ao recusar-se a adorar deuses pagãos. Em solidariedade com o chefe, os seus 6666 legionários também se recusaram a abjurar, ajoelharam-se e ofereceram o pescoço à espada. Maximiano decidiu-se pelo massacre dos homens, como oferenda aos deuses. A mais valorosa legião romana do seu tempo, foi deste modo sacrificada numa chacina sem igual no mundo antigo. Foi esta a peça transportada para outro local, e não a Lança de Longinus. Na confusão que grassava na derrocada alemã, ninguém deu pelo sucedido e o oficial alemão, autor do engano, um tal Willi Liebel, suicidou-se antes do colapso do Reich. Nuremberga onde isto ocorreu, era um monte de ruínas. O Gen. George S. Paton, providenciou a apreensão da verdadeira Lança Sagrada, essa sim, que se encontrava guardada zelosamente num secretíssimo santuário subterrâneo na zona de Nuremberga, descoberto por mero acaso por um soldado americano que viu um túnel que conduzia a duas enormes portas de aço, com mecanismo estilo casa-forte bancária. Este abrigo deveria ser defendido, segundo instruções precisas, até à última gota de sangue. Às 14h10m, do dia 30 de Abril de 1945, dia em que Hitler se suicidou no bunker da Chanceleria do Reich, a verdadeira Lança de Longinus passou para as mãos do Exército Americano. A partir daí, os EUA tornaram-se os seus guardiães e depressa se converteram numa superpotência, com poderes nucleares. A saga parecia repetir-se, mas o Gen. Eisenhower. em 1946, fez com que a Lança Sagrada e as jóias da Casa Real dos Habsburgs voltassem ao local de origem, o Museu de Hofsburg, aonde permanece desde então ao abrigo de delírios de loucos ou megalómanos. Assim, segundo a lenda, só uma vez foi milagreira, concedendo o dom a quem tão impiedosamente, há cerca de 2000, anos a empunhou!
Estudando, hoje em dia, a história esotérica do nazismo, parece poder concluir-se que A. Hitler e alguns dos seus principais companheiros desempenharam um papel, não irrelevante, na estratégia geral da implantação do Reino das Trevas, num trabalho com a marca do Anticristo. Antes da invasão e anexação da Áustria, em 1938, Hitler veio outras vezes ao Hofsburg Museum e pesquisou fontes sobre o assunto. Envolveu-se em teorias profundas, teve ao que se diz revelações que o marcaram, incendiaram a sua imaginação e desataram os sonhos e comportamentos mais fantásticos. Aquelas visitas, foram o sinal documentado da missão de Hitler e o indício que teria poderes de médium no seio de uma equipa espiritual trevosa, empenhada em implantar na Terra uma Nova Ordem. Hitler escreveu mais tarde que a Providência encarregou-me da missão de reunir os povos germânicos, devolver a minha Pátria ao Reich Alemão. Acreditei e acredito nessa missão. Vivi por ela e creio que cumpri.
Tudo terá começado, com o impacto da visão da Lança no Museu. Daí em diante, Hitler aprofundou o estudo daquilo que pudesse estar relacionado com o fascinante dilema. Sim, Hitler estudou o assunto, mas não se limitou à teoria. Passou à prática, convencido da sua missão transcendental, refinando os instrumentos e recursos para a levar a cabo. Essas pesquisas levaram-no ao exame da lenda do Santo Graal, de que R. Wagner foi um intérprete e de que se serviu, como referi, para o enredo de Parsifal. Este compositor complexo, de acordo com certas interpretações, transpôs para a música um objectivo mediúnico, cegar as almas por meio da perversão sexual e privá-las da visão espiritual, de modo a não poderem ser conduzidas pelas hierarquias celestiais.
Hitler acreditava também na reincarnação de Tibério, um dos mais sinistros e devassos imperadores romanos. Conta-se que tentou adquirir a Alex Munthe, autor do Livro do S. Michel, a casa do mesmo nome em Capri, que terá sido o último reduto de Tibério, que ali morreu assassinado. O Dr. Munthe recusou a venda porque ele mesmo acreditava ter sido anteriormente o próprio Tibério. Não posso entrar na discussão do mérito de tais histórias, mas estas teorias ou especulações permitem aquilatar do interesse de homens poderosos pelos segredos e mistérios de Leis Divinas, para depois as poderem defraudar.
A lenda não se resume a estes factos (bíblicos) e, assim, muitas são as teorias sobre a origem do nome Graal. A Igreja Romana não confere ao Cálice, mais que um valor simbólico e defende que o Graal não vai além da literatura medieval, sem prejuízo de reconhecer a existência histórica de certas personagens. E embora tenha também dado apoio a milagres, nunca deu especial cobertura a esta lenda, aliás profusamente desenvolvida de forma escrita e pictórica. Nas representações de José de Arimateia, nos vitrais medievais, ele aparece a segurar não um cálice, mas dois frascos. Alguns artistas, fizeram de ágata o cálice, tal como o que se encontra na Catedral de Valência e com que iniciei este tema.
Ao iniciarmos a demanda do Cálice Sagrado, o Santo Graal, será impossível deixar de fora as versões das lendas e obras medievais de meados dos séculos XI e XII. Tal como na Bíblia, os factos relatados encontram-se em linguagem figurada, para não dizer cifrada, seja por ausência de conhecimentos científicos dos autores ou pela necessidade de ocultar ou relatar factos de determinada feição. Não é possível neste sector deixar de ter em conta a literatura da Idade Média, os seus contos e trovas. A origem da palavra Graal é duvidosa, como quase tudo o que lhe está conexo, mas isso não lhe retira o interesse. Muitos associam-na a gradalis (cálice). Outros insistem que não há dúvida (?) quanto ao seu significado ser um prato ou platter trazido à mesa, durante uma refeição.
Com o brilho refulgente das pedras ou coisas sobrenaturais, o Graal aparece na literatura quer nas mãos de um anjo, quer sozinho, por conta própria. Todavia vê-lo, estava reservado a cavaleiros impolutos e castos.
Corria o Verão do ano de 258 e a perseguição decretada contra os cristãos pelo Imperador Romano Valeriano, prosseguia muito acirrada e sangrenta. Nem sequer as catacumbas eram refúgio seguro para os perseguidos. O Papa Sisto II, chamou Lourenço para lhe confiar a guarda de um tesouro sagrado, a mais importante relíquia que a comunidade cristã de Roma possuía. Tinha o pressentimento de que o seu fim estava próximo, como aliás aconteceu, porque apesar de ter conseguido iludir algumas vezes os seus perseguidores, o cerco estreitava-se cada vez mais.
Sisto II, era provavelmente originário da Grécia e foi um Papa relevante, embora apenas durante um ano (257-258), tendo sido morto durante as perseguições do Imperador Valeriano. Sisto II tentou reatar as relações entre a Santa Sé e o bispado de Cartago, no norte de África. O culto dos cristãos em Roma passou à clandestinidade. Sisto II, mais tarde S. Sisto, após ter sido eleito Pontífice, e seus companheiros foram surpreendidos no decurso de uma cerimónia no cemitério da Via Apia (Roma). Presos, sem que abjurassem a fé, vieram a ser martirizados. O mesmo veio a acontecer ao bispo de Cartago, S. Ciprião (Cipriano), em 14 de Setembro de 258, acusado por Roma que viveste longamente de modo sacrílego, chamaste muitos à tua seita criminosa e te fizeste inimigo dos deuses romanos e de seus sagrados rituais. Os piedosos e santíssimos Imperadores Valeriano e Galieno Augustos e Valeriano nobilíssimo César, não conseguiram reconduzir-te à observância de suas cerimónias religiosas. E, por isso, a partir do momento em que te tornaste autor e instigador dos piores crimes, serás exemplo para os que associaste às tuas acções criminosas. Com o teu sangue será sancionado o respeito às leis. Ditas estas palavras, foi lido o decreto imperial, escrito numa tabuinha, segundo o qual ordeno Cipriano, que sejas punido com a decapitação.
A Igreja de Cartago mandara eclesiásticos a Roma para colherem notícias sobre o decreto de perseguição do Imperador Valeriano. Retornaram, levando a notícia do martírio de Sisto II, que ficou registada como, comunico-vos que Sisto padeceu o martírio com quatro diáconos em 16 de Agosto, enquanto se encontrava no cemitério, Catacumbas de São Calisto.
Com todo o sigilo, Sisto entregou a Lourenço um cálice feito em ágata cornalina vermelha escuro, indicando-lhe que o pusesse a salvo, de qualquer intruso ou infiel. Sisto explicou-lhe que, de acordo com a tradição dos Bispos de Roma, seus antecessores, este era o cálice que Jesus tinha utilizado na Última Ceia. O Cálice terá sido inicialmente confiado a S. Pedro, que o teve em Antioquia e depois levou para Roma. Segundo a mesma tradição, S. Pedro e os Papas seguintes, guardaram o Cálice como um tesouro especial, que utilizavam na celebração da Missa. O Cálice era um poderoso testemunho de Fé na Igreja primitiva, os sucessores de Pedro, iam recebendo o precioso sangue do Senhor, sinal da união em Cristo.
Os receios do Pontífice viram-se realizados dias depois. Surpreendido por um grupo de soldados romanos, Sisto II foi degolado, sem dó, nem piedade.
Mas a relíquia estava já a bom recato, porque Lourenço aproveitando a viagem a Hispania de dois soldados cristãos, lhes pediu para a entregar, até virem melhores dias, à guarda de seus pais, Orencio e Paciência, que viviam em Loreto, pequena localidade nos arredores de Huesca, no Levante Ibérico.
Lourenço teve de actuar com astúcia porque também se encontrava em perigo. Aliás veio a ser detido e martirizado de forma cruel. Negando-se a renunciar à sua Fé, foi levado à fogueira, como um animal. Nos dias que se seguiram ao martírio, correu em Roma o rumor de nunca ter perdido o sentido de humor, mesmo em tão capital transe. Alguns, afirmaram que chegou a pedir que o virassem, já que estava bastante queimado, apenas num dos lados do corpo!!!
A viagem dos soldados até à Hispania decorreu no meio de sobressaltos, mas eles cumpriram a missão que Lourenço lhes confiara. O vaso sagrado permaneceu em Huesca durante quatro séculos e meio, até que uma nova ameaça impôs a sua transferência para lugar mais seguro. À cidade de Huesca chegavam notícias alarmantes. Grupos de infiéis, provenientes do norte de África, que haviam penetrado na Península pelas Colunas de Hércules, avançavam rapidamente em direcção ao norte.
Ao Bispo Adalberto chegou a informação, proveniente de Caesar Augusta (posteriormente Saragoça), que os caminhos para Huesca estavam abertos aos muçulmanos. O Ebro passou a correr tinto de sangue, após a feroz resistência oferecida pela guarnição visigoda da cidade de Huesca, antes de cair nas mãos do inimigo.
O Bispo, decidiu abandonar a cidade e pôr a salvo a relíquia. Dirigiu-se para as montanhas do norte, considerando que uma gruta naquelas terras longínquas, poderia ser o melhor local para a guardar.
Numa manhã do Inverno, do ano de 713, Adalberto abandonou Huesca. Procurou, com afinco, um esconderijo numa gruta da montanha ou que o cálice ficasse à guarda de pessoas piedosas, que o conservassem e não esquecessem a sua memória. Após dúvidas e reservas, Adalberto acabou por confiar o cálice a um eremita chamado Juan Atares, que habitava uma gruta no Monte Pano. A escolha de Adalberto revelou-se tanto mais acertada, quanto é certo que com o decorrer do tempo, a gruta veio a transformar-se num importante cenóbio beneditino, o Mosteiro de San Juan de la Peña, sito nos Pirinéus. Por esta altura, começaram a propagar-se pela Europa as muitas lendas sobre o cálice da Última Ceia, escondido por uns monges nas montanhas. As mais famosas situavam a relíquia em Inglaterra, no ocidente de França ou no norte de Espanha. Estas são regiões próximas do Mosteiro de San Juan de la Peña. O Mosteiro adquiriu importância pois, à medida que os cristãos iam fazendo recuar os muçulmanos, o tesouro ficava protegido. A prosperidade da comunidade de San Juan de la Peña levou a que um dos Abades encarregasse um renomado ourives de trabalhar o cálice e lhe conferir a forma que hoje tem. O artista efectuou um magnífico trabalho, com inspiração no artesanato muçulmano, e deixou para a posteridade gravada com a sua letra para o que a ilumina.
Assim, ali ficou o Graal. No verão de 1399, um cavaleiro exausto chegou ao Mosteiro de San Juan de la Peña. Trazia instruções muito precisas de Martin, o Humano, para entregar pessoalmente ao D. Abade, e elas eram explosivas. O monarca, ávido da relíquia, reclamava o Graal para si e para o facultar ao culto popular em lugar menos agreste. Deveria ser levado para Saragoça, a capital do reino.
Esta pretensão não foi bem aceite pelos frades beneditinos, mas o que acabou por prevalecer foram os desígnios do soberano. Um mês depois, a 26 de Setembro de 1399, o Graal chegava a Saragoça. O texto mais antigo que se conhece sobre o Cálice, é o respeitante a sua entrega ao Rei, e descreve bem o que se encontra em Valência. Na cidade, as opiniões dividiram-se acerca do lugar aonde deveria ser depositada e exposta a relíquia. Uns, entenderam que o local apropriado era a Capela Real. Esta era, a opinião maioritária entre o clero. No seio da nobreza, entendia-se que o local mais seguro, era o Palácio Real. Neste conflito de opiniões e vontades, prevaleceu a vontade do monarca, pelo que o Graal ficou guardado na Capela da Aljafaria. Para aplacar a consciência, Martin, O Humano, coagido pelo sector mais radical do clero saragoçano, permitiu que, em determinadas datas do ano, a relíquia fosse exposta na Sé, ao culto popular. A partir daqui a sua trajectória está bem documentada, se bem que antes dele, nada se encontra que se lhe refira.
Quando o monarca se transferiu com a corte para Barcelona, levou consigo a tão valiosa e apreciada relíquia. O Graal havia despertado a devoção dos saragoçanos e as suas veementes reclamações acompanharam a saída do rei. Mas estas e os prantos não demoveram o monarca, que entendia ter pleno direito a manter consigo a relíquia. Com o falecimento de Martin, o Graal apareceu no inventário dos seus bens. Barcelona acabou por não ser o destino final do Cálice.
Afonso V, o Magnânimo, deu continuidade a uma política expansionista pelo Mediterrâneo, o que não era de todo original, na perspectiva da corte de Aragão. O Reino de Nápoles era o seu grande objectivo, mas a empresa necessitava de importantes recursos financeiros para equipar a frota e as tropas. O Rei pediu e recebeu generosas contribuições de Valência, através de um empréstimo do Conselho Valenciano e do Cabido da Sé.
Em Março de 1437, Afonso V, como forma de retribuição às instituições de Valência, fez-lhes a entrega de algumas relíquias que possuía, entre as quais esta, o Santo Graal. Na cidade, passou a correr todo o tipo de boatos, uns que o rei dera a relíquia em pagamento de serviços, outros que tal fora um mero gesto generosidade. Enquanto isto, os valencianos iam acorrendo à Catedral, para confirmar se a relíquia ali estava guardada. Pouco lhes importava, no fundo, se no gesto do Rei, houvera pagamento ou generosidade. A verdade é que no dia 18 de Março de 1437, véspera do dia de S. José, ela estava lá e desde então nunca mais saiu do coração e da devoção dos valencianos.
Trezentos anos mais tarde, um acontecimento terrível ocorreu na Catedral de Valência, em plena Semana Santa. Era o dia 3 de Abril de 1744, decorriam aos rituais litúrgicos, quando o Arcebispo D. Vicente Frigola Brizuela, deixou cair o cálice, que se partiu. Isto foi entendido como uma catástrofe. O Arcebispo de Valência, recomposto da emoção, recolheu os bocados, mandou chamar o melhor ourives da cidade, que tranquilizou os ânimos, e assim sem perder tempo, deu início a um magnífico trabalho de restauro, que permitiu um concorrido e soleníssimo Te Deum para que todos os valencianos pudessem contemplar a relíquia no tradicional esplendor.
Sessenta e cinco anos depois os responsáveis da Catedral valenciana, tomaram uma decisão drástica, no seguimento das notícias que chegavam, os Franceses não respeitavam nem a religião, nem as relíquias. Quem chegava a cidade relatava os saques, as violações e os sacrilégios praticados pelos invasores napoleónicos, pelo que na véspera do dia de S. José, de 1809, o Graal foi levado para Alicante.
Nos anos seguintes, viveria ainda um périplo que incluiu as Baleares. Quatro anos e tal o Cálice esteve fora de Valência, até que em Setembro de 1813 com os franceses atravessando os Pirinéus a toda a velocidade em direcção ao norte, regressou à Catedral do Turia.
No inventário efectuado após o regresso, ficou anotado ser La caixa de plata que contien el Santo Cáliz de la Cena.
Em 1916, por iniciativa do Cabido ocorreu nova mudança, embora sem ultrapassar os muros da Catedral. Foi levado da Capela das Relíquias para a antiga Sala do Capítulo, que passou desde então a ser conhecida como a Capela do Santo Cálice.
Vinte anos depois, a Espanha assolada pela Guerra Civil, viveu episódios de grande violência em Valência, cuja Catedral foi incendiada e saqueada. O Graal correndo perigo, teve que ser retirado. Uma mulher, chamada Sabina Suey, recolheu-o entre as roupas e ocultou-o em casa até ao termo da guerra, só então voltando à Catedral.
Ao longo dos séculos, três papas, agora quatro, estiveram ligados ao Graal de Valência, dois deles pela lenda ou tradição.
Sisto II, que o entregou a Lourenço (mais tarde S. Lourenço) e que lhe havia sido transmitido desde Pedro e sucessores.
Bento XIII, diz-se que influenciou os monges do Mosteiro de San Juan de la Pena, para que aceitassem o pedido/ confisco de Martin.
João Paulo II, em 8 de Novembro de 1982, aquando da sua visita a Valência, teve-o nas mãos durante a missa campal que celebrou. Pessoas que assistiram de perto à celebração, contam que notaram a expressão de satisfação do Papa ao consagrar no Cálice o precioso sangue. O professor universitário e historiador madrileno Antuñano Álea, que se tem interessado muito por este assunto, entende que um dos momentos mais importantes da história do Cálice foi a visita do João Paulo II e a sua utilização na missa campal. A história do Santo Cálice prosseguirá seu curso, tal como a da Igreja, mas o gesto de João Paulo II ao consagrar nele o Sangue do Senhor, pode significar a valorização e introdução da relíquia no terceiro milénio.
O papa Bento XVI, também celebrou com o Graal, aquando da sua visita deste ano.
O Cálice pode ser visto na Catedral de Valência, onde se guarda num relicário de ouro. A Missa é celebrada às 9h,30m e depois os peregrinos podem aproximar-se e venerá-lo. Para os crentes o mais importante é o seu valor como ícone sagrado, não tanto como uma imagem piedosa ou a representação de um motivo religioso, mas como meio para a contemplação espiritual, a meditação, a oração. Longe de conter propriedades mágicas, o ícone é sagrado, porque evoca o mistério da redenção, de uma forma espiritual e ao mesmo tempo real, estabelecendo a comunhão entre quem o contempla e esse mistério.
Histórica ou romanescamente falando, muitos cálices disputam a honra de terem sido utilizados por Jesus, na Última Ceia.
Os mais importantes e conhecidos são:
1)-O Graal de Jerusalém:
Uma tradição que remonta ao sec. VII, assegura que um peregrino anglo saxão o viu na Igreja do Santo Sepulcro.
2)-O Graal de Génova:
Chamado Sacro Catino, teria sido levado para a Catedral de S. Lourenço, pelos cruzados, no século XII. Como?
Em 1101, um exército franco, comandado pelo Rei Balduíno I, conquistou Cesareia, cidade situada na costa do Mediterrâneo e fundada por Herodes, que assim a denominou em homenagem ao Imperador César Augusto.
Esta tornou-se sede de bispado e além dos francos, nela também se vieram a radicar cristãos orientais e muçulmanos.
Os genoveses encontraram na cidade um vaso esmeraldino e declararam estarem perante o Santo Graal. Ele foi levado para Génova e colocado na Catedral de S. Lourenço.
Cesareia foi depois conquistada por Saladino em 1187, após curto cerco, retomando aos cristãos em 1191 por Ricardo Coração de Leão, que expulsou os muçulmanos.
Numa janela da Catedral de Bourges num vitral, o Papa Sisto II entrega o cálice a S. Lourenço.
Mas sobre o Sacro Catino existe uma outra interessante versão, não de todo coincidente. Em 1101, os genoveses encontraram um prato verde, esmeralda, chamado Sacro Catino, que depois trouxeram para casa, como despojo pela conquista de Cesareia. Uma crónica genovesa do séc. XVI, que se encontra na Biblioteca de Berna, conta que esse prato fora chamado de Santo Graal, e que foi o utilizado por Jesus na Última Ceia. Para outros, era o prato que o Rei Artur utilizava nas suas refeições. Dizia-se ainda que o prato provinha do Templo de Jerusalém. Napoleão apoderou-se dele e levou-o para a Notre Dame, de Paris, aonde se encontraria a Coroa de Espinhos. Exames posteriores demonstraram, porém, que era de esmalte e não de esmeralda.
3)-O Graal de Antioquia:
Cálice de dois litros, também reclama essa honra, mas diz-se que seria demasiado grande para passar de mão em mão, na Última Ceia.
S. Jerónimo diz que havia duas taças, sendo uma de prata, para o vinho e outra de pedra, para o pão.
4)-O Graal Inglês:
José de Arimateia, pediu o corpo de Jesus a Pilatos, a lança que o feriu, bem como o cálice onde recolheu o sangue. Encontra-se em Glastonbury, Inglaterra, que desde então é chamada capital britânica do Graal, aonde passou a estar associado às lendas arturianas, e estariam enterrados o Rei Artur e sua esposa.
José de Arimateia, tido por fundador da Igreja em Inglaterra, ficou assim conhecido por ser de Arimateia, cidade da Judeia. Homem rico, bom e justo, era membro do Sinédrio, o colégio (associação) composto pelos mais altos e prestigiados magistrados, que votou a morte de Jesus, mas não ele. Era amigo de Jesus, mas manteve essa relação escondida, e o proprietário do sepulcro em que Este foi sepultado, a cerca de 50 metros do local da crucificação. Atribui-se a José de Arimateia, o lençol de linho em que Jesus foi envolto, conhecido como o Santo Sudário. Mas isso é outra história, não menos interessante, que teve uma evolução recente, que referirei como parêntesis.
(Foi considerada esta relíquia, peça em linho puro com 4,36m por 1,10m, como sendo a fotografia do corpo de Jesus. O aparecimento destes tipo de testemunhos insere-se frequentemente numa história de fraudes, mais que lendas. Mas o Santo Sudário ainda permanece como um enigma. O primeiro registo da sua existência remonta a 1356, em França, para onde teria sido trazido pelos cruzados. Guardado na Catedral de Turim, ao longo dos anos, com registos desde 14 de Setembro de 1578, tem mantido significativas e interessantes manchas de sangue humano, tipo AB, acastanhadas. A grande estupefacção, aconteceu no século XIX, quando a relíquia foi fotografada e os negativos revelaram os contornos de um corpo inteiro de homem, eventualmente crucificado dadas as marcas de flagelo, coincidindo com muitos pormenores evangélicos. Provou-se que as imagens inscritas não eram pintadas. Alguns anos depois, testes de carbono 14, revelaram que a peça se limitava ao século XIV, tudo apontando portanto para uma boa falsificação medieval. Mas a história não se queda por aqui. Há cerca de um ano (2005) um reputado cientista americano refutou as datações obtidas pelo rádio carbono, assegurando terem então sido feitas num remendo do lençol. A peça, segundo esse perito americano, teria mesmo cerca de 2000 anos. Mas se é assim permanece a pergunta e o enigma. Como é que as imagens de um corpo crucificado ficaram impressas num pano que o envolveu a duraram cerca de vinte séculos? Esta questão continua a opor crentes, a não crentes, tendo certos círculos do Vaticano defendido que a Igreja não tem competência específica sobre este tipo de questões. A passagem e a mensagem de Jesus continuam a apaixonar teólogos e historiadores que, além do mais, bem gostariam de saber qual foi a sua cara).
Voltando atrás. Conjuntamente com Nicodemus, José de Arimateia promoveu a retirada do corpo de Jesus da cruz. Quando o lavaram, as feridas sangraram e este lembrou-se que as gotas deveriam ser guardadas e bem guardadas. De acordo com alguns escritores, pesquisadores e novelistas como o medieval Robert de Boron, Arimateia ficou na posse do Santo Cálice da Última Ceia, levando-o para a Europa. Depois desse episódio, depósito de Jesus na sepultura, José de Arimateia não voltou mais a ser referido nos textos evangélicos.
5)-O Graal dos Templários:
Durante duzentos anos os Templários acumularam doações e relíquias, até que Filipe, o Belo, Rei de França, os expulsou sob a acusação de bruxaria.
Depois de expulsos de França, os Templários refugiaram-se em Portugal com a cobertura de D. Dinis e fundaram a Ordem de Cristo, com sede em Tomar.
No Código da Vinci, Dan Brown ignora Portugal apesar de os guardiões do Graal, os Templários, terem no nosso País um dos seus grandes Conventos, e de terem vindo para cá quando foram obrigados a fugir da Terra Santa. Segundo Vítor Manuel Adrião, o nosso País foi ponto de passagem e paragem do Santo Graal, sendo certo e sabido que a tradição refere que S. Bernardo Claraval mandou recolher nas galerias do Templo de Salomão um objecto sagrado que mandou trazer para a Europa. E quando o Conde D. Henrique o convidou para o Mosteiro de Stª Maria de Alcobaça, o Santo Graal veio para cá.
Segundo este autor, são vários os momentos que fundamentam a tese que Portugal poderá ter sido porto do Graal. No documento de doação de Tomar, aos Templários, há um sinal rodado, um selo oficial, onde se pode ler Porto do Graal. Ou seja, Portugal, como porto do Graal, tem sentido.
A Ordem dos Templários, militar e religiosa, foi fundada em 1118, em Jerusalém por nove cavaleiros para proteger os peregrinos que iam aos locais sagrados conquistados e em poder dos Cruzados. Também foi conhecida como a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Reza a lenda que os primeiros cavaleiros, se instalaram no antigo Templo de Salomão e aí encontraram documentos e tesouros que os tornaram muito poderosos. Diz-se que também ficaram com a tutela do Graal.
Sobre a relação dos Cavaleiros Templários com o Graal voltaremos a falar adiante.
6)-O Graal de França:
Protegido pelas lojas maçónicas, encontra-se na Igreja de Sainte Marie de La Mer, perto de Arles.
7)-O Graal da Patagónia:
Encontra-se numa cidade subterrânea da Patagónia, Argentina, na meseta de Somuncurá, protegido por um imenso escudo de rocha basáltica.
Não se esqueça a lenda que teria sido Maria Madalena, a única mulher presente na crucificação, além de Maria, quem teria ficado guardiã do cálice e o levado para França, onde passou o resto dos seus dias. Embora haja uma lenda mais forte que refere que foi em Éfeso que Maria passou os seus últimos dias, antes de subir ao Céu, local onde esteve Bento XVI quando visitou este a Turquia, tal como aconteceu com a Aninhas e comigo, há anos.
Sobre José de Arimateia existem variadíssimas lendas, com destaque como vimos para a obra de Robert de Baron (1190), José de Arimateia.
J. de Arimateia, como vimos começou a compreender e a amar Jesus, mas manteve essa relação escondida, com medo dos judeus. Após a crucificação, pediu a P. Pilatos que lhe desse o corpo de Jesus. Tendo este atendido, ainda lhe deu o recipiente com que Jesus fizera a oferenda na Última Ceia. Depois, Arimateia tirou o corpo de Jesus da cruz com a ajuda de Nicodemus. Quando lhe lavaram as feridas, começaram elas a sangrar, pelo que Arimateia lembrou-se do vaso e pensou guardar nele as gotas. Sepultou Jesus e levou o vaso para sua casa. Os judeus, muito preocupados com o desaparecimento do corpo de Jesus, acabaram por prender Arimateia de modo a não mais ser encontrado, levando-o para uma cela sem janelas e luz, onde todos os dias aparecia uma pomba, deixando-lhe uma hóstia, como alimento. Assim sobreviveu. Jesus apareceu-lhe na prisão e então Arimateia confessou, finalmente, a sua devoção por Ele, e pediu perdão por estar na companhia dos que desejaram a sua morte. Jesus consolou-o:
- Deixei que ficasses com eles por saber que irias prestar-Me grandes tarefas, que os Meus discípulos não lograriam. Tu fizeste-o por compaixão. Tu amaste-Me secretamente, tal como Eu a ti e o nosso amor se revelará a todos, para prejuízo dos infiéis, pois tu guardarás o sinal da minha morte, hei-lo aqui.
Jesus mostrou e entregou-lhe então o Graal:
- Ele será teu e o guardará assim como todos a quem o entregares. Mas os guardiães devem ser três e estes serão em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Estes três serão uma e a mesma coisa, um único Deus. Nisso deves crer.
Recebido o Graal, Jesus disse a Arimateia:
- Estás a guardar o sangue de três pessoas da única divindade que flui das feridas do Filho encarnado. Que se sujeitou à morte para salvar a alma dos pecadores. Sabes o que ganhas com isto? Que nunca mais será feito um sacrifício e quem souber isso será o mais amado do mundo, e a companhia dos que souberem do facto e que escreverem livros sobre o assunto será a mais procurada do que as outras pessoas.
José de Arimateia quis saber a razão de receber tão grande responsabilidade, que não pedira, nem merecia. Segundo Baron, Jesus disse-lhe:
- Tiraste-Me da cruz e colocaste-Me no túmulo, depois que estive na cela na Casa de Simão disse-lhe que seria tudo como aconteceu à Mesa. Futuramente erguerão mesas para Me sacrificar. A mesa significa o pão o vinho e os recipientes o túmulo. Este cálice é onde o Meu corpo será consagrado na forma de uma hóstia. A patena que colocaram representa a tampa com que fechaste o túmulo, e o pano que porão por cima, o linho que envolveu o corpo. Deste modo, até ao final do mundo, será conhecido o significado do teu feito.
Seguindo ainda de perto Baron, in José de Arimateia, Jesus revelou-lhe mais factos, que não poderão ser contados, inserindo-se aqui algum do mistério desconhecido da Grande Cerimónia do Graal.
Nestas, como outras lendas que veremos, intercala-se a do Santo Sudário, de Verónica, pelo qual Vespasiano foi curado da lepra. Por agradecimento da graça, Tito e Vespasiano foram a Jerusalém vingar a morte do Profeta. Falaram com Pilatos que ainda mantinha Arimateia preso, e da morte de Jesus. Arimateia veio a ser libertado e Vespasiano foi baptizado.
Certa vez perante a falta de colheitas, Arimateia pediu ao Graal para lhe dar conselhos sobre a forma de resolver o problema. O Graal disse-lhe que deveriam ser eliminados da comunidade todos os culpados. De seguida, o seu cunhado deveria ir até ao rio e trazer o primeiro peixe que pescasse, estender um pano sobre a mesa e por o Graal ao seu lado. Depois disso senta-te no teu lugar, como estava na Ceia. Brons sentar-se-à à tua direita, verás que ele se afastará de ti, de modo a haver um lugar vago entre ti e ele. Esse lugar representa o lugar de Judas. Ninguém preencherá esse lugar até que o Filho de Enygenius e Brons tome o teu lugar.
Quando o povo foi chamado à mesa, parte sentou-se, mas muitos não conseguiram achar lugar. Estavam todos ocupados, só havia um lugar vazio, o assento de Judas Escariotes, que passou a ser conhecido como A Cadeira Perigosa. Os que se sentaram à mesa aperceberam-se da doçura que o Graal emanava. Um deles, Pedro, perguntou aos que se encontravam de pé se não sentiam nada de especial. Eles responderam negativamente, mas foi impossível aproximarem-se. Pedro então disse:
- Isso mostra que um pecado causou a carestia que estamos passando.
Assim, José de Arimateia identificou os pecadores:
- Por meio do Graal somos separados, porque ele não tolera pecadores junto de si.
Após isto, o grupo separou-se, ficando os bons e os puros à mesa, para o culto que se passou a chamar Culto do Graal. Um dos excluídos de nome Moys, ainda tentou sentar-se à mesa, no lugar vago. Sem sucesso, pois o chão abriu-se e engoliu-o. Esta era a Cadeira Perigosa. Arimateia ajoelhou-se diante do Graal e interrogou-o:
- José, José, o sinal que de que te falei e agora se tornou verdade, eu disse-te que o lugar deveria ficar vago, até que o terceiro homem da tua estirpe, o filho de Brons e Enygeus o ocupe.
Brons e Enygenius tiveram doze filhos, que quando cresceram foram conduzidos à presença de José de Arimateia que aconselhado pelo Graal escolheu Alain de Grois, o mais novo. Arimateia mostrou o Graal, e comunicou-lhe que um dia nasceria um herdeiro ao qual teria de entregar o Graal.
O recipiente ainda anunciou que Pedro deveria ir ao Vale de Avalon esperar o filho de Alain. Alain partiu com um grupo para evangelizar terras estranhas, tendo Pedro permanecido para colher ensinamentos sobre o Graal e ser testemunha da transferência para Brons, porque ele deveria ser o futuro Guardião do Graal. Arimateia comunicou-lhas as palavras sagradas contendo o Segredo do Graal. -A partir de agora deves guardá-lo e por razão nenhuma desprezá-lo. Toda a vergonha sobre ele sairá cara e terás de pagá-la.
Mas o Graal ainda continuou:
- Todos os que o ouvirem falar, o chamarão de Rico Pescador, devido ao peixe que apanhou. Assim, as pessoas deverão ir para o oeste. Quando o “Rico Pescador” tiver recebido o Graal, deverá esperar o filho de seu filho para lhe transmitir e recomendar ao Graal. E quando chegar o tempo em que possa aceitar o significado da Trindade, será realizado entre vós. E tu, porém José, te despedirás do mundo e entrarás na alegria eterna.
As palavras secretas forem assentes por José de Arimateia num papel que depois mostrou ao Rico Pescador. Brons ainda ficou alguns dias com José e quando se despediu, este disse-lhe:
- Sabes bem o que levas contigo e em que companhia andas, ninguém sabe como tu. Vai, pois ficarei feliz conforme ordem do meu Salvador.
Assim se separaram. O Rico Pescador foi para a Britânia. José de Arimateia, nesta versão, por ordem do Senhor foi para a terra onde nasceu e lá ficou até ao fim dos seus dias.
Segundo os contos de Baron, o Graal terá passado sucessivamente pelas seguintes pessoas:
-1)-Judas, que entrega Jesus aos judeus;
-2)-Jesus, que o utiliza na Última Ceia;
-3)-Pôncio Pilatos, que o entrega a José de Arimateia;
-4)-José de Arimateia, que recolheu o sangue das feridas de Jesus;
-5)-Brons, o Rico Pescador, cunhado (genro?) de Arimateia, que deveria partir para a Bretanha;
-6)-Percival (Parsifal), filho de Alain de Grois e neto de Brons.
Foi escolhido para ser o guardião do Graal.
Noutra versão, José de Arimateia teria sido também o primeiro guardião do Graal. O segundo teria sido o seu cunhado (genro?) Brons.
Algumas seitas defendem que o ciclo do Graal não está fechado, enquanto não aparecer o terceiro custódio. Esta resposta poderá encontrar-se na Demanda do Santo Graal, de autor desconhecido, que coloca Galahad, como o único entre os cavaleiros, merecedor dessa honra.
Um outro parêntesis. Toda a gente sabe, que Pôncio Pilatos, lavou as mãos, depois de nada fazer para salvar Jesus. O significado e a alegoria deste gesto, tem percorrido os milénios. Todavia para esse acto, há todavia uma resposta que a tradição cristã não lhe veio a reconhecer e é bem simples. Por Lei (e costume), os magistrados romanos lavavam as mãos no final de cada julgamento. Sendo assim, o gesto de Pôncio Pilatos, não teria tido nenhum peso especial, pois que apenas dava por findo o julgamento de Jesus.
Outras lendas, contam porém que José de Arimateia, sua irmã e cunhado (genro?), rumaram para actual Inglaterra, onde fundou a primeira igreja cristã, em Glastonbury, ficando associado à do Graal e que lá ficou até aos seus últimos dias. Outras dizem que deixou o cálice em França.
É notória a relação entre as lendas sobre José de Arimateia e os contos arturianos, com destaque para os elementos que os integram, como a Mesa Redonda, as Doze Pessoas (doze apóstolos?), Avalon, Glastonbury, onde estariam sepultados o Rei Artur e sua mulher.
A seguinte lenda, é tida como herética pela Igreja Romana, pois segundo se sabe, Jesus nunca saiu da Palestina. Porém, há que assegure que fez peregrinações tanto ao Tibete, como ao continente europeu, alcançando a Bretanha. Conta-se assim que, durante a Sua estadia na Cornualha, recebeu em dádiva um cálice de um druida, recém convertido, tendo ficado a ter por ele um carinho muito especial. Após a crucificação, José de Arimateia, quis levá-lo santificado pelo sangue de Jesus ao seu antigo dono, o druida Merlin, que passou a ser o elo de ligação entre a religião celta e o cristianismo.
A história do Graal porém é bem diferente, de acordo com o alemão Wolfram Von Eschenbach (1200 d.c), que um dia Hitler e os teóricos do nazismo estudaram, aquele quase contemporâneo de Baron. Em Parzifal, Eschenbach coloca o Graal nas mãos dos Templários. Aqui o Graal, não é propriamente uma taça, mas uma esmeralda verde, que trazia consigo o desejo do Paraíso, uma pedra de luz, trazida do Céu pelos anjos. Este autor confere ao Graal, uma estreita ligação e dependência com forças cósmicas, sendo a pedra chamada Lapis ex Coelis, isto é, Pedra Caída do Céu ou Pedra do Senhor. Vem daqui a referência à esmeralda na testa de Lúcifer, o seu terceiro olho. Quando Lúcifer, o Anjo da Luz, se revoltou contra Deus e desceu aos mundos subterrâneos, a esmeralda partiu-se e a sua visão, desde então, ficou deformada. Lúcifer comandou um terço dos anjos na sua rebelião, mas foi derrotado. Um dos três pedaços da pedra, ficou na testa, o que ocasionou uma visão alterada, a única coisa que lhe restou. Outro pedaço ficou em poder dos anjos que não se revoltaram e foi por eles trazido para a Terra. Mais tarde, o Santo Graal veio a ser escavado nesse pedaço de esmeralda, e por alguns autores passou a ser comparado o Graal-Pedra, à Pedra Filosofal, o grande objectivo dos alquimistas que transmutava o metal inferior em ouro, homens comuns em reis, iniciados em adeptos e a própria matéria, nisto e muito sinteticamente, consiste a essência da alquimia, a transmutação e a elaboração do Elixir da Longa Vida, uma panaceia universal que prolongaria vida indefinidamente. O trabalho de laboratório dos alquimistas, na busca da pedra filosofal, era a metáfora para um trabalho espiritual. Neste sentido, a transmutação dos metais inferiores no ouro, seria a transformação de si próprio, de um estádio inferior para um espiritualmente superior. A busca pela PedraFilosofal é, em certa medida a busca pelo Santo Graal. O alemão Eschenbach tem os Templários como modelo de fiéis depositários do Graal, a Esmeralda-cálice, com poderes inimagináveis.
Mas com Eschenbach, numa história que se enquadra bem no contexto da Idade Média, perpassa ainda uma fantasiosa ordem de cavalaria feminina na qual Esclarmunda, virgem guerreira, traz o Graal, precedida por 25 outras mulheres segurando tochas, facas de prata e uma mesa talhada em esmeralda.
Na cultura islâmica, desempenha um importante papel uma pedra chamada Hajar el Aswad, considerada sagrada que é objecto de culto em Meca.
A palavra Graal, etimologicamente, provém ao que parece do latim tardio, gradalis, que, por sua vez, deriva do latim clássico, crater, ou seja, vaso. A representação do Graal pode ser encarada de diversas maneiras como vimos, como um livro contendo mistérios esotéricos da vida, da morte ou a sapiência (cátedra) do tempo, ou mais materialmente uma taça, ainda que contendo todo o conhecimento do Homem. O Cálice do Graal, obtido a partir de uma grande esmeralda verde trabalhada, seria enfim o símbolo do Saber.
Durante milhares de anos, os povos inventaram histórias extraordinárias, a propósito de minerais e pedras preciosas. Daí decorre o grande número de lendas que envolvem a magia, a astrologia ou principalmente a alquimia. O Santo Graal, segundo uma das suas versões como vimos, era uma taça de esmeralda. Note-se que a Bola de Cristal, onde os videntes prevêem o futuro, é feita de quartzo.
Na linha de lendas antigas, certos minerais tornavam os seus possuidores, imunes ao veneno. Acreditava-se que algumas gemas acalmavam a febre, curavam a ressaca, tornavam invisíveis e invencíveis os guerreiros. Os alquimistas acreditavam que podiam transmutar metais comuns em ouro, embora não se contivesse fundamentalmente nisto a essência da alquimia. Uma descoberta recente, parece confirmar a tese de um Graal possuidor de uma realidade, abarcando a um só tempo, os planos espiritual e material, servindo o segundo como suporte ao primeiro. Segundo fontes precisas e confidenciais, das quais não nos é possível revelar a origem, os astronautas americanos da expedição APOLO XIV, teriam descoberto na Lua, amostras da pedra verde. A análise em laboratório, revelou estranhas propriedades entre as quais de provocar, graças a certas emissões de neutrões, um mini campo antigravitacional.
As mesmas pedras verdes, chamadas popularmente de Pedras da Lua ou Pedras das Feiticeiras são encontradas também na Escócia, nas highlands e serviam, para as feiticeiras se deslocarem pelo ar. Amostras dessas pedras verdes estariam incrustadas em alicerces de algumas catedrais medievais. A Catedral de Colónia terá desfrutado dessa peculiaridade, beneficiando de protecção aquando dos bombardeamentos Aliados que destruíram cerca de 75% da cidade, entre 1944-1945. O campo de força nela existente, desviou a trajectória das bombas dos Aliados, que não a danificaram totalmente, e veio a permitir a sua reconstrução.
Nos livros de cavalaria medievais, entende-se vulgarmente o Graal como o recipiente ou o cálice que Jesus usou para consagrar o vinho, transformando-o no seu sangue na Última Ceia e que José de Arimateia utilizou para recolher o sangue que jorrou em consequência de o centurião romano Longinus o ter perfurado, depois da crucificação. José de Arimateia foi a casa de Pilatos pedir o corpo de Jesus para lhe dar sepultura adequada. Porém, antes de se deslocar a casa do Procurador Romano, José foi ao local onde Jesus comera com os Apóstolos e ali a escudela honde o filho de Deos comera com os apostollos (…) e depois que joseph teve a escudela foi muy ledo e levou-a para sua casa. Antes de sepultar o corpo, José foi a casa buscar a escudela e colheo en ella tanto daquelle sangue quanto elle mais pode e depois tornou-o a guardar em sua casa. Por este sangue mostrou Deos depois muitas vertudes em terra de promissão e em outras muitas terras (cfr. ainda O LJA, que chegou a Portugal no século XVI, pelo menos numa versão conhecida, mas que se admite ter sido traduzido no século XIII).
Após sepultar o corpo, José de Arimateia, tal como receava, foi perseguido pelos judeus que o consideraram um traidor. Preso, foi abandonado no cárcere numa cela sem janelas e luz, de modo a não mais ser encontrado. Após a ressurreição de Jesus, os guardas decidiram deixar de lhe dar comida. Mas Jesus não o abandonou e trouxe-lhe por companhia e por conforto a santa escudela que elle guardara em casa com todo o sangue que lhe colher (cfr. de novo O Livro de José de Arimateia). Graças a esse sangue (na outra versão foi graças à pomba), José de Arimateia sobreviveu à prisão. De acordo com essa lenda, José foi a mando de Jesus pregar a Fé em seu nome, mas antes de partir teve de construir uma arca pequena para a Santa Escudela, que levou para as Ilhas Britânicas, aonde veio a fundar a primeira igreja cristã e uma comunidade para a guardar e que mais tarde se vincularia aos Templários.
É provável que esta lenda, que se perde na noite dos tempos, tenha até tido origem no País de Gales. Mas à primeira vista parece ser também possível identificar esta arca com a Arca da Aliança que, no Antigo Testamento, transportava as Tábuas dos Dez Mandamentos e conduzia o povo eleito. Pensei com cuidado nesta comparação, que não subscrevo de todo, por se me afigurar a algo forçado, salvo no sentido de que ambas quererem representar a Lei a seguir pelo Povo de Deus. Há assim em suma quem defenda que esta relíquia para os cristãos, nada tem a ver com o Cristianismo, inspirando-se em fontes antigas, latinizadas, dispondo de uma eloquência bíblica e criando uma atmosfera maravilhosa, a que não falta a expectativa do fim do mundo e o prémio aos nobres guerreiros. Com a saga de Parsifal, ligada ao Rei Artur e aos Cavaleiros da Távola Redonda, a menção de Avalon (mítica ilha das maceeiras, na Cornualha, onde vivem os heróis e deuses celtas), a lenda enriqueceu-se e difundiu-se. Os Cavaleiros da Távola Redonda decidem partir em sua busca e o único que o obtém é Galaaz (Galahad), porque era o melhor de todos e conservava a sua virgindade. O Graal estava ao alcance de todos os cavaleiros, mas só aquele o alcançou.
Transportando para a história do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, onde nasce o mito da taça sagrada, encontra-se o rei a agonizar e a ver o progressivo declínio do seu reino. Numa visão mística, o rei acredita que só o Graal o pode salvar e ao seu reino, pelo que manda os seus cavaleiros à procura do Cálice. É a partir daqui que se desenvolvem as muitas e variadas histórias à volta deste tema. A água é tema recorrente em toda a saga do Rei Artur. Na água é que a vida começa, seja tanto física, como espiritualmente, tendo o próprio rei sido concebido ao som das marés. Nos muitos acontecimentos em que interveio, a água desempenhou sempre um papel relevante e salvador da Bretanha. Sabendo que tinha chegado a sua hora, Artur pediu a Bedivere que o levasse para a praia, onde três fadas o aguardavam com uma barca.
O Graal, converteu-se numa pedra preciosa que, guardada por certo tempo e por anjos, foi confiada à custodia dos Cavaleiros da Ordem do Santo Graal e do seu chefe o Rei do Graal. Todos os anos na Sexta Feira Santa, uma pomba desce dos céus e depois de depositar uma hóstia consagrada sobre a pedra, renova a sua virtude e força misteriosa que comunica uma perpétua juventude, capaz de saciar qualquer desejo de comer ou beber. De vez em quando, inscrições na pedra revelam os nomes dos que foram chamados à Bem Aventurança Eterna na cidade de Graal, em Montsalvage.
O Graal-Taça é tido como episódio místico, o Graal-Pedra como matéria do conhecimento e o Graal-Livro a própria tradição, a mensagem escrita. Em todos os casos, o Graal tem poderes associados à sua lenda como curativos, comunicação com Deus, invisibilidade para o mal, imortalidade e habilidade para chamar os merecedores.
O Graal, como vemos, contém mistério, segredo, aventura e um prémio para todos, mesmo que só uns poucos o achem. A sua abordagem pode ser feita de várias maneiras, de acordo com as fontes utilizadas.
No meu caso, relevo o fascínio pelo mistério e as histórias recolhidas pelos contistas medievais. A sua Demanda tem-me revelado factos desconhecidos, obscuros e deslumbrantes de épocas remotas, mas não só. Apesar de este tema me empolgar jovialmente, diria mesmo, tenho para mim que a Busca deverá ser céptica, e criteriosa. Acredito no Graal, não na forma como o vimos em filmes ou em romances de ficção. Não acredito no Graal, seja o de Valência ou outro, como peça arqueológica, ainda que de muita importância, tanta que por ela se poderia dar a vida, mas como uma filosofia de vida, tal como alguns muito ilustres pensadores o já desenvolveram. Aceito o Graal, não como Cálice, mas como filosofia, pelo que se um dia alguém o vier a descobrir, nem por isso me interessaria mais por ele. Defendo que a Glória, radica em Jesus e não em utensílios em que terá tocado ou usado. Que Jesus tivesse utilizado um cálice de valor na Última Ceia, é só por si altamente improvável, por muito que isso decorresse dos costumes dos judeus.
Uma relíquia é, na generalidade dos casos, um membro decepado de algum santo, como a mão, um dedo ou mesmo um osso. Como Cristo ressuscitou e voltou ao Céu, relíquia poderá ser aquilo que Ele usou ou tocou. A Coluna onde foi açoitado, a Cruz onde foi pregado, a Lança de Longinus, os Pregos (os pregos originais da crucificação foram uma das relíquias mais populares da Idade Média, tendo chegado a coexistir 700 exemplares objecto de veneração, com destaque para a relíquia encontrada pela Imperatriz Helena, de Bizâncio, que foi fundida para fazer um estribo para o filho, Constantino I) e a Coroa de Espinhos, tudo até poderia (poderá) ser catalogado e registado, pois são do conhecimento público. E o Graal, que foi escondido dos historiadores e trovadores, até à Idade Média? A importância do Graal está na possibilidade de demonstrar a Fé em Deus e em certos valores do Cristianismo. Dito de outro modo: O Graal representa e não é!
As histórias do Graal são belas, bem arquitectadas em geral, com começo, meio e fim. Mas como acreditar em algo que nos remete para uma lenda? O Rei Artur é um mito, embora haja quem tenha a certeza de ter encontrado o seu túmulo em Glastongury. Merlin é outro mito, tal como Avalon (devo ir ao Vale de Avalon curar a minha grave ferida, diz o Rei Artur). Por isso tudo indica que o Graal em sentido material, é um mito. Muito bonito e interessante, independentemente até de se saber se existe ou não, ou se José de Arimateia foi o seu guardião. Creio ser correcto dizer que todas as obras (medievais) que citam a existência do Santo Graal, são a origem das teorias que existem. Nesse sentido, parece-me difícil, se não mesmo impossível, classificar as teorias sobre o Graal como meros contos, podendo-se outrossim dizer que as obras literárias (medievais) são as teorias escritas da sua existência.
A Europa é o chão dos nossos antepassados de muitas gerações, terra antiga que pisamos, cujo ar respiramos, bebemos as suas águas, comungamos, com os seus sentidos, no que é memória e presente. As suas cidades estão cobertas por séculos de poeira, acumulada com sangue, música, artes e fé, e foram fundadas por homens sobre ruínas doutras, onde os cristãos vieram mais tarde erigir as suas catedrais. Templos sobre templos, sobre outros templos, camadas de ruínas carcomidas orgulhosas do seu passado.
A catedral europeia é por definição um templo cristão, mas tanto ou mais do que isso, uma obra de arte, uma peça gigantesca que nos toca por todos os sentidos, nas suas paredes salpicadas de detalhes incrustados, peças que nos contam histórias de mais ou menos virtude ou indulgências. Andando entre as casas baixas da cidade velha europeia, pelas suas ruas sinuosas e empedradas, destaca-se sempre ao longe a torre da catedral, como um dedo apontando ao céu, e as suas torres tocando as nuvens. Ao perto, o portal com a sua rosácea que ilumina a nave, parece construído para ser utilizado por gigantes, gente mais grande que qualquer um de nós. Da torre brada o sino, uma nota forte que se espalha à volta. A Catedral é o relógio que, da torre, regula a hora de acordar, de almoçar e de dormir. Chegado em frente a uma catedral, e já vi muitas, olho sempre para cima e mais acima num ritmo visual lento e paciente, até parecer que a nuca me toca as costas.
Em Coimbra falávamos muito da cátedra e dos catedráticos. Mas o que é uma catedral se não uma sede de cátedra, um trono catedralício, a cadeira de um bispo coroado que ali transubstancia o pão e o vinho, no decurso do sacrifício da Missa?
Cada catedral guarda normalmente uma relíquia de santo, remanescente da sua existência e passagem física pela terra. Em Bolonha, encontram-se os cadáveres de cinco crianças assassinadas a mando de Herodes, a taça com que Jesus foi baptizado por S. João Baptista, as sandálias de Jesus e até uns restos de maná do deserto, que Moisés não consumiu na totalidade. Em Chartres, existe guardada, a camisa com que Maria deu à luz o Menino Jesus. Em Colónia, existem os corpos dos três Reis Magos (Melchior, Baltazar e Gaspar), aonde faltam três dedos, emprestados a uma outra catedral. Em Pisa, chegou a estar guardada a Coroa de Espinhos, mas acabou por ser dada de penhor a um banco. Na Quaresma, em Notre Dame, de Paris, é exposta à veneração pública a Coroa de Espinhos, aonde também terá estado a Lança Sagrada. A Coroa de Espinhos permaneceu nos primeiros séculos na Basílica de Monte Sião, em Jerusalém, tendo sido levada para Constantinopla, no início do século XI. Em 1238, Balduíno de Courtenay, Imperador de Constantinopla, que passava por grandes dificuldades financeiras, deu-a de penhor a um banco, para garantia do pagamento de dívidas. S. Luís, Rei de França, pagou os débitos do Imperador de Constantinopla, adquiriu a relíquia, levou-a para Paris e mandou construir a Sainte Chapel, essa lindíssima igreja em estilo gótico ao lado do Palácio da Justiça. Mas em 1789, com a Revolução Francesa em plena fúria anticristã, destruições, mutilações de imagens, queimas de objectos sagrados e de culto, a relíquia foi resgatada e colocada em lugar seguro, entregue ao cuidado da Catedral de Notre Dame. Em Florença existem cabelos da Virgem Maria e uns frasquinhos de leite igual (com a mesma origem) ao que amamentou o Menino. Em Pazzi, no Convento de Santa Maria Madalena, havia restos de feno da manjedoura de Belém. Génova manteve o prato sobre o qual Salomé recebeu a cabeça de S. João Baptista.
Muitas catedrais e igrejas, por esta Europa, têm cravos que pregaram Jesus à cruz (hoje em dia são trinta e encontram-se nas dioceses de Roma, Veneza, Aachen, Madrid, Nuremberga e Praga, entre outras) pedaços de madeira da cruz e da coroa de espinhos.
Já falei antes de Helena, mãe de Constantino I, zelosa seguidora do cristianismo. Foi septuagenária para Jerusalém em 326, tendo fundado algumas igrejas sobre lugares importantes relacionados com a vida e morte de Jesus. Foi ela que descobriu a gruta aonde Jesus terá sido sepultado, sobre a qual mandou construir uma basílica (não é a actual Igreja do Santo Sepulcro que remonta apenas ao século XII). Segundo a lenda em 3 de Maio de 326, Helena no interior da gruta descobriu a Cruz. De acordo ainda com a lenda, foram encontradas 3 cruzes. Para se apurar qual delas tinha suportado Jesus, Helena mandou vir um morto e pousou-o em duas delas. Nada aconteceu. Ao tocar na restante, o homem ressuscitou, pelo que Helena mandou a Constantino pedaços dessa a verdadeira cruz e pregos para o proteger dos perigos que o rodeavam. Constantino encerrou um pedaço da cruz numa estátua de si próprio e com os pregos mandou fazer um elmo. Em meados do século IV, fragmentos da Cruz foram mandados como relíquias para igrejas de todo o mundo romano
Qual é a veneração devida às relíquias?
Seja qual for o valor a dar a estas relíquias, note-se por exemplo a impossibilidade de tantos pregos, explica-se por haver relíquias de segundo grau onde em vez de se tratar dos pregos verdadeiros, há os que são a subdivisão dos originais.
O Concílio de Trento não definiu. As autoridades modernas declaram que as relíquias são valiosas promessas que animam a confiança e a comunhão na intercessão dos santos junto de Deus, ainda que lhes deva ser dada um honra relativa e inferior, sendo memoriais destes.
Entendida por alguns como expressão do fanatismo e barbarismo medievais, em contraponto de outros como a vitória da civilização (Ocidental) sobre o Oriente bárbaro, a disputa da Palestina não pode ser escrita por nenhuma dessas teses redutoras. Bem sabemos que os cristãos, desde logo os cruzados, foram capazes de promover massacres sangrentos entre árabes, judeus, turcos e até mesmo contra cristãos ortodoxos. Mas também não esquecemos que os Árabes Muçulmanos, não eram um povo ignorante como supunham, por desconhecimento, muitos europeus da época. Veja-se o que havia em Sevilha e especialmente em Granada.
Não causa estranheza que o Graal fosse reputado como detentor de poderes curativos e miraculosos. Os cristãos medievais veneravam relíquias, porque esperavam que os protegessem da má sorte ou curassem de uma enfermidade. Sendo o Graal uma relíquia tão importante (talvez mesmo a mais importante), seria incongruente que ela não demonstrasse os seus poderes a quem, de bom coração, os solicitasse. A cura da lepra é um tema que vamos encontrar num romance famoso, quando a irmã de Percival morre ao dar todo o seu sangue a uma dama gafa. O poder do Graal decorre do objecto em si, mas no precioso sangue que continha.
Mas a demanda do Graal não foi apenas uma saga medieval. A sua ideia perdurou até aos nossos dias.
Durante a II Guerra, tropas nazis vasculharam, com afinco, áreas de terreno à volta da montanha de Montesegur, nos Pirinéus franceses. Muitos acreditavam que algures se encontrava o Santo Graal, uma relíquia que a tradição cátara local considerou como sua, durante muitos séculos. Na manhã de 16 de Março de 1944, estando a França ocupada pelos nazis e a divisão SS Das Reich, a descansar em Toulouse, após o esforço da frente russa, um grupo de civis subiu à montanha para celebrar um histórico e sangrento acontecimento, ocorrido precisamente nesse mesmo dia, mas no ano de 1244, quando os hereges Cátaros, decidiram imolar-se.
Saiba-se que as tropas do Papa Inocêncio IV, realizaram um assédio de nove meses a Montesegur e ao seu Castelo, tendo os Cátaros sitiados, conseguido resistir graças à orografia do lugar. Os sitiantes queriam levá-los a abjurar de uma Fé que defendia o contacto directo do homem com Deus, não reconhecia o Papa e praticava um ascetismo, alegadamente tido pelos ortodoxos como recheado de costumes pagãos. Historicamente, os gnósticos, onde os cátaros se inseriam mais tarde, tiveram especial relevância nos primeiros três ou quatro séculos, depois de Cristo. Eles mesmos não se consideravam gnósticos, pois eram sabedores do significado oculto da palavra. Ao contrário dos seus detractores, os gnósticos não formavam uma religião, não eram arrogantes ou fanáticos, mas compartilhavam uma atitude comum para com a vida, fundamentada no coração, como diz o Evangelho de Filipe. Já passaram cerca de 17 séculos desde que os gnósticos fizeram história, foram perseguidos, mortos e esquecidos, objecto de uma das mais implacáveis e longas perseguições como religiosas como hereges, de que há registos.
A lenda assegura que na noite anterior, quatro sitiados se deslocaram no meio das trevas até à face mais abrupta do monte. Levavam consigo o tesouro que tinha mantido intacta a moral da comunidade. Uma vez cruzadas as linhas inimigas, acenderam uma fogueira indicando aos sitiados que o tesouro, o Santo Graal, estava a salvo. Ao amanhecer, os hereges com a maior tranquilidade, atiraram-se para uma pira, deixando a inexpugnável fortaleza, o Castelo de Montsegur, livre às tropas papais.
Voltando um pouco atrás. O grupo que em Março de 1944 subiu à montanha, estava interessado em recuperar a tradição cátara, pelo que pediu permissão aos nazis para pernoitar em Montsegur, de modo celebrar condignamente o aniversário da tragédia. Mas os alemães não concederam autorização, dado considerarem a montanha como solo alemão, sobre o qual o III Reich tinha direitos históricos. Todavia, o grupo arriscando a vida, subiu ao alto da montanha, aproveitando os alvores do dia. Mas o que viu deixou estupefactos os seus componentes. Um avião alemão com a cruz suástica, que estava a aproximar-se, deu umas voltas, e depois subiu os ares como para efectuar uma acrobacia aérea. Todavia, antes de desaparecer em direcção a Toulouse, ziguezagueou fazendo uma enorme cruz cátara. Que significava aquilo? Os nazis também queriam homenagear nesse dia os cátaros mártires? Este voo estranho deu que pensar. Disse-se mais tarde que a bordo viajava Alfred Rosemberg, tido no III Reich como perito em questões esotéricas, que há vários anos andava em demanda do Graal. Rosembeg foi também considerado um profeta do Anticristo. No dia anterior, o célebre oficial alemão, Otto Skorzeny esteve na zona, fazendo pesquisas no terreno. Possivelmente nunca se saberá que ordens levava esse herói de Hitler, que resgatou Mussolini da prisão, um ano antes, numa espectacular missão, com planadores. Em 1943, Mussolini fora detido por ordem do rei de Itália e aprisionado. Numa operação notável, um comando alemão, chefiado por Skorzeny, libertou o Duce que foi reposto no poder, à cabeça da República Social Italiana, supostamente herdeira, representante, do fascismo primitivo, agora de maior pendor socializante. Mas na prática, era a Alemanha que ditava o que a RSI podia ou não fazer. O fuzilamento do Duce e de Clara Petacci, a sua amante, às mãos dos partiggiani, a posterior exibição dos corpos, para gáudio da multidão de Milão, são o ponto final da tragédia italiana, que a fuga de Mussolini não evitou. Skorzeny não foi o primeiro nazi a fazer buscas na zona, pois havia sido precedido por um jovem de nome Otto Rahn que chegou a Montsegur no verão de 1931, passando três meses a explorar a área circundante, no seu dédalo de grutas. Regressou a Alemanha para escrever um livro, bem recebido pelos intelectuais do regime, A Cruzada contra o Graal (1933). Rahn concluiu que Montsegur, era o Montsalvat que o escritor alemão von Eschembach, considerava no século XIII, como o local da guarda do Santo Graal. Também assegurou que o Graal era mais um Livro (gradal, em occitano) que um Vaso (grasale, também em occitano). Segundo ele, os cátaros guardaram a relíquia até à queda de Montsegur. O Livro, o Graal, era feito em tábuas de pedra ou de madeira, escrito em caracteres rúnicos, trazidas pelos visigodos, após o saque de Roma. O Graal havia chegado a Roma depois da conquista de Jerusalém e da destruição do Templo de Salomão, pelo general romano Tito, no ano 70 (d.c.). Sobre Tito e a destruição do Templo de Salomão, há uma outra lenda interessante para contar aqui, como parêntesis. Tito arrasou o Templo de Salomão e pilhou os tesouros lá existentes, entre os quais a Menorah original, o candelabro de sete braços, que terá resistido a saques anteriores ao de Tito, como o de Nabucodonosor em 587 a.c. e que no capítulo XXV de Livro do Exodus é descrito como um lampadário de ouro puro. Segundo a mesma fonte bíblica, Moisés contactou pela primeira vez com a Menorah aquando do encontro com Jeová, no Monte Sinai, o que a transformou numa das maiores referências do judaísmo, tão importante como seria a Arca de Noé. A Menorah que veio para Roma onde foi apresentada como troféu de guerra, tal como as trombetas de prata do Templo, a Mesa de Salomão, terá vindo cair mais tarde em poder do Vaticano, até se perder num armazém, ou nas águas do rio Tibre, aonde caiu conjuntamente com a Mesa (áurea) de Salomão, noutra versão.
Voltando atrás. Porque razão se interessavam tanto os nazis esotéricos por um tesouro de origem judaica?A resposta, a ser obtida, será sempre duvidosa. Alguns estudiosos do ocultismo acreditam que Hitler respeitava uma religião que havia conservado intactas tradições com mais de 3000 anos. Para historiadores, como Michel Bertrand e Jean Angelini, Hitler preparava-se para fundar, se possível, uma nova religião, mas necessitava de bases para a sustentar, tendo para isso contratado os serviços de Otto Rahn, para procurar e recuperar o Graal.
Em 1937, sete anos antes do misterioso voo acima referido, Otto Rahn regressou à zona pirinaica para prosseguir as suas investigações. O seu livro sobre o Graal e um ensaio intitulado A Corte de Lúcifer na Europa (1936), foram obras que circularam, de mão em mão, nos círculos próximos do Führer, tentando fazer germinar a semente de uma profecia. De qualquer modo, a Sociedade dos Demandantes do Graal, fundada por Alfred Rosemberg, proclamou que eles seriam chamados a cumprir a promessa occitana, formulada após a queda de Montsegur, ou seja, a recuperação do Graal escondido. Terá sido por essa razão que o avião nazi desenhou uma cruz sobre Montsegur, no dia do 700º. aniversário do massacre?
Otto Rahn permaneceu, naquele zona pirinaica durante vários meses, sem obter resultados concretos e apreciáveis. Desconhece-se o que aconteceu quando Rahn teve de admitir o seu fracasso perante o Führer. Uma breve nota, publicada no jornal do Partido Nazi, em Maio de 1939, deu conta que Rahn morreu vítima de uma tempestade de neve, nos Alpes Suíços. Porém, a sua morte, deu lugar a especulações, visto o corpo nunca ter sido encontrado. Henrich Himmler, deslocou-se a 23 de Outubro, de 1940, ao santuário de Montserrat, perto de Barcelona, demandando pelo Graal. Os nazis persistiam em querer apurar se era este, afinal, o Monsalvat dos contos medievais germânicos. Mas os monges de Montserrat não lhe souberam responder.
Rahn desapareceu sem deixar rasto. Skorzeny faleceu muito velho, em Madrid no ano de 1975, sem revelar o que foi procurar aos Pirinéus franceses, em 1944. E Rosemberg, um dos maiores espoliadores de obras de arte durante o III Reich, foi julgado e condenado à morte no Tribunal de Nuremberga. E estes factos caíram no esquecimento.
Haverá algum poder mágico ligado aos chamados talismãs? Por indicação do meu amigo Carlos M.P., entrei em tempos na leitura de Allan Kardec, que para isso fui consultar para este estudo. Para Kardec, não há palavras sacramentais, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha acção sobre os Espíritos, porquanto estes são atraídos pelo pensamento e não por coisas materiais. Mas não pode aquele, com ou sem razão, que confia na virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito dessa mesma confiança, visto que o que actua é o pensamento, não indo o talismã além de um sinal que apenas auxilia a concentração?
Numa outra perspectiva, eventualmente menos especulativa, convém saber que os objectos metálicos guardam ao longo dos anos, mesmo milénios, propriedades magnéticas que preservam a sua história, as quais podem ser estudadas e classificadas, no quadro da psicometria. Mediuns psicómetros, dizem-se aptos a rever, por vezes com nitidez, acontecimentos que ocorreram em volta da peça de metal, magnetizada pelos acontecimentos de que foi testemunha. Voltando ao Santo Graal ou à Lança de Longinus e como explicaria Kardec, não será a peça em si que move os acontecimentos, é o pensamento do homem que se concentra nela e a quer a todo o preço, a fazer valer o poder que se lhe atribui.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
D. MIGUEL I, OS LIVROS PROIBIDOS DA BIBLIOTECA DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA E FREI FORTUNATO DE S. BOAVENTURA
Ao tomarem a defesa dos absolutistas, os monges de Alcobaça foram atingidos irremediavelmente pela queda de D. Miguel, em 1833. O medo fez fugir os monges, o edifício conventual foi assaltado e pilhado pela populaça enfurecida e descontrolada, conseguindo-se salvar a custo livros e manuscritos para a Torre do Tombo e Biblioteca Nacional.
Foi na Colecção de Manuscritos do Fundo Geral da Biblioteca Nacional de Lisboa, que José da Cunha Saraiva encontrou a Relação Da Vinda De El-Rey O Sr. D. Miguel A Este Real Mosteiro De Alcobaça, em 8 de Agosto de 1830. Trata-se da última visita real efectuada a Alcobaça antes da extinção das ordens religiosas, aliás na tradição antiga dos monarcas portugueses.
No dia 5 de Agosto de 1830, D. Miguel empreendeu a partir de Mafra uma visita de vários dias à Região do Oeste, muito concretamente aos Coutos de Alcobaça, estes um dos lugares simbólicos da aliança entre a Monarquia e a Igreja. Não se conhece qual foi, ao certo, a razão desta visita a Alcobaça. Parece que o Rei terá dito ao Abade Geral da Congregação de Cister que gostaria de visitar o Mosteiro, tendo decidido, talvez em Julho de 1830, que aí se deslocaria nos princípios de Agosto. É possível que o gosto de viajar, adquirido ou reforçado durante a sua estadia na Áustria, o tenha impelido a ir a Alcobaça. Pode ter sido um acto de mera devoção, por parte de um Rei alegadamente religioso. Mas também não é de afastar que tenha tido o interesse de conhecer ao vivo a história do País. Concretamente no dia 8 de Agosto, o Rei e a sua comitiva partiram de Caldas da Rainha para Alcobaça (aliás depois de terem estado em S. Martinho do Porto) onde visitaram o Mosteiro e pernoitaram. No dia seguinte, saíram em direcção à Nazaré, com paragens em Aljubarrota, Batalha e Marinha Grande, sendo que, no dia 10 tomaram o caminho de volta a Caldas da Rainha. No Domingo, dia 8 de Agosto, entre as 13 e as 14 horas, o Rei chegou a Alcobaça a cavalo, na companhia dos Marqueses de Belas e Tancos. A restante comitiva, que tinha partido antes, já se encontrava à sua espera. Em Alcobaça, as ruas estavam decoradas com belos cobertores de damasco e outras sedas, enquanto se ouvia o repicar dos sinos, estralejar dos foguetes e os vivas da populaça que se tinha juntado para ver o soberano. Quem recebeu D. Miguel, com muitas honrarias, que não com fausto que o Mosteiro já o não tinha, foi o Abade Geral, toda a Comunidade, o Juiz de Fora, o Corregedor da Comarca, o Provedor e Frei Fortunato de S. Boaventura. Debaixo do pálio, D. Miguel beijou a cruz, recebeu água benta e incenso e, ao som do Te Deum Laudamus, dirigiu-se ao altar-mor para abertura do sacrário e Tantum Ergo. Frei Fortunato de S. Boaventura, foi personagem intelectualmente notável, mas assumidamente controversa. Filho de um livreiro de Alcobaça, aqui nasceu em 1777 e veio a professar em 25 de Agosto de 1795. Estudante de Teologia em Coimbra, combateu valorosamente Junot e a primeira Invasão Francesa com as armas e a pena, que bem manejava. Cronista-Mor da Ordem de Cister, concluiu a obra iniciada por Frei Manuel dos Santos. Quando D. Miguel regressou de Viena de Áustria, onde estivera exilado pela primeira vez, Frei Fortunato notabilizou-se pela sua acção na defesa do absolutismo, através de exaltantes a apaixonados sermões de púlpito e textos panfletários. Depois do termo da guerra civil, com o triunfo das armas liberais, D. Miguel vai de novo para o exílio e Frei Fortunato para Itália, aonde faleceu em Rei obra Os Historiógrafos de Alcobaça, Frei Fortunato de S. Boaventura desceu da torre de marfim do saber puro à praça pública, onde se batem paixões, interesses e cousas de cotio. Frei Fortunato foi ainda o autor de uma contundente Ilustração Pastoral Aos Seus Diocesanos Sobre A Obediência Que Devem Ao Mui Alto E Poderoso Sr. D. Miguel I. Camilo Castelo Branco também opinou sobre Frei Fortunato, colocando na boca de O Remexido, in A Brasileira de Prazins, a afirmação que com uns tantos mais como aquele, a causa de D. Miguel seria necessariamente vitoriosa...
O guia de D. Miguel, na visita que fez ao Mosteiro de Alcobaça, levou-o à Casa dos Túmulos, ao Claustro, à Sala do Capítulo, ao Refeitório, aos Caldeiros de Aljubarrota e à Livraria e Cartório, a jóia mais estimável, onde vio com curiosidade os mano screptos e Biblias, que m.m. gostou de ver, e no quarto dos poribidos mostrandolhe od. o P. e Mestre de Pavia, e dizendo lhe que era a nossa ruina e que na Alemanha estavão proibidos também ca hade suceder o m.mo. Talvez melhor que alguém, Frei Fortunato de S. Boaventura conhecia o que havia na Livraria e Cartório do Mosteiro pois levou a cabo o inventário denominado Commentariorum de Alcobacensi Manuscriptorum Bibliotheca Libri Tres. Espalhados nas estantes, D. Miguel viu ornados ainda com bons quadros de pinturas e figuras de alabastro, os livros de Alcobaça que documentavam sete séculos de copistas e estudo, alguns a que só doutos e sábios dão valor, pois é como uma vinha onde nem todos sabem vindimar, seara para a qual os obreiros são poucos. Para Frei Fortunato, existiam justamente no cartório livros interditos a bábaros sórdidos, os hunos de todo o sempre que se aquecem ao lume das fogueiras de livros, a mãos profanas sobre os Livros Dourados e a ferros que poderia arrombar o Caixão das Três Chaves. D. Miguel na sua visita ainda examinou, de perto, a espada que se dizia ter servido a D. Afonso IV, na Batalha do Salado.
Escrevendo in Mosteiro de Alcobaça, em 1885, Manuel Vieira Natividade refere também que ao lado esquerdo da livraria, fazendo a frente para leste, existem uns quartos bastante espaçosos que eram destinados a encerrar os livros proibidos, os livros dos grandes pensadores, que só monges velhos e de reconhecido fervor religioso era permitido ver, porque por certo se não deixariam arrastar pelas doutrinas dos novos filósofos. Após esta demorada visita, o Rei jantou no seu quarto e dirigiu-se à janela da hospedaria do Mosteiro, donde durante cerca de 2 horas assistiu aos festejos organizados pelas autoridades civis no terreiro em frente. E foram tantos os vivas e foguetes e demonstrações de alegria (…) e El rei estava tão satisfeito como bem amostrava, que mandou chamar o Corregedor e Juiz de Fora e mandou soltar todos os presos, que não tivessem parte .
A maior parte desta viagem real à Região do Oeste português nesse Agosto de 1830, decorreu nos coutos de Alcobaça, que continuavam a ser palco de conflitos acesos entre os frades e os aldeões, por razão do pagamento dos direitos senhoriais. O Marquês de Fronteira, recorda nas suas memórias que, em 1824 os rendeiros dos frades se tinham rebelado, largando fogo às medas de trigo que pertenciam à comunidade e que o Abade Geral do Mosteiro se vira obrigado a chamar a tropa que estava em Leiria. No caso de Aljubarrota, o conflito traduzia-se na questão dos limites da doação de D. Afonso Henriques e arrastava-se desde os finais da Idade Média. Terá sido depois do jantar, durante uma conversa havida na varanda do seu quarto, que a questão foi apresentada ao Rei. O Esmoler-Mor, Frei António da Silva que fora Abade Geral dos Coutos de Alcobaça, durante o vintismo, aproveitou a ocasião para dizer ao Rei que nessa época os povos dos coutos, principalmente os de Aljubarrota, aproveitando-se da rebelião que as Cortes causaram, tinham arruinado o Arco Memória, onde fez voto o Sr. D. Afonso I, e que pedia a S.M. o mandasse reedificar. Ora, independentemente da data da sua construção, o Arco da Memória assinalava o limite norte dos Coutos e era o símbolo material dos poderes senhoriais do Mosteiro, cuja contestação o Abade circunscrevia ao período liberal. D. Miguel terá concordado com a sugestão, propondo que no Arco a reconstruir, se fizesse uma inscrição que o ligaria física e simbolicamente através daquele lugar da memória nacional, a Afonso Henriques: El Rei D. Afonso I o mandou fazer e D. Miguel I reedificar. Veja-se a este propósito a obra de referência, D. Miguel, da autoria de Maria Alexandra Lousada e Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, ed. Círculo de Leitores.
Não se pode dizer que o republicano Manuel Vieira Natividade, fosse um defensor a todo o custo da acção dos Monges de Alcobaça ou do papel das Ordens Religiosas em Portugal, nos séculos XVII, XVIII e XIX. Mas não foi o seu detractor.
Natividade nasceu a 20 de Abril de 1860, no Casal do Rei, freguesia Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota. Manuel Vieira Natividade, farmacêutico, por volta de 1885, foi o iniciador em Alcobaça das compotas de frutas, mas principalmente um estudioso. Arqueólogo, etnógrafo, folclorista, investigador e escritor fértil, estudou Alcobaça e sua Região com carinho e amor deixando uma obra valiosa e extensa que não pode deixar de ser consultada por quem queira, sobre certos aspectos, estudar muita coisa sobre a Região de Alcobaça. Na sua residência organizou um interessante Museu Arqueológico, que há muitos anos aguarda ser aberto ao público, possuindo boas colecções de objectos do período neolítico, da idade do Bronze, do Ferro e do período Romano. Foi este museu organizado durante anos de árduas explorações subterrâneas nas diversas grutas e algares do Concelho e Alcobaça.
Não admira que tenha escrito, a propósito de Alcobaça que o espírito humano quando, como naquele meio, recebia educação supersticiosa e vivia respirando essa atmosfera impregnada de teocracias e preconceitos, bem raras vezes se deixava arrastar pelos princípios verdadeiramente científicos. É o que geralmente acontecia com os frades de Alcobaça. O noviço recebia uma educação tal que deveria compreender como dever a cega obediência à Ordem, aceitar todos os mistérios, todas as teorias mais ou menos absurdas como dogmas que se aceitam e não se discutem. Geralmente sucedia assim e aos mais inteligentes e ousados, a esses buscava-se o melhor meio de os dominar lisonjeando-lhes a vaidade ou fazendo com que eles não pudessem expor os factos como na realidade deviam fazer. O primeiro facto acha-se demonstrado num dos últimos talentos que o Mosteiro conheceu:-Frei Manuel de Figueiredo a quem fizeram cronista da Ordem, Geral, e não sabemos quantos empregos mais. O último acto em Frei Manuel dos Santos, a quem proibiram a publicação da segunda parte de Alcobaça Ilustrada a pretexto de que cheio de amargo fel dizia cousas que não eram honrosas para a Ordem, segundo nos afiança um outro cronista, Frei Fortunato de S. Boaventura.
Frei Fortunato de S. Boaventura, como cronista cisterciense, era seguramente menos crítico, mais tolerante, para a sua Ordem. Na História Cronológica e Crítica da Real Abadia de Alcobaça, escreveu como que em contraponto de Natividade que seria infinito se quisesse recensear os bens que estes benfeitores da Humanidade trouxeram aos seus semelhantes, em o ponto de lhes serem os mais úteis e até indispensáveis aos seus serviços.
Afinal, que segredos terríveis eram esses, quais tesouros que os livros continham, só acessíveis a uns quantos monges de maior confiança? Quais as palavras escritas que podiam incomodar muita gente?
A comunidade cisterciense de Alcobaça vivia com mais simplicidade do que somos frequentemente levados a supor. A tónica da sua espiritualidade era dada pelos textos tradicionais. Porém, os textos da sua Livraria eram variados. Acompanhavam, actualizadamente, os momentos da cultura ocidental e compreendiam tanto os testemunhos da vida intelectual escolarizada, como os de outras franjas menos assumidas, mas não menos válidas do pensamento. Se fosse possível inventariar a antiga Livraria chegaríamos muito provavelmente à conclusão de que, entre muitos mais, havia textos menos habituais entre os de uso comunitário a que correspondia um interesse não mais que secundário. Em jeito de conclusão adiantada, constatámos que os monges alcobacenses não se assumiram como transmissores desses textos ou ideias. A existência de uns livros proibidos, não é uma lenda interessante entre as muitas em que foi pródigo o Mosteiro. O conteúdo deles não o conseguimos apurar, pois que nem a Relação Da Vinda... nem Natividade ou Frei Fortunato, adiantaram grande coisa nesse sentido. Podemos admitir que abordavam os mais variados assuntos, que iam desde os de natureza teológica, filosófica ou das próprias ciências naturais.
Ao longo dos tempos criou-se a ideia, porventura com algum fundamento que, no seu conjunto, os monges de Alcobaça eram néscios e boçais, constituíam uma plêiade verdadeiramente reaccionária, vendo no progresso social, científico, técnico ou meramente filosófico, uma corrida em direcção ao abismo. Mas não é rigorosamente assim. Refiram-se os relevantes exemplos dos autores da Crónica de Cister e da Monarquia Lusitana.
Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister, defendeu no início do sec. XVI a tese de que os destinos de Portugal e da Ordem estão intimamente ligados por desígnio divino e até por laços de sangue entre Bernardo de Claraval e o Conde D. Henrique.
Na Monarquia Lusitana, o mesmo Frei Bernardo de Brito, partindo da identidade étnica e territorial de Portugal com a Lusitânia, descreveu a corografia e a história desta, até Afonso Henriques. A narrativa decorre, é certo, plena de reflexões moralistas, maravilhosa e mágica como nos romances de cavalaria.
Devemo-nos admirar?
As falsificações de Frei Bernardo de Brito devem entender-se no quadro da ideia de garantir ao País, então sob a dominação filipina, um prestígio antigo e brilhante e o direito à sua autonomia. Frei Bernardo de Brito, afastando-se da crónica palaciana, teve de procurar outras fontes, nem que para isso inventasse autores ou documentos.
O seu continuador na Monarquia Lusitana, Frei António Brandão teve uma preocupação porventura mais séria, socorrendo-se para o efeito de arquivos e cartórios espalhados pelo País e discutindo versões postas de há muito a correr com foros de verdade, sem prescindir ainda assim de preocupações apologéticas que deformam muitas interpretações e os factos. Seja como for, e tendo em nota o respectivo contexto político-temporal, a Alcobaça e à sua Ordem de Cister, pertencem a glória de ter sido as autoras, pela pena de Frei António Brandão, Cronista-Mor do Reino, da falsificação das Actas das Cortes de Lamego de 1641, guardadas no Cartório do Mosteiro, e que foram o suporte da Lei Fundamental, que vigorou em Portugal por quase 200 anos.
Já na Restauração, Frei Francisco Brandão, ainda na Monarquia Lusitana cedeu de novo à reflexão menos criteriosa, embora sem os arrojados voos de Frei Bernardo de Brito.
Mais tarde, em princípios do Sec. XVIII, a Frei Manuel dos Santos ficou a dever-se a Alcobaça Ilustrada, dando este século ainda a conhecer três reputados historiadores alcobacenses, agora com a preparação da Academia Real de História, que são Frei Manuel da Rocha, Frei Manuel de Figueiredo e finalmente Frei Fortunato de S. Boaventura. Frei Manuel dos Santos também teve as suas fraquezas, como historiador. D. Pedro I, morreu em Estremós, no dia 17 de Janeiro de 1367, tendo no seu testamento reafirmado que queria ser sepultado no Mosteiro de Alcobaça, aonde o aguardava o túmulo ao lado do de Inês. Até aqui não há novidade. Acontece que, segundo nos contou Frei Manuel dos Santos, in Alcobaça Ilustrada, foi posto o cadáver de D. Pedro no cruzeiro da igreja, enquanto se lhe oficiavam os funerais e descoberto o rosto, conforme o uso daqueles tempos, quando no fim da missa do primeiro dia notaram os presentes que se movia o corpo do defunto. Admiraram-se e acharam que o corpo estava vivo, e aqui foi o pasmar e o assombro de todos; mas como o corpo tinha o rosto e as mãos descobertas, poude falar no mesmo ser em que estava o redivino príncipe, sem outro movimento ou inquietação espantosa. Chamou pelo Abade e falou-lhe poucas palavras e se confessou, com maravilhoso socego; depois declarou como o Senhor lhe fizera tão notável mercê, que via necessária para a sua salvação pelos merecimentos do glorioso apóstolo S. Bartolomeu, de que ele rei fora, em extremo, devoto na vida. E dito isto, deu outra vez a alma nas mãos de de Deus.
Admito que esta estória, teve como justificação o sentimento de dívida que a Congregação de Alcobaça, possuia para com D. Pedro I. D. Afonso IV, após um prolongado e desagradável litígio com Alcobaça, chamou a si um conjunto importante de seis vilas dos coutos, como Aljubarrota, Coz, Pederneira, Alvorninha, Turquel e Salir de Matos, que os monges detinham proveitosamente, por doação de reis anteriores. Após a morte de D. Afonso IV, D. Pedro restituiu aos monges estas vilas.
Seriam os frades de Alcobaça a excepção? Há estudiosos insuspeitos que posicionam a Congregação de Alcobaça, contra a corrente dos ventos da história. Se pensarmos bem, era Roma quem fornecia o exemplo, decretando o Papa quando necessário ou conveniente para o bem da Igreja ou a glória de Deus por meio de Bulas, Indulgências Plenárias e outras benesses espirituais. E que na guerra não se podiam usar armas demasiadamente eficazes ou mortíferas, que era pavoroso o que se guardava nas pastas dos sábios ou na mente dos filósofos mais independentes, pois um dos riscos da investigação seria poder demonstrar que, afinal, Deus não existe. Ateavam-se as fogueiras purificadores da Inquisição para castigar os hereges que duvidavam que o Sol girava em volta da Terra. Não, não devia haver grande entusiasmo diante da perspectiva de haver coisas à espera de investigação. A questão aqui suscitada recolhida dos textos citados, não era nova, nem original. Nem acabou com a extinção da Congregação de Cister de Alcobaça. Numa rapidíssima digressão histórica, recorda-se que a conservação dos segredos foi um dos primeiros objectivos das sociedades secretas.
Os sacerdotes do antigo Egipto, guardavam zelosamente os hieroglifos e as leis da geometria espacial.
Os alquimistas da Idade Média, procuravam sigilosa e pouco romanticamente, no fim do seu trabalhosobre a matéria, uma espécie de transformação na própria pessoa, o acesso a um estado de consciência superior.
Na sua conhecida obra O Mistério das Catedrais, Fulcanelli visa demonstrar que as grandes construções Idade Média são, antes que mais, livros de pedra que ensinam a ciência alquímica e contêm a mesma verdade positiva e um fundo científico idêntico ao das pirâmides do Egipto, dos templos da Grécia, das catacumbas de Roma e das basílicas bizantinas.
Ainda hoje, com tendência para se acentuar, nos grandes centros de investigação, os cientistas iniciados usam distintivos indicando o seu grau de saber e a sua responsabilidade.
Apresentamos uma vez este assunto, a um conhecido estudioso de Alcobaça, que não recordava concretamente os dois textos invocados. Mas justificou o quarto dos proibidos com o paralelismo que os grandes segredos não podem ficar à guarda da polícia, já que tem de ser inter-pares que se há-de obter a sua segurança, imune à cobiça dos políticos ou dos militares. Os monges de Alcobaça, no seu contexto histórico não foram nem progressistas românticos, nem liberais. E jamais transmitiram aos vindouros a ideia de terem em si um grupo escolhido, reunindo homens moral ou intelectualmente avançados, transmutados pela intensidade dos seus conhecimentos, dispostos a proteger as suas descobertas ou o saber, contra os poderes (des)organizados, a curiosidade ou a cupidez. Os monges que habitaram o nosso Mosteiro, não pretenderam arrogar-se à ideia de divulgar esses conhecimentos no momento adequados, possuidores de uma ciência calma e consistente, mas se possível e muito pragmaticamente, de os sepultar sob toneladas de cimento ou no fundo dos oceanos, à falta de poder morrer com eles.
Após a II Guerra, e com o advento da era nuclear, a ideia da conservação de segredos revelou-se de novo como motivo de preocupação e de uma maneira assás curiosa. Alguns pensadores estimáveis do lado dos Aliados, afundados em angústias e não entrando nos pressupostos da Guerra-Fria, defenderam a proposição de que sendo a ciência e a técnica capazes de destruir a Humanidade, a idolatria do progresso e da liberdade pura, eram condenáveis em absoluto.
O Homem chegou ao termo das suas possibilidades, na curiosa síntese de alguns escritores de ficção científica. Assim, teria de se proceder à codificação das conquistas da investigação e da natureza e proibir, total ou parcialmente o seu progresso futuro.
Como? Através de um Conselho de Nações ou mesmo de um Conselho de Sábios. A ideia é, argumente-se, utópica ou ingénua, mas não foi reputada de reaccionária. O seu proclamado objectivo era não retroceder na inteligência mas defende-la de uma utilização prejudicial. O segredo não era uma preocupação restrita aos monges de Alcobaça. Quem não sabe não fala, pode-se argumentar em termos redutores. Mas não só. A posse ou o conhecimento de determinados factos impõe por vezes que o segredo não seja tanto o resultado da vontade daquele que o guarda, mas da sua própria natureza. Encontraríamos aqui, quem sabe, uma explicação benévola, tão benévola quanto se pode dizer que o segredo existe no inconsciente colectivo da espécie humana.O escritor em liberdade incomoda com frequência como sabemos. Contra ele sempre existiram censuras, úteis ao senhor de Santa Comba, bem como aos defensores do realismo socialista. O escritor ergue-se em liberdade contra o obscurantismo, revolve, agita, não tem certezas adquiridas, não vive agarrado à estabilidade ou ao medo.
Bernard Shaw, numa das suas peças, traz César à boca de cena. A Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo antigo, com os seus milhares de volumes, encontra-se inexoravelmente a arder. Nada a pode já salvar. Uma das personagens diz que é a memória da Humanidade que está a desaparecer. Responde César, com a prepotência de alguns poderosos, deixa-a queimar, é uma memória plena de infâmia.
Com a morte de D. José e a queda do Marquês de Pombal, ensaiou-se ainda uma profunda reorganização da Ordem de Cister em Portugal.
Bem mais eficaz que o terramoto, foi o movimento contra a Igreja e as Ordens Religiosas desencadeado pelo Marquês que determinou a extinção, pelo País além, de dez mosteiros cistercienses, em 17 de Dezembro de 1775. A verdade é que no período que se irá prolongar até 1834, houve um esforço, pelo menos preocupação, com a revitalização da Ordem de Cister, tanto no aspecto disciplinar e espiritual como no material ou cultural.
Mas os tempos avançavam mais rapidamente que as reformas necessárias. As ideias libertárias da Revolução Francesa tinham chegado e eram conhecidas dos mosteiros cistercienses. Depois, veio a guerra civil entre liberais e miguelistas, em que alguns religiosos pegaram em armas, o que não propiciou ambiente favorável a que os esforços em curso frutificassem.
E quando foram extintos os mosteiros, a Ordem de Cister acabou mesmo e de vez em Portugal. Ficou apenas a sua memória, em breve demasiadamente difusa. Permanecem ainda hoje, sobre a questão da extinção das Ordens Religiosas algumas dúvidas interessantes. Como acabou a Ordem de Cister em Alcobaça? Como e quando ocorre o êxodo dos monges? Segundo M. Vieira Natividade, in O Mosteiro de Alcobaça os frades depois de várias sortidas, abandonaram em 13 de Outubro de 1834 definitivamente o Mosteiro, isto é, antes mesmo do levantamento liberal. Mas Ramalho Ortigão, in As Farpas, conta de forma diferente, finalmente tendo rebentado em Alcobaça um pronunciamento liberal, em 16 de Outubro de 1833, os frades descamparam definitivamente. Cremos que quando os monges saíram do Mosteiro, ainda era rei D. Miguel, embora com D. Pedro já no Porto e o Duque da Terceira em Lisboa. Quando passou por Alcobaça o exército realista, a retirada sobre Santarém abriu aos Marechais (da Rainha), as portas para a população ocupar e saquear o Mosteiro. De tanta grandeza, esplendor e glória, que ficou nesta Babilónia de Alcobaça, onde tudo era farto e gigantesco? O espaço da antiga Livraria, após a extinção das Ordens Religiosas, teve variados usos, nada reaccionários ou progressistas, desde Hospital, Quartel, Casa de Espectáculos, Sala de Convívio e Trabalho do Asilo de Mendicidade de Lisboa. Quando uma pequena fracção do Exército Português comandada pelo Marquês de Saldanha entrou pela segunda vez nesta vila de Alcobaça trouxe consigo numerosos feridos e mais doentes que recolheu no Hospital Civil e na Sala da Livraria do extinto Mosteiro de S. Bernardo.P. Zagalo, in História da Misericórdia de Alcobaça, escreveu por sua vez sobre este mesmo assunto que na Revolta dos Marechais, após a batalha do Chão da Feira perto da actual Cruz da Légua realizada a 28 de Agosto de 1837, os feridos vieram para Alcobaça e foram tratados na sala da Livraria e no Hospital de Misericórdia de Alcobaça. O então Marquez de Saldanha mandou chamar a Mesa da Misericórdia e incumbiu-a de tratar dos feridos que estavam na livraria (…).Mais tarde, a C. A. da Misericórdia e Hospital de Alcobaça, foram encarregados pela autoridade administrativa, da Administração do Hospital Militar erecto na Livraria do extinto Mosteiro, depois da acção que teve lugar junto aos Carvalhos, no dia 28 de Agosto de 1837 (…). De facto o hospitalzinho da Rua do Castelo ampliara-se muito, ao intalar-se na Livraria do Mosteiro, saqueada e a arruinar-se em progressão assustadora com os míseros herdeiros dos monges bibliotecários (…).
Sem se entrar em campos muito polémicos, pode-se afirmar com alguma segurança que a Igreja Romana nunca foi verdadeiramente uma instituição democrática, pelo menos no sentido vulgar e ocidental de estrutura político-ideológica. Nesse como como o poderiam ser os Monges de Alcobaça? Com Constantino e Teodósio, transformou-se o cristianismo na religião oficial do Estado e assim a Igreja numa instituição de poder, hierarquizada e poderosa.
Parece que Jesus é menos congregador que a Hierarquia, e a Fé encontra-se mais direccionada ao dogma que à pessoa de Jesus, o Salvador. Sempre se falou da necessidade de diálogo da Igreja com o Mundo. Dito assim será que a Igreja não faz parte do nosso Mundo? Mas admitindo sem condescender que o faz, não se esqueçam afastamentos comprometedores. Até à década de sessenta do século XX!!! manteve-se o Index, a relação de obras/livros cuja leitura estava vedada aos cristãos/católicos. Nesse Index figuraram pessoas tão eminentes da história, ciência, literatura, direito, como Copérnico, Galileu cientistas, Descartes, Pascal, Espinosa, Kant, Rosseau, Voltaire, Comte, filósofos, Diderot e D’Alembert Enciclopedistas, Grotius Jurista, Vítor Hugo, Balzac, Flaubert, Zola, D´Anunzio a nata da moderna literatura europeia ou mais recentemente Sartre, Simone de Beauvoir, Unamuno ou Gide. Mesmo, com o fim anunciado do Index, a censura manteve-se a teólogos, como Leonardo Boff e Hans Kung. As dificuldades da Igreja são e serão enormes tanto numa perspectiva doutrinal como meramente organizacional. A igreja tem dificuldade em aceitar a dúvida e a argumentar. Do ponto de vista doutrinal, alguns espíritos ainda se admiram que o padre Teilhard de Chardin, que tentou conciliar a fé com uma concepção evolutiva do mundo, continue a merecer algumas reservas. Como se pode invocar num quadro de evolução, a visão tradicional de um Adão e Eva e o pecado original? Dois seres semiconscientes, poderão ter cometido um pecado/crime, na origem de todo o MAL do mundo? Democracia? Ao princípio basilar da democracia, a Igreja contrapõe uma monarquia plenipotenciária e absoluta.
Foi na Colecção de Manuscritos do Fundo Geral da Biblioteca Nacional de Lisboa, que José da Cunha Saraiva encontrou a Relação Da Vinda De El-Rey O Sr. D. Miguel A Este Real Mosteiro De Alcobaça, em 8 de Agosto de 1830. Trata-se da última visita real efectuada a Alcobaça antes da extinção das ordens religiosas, aliás na tradição antiga dos monarcas portugueses.
No dia 5 de Agosto de 1830, D. Miguel empreendeu a partir de Mafra uma visita de vários dias à Região do Oeste, muito concretamente aos Coutos de Alcobaça, estes um dos lugares simbólicos da aliança entre a Monarquia e a Igreja. Não se conhece qual foi, ao certo, a razão desta visita a Alcobaça. Parece que o Rei terá dito ao Abade Geral da Congregação de Cister que gostaria de visitar o Mosteiro, tendo decidido, talvez em Julho de 1830, que aí se deslocaria nos princípios de Agosto. É possível que o gosto de viajar, adquirido ou reforçado durante a sua estadia na Áustria, o tenha impelido a ir a Alcobaça. Pode ter sido um acto de mera devoção, por parte de um Rei alegadamente religioso. Mas também não é de afastar que tenha tido o interesse de conhecer ao vivo a história do País. Concretamente no dia 8 de Agosto, o Rei e a sua comitiva partiram de Caldas da Rainha para Alcobaça (aliás depois de terem estado em S. Martinho do Porto) onde visitaram o Mosteiro e pernoitaram. No dia seguinte, saíram em direcção à Nazaré, com paragens em Aljubarrota, Batalha e Marinha Grande, sendo que, no dia 10 tomaram o caminho de volta a Caldas da Rainha. No Domingo, dia 8 de Agosto, entre as 13 e as 14 horas, o Rei chegou a Alcobaça a cavalo, na companhia dos Marqueses de Belas e Tancos. A restante comitiva, que tinha partido antes, já se encontrava à sua espera. Em Alcobaça, as ruas estavam decoradas com belos cobertores de damasco e outras sedas, enquanto se ouvia o repicar dos sinos, estralejar dos foguetes e os vivas da populaça que se tinha juntado para ver o soberano. Quem recebeu D. Miguel, com muitas honrarias, que não com fausto que o Mosteiro já o não tinha, foi o Abade Geral, toda a Comunidade, o Juiz de Fora, o Corregedor da Comarca, o Provedor e Frei Fortunato de S. Boaventura. Debaixo do pálio, D. Miguel beijou a cruz, recebeu água benta e incenso e, ao som do Te Deum Laudamus, dirigiu-se ao altar-mor para abertura do sacrário e Tantum Ergo. Frei Fortunato de S. Boaventura, foi personagem intelectualmente notável, mas assumidamente controversa. Filho de um livreiro de Alcobaça, aqui nasceu em 1777 e veio a professar em 25 de Agosto de 1795. Estudante de Teologia em Coimbra, combateu valorosamente Junot e a primeira Invasão Francesa com as armas e a pena, que bem manejava. Cronista-Mor da Ordem de Cister, concluiu a obra iniciada por Frei Manuel dos Santos. Quando D. Miguel regressou de Viena de Áustria, onde estivera exilado pela primeira vez, Frei Fortunato notabilizou-se pela sua acção na defesa do absolutismo, através de exaltantes a apaixonados sermões de púlpito e textos panfletários. Depois do termo da guerra civil, com o triunfo das armas liberais, D. Miguel vai de novo para o exílio e Frei Fortunato para Itália, aonde faleceu em Rei obra Os Historiógrafos de Alcobaça, Frei Fortunato de S. Boaventura desceu da torre de marfim do saber puro à praça pública, onde se batem paixões, interesses e cousas de cotio. Frei Fortunato foi ainda o autor de uma contundente Ilustração Pastoral Aos Seus Diocesanos Sobre A Obediência Que Devem Ao Mui Alto E Poderoso Sr. D. Miguel I. Camilo Castelo Branco também opinou sobre Frei Fortunato, colocando na boca de O Remexido, in A Brasileira de Prazins, a afirmação que com uns tantos mais como aquele, a causa de D. Miguel seria necessariamente vitoriosa...
O guia de D. Miguel, na visita que fez ao Mosteiro de Alcobaça, levou-o à Casa dos Túmulos, ao Claustro, à Sala do Capítulo, ao Refeitório, aos Caldeiros de Aljubarrota e à Livraria e Cartório, a jóia mais estimável, onde vio com curiosidade os mano screptos e Biblias, que m.m. gostou de ver, e no quarto dos poribidos mostrandolhe od. o P. e Mestre de Pavia, e dizendo lhe que era a nossa ruina e que na Alemanha estavão proibidos também ca hade suceder o m.mo. Talvez melhor que alguém, Frei Fortunato de S. Boaventura conhecia o que havia na Livraria e Cartório do Mosteiro pois levou a cabo o inventário denominado Commentariorum de Alcobacensi Manuscriptorum Bibliotheca Libri Tres. Espalhados nas estantes, D. Miguel viu ornados ainda com bons quadros de pinturas e figuras de alabastro, os livros de Alcobaça que documentavam sete séculos de copistas e estudo, alguns a que só doutos e sábios dão valor, pois é como uma vinha onde nem todos sabem vindimar, seara para a qual os obreiros são poucos. Para Frei Fortunato, existiam justamente no cartório livros interditos a bábaros sórdidos, os hunos de todo o sempre que se aquecem ao lume das fogueiras de livros, a mãos profanas sobre os Livros Dourados e a ferros que poderia arrombar o Caixão das Três Chaves. D. Miguel na sua visita ainda examinou, de perto, a espada que se dizia ter servido a D. Afonso IV, na Batalha do Salado.
Escrevendo in Mosteiro de Alcobaça, em 1885, Manuel Vieira Natividade refere também que ao lado esquerdo da livraria, fazendo a frente para leste, existem uns quartos bastante espaçosos que eram destinados a encerrar os livros proibidos, os livros dos grandes pensadores, que só monges velhos e de reconhecido fervor religioso era permitido ver, porque por certo se não deixariam arrastar pelas doutrinas dos novos filósofos. Após esta demorada visita, o Rei jantou no seu quarto e dirigiu-se à janela da hospedaria do Mosteiro, donde durante cerca de 2 horas assistiu aos festejos organizados pelas autoridades civis no terreiro em frente. E foram tantos os vivas e foguetes e demonstrações de alegria (…) e El rei estava tão satisfeito como bem amostrava, que mandou chamar o Corregedor e Juiz de Fora e mandou soltar todos os presos, que não tivessem parte .
A maior parte desta viagem real à Região do Oeste português nesse Agosto de 1830, decorreu nos coutos de Alcobaça, que continuavam a ser palco de conflitos acesos entre os frades e os aldeões, por razão do pagamento dos direitos senhoriais. O Marquês de Fronteira, recorda nas suas memórias que, em 1824 os rendeiros dos frades se tinham rebelado, largando fogo às medas de trigo que pertenciam à comunidade e que o Abade Geral do Mosteiro se vira obrigado a chamar a tropa que estava em Leiria. No caso de Aljubarrota, o conflito traduzia-se na questão dos limites da doação de D. Afonso Henriques e arrastava-se desde os finais da Idade Média. Terá sido depois do jantar, durante uma conversa havida na varanda do seu quarto, que a questão foi apresentada ao Rei. O Esmoler-Mor, Frei António da Silva que fora Abade Geral dos Coutos de Alcobaça, durante o vintismo, aproveitou a ocasião para dizer ao Rei que nessa época os povos dos coutos, principalmente os de Aljubarrota, aproveitando-se da rebelião que as Cortes causaram, tinham arruinado o Arco Memória, onde fez voto o Sr. D. Afonso I, e que pedia a S.M. o mandasse reedificar. Ora, independentemente da data da sua construção, o Arco da Memória assinalava o limite norte dos Coutos e era o símbolo material dos poderes senhoriais do Mosteiro, cuja contestação o Abade circunscrevia ao período liberal. D. Miguel terá concordado com a sugestão, propondo que no Arco a reconstruir, se fizesse uma inscrição que o ligaria física e simbolicamente através daquele lugar da memória nacional, a Afonso Henriques: El Rei D. Afonso I o mandou fazer e D. Miguel I reedificar. Veja-se a este propósito a obra de referência, D. Miguel, da autoria de Maria Alexandra Lousada e Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, ed. Círculo de Leitores.
Não se pode dizer que o republicano Manuel Vieira Natividade, fosse um defensor a todo o custo da acção dos Monges de Alcobaça ou do papel das Ordens Religiosas em Portugal, nos séculos XVII, XVIII e XIX. Mas não foi o seu detractor.
Natividade nasceu a 20 de Abril de 1860, no Casal do Rei, freguesia Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota. Manuel Vieira Natividade, farmacêutico, por volta de 1885, foi o iniciador em Alcobaça das compotas de frutas, mas principalmente um estudioso. Arqueólogo, etnógrafo, folclorista, investigador e escritor fértil, estudou Alcobaça e sua Região com carinho e amor deixando uma obra valiosa e extensa que não pode deixar de ser consultada por quem queira, sobre certos aspectos, estudar muita coisa sobre a Região de Alcobaça. Na sua residência organizou um interessante Museu Arqueológico, que há muitos anos aguarda ser aberto ao público, possuindo boas colecções de objectos do período neolítico, da idade do Bronze, do Ferro e do período Romano. Foi este museu organizado durante anos de árduas explorações subterrâneas nas diversas grutas e algares do Concelho e Alcobaça.
Não admira que tenha escrito, a propósito de Alcobaça que o espírito humano quando, como naquele meio, recebia educação supersticiosa e vivia respirando essa atmosfera impregnada de teocracias e preconceitos, bem raras vezes se deixava arrastar pelos princípios verdadeiramente científicos. É o que geralmente acontecia com os frades de Alcobaça. O noviço recebia uma educação tal que deveria compreender como dever a cega obediência à Ordem, aceitar todos os mistérios, todas as teorias mais ou menos absurdas como dogmas que se aceitam e não se discutem. Geralmente sucedia assim e aos mais inteligentes e ousados, a esses buscava-se o melhor meio de os dominar lisonjeando-lhes a vaidade ou fazendo com que eles não pudessem expor os factos como na realidade deviam fazer. O primeiro facto acha-se demonstrado num dos últimos talentos que o Mosteiro conheceu:-Frei Manuel de Figueiredo a quem fizeram cronista da Ordem, Geral, e não sabemos quantos empregos mais. O último acto em Frei Manuel dos Santos, a quem proibiram a publicação da segunda parte de Alcobaça Ilustrada a pretexto de que cheio de amargo fel dizia cousas que não eram honrosas para a Ordem, segundo nos afiança um outro cronista, Frei Fortunato de S. Boaventura.
Frei Fortunato de S. Boaventura, como cronista cisterciense, era seguramente menos crítico, mais tolerante, para a sua Ordem. Na História Cronológica e Crítica da Real Abadia de Alcobaça, escreveu como que em contraponto de Natividade que seria infinito se quisesse recensear os bens que estes benfeitores da Humanidade trouxeram aos seus semelhantes, em o ponto de lhes serem os mais úteis e até indispensáveis aos seus serviços.
Afinal, que segredos terríveis eram esses, quais tesouros que os livros continham, só acessíveis a uns quantos monges de maior confiança? Quais as palavras escritas que podiam incomodar muita gente?
A comunidade cisterciense de Alcobaça vivia com mais simplicidade do que somos frequentemente levados a supor. A tónica da sua espiritualidade era dada pelos textos tradicionais. Porém, os textos da sua Livraria eram variados. Acompanhavam, actualizadamente, os momentos da cultura ocidental e compreendiam tanto os testemunhos da vida intelectual escolarizada, como os de outras franjas menos assumidas, mas não menos válidas do pensamento. Se fosse possível inventariar a antiga Livraria chegaríamos muito provavelmente à conclusão de que, entre muitos mais, havia textos menos habituais entre os de uso comunitário a que correspondia um interesse não mais que secundário. Em jeito de conclusão adiantada, constatámos que os monges alcobacenses não se assumiram como transmissores desses textos ou ideias. A existência de uns livros proibidos, não é uma lenda interessante entre as muitas em que foi pródigo o Mosteiro. O conteúdo deles não o conseguimos apurar, pois que nem a Relação Da Vinda... nem Natividade ou Frei Fortunato, adiantaram grande coisa nesse sentido. Podemos admitir que abordavam os mais variados assuntos, que iam desde os de natureza teológica, filosófica ou das próprias ciências naturais.
Ao longo dos tempos criou-se a ideia, porventura com algum fundamento que, no seu conjunto, os monges de Alcobaça eram néscios e boçais, constituíam uma plêiade verdadeiramente reaccionária, vendo no progresso social, científico, técnico ou meramente filosófico, uma corrida em direcção ao abismo. Mas não é rigorosamente assim. Refiram-se os relevantes exemplos dos autores da Crónica de Cister e da Monarquia Lusitana.
Frei Bernardo de Brito, na Crónica de Cister, defendeu no início do sec. XVI a tese de que os destinos de Portugal e da Ordem estão intimamente ligados por desígnio divino e até por laços de sangue entre Bernardo de Claraval e o Conde D. Henrique.
Na Monarquia Lusitana, o mesmo Frei Bernardo de Brito, partindo da identidade étnica e territorial de Portugal com a Lusitânia, descreveu a corografia e a história desta, até Afonso Henriques. A narrativa decorre, é certo, plena de reflexões moralistas, maravilhosa e mágica como nos romances de cavalaria.
Devemo-nos admirar?
As falsificações de Frei Bernardo de Brito devem entender-se no quadro da ideia de garantir ao País, então sob a dominação filipina, um prestígio antigo e brilhante e o direito à sua autonomia. Frei Bernardo de Brito, afastando-se da crónica palaciana, teve de procurar outras fontes, nem que para isso inventasse autores ou documentos.
O seu continuador na Monarquia Lusitana, Frei António Brandão teve uma preocupação porventura mais séria, socorrendo-se para o efeito de arquivos e cartórios espalhados pelo País e discutindo versões postas de há muito a correr com foros de verdade, sem prescindir ainda assim de preocupações apologéticas que deformam muitas interpretações e os factos. Seja como for, e tendo em nota o respectivo contexto político-temporal, a Alcobaça e à sua Ordem de Cister, pertencem a glória de ter sido as autoras, pela pena de Frei António Brandão, Cronista-Mor do Reino, da falsificação das Actas das Cortes de Lamego de 1641, guardadas no Cartório do Mosteiro, e que foram o suporte da Lei Fundamental, que vigorou em Portugal por quase 200 anos.
Já na Restauração, Frei Francisco Brandão, ainda na Monarquia Lusitana cedeu de novo à reflexão menos criteriosa, embora sem os arrojados voos de Frei Bernardo de Brito.
Mais tarde, em princípios do Sec. XVIII, a Frei Manuel dos Santos ficou a dever-se a Alcobaça Ilustrada, dando este século ainda a conhecer três reputados historiadores alcobacenses, agora com a preparação da Academia Real de História, que são Frei Manuel da Rocha, Frei Manuel de Figueiredo e finalmente Frei Fortunato de S. Boaventura. Frei Manuel dos Santos também teve as suas fraquezas, como historiador. D. Pedro I, morreu em Estremós, no dia 17 de Janeiro de 1367, tendo no seu testamento reafirmado que queria ser sepultado no Mosteiro de Alcobaça, aonde o aguardava o túmulo ao lado do de Inês. Até aqui não há novidade. Acontece que, segundo nos contou Frei Manuel dos Santos, in Alcobaça Ilustrada, foi posto o cadáver de D. Pedro no cruzeiro da igreja, enquanto se lhe oficiavam os funerais e descoberto o rosto, conforme o uso daqueles tempos, quando no fim da missa do primeiro dia notaram os presentes que se movia o corpo do defunto. Admiraram-se e acharam que o corpo estava vivo, e aqui foi o pasmar e o assombro de todos; mas como o corpo tinha o rosto e as mãos descobertas, poude falar no mesmo ser em que estava o redivino príncipe, sem outro movimento ou inquietação espantosa. Chamou pelo Abade e falou-lhe poucas palavras e se confessou, com maravilhoso socego; depois declarou como o Senhor lhe fizera tão notável mercê, que via necessária para a sua salvação pelos merecimentos do glorioso apóstolo S. Bartolomeu, de que ele rei fora, em extremo, devoto na vida. E dito isto, deu outra vez a alma nas mãos de de Deus.
Admito que esta estória, teve como justificação o sentimento de dívida que a Congregação de Alcobaça, possuia para com D. Pedro I. D. Afonso IV, após um prolongado e desagradável litígio com Alcobaça, chamou a si um conjunto importante de seis vilas dos coutos, como Aljubarrota, Coz, Pederneira, Alvorninha, Turquel e Salir de Matos, que os monges detinham proveitosamente, por doação de reis anteriores. Após a morte de D. Afonso IV, D. Pedro restituiu aos monges estas vilas.
Seriam os frades de Alcobaça a excepção? Há estudiosos insuspeitos que posicionam a Congregação de Alcobaça, contra a corrente dos ventos da história. Se pensarmos bem, era Roma quem fornecia o exemplo, decretando o Papa quando necessário ou conveniente para o bem da Igreja ou a glória de Deus por meio de Bulas, Indulgências Plenárias e outras benesses espirituais. E que na guerra não se podiam usar armas demasiadamente eficazes ou mortíferas, que era pavoroso o que se guardava nas pastas dos sábios ou na mente dos filósofos mais independentes, pois um dos riscos da investigação seria poder demonstrar que, afinal, Deus não existe. Ateavam-se as fogueiras purificadores da Inquisição para castigar os hereges que duvidavam que o Sol girava em volta da Terra. Não, não devia haver grande entusiasmo diante da perspectiva de haver coisas à espera de investigação. A questão aqui suscitada recolhida dos textos citados, não era nova, nem original. Nem acabou com a extinção da Congregação de Cister de Alcobaça. Numa rapidíssima digressão histórica, recorda-se que a conservação dos segredos foi um dos primeiros objectivos das sociedades secretas.
Os sacerdotes do antigo Egipto, guardavam zelosamente os hieroglifos e as leis da geometria espacial.
Os alquimistas da Idade Média, procuravam sigilosa e pouco romanticamente, no fim do seu trabalhosobre a matéria, uma espécie de transformação na própria pessoa, o acesso a um estado de consciência superior.
Na sua conhecida obra O Mistério das Catedrais, Fulcanelli visa demonstrar que as grandes construções Idade Média são, antes que mais, livros de pedra que ensinam a ciência alquímica e contêm a mesma verdade positiva e um fundo científico idêntico ao das pirâmides do Egipto, dos templos da Grécia, das catacumbas de Roma e das basílicas bizantinas.
Ainda hoje, com tendência para se acentuar, nos grandes centros de investigação, os cientistas iniciados usam distintivos indicando o seu grau de saber e a sua responsabilidade.
Apresentamos uma vez este assunto, a um conhecido estudioso de Alcobaça, que não recordava concretamente os dois textos invocados. Mas justificou o quarto dos proibidos com o paralelismo que os grandes segredos não podem ficar à guarda da polícia, já que tem de ser inter-pares que se há-de obter a sua segurança, imune à cobiça dos políticos ou dos militares. Os monges de Alcobaça, no seu contexto histórico não foram nem progressistas românticos, nem liberais. E jamais transmitiram aos vindouros a ideia de terem em si um grupo escolhido, reunindo homens moral ou intelectualmente avançados, transmutados pela intensidade dos seus conhecimentos, dispostos a proteger as suas descobertas ou o saber, contra os poderes (des)organizados, a curiosidade ou a cupidez. Os monges que habitaram o nosso Mosteiro, não pretenderam arrogar-se à ideia de divulgar esses conhecimentos no momento adequados, possuidores de uma ciência calma e consistente, mas se possível e muito pragmaticamente, de os sepultar sob toneladas de cimento ou no fundo dos oceanos, à falta de poder morrer com eles.
Após a II Guerra, e com o advento da era nuclear, a ideia da conservação de segredos revelou-se de novo como motivo de preocupação e de uma maneira assás curiosa. Alguns pensadores estimáveis do lado dos Aliados, afundados em angústias e não entrando nos pressupostos da Guerra-Fria, defenderam a proposição de que sendo a ciência e a técnica capazes de destruir a Humanidade, a idolatria do progresso e da liberdade pura, eram condenáveis em absoluto.
O Homem chegou ao termo das suas possibilidades, na curiosa síntese de alguns escritores de ficção científica. Assim, teria de se proceder à codificação das conquistas da investigação e da natureza e proibir, total ou parcialmente o seu progresso futuro.
Como? Através de um Conselho de Nações ou mesmo de um Conselho de Sábios. A ideia é, argumente-se, utópica ou ingénua, mas não foi reputada de reaccionária. O seu proclamado objectivo era não retroceder na inteligência mas defende-la de uma utilização prejudicial. O segredo não era uma preocupação restrita aos monges de Alcobaça. Quem não sabe não fala, pode-se argumentar em termos redutores. Mas não só. A posse ou o conhecimento de determinados factos impõe por vezes que o segredo não seja tanto o resultado da vontade daquele que o guarda, mas da sua própria natureza. Encontraríamos aqui, quem sabe, uma explicação benévola, tão benévola quanto se pode dizer que o segredo existe no inconsciente colectivo da espécie humana.O escritor em liberdade incomoda com frequência como sabemos. Contra ele sempre existiram censuras, úteis ao senhor de Santa Comba, bem como aos defensores do realismo socialista. O escritor ergue-se em liberdade contra o obscurantismo, revolve, agita, não tem certezas adquiridas, não vive agarrado à estabilidade ou ao medo.
Bernard Shaw, numa das suas peças, traz César à boca de cena. A Biblioteca de Alexandria, a maior do mundo antigo, com os seus milhares de volumes, encontra-se inexoravelmente a arder. Nada a pode já salvar. Uma das personagens diz que é a memória da Humanidade que está a desaparecer. Responde César, com a prepotência de alguns poderosos, deixa-a queimar, é uma memória plena de infâmia.
Com a morte de D. José e a queda do Marquês de Pombal, ensaiou-se ainda uma profunda reorganização da Ordem de Cister em Portugal.
Bem mais eficaz que o terramoto, foi o movimento contra a Igreja e as Ordens Religiosas desencadeado pelo Marquês que determinou a extinção, pelo País além, de dez mosteiros cistercienses, em 17 de Dezembro de 1775. A verdade é que no período que se irá prolongar até 1834, houve um esforço, pelo menos preocupação, com a revitalização da Ordem de Cister, tanto no aspecto disciplinar e espiritual como no material ou cultural.
Mas os tempos avançavam mais rapidamente que as reformas necessárias. As ideias libertárias da Revolução Francesa tinham chegado e eram conhecidas dos mosteiros cistercienses. Depois, veio a guerra civil entre liberais e miguelistas, em que alguns religiosos pegaram em armas, o que não propiciou ambiente favorável a que os esforços em curso frutificassem.
E quando foram extintos os mosteiros, a Ordem de Cister acabou mesmo e de vez em Portugal. Ficou apenas a sua memória, em breve demasiadamente difusa. Permanecem ainda hoje, sobre a questão da extinção das Ordens Religiosas algumas dúvidas interessantes. Como acabou a Ordem de Cister em Alcobaça? Como e quando ocorre o êxodo dos monges? Segundo M. Vieira Natividade, in O Mosteiro de Alcobaça os frades depois de várias sortidas, abandonaram em 13 de Outubro de 1834 definitivamente o Mosteiro, isto é, antes mesmo do levantamento liberal. Mas Ramalho Ortigão, in As Farpas, conta de forma diferente, finalmente tendo rebentado em Alcobaça um pronunciamento liberal, em 16 de Outubro de 1833, os frades descamparam definitivamente. Cremos que quando os monges saíram do Mosteiro, ainda era rei D. Miguel, embora com D. Pedro já no Porto e o Duque da Terceira em Lisboa. Quando passou por Alcobaça o exército realista, a retirada sobre Santarém abriu aos Marechais (da Rainha), as portas para a população ocupar e saquear o Mosteiro. De tanta grandeza, esplendor e glória, que ficou nesta Babilónia de Alcobaça, onde tudo era farto e gigantesco? O espaço da antiga Livraria, após a extinção das Ordens Religiosas, teve variados usos, nada reaccionários ou progressistas, desde Hospital, Quartel, Casa de Espectáculos, Sala de Convívio e Trabalho do Asilo de Mendicidade de Lisboa. Quando uma pequena fracção do Exército Português comandada pelo Marquês de Saldanha entrou pela segunda vez nesta vila de Alcobaça trouxe consigo numerosos feridos e mais doentes que recolheu no Hospital Civil e na Sala da Livraria do extinto Mosteiro de S. Bernardo.P. Zagalo, in História da Misericórdia de Alcobaça, escreveu por sua vez sobre este mesmo assunto que na Revolta dos Marechais, após a batalha do Chão da Feira perto da actual Cruz da Légua realizada a 28 de Agosto de 1837, os feridos vieram para Alcobaça e foram tratados na sala da Livraria e no Hospital de Misericórdia de Alcobaça. O então Marquez de Saldanha mandou chamar a Mesa da Misericórdia e incumbiu-a de tratar dos feridos que estavam na livraria (…).Mais tarde, a C. A. da Misericórdia e Hospital de Alcobaça, foram encarregados pela autoridade administrativa, da Administração do Hospital Militar erecto na Livraria do extinto Mosteiro, depois da acção que teve lugar junto aos Carvalhos, no dia 28 de Agosto de 1837 (…). De facto o hospitalzinho da Rua do Castelo ampliara-se muito, ao intalar-se na Livraria do Mosteiro, saqueada e a arruinar-se em progressão assustadora com os míseros herdeiros dos monges bibliotecários (…).
Sem se entrar em campos muito polémicos, pode-se afirmar com alguma segurança que a Igreja Romana nunca foi verdadeiramente uma instituição democrática, pelo menos no sentido vulgar e ocidental de estrutura político-ideológica. Nesse como como o poderiam ser os Monges de Alcobaça? Com Constantino e Teodósio, transformou-se o cristianismo na religião oficial do Estado e assim a Igreja numa instituição de poder, hierarquizada e poderosa.
Parece que Jesus é menos congregador que a Hierarquia, e a Fé encontra-se mais direccionada ao dogma que à pessoa de Jesus, o Salvador. Sempre se falou da necessidade de diálogo da Igreja com o Mundo. Dito assim será que a Igreja não faz parte do nosso Mundo? Mas admitindo sem condescender que o faz, não se esqueçam afastamentos comprometedores. Até à década de sessenta do século XX!!! manteve-se o Index, a relação de obras/livros cuja leitura estava vedada aos cristãos/católicos. Nesse Index figuraram pessoas tão eminentes da história, ciência, literatura, direito, como Copérnico, Galileu cientistas, Descartes, Pascal, Espinosa, Kant, Rosseau, Voltaire, Comte, filósofos, Diderot e D’Alembert Enciclopedistas, Grotius Jurista, Vítor Hugo, Balzac, Flaubert, Zola, D´Anunzio a nata da moderna literatura europeia ou mais recentemente Sartre, Simone de Beauvoir, Unamuno ou Gide. Mesmo, com o fim anunciado do Index, a censura manteve-se a teólogos, como Leonardo Boff e Hans Kung. As dificuldades da Igreja são e serão enormes tanto numa perspectiva doutrinal como meramente organizacional. A igreja tem dificuldade em aceitar a dúvida e a argumentar. Do ponto de vista doutrinal, alguns espíritos ainda se admiram que o padre Teilhard de Chardin, que tentou conciliar a fé com uma concepção evolutiva do mundo, continue a merecer algumas reservas. Como se pode invocar num quadro de evolução, a visão tradicional de um Adão e Eva e o pecado original? Dois seres semiconscientes, poderão ter cometido um pecado/crime, na origem de todo o MAL do mundo? Democracia? Ao princípio basilar da democracia, a Igreja contrapõe uma monarquia plenipotenciária e absoluta.
Etiquetas:
alcobaça,
d. miguel I,
livros proibidos
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses; Nostalgia dos padeiros do antigamente Tempos de ruralidade
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses
Nostalgia dos padeiros do antigamente?
Tempos de ruralidade
José Pereira Machado, que goza de saúde e já dobrou a casa dos oitenta, nasceu no Montes, onde passou a sua juventude, indo viver para Cós, quando se casou com vinte e tal anos. A sua aparência é boa, mas diz que é velho, bastante velho mesmo, pois nasceu quando a I Guerra acabou. Não tem especial nostalgia desse tempo para além, do facto de ser muito mais novo. Machado dava-se mais ou menos por feliz, por viver em paz. A II Guerra era muito longe, lá na Europa, por cá não faltava a malga de sopa, broa, e toucinho para adubar. Teve sorte e as mães portuguesas bem o reconheceram, agradecendo a Salazar. Portugal escapou quase incólume da Guerra, graças à argúcia e boa governação do Chefe.
Os portugueses, como Salazar bem sabia, têm no pão um emblema forte da sua dieta.
Ainda hoje, os portugueses são zelosos guardadores da epopeia do pão, símbolo dos seus anseios, nas palavras de políticos e poetas. A paz ao lado do pão, tal como a saúde e a habitação.
O preço do pão, foi o grande barómetro descontentamento mais elementar e o único produto a que o Salazar nunca permitiu subir de preço. Assim, quando Salazar não deixou aumentar o preço do pão, foi necessário fabricar um pão mais leve, vendido ao mesmo preço do de meio ou de um quilo. Enganava-se o cliente, mas tornava-se mais viável o negócio. Terminada a Guerra tudo iria melhorar, melhores dias virão, como suponha e confia a boa sabedoria popular.
Embora o pão continue entre nós a ser especialmente apreciado, a tradição da profissão de padeiro encontra-se porém definitivamente em crise. Pelo mundo fora, a profissão teve que se adaptar ao desenvolvimento da sociedade, das tecnologias e do comércio, sofrendo com novos padrões de vida e competição. O processo de adaptação às mudanças começou no final dos anos 60, com o aparecimento de tecnologias, como o fogão eléctrico e os armários para impedir o excesso de fermentação. A profissão, que fora baseada na habilidade manual, no olfacto e na visão, passou a ser controlada e substituída por equipamentos, como balanças e termómetros.
Francisco (vulgo Sico) Carlos da Costa, industrial de panificação à moda antiga, ora reformado por doença, salienta que no passado havia uma íntima relação entre o padeiro e o pão, pois aquele tinha que usar os sentidos para descobrir se o pão estava no ponto. No seu tempo, havia que sentir com as mãos a textura da massa e conhecer o cheiro próprio para avaliar se o pão estava pronto. No entanto, reconhece que, com novas máquinas, a vida dos padeiros foi facilitada e, ao invés de acordarem às duas da manhã de inverno ou verão como acontecia, podem acordar (pelo menos) às quatro.
Apesar do desenvolvimento da profissão, os padeiros portugueses tradicionais, como Sico Carlos, sofreram uma crise a partir dos anos 80, quando nutricionistas começaram a apregoar que o pão engorda. Além disso, com a expansão dos supermercados, o comércio tradicional e a sua forma de aquisição começou a modificar-se. Hoje, há pão fresco, variado e saboroso a toda a hora. A venda de pão assemelha-se a uma confeitaria.
Sico Carlos aprendeu há mais de cinquenta anos o ofício com os mais velhos, trabalhando de início como assistente em funções menores, como limpeza. Depois de ter trabalhado bastante tempo numa padaria, já preparado, abriria o seu próprio negócio. No entanto, com a industrialização e a necessidade de satisfazer as exigências da clientela, os aprendizes têm logo aulas práticas, sem terem que passar por essas funções. À medida que a sociedade se transformou, evoluíram também as necessidades e desejos. Um português come em média metade da quantidade que há 50 anos atrás. Apesar de os padeiros serem continuamente desafiados, a população portuguesa mesmo a rural, não cosendo mais o pão em casa, mantém a tradição de consumir pão todos os dias, ainda que em menor quantidade (o preço não é irrelevante), porque está nas raízes de sua cultura.
José Machado manteve sempre estreitos contactos, privando de perto e com familiaridade com a vida e muitas famílias dos Montes. Em jovem, era já lembrada como se recorda, mas pouco acarinhada, a conveniência de caiar as casas, limpar as ruas, cada um na parte que lhes pertence, remover certo lixo que se amontoa aos cantos das ruas e nos largos, porque não só dá um mau aspecto à terra, como também a adopção desta medida de higiene que evita um certo número de doenças daí provenientes. É preciso mostrar, mais uma vez que, embora desprezados pela Câmara de Alcobaça que não atende às (vossas) necessidades locais, (vós) sabeis remediar essas faltas.
Fazendo um esforço para se recordar desses tempos, chega à triste conclusão que afinal, a vida nesse então não era assim tão maravilhosa, apesar de se saber que se ouvir um burro a zurrar, choverá antes de o dia terminar. Mas, na verdade, pensando um pouco mais serenamente, admite que o conceito de felicidade, de bom ou de mau, é altamente relativo e impossível de mensurar objectivamente. Reconhece que é de um geração em que se comiam as sobras, e que hoje, em tempo de carestia de alimentos, sobra mesmo assim quase tudo. Montes era uma terra rural, sem indústria, aliás como hoje, uma terra onde a rapaziada se divertia nas adegas. e na boa linha de pensamento cristão e nacionalista de Salazar, as mulheres eram mães, esposas, filhas ou irmãs de todos os que somos portugueses.
O trabalho feminino fora de casa, e na defesa dos bons costumes, era aceite apenas o do campo (vender criação ou legumes no mercado, fazer as vindimas ou a apanha de fruta, em suma, o mito do ruralismo). As mulheres não deviam trabalhar em sectores onde pudesse haver homens desempregados e nesse caso, não justificavam receber o mesmo que eles, nem lhes era reconhecido igual estatuto profissional. Fazer costura era uma actividade que significava uma promoção social, melhor que o uso de farda de criada ou o trabalho no campo.
As creches e jardins infantis eram raros no Pais, nos Montes nem pensar, pois não se reputava conveniente, que outras pessoas, que não as mães, tomassem conta das crianças. As famílias eram numerosas, fez sentir os seus efeitos. Esta povoação, que já viu muita miséria, que tem sentido muitos gemidos de dor, de muito sofrimento moral e físico, está assente sobre um lençol de água, manacial de numerosas nascentes que brotam, aqui sim, dos alicerces das construções, acelerando a sua ruína, foi aquela onde Machado acabou por radicar a sua vida. Ter famílias numerosas é um acto heróico que o Estado devia premiar. Cós, ali ao lado, não era diferente na estrutura social, uma terra triste com casas denegridas pelo excesso de humidade do solo e da sua exposição a norte, de casas com paredes fendidas, perdendo a verticalidade, dando a impressão de que um violento terramoto.
Quando, por exemplo, tinha necessidade de ir aos Montes matar saudades a casa de António Salgueiro, seu amigo de peito, e perguntava se podia entrar, este respondia-lhe invariavelmente e como se fosse um ritual que aliás ambos cumpriram divertidos durante anos que, quando precisasse de licença a fosse buscar à Câmara.
Até aos 23, 24 anos José Pereira Machado trabalhou na agricultura, muito na vinha, como aliás quase toda a gente e grande número de portugueses. Se não era especialmente feliz, repete-se também não era propriamente infeliz, o que poderia significar ter alguns difusos ou indefinidos problemas, dúvidas, angústias ou ansiedades. Quase de certeza nunca leu Pessoa, diremos nós. A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Sem se assumir como um cínico, não acredita que exista uma receita para ser feliz. Existem sim, processos que podem ser utilizados na vida dia a dia e ajudar a encontrar um caminho para a felicidade. Naturalmente, não é uma ciência exacta como querem fazer crer mestres descobridores do segredo. A vida em si, não é um destino, mas uma caminhada. Nesta caminhada podem-se encontrar caminhos amplos e agradáveis ou atalhos tortuosos, que conduzem a becos sem saída, bem como a muitas pedras. Ser feliz em vários sentidos, como a vida, não é pois um destino, mas um processo pelo qual se vai desenvolvendo ao longo da vida. Ser feliz implica liberdade de pensamento e saber reconhecer as possibilidades que os caminhos oferecem. Aliás, todas as dificuldades que se enfrentam no presente são preciosidades que teremos no futuro, se houver capacidade em aprender.
Há pessoas, o que não é o caso de José Machado, que gostam de associar o sucesso à sorte ou azar, dependendo do resultado. Não, cada um é fruto do que tiver feito no passado.
Ao fim da tarde, os homens reuniam-se na taberna, ou na adega. O Manel da Anta dizia quando estava sóbrio que neste labirinto da vida, dá o mesmo haver branco ou trinto.
Nas adegas, alumiadas por lamparinas de azeite, os homens discutiam política, embora a verdadeira política só fosse reservada aos patrões, os mais ricos como António Magalhães, que era professor, o Padre, o Presidente da Junta ou pelo menos o Regedor, porque a política dos outros como eles, era saber se podiam trabalhar na jorna mais que dois ou três dias por semana, pois o trabalho na adega era mais mal pago, do que à chuva ou ao vento. O pior analfabeto é o analfabeto político, sentenciava o Manuel da Joaquina, que tinha feito a quarta classe em Alpedriz. E acrescentava doutoralmente, com uma enorme convicção, que o analfabeto não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos, não decide. O analfabeto político afinal, é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia a política e a polémica.
Mas do alto da sua fanfarronice, Manuel da Joaquina esquecia que aquele a quem chamava depreciativa e malevolamente de analfabeto político, referindo-se a muitos dos seus conterrâneos, bem sabia até talvez melhor que ele o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, dos sapatos e dos remédios. Afinal aquilo que interessa na vida. Uma vez houve uma reunião da União Nacional (Alcobaça) numa adega da Castanheira. Manuel da Joaquina lá foi bem engravatado e a determinado momento alguém comentou para ele, a meia voz, o que é que aqueles estão para ali a dizer. Com paciência, repetiu professoralmente para o seu vizinho, a matéria dada, até que no fim lhe perguntou se tinha compreendido bem. Sim compreendi muito bem, mas são todos iguais, o que eles querem é tacho.
O trabalho no campo era na lavoura e nos pinhais (resina). Empregos, ninguém
sabia o que tal era. A ocupação que a maioria dos homens da zona de Alpedriz e Pataias tinha, além da agricultura, vinha e pomares, era a resinagem dos pinheiros. Saíam eles de manhã levando consigo o ferro ou a lata e a espátula, que eram os instrumentos de trabalho para renovar as sangrias e colher a resina, bem como o saco da merenda preso à cintura. O resineiro faz parte da cultura portuguesa, sendo cantado em alguns Grupos de Cantares, Ranchos Folclóricos e Zeca Afonso.
Resineiro engraçado, engraçado no falar//Resineiro engraçado, engraçado no falar//Ó i ó ai, eu hei-de ir à terra dele//Ó i ó ai, se ele me quiser levar.
Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão//Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão//Ó i ó ai p’ra escrever ao resineiro//Ó i ao ai, que traga no coração.
Resineiro, é casado, é casado e tem mulher//Resineiro, é casado, é casado e tem mulher//Ó i ó ai vou escrever ao resineiro//Quantas vezes eu quiser.
Os pinheiros com porte suficiente para poderem ser sangrados, eram visitados pelos resineiros que colhiam a resina para uma lata que uma vez cheia era despejada numa barrica colocada num local onde pudesse ser carregada, em tempos mais recuados em carros de bois e mais recente já em camionetas.
Quando a fome apertava, fazia-se uma pausa para a merenda, normalmente broa e sardinha. Terminado este trabalho duro e difícil, o resineiro ainda ia ter com a mulher que andava na horta, por vezes com os filhos ainda pequenos, ajudando na sobrevivência da família.
Esta foi, sem dúvida, uma profissão de gerações e de sobrevivência da nossa gente. Mas a profissão de resineiro morreu, como outras. A resina foi uma fonte de riqueza na nossa região. Agora vem do Oriente. Com o calcorrear dos resineiros de um pinheiro para outro com o farnel à cinta porque trabalhava de sol a sol, o mato não crescia como agora.
Na agricultura não havia semana inglesa, muito menos americana de que nunca se ouvira falar, que seria sempre considerada uma modernice, sem viabilidade no nosso país. Só não se trabalhava ao Domingo, pois de manhã havia que ir à missa. Domingo não era Domingo sem missa em latim e sermão, ameaçando com as penas do Inferno, como se na terra ele já não o houvesse. A realidade (ruralidade) era tão dura que a Igreja parecia ajudar a esconder períodos difíceis dos mais necessitados. Como poderia haver castigo depois da morte?, interrogavam-se alguns mais arrojados. Liberdade//Tu tens a vontadinha//Que não eu.//Quero a minha//E não a que me prometes//Lá no céu, como dizia o velho Edmundo Bettencourt.
Sem pretender entrar em terrenos complicados, somos mesmo de opinião que, neste século XXI, Inferno e Paraíso são metáforas, pois não cremos que Deus na sua infinita sabedoria, tenha criado um Universo em que coexistem domínios ultra-terrenos. Não é possível compatibilizar Fé com um Deus que anula o Homem. Esse Deus não põe existir. Também discordamos que seja entendido, proposto pela Igreja ou Sacerdotes, que a vida é uma peregrinação rumo a Deus, como entenderia Dante (mas isso foi na Idade Média), se bem o interpretamos. Passe aqui um breve parêntesis. A pretensa relação com Deus, decorre de uma pessoa que se assume ou supõe religiosa, não tanto necessariamente no sentido de pertencer a esta ou aquela confissão, mas porque a ideia de Deus parece óbvia. Quem pode rejeitar que as religiões (sem exclusão do Cristianismo) trouxeram ao mundo um rol de babaridades, supertições, guerras e mesmo infantilismo?
Mas não, o mundo não seria possível, nem mesmo melhor, sem religiões, pois a indignidade não está nelas, mas nos seus crentes ou agentes que delas se servem de modo rasteiro, nalguns casos blasfemo mesmo, pelos propósitos desumanos.
O Domingo era ainda motivo para tomar banho, vestir roupa lavada, ver e ser visto, os rapazes ou mesmo os homens feitos, lançar olhares sequiosos ao mulherio.
Da parte de tarde, os homens lá voltavam à taberna, onde é que havaria de ser? para entre uns copos de branco ou tinto, por a conversa em dia, jogar o chinquilho ao perde-pagas. Se o vinho atrapalhava o negócio deixava-se este, como sentenciava o Domingos Felizardo. Talvez isso, tivesse criado a fama de ninguénm ter mais sede que ele. Claro que quando apanhava uma boa carraspana eram depois três dias da semana, como sabiam por experiência o patrão e a mulher que no princípio ficava desesperada e depois se habituou. As muheres aproveitavam a tarde para tratar da lide da casa. Bailes, quase só pelo Carnaval, Santos Populares ou Santa Marta estando as moças muito vigiados pelas mães. Se se pensar bem, os sentimentos que hoje em dia tanto atrapalham a felicidade, também existiam, mas o Regime encarregava-se de paternalmente conferir aos acontecimentos as devidas proporções, como se não houvesse capacidade individual ou colectiva para digerir momentos difíceis. Sem dúvida que se vivia, lado a lado, com perguntas para as quais nãoera dada resposta, mas deveria haver. Como muitos portugueses na sua pouca instrução, Machado não sabia exprimir, por palavras, todo um turbilhão de sentires, e se o conseguisse ou soubesse fazer, era mais que normal que o Poder (com quem nunca privou) não lhe desse grande relevância ou dedicasse um vago olhar distraído.
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses, era o slogan integrado na campanha ao consumo de vinho, patrocinada pela JNV, pelo Grémio dos Armazenistas de Vinho e com o apoio publicitário do governo. Essa campanha continha todavia algumas contradições, nunca resolvidas a contento. Desde há tempos, havia um conflito entre a opção pão e vinho. A questão não era pacífica, pois se no pão seria necessário aumentar a produção de modo a satisfazer as necessidades do país, no vinho a colheita normalmente ultrapassava as necessidades internas, acarretando um problema cuja solução não era fácil, isto é, o destino dos excedentes.
Na zona de Montes, Cós ou Alpedriz, o vinho era quase tinto. Não havia cooperativas. O branco era de bica aberta.Isto é, em fins de Setembro ou Outubro, expremiam-se as uvas no esmagador. O mosto (só ele), ia depois para uma vasilha grande, a fim de fermentar, onde ficava até Março, altura em que era transferido para uma outra vasilha limpa. O vinho aparecia então claro, limpo, e com bastante graduação (por vezes 18º), o que impunha que fosse desdobrado. Este vinho era frequentemente aproveitado para água-pé, que também chegava a atingir uns bons 14º.
Nas vindimas, num ambiente quase festivo, trabalhava toda a gente da terra, as mulheres na apanha das uvas, os homens a carregar os cestos para os carros de bois, com eixos das rodas e chumaceiras de madeira, até às tinas das adegas. Até há alguns anos, a Adiafa era a festa popular do fim das vindimas ou das colheitas, uma época em que trabalhadores e patrões confraternizavam, após uma boa campanha. Hoje em dia, a Adiafa é uma mera recordação ou não mais que uma promoção turística de uma região, uma manifestação para ajudar a manter a memória da cultura e os antigos costumes que teimam em persistir à mudança constante dos valores sociais. Alguns proprietários mais importantes, faziam a Adiafa, com um jantar melhorado com o pessoal, aonde estavam presentes a carne de porco, retirada da salga, e filhoses.
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses
Nostalgia dos padeiros do antigamente?
Tempos de ruralidade
José Pereira Machado, que goza de saúde e já dobrou a casa dos oitenta, nasceu no Montes, onde passou a sua juventude, indo viver para Cós, quando se casou com vinte e tal anos. A sua aparência é boa, mas diz que é velho, bastante velho mesmo, pois nasceu quando a I Guerra acabou. Não tem especial nostalgia desse tempo para além, do facto de ser muito mais novo. Machado dava-se mais ou menos por feliz, por viver em paz. A II Guerra era muito longe, lá na Europa, por cá não faltava a malga de sopa, broa, e toucinho para adubar. Teve sorte e as mães portuguesas bem o reconheceram, agradecendo a Salazar. Portugal escapou quase incólume da Guerra, graças à argúcia e boa governação do Chefe.
Os portugueses, como Salazar bem sabia, têm no pão um emblema forte da sua dieta.
Ainda hoje, os portugueses são zelosos guardadores da epopeia do pão, símbolo dos seus anseios, nas palavras de políticos e poetas. A paz ao lado do pão, tal como a saúde e a habitação.
O preço do pão, foi o grande barómetro descontentamento mais elementar e o único produto a que o Salazar nunca permitiu subir de preço. Assim, quando Salazar não deixou aumentar o preço do pão, foi necessário fabricar um pão mais leve, vendido ao mesmo preço do de meio ou de um quilo. Enganava-se o cliente, mas tornava-se mais viável o negócio. Terminada a Guerra tudo iria melhorar, melhores dias virão, como suponha e confia a boa sabedoria popular.
Embora o pão continue entre nós a ser especialmente apreciado, a tradição da profissão de padeiro encontra-se porém definitivamente em crise. Pelo mundo fora, a profissão teve que se adaptar ao desenvolvimento da sociedade, das tecnologias e do comércio, sofrendo com novos padrões de vida e competição. O processo de adaptação às mudanças começou no final dos anos 60, com o aparecimento de tecnologias, como o fogão eléctrico e os armários para impedir o excesso de fermentação. A profissão, que fora baseada na habilidade manual, no olfacto e na visão, passou a ser controlada e substituída por equipamentos, como balanças e termómetros.
Francisco (vulgo Sico) Carlos da Costa, industrial de panificação à moda antiga, ora reformado por doença, salienta que no passado havia uma íntima relação entre o padeiro e o pão, pois aquele tinha que usar os sentidos para descobrir se o pão estava no ponto. No seu tempo, havia que sentir com as mãos a textura da massa e conhecer o cheiro próprio para avaliar se o pão estava pronto. No entanto, reconhece que, com novas máquinas, a vida dos padeiros foi facilitada e, ao invés de acordarem às duas da manhã de inverno ou verão como acontecia, podem acordar (pelo menos) às quatro.
Apesar do desenvolvimento da profissão, os padeiros portugueses tradicionais, como Sico Carlos, sofreram uma crise a partir dos anos 80, quando nutricionistas começaram a apregoar que o pão engorda. Além disso, com a expansão dos supermercados, o comércio tradicional e a sua forma de aquisição começou a modificar-se. Hoje, há pão fresco, variado e saboroso a toda a hora. A venda de pão assemelha-se a uma confeitaria.
Sico Carlos aprendeu há mais de cinquenta anos o ofício com os mais velhos, trabalhando de início como assistente em funções menores, como limpeza. Depois de ter trabalhado bastante tempo numa padaria, já preparado, abriria o seu próprio negócio. No entanto, com a industrialização e a necessidade de satisfazer as exigências da clientela, os aprendizes têm logo aulas práticas, sem terem que passar por essas funções. À medida que a sociedade se transformou, evoluíram também as necessidades e desejos. Um português come em média metade da quantidade que há 50 anos atrás. Apesar de os padeiros serem continuamente desafiados, a população portuguesa mesmo a rural, não cosendo mais o pão em casa, mantém a tradição de consumir pão todos os dias, ainda que em menor quantidade (o preço não é irrelevante), porque está nas raízes de sua cultura.
José Machado manteve sempre estreitos contactos, privando de perto e com familiaridade com a vida e muitas famílias dos Montes. Em jovem, era já lembrada como se recorda, mas pouco acarinhada, a conveniência de caiar as casas, limpar as ruas, cada um na parte que lhes pertence, remover certo lixo que se amontoa aos cantos das ruas e nos largos, porque não só dá um mau aspecto à terra, como também a adopção desta medida de higiene que evita um certo número de doenças daí provenientes. É preciso mostrar, mais uma vez que, embora desprezados pela Câmara de Alcobaça que não atende às (vossas) necessidades locais, (vós) sabeis remediar essas faltas.
Fazendo um esforço para se recordar desses tempos, chega à triste conclusão que afinal, a vida nesse então não era assim tão maravilhosa, apesar de se saber que se ouvir um burro a zurrar, choverá antes de o dia terminar. Mas, na verdade, pensando um pouco mais serenamente, admite que o conceito de felicidade, de bom ou de mau, é altamente relativo e impossível de mensurar objectivamente. Reconhece que é de um geração em que se comiam as sobras, e que hoje, em tempo de carestia de alimentos, sobra mesmo assim quase tudo. Montes era uma terra rural, sem indústria, aliás como hoje, uma terra onde a rapaziada se divertia nas adegas. e na boa linha de pensamento cristão e nacionalista de Salazar, as mulheres eram mães, esposas, filhas ou irmãs de todos os que somos portugueses.
O trabalho feminino fora de casa, e na defesa dos bons costumes, era aceite apenas o do campo (vender criação ou legumes no mercado, fazer as vindimas ou a apanha de fruta, em suma, o mito do ruralismo). As mulheres não deviam trabalhar em sectores onde pudesse haver homens desempregados e nesse caso, não justificavam receber o mesmo que eles, nem lhes era reconhecido igual estatuto profissional. Fazer costura era uma actividade que significava uma promoção social, melhor que o uso de farda de criada ou o trabalho no campo.
As creches e jardins infantis eram raros no Pais, nos Montes nem pensar, pois não se reputava conveniente, que outras pessoas, que não as mães, tomassem conta das crianças. As famílias eram numerosas, fez sentir os seus efeitos. Esta povoação, que já viu muita miséria, que tem sentido muitos gemidos de dor, de muito sofrimento moral e físico, está assente sobre um lençol de água, manacial de numerosas nascentes que brotam, aqui sim, dos alicerces das construções, acelerando a sua ruína, foi aquela onde Machado acabou por radicar a sua vida. Ter famílias numerosas é um acto heróico que o Estado devia premiar. Cós, ali ao lado, não era diferente na estrutura social, uma terra triste com casas denegridas pelo excesso de humidade do solo e da sua exposição a norte, de casas com paredes fendidas, perdendo a verticalidade, dando a impressão de que um violento terramoto.
Quando, por exemplo, tinha necessidade de ir aos Montes matar saudades a casa de António Salgueiro, seu amigo de peito, e perguntava se podia entrar, este respondia-lhe invariavelmente e como se fosse um ritual que aliás ambos cumpriram divertidos durante anos que, quando precisasse de licença a fosse buscar à Câmara.
Até aos 23, 24 anos José Pereira Machado trabalhou na agricultura, muito na vinha, como aliás quase toda a gente e grande número de portugueses. Se não era especialmente feliz, repete-se também não era propriamente infeliz, o que poderia significar ter alguns difusos ou indefinidos problemas, dúvidas, angústias ou ansiedades. Quase de certeza nunca leu Pessoa, diremos nós. A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Sem se assumir como um cínico, não acredita que exista uma receita para ser feliz. Existem sim, processos que podem ser utilizados na vida dia a dia e ajudar a encontrar um caminho para a felicidade. Naturalmente, não é uma ciência exacta como querem fazer crer mestres descobridores do segredo. A vida em si, não é um destino, mas uma caminhada. Nesta caminhada podem-se encontrar caminhos amplos e agradáveis ou atalhos tortuosos, que conduzem a becos sem saída, bem como a muitas pedras. Ser feliz em vários sentidos, como a vida, não é pois um destino, mas um processo pelo qual se vai desenvolvendo ao longo da vida. Ser feliz implica liberdade de pensamento e saber reconhecer as possibilidades que os caminhos oferecem. Aliás, todas as dificuldades que se enfrentam no presente são preciosidades que teremos no futuro, se houver capacidade em aprender.
Há pessoas, o que não é o caso de José Machado, que gostam de associar o sucesso à sorte ou azar, dependendo do resultado. Não, cada um é fruto do que tiver feito no passado.
Ao fim da tarde, os homens reuniam-se na taberna, ou na adega. O Manel da Anta dizia quando estava sóbrio que neste labirinto da vida, dá o mesmo haver branco ou trinto.
Nas adegas, alumiadas por lamparinas de azeite, os homens discutiam política, embora a verdadeira política só fosse reservada aos patrões, os mais ricos como António Magalhães, que era professor, o Padre, o Presidente da Junta ou pelo menos o Regedor, porque a política dos outros como eles, era saber se podiam trabalhar na jorna mais que dois ou três dias por semana, pois o trabalho na adega era mais mal pago, do que à chuva ou ao vento. O pior analfabeto é o analfabeto político, sentenciava o Manuel da Joaquina, que tinha feito a quarta classe em Alpedriz. E acrescentava doutoralmente, com uma enorme convicção, que o analfabeto não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos, não decide. O analfabeto político afinal, é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia a política e a polémica.
Mas do alto da sua fanfarronice, Manuel da Joaquina esquecia que aquele a quem chamava depreciativa e malevolamente de analfabeto político, referindo-se a muitos dos seus conterrâneos, bem sabia até talvez melhor que ele o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, dos sapatos e dos remédios. Afinal aquilo que interessa na vida. Uma vez houve uma reunião da União Nacional (Alcobaça) numa adega da Castanheira. Manuel da Joaquina lá foi bem engravatado e a determinado momento alguém comentou para ele, a meia voz, o que é que aqueles estão para ali a dizer. Com paciência, repetiu professoralmente para o seu vizinho, a matéria dada, até que no fim lhe perguntou se tinha compreendido bem. Sim compreendi muito bem, mas são todos iguais, o que eles querem é tacho.
O trabalho no campo era na lavoura e nos pinhais (resina). Empregos, ninguém
sabia o que tal era. A ocupação que a maioria dos homens da zona de Alpedriz e Pataias tinha, além da agricultura, vinha e pomares, era a resinagem dos pinheiros. Saíam eles de manhã levando consigo o ferro ou a lata e a espátula, que eram os instrumentos de trabalho para renovar as sangrias e colher a resina, bem como o saco da merenda preso à cintura. O resineiro faz parte da cultura portuguesa, sendo cantado em alguns Grupos de Cantares, Ranchos Folclóricos e Zeca Afonso.
Resineiro engraçado, engraçado no falar//Resineiro engraçado, engraçado no falar//Ó i ó ai, eu hei-de ir à terra dele//Ó i ó ai, se ele me quiser levar.
Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão//Já tenho papel e tinta, caneta e mata-borrão//Ó i ó ai p’ra escrever ao resineiro//Ó i ao ai, que traga no coração.
Resineiro, é casado, é casado e tem mulher//Resineiro, é casado, é casado e tem mulher//Ó i ó ai vou escrever ao resineiro//Quantas vezes eu quiser.
Os pinheiros com porte suficiente para poderem ser sangrados, eram visitados pelos resineiros que colhiam a resina para uma lata que uma vez cheia era despejada numa barrica colocada num local onde pudesse ser carregada, em tempos mais recuados em carros de bois e mais recente já em camionetas.
Quando a fome apertava, fazia-se uma pausa para a merenda, normalmente broa e sardinha. Terminado este trabalho duro e difícil, o resineiro ainda ia ter com a mulher que andava na horta, por vezes com os filhos ainda pequenos, ajudando na sobrevivência da família.
Esta foi, sem dúvida, uma profissão de gerações e de sobrevivência da nossa gente. Mas a profissão de resineiro morreu, como outras. A resina foi uma fonte de riqueza na nossa região. Agora vem do Oriente. Com o calcorrear dos resineiros de um pinheiro para outro com o farnel à cinta porque trabalhava de sol a sol, o mato não crescia como agora.
Na agricultura não havia semana inglesa, muito menos americana de que nunca se ouvira falar, que seria sempre considerada uma modernice, sem viabilidade no nosso país. Só não se trabalhava ao Domingo, pois de manhã havia que ir à missa. Domingo não era Domingo sem missa em latim e sermão, ameaçando com as penas do Inferno, como se na terra ele já não o houvesse. A realidade (ruralidade) era tão dura que a Igreja parecia ajudar a esconder períodos difíceis dos mais necessitados. Como poderia haver castigo depois da morte?, interrogavam-se alguns mais arrojados. Liberdade//Tu tens a vontadinha//Que não eu.//Quero a minha//E não a que me prometes//Lá no céu, como dizia o velho Edmundo Bettencourt.
Sem pretender entrar em terrenos complicados, somos mesmo de opinião que, neste século XXI, Inferno e Paraíso são metáforas, pois não cremos que Deus na sua infinita sabedoria, tenha criado um Universo em que coexistem domínios ultra-terrenos. Não é possível compatibilizar Fé com um Deus que anula o Homem. Esse Deus não põe existir. Também discordamos que seja entendido, proposto pela Igreja ou Sacerdotes, que a vida é uma peregrinação rumo a Deus, como entenderia Dante (mas isso foi na Idade Média), se bem o interpretamos. Passe aqui um breve parêntesis. A pretensa relação com Deus, decorre de uma pessoa que se assume ou supõe religiosa, não tanto necessariamente no sentido de pertencer a esta ou aquela confissão, mas porque a ideia de Deus parece óbvia. Quem pode rejeitar que as religiões (sem exclusão do Cristianismo) trouxeram ao mundo um rol de babaridades, supertições, guerras e mesmo infantilismo?
Mas não, o mundo não seria possível, nem mesmo melhor, sem religiões, pois a indignidade não está nelas, mas nos seus crentes ou agentes que delas se servem de modo rasteiro, nalguns casos blasfemo mesmo, pelos propósitos desumanos.
O Domingo era ainda motivo para tomar banho, vestir roupa lavada, ver e ser visto, os rapazes ou mesmo os homens feitos, lançar olhares sequiosos ao mulherio.
Da parte de tarde, os homens lá voltavam à taberna, onde é que havaria de ser? para entre uns copos de branco ou tinto, por a conversa em dia, jogar o chinquilho ao perde-pagas. Se o vinho atrapalhava o negócio deixava-se este, como sentenciava o Domingos Felizardo. Talvez isso, tivesse criado a fama de ninguénm ter mais sede que ele. Claro que quando apanhava uma boa carraspana eram depois três dias da semana, como sabiam por experiência o patrão e a mulher que no princípio ficava desesperada e depois se habituou. As muheres aproveitavam a tarde para tratar da lide da casa. Bailes, quase só pelo Carnaval, Santos Populares ou Santa Marta estando as moças muito vigiados pelas mães. Se se pensar bem, os sentimentos que hoje em dia tanto atrapalham a felicidade, também existiam, mas o Regime encarregava-se de paternalmente conferir aos acontecimentos as devidas proporções, como se não houvesse capacidade individual ou colectiva para digerir momentos difíceis. Sem dúvida que se vivia, lado a lado, com perguntas para as quais nãoera dada resposta, mas deveria haver. Como muitos portugueses na sua pouca instrução, Machado não sabia exprimir, por palavras, todo um turbilhão de sentires, e se o conseguisse ou soubesse fazer, era mais que normal que o Poder (com quem nunca privou) não lhe desse grande relevância ou dedicasse um vago olhar distraído.
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses, era o slogan integrado na campanha ao consumo de vinho, patrocinada pela JNV, pelo Grémio dos Armazenistas de Vinho e com o apoio publicitário do governo. Essa campanha continha todavia algumas contradições, nunca resolvidas a contento. Desde há tempos, havia um conflito entre a opção pão e vinho. A questão não era pacífica, pois se no pão seria necessário aumentar a produção de modo a satisfazer as necessidades do país, no vinho a colheita normalmente ultrapassava as necessidades internas, acarretando um problema cuja solução não era fácil, isto é, o destino dos excedentes.
Na zona de Montes, Cós ou Alpedriz, o vinho era quase tinto. Não havia cooperativas. O branco era de bica aberta.Isto é, em fins de Setembro ou Outubro, expremiam-se as uvas no esmagador. O mosto (só ele), ia depois para uma vasilha grande, a fim de fermentar, onde ficava até Março, altura em que era transferido para uma outra vasilha limpa. O vinho aparecia então claro, limpo, e com bastante graduação (por vezes 18º), o que impunha que fosse desdobrado. Este vinho era frequentemente aproveitado para água-pé, que também chegava a atingir uns bons 14º.
Nas vindimas, num ambiente quase festivo, trabalhava toda a gente da terra, as mulheres na apanha das uvas, os homens a carregar os cestos para os carros de bois, com eixos das rodas e chumaceiras de madeira, até às tinas das adegas. Até há alguns anos, a Adiafa era a festa popular do fim das vindimas ou das colheitas, uma época em que trabalhadores e patrões confraternizavam, após uma boa campanha. Hoje em dia, a Adiafa é uma mera recordação ou não mais que uma promoção turística de uma região, uma manifestação para ajudar a manter a memória da cultura e os antigos costumes que teimam em persistir à mudança constante dos valores sociais. Alguns proprietários mais importantes, faziam a Adiafa, com um jantar melhorado com o pessoal, aonde estavam presentes a carne de porco, retirada da salga, e filhoses.
AQUILINO RIBEIRO, O REGICÍDIO, A CENSURA, O PANTEÃO NACIONAL E ALCOBAÇA
O Estado Novo provocou o surgimento de uma poesia combativa, de intervenção comprometida com a vida, com a brutalidade, com a censura, que a tentou na medida do possível abafar. Mas as ideias só podem ser abafadas com outras ideias.
Apesar da censura não se aplicar previamente, aos livros, estes eram apreendidos, retirados do mercado e os seus autores ou editores sujeitos penalizações. Foi o que aconteceu com Aquilino Ribeiro, um beirão de Terras do Demo, tão manso quanto bárbaro, terno quanto feroz, fradesco, libertário e citadino (cfr. Urbano T. Rodrigues). Em 1959, na sequência de fortes e antigos engulhos ao regime, com 74 anos de idade, viu-se na barra do Tribunal Criminal Plenário de Lisboa, acusado num processo-crime por delito de opinião, por ter escrito o romance Quando os Lobos Uivam, que retratava uma dolorosa realidade da vida rural, os baldios, numa forma que desagradou ao regime, pois a coberto da ficção literária estava segundo este a desacreditar as instituições.O argumento da acusação consistia que a censura terá somente por fim impedir a subversão da opinião pública e deverá ser exercida por forma a defende-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum!!!
Para o Advogado de Aquilino Ribeiro, mais do que provar umas pretensas ofensas a tais e tais pessoas ou denunciar um ataque a certa estrutura política, o que parece procurar-se é coarctar o direito de um escritor fazer qualquer obra de ficção em que por transposição imaginativa tome posição acerca dos problemas que respeitem ao meio em que está integrado. Quer dizer, pretende-se relegar o artista à situação de simples escrevinhador de histórias, que não têm outra função senão a de divertir o bom burguês satisfeito com a vida e com o mundo. Acabar-se-á de uma vez para sempre com a liberdade de pensar, e ninguém pense mais em emitir juízos quanto à sociedade em que vive, passando todas as estruturas a ser inatacavelmente perfeitas, e nelas tudo correndo panglossicamente pelo melhor. Seria o último estádio de um lento processo com fim de esmagar toda e qualquer manifestação de inteligência, de aniquilar o indivíduo como ser pensante e de o acorrentar bovino e passivo ao arado de que o Poder segura a rabiça. A obra literária, tornada meio de embrutecimento e de nirvanação, iria caindo aos poucos num formalismo académico, num anedotário para bacocos, todas as formas destituídas, a preceito, de conteúdo. E adeus literatura, adeus cultura, adeus personalidade nacional!
No princípio do século XX 1906 , Aquilino vai para Lisboa, onde conviveu com os meios revolucionários radicais, violentos e colaborou em publicações. No seu primeiro livro, A Filha do Jardineiro, atacou fortemente o Rei D. Carlos I. Esta obra, que se diz ter sido financiada por Alfredo Costa, um dos regicidas, apareceu sob o pseudónimo de Miriel Mirra. Entrou para a Loja Montanha, do Grande Oriente Lusitano, a convite de Luz de Almeida. Consta também que entrou para Carbonária, para a choça, de que faziam parte os bons primos Alfredo Costa e Manuel dos Reis Buíça, outro dos regicidas, ex-sargento de cavalaria, que fora expulso do Exército, por brutalidades sobre subordinados e conspirou no Café Gelo, em Lisboa.
Ainda nesse mesmo ano, foi preso como anarquista na sequência de uma explosão de uma bomba no seu quarto, na Rua do Carrião, a 28 de Novembro, em Lisboa, na qual morreu um carbonário.
Todavia, em 12 de Janeiro de 1908 conseguiu evadir-se da prisão e durante a clandestinidade em Lisboa, manteve contactos com os regicidas, refugiado numa casa de Meira e Sousa, na Rua Nova do Almada, em frente do Tribunal da Boa Hora.
Foi aí que lhe apareceu Alfredo Costa, segundo alguns biógrafos, na manhã de 1 de Fevereiro, a participar que estava decidido a matar o Rei. De facto, ocorreu o regicídio nesse dia, tendo Aquilino Ribeiro sido avistado com um revólver no Largo do Corpo Santo, segundo umas testemunhas, no Terreiro do Paço segundo outras, facto que o irá marcar para futuro e até ao fim. Ao fim de pouco tempo, teve de fugir para Paris. Pedida a sua extradição, o Presidente francês Clemenceau não a concedeu. Em Paris, continuou a frequentar os meios radicais, conhecendo entre outros Lenine.
Entrou para a Biblioteca Nacional, em Lisboa, em 1919, a convite de Raul Proença, aonde também de acordo com alguns biógrafos foi procurado para lhe mostrarem uma Acta do Regicídio.
Participou na fracassada revolta de 7 de Fevereiro de 1927, contra a Ditadura, o que o levou de novo a ter de se exilar em Paris, regressando no fim do ano clandestinamente a Portugal, para se envolver noutra intentona fracassada, a Revolta de Pinhel, pela qual acabou por ser preso, embora se tenha evadido de Viseu, para se refugiar de novo em Paris, após ter atravessado a Espanha praticamente a pé, num tipo de aventura muito a seu gosto. Em Lisboa, veio a ser julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.
No ano seguinte, casou em Paris pela segunda vez, era viúvo, com uma das muitas filhas de Bernardino Machado, o desiludido Presidente, desterrado de uma República, à qual permaneceria todavia fiel, e que vivia na Galiza, alegadamente por razões de vizinhança.
Aquilino, fundou em 1956, de que foi Presidente, a (mais tarde extinta) Sociedade Portuguesa de Escritores. Data de 1958 Quando os Lobos Uivam, obra de grande impacto no Regime, contemporânea da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República.
Romancista prestigiado, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura por Francisco Vieira de Almeida, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. Segundo escreveu Sofia Mello Breyner, num apontamento cujo sentido nunca chegamos a compreender devidamente, e tendo em conta que a sua família dispõe de documentação sobre o regicídio, não foi considerado elegível porque a sociedade não dá Prémios Nobel a assassinos.
Morreu no dia 27 de Maio de 1963. Nessa mesma hora, a Censura apressou-se a comunicar aos jornais que não seria permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas em vários pontos do País.
A linguagem de Aquilino Ribeiro, caracteriza-se por uma excepcional riqueza lexicológica e pelo uso de uma linguagem de matriz popular, plena de provincianismos, o que nem sempre a torna acessível. Óscar Lopes escreveu que Aquilino só pode ser lido com um dicionário na mão, pois há fuga ao termo e ao giro frásico, que não evita que se não estivermos divorciados do povo rural, meçamos o alcance do vocabulário. Aquilino foi sobretudo um estilista e, por isso, a linguagem vernácula, sem estrangeirismos, e arejada, é frequentemente condimentada com expressões que oscilam entre o grotesco e a sátira. Apesar de ter optado por uma literatura de tradição, Aquilino Ribeiro procurou ao longo da sua vida uma renovação contínua de temas e processos, tornando-se assim difícil sistematizar a temática da sua vasta obra, desde a biografia à polémica, das memórias ao jornalismo, da crónica à literatura infantil. Num número considerável de obras, Aquilino reflecte cenas da sua vida, como o convívio com as pessoas do campo, especialmente das Beiras de onde era natural, a educação ministrada pelos padres, as múltiplas conspirações políticas, as prisões, as fugas rocambolescas ou os exílios. De facto, ver-nos-emos, com facilidade, envolvidos com as suas personagens beirãs, os seus costumes, tradições e modo de falar. Admitimos que este caminho tem as suas vantagens e interesse, mas salvo melhor opinião, reduz o horizonte, enquanto escritor. Aquilino Ribeiro, não obstante o seu fundo regionalista, não era todavia um provinciano. Segundo José Augusto França, in, Os Anos Vinte em Portugal, era um serrano, com a sua pátria própria, nas terras de Sernancelhe, tanto como em Paris com uma prática sem deslumbramento, assumindo-se mesmo pitorescamente no sorver ruidoso da sopa, como amigos de então o recordavam, ao mesmo tempo que lia entusiasmadamente Anatole France…
Em 1963, a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Ferreira de Castro, tomou a iniciativa de comemorar o cinquentenário da carreira de escritor de Aquilino, mas este faleceu subitamente pouco antes. Ferreira de Castro anteciupava, uma homenagem nacional que em 2007 se traduziu na transferência dos seus restos mortais para o Panteão Nacional. Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram transladados no dia 19 de Setembro de 2007 do Cemitério dos Prazeres, para o Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia. A data foi escolhida porque, em 2007, se comemorou os 50 anos da publicação do romance A Casa Grande de Romarigães. A honra foi-lhe concedida pela Assembleia da República, sendo este o quarto português a ser transladado para o Panteão Nacional, depois de Humberto Delgado (1990), Amália Rodrigues (2001) e Manuel de Arriaga, sem grandes alardes (2004). Hoje, talvez não haja muita gente a ler Aquilino Ribeiro, mas como diz Gonçalo M. Tavares, a literatura não existe sem o que está para trás, sendo a relação entre Aquilino e as gerações mais novas, uma das ideias base do discurso de Cavaco Silva na cerimónia solene. Cavaco Silva, qualificou-o como um escritor do mundo, um dos grandes prosadores da literatura portuguesa do século XX e apelou para que a sua obracontinue a ser lida e acarinhada.Note-se que, ao invés de outros escritores, como por exemplo Garrett, que está no Panteão Nacional, nenhum texto de Aquilino é de leitura obrigatória nos manuais de português. Recordamos, salvo erro, que a nossa primeira leitura de Aquilino, ocorreu no antigo quarto ano do liceu, numa Selecta Literária. Aquilino desapareceu dos manuais escolares do regime democrático.
Mas de novo nem tudo foram elogios a Aquilino Ribeiro, tendo havido alguma polémica e contestação, embora localizada. Diogo Castro Mendes, professor catedrático de filosofia, aponta o nome do escritor como um dos envolvidos no regicídio, e defendeu que colocar um regicida no Panteão Nacional é um mau exemplo de cidadania para o Povo português e gerações vindouras e um problema não dos monárquicos, mas de um Estado de Direito, ao mesmo tempo que questionou a razão porque não foi dada honra semelhante a autores tão insignes como Sofia de Mello Breyner ou Torga. Dificilmente haverá uma resposta, não política. A Aliança Internacional Monárquica não se coibiu de condenar a homenagem do Estado Português a um criminoso terrorista, referindo ainda actividades que considera como subversivas contra o Estado Português. Se é certo que Aquilino Ribeiro esteve ligado aos meios antimonárquicos, nunca se fez a cabal prova da sua participação no regicídio. Terá Aquilino tido alguma coisa a ver com o regicídio? Terá tido o papel da terceira carabina desnecessária, pelo facto de Costa e Buiça terem cumprido o seu papel? O seu fervor militante antimonárquico, jacobino, antifascista e carbonário, só por si, não pode ser razão para lhe negar o Panteão Nacional, sabendo-se que lá se encontram outras personalidades, de convições tão díspares, como Garrett, Delgado, Carmona ou Sidónio Pais. Em Roma, no Panteão encontra-se, por exemplo, Rafael. Em Paris, está sepultado o grande Vítor Hugo. Em Portugal, doravante Aquilino Ribeiro, fica ao lado de Manuel de Arriaga e Guerra Junqueiro. No frontispício do Panteon de Paris, sito na margem esquerda, está exarado o conceito, que traduzido para português significa,aos grandes homens, a Pátria reconhecida. Os grandes portugueses estão, todavia, dispersos. Afonso Henriques, em na Igreja de Santa Cruz, D. Pedro I, em Alcobaça, D. João I, na Batalha, Vasco da Gama e Camões, nos Jerónimos, Salazar, em campa rasa no cemitério de Vimieiro-Santa Comba Dão.
Baptista Bastos contou, em 1984, um comentário que uma vez terá sido feito por Aquilino sobre o tema do regicídio: Há acontecimentos que pertencem ao domínio dos deuses e aos quais os homens não devem ter alcance. É pois, no dizer de Castro Henriques um Segredo de Polichinelo, que ainda permanece, ao fim de cem anos. Alguma vez será desvendado? Há ainda muitas zonas por esclarecer. Costa e Buiça ficaram logo no Terreiro do Paço. Outros, morreram sem legar depoimentos, mesmo já depois da República. O próprio processo judicial desapareceu depois já da implantação da República. Até se veio a apurar que, o nosso Nobel da Medicina-1949, por defender o valor terapêutico da leucotomia, em certas psicoses, Egas Moniz, se encontrava entre financiadores da conjura. Registe-se que António Egas Moniz teve uma vida muito activa e preenchida. Republicano convicto, foi nomeado Embaixador de Portugal em Madrid-1917. Durante o consulado de Sidónio Pais, fundou o Partido Centrista, demarcando-se de Afonso Costa. Em 1918, presidiu à Delegação Portuguesa, na Conferência de Versalhes, no termo da I Guerra. Mas ficou para a posteridade especialmente conhecido como cientista. Logo nesse dia (em que foi anunciado a atribuição do Prémio Nobel), à sua casa afluíram amigos a felicitá-lo. E, ali entre os seus livros, as suas flores, os seus quadros, as suas aguarelas, as suas estatuetas, as suas obras primas de cerâmica, valiosa e rara, num ambiente de elevado cunho artístico, e austera e tranquila vida, onde passaram as suas inquietações pelo futuro da obra Científica, alegrias quando o tempo confirmava os resultados previstos, o Prof. Doutor Egas Moniz, rodeado pelos seus amigos, teve o sentimento glorioso de ser o primeiro português a receber tão alta recompensa.
D. Duarte de Bragança, aproveitou também para criticar a homenagem a Aquilino, embora sem o/a classificar, directamente. Mas adianta que aquele participou numa conspiração terrorista. O próprio o confessou. Esta homenagem, não é um bom exemplo para o País e pode encorajar futuros actos de terrorismo. D. Duarte de Bragança, esclareceu que remeteu uma nota à Assembleia da República sobre a decisão. Não condenei nem protestei, limitei-me a manifestar a minha estranheza, de forma discreta. Outros mereceriam homenagem idêntica. Entretanto, espero que isso não venha a acontecer com Saramago!!!
Recentemente (2007) saiu um livro da autoria de Jorge Morais, aliás monárquico, que foi conselheiro do Duque de Bragança, O Regicídio. A Contagem Decrescente. Morais afirma que não há provas que Aquilino tenha estado nos locais do regicídio. Encontrava-se refugiado nas águas-furtadas de um prédio da Rua Nova do Almada e terá tentado convencer um dos regicidas, Alfredo Costa, de que o assasssínio do rei seria contraproducente para a causa republicana… Os trabalhos revolucionários em que Aquilino se envolveu são mais típicos de um compagnon de route. Escreveu panfletos, foi a reuniões carbonárias, aceitou guardar bombas no quarto onde residia, o que lhe custou a liberdade e quase a vida. Mas é um intelectual da revolução. Interessante é o facto de as armas utilizadas pelos regicidas terem, segundo uma versão, sido adquiridas e guardadas por Francisco Correia de Herédia, Visconde da Ribeira Brava, trisavô pelo lado paterno de Isabel Herédia, mulher do Duque de Bragança.
Sobre o regicídio ainda haverá portanto coisas por esclarecer. Não foi conveniente, nem à Monarquia continuar a agitar o assunto e a ajudar a destruir de vez o Regime, nem à República recordar que o seu advento estava alicerçado num crime de morte ou acto de terrorismo. O Estado Novo também não fomentou investigações sobre o tema, dado persistir entre seus apoiantes durante algumas décadas, a alternativa Monarquia/República. Os historiadores deste sangrento incidente foram em geral personalidades de formação republicana e como tal se dispuzeram a minimizá-lo. Os críticos do demoliberalismo, por sua vez, encontravam no regicídio mais um argumento de que aos portuguesses faltavam condições para viver em liberdade política, ao contrário do que defendiam os republicanos.
Apesar da censura não se aplicar previamente, aos livros, estes eram apreendidos, retirados do mercado e os seus autores ou editores sujeitos penalizações. Foi o que aconteceu com Aquilino Ribeiro, um beirão de Terras do Demo, tão manso quanto bárbaro, terno quanto feroz, fradesco, libertário e citadino (cfr. Urbano T. Rodrigues). Em 1959, na sequência de fortes e antigos engulhos ao regime, com 74 anos de idade, viu-se na barra do Tribunal Criminal Plenário de Lisboa, acusado num processo-crime por delito de opinião, por ter escrito o romance Quando os Lobos Uivam, que retratava uma dolorosa realidade da vida rural, os baldios, numa forma que desagradou ao regime, pois a coberto da ficção literária estava segundo este a desacreditar as instituições.O argumento da acusação consistia que a censura terá somente por fim impedir a subversão da opinião pública e deverá ser exercida por forma a defende-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum!!!
Para o Advogado de Aquilino Ribeiro, mais do que provar umas pretensas ofensas a tais e tais pessoas ou denunciar um ataque a certa estrutura política, o que parece procurar-se é coarctar o direito de um escritor fazer qualquer obra de ficção em que por transposição imaginativa tome posição acerca dos problemas que respeitem ao meio em que está integrado. Quer dizer, pretende-se relegar o artista à situação de simples escrevinhador de histórias, que não têm outra função senão a de divertir o bom burguês satisfeito com a vida e com o mundo. Acabar-se-á de uma vez para sempre com a liberdade de pensar, e ninguém pense mais em emitir juízos quanto à sociedade em que vive, passando todas as estruturas a ser inatacavelmente perfeitas, e nelas tudo correndo panglossicamente pelo melhor. Seria o último estádio de um lento processo com fim de esmagar toda e qualquer manifestação de inteligência, de aniquilar o indivíduo como ser pensante e de o acorrentar bovino e passivo ao arado de que o Poder segura a rabiça. A obra literária, tornada meio de embrutecimento e de nirvanação, iria caindo aos poucos num formalismo académico, num anedotário para bacocos, todas as formas destituídas, a preceito, de conteúdo. E adeus literatura, adeus cultura, adeus personalidade nacional!
No princípio do século XX 1906 , Aquilino vai para Lisboa, onde conviveu com os meios revolucionários radicais, violentos e colaborou em publicações. No seu primeiro livro, A Filha do Jardineiro, atacou fortemente o Rei D. Carlos I. Esta obra, que se diz ter sido financiada por Alfredo Costa, um dos regicidas, apareceu sob o pseudónimo de Miriel Mirra. Entrou para a Loja Montanha, do Grande Oriente Lusitano, a convite de Luz de Almeida. Consta também que entrou para Carbonária, para a choça, de que faziam parte os bons primos Alfredo Costa e Manuel dos Reis Buíça, outro dos regicidas, ex-sargento de cavalaria, que fora expulso do Exército, por brutalidades sobre subordinados e conspirou no Café Gelo, em Lisboa.
Ainda nesse mesmo ano, foi preso como anarquista na sequência de uma explosão de uma bomba no seu quarto, na Rua do Carrião, a 28 de Novembro, em Lisboa, na qual morreu um carbonário.
Todavia, em 12 de Janeiro de 1908 conseguiu evadir-se da prisão e durante a clandestinidade em Lisboa, manteve contactos com os regicidas, refugiado numa casa de Meira e Sousa, na Rua Nova do Almada, em frente do Tribunal da Boa Hora.
Foi aí que lhe apareceu Alfredo Costa, segundo alguns biógrafos, na manhã de 1 de Fevereiro, a participar que estava decidido a matar o Rei. De facto, ocorreu o regicídio nesse dia, tendo Aquilino Ribeiro sido avistado com um revólver no Largo do Corpo Santo, segundo umas testemunhas, no Terreiro do Paço segundo outras, facto que o irá marcar para futuro e até ao fim. Ao fim de pouco tempo, teve de fugir para Paris. Pedida a sua extradição, o Presidente francês Clemenceau não a concedeu. Em Paris, continuou a frequentar os meios radicais, conhecendo entre outros Lenine.
Entrou para a Biblioteca Nacional, em Lisboa, em 1919, a convite de Raul Proença, aonde também de acordo com alguns biógrafos foi procurado para lhe mostrarem uma Acta do Regicídio.
Participou na fracassada revolta de 7 de Fevereiro de 1927, contra a Ditadura, o que o levou de novo a ter de se exilar em Paris, regressando no fim do ano clandestinamente a Portugal, para se envolver noutra intentona fracassada, a Revolta de Pinhel, pela qual acabou por ser preso, embora se tenha evadido de Viseu, para se refugiar de novo em Paris, após ter atravessado a Espanha praticamente a pé, num tipo de aventura muito a seu gosto. Em Lisboa, veio a ser julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.
No ano seguinte, casou em Paris pela segunda vez, era viúvo, com uma das muitas filhas de Bernardino Machado, o desiludido Presidente, desterrado de uma República, à qual permaneceria todavia fiel, e que vivia na Galiza, alegadamente por razões de vizinhança.
Aquilino, fundou em 1956, de que foi Presidente, a (mais tarde extinta) Sociedade Portuguesa de Escritores. Data de 1958 Quando os Lobos Uivam, obra de grande impacto no Regime, contemporânea da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República.
Romancista prestigiado, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura por Francisco Vieira de Almeida, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros. Segundo escreveu Sofia Mello Breyner, num apontamento cujo sentido nunca chegamos a compreender devidamente, e tendo em conta que a sua família dispõe de documentação sobre o regicídio, não foi considerado elegível porque a sociedade não dá Prémios Nobel a assassinos.
Morreu no dia 27 de Maio de 1963. Nessa mesma hora, a Censura apressou-se a comunicar aos jornais que não seria permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas em vários pontos do País.
A linguagem de Aquilino Ribeiro, caracteriza-se por uma excepcional riqueza lexicológica e pelo uso de uma linguagem de matriz popular, plena de provincianismos, o que nem sempre a torna acessível. Óscar Lopes escreveu que Aquilino só pode ser lido com um dicionário na mão, pois há fuga ao termo e ao giro frásico, que não evita que se não estivermos divorciados do povo rural, meçamos o alcance do vocabulário. Aquilino foi sobretudo um estilista e, por isso, a linguagem vernácula, sem estrangeirismos, e arejada, é frequentemente condimentada com expressões que oscilam entre o grotesco e a sátira. Apesar de ter optado por uma literatura de tradição, Aquilino Ribeiro procurou ao longo da sua vida uma renovação contínua de temas e processos, tornando-se assim difícil sistematizar a temática da sua vasta obra, desde a biografia à polémica, das memórias ao jornalismo, da crónica à literatura infantil. Num número considerável de obras, Aquilino reflecte cenas da sua vida, como o convívio com as pessoas do campo, especialmente das Beiras de onde era natural, a educação ministrada pelos padres, as múltiplas conspirações políticas, as prisões, as fugas rocambolescas ou os exílios. De facto, ver-nos-emos, com facilidade, envolvidos com as suas personagens beirãs, os seus costumes, tradições e modo de falar. Admitimos que este caminho tem as suas vantagens e interesse, mas salvo melhor opinião, reduz o horizonte, enquanto escritor. Aquilino Ribeiro, não obstante o seu fundo regionalista, não era todavia um provinciano. Segundo José Augusto França, in, Os Anos Vinte em Portugal, era um serrano, com a sua pátria própria, nas terras de Sernancelhe, tanto como em Paris com uma prática sem deslumbramento, assumindo-se mesmo pitorescamente no sorver ruidoso da sopa, como amigos de então o recordavam, ao mesmo tempo que lia entusiasmadamente Anatole France…
Em 1963, a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Ferreira de Castro, tomou a iniciativa de comemorar o cinquentenário da carreira de escritor de Aquilino, mas este faleceu subitamente pouco antes. Ferreira de Castro anteciupava, uma homenagem nacional que em 2007 se traduziu na transferência dos seus restos mortais para o Panteão Nacional. Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram transladados no dia 19 de Setembro de 2007 do Cemitério dos Prazeres, para o Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia. A data foi escolhida porque, em 2007, se comemorou os 50 anos da publicação do romance A Casa Grande de Romarigães. A honra foi-lhe concedida pela Assembleia da República, sendo este o quarto português a ser transladado para o Panteão Nacional, depois de Humberto Delgado (1990), Amália Rodrigues (2001) e Manuel de Arriaga, sem grandes alardes (2004). Hoje, talvez não haja muita gente a ler Aquilino Ribeiro, mas como diz Gonçalo M. Tavares, a literatura não existe sem o que está para trás, sendo a relação entre Aquilino e as gerações mais novas, uma das ideias base do discurso de Cavaco Silva na cerimónia solene. Cavaco Silva, qualificou-o como um escritor do mundo, um dos grandes prosadores da literatura portuguesa do século XX e apelou para que a sua obracontinue a ser lida e acarinhada.Note-se que, ao invés de outros escritores, como por exemplo Garrett, que está no Panteão Nacional, nenhum texto de Aquilino é de leitura obrigatória nos manuais de português. Recordamos, salvo erro, que a nossa primeira leitura de Aquilino, ocorreu no antigo quarto ano do liceu, numa Selecta Literária. Aquilino desapareceu dos manuais escolares do regime democrático.
Mas de novo nem tudo foram elogios a Aquilino Ribeiro, tendo havido alguma polémica e contestação, embora localizada. Diogo Castro Mendes, professor catedrático de filosofia, aponta o nome do escritor como um dos envolvidos no regicídio, e defendeu que colocar um regicida no Panteão Nacional é um mau exemplo de cidadania para o Povo português e gerações vindouras e um problema não dos monárquicos, mas de um Estado de Direito, ao mesmo tempo que questionou a razão porque não foi dada honra semelhante a autores tão insignes como Sofia de Mello Breyner ou Torga. Dificilmente haverá uma resposta, não política. A Aliança Internacional Monárquica não se coibiu de condenar a homenagem do Estado Português a um criminoso terrorista, referindo ainda actividades que considera como subversivas contra o Estado Português. Se é certo que Aquilino Ribeiro esteve ligado aos meios antimonárquicos, nunca se fez a cabal prova da sua participação no regicídio. Terá Aquilino tido alguma coisa a ver com o regicídio? Terá tido o papel da terceira carabina desnecessária, pelo facto de Costa e Buiça terem cumprido o seu papel? O seu fervor militante antimonárquico, jacobino, antifascista e carbonário, só por si, não pode ser razão para lhe negar o Panteão Nacional, sabendo-se que lá se encontram outras personalidades, de convições tão díspares, como Garrett, Delgado, Carmona ou Sidónio Pais. Em Roma, no Panteão encontra-se, por exemplo, Rafael. Em Paris, está sepultado o grande Vítor Hugo. Em Portugal, doravante Aquilino Ribeiro, fica ao lado de Manuel de Arriaga e Guerra Junqueiro. No frontispício do Panteon de Paris, sito na margem esquerda, está exarado o conceito, que traduzido para português significa,aos grandes homens, a Pátria reconhecida. Os grandes portugueses estão, todavia, dispersos. Afonso Henriques, em na Igreja de Santa Cruz, D. Pedro I, em Alcobaça, D. João I, na Batalha, Vasco da Gama e Camões, nos Jerónimos, Salazar, em campa rasa no cemitério de Vimieiro-Santa Comba Dão.
Baptista Bastos contou, em 1984, um comentário que uma vez terá sido feito por Aquilino sobre o tema do regicídio: Há acontecimentos que pertencem ao domínio dos deuses e aos quais os homens não devem ter alcance. É pois, no dizer de Castro Henriques um Segredo de Polichinelo, que ainda permanece, ao fim de cem anos. Alguma vez será desvendado? Há ainda muitas zonas por esclarecer. Costa e Buiça ficaram logo no Terreiro do Paço. Outros, morreram sem legar depoimentos, mesmo já depois da República. O próprio processo judicial desapareceu depois já da implantação da República. Até se veio a apurar que, o nosso Nobel da Medicina-1949, por defender o valor terapêutico da leucotomia, em certas psicoses, Egas Moniz, se encontrava entre financiadores da conjura. Registe-se que António Egas Moniz teve uma vida muito activa e preenchida. Republicano convicto, foi nomeado Embaixador de Portugal em Madrid-1917. Durante o consulado de Sidónio Pais, fundou o Partido Centrista, demarcando-se de Afonso Costa. Em 1918, presidiu à Delegação Portuguesa, na Conferência de Versalhes, no termo da I Guerra. Mas ficou para a posteridade especialmente conhecido como cientista. Logo nesse dia (em que foi anunciado a atribuição do Prémio Nobel), à sua casa afluíram amigos a felicitá-lo. E, ali entre os seus livros, as suas flores, os seus quadros, as suas aguarelas, as suas estatuetas, as suas obras primas de cerâmica, valiosa e rara, num ambiente de elevado cunho artístico, e austera e tranquila vida, onde passaram as suas inquietações pelo futuro da obra Científica, alegrias quando o tempo confirmava os resultados previstos, o Prof. Doutor Egas Moniz, rodeado pelos seus amigos, teve o sentimento glorioso de ser o primeiro português a receber tão alta recompensa.
D. Duarte de Bragança, aproveitou também para criticar a homenagem a Aquilino, embora sem o/a classificar, directamente. Mas adianta que aquele participou numa conspiração terrorista. O próprio o confessou. Esta homenagem, não é um bom exemplo para o País e pode encorajar futuros actos de terrorismo. D. Duarte de Bragança, esclareceu que remeteu uma nota à Assembleia da República sobre a decisão. Não condenei nem protestei, limitei-me a manifestar a minha estranheza, de forma discreta. Outros mereceriam homenagem idêntica. Entretanto, espero que isso não venha a acontecer com Saramago!!!
Recentemente (2007) saiu um livro da autoria de Jorge Morais, aliás monárquico, que foi conselheiro do Duque de Bragança, O Regicídio. A Contagem Decrescente. Morais afirma que não há provas que Aquilino tenha estado nos locais do regicídio. Encontrava-se refugiado nas águas-furtadas de um prédio da Rua Nova do Almada e terá tentado convencer um dos regicidas, Alfredo Costa, de que o assasssínio do rei seria contraproducente para a causa republicana… Os trabalhos revolucionários em que Aquilino se envolveu são mais típicos de um compagnon de route. Escreveu panfletos, foi a reuniões carbonárias, aceitou guardar bombas no quarto onde residia, o que lhe custou a liberdade e quase a vida. Mas é um intelectual da revolução. Interessante é o facto de as armas utilizadas pelos regicidas terem, segundo uma versão, sido adquiridas e guardadas por Francisco Correia de Herédia, Visconde da Ribeira Brava, trisavô pelo lado paterno de Isabel Herédia, mulher do Duque de Bragança.
Sobre o regicídio ainda haverá portanto coisas por esclarecer. Não foi conveniente, nem à Monarquia continuar a agitar o assunto e a ajudar a destruir de vez o Regime, nem à República recordar que o seu advento estava alicerçado num crime de morte ou acto de terrorismo. O Estado Novo também não fomentou investigações sobre o tema, dado persistir entre seus apoiantes durante algumas décadas, a alternativa Monarquia/República. Os historiadores deste sangrento incidente foram em geral personalidades de formação republicana e como tal se dispuzeram a minimizá-lo. Os críticos do demoliberalismo, por sua vez, encontravam no regicídio mais um argumento de que aos portuguesses faltavam condições para viver em liberdade política, ao contrário do que defendiam os republicanos.
Amadurecer
“Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso."
“Embora haja muita gente que diz que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois não hesite”.
Miguel Torga, in Potugal (Coimbra-1967)
- Que estás a escrever, avô?
Ela olhou-o com o ar curioso que sempre compunha ao ver uma esferográfica e um papel.
Então entraram na brincadeira, como era frequente nos dois, ele a falar-lhe sem explicar tudo de uma vez só, com o cuidado de a não desiludir e muito menos a calar. Ele gostava de assumir, ainda hoje, o papel de instituição que os avós de outrora representavam. Homem calmo, nunca falava de ninguém e raramente dos outros. Gostava de aproveitar as horas, tão rápidas e empolgantes de algumas tardes com a neta, para lhe transmitir coisas importantes que fazia pressentir nos sítios e momentos mais inesperados.
- Estou a escrever uma carta a um rapaz que conheci em tempos, há muitos anos. Coisas parecidas com as que gostava de falar com o meu avô quando era um pouco mais velho que tu.
Em tempos, para bom entendedor, queria dizer lá pelos anos cinquenta, porque como toda a gente sabe a partir de certa altura as pessoas perdem a noção do tempo. Melhor dizendo, perdem a noção da duração do tempo. Um rapaz que conheci, significava alguém com uns bons sessenta anos. Ela pertencia a uma terceira geração, de tempo limitado, bem contado e controlado, onde se dura mais e afinal se vive menos. Com ele as coisas não se passavam assim, agora tinha tempo para tudo e, para deleite de ambos, fazia-a participar em muito do que foi acontecimento retumbante na cidade. Por não ter percebido bem o rosto intrigado da menina iluminado pela curiosidade, era agradável de ver.
- Lê-me a carta, avô, insistiu ela. Desta forma, ela ia anotando o mundo e as histórias dos lugares e coisas.
Leu-lhe um pouco da história, ainda incompleta.
- Isso é verdade?
Não respondeu logo, nem a seguir. Refugiou-se no texto para dizer, ambiguamente, que sim.
- Como vais mandar a carta a esse senhor? Pelo correio?
Na há dúvida, as crianças de hoje são muito sabidas. A pergunta tinha razão de ser.
- Não sei ainda, mas primeiro tenho de acabar a carta e só depois me irei preocupar com o seu envio. Não achas bem?
- Quando acabares de escrever, contas-me o resto?
Claro que sim, admitiu. Pegou na caneta para continuar a escrever ao rapaz de antigamente. Tinha algumas coisas que gostaria de dizer, já que entretanto decorrera muito tempo. Supunha ter esquecido tanta coisa mas, nesse momento, parte do passado retornou-lhe palavra por palavra. Por vezes chegava a interrogar-se se é verdade que tudo passa e tudo se esquece. E disse para si: nada esquecemos, tudo se mantém na memória e sobrevive.
- Manel, quem escreveu a história da menina de vestido cor-de-rosa que não tinha medo do escuro?
A pergunta era ociosa, é bom de ver.
Ele respondeu-lhe do escritório, onde se rodeava de montanhas de livros, colunas de processos e folhas de apontamentos como planícies brancas.
-Sim, fui eu, mas não leias ainda por favor.
-Tarde demais, confessou a Maria em voz baixa mas não o suficiente para que ele a não ouvisse. É um bonito conto, parece um poema, Manel. Foi a pensar na menina?
A primeira neta veio relativamente tarde, pois o filho e nora entenderam que estas coisas se devem fazer com conta e medida. Outros netos entretanto nasceram mas, verdade seja dita, não houve mais nenhum como o primeiro. Isso nunca foi dito a ninguém, nem reconhecido, mas sentia-se bem no ar, na forma como a ela se referiam, nos pequenos caprichos que lhe satisfaziam.
Tornou a ler. Às vezes, pensou ela, perguntámo-nos se chegamos a conhecer a pessoa mais íntima, como ela pensa e sente, para de súbito descobrirmos que confiou o seu coração a uma folha de papel, aquilo que nunca contaria a mais ninguém. Sinceridade, mas no papel.
- Onde foste buscar estas ideias tão bonitas?
Que forma de dizer tão frouxa e condescendente. Ou será que as palavras são sinceras?
- Onde vou buscar as minhas ideias mais bonitas? repetiu ele para si e para ela. Ao mesmo sítio onde vou buscar as disparatadas.
Isso explica as divagações sobre assuntos há tanto passados e que se tornam perceptíveis de novo quando se faz uma incursão no subterrâneo das recordações de mil imagens ocorridas.
- Somos tão diferentes, Manel, tu e eu.
- Agora é que chegas a essa conclusão? Somos diferentes, mas iguais. Pensavas que nada terias a dizer a um homem que gosta de sonhar? Eu não me imaginava a viver este anos todos com uma mulher que não ouvisse Mozart. Não será mais importante sermos curiosos, que demasiado parecidos um com o outro?
- Acho. Quando estamos em desacordo eu grito, assusto-me logo quando penso que não me ouves. Talvez me ouças, mas é como não me ouvires.
- Queres dizer que se te ouvir não gritas?
- Sim, talvez ainda grite um pouco, só para desabafar.
Comeram em silêncio, que pareceu enorme. Mas ele fez-lhe um sorriso cúmplice para significar que se era capaz de achar graça ao desrespeito por algumas regras de boa convivência, o problema não era assim tão grave. Algo semelhante a um fugaz assomo de cólera traiu-lhe a expressão.
- Agora ensinas-me como devo expressar os sentimentos? Eu reajo como me apetece, percebes?
- Claro, Maria, mas eu não deveria ser obrigado a ouvir...
- Tu e esse teu orgulho estúpido!
- Não suporto ser desconsiderado!
- E eu, se há coisas que não aguento, é ser abandonada!
Funcionou como a deixa que ambos esperavam. Ele levantou-se, enroscou-se o mais perto possível de Maria e abraçou-a com força.
- Não quero deixar-te, nunca poderei deixar-te.
- Tu, o quê?
Ela dizia-lhe frequentemente, num misto de severidade e brincadeira, que por vezes ele parecia não ter ainda crescido.
- Ainda não cresci?
Ora, como é isso possível? Sem dúvida, é apenas mais um argumento de mulher, só para lhe moer o juízo. Com sessenta anos feitos, bem estabelecidos na vida, filhos criados e netos deliciosos, boa saúde e um casamento estabilizado em que se discutiam muitas banalidades com mais frequência e ardor do que cada um deles gostaria, não, ela não tinha nenhuma razão para dizer aquilo. Será que um homem não pode mesmo pensar que o melhor período da sua vida foi a adolescência, quando se tinha namorada e se lhe dava um beijo rápido e furtivo, se ia ao sábado á tarde ao cinema e ao domingo se frequentavam bailes de gira-discos onde se servia lanche de frango assado, mousse de chocolate e refresco de groselha ou depois das aulas se jogava despreocupadamente a bola com os amigos do coração, numas balizas improvisadas feitas de qualquer coisa? Em que o Natal era Natal com alegria, convívio, a consoada ainda não tinha sido atingida pela vulgaridade de comer perú ou cabrito ou de não fazer consoada por ser coisa ultrapassada, e as pessoas não consumiam um programa de vendas, nem enviavam assépticos votos de boas-festas? E muito especialmente quando se sentia o amparo do regaço materno, estava à mão o conselho oportuno do pai e pairava na casa o cheiro do bacalhau à gomes de sá que vinha da cozinha, expressão acabada dessa mui nobre e antiga arte de fazer comida?
Clic, clic e mais um clic, imagem, imagem e mais uma imagem. Essas cintilações trazidas de vida em vida são, como marcas registadas, gravadas bem fundo naquilo em que se acredita, para o reencontro desejado ao lembrar delas. Recordações a revisitar-nos, a assaltar-nos, quando abrimos o baú dos nossos melhores haveres. Que estranho mistério, que estranha fascinação retêm esses tempos para assim nos surpreender!
- Não Manel, respondia ela, a mulher amadurece à medida que lhe cresce a cintura, o afecto pelo marido e pelas coisas boas que tem em casa, vê os filhos sair um dia feitos e retornar com os netos. A juventude, claro, é uma bela recordação, mas não se pode dizer que seja o melhor período da vida. Para mim...
- A esta distância, acentuava e contrapunha ele benevolamente com um gesto largo de mãos, depois das discussões que tivemos por causa da educação das crianças, das privações que sofremos, da afirmação social que conseguimos, da doença dos meus pais, da sua morte... enfim, como vais, Maria, comparar coisas que não têm comparação!
Refez pacientemente na memória as fotos rasgadas em incontáveis pedaços, percorreu as ruas, lugares, os ambientes que foram caminhos das emoções sem poder negar que algumas das suas recordações mais queridas são as que ficam de actos pequenos e simples. E compreendeu, sem qualquer sobranceria, que o mundo sobrevive nele e está à espera de algo que o traga à superfície. Lhe dê rosto.
Encontraram-se na Universidade e namoraram pouco tempo. Ela era do norte, ele do sul, da cidade. Eu que os conheço de perto, há bastantes anos, o que quer dizer há muitos, calculo que ela se supõe responsável por não ter sido capaz, ao fim de tanto em comum, de fazer suficientemente feliz, ao seu lado, um homem que tinha todas as condições para o ser.
- És como uma maçã, amarela por fora e verde por dentro, insistia a Maria. Claro, fisicamente estás crescido, maduro, mas por dentro ainda não. Uma pessoa crescida evolui, disfruta a realidade da cada momento.
- Pois sabes o que te digo, Maria? Nada. Quem sabe, talvez um dia possas compreender como estás errada.
Ela, olhando incrédula para si e no conforto do lar à sua volta, sentia-se realizada, salvo por essa insuperável insatisfação de saber o seu Manel ancorado nas suas recordações mais pessoais em que ela ficava à porta. Ele pensa que a vida, com o tempo, é a condenação à morte. Não no sentido de morte física, mas da anquilose da alma, da deformação, do sufoco que é o extirpar das ilusões. Sentia-se feito de ilusões e se possível com elas construía ainda a vida.
O Manel teve desejos de rever a Lena, o seu primeiro amor, menina de saia azul e repas sobre a testa, de cara redonda e de formas ainda pouco femininas e lembrar o beijo ruborizado que lhe deu na sala de estar, enquanto se mudava a música do gira-discos. Quis sentir o prazer de uma suada partida de bola, ganhando ao Xico que tinha mau perder, e saborear a vitória que lhe valia o afecto da Luísa. E ter de volta a cena, sem qualquer importância mas que lhe veio de repente à ideia, passada num domingo à tarde na esplanada, em que uma garota de tranças, que ali andava a saltitar de um lado para o outro lhe perguntou se queria andar na bicicleta dela. Fez-se rogado e acenou que não, apesar da pronta intervenção do pai que lhe disse que convites destes nunca se recusam. Foi receio ou timidez? Reconhecer a mãe que, mesmo já crescido, lhe vinha aconchegar a roupa da cama e desejar uma boa noite até amanhã. E o pai, será que havia de cumprimentá-lo com um beijo ou um aperto de mão, a quem pedia 20$00 e a chave de casa para chegar mais tarde?
Os belos sonhos acontecem na juventude e fazem a vida bela. Nunca se realizam completamente, mas não é possível desistir deles, deixar que os destruam. A juventude tem um preço elevado, a desilusão que a vai ferindo e uma importância enorme, levar a sério o absoluto, a justiça, o amor. Impossível? Seguindo o sonho, reaproxima-se dela e afasta-se a lhaneza da vida.
O tédio entre duas pessoas, disse ela uma vez, não é tanto estarem fisicamente presentes. Provém de estarem longe, espiritual ou mentalmente. Para ele isso era óbvio, mas vindo dela era uma ideia tão surpreendente que a anotou. Mas não era mais altura para se preocupar com esse tédio ou procurar compensações, que parecem mais não ser que intelectualices freudianas. Uma vez, depois de terem ultrapassado uma discussão por nada, juntos na cama, no meio de uma conversa sobre flores, o Manel suspirou.
- Acho que somos bem diferentes. Contigo não tenho necessidade de discutir, não tenho necessidade de lutar.
- Estás errado, pois esse é o único processo de não aprenderes certas lições. Há momentos que só te entendo quando ralhas. E há outros que só me compreendes quando grito.
- Se fossemos parecidos, éramos perfeitos. Mesmo uma simples discussão faz-nos compreender coisas que antes não compreendíamos.
A certa altura dei-me conta de estar a passear pelo jardim povoado de aromas de flores, era ilusão ou os aromas eram mesmo das flores?, numa noite morna de verão e a conversar sobre as coisas mais vulgares. A tua presença, contagiava-me, envolvia-me. O teu afecto depressa nos levou a perder-mo-nos do grupo. E nesse verão tão longo, passados tantos anos, essa foi a noite especial em que as sombras do jardim encheram de mistério o encontro e a escuridão tingiu-se com o rubor da tua face, quando naturalmente nos aproximamos. Então juramos que nunca seríamos velhos, que haveríamos de vir aqui todos os anos, mesmo se este lugar deixasse de existir. Não, não vamos embora, não podemos cortar os laços que nos unem a estes lugares ou a estes sentidos. Não são os teus passos que estou sentindo?
Ao acordar, remexeu-se intrigado e pouco à vontade. Maria acudiu-lhe como uma criança. Com enorme percepção do seu homem e da vida, sentiu que alguma coisa se tinha passado e ao seu lado. Mas não insistiu.
- Foi um sonho. Apenas um sonho! Tens razão, sou mesmo uma criança, aceitou ele erguendo-se do sofá.
- Não, não és, e já agora gostaria de te pedir um favor. Não podes guardar-me um sítiozinho nos teus sonhos? Também gostaria de ser criança..., mas contigo.
“Embora haja muita gente que diz que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois não hesite”.
Miguel Torga, in Potugal (Coimbra-1967)
- Que estás a escrever, avô?
Ela olhou-o com o ar curioso que sempre compunha ao ver uma esferográfica e um papel.
Então entraram na brincadeira, como era frequente nos dois, ele a falar-lhe sem explicar tudo de uma vez só, com o cuidado de a não desiludir e muito menos a calar. Ele gostava de assumir, ainda hoje, o papel de instituição que os avós de outrora representavam. Homem calmo, nunca falava de ninguém e raramente dos outros. Gostava de aproveitar as horas, tão rápidas e empolgantes de algumas tardes com a neta, para lhe transmitir coisas importantes que fazia pressentir nos sítios e momentos mais inesperados.
- Estou a escrever uma carta a um rapaz que conheci em tempos, há muitos anos. Coisas parecidas com as que gostava de falar com o meu avô quando era um pouco mais velho que tu.
Em tempos, para bom entendedor, queria dizer lá pelos anos cinquenta, porque como toda a gente sabe a partir de certa altura as pessoas perdem a noção do tempo. Melhor dizendo, perdem a noção da duração do tempo. Um rapaz que conheci, significava alguém com uns bons sessenta anos. Ela pertencia a uma terceira geração, de tempo limitado, bem contado e controlado, onde se dura mais e afinal se vive menos. Com ele as coisas não se passavam assim, agora tinha tempo para tudo e, para deleite de ambos, fazia-a participar em muito do que foi acontecimento retumbante na cidade. Por não ter percebido bem o rosto intrigado da menina iluminado pela curiosidade, era agradável de ver.
- Lê-me a carta, avô, insistiu ela. Desta forma, ela ia anotando o mundo e as histórias dos lugares e coisas.
Leu-lhe um pouco da história, ainda incompleta.
- Isso é verdade?
Não respondeu logo, nem a seguir. Refugiou-se no texto para dizer, ambiguamente, que sim.
- Como vais mandar a carta a esse senhor? Pelo correio?
Na há dúvida, as crianças de hoje são muito sabidas. A pergunta tinha razão de ser.
- Não sei ainda, mas primeiro tenho de acabar a carta e só depois me irei preocupar com o seu envio. Não achas bem?
- Quando acabares de escrever, contas-me o resto?
Claro que sim, admitiu. Pegou na caneta para continuar a escrever ao rapaz de antigamente. Tinha algumas coisas que gostaria de dizer, já que entretanto decorrera muito tempo. Supunha ter esquecido tanta coisa mas, nesse momento, parte do passado retornou-lhe palavra por palavra. Por vezes chegava a interrogar-se se é verdade que tudo passa e tudo se esquece. E disse para si: nada esquecemos, tudo se mantém na memória e sobrevive.
- Manel, quem escreveu a história da menina de vestido cor-de-rosa que não tinha medo do escuro?
A pergunta era ociosa, é bom de ver.
Ele respondeu-lhe do escritório, onde se rodeava de montanhas de livros, colunas de processos e folhas de apontamentos como planícies brancas.
-Sim, fui eu, mas não leias ainda por favor.
-Tarde demais, confessou a Maria em voz baixa mas não o suficiente para que ele a não ouvisse. É um bonito conto, parece um poema, Manel. Foi a pensar na menina?
A primeira neta veio relativamente tarde, pois o filho e nora entenderam que estas coisas se devem fazer com conta e medida. Outros netos entretanto nasceram mas, verdade seja dita, não houve mais nenhum como o primeiro. Isso nunca foi dito a ninguém, nem reconhecido, mas sentia-se bem no ar, na forma como a ela se referiam, nos pequenos caprichos que lhe satisfaziam.
Tornou a ler. Às vezes, pensou ela, perguntámo-nos se chegamos a conhecer a pessoa mais íntima, como ela pensa e sente, para de súbito descobrirmos que confiou o seu coração a uma folha de papel, aquilo que nunca contaria a mais ninguém. Sinceridade, mas no papel.
- Onde foste buscar estas ideias tão bonitas?
Que forma de dizer tão frouxa e condescendente. Ou será que as palavras são sinceras?
- Onde vou buscar as minhas ideias mais bonitas? repetiu ele para si e para ela. Ao mesmo sítio onde vou buscar as disparatadas.
Isso explica as divagações sobre assuntos há tanto passados e que se tornam perceptíveis de novo quando se faz uma incursão no subterrâneo das recordações de mil imagens ocorridas.
- Somos tão diferentes, Manel, tu e eu.
- Agora é que chegas a essa conclusão? Somos diferentes, mas iguais. Pensavas que nada terias a dizer a um homem que gosta de sonhar? Eu não me imaginava a viver este anos todos com uma mulher que não ouvisse Mozart. Não será mais importante sermos curiosos, que demasiado parecidos um com o outro?
- Acho. Quando estamos em desacordo eu grito, assusto-me logo quando penso que não me ouves. Talvez me ouças, mas é como não me ouvires.
- Queres dizer que se te ouvir não gritas?
- Sim, talvez ainda grite um pouco, só para desabafar.
Comeram em silêncio, que pareceu enorme. Mas ele fez-lhe um sorriso cúmplice para significar que se era capaz de achar graça ao desrespeito por algumas regras de boa convivência, o problema não era assim tão grave. Algo semelhante a um fugaz assomo de cólera traiu-lhe a expressão.
- Agora ensinas-me como devo expressar os sentimentos? Eu reajo como me apetece, percebes?
- Claro, Maria, mas eu não deveria ser obrigado a ouvir...
- Tu e esse teu orgulho estúpido!
- Não suporto ser desconsiderado!
- E eu, se há coisas que não aguento, é ser abandonada!
Funcionou como a deixa que ambos esperavam. Ele levantou-se, enroscou-se o mais perto possível de Maria e abraçou-a com força.
- Não quero deixar-te, nunca poderei deixar-te.
- Tu, o quê?
Ela dizia-lhe frequentemente, num misto de severidade e brincadeira, que por vezes ele parecia não ter ainda crescido.
- Ainda não cresci?
Ora, como é isso possível? Sem dúvida, é apenas mais um argumento de mulher, só para lhe moer o juízo. Com sessenta anos feitos, bem estabelecidos na vida, filhos criados e netos deliciosos, boa saúde e um casamento estabilizado em que se discutiam muitas banalidades com mais frequência e ardor do que cada um deles gostaria, não, ela não tinha nenhuma razão para dizer aquilo. Será que um homem não pode mesmo pensar que o melhor período da sua vida foi a adolescência, quando se tinha namorada e se lhe dava um beijo rápido e furtivo, se ia ao sábado á tarde ao cinema e ao domingo se frequentavam bailes de gira-discos onde se servia lanche de frango assado, mousse de chocolate e refresco de groselha ou depois das aulas se jogava despreocupadamente a bola com os amigos do coração, numas balizas improvisadas feitas de qualquer coisa? Em que o Natal era Natal com alegria, convívio, a consoada ainda não tinha sido atingida pela vulgaridade de comer perú ou cabrito ou de não fazer consoada por ser coisa ultrapassada, e as pessoas não consumiam um programa de vendas, nem enviavam assépticos votos de boas-festas? E muito especialmente quando se sentia o amparo do regaço materno, estava à mão o conselho oportuno do pai e pairava na casa o cheiro do bacalhau à gomes de sá que vinha da cozinha, expressão acabada dessa mui nobre e antiga arte de fazer comida?
Clic, clic e mais um clic, imagem, imagem e mais uma imagem. Essas cintilações trazidas de vida em vida são, como marcas registadas, gravadas bem fundo naquilo em que se acredita, para o reencontro desejado ao lembrar delas. Recordações a revisitar-nos, a assaltar-nos, quando abrimos o baú dos nossos melhores haveres. Que estranho mistério, que estranha fascinação retêm esses tempos para assim nos surpreender!
- Não Manel, respondia ela, a mulher amadurece à medida que lhe cresce a cintura, o afecto pelo marido e pelas coisas boas que tem em casa, vê os filhos sair um dia feitos e retornar com os netos. A juventude, claro, é uma bela recordação, mas não se pode dizer que seja o melhor período da vida. Para mim...
- A esta distância, acentuava e contrapunha ele benevolamente com um gesto largo de mãos, depois das discussões que tivemos por causa da educação das crianças, das privações que sofremos, da afirmação social que conseguimos, da doença dos meus pais, da sua morte... enfim, como vais, Maria, comparar coisas que não têm comparação!
Refez pacientemente na memória as fotos rasgadas em incontáveis pedaços, percorreu as ruas, lugares, os ambientes que foram caminhos das emoções sem poder negar que algumas das suas recordações mais queridas são as que ficam de actos pequenos e simples. E compreendeu, sem qualquer sobranceria, que o mundo sobrevive nele e está à espera de algo que o traga à superfície. Lhe dê rosto.
Encontraram-se na Universidade e namoraram pouco tempo. Ela era do norte, ele do sul, da cidade. Eu que os conheço de perto, há bastantes anos, o que quer dizer há muitos, calculo que ela se supõe responsável por não ter sido capaz, ao fim de tanto em comum, de fazer suficientemente feliz, ao seu lado, um homem que tinha todas as condições para o ser.
- És como uma maçã, amarela por fora e verde por dentro, insistia a Maria. Claro, fisicamente estás crescido, maduro, mas por dentro ainda não. Uma pessoa crescida evolui, disfruta a realidade da cada momento.
- Pois sabes o que te digo, Maria? Nada. Quem sabe, talvez um dia possas compreender como estás errada.
Ela, olhando incrédula para si e no conforto do lar à sua volta, sentia-se realizada, salvo por essa insuperável insatisfação de saber o seu Manel ancorado nas suas recordações mais pessoais em que ela ficava à porta. Ele pensa que a vida, com o tempo, é a condenação à morte. Não no sentido de morte física, mas da anquilose da alma, da deformação, do sufoco que é o extirpar das ilusões. Sentia-se feito de ilusões e se possível com elas construía ainda a vida.
O Manel teve desejos de rever a Lena, o seu primeiro amor, menina de saia azul e repas sobre a testa, de cara redonda e de formas ainda pouco femininas e lembrar o beijo ruborizado que lhe deu na sala de estar, enquanto se mudava a música do gira-discos. Quis sentir o prazer de uma suada partida de bola, ganhando ao Xico que tinha mau perder, e saborear a vitória que lhe valia o afecto da Luísa. E ter de volta a cena, sem qualquer importância mas que lhe veio de repente à ideia, passada num domingo à tarde na esplanada, em que uma garota de tranças, que ali andava a saltitar de um lado para o outro lhe perguntou se queria andar na bicicleta dela. Fez-se rogado e acenou que não, apesar da pronta intervenção do pai que lhe disse que convites destes nunca se recusam. Foi receio ou timidez? Reconhecer a mãe que, mesmo já crescido, lhe vinha aconchegar a roupa da cama e desejar uma boa noite até amanhã. E o pai, será que havia de cumprimentá-lo com um beijo ou um aperto de mão, a quem pedia 20$00 e a chave de casa para chegar mais tarde?
Os belos sonhos acontecem na juventude e fazem a vida bela. Nunca se realizam completamente, mas não é possível desistir deles, deixar que os destruam. A juventude tem um preço elevado, a desilusão que a vai ferindo e uma importância enorme, levar a sério o absoluto, a justiça, o amor. Impossível? Seguindo o sonho, reaproxima-se dela e afasta-se a lhaneza da vida.
O tédio entre duas pessoas, disse ela uma vez, não é tanto estarem fisicamente presentes. Provém de estarem longe, espiritual ou mentalmente. Para ele isso era óbvio, mas vindo dela era uma ideia tão surpreendente que a anotou. Mas não era mais altura para se preocupar com esse tédio ou procurar compensações, que parecem mais não ser que intelectualices freudianas. Uma vez, depois de terem ultrapassado uma discussão por nada, juntos na cama, no meio de uma conversa sobre flores, o Manel suspirou.
- Acho que somos bem diferentes. Contigo não tenho necessidade de discutir, não tenho necessidade de lutar.
- Estás errado, pois esse é o único processo de não aprenderes certas lições. Há momentos que só te entendo quando ralhas. E há outros que só me compreendes quando grito.
- Se fossemos parecidos, éramos perfeitos. Mesmo uma simples discussão faz-nos compreender coisas que antes não compreendíamos.
A certa altura dei-me conta de estar a passear pelo jardim povoado de aromas de flores, era ilusão ou os aromas eram mesmo das flores?, numa noite morna de verão e a conversar sobre as coisas mais vulgares. A tua presença, contagiava-me, envolvia-me. O teu afecto depressa nos levou a perder-mo-nos do grupo. E nesse verão tão longo, passados tantos anos, essa foi a noite especial em que as sombras do jardim encheram de mistério o encontro e a escuridão tingiu-se com o rubor da tua face, quando naturalmente nos aproximamos. Então juramos que nunca seríamos velhos, que haveríamos de vir aqui todos os anos, mesmo se este lugar deixasse de existir. Não, não vamos embora, não podemos cortar os laços que nos unem a estes lugares ou a estes sentidos. Não são os teus passos que estou sentindo?
Ao acordar, remexeu-se intrigado e pouco à vontade. Maria acudiu-lhe como uma criança. Com enorme percepção do seu homem e da vida, sentiu que alguma coisa se tinha passado e ao seu lado. Mas não insistiu.
- Foi um sonho. Apenas um sonho! Tens razão, sou mesmo uma criança, aceitou ele erguendo-se do sofá.
- Não, não és, e já agora gostaria de te pedir um favor. Não podes guardar-me um sítiozinho nos teus sonhos? Também gostaria de ser criança..., mas contigo.
A Rainha Isabel II em Portugal e Alcobaça (1957)
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
I
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO), HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Não obstante mais de cinquenta anos decorridos, não é possível esquecer a visita da jovem Rainha Isabel II, de Inglaterra e seu marido, a Portugal.
Em 1952, havia subido ao trono Isabel II, filha de Jorge VI, acontecimento que ocupou as primeiras páginas da nossa imprensa, graças ao peso político-económico que a Inglaterra, exercia sobre Portugal.
Jorge VI, bisneto da Rainha Vitória, havia reinado durante cerca de 15 anos, duma forma clássica e austera.
A filha, Isabel, era uma graciosa jovem, de 26 anos, que gostava de montar a cavalo, e usava em público o uniforme de Coronel-Comandante dos Granadeiros da Guarda.
Durante a II Guerra, destacou-se no Serviço Auxiliar Territorial Feminino, onde se tornou uma conceituada motorista e mecânica.
Em 1947, casou com Filipe de Edimburgo, numa cerimónia luzidia, que a população aproveitou para testemunhar a simpatia à Monarquia e à futura Rainha.
Os preparativos para a visita à vila da Rainha Isabel II e marido, depois de Craveiro Lopes ter visitado, dois anos antes, oficialmente a Inglaterra e sido recebido em Buckingham, começaram com bastante tempo de antecedência e implicaram importantes transformações, na Ala Esquerda Sul do Mosteiro de Alcobaça e a urbanização da Praça do Rossio, a partir de 15 de Agosto de 1938 denominada Praça Dr. Oliveira Salazar.
Segundo o periódico O Alcoa, na hora conturbada que o mundo vive, há-de considerar-se como exemplo de valor universal a apoteótica manifestação de profunda e sincera amizade entre os dois povos, português e inglês, ligados por uma aliança de mais de seis séculos, que parece rejuvenescer com o tempo, confirmando-se os propósitos que a ditaram: Sólida Perpétua e Verdadeira Liga.
Muito se escreveu então, e depois, sobre esta visita e o seu sentido. Era o tempo da Guerra-Fria, a alguma distância ainda da ocupação de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, perante a (desoladora) inércia do Reino Unido, o velho aliado.
Para além do sucesso social e político que constituiu a visita a Portugal e Alcobaça, a verdade é que aqui foi pretexto para se fazerem obras de recuperação e restauro do Mosteiro, degradado e vandalizado, bem como da sua zona envolvente.
Já em 1955, se anunciavam importantes obras, por determinação do Ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira, que visitara Alcobaça, e cuja finalidade seria, alegadamente, reintegrar o Mosteiro na sua primitiva e austera traça cisterciense.
Os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro foram removidos do local onde antes se encontravam, para aquele onde ora estão.
Não é este o local para fazer a história das relações luso-britânicas, mas divagar sobre alguns pequenos pormenores que, com a distância, poderão ter eventualmente, assumido contornos interessantes.
Como temos dito e redito, a História, tal como a vida das pessoas, não é constituída apenas por acontecimentos capitais, mas também por alguns reconhecidamente menores, que lhe dão o sal e a pimenta imprescindíveis para ser servida.
A nível local foi à Câmara Municipal de Alcobaça, sob a presidência de Joaquim Augusto de Carvalho, quem competiu dar o apoio logístico possível, além do que disponibilizou, em termos de mão de obra.
De fora, estavam questões, tão complicadas, como o protocolo britânico, a decoração da Igreja, da Sala do Banquete ou a Ementa.
Durante alguns meses, houve algumas obras municipais pelo Concelho que tiveram de parar, de modo a possibilitar a deslocação do pessoal para a zona do Rossio.
Aí, ao lado do pessoal da Câmara, trabalharam afanosamente vários empreiteiros e operários da Junta Autónoma das Estradas e do Ministério das Obras Públicas.
Parte da frontaria sul do Mosteiro, estava enterrada e desfigurada.
Começou-se por demolir o Jardim-Escola João de Deus, transferido para a Gafa, e, sem ele, limpou-se o enorme montão de terra que ocultava a fachada sul e impedia a vista das colunas, bem como os arcos, simétricos da ala norte.
Foram restauradas as janelas e suprimidas as águas-furtadas, mandadas construir por particulares que ali viviam, como recordava o Dr. Amílcar Magalhães, cujo escritório era em frente ao Mosteiro e ao Tribunal da Comarca.
O Tribunal, por esta altura, já funcionava em péssimas e vergonhosas condições, no 1º piso da Ala Norte do Mosteiro.
Anos depois, num Domingo de Março de 1966, ruiu estrondosamente parte do tecto de uma dependência, aonde, no dia a dia, trabalhavam, entre outros, o escrivão José Maria Cascão, e o escriturário Adélio Maranhão, que ficaram a dever a sua integridade física ao acaso do dia.
Terminados os trabalhos de desaterro, construídos os muros de suporte de terras e pavimentadas as ruas de acesso, cortadas árvores que afrontavam a fachada, a praça, passou a assumir contornos algo semelhantes aos que apresentou até às recentes e controversas alterações.
No interior, procedeu-se à transladação dos túmulos de Pedro e Inês para o transepto da Igreja, dando satisfação a um antigo desejo de Lopes Vieira, que não teve tempo de ver cumprido.
Ainda se colocaram esculturas nas capelas radiantes da charola, que se encontravam espalhadas pelo chão da Capela de Nª Senhora do Desterro.
Teve bom impacto visual a colocação de esferas armilares nas varandas das casas do Rossio, no que hoje seria considerado uma manifestação de carácter nacionalista, bem como a ornamentação das janelas com colchas e colgaduras.
A Rainha Isabel entrou no Mosteiro depois de passar por alas compactas de pessoas, que nalguns casos vieram de longe, sobre capas de estudantes de Coimbra, ajoelhados à passagem, dirigindo-se à Sala dos Reis, onde era aguardada por Craveiro Lopes, para depois passando pelo Claustro, almoçar no Refeitório conventual.
Ali, foi utilizado um serviço de copos de cristal da Crisal, expressamente fabricado, e que no futuro passou a ser conhecido como o Serviço da Rainha. Da ementa, fez parte uma torta de frutas de Alcobaça e uma aguardente oferecida pela Família Raposo de Magalhães servida, com o café, na Sala dos Reis.
Na falta de eficaz coordenação e perante um grande voluntarismo, o fazer e desfazer nas obras acontecia com frequência, como era um dia colocar-se um colector de esgoto e vir dias depois uma máquina do M.O.P. desaterrá-lo e inutilizá-lo.
Muita intervenção foi no edifício da antiga Hospedaria do Mosteiro, onde os frades alojavam os visitantes importantes.
Depois da extinção das Ordens Religiosas, estiveram ali instaladas o Tribunal Judicial, a Legião Portuguesa, a Tesouraria, Finanças, a Câmara e até a Cadeia Comarcã.
CONTINUA
I
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO), HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Não obstante mais de cinquenta anos decorridos, não é possível esquecer a visita da jovem Rainha Isabel II, de Inglaterra e seu marido, a Portugal.
Em 1952, havia subido ao trono Isabel II, filha de Jorge VI, acontecimento que ocupou as primeiras páginas da nossa imprensa, graças ao peso político-económico que a Inglaterra, exercia sobre Portugal.
Jorge VI, bisneto da Rainha Vitória, havia reinado durante cerca de 15 anos, duma forma clássica e austera.
A filha, Isabel, era uma graciosa jovem, de 26 anos, que gostava de montar a cavalo, e usava em público o uniforme de Coronel-Comandante dos Granadeiros da Guarda.
Durante a II Guerra, destacou-se no Serviço Auxiliar Territorial Feminino, onde se tornou uma conceituada motorista e mecânica.
Em 1947, casou com Filipe de Edimburgo, numa cerimónia luzidia, que a população aproveitou para testemunhar a simpatia à Monarquia e à futura Rainha.
Os preparativos para a visita à vila da Rainha Isabel II e marido, depois de Craveiro Lopes ter visitado, dois anos antes, oficialmente a Inglaterra e sido recebido em Buckingham, começaram com bastante tempo de antecedência e implicaram importantes transformações, na Ala Esquerda Sul do Mosteiro de Alcobaça e a urbanização da Praça do Rossio, a partir de 15 de Agosto de 1938 denominada Praça Dr. Oliveira Salazar.
Segundo o periódico O Alcoa, na hora conturbada que o mundo vive, há-de considerar-se como exemplo de valor universal a apoteótica manifestação de profunda e sincera amizade entre os dois povos, português e inglês, ligados por uma aliança de mais de seis séculos, que parece rejuvenescer com o tempo, confirmando-se os propósitos que a ditaram: Sólida Perpétua e Verdadeira Liga.
Muito se escreveu então, e depois, sobre esta visita e o seu sentido. Era o tempo da Guerra-Fria, a alguma distância ainda da ocupação de Goa, Damão e Diu, pela União Indiana, perante a (desoladora) inércia do Reino Unido, o velho aliado.
Para além do sucesso social e político que constituiu a visita a Portugal e Alcobaça, a verdade é que aqui foi pretexto para se fazerem obras de recuperação e restauro do Mosteiro, degradado e vandalizado, bem como da sua zona envolvente.
Já em 1955, se anunciavam importantes obras, por determinação do Ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira, que visitara Alcobaça, e cuja finalidade seria, alegadamente, reintegrar o Mosteiro na sua primitiva e austera traça cisterciense.
Os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro foram removidos do local onde antes se encontravam, para aquele onde ora estão.
Não é este o local para fazer a história das relações luso-britânicas, mas divagar sobre alguns pequenos pormenores que, com a distância, poderão ter eventualmente, assumido contornos interessantes.
Como temos dito e redito, a História, tal como a vida das pessoas, não é constituída apenas por acontecimentos capitais, mas também por alguns reconhecidamente menores, que lhe dão o sal e a pimenta imprescindíveis para ser servida.
A nível local foi à Câmara Municipal de Alcobaça, sob a presidência de Joaquim Augusto de Carvalho, quem competiu dar o apoio logístico possível, além do que disponibilizou, em termos de mão de obra.
De fora, estavam questões, tão complicadas, como o protocolo britânico, a decoração da Igreja, da Sala do Banquete ou a Ementa.
Durante alguns meses, houve algumas obras municipais pelo Concelho que tiveram de parar, de modo a possibilitar a deslocação do pessoal para a zona do Rossio.
Aí, ao lado do pessoal da Câmara, trabalharam afanosamente vários empreiteiros e operários da Junta Autónoma das Estradas e do Ministério das Obras Públicas.
Parte da frontaria sul do Mosteiro, estava enterrada e desfigurada.
Começou-se por demolir o Jardim-Escola João de Deus, transferido para a Gafa, e, sem ele, limpou-se o enorme montão de terra que ocultava a fachada sul e impedia a vista das colunas, bem como os arcos, simétricos da ala norte.
Foram restauradas as janelas e suprimidas as águas-furtadas, mandadas construir por particulares que ali viviam, como recordava o Dr. Amílcar Magalhães, cujo escritório era em frente ao Mosteiro e ao Tribunal da Comarca.
O Tribunal, por esta altura, já funcionava em péssimas e vergonhosas condições, no 1º piso da Ala Norte do Mosteiro.
Anos depois, num Domingo de Março de 1966, ruiu estrondosamente parte do tecto de uma dependência, aonde, no dia a dia, trabalhavam, entre outros, o escrivão José Maria Cascão, e o escriturário Adélio Maranhão, que ficaram a dever a sua integridade física ao acaso do dia.
Terminados os trabalhos de desaterro, construídos os muros de suporte de terras e pavimentadas as ruas de acesso, cortadas árvores que afrontavam a fachada, a praça, passou a assumir contornos algo semelhantes aos que apresentou até às recentes e controversas alterações.
No interior, procedeu-se à transladação dos túmulos de Pedro e Inês para o transepto da Igreja, dando satisfação a um antigo desejo de Lopes Vieira, que não teve tempo de ver cumprido.
Ainda se colocaram esculturas nas capelas radiantes da charola, que se encontravam espalhadas pelo chão da Capela de Nª Senhora do Desterro.
Teve bom impacto visual a colocação de esferas armilares nas varandas das casas do Rossio, no que hoje seria considerado uma manifestação de carácter nacionalista, bem como a ornamentação das janelas com colchas e colgaduras.
A Rainha Isabel entrou no Mosteiro depois de passar por alas compactas de pessoas, que nalguns casos vieram de longe, sobre capas de estudantes de Coimbra, ajoelhados à passagem, dirigindo-se à Sala dos Reis, onde era aguardada por Craveiro Lopes, para depois passando pelo Claustro, almoçar no Refeitório conventual.
Ali, foi utilizado um serviço de copos de cristal da Crisal, expressamente fabricado, e que no futuro passou a ser conhecido como o Serviço da Rainha. Da ementa, fez parte uma torta de frutas de Alcobaça e uma aguardente oferecida pela Família Raposo de Magalhães servida, com o café, na Sala dos Reis.
Na falta de eficaz coordenação e perante um grande voluntarismo, o fazer e desfazer nas obras acontecia com frequência, como era um dia colocar-se um colector de esgoto e vir dias depois uma máquina do M.O.P. desaterrá-lo e inutilizá-lo.
Muita intervenção foi no edifício da antiga Hospedaria do Mosteiro, onde os frades alojavam os visitantes importantes.
Depois da extinção das Ordens Religiosas, estiveram ali instaladas o Tribunal Judicial, a Legião Portuguesa, a Tesouraria, Finanças, a Câmara e até a Cadeia Comarcã.
CONTINUA
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Ensaios (Cap. VII) NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO
-ENSAIO SOBRE A MEMÓRIA E A VOZ
-E VIVAM AS MULHERES
- EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA
-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO
-O FUTURO NO FEMININO?
-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)
-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO
Ele supõe que a nossa aldeia é o mundo inteiro, desde que seja o presidente, se possa disfarçadamente vingar do colega de escola que há anos lhe roubou a namorada ou aumente o seu pé-de-meia.
Como vaidoso impenitente que é, embora diga que não, e com a palavra fácil que manuseia saborosamente, despreza olimpicamente os gigantes com botas de sete léguas, tal como o espaço ignora os planetas que giram eternamente sonolentos, sem jamais chocar. Se é verdade o que diz, não tem tempo para deitar a cabeça no travesseiro, tantos são os problemas da aldeia que tem de resolver pessoalmente, não avalia nem de perto nem de longe, quanto as armas do discernimento levam vantagem sobre o improviso.
Disse-lhe um dia destes, durante um trabalhoso e bem regado almoço de cozido à portuguesa, que os muros das ideias que não constrói, valeriam mais que todos os outros feitos de pedras. E como estava inspirado, estávamos a ver em directo na TV a atribuição do prémio Nobel da Paz, acrescentei que uma ideia enérgica acesa a tempo, é capaz de deter um pelotão de polícias indonésios. Respondeu-me, com o peso de um ventre bem alimentado e assessorado por umas centenas de votos que lhe asseguraram uma vitória fácil nas últimas eleições, que tudo isto é pura retórica, intelectualismo passadista, já que o que interessa na política é acreditar na terra e no bom povo que se governa com bonomia. Que depois vêm os votos certinhos.
Digam-me, caros leitores, o que que acham de tudo isto.
Como é que a nossa aldeia pode progredir se as escolas primárias fecham por falta de alunos? Como é que a nossa aldeia se pode equiparar às das redondezas, se os políticos que nos representam não conhecem a arte e a técnica de governar, se apenas se refugiam, muito empiricamente, no que dizem ser os sinais peculiares de ser português?
Os jovens, que acabam o ensino obrigatório e saiem para o mundo, afinal a nossa aldeia, utilizam lentes de aumento para perceber o que o povo quer e que não conhecem.
E, mesmo assim, viram políticos.
A professora, novata em idade e na experiência da vida, disse na aula que a política da nossa aldeia devia ser levada mais a sério e vedada por lei, aos que desconhecem os seus rudimentos e não são capazes desde logo de governar a própria casa.
E chegou até a sugerir, pelo menos assim me contou um aluno que é sobrinho do presidente, que o concurso de quadras que se costuma fazer pelos santos populares, este ano fosse substituído por um outro com o tema critérios para o desenvolvimento da aldeia.
Ia caindo o carmo e a trindade.
Ora vejam lá estas modernices, comentou o presidente.
Devem ser ideias esquerdistas, para confundir as boas almas e pôr em perigo alguns pilares da nossa cultura tradicional.
Claro que a oposição logo se apoderou da ideia da professora, que tomou como sua, e o candidato a presidente, que em tempos também perdeu a namorada em proveito do rival, começou a dizer em alto e bom som no café aos correlegionários, que para resolver um problema importante da aldeia, como é o do abandono da cultura da vinha, coisa que muito bem o preocupa segundo as más línguas, conhecendo as razões é mais fácil e proveitoso que tentar resolve-lo sem as conhecer.
Parecia óbvio o destinatário da mensagem.
Mas, a acreditar nas sondagens á opinião pública, que o presidente entretanto encomendou, ninguém lhe deu atenção.
Pelo que pode continuar a dormir sem pôr a cabeça no travesseiro.
-E VIVAM AS MULHERES
- EM QUE SE FALA DE OGIVAS, OVOS E DA BELEZA
-UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO
-O FUTURO NO FEMININO?
-E TOCA A BANDA(Vira o disco e toca o mesmo)
-NINGUÉM LHE DEU ATENÇÃO
Ele supõe que a nossa aldeia é o mundo inteiro, desde que seja o presidente, se possa disfarçadamente vingar do colega de escola que há anos lhe roubou a namorada ou aumente o seu pé-de-meia.
Como vaidoso impenitente que é, embora diga que não, e com a palavra fácil que manuseia saborosamente, despreza olimpicamente os gigantes com botas de sete léguas, tal como o espaço ignora os planetas que giram eternamente sonolentos, sem jamais chocar. Se é verdade o que diz, não tem tempo para deitar a cabeça no travesseiro, tantos são os problemas da aldeia que tem de resolver pessoalmente, não avalia nem de perto nem de longe, quanto as armas do discernimento levam vantagem sobre o improviso.
Disse-lhe um dia destes, durante um trabalhoso e bem regado almoço de cozido à portuguesa, que os muros das ideias que não constrói, valeriam mais que todos os outros feitos de pedras. E como estava inspirado, estávamos a ver em directo na TV a atribuição do prémio Nobel da Paz, acrescentei que uma ideia enérgica acesa a tempo, é capaz de deter um pelotão de polícias indonésios. Respondeu-me, com o peso de um ventre bem alimentado e assessorado por umas centenas de votos que lhe asseguraram uma vitória fácil nas últimas eleições, que tudo isto é pura retórica, intelectualismo passadista, já que o que interessa na política é acreditar na terra e no bom povo que se governa com bonomia. Que depois vêm os votos certinhos.
Digam-me, caros leitores, o que que acham de tudo isto.
Como é que a nossa aldeia pode progredir se as escolas primárias fecham por falta de alunos? Como é que a nossa aldeia se pode equiparar às das redondezas, se os políticos que nos representam não conhecem a arte e a técnica de governar, se apenas se refugiam, muito empiricamente, no que dizem ser os sinais peculiares de ser português?
Os jovens, que acabam o ensino obrigatório e saiem para o mundo, afinal a nossa aldeia, utilizam lentes de aumento para perceber o que o povo quer e que não conhecem.
E, mesmo assim, viram políticos.
A professora, novata em idade e na experiência da vida, disse na aula que a política da nossa aldeia devia ser levada mais a sério e vedada por lei, aos que desconhecem os seus rudimentos e não são capazes desde logo de governar a própria casa.
E chegou até a sugerir, pelo menos assim me contou um aluno que é sobrinho do presidente, que o concurso de quadras que se costuma fazer pelos santos populares, este ano fosse substituído por um outro com o tema critérios para o desenvolvimento da aldeia.
Ia caindo o carmo e a trindade.
Ora vejam lá estas modernices, comentou o presidente.
Devem ser ideias esquerdistas, para confundir as boas almas e pôr em perigo alguns pilares da nossa cultura tradicional.
Claro que a oposição logo se apoderou da ideia da professora, que tomou como sua, e o candidato a presidente, que em tempos também perdeu a namorada em proveito do rival, começou a dizer em alto e bom som no café aos correlegionários, que para resolver um problema importante da aldeia, como é o do abandono da cultura da vinha, coisa que muito bem o preocupa segundo as más línguas, conhecendo as razões é mais fácil e proveitoso que tentar resolve-lo sem as conhecer.
Parecia óbvio o destinatário da mensagem.
Mas, a acreditar nas sondagens á opinião pública, que o presidente entretanto encomendou, ninguém lhe deu atenção.
Pelo que pode continuar a dormir sem pôr a cabeça no travesseiro.
Subscrever:
Mensagens (Atom)