NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
Não há melhores misturadas que as de Montes!
Comida de pobre…
Dizia-se que as melhores misturadas eram as dos Montes, feitas com feijão de sopa, semeado em Março nas serradas, chão de hortas ou terrenos de sequeiro, colhido no início do verão e que exalavam um aroma divinal, que vinha da cozinha e chegava até à rua.
Em casa de Joaquim Pereira de Magalhães, de acordo com uma prática que chegou até hoje e por vezes é seguida, punham-se os feijões dentro de um alguidar com água fria, durante cerca de duas horas, para amolecer a casca, a fim de facilitar a cozedura.
Depois de demolhados levavam-se os feijões a uma caçarola, para cozer lentamente em água temperada com sal e azeite. Estando o feijão cozido, reduzia-se o puré a cerca de metade, juntando-lhe água, se necessário, tendo em atenção que o puré devia ficar grosso.
Levantada a fervura, misturavam-se as couves, previamente cortadas aos bocadinhos e rectificava-se o sal e o azeite. Devia deixar-se cozer bem as couves e pronto, siga para a mesa que já é tarde.
Inácio Catarino, conta que as mulheres disputavam entre si os respectivos méritos na arte das misturadas e nos casos em que se deitava pouco azeite (por uma questão de economia), os que passavam na rua, bem o percebiam e diziam jocosa e depreciativamente que cheirava a raposas.
As misturadas era um bom combustível para aguentar o trabalho do dia-a-dia do campo.
Com as misturadas, no dia seguinte ou mesmo dois dias depois, faziam-se as papas, um prato suculento e forte, com farinha de milho, cozendo-se as couves, a batata e o feijão que, depois, se acompanhavam com sardinha ou bacalhau.
TI’ Zé costumava dizer quepobre come arroz, batata, vegetais, bacalhau, carne de porco e doce uma vez por outra. Resultado, se não morrer empanzinado, cresce com uma saúde de fera. Já o rico come um monte de coisinhas delicadas. O filho de rico, o citadino de Alcobaça, é criado longe do pó da terra, longe dos mosquitos e da lama. É criado a comer apenas papinha fina. Ser pobre, portanto, é melhor para a saúde….Um rico se passasse a comer por sistema essas delicadezas, ficaria doente, pois tornou-se alérgico às comidas normais. Não é raro encontrar um rural que jamais foi ao um médico. Não precisa, como vimos em dois casos. Já os ricos, não saem dos consultórios.
Deolinda, a viúva de Ti’Zé, corta ao meio o pão tipo caseiro, retirado de um saco de pano. As metades são colocadas junto do lume para torrar devagarinho e à medida que as postas altas e brancas de bacalhau vão a assar. O cheiro a bacalhau espalha-se pela cozinha. O sobrinho António, oferece-se para ir a casa buscar azeite. É do bom. É caseiro. É melhor que este do supermercado. Este prato em tempos mais recuados era feito pela mulher enquanto o homem jornalava na lavoura.
Meia hora depois, e após ser virado várias vezes, o bacalhau está no ponto. O pão é regado com muito azeite. Não tem nada a ver com outra coisa. É muito melhor, confessa um conviva. Deolinda lembra o tempo em que este prato de bacalhau assado era comida de pobre. Como o pão untado em azeite enche muito, dava para o pessoal aguentar muitas horas sem comer. Hoje é caro e não se pode comprar.
Lurdes Domiciano, que sempre viveu na aldeia, lá para os lados da Ataíja, tem uma tese interessante sobre os méritos da sopa e a comida tradicional portuguesa de que é indefectível adepta.
Sopa é comida de pobre?
Comida de pobres e dos que recordam a pobreza? Não, se é que nunca, nunca, deixe de o ser, diz a D. Lurdes, que acrescenta, mal de quem sendo pobre ou remediado renega a sopa a pensar que passa por rico.
Enfim, mal dos que deixaram a sopa para tentar apagar as marcas de um passado modesto ou de privações. D. Lurdes reconhece quanto é valiosa, tal como os filhos que vivem no Luxemburgo. A sopa deve ser comida de rico, de urbano apressado, de remediado, de rural, de trabalhador braçal e ou mesmo de ocioso. É boa para meninos, adultos e idosos.
A sopa pertence à tradição portuguesa porque sempre foi, e não deixa de ser, boa para a saúde. Por isso se desenvolveu o gosto pela sopa, o prazer em a saborear, cheirar, olhar. É honrada por vários mitos, estórias e contos. Há séculos e séculos que a sopa é um dos maiores monumentos alimentares da cultura mediterrânica e portuguesa.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Na Hora Certa
A Clara fizera uso de todas as suas forças para não se apaixonar por ele. Dizia a si própria, baixinho, que era tão só um capricho e que seria uma rematada loucura deixar-se arrastar na aventura. Mas o António, sem ser bonito, tinha uma voz terna e musical, uma doçura sorridente nos olhos e, com ele presente, era impossível deixar de crer que a amava. O casamento para a família da Clara sempre fora considerado uma coisa séria. As famílias dos noivos deveriam ter uma posição social equivalente e estava fora de questão um deles chegar de mãos a abanar. Tal como os dois irmãos mais velhos, a Clara recebeu uma boa educação do pai, o Dr. Manuel da Costa, um funcionário público recentemente aposentado após uma carreira irrepreensível, mas desesperadamente anónima feita no Terreiro do Paço, e que nem sempre lhe permitira acertar o passo com a época que vivia. Depois do 25 de Abril dizia de si próprio, sem pretender fazer humor, que era tão pouco liberal que tinha dificuldade em aceitar que os socialistas tinham conceitos que nenhuma pessoa razoável podia discordar.
Num fim de tarde, quando se encontraram à saída do seu emprego, e ao passearam pelas ruas da baixa pombalina a ver as montras decoradas para o Natal, a Clara sugeriu-lhe:
- No próximo sábado faço anos. Queres vir jantar lá a casa? Os meus pais estão com vontade de te conhecer.
Ela percebia que a mãe, muito especialmente a mãe, a D. Luiza, se estava a preocupar com esta amizade, que vinha de há alguns meses. Não muitos. E por sua vez, se ele o não o sabia, era altura de o esclarecer.
- Olha Clara, não sei se os teus pais simpatizarão muito comigo. Acho mais prudente continuarmos assim eles por lá, nós por aqui.
A Clara conhecia bem a sua mãe para julgar que, de imediato, pudesse nutrir sentimentos de grande benevolência para com um rapaz que a filha não conheceu na universidade, mas numa paragem de autocarro. E de quem pouco ou nada sabiam. Mas, por outro lado, os pais ainda teriam motivos de desconfiança maior se ela se esquivasse a levá-lo lá a casa para o apresentar. Recordou-se, de novo, como o António lhe sorriu pela primeira vez em que se viram e como ficou durante um minuto como que petrificada perante aquele sorriso. Teria sido naquele momento que ela deveria ter detido os acontecimentos, se isso fosse mesmo o que ela queria, possível ou necessário. Por certo que um simples gracejo, menos bem sucedido, bastaria para que ela o afastasse. Dias depois ela disse-lhe:
- Sabes... eu...
- Sei - disse ele com um sorriso desarmante - , mas estou apaixonado por ti.
Pareceu-lhe uma história já lida algures, na tradição de um romance de folhetim. Afinal, depois de duas ou três conversas, um diz para o outro que o ama. E o folhetim retoma rapidamente a narrativa rumo ao happy end ou à catástrofe final.
A mãe da Clara abarrotou o António com uma sopa de legumes, um frango na púcara que aprendeu em casa dos sogros, conhecidos proprietários em Alcobaça e cuja feitura foi refinando com o tempo, umas trouxas de ovos, que era a sua especialidade, e café. O vinho, que o pai escolheu na sua garrafeira, não desmerecia e o porto era um verdadeiro vintage, que aliás ligava bem com o bolo-rei que o António ofereceu. Com sessenta anos, a D. Luíza considerava-se uma excelente dona de casa, embora do género que entende ser mostra de hospitalidade levar os convidados a comer para além do apetite ou das necessidades. Falava muito, numa voz algo aguda, com tonalidades metálicas, nunca esquecendo o seu sotaque nortenho, sorrindo a todo o instante, numa polidez efusiva e no desejo instintivo de animar um pouco a conversa. Fez ao António um grande número de perguntas, aparentemente de circunstância, tal como se espera de uma senhora de sociedade para com uma pessoa estranha ao meio. A Clara percebeu bem que era um interrogatório, conduzido com habilidade, para descobrir tanto quanto possível a respeito do António, ao contrário do que acontecia com o pai que, como normalmente, ouvia e observava mais do que falava. Diziam as más línguas do Ministério da Administração Interna e nessa linha alguns detractores que se juntavam depois do almoço no Café Portugal, em Alcobaça, que o Dr. Manuel Costa era a pessoa indicada para o lugar, pois há bastantes anos que não lhe brotava uma ideia da cabeça. Não abria a boca que não debitasse uma banalidade e era tão formal que quando contava algum escândalo ou uma história suja, tornava-a tão desinteressante que acabava por perder o mau cheiro. Afinal, não se confirmaram os receios da Clara, o jantar não correu mal, não lhe desagradou, porque reconhecia que a mãe era entre todos a mais perspicaz. Uma mulher que, na sabedoria do amor materno, tentava impedir que a filha tomasse uma resolução imprudente.
À despedida a D. Luíza deu um beijo ao António.
- Gostei de si e agora que já sabe o caminho, venha ver-nos muitas vezes.
Enquanto se encaminhavam para o metro, a Clara enfiou o braço no do António num gesto afectuoso que mais parecia pedir que oferecer protecção.
- Tudo correu mais que bem. Os meus pais gostaram de ti. Vão adorar-te.
O António sorriu.
- Não sejas tola, a tua mãe examinou-me da cabeça aos pés. E detestou-me.
- Não, garanto-te. Eu conheço-a bem.
O António encolheu negligentemente os ombros, e não respondeu. Ao separarem-se, ficou combinado que ele voltaria lá a casa no próximo fim de semana. O que passou a acontecer com regularidade.
O António nos seus trinta anos, que não tinha pais desde criança, fizera-se a si próprio em Lisboa como gostava de acentuar, trabalhava com aparente sucesso, em sociedade com um primo, num negócio de representações de artigos de vestuário de marcas estrangeiras. Percebia-se logo que o dinheiro, por via de regra, não faltava no seu bolso. E que era meigo para ela, ouvia-a com atenção, tinha fácil convívio e, embora revelasse por vezes algum cinismo volúvel e despreocupado, fazia-a rir muito gostosamente. O que raramente acontecia em casa da Clara que, depois da saída dos irmãos, vivia com os pais, bastante mais velhos, num bom apartamento da Avenida de Roma, que lhes dava uma sensação de segurança perante o mundo exterior, a grande cidade, que ficava a uma distância confortável. Uma vez o António deu-lhe de presente um relógio suiço, indiscutivelmente verdadeiro, que devia ter custado bom dinheiro, apesar de ter um pequeno risco no vidro, noutra ocasião um par de canetas e um anel com um brilhante e até uma carteira de documentos em pele de cobra, onde se encontrava esquecido um bilhete de metro. Perguntou ao António como aquilo tinha ido ali parar. Ele, a rir-se, contou que tinha ganho aquela carteira numa aposta com um amigo. O António era generoso com a namorada. E não se coibia de extravagâncias.
- Esta noite não tenho disposição para ir cedo para casa --disse ele. Vamos tomar qualquer coisa e depois damos um passeio.
- Óptimo. Deixa-me só avisar a minha mãe.
Fizeram um jantar simples, enquanto o António falava pelos cotovelos. A Clara estava intrigada, pois pressentia haver novidades no ar. Será que ele lhe tinha proposto o passeio para lhe comunicar alguma notícia má? O António era uma criatura emotiva, por vezes teatral até, de argumentação simples e directa, mas isso não a cansava, nem a ofendia, antes pelo contrário, divertia-a mesmo. Ele vai anunciar uma despedida?
- De quem é o carro?, disse ela ao entrar para um desportivo verde, de capota de lona e duas portas.
- É de um amigo que o quer vender. Eu ofereci-me para o ajudar no negócio e ainda ganho uma comissão.
Dirigiram-se para a beira Tejo. Ele conduzia devagar e o ar entrava pelas janelas do carro. A Clara, com a mão do António na sua, não pensava em coisa alguma, sentindo confusamente que aquela ausência de ideias se parecia com o que considerava a felicidade. Ou seria que é apenas bem estar? O tempo estava bom. O local era de pouco movimento. Noutras circunstâncias a Clara teria ficado um pouco receosa. Supunha conhecer suficientemente o namorado para saber que ele era incapaz de tirar partido da situação. De novo, ela teve a intuição de que ele estava preocupado com qualquer coisa.
Claro que nos últimos tempos tinham conversado bastante. Pouco a pouco a Clara ia sabendo mais coisas acerca dele. A infância com os avós maternos de fracos recursos, os estudos liceais com pouco sucesso e abandono, uma disciplina nem sempre assumida. Era, em suma, uma vida simultaneamente simples e complicada. Simples, porque não apresentava nada para além do absolutamente vulgar. Complicada, porque tornava esta vida simples, quase pungente no futuro.
- Tenho uma coisa para te dizer -- disse ele por fim.
- Sim?
- Não sei bem como começar, pois tenho uma sensação curiosa e nova para mim.
A Clara sentiu um aperto e comentou:
- Quando se tem uma coisa importante é melhor dize-lo com simplicidade.
- De acordo. Aceito a sugestão. Queres casar comigo?
Ela disse que sim. Mas acrescentou, timidamente:
- E de que vamos viver?
Quando chegou a casa, ainda sem partilhar nada com os pais e enquanto se preparava para ir para cama, lembrou-se de um pequeno incidente, qualificá-lo de discussão seria uma expressão talvez exagerada, que ocorrera há dias com o António. Tão fugaz que quase o esquecera.
- Há quanto tempo nos conhecemos, António?
Esta pergunta, de repentina, pareceu altamente imprópria e deslocada. Incomodativa mesmo. Ela bem sabia que era há pouco tempo. Mas insistiu:
- O que temos feito?
- Pouca coisa, receio dize-lo. Vou todos os dias ao escritório, contacto com os clientes, à noite vou beber um copo a um bar. E claro, namoramos.
- Essa vida satisfaz-te?
- Mas que pergunta. Se queres que te diga, por enquanto não é má e vou-me divertindo.
- E no próximo ano, que vais fazer?
- Possivelmente o mesmo, se outra coisa melhor não aparecer. Mas suponho que mais cedo ou tarde casarei, talvez compre o negócio ao meu primo e o possa expandir. Mas até lá, vamos continuar a namorar e, no que me diz respeito, a divertir-me quanto possível, no limite dos meus rendimentos.
A resposta desconcertou a Clara e ainda mais quando o António concluiu com um sorriso amplamente indulgente:
- Sabes uma coisa? Eu tenho uma natureza feliz e havemos de a compartilhar.
Iam de vez em quando ao cinema, no Colombo, com um prévio jantarinho no MacDonnald´s ou na PizzaHutt. O filme fora recentemente premiado com um Oscar e o António passou quase o tempo todo a dizer tontices ao ouvido da Clara, que estava furiosa porque assistia a qualquer espectáculo com a gravidade e atenção de uma criança convencida. Aliás, há já uma semana que a Clara insistia para que o fossem ver, mas o António retorquia, com displicência, que só de pensar nisso sentir o sangue fugir-lhe das veias.
- Mas não tens que vir comigo... - dizia ela. Mas é contigo que gostaria de ir.
- É divertido - lastimou-se ele. Saíste-me cá uma intelectual.
- Nunca o escondi! - respondeu a Clara muito a sério.
- Minha querida, já percebeste, não sou um homem muito intelectual. Tens de te convencer disso.
- Podias se-lo - retorquiu com uma ponta de azedume - , se não tivesses renunciado a servir-te da tua inteligência para outra coisa que não seja o teu negócio. Não tens qualquer espécie de curiosidade pela vida e pelo mundo.
Ele encolhia os ombros e ria. Havia entre eles um consenso tácito para não ultrapassar certas barreiras. Estavam naquele fase deliciosa do namoro em se pode questionar sem admitir que os temas destas batalhas, ainda ternas, possam ser as trombetas anunciadoras de disputas menos felizes.
Alguns meses depois casaram, com um enxoval apressado mas suficiente, numa cerimónia discreta em que apenas esteve presente a família próxima e uns amigos dois ou três amigos. Foram viver para um pequeno apartamento de uma assoalhada, na periferia da cidade. Com o tempo, e se houvesse filhos, mudariam para outro mais espaçoso e bem situado. O negócio das confecções dava a ideia de correr sem problemas de maior até que um dia quando o António chegou a casa disse que ia acabar a sociedade com o primo. Não se entendiam nas contas. Este pusera-o diante do dilema de comprar ou vender as respectivas quotas. Como não dispunha de dinheiro para comprar a quota do primo teria que lhe vender a sua. O pior é que o sócio também tinha pouco capital. Sem dúvida que isto foi motivo de perturbação, pois que os recibos verdes que a Clara passava no seu emprego, ainda precário, numa agência de turismo na Avenida da Liberdade, eram insuficientes para os dois continuarem a manter o nível de vida que apreciavam. Mas vida tinha de continuar, como dizia o António que recuperou depressa o seu bom humor, a sua jovialidade. E era tão amoroso e agradável com a Clara, como antes. Mas alguma coisa tinha mesmo que mudar. Passou a levantar-se tarde para, assim o dizia, sair à procura de trabalho e nem sempre vinha jantar a casa, o que a aborrecia. O curioso de tudo isto é que estando sem trabalho, o António pareceu andar de novo com dinheiro.
Esse domingo de Outono, já lá vão dois anos tendo em atenção à data a que se refere esta história, estava agradável e o António sugeriu à mulher, que fossem passar a tarde fora e dar uma volta. Não lhe apetecia ir jantar a casa dos sogros. Propôs o jantar num restaurante que o Expresso recomendava no último número e que quando chegaram já regorgitava de gente. Acharam uma mesa para duas pessoas ao lado de uma outra com um animado grupo de três casais de meia idade, que estavam a terminar a refeição, iam eles ainda a meio da sua.
- Olha - disse o António - uma das senhoras esqueceu-se da carteira.
Pegou nela e, com surpresa da Clara, abriu-a. Continha dinheiro. Ele olhou vivamente à volta e depois lançou-lhe um olhar astuto e malicioso. A Clara sentiu o sangue fugir-lhe da cabeça. Não teve dúvidas, ele ia meter o dinheiro ao bolso. Mas antes de ter tempo de fazer qualquer comentário, um dos homens que tinha jantado na mesa apareceu, viu o António com a carteira e perguntou com alvoroço:
- O que é que está a fazer com a carteira da minha mulher?
O António esboçou o seu melhor sorriso, aberto e cativante.
- Estava a ver se descobria o nome da dona.
O outro encarou-o com os olhos ríspidos e desconfiados.
- Podia te-la entregue ao chefe do pessoal.
- E quem lhe disse que o não faria?-- respondeu o António suavemente, devolvendo-lha a carteira. E acrescentou:
- O descuido de certas pessoas parece quase uma provocação.
A Clara suspirou de alívio. Assim rodeado de tanta gente, ele não arriscaria ficar com o dinheiro da carteira. Porém, conhecia bem as expressões do marido e, por mais inacreditável que isso antes lhe parecesse, ela teve quase a certeza que ele fizera tenção de ficar com o dinheiro.
Num fim de tarde, quando se encontraram à saída do seu emprego, e ao passearam pelas ruas da baixa pombalina a ver as montras decoradas para o Natal, a Clara sugeriu-lhe:
- No próximo sábado faço anos. Queres vir jantar lá a casa? Os meus pais estão com vontade de te conhecer.
Ela percebia que a mãe, muito especialmente a mãe, a D. Luiza, se estava a preocupar com esta amizade, que vinha de há alguns meses. Não muitos. E por sua vez, se ele o não o sabia, era altura de o esclarecer.
- Olha Clara, não sei se os teus pais simpatizarão muito comigo. Acho mais prudente continuarmos assim eles por lá, nós por aqui.
A Clara conhecia bem a sua mãe para julgar que, de imediato, pudesse nutrir sentimentos de grande benevolência para com um rapaz que a filha não conheceu na universidade, mas numa paragem de autocarro. E de quem pouco ou nada sabiam. Mas, por outro lado, os pais ainda teriam motivos de desconfiança maior se ela se esquivasse a levá-lo lá a casa para o apresentar. Recordou-se, de novo, como o António lhe sorriu pela primeira vez em que se viram e como ficou durante um minuto como que petrificada perante aquele sorriso. Teria sido naquele momento que ela deveria ter detido os acontecimentos, se isso fosse mesmo o que ela queria, possível ou necessário. Por certo que um simples gracejo, menos bem sucedido, bastaria para que ela o afastasse. Dias depois ela disse-lhe:
- Sabes... eu...
- Sei - disse ele com um sorriso desarmante - , mas estou apaixonado por ti.
Pareceu-lhe uma história já lida algures, na tradição de um romance de folhetim. Afinal, depois de duas ou três conversas, um diz para o outro que o ama. E o folhetim retoma rapidamente a narrativa rumo ao happy end ou à catástrofe final.
A mãe da Clara abarrotou o António com uma sopa de legumes, um frango na púcara que aprendeu em casa dos sogros, conhecidos proprietários em Alcobaça e cuja feitura foi refinando com o tempo, umas trouxas de ovos, que era a sua especialidade, e café. O vinho, que o pai escolheu na sua garrafeira, não desmerecia e o porto era um verdadeiro vintage, que aliás ligava bem com o bolo-rei que o António ofereceu. Com sessenta anos, a D. Luíza considerava-se uma excelente dona de casa, embora do género que entende ser mostra de hospitalidade levar os convidados a comer para além do apetite ou das necessidades. Falava muito, numa voz algo aguda, com tonalidades metálicas, nunca esquecendo o seu sotaque nortenho, sorrindo a todo o instante, numa polidez efusiva e no desejo instintivo de animar um pouco a conversa. Fez ao António um grande número de perguntas, aparentemente de circunstância, tal como se espera de uma senhora de sociedade para com uma pessoa estranha ao meio. A Clara percebeu bem que era um interrogatório, conduzido com habilidade, para descobrir tanto quanto possível a respeito do António, ao contrário do que acontecia com o pai que, como normalmente, ouvia e observava mais do que falava. Diziam as más línguas do Ministério da Administração Interna e nessa linha alguns detractores que se juntavam depois do almoço no Café Portugal, em Alcobaça, que o Dr. Manuel Costa era a pessoa indicada para o lugar, pois há bastantes anos que não lhe brotava uma ideia da cabeça. Não abria a boca que não debitasse uma banalidade e era tão formal que quando contava algum escândalo ou uma história suja, tornava-a tão desinteressante que acabava por perder o mau cheiro. Afinal, não se confirmaram os receios da Clara, o jantar não correu mal, não lhe desagradou, porque reconhecia que a mãe era entre todos a mais perspicaz. Uma mulher que, na sabedoria do amor materno, tentava impedir que a filha tomasse uma resolução imprudente.
À despedida a D. Luíza deu um beijo ao António.
- Gostei de si e agora que já sabe o caminho, venha ver-nos muitas vezes.
Enquanto se encaminhavam para o metro, a Clara enfiou o braço no do António num gesto afectuoso que mais parecia pedir que oferecer protecção.
- Tudo correu mais que bem. Os meus pais gostaram de ti. Vão adorar-te.
O António sorriu.
- Não sejas tola, a tua mãe examinou-me da cabeça aos pés. E detestou-me.
- Não, garanto-te. Eu conheço-a bem.
O António encolheu negligentemente os ombros, e não respondeu. Ao separarem-se, ficou combinado que ele voltaria lá a casa no próximo fim de semana. O que passou a acontecer com regularidade.
O António nos seus trinta anos, que não tinha pais desde criança, fizera-se a si próprio em Lisboa como gostava de acentuar, trabalhava com aparente sucesso, em sociedade com um primo, num negócio de representações de artigos de vestuário de marcas estrangeiras. Percebia-se logo que o dinheiro, por via de regra, não faltava no seu bolso. E que era meigo para ela, ouvia-a com atenção, tinha fácil convívio e, embora revelasse por vezes algum cinismo volúvel e despreocupado, fazia-a rir muito gostosamente. O que raramente acontecia em casa da Clara que, depois da saída dos irmãos, vivia com os pais, bastante mais velhos, num bom apartamento da Avenida de Roma, que lhes dava uma sensação de segurança perante o mundo exterior, a grande cidade, que ficava a uma distância confortável. Uma vez o António deu-lhe de presente um relógio suiço, indiscutivelmente verdadeiro, que devia ter custado bom dinheiro, apesar de ter um pequeno risco no vidro, noutra ocasião um par de canetas e um anel com um brilhante e até uma carteira de documentos em pele de cobra, onde se encontrava esquecido um bilhete de metro. Perguntou ao António como aquilo tinha ido ali parar. Ele, a rir-se, contou que tinha ganho aquela carteira numa aposta com um amigo. O António era generoso com a namorada. E não se coibia de extravagâncias.
- Esta noite não tenho disposição para ir cedo para casa --disse ele. Vamos tomar qualquer coisa e depois damos um passeio.
- Óptimo. Deixa-me só avisar a minha mãe.
Fizeram um jantar simples, enquanto o António falava pelos cotovelos. A Clara estava intrigada, pois pressentia haver novidades no ar. Será que ele lhe tinha proposto o passeio para lhe comunicar alguma notícia má? O António era uma criatura emotiva, por vezes teatral até, de argumentação simples e directa, mas isso não a cansava, nem a ofendia, antes pelo contrário, divertia-a mesmo. Ele vai anunciar uma despedida?
- De quem é o carro?, disse ela ao entrar para um desportivo verde, de capota de lona e duas portas.
- É de um amigo que o quer vender. Eu ofereci-me para o ajudar no negócio e ainda ganho uma comissão.
Dirigiram-se para a beira Tejo. Ele conduzia devagar e o ar entrava pelas janelas do carro. A Clara, com a mão do António na sua, não pensava em coisa alguma, sentindo confusamente que aquela ausência de ideias se parecia com o que considerava a felicidade. Ou seria que é apenas bem estar? O tempo estava bom. O local era de pouco movimento. Noutras circunstâncias a Clara teria ficado um pouco receosa. Supunha conhecer suficientemente o namorado para saber que ele era incapaz de tirar partido da situação. De novo, ela teve a intuição de que ele estava preocupado com qualquer coisa.
Claro que nos últimos tempos tinham conversado bastante. Pouco a pouco a Clara ia sabendo mais coisas acerca dele. A infância com os avós maternos de fracos recursos, os estudos liceais com pouco sucesso e abandono, uma disciplina nem sempre assumida. Era, em suma, uma vida simultaneamente simples e complicada. Simples, porque não apresentava nada para além do absolutamente vulgar. Complicada, porque tornava esta vida simples, quase pungente no futuro.
- Tenho uma coisa para te dizer -- disse ele por fim.
- Sim?
- Não sei bem como começar, pois tenho uma sensação curiosa e nova para mim.
A Clara sentiu um aperto e comentou:
- Quando se tem uma coisa importante é melhor dize-lo com simplicidade.
- De acordo. Aceito a sugestão. Queres casar comigo?
Ela disse que sim. Mas acrescentou, timidamente:
- E de que vamos viver?
Quando chegou a casa, ainda sem partilhar nada com os pais e enquanto se preparava para ir para cama, lembrou-se de um pequeno incidente, qualificá-lo de discussão seria uma expressão talvez exagerada, que ocorrera há dias com o António. Tão fugaz que quase o esquecera.
- Há quanto tempo nos conhecemos, António?
Esta pergunta, de repentina, pareceu altamente imprópria e deslocada. Incomodativa mesmo. Ela bem sabia que era há pouco tempo. Mas insistiu:
- O que temos feito?
- Pouca coisa, receio dize-lo. Vou todos os dias ao escritório, contacto com os clientes, à noite vou beber um copo a um bar. E claro, namoramos.
- Essa vida satisfaz-te?
- Mas que pergunta. Se queres que te diga, por enquanto não é má e vou-me divertindo.
- E no próximo ano, que vais fazer?
- Possivelmente o mesmo, se outra coisa melhor não aparecer. Mas suponho que mais cedo ou tarde casarei, talvez compre o negócio ao meu primo e o possa expandir. Mas até lá, vamos continuar a namorar e, no que me diz respeito, a divertir-me quanto possível, no limite dos meus rendimentos.
A resposta desconcertou a Clara e ainda mais quando o António concluiu com um sorriso amplamente indulgente:
- Sabes uma coisa? Eu tenho uma natureza feliz e havemos de a compartilhar.
Iam de vez em quando ao cinema, no Colombo, com um prévio jantarinho no MacDonnald´s ou na PizzaHutt. O filme fora recentemente premiado com um Oscar e o António passou quase o tempo todo a dizer tontices ao ouvido da Clara, que estava furiosa porque assistia a qualquer espectáculo com a gravidade e atenção de uma criança convencida. Aliás, há já uma semana que a Clara insistia para que o fossem ver, mas o António retorquia, com displicência, que só de pensar nisso sentir o sangue fugir-lhe das veias.
- Mas não tens que vir comigo... - dizia ela. Mas é contigo que gostaria de ir.
- É divertido - lastimou-se ele. Saíste-me cá uma intelectual.
- Nunca o escondi! - respondeu a Clara muito a sério.
- Minha querida, já percebeste, não sou um homem muito intelectual. Tens de te convencer disso.
- Podias se-lo - retorquiu com uma ponta de azedume - , se não tivesses renunciado a servir-te da tua inteligência para outra coisa que não seja o teu negócio. Não tens qualquer espécie de curiosidade pela vida e pelo mundo.
Ele encolhia os ombros e ria. Havia entre eles um consenso tácito para não ultrapassar certas barreiras. Estavam naquele fase deliciosa do namoro em se pode questionar sem admitir que os temas destas batalhas, ainda ternas, possam ser as trombetas anunciadoras de disputas menos felizes.
Alguns meses depois casaram, com um enxoval apressado mas suficiente, numa cerimónia discreta em que apenas esteve presente a família próxima e uns amigos dois ou três amigos. Foram viver para um pequeno apartamento de uma assoalhada, na periferia da cidade. Com o tempo, e se houvesse filhos, mudariam para outro mais espaçoso e bem situado. O negócio das confecções dava a ideia de correr sem problemas de maior até que um dia quando o António chegou a casa disse que ia acabar a sociedade com o primo. Não se entendiam nas contas. Este pusera-o diante do dilema de comprar ou vender as respectivas quotas. Como não dispunha de dinheiro para comprar a quota do primo teria que lhe vender a sua. O pior é que o sócio também tinha pouco capital. Sem dúvida que isto foi motivo de perturbação, pois que os recibos verdes que a Clara passava no seu emprego, ainda precário, numa agência de turismo na Avenida da Liberdade, eram insuficientes para os dois continuarem a manter o nível de vida que apreciavam. Mas vida tinha de continuar, como dizia o António que recuperou depressa o seu bom humor, a sua jovialidade. E era tão amoroso e agradável com a Clara, como antes. Mas alguma coisa tinha mesmo que mudar. Passou a levantar-se tarde para, assim o dizia, sair à procura de trabalho e nem sempre vinha jantar a casa, o que a aborrecia. O curioso de tudo isto é que estando sem trabalho, o António pareceu andar de novo com dinheiro.
Esse domingo de Outono, já lá vão dois anos tendo em atenção à data a que se refere esta história, estava agradável e o António sugeriu à mulher, que fossem passar a tarde fora e dar uma volta. Não lhe apetecia ir jantar a casa dos sogros. Propôs o jantar num restaurante que o Expresso recomendava no último número e que quando chegaram já regorgitava de gente. Acharam uma mesa para duas pessoas ao lado de uma outra com um animado grupo de três casais de meia idade, que estavam a terminar a refeição, iam eles ainda a meio da sua.
- Olha - disse o António - uma das senhoras esqueceu-se da carteira.
Pegou nela e, com surpresa da Clara, abriu-a. Continha dinheiro. Ele olhou vivamente à volta e depois lançou-lhe um olhar astuto e malicioso. A Clara sentiu o sangue fugir-lhe da cabeça. Não teve dúvidas, ele ia meter o dinheiro ao bolso. Mas antes de ter tempo de fazer qualquer comentário, um dos homens que tinha jantado na mesa apareceu, viu o António com a carteira e perguntou com alvoroço:
- O que é que está a fazer com a carteira da minha mulher?
O António esboçou o seu melhor sorriso, aberto e cativante.
- Estava a ver se descobria o nome da dona.
O outro encarou-o com os olhos ríspidos e desconfiados.
- Podia te-la entregue ao chefe do pessoal.
- E quem lhe disse que o não faria?-- respondeu o António suavemente, devolvendo-lha a carteira. E acrescentou:
- O descuido de certas pessoas parece quase uma provocação.
A Clara suspirou de alívio. Assim rodeado de tanta gente, ele não arriscaria ficar com o dinheiro da carteira. Porém, conhecia bem as expressões do marido e, por mais inacreditável que isso antes lhe parecesse, ela teve quase a certeza que ele fizera tenção de ficar com o dinheiro.
MIGUEL TORGA, GUERRA DE ESPANHA, GUERNICA E IMPRENSA DE ALCOBAÇA
O relato de uma viagem que Miguel Torga (nome de baptismo de um transmontano seco, áspero e telúrico, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, inspirado numa planta transmontana, a urze campestre, cor de vinho, de raízes muito duras e agarradas, metidas entre as fragas), que realizou em 1937 por alguns países europeus, veio a ser publicado, dois anos depois, com o título de o Quarto Dia Da Criação do Mundo. Esta obra deu origem à prisão de Torga, na sequência de uma queixa formulada a Salazar por Nicolás Franco,irmão mais velho de Francisco Franco. Torga era um homem livre, português iberista, mas anti-união ibérica, cidadão do mundo, que tinha muito orgulho nas suas origens, e se escorava no pressuposto do Nunca descrer//Do chão duro e ruim.
Os estudiosos de Torga, destacam a sua faceta ibérica, que não põe em causa a sua Pátria Cívica viabilidade e independência. Segundo Manuel Alegre, Torga era culturalmente um iberista, mas politicamente um português. Cremos ser esta uma resposta crítica a Saramago, que defendeu que Portugal acabará por integrar-se em Espanha.
O regime nacionalista espanhol, considerou injurioso e obsceno na sua alegada propaganda anti-comunista, o livro de Torga que denunciava a tragédia da Guerra Civil, as atrocidades e, muito concretamente, o bombardeamento a Guernica. Salazar ordenou a prisão de Torga, que veio a ocorrer no seu consultório, ainda em Leiria. A detenção teve como fundamento uma acusação de comunismo que incluía a suspeita de ter recebido dinheiro de Moscovo para a compra de material cirúrgico para o consultório médico!!!
Se Guernica, de Picasso foi utilizado como elemento de propaganda dos republicanos contra os nacionalistas, a história seguinte, a não ter fundamento o que se admite, poderá funcionar como mera contra-resposta dos nacionalistas aos republicanos. A obra foi solenemente apresentada ao público, há cerca de 70 anos, com o nome Guernica, pelo próprio Picasso e por Max Aub, Sub-Comissário da Exposição, na inauguração do Pavilhão de Espanha, na Exposition Internationale des Arts et Techniques, em Paris, no dia 4 de Maio de 1937. Logo na inauguração, Max Aub enfatizou que muito se iria falar daquela pintura. As gravuras que testemunhavam a tragédia de Guernica, provocada pela aviação alemã, A Legião Condor, ao serviço dos franquistas, estavam a ser divulgadas pela imprensa internacional, que assim fornecia a única informação que não suscitava liminares reservas. Quanto ao demais, aquilo que as agências internacionais remetiam para as redacções dos jornais via nacionalistas, chegava e sobrava para deixar desconfiadas as pessoas. A máquina de propaganda dos nacionalistas nada deixava passar no território sobre o seu controlo, que escapasse à sua verdade. Assim, imagens terríveis dessa povoação basca, foram prontamente acompanhadas de comentários, desmentidos, do género Os aviadores bolchevistas continuam a sua táctica de bombardear as cidades abertas da retaguarda e tentaram mais uma vez bombardear Saragoça. Mas os aviões de caça nacionalistas levantaram voo e derrubaram um avião bolchevista. Logo a obra converteu-se num dos símbolos publicitários do Governo Republicano, até ao fim da Guerra Civil e mesmo no exílio. O quadro foi apresentado como uma resposta de Pablo Picasso ao brutal bombardeamento alemão. Porém, se se atentar nas datas do bombardeamento e da apresentação da obra, admite-se que pode não ser mesmo assim. Na verdade, o bombardeamento de Guernica ocorreu na tarde de 26 de Abril de 1937. Nos dias seguintes, o acontecimento começou a ser noticiado e amplamente comentado em Paris. Mas o quadro foi apresentado cerca de uma semana depois do acontecimento. Trata-se de uma obra de grande envergadura, com 3,5 metros de altura por 7,77 metros de largura. Picasso, chegou a declarar que tinha demorado 60 dias a executá-la. Pensar que o quadro foi iniciado e completado entre 27 de Abril e 3 de Maio de 1937, não explica a contradição com aquela informação. Uma conclusão pode-se eventual, mas não seguramente, extrair! O trabalho de Picasso não foi inspirado, nem representa o bombardeamento de Guernica, pelos alemães, aliados dos nacionalistas. A história do quadro Guernica terá começado em Janeiro de 1937, quando Max Aub encomendou a Pablo Picasso, por ordem do Governo Republicano, um mural para ser exposto no Pavilhão de Espanha, mediante o pagamento de 150.000 francos. Em vez de um mural, foi executado aquele painel, enorme, em óleo sobre tela. Se foi Picasso, Max Aub, ou outro qualquer, que anteviram o grande potencial da designação, e se lembraram de baptizar o quadro de Guernica, nos breves dias que antecederam a inauguração da exposição, é facto que dificilmente poderá ser esclarecido, a ser fundamentada esta tese. Desde então, Guernica tem sido objecto de estudo, crítica, opinião e inspiração um pouco por toda a parte. Representará mais uma impressiva visão sobre os horrores da guerra? Segundo alguns, a tensão expressa no quadro lembra Los Horrores de la Guerra, de Goya. A denominação da obra e a propaganda republicana desencadeada a partir daí, representou uma operação político-mediática em que participou Pablo Picasso, como eventualmente esta versão nacionalista. Alguns espanhóis, obviamente não afectos aos republicanos, mas não necessariamente comprometidos com os nacionalistas, adiantam que o quadro estava pronto antes, ou em adiantada execução quando ocorreu o bombardeamento de Guernica, e Picasso previa chamar-lhe Lamento en La Muerte del Torero Joselito, evocando a memória do toureiro Joselito, caído na arena de Talavera de la Reina, numa tarde de 16 de Maio de 1920. Não sabemos, e o facto em si não nos parece verdadeiramente relevante, mas é sabido que Picasso dedicou grande atenção aos temas taurinos, desde a juventude. Observando o quadro, podem distinguir-se touros e cavalos, num paroxismo de drama e morte. O que não se consegue descortinar são aviões, casas, guerra ou bombardeamentos. Mas quanto a isso lá saberá o pintor aquilo que quis representar!
.A imprensa de Alcobaça, no único semanário que se publicava, Ecos do Alcoa, por esta altura, Maio de 1937, detacava a grande ofensiva lançada pelas pseudo democracias europeias contra as forças de Franco que mercê, da sua indómita bravura, alcançaram retumbantes vitórias na região da Biscaia, ocupando alguns dos seus principais centros mineiros. O motivo aparente de tão injustificado clamor é a anunciada destruição da cidade de Guernica, pátria das liberdades…bascas, mas muito especialmente a de uma simbólica árvore, a cuja sombra se reuniam os legisladores do Euzkadi. Esse o motivo aparente que já não ilude ninguém, pois à nossa consciência repugna acreditar que os homens vocifrem imprecações contra a destruiçãio de uma árvore, por muito respeitável que ela seja e não tenham feito ouvir os seus mais clamorosos protestos perante o furor encandescido que revelaram os espantosos bombardeamentos do Alcazar de Toledo, sagrada relíquia que, além do seu alto valôr material, encerrava épocas inteiras da maravilhosa História de Espanha, do Convento de Guadalupe, da Catedral de Córdoba, de dezenas de monumentos de maravilha e, muito recentemente do Santuário de Santa Maria de La Cabeza onde se encontravam cêrca de 800 mulheres e crianças que a falsa caridade dos démo-bolchevistas internacionais deixou durante perto de dez infindáveis meses, à mercê das granadas e bombas de aviação que há mais de um mês, atingiam a espantosa cifra de três mil e quinhentas (…). Fora Tartufos…
A guerra civil, em Espanha, era acompanhada com atenção e preocupação em Alcobaça, onde havia apoiantes de um lado e do outro da barricada, que aproveitavam para fazer a apologia junto dos respectivos correligionários. Em Agosto de 1936, os Sindicatos Nacionais de Operários Portugueses, controlados pelo governo, realizaram em Lisboa um grande comício antibolchevista que foi difundido em directo pela E.N.. A Câmara Municipal de Alcobaça, por iniciativa do indefectível nacionalista Manuel da Silva Carolino, providenciou para que um altifalante fosse colocado numa janela do seu edifício, a fim de transmitir os discursos. O alegado objectivo deste comício e sua difusão, consistia em desmontar a informação canalizada pelos colossos da propaganda internacional que têm provocado uma justificada repulsa.
A 29 de Novembro seguinte, uma comissão composta pelo Presidente da Câmara, Manuel da Silva Carolino, Dr. Joaquim Nascimento e Sousa, Dr. José Nascimento e Sousa, Dr. Rodolfo Bacelar Begonha, Prof. Bernardo Correia de Almeida e Alberto dos Santos Carvalho, organizaram uma imponente manifestação anticomunista que, segundo o referido Ecos do Alcoal, juntou muita gente, num consolador repúdio pelas doutrinasmarxistas, apoio aos nacionalistas espanhóis, numa lição de civismo que a nossa terra deu a todo o País e dum modo especial a todas as terras do nosso lindo distrito.
Voltemos a Miguel Torga. Transportado para o Aljube, onde se acolhiam também presos políticos, foi interrogado, mas só foi libertado ao fim de cerca de três meses, aliás sem acusação nem julgamento, como era prática corrente. Aí escreveu o poema de resistência Ariane.(…) Ariane é um navio,//Tem mastros, velas e bandeiras à proa,//E chegou num dia branco, frio,//A este rio Tejo, de Lisboa.(…)
Miguel Torga, um dos mais representativos escritores contemporâneos portugueses, que em 2007 ano faria cem anos se fosse vivo, foi uma voz entre poucas de peso, que se ergueram em Portugal contra alguns episódios da Guerra Civil de Espanha, arrostando as consequências. Em 1975, pouco antes da morte de Francisco Franco, voltou a verberar o fuzilamento de dois espanhóis etarras, no que foi um dos últimos actos sanguinários do regime.
Para Renato Nunes, biógrafo e estudioso de Torga, o aspecto mais relevante da atenção que a PIDE lhe dedicou é o interesse quase obsessivo da PIDE pelos vários domínios da vida do escritor (…) as violências sistemáticas da correspondência, o registo das suas viagens, dos encontros com amigos, até os rendimentos da sua actividade como médico.
Torga, referiu-se à violência dessa devassa no seu Diário XII, de 1975, quando depois de 25 de Abril teve acesso ao dossier da PIDE/DGS, pois vista através daquele registo laborioso e tenaz de gusanos inexoráveis, a minha vida era a própria imagem da desolação.
Havia publicado em 1928 o seu primeiro livro de poesia, Ansiedade, ainda como Adolfo Rocha, mas que acabou proibido de ser vendido, mas apenas por exclusiva decisão do autor.
Em 1931, iniciou a sua contestação à Ditadura Militar e em breve, foi confrontado com a censura, que exigiu a identificação do director, editor e proprietário da Manifesto, revista que só durou cinco números.
Atravessou, a Espanha em guerra civil, dando conta das impressões que lhe causou o conflito em livros como A Exposição de Paris de 1937. Esta exposição teve uma boa presença portuguesa e no nosso pavilhão, houve festas de carácter popular como o S. João, a Festa do Vinho, a Festa do Mar e música e bailes.
Torga foi preso em Leiria, a 2 de Dezembro de 1939, e levado para o Aljube, na sequência da publicação de O Quarto Dia da Criação do Mundo, que foi apreendido. Tendo sido libertado a 2 de Fevereiro, descreveu a experiência da prisão em O Quinto Dia da Criação do Mundo, casou-se, civilmente, a 27 de Julho, com a belga e professora universitária Andrée Crabbé Rocha, expulsa da Universidade de Lisboa, fixando residência em Coimbra, onde abriu consultório médico no Largo da Portagem, ao qual ia todos os dias, paramentado de bata branca. No consultório existia uma grande tabuleta no sobrado, segundo o costume da terra e do tempo.
De todos os cilícios um apenas,
Me foi dado grato sofrer
Cinquenta anos de desassossego,
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego.
Pelos 16 volumes do Diário de Torga, que compreende o período que vai de 1932 a 1993, perpassam as várias fases da vida política, cultural e social do País, da Península Ibérica, bem como do resto do mundo.
Editou o Diário I, em 1941. Em 1942, escreveu no seu Diário II que que dizia-me hoje alguém: Homem se você pudesse ser na vida literária o que é na vida clínica, conciliante, passa-culpas, carregando o perdão, que maravilha! Na verdade esse alguém, estava muito longe de o poder compreender, isto é saber ler…
Após publicação, em 1942, de Os Contos da Montanha, os volumes foram apreendidos em Coimbra, o mesmo acontecendo ao poema dramático Sinfonia. Dada a sua origem rural, e conhecendo Portugal de uma ponta a outra, a sociedade e a sua estrutura fundiária, pôde escrever que a diferença que existe entre o Alentejo e o resto de Portugal é que aqui o homem é dono da terra e lá a terra é dona do homem. Por esta e por outros, persona non grata ao regime, veio a ser-lhe negado o passaporte para sair de Portugal. Ele que tanto apreciava sair, preso na sua terra.
Participou na campanha de Humberto Delgado, em 1958, não obstante ser avesso à militância política e não apreciar os políticos como tal, por nunca os considerar como figuras intocáveis, como por vezes se gostam de auto-rever. Talvez assim se compreenda esta sua passagem, do Diário VIII, estes trinta anos de poder pessoal acostumaram-nos de tal maneira à canga que só através de outro poder individual sonhamos, quando sonhamos, a libertação.Sempre se mostrou pronto para tomar posição contra medidas que privavam os portugueses de liberdades cívico-políticas, sendo que a liberdade é uma penosa conquista da solidão. Em Setembro de 1968, no seu Diário XI, escreveu que a rádio acaba de transmitir a notícia que Salazar em coma, foi exonerado e substituído na Presidência do Conselho. Na história do mundo nada aconteceu, mas na de Portugal acabou um reinado, uma época, trágica, como se há-de ver, uma maneira específica de governar, qualquer que seja a vontade do sucessor. E em Julho de 1970, no mesmo Diário, registou que morreu Salazar. Mas tarde demais para ele e para nós, os que o combatíamos. Conheceu e foi amigo de alguns políticos, embora não por força dessa circunstância. Escreveu no Diário IX com clareza que medicina, literatura e política, por ordem decrescente. A devoção, a obrigação e a maceração. O Presidente Ramalho Eanes foi mais que uma vez visitá-lo a S. Martinho de Anta, e quando Samora Machel se deslocou a Portugal, foi Torga o seu cicerone na visita ao Douro. O restaurante Pompeu dos Frangos, na Malaposta, foi local de muitos jantares, encontros (por exemplo com Jorge Amado) e tertúlias, com amigos. Já bastante doente, fora outra vez hospitalizado. Pode-se enganar a vida. A morte é que não (cfr. texto de Abril de 1992). A propósito do seu aniversário, reuniu entre outros Mário Soares, a quem deu a direita à mesa. Ouvimos contar em Coimbra que o bolo comemorativo desse aniversário, representava o seu livro Nihil Sibit, reproduzia alguns versos e o encontro foi emocionante, pois que Torga sabia que o seu fim estava próximo. Em Dezembro de 1993, escreveu REQUIEM POR MIM:
Aproxima-se o fim
E tenho pena deacabar assim
Em vez a natureza consumada
Ruína humana,
Inválido do corpo,
E tolhido da alma
Morto em todos os órgãos e sentidos (…).
Quando publicou o VIII Volume do Diário, mais uma vez veio a ser apreendido pela PIDE. O caso mobilizou acções de protesto e de solidariedade por parte de personalidades como Urbano Tavares Rodrigues, Jaime Cortesão, Artur Portela Filho, Vítor Direito e Raul Rego.
Foi proposto, em 1960 com Aquilino Ribeiro, como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, sendo a sua candidatura subscrita pelo professor francês da Universidade de Montpellier, Jean-Baptiste Aquarone. No ano seguinte, escreveu como amargura e descrença que qualquer dia o sarcasmo vem já formulado no Diário do Governo: licença à oposição eleitoral para mais uma confratrnização exaltada de impotência.
Recusou, em 1969, o Grande Prémio Nacional de Literatura, por ser atribuída pelo Regime e subscreveu o Manifesto dos Escritores ao País, pela restituição da liberdade, contra a máquina represssiva e as prisões políticas. Mas aceitou receber nesse ano o Prémio Literário Diário de Notícias, que lhe foi entregue pelo Director Augusto de Castro. Quando Caetano sucedeu a Salazar, escreveu no seu Diário XI: A rádio acaba de transmitir a notícia de que Salazar, em coma foi exonerado e substituído na Presidência do Conselho. Na história do Mundo nada aconteceu, mas na de Portugal acabou o reinado, uma época-trágica como se há-de ver- uma maneira específica de governar, qualquer que seja a vontade do sucessor. As circunstâncias, uma inteligência impassível, um certo sentimento de grandeza pessoal, o conhecimento satânico do preço dos homens, a obstinação, o oportunismo, a ousadia, a crueldade e o desprezo podem num dado momento fazer do mais apagado individuo um chefe providencial. Mas quando o ídolo ou o déspota, obrigado pela força ou pela erosão do tempo, é removido do pedestal, leva anos, às vezes séculos, a surgir outro.
Segundo se diz, Salazar com quem Torga nunca se terá encontrado pessoalmente, não se coibia de manifestar-lhe a sua admiração, chegando a declamar em privado estrofes da História Trágico-Marítima: Noite medonha, aquela!//O mar tanto engolia a caravela//como a exibia à tona, desmaiada!
A Revolução do 25 de Abril não lhe granjeou, à partida, grandes entusiasmos. Escreveu no Diário XII, Golpe militar: Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada. Sobre o processo de descolonização, pronunciou-se em Julho de 1974, no sentido que vamos finalmente dar independência aos povos colonizados. Uma independência que sem dúvida lhes irá custar caro, mas não há nenhuma que seja barata. Ainda sobre este tema, um dos pontos de divergência com o PS, escreveu que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressamos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.
No Verão Quente (1975), publicou no jornal diário A Luta (pró PS), um poema que intitulou Lamento,ah, meu povo traído//Mansa colmeia//A quem ninguém colhe o mel (…) e num outro, Liberdade, Liberdade, que estais em mim//Santificado seja o vosso nome (…).
Nunca se inscreveu em nenhum partido, pois o meu partido é o mapa de Portugal.
Todavia, Torga assumindo um sentido de responsabilidade cívica, para que uma ditadura não desse lugar a outra ditadura, chegou a participar em comícios socialistas e presidiu em Coimbra ao primeiro celebrado por este partido, em 1 de Junho de 1974, graças ao empenho de Manuel Alegre. A propósito das eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, Torga escreveu no seu Diário XII, eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na Pátria, a maior consolação cívica que tive. Nesta campanha eleitoral, discursou num comício em Coimbra do PS.
Os responsáveis do Partido Socialista, manifestaram em geral grande apreço e respeito por Miguel Torga, que nunca nele se filiou sem nome possível numa ficha partidária, embora se identificasse com os seus grandes princípios programáticos. A sua concepção de socialismo radicava na sabedoria ancestral do comunitarismo agário e pastoril. Combeteu, pela a escrita e palavra, os que antepunham a construção do socialismo à edificação da democracia, pelo que em 6 de Março de 1975, note-se antes do golpe pró-comunista de 11 de Março, chefiado por Vasco Gonçalves, registou no jornal A Capital , que é necessário interromper, sem demora, esta corrida leviana que nos leva à perdição. Em Novembro de 1985, escreveu no seu Diário IV que, há uma coisa que nunca poderei perdoar aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumenhtos a minha esperança. A grande divergência de Torga com o PS terá estado relacionada com a adesão de Portugal à CEE pelo que, Soares chegou a deslocar-se a Coimbra para lhe refrear o euro-cepticismo. Inútil, já que Torga repudiou a militância europeia, como fizera com as outras, inclusivé a Socialista/PS.
No verão de 2007, foi descerrado um monumento ao escritor, no Largo da Portagem, Coimbra, frente ao antigo consultório, com a presença de Manuel Alegre, na qualidade de Vice-Presidente da A. R., integrado nas cerimónias do centenário do seu nascimento. Consistiu numa escultura em formato de um passadiço. Comemorou-se também o centenário do seu nascimento em S. Martinho de Anta, mas sem a presença de um representante do governo português. Cavaco Silva, que nem foi convidado para a cerimónia, enviou todavia uma mensagem de apreço, (…) Nesga de terra debruada de mar, assim qualificou Torga o nosso País. Não foi por acaso que utilizei esta expressão no discurso de tomada e posse como Presidente da República. Ela é a síntese perfeita do Portugal que somos. (…). Miguel Torga foi para muitas gerações a voz da insubmissão. (…) Hoje em que há liberdade para todas as vozes, ele é o orgulho de sermos portugueses de uma diferente e autêntica. (…).
Foi promovida uma candidatura ao Prémio Nobel da Literatura em 1978, recebendo o apoio do escritor premiado no ano anterior, o espanhol Vicente Aleixandre.
Em 1987, a propósito das comemorações oficiais do 10 de Junho em Macau, integrado numa embaixada cultural de Coimbra, que incluiu intelectuais, cientistas e políticos, bem como o Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra (de que fiz parte durante 10 anos, já pai de filhos e, advogado radicado em Alcobaça), Torga numa conferência manifestou preocupação pela perda das marcas da lusitanidade e referiu-o no seu Diário. Constituido por cerca de sessenta antigos estudantes da Universidade de Coimbra, o Coro dos Antigos Orfeonistas apresentou-se pela primeira vez em público em 1980, por ocasião das comemorações do centenário do Orfeon Académico de Coimbra de que adiante se voltará a falar. Na sua génese, esteve o propósito de num percurso aberto a desafios novos e estimulantes, no domínio da arte musical, como noutros, de inegável dimensão humanista, fazer reviver os ideais de Fraternidade, de Tolerância e de Solidariedade que, ao longo de gerações marcaram, de forma algo peculiar, a Academia de Coimbra. Este Coro, já realizou mais de sete centenas de concertos em Portugal e estrangeiro, Europa, Américas-Norte e Sul, África, Ásia, em organizações internacionais como o Parlamento Europeu, Tribunal das Comunidades, Comissão Europeia, UNESCO, ONU. Também já representou Portugal em vários eventos como o Dia de Portugal, na RSA, Macau e Regiões Autónomas.Tem quatro discos gravados, um deles com a Orquestra Filarmónica de Londres e um DVD, aquando da realização da ópera O Barbeiro de Sevilha, em colaboração com a Orquestra do Norte. Foi agraciado com o grau de Membro Honorário da Ordm de Mérito, Medalha de Mérito do Ministério da Cultura, Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra, Sócio Correspondente da Academia Pernambucana de Música/Recife, Amigo Honorário da Fundação Bissaya-Barreto. O Coro conquistou em 2006 a Medalha de Prata no XVI Festival Internacional de Coros de Praga, entre 66 agrupamentos, provenientes de vários continentes.
Foi ao que cremos a ida ao Oriente, uma das últimas saídas de Torga ao estrangeiro, ele que gostava muito de conhecer o mundo. Dessa vez percorreu os cenários que tinha antecipado para o herói do seu romance Senhor Ventura. Torga aproveitando essa deslocação também foi a Goa. No regresso, registou quea civilização (está) no seu apogeu. Quando se vem da Índia e se desembarca nesta terra é que se vê a que baixeza social o homem pode descer e a que alturas subir. Torga conhecia o nosso País, gabava-se de que ninguém o conhecia melhor que ele, pois percorreu Portugal de uma ponta a outra. Falando com ele, dava a ideia de ser pessoa socialmente difícil, pouco comunicativo, aparentemente impermeável à lisonja, quando agradecia (?) nem sorria, falando mais com convicção do que razão, muito cioso da sua imagem pública de aura granítica, detestando fotografias, entrevistas, dedicatórias ou autógrafos (v. não sabe o que me está a pedir!). Mesmo assim não evitou que, num caso ou noutro, a sua imagem de lobo solitário ficasse registada para contentamento de quem com ele aparecia. Segundo se diz, houve pessoas que para lhe caçarem um impossível autógrafo, fizeram-se passar por doentes e então obtiveram-no através da prescrição médica. Registou no Diário X, que nunca me havia sucedido, mas hoje aconteceu: oferecer um livro espontaneamente a uma pessoa desconhecida, feliz por o ter escrito. Recordo-me, todavia, de nos meus tempos de estudante da Faculdade de Direito, de Coimbra, cliente de um café da baixa, entretanto transformado num pronto-a-vestir, o encontrar a tomar a sua bica e a conversar, normalmente na mesma mesa, junto a enorme espelho de parede. Creio que também algumas vezes o terei visto, ouvido não direi, ler textos que o seu interlocutor aprovava, com um discreto muito bem. Seriam versos?
Disse, numa entrevista ao jornal francês Liberation, na edição de 11 de Fevereiro de 1988, que quis sempre manter-me um homem independente. Sentimentalmente, sou socialista, mas, no fundo, permaneço um anarquista. Um rebelde.
Um diligente PIDE, em relatório de Julho de 1947, informou que Adolfo Correia Rocha, conhecido literariamente por Miguel Torga (a própria mulher também o tratava por Miguel… segundo se dizia em Coimbra), era anti-situacionista, de ideias avançadas, mas moralmente nada consta. Torga quis ser de todos, em vez de camarada de poucos, na sua poesia de resistente e cântico à liberdade.
A poesia foi e será sempre universal. Transversal atravessou de forma imparável todos os tempos e sociedades, as ideologias e as correntes de opinião, como se fosse a voz dos deuses. Ela foi o suporte dos grandes anseios e dúvidas da Humanidade. Nenhum Hino capaz de mobilizar as energias de um Povo, utilizou tão bem outra arma para o exaltar na sua alma colectiva. A poesia tem a vitalidade das situações eternas, acompanhou os homens nos momentos de desalento, na solidão das trincheiras, das grades de uma prisão, na subversão e claro… no amor.
Os estudiosos de Torga, destacam a sua faceta ibérica, que não põe em causa a sua Pátria Cívica viabilidade e independência. Segundo Manuel Alegre, Torga era culturalmente um iberista, mas politicamente um português. Cremos ser esta uma resposta crítica a Saramago, que defendeu que Portugal acabará por integrar-se em Espanha.
O regime nacionalista espanhol, considerou injurioso e obsceno na sua alegada propaganda anti-comunista, o livro de Torga que denunciava a tragédia da Guerra Civil, as atrocidades e, muito concretamente, o bombardeamento a Guernica. Salazar ordenou a prisão de Torga, que veio a ocorrer no seu consultório, ainda em Leiria. A detenção teve como fundamento uma acusação de comunismo que incluía a suspeita de ter recebido dinheiro de Moscovo para a compra de material cirúrgico para o consultório médico!!!
Se Guernica, de Picasso foi utilizado como elemento de propaganda dos republicanos contra os nacionalistas, a história seguinte, a não ter fundamento o que se admite, poderá funcionar como mera contra-resposta dos nacionalistas aos republicanos. A obra foi solenemente apresentada ao público, há cerca de 70 anos, com o nome Guernica, pelo próprio Picasso e por Max Aub, Sub-Comissário da Exposição, na inauguração do Pavilhão de Espanha, na Exposition Internationale des Arts et Techniques, em Paris, no dia 4 de Maio de 1937. Logo na inauguração, Max Aub enfatizou que muito se iria falar daquela pintura. As gravuras que testemunhavam a tragédia de Guernica, provocada pela aviação alemã, A Legião Condor, ao serviço dos franquistas, estavam a ser divulgadas pela imprensa internacional, que assim fornecia a única informação que não suscitava liminares reservas. Quanto ao demais, aquilo que as agências internacionais remetiam para as redacções dos jornais via nacionalistas, chegava e sobrava para deixar desconfiadas as pessoas. A máquina de propaganda dos nacionalistas nada deixava passar no território sobre o seu controlo, que escapasse à sua verdade. Assim, imagens terríveis dessa povoação basca, foram prontamente acompanhadas de comentários, desmentidos, do género Os aviadores bolchevistas continuam a sua táctica de bombardear as cidades abertas da retaguarda e tentaram mais uma vez bombardear Saragoça. Mas os aviões de caça nacionalistas levantaram voo e derrubaram um avião bolchevista. Logo a obra converteu-se num dos símbolos publicitários do Governo Republicano, até ao fim da Guerra Civil e mesmo no exílio. O quadro foi apresentado como uma resposta de Pablo Picasso ao brutal bombardeamento alemão. Porém, se se atentar nas datas do bombardeamento e da apresentação da obra, admite-se que pode não ser mesmo assim. Na verdade, o bombardeamento de Guernica ocorreu na tarde de 26 de Abril de 1937. Nos dias seguintes, o acontecimento começou a ser noticiado e amplamente comentado em Paris. Mas o quadro foi apresentado cerca de uma semana depois do acontecimento. Trata-se de uma obra de grande envergadura, com 3,5 metros de altura por 7,77 metros de largura. Picasso, chegou a declarar que tinha demorado 60 dias a executá-la. Pensar que o quadro foi iniciado e completado entre 27 de Abril e 3 de Maio de 1937, não explica a contradição com aquela informação. Uma conclusão pode-se eventual, mas não seguramente, extrair! O trabalho de Picasso não foi inspirado, nem representa o bombardeamento de Guernica, pelos alemães, aliados dos nacionalistas. A história do quadro Guernica terá começado em Janeiro de 1937, quando Max Aub encomendou a Pablo Picasso, por ordem do Governo Republicano, um mural para ser exposto no Pavilhão de Espanha, mediante o pagamento de 150.000 francos. Em vez de um mural, foi executado aquele painel, enorme, em óleo sobre tela. Se foi Picasso, Max Aub, ou outro qualquer, que anteviram o grande potencial da designação, e se lembraram de baptizar o quadro de Guernica, nos breves dias que antecederam a inauguração da exposição, é facto que dificilmente poderá ser esclarecido, a ser fundamentada esta tese. Desde então, Guernica tem sido objecto de estudo, crítica, opinião e inspiração um pouco por toda a parte. Representará mais uma impressiva visão sobre os horrores da guerra? Segundo alguns, a tensão expressa no quadro lembra Los Horrores de la Guerra, de Goya. A denominação da obra e a propaganda republicana desencadeada a partir daí, representou uma operação político-mediática em que participou Pablo Picasso, como eventualmente esta versão nacionalista. Alguns espanhóis, obviamente não afectos aos republicanos, mas não necessariamente comprometidos com os nacionalistas, adiantam que o quadro estava pronto antes, ou em adiantada execução quando ocorreu o bombardeamento de Guernica, e Picasso previa chamar-lhe Lamento en La Muerte del Torero Joselito, evocando a memória do toureiro Joselito, caído na arena de Talavera de la Reina, numa tarde de 16 de Maio de 1920. Não sabemos, e o facto em si não nos parece verdadeiramente relevante, mas é sabido que Picasso dedicou grande atenção aos temas taurinos, desde a juventude. Observando o quadro, podem distinguir-se touros e cavalos, num paroxismo de drama e morte. O que não se consegue descortinar são aviões, casas, guerra ou bombardeamentos. Mas quanto a isso lá saberá o pintor aquilo que quis representar!
.A imprensa de Alcobaça, no único semanário que se publicava, Ecos do Alcoa, por esta altura, Maio de 1937, detacava a grande ofensiva lançada pelas pseudo democracias europeias contra as forças de Franco que mercê, da sua indómita bravura, alcançaram retumbantes vitórias na região da Biscaia, ocupando alguns dos seus principais centros mineiros. O motivo aparente de tão injustificado clamor é a anunciada destruição da cidade de Guernica, pátria das liberdades…bascas, mas muito especialmente a de uma simbólica árvore, a cuja sombra se reuniam os legisladores do Euzkadi. Esse o motivo aparente que já não ilude ninguém, pois à nossa consciência repugna acreditar que os homens vocifrem imprecações contra a destruiçãio de uma árvore, por muito respeitável que ela seja e não tenham feito ouvir os seus mais clamorosos protestos perante o furor encandescido que revelaram os espantosos bombardeamentos do Alcazar de Toledo, sagrada relíquia que, além do seu alto valôr material, encerrava épocas inteiras da maravilhosa História de Espanha, do Convento de Guadalupe, da Catedral de Córdoba, de dezenas de monumentos de maravilha e, muito recentemente do Santuário de Santa Maria de La Cabeza onde se encontravam cêrca de 800 mulheres e crianças que a falsa caridade dos démo-bolchevistas internacionais deixou durante perto de dez infindáveis meses, à mercê das granadas e bombas de aviação que há mais de um mês, atingiam a espantosa cifra de três mil e quinhentas (…). Fora Tartufos…
A guerra civil, em Espanha, era acompanhada com atenção e preocupação em Alcobaça, onde havia apoiantes de um lado e do outro da barricada, que aproveitavam para fazer a apologia junto dos respectivos correligionários. Em Agosto de 1936, os Sindicatos Nacionais de Operários Portugueses, controlados pelo governo, realizaram em Lisboa um grande comício antibolchevista que foi difundido em directo pela E.N.. A Câmara Municipal de Alcobaça, por iniciativa do indefectível nacionalista Manuel da Silva Carolino, providenciou para que um altifalante fosse colocado numa janela do seu edifício, a fim de transmitir os discursos. O alegado objectivo deste comício e sua difusão, consistia em desmontar a informação canalizada pelos colossos da propaganda internacional que têm provocado uma justificada repulsa.
A 29 de Novembro seguinte, uma comissão composta pelo Presidente da Câmara, Manuel da Silva Carolino, Dr. Joaquim Nascimento e Sousa, Dr. José Nascimento e Sousa, Dr. Rodolfo Bacelar Begonha, Prof. Bernardo Correia de Almeida e Alberto dos Santos Carvalho, organizaram uma imponente manifestação anticomunista que, segundo o referido Ecos do Alcoal, juntou muita gente, num consolador repúdio pelas doutrinasmarxistas, apoio aos nacionalistas espanhóis, numa lição de civismo que a nossa terra deu a todo o País e dum modo especial a todas as terras do nosso lindo distrito.
Voltemos a Miguel Torga. Transportado para o Aljube, onde se acolhiam também presos políticos, foi interrogado, mas só foi libertado ao fim de cerca de três meses, aliás sem acusação nem julgamento, como era prática corrente. Aí escreveu o poema de resistência Ariane.(…) Ariane é um navio,//Tem mastros, velas e bandeiras à proa,//E chegou num dia branco, frio,//A este rio Tejo, de Lisboa.(…)
Miguel Torga, um dos mais representativos escritores contemporâneos portugueses, que em 2007 ano faria cem anos se fosse vivo, foi uma voz entre poucas de peso, que se ergueram em Portugal contra alguns episódios da Guerra Civil de Espanha, arrostando as consequências. Em 1975, pouco antes da morte de Francisco Franco, voltou a verberar o fuzilamento de dois espanhóis etarras, no que foi um dos últimos actos sanguinários do regime.
Para Renato Nunes, biógrafo e estudioso de Torga, o aspecto mais relevante da atenção que a PIDE lhe dedicou é o interesse quase obsessivo da PIDE pelos vários domínios da vida do escritor (…) as violências sistemáticas da correspondência, o registo das suas viagens, dos encontros com amigos, até os rendimentos da sua actividade como médico.
Torga, referiu-se à violência dessa devassa no seu Diário XII, de 1975, quando depois de 25 de Abril teve acesso ao dossier da PIDE/DGS, pois vista através daquele registo laborioso e tenaz de gusanos inexoráveis, a minha vida era a própria imagem da desolação.
Havia publicado em 1928 o seu primeiro livro de poesia, Ansiedade, ainda como Adolfo Rocha, mas que acabou proibido de ser vendido, mas apenas por exclusiva decisão do autor.
Em 1931, iniciou a sua contestação à Ditadura Militar e em breve, foi confrontado com a censura, que exigiu a identificação do director, editor e proprietário da Manifesto, revista que só durou cinco números.
Atravessou, a Espanha em guerra civil, dando conta das impressões que lhe causou o conflito em livros como A Exposição de Paris de 1937. Esta exposição teve uma boa presença portuguesa e no nosso pavilhão, houve festas de carácter popular como o S. João, a Festa do Vinho, a Festa do Mar e música e bailes.
Torga foi preso em Leiria, a 2 de Dezembro de 1939, e levado para o Aljube, na sequência da publicação de O Quarto Dia da Criação do Mundo, que foi apreendido. Tendo sido libertado a 2 de Fevereiro, descreveu a experiência da prisão em O Quinto Dia da Criação do Mundo, casou-se, civilmente, a 27 de Julho, com a belga e professora universitária Andrée Crabbé Rocha, expulsa da Universidade de Lisboa, fixando residência em Coimbra, onde abriu consultório médico no Largo da Portagem, ao qual ia todos os dias, paramentado de bata branca. No consultório existia uma grande tabuleta no sobrado, segundo o costume da terra e do tempo.
De todos os cilícios um apenas,
Me foi dado grato sofrer
Cinquenta anos de desassossego,
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego.
Pelos 16 volumes do Diário de Torga, que compreende o período que vai de 1932 a 1993, perpassam as várias fases da vida política, cultural e social do País, da Península Ibérica, bem como do resto do mundo.
Editou o Diário I, em 1941. Em 1942, escreveu no seu Diário II que que dizia-me hoje alguém: Homem se você pudesse ser na vida literária o que é na vida clínica, conciliante, passa-culpas, carregando o perdão, que maravilha! Na verdade esse alguém, estava muito longe de o poder compreender, isto é saber ler…
Após publicação, em 1942, de Os Contos da Montanha, os volumes foram apreendidos em Coimbra, o mesmo acontecendo ao poema dramático Sinfonia. Dada a sua origem rural, e conhecendo Portugal de uma ponta a outra, a sociedade e a sua estrutura fundiária, pôde escrever que a diferença que existe entre o Alentejo e o resto de Portugal é que aqui o homem é dono da terra e lá a terra é dona do homem. Por esta e por outros, persona non grata ao regime, veio a ser-lhe negado o passaporte para sair de Portugal. Ele que tanto apreciava sair, preso na sua terra.
Participou na campanha de Humberto Delgado, em 1958, não obstante ser avesso à militância política e não apreciar os políticos como tal, por nunca os considerar como figuras intocáveis, como por vezes se gostam de auto-rever. Talvez assim se compreenda esta sua passagem, do Diário VIII, estes trinta anos de poder pessoal acostumaram-nos de tal maneira à canga que só através de outro poder individual sonhamos, quando sonhamos, a libertação.Sempre se mostrou pronto para tomar posição contra medidas que privavam os portugueses de liberdades cívico-políticas, sendo que a liberdade é uma penosa conquista da solidão. Em Setembro de 1968, no seu Diário XI, escreveu que a rádio acaba de transmitir a notícia que Salazar em coma, foi exonerado e substituído na Presidência do Conselho. Na história do mundo nada aconteceu, mas na de Portugal acabou um reinado, uma época, trágica, como se há-de ver, uma maneira específica de governar, qualquer que seja a vontade do sucessor. E em Julho de 1970, no mesmo Diário, registou que morreu Salazar. Mas tarde demais para ele e para nós, os que o combatíamos. Conheceu e foi amigo de alguns políticos, embora não por força dessa circunstância. Escreveu no Diário IX com clareza que medicina, literatura e política, por ordem decrescente. A devoção, a obrigação e a maceração. O Presidente Ramalho Eanes foi mais que uma vez visitá-lo a S. Martinho de Anta, e quando Samora Machel se deslocou a Portugal, foi Torga o seu cicerone na visita ao Douro. O restaurante Pompeu dos Frangos, na Malaposta, foi local de muitos jantares, encontros (por exemplo com Jorge Amado) e tertúlias, com amigos. Já bastante doente, fora outra vez hospitalizado. Pode-se enganar a vida. A morte é que não (cfr. texto de Abril de 1992). A propósito do seu aniversário, reuniu entre outros Mário Soares, a quem deu a direita à mesa. Ouvimos contar em Coimbra que o bolo comemorativo desse aniversário, representava o seu livro Nihil Sibit, reproduzia alguns versos e o encontro foi emocionante, pois que Torga sabia que o seu fim estava próximo. Em Dezembro de 1993, escreveu REQUIEM POR MIM:
Aproxima-se o fim
E tenho pena deacabar assim
Em vez a natureza consumada
Ruína humana,
Inválido do corpo,
E tolhido da alma
Morto em todos os órgãos e sentidos (…).
Quando publicou o VIII Volume do Diário, mais uma vez veio a ser apreendido pela PIDE. O caso mobilizou acções de protesto e de solidariedade por parte de personalidades como Urbano Tavares Rodrigues, Jaime Cortesão, Artur Portela Filho, Vítor Direito e Raul Rego.
Foi proposto, em 1960 com Aquilino Ribeiro, como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, sendo a sua candidatura subscrita pelo professor francês da Universidade de Montpellier, Jean-Baptiste Aquarone. No ano seguinte, escreveu como amargura e descrença que qualquer dia o sarcasmo vem já formulado no Diário do Governo: licença à oposição eleitoral para mais uma confratrnização exaltada de impotência.
Recusou, em 1969, o Grande Prémio Nacional de Literatura, por ser atribuída pelo Regime e subscreveu o Manifesto dos Escritores ao País, pela restituição da liberdade, contra a máquina represssiva e as prisões políticas. Mas aceitou receber nesse ano o Prémio Literário Diário de Notícias, que lhe foi entregue pelo Director Augusto de Castro. Quando Caetano sucedeu a Salazar, escreveu no seu Diário XI: A rádio acaba de transmitir a notícia de que Salazar, em coma foi exonerado e substituído na Presidência do Conselho. Na história do Mundo nada aconteceu, mas na de Portugal acabou o reinado, uma época-trágica como se há-de ver- uma maneira específica de governar, qualquer que seja a vontade do sucessor. As circunstâncias, uma inteligência impassível, um certo sentimento de grandeza pessoal, o conhecimento satânico do preço dos homens, a obstinação, o oportunismo, a ousadia, a crueldade e o desprezo podem num dado momento fazer do mais apagado individuo um chefe providencial. Mas quando o ídolo ou o déspota, obrigado pela força ou pela erosão do tempo, é removido do pedestal, leva anos, às vezes séculos, a surgir outro.
Segundo se diz, Salazar com quem Torga nunca se terá encontrado pessoalmente, não se coibia de manifestar-lhe a sua admiração, chegando a declamar em privado estrofes da História Trágico-Marítima: Noite medonha, aquela!//O mar tanto engolia a caravela//como a exibia à tona, desmaiada!
A Revolução do 25 de Abril não lhe granjeou, à partida, grandes entusiasmos. Escreveu no Diário XII, Golpe militar: Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada. Sobre o processo de descolonização, pronunciou-se em Julho de 1974, no sentido que vamos finalmente dar independência aos povos colonizados. Uma independência que sem dúvida lhes irá custar caro, mas não há nenhuma que seja barata. Ainda sobre este tema, um dos pontos de divergência com o PS, escreveu que fomos descobrir o mundo em caravelas e regressamos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.
No Verão Quente (1975), publicou no jornal diário A Luta (pró PS), um poema que intitulou Lamento,ah, meu povo traído//Mansa colmeia//A quem ninguém colhe o mel (…) e num outro, Liberdade, Liberdade, que estais em mim//Santificado seja o vosso nome (…).
Nunca se inscreveu em nenhum partido, pois o meu partido é o mapa de Portugal.
Todavia, Torga assumindo um sentido de responsabilidade cívica, para que uma ditadura não desse lugar a outra ditadura, chegou a participar em comícios socialistas e presidiu em Coimbra ao primeiro celebrado por este partido, em 1 de Junho de 1974, graças ao empenho de Manuel Alegre. A propósito das eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, Torga escreveu no seu Diário XII, eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na Pátria, a maior consolação cívica que tive. Nesta campanha eleitoral, discursou num comício em Coimbra do PS.
Os responsáveis do Partido Socialista, manifestaram em geral grande apreço e respeito por Miguel Torga, que nunca nele se filiou sem nome possível numa ficha partidária, embora se identificasse com os seus grandes princípios programáticos. A sua concepção de socialismo radicava na sabedoria ancestral do comunitarismo agário e pastoril. Combeteu, pela a escrita e palavra, os que antepunham a construção do socialismo à edificação da democracia, pelo que em 6 de Março de 1975, note-se antes do golpe pró-comunista de 11 de Março, chefiado por Vasco Gonçalves, registou no jornal A Capital , que é necessário interromper, sem demora, esta corrida leviana que nos leva à perdição. Em Novembro de 1985, escreveu no seu Diário IV que, há uma coisa que nunca poderei perdoar aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumenhtos a minha esperança. A grande divergência de Torga com o PS terá estado relacionada com a adesão de Portugal à CEE pelo que, Soares chegou a deslocar-se a Coimbra para lhe refrear o euro-cepticismo. Inútil, já que Torga repudiou a militância europeia, como fizera com as outras, inclusivé a Socialista/PS.
No verão de 2007, foi descerrado um monumento ao escritor, no Largo da Portagem, Coimbra, frente ao antigo consultório, com a presença de Manuel Alegre, na qualidade de Vice-Presidente da A. R., integrado nas cerimónias do centenário do seu nascimento. Consistiu numa escultura em formato de um passadiço. Comemorou-se também o centenário do seu nascimento em S. Martinho de Anta, mas sem a presença de um representante do governo português. Cavaco Silva, que nem foi convidado para a cerimónia, enviou todavia uma mensagem de apreço, (…) Nesga de terra debruada de mar, assim qualificou Torga o nosso País. Não foi por acaso que utilizei esta expressão no discurso de tomada e posse como Presidente da República. Ela é a síntese perfeita do Portugal que somos. (…). Miguel Torga foi para muitas gerações a voz da insubmissão. (…) Hoje em que há liberdade para todas as vozes, ele é o orgulho de sermos portugueses de uma diferente e autêntica. (…).
Foi promovida uma candidatura ao Prémio Nobel da Literatura em 1978, recebendo o apoio do escritor premiado no ano anterior, o espanhol Vicente Aleixandre.
Em 1987, a propósito das comemorações oficiais do 10 de Junho em Macau, integrado numa embaixada cultural de Coimbra, que incluiu intelectuais, cientistas e políticos, bem como o Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra (de que fiz parte durante 10 anos, já pai de filhos e, advogado radicado em Alcobaça), Torga numa conferência manifestou preocupação pela perda das marcas da lusitanidade e referiu-o no seu Diário. Constituido por cerca de sessenta antigos estudantes da Universidade de Coimbra, o Coro dos Antigos Orfeonistas apresentou-se pela primeira vez em público em 1980, por ocasião das comemorações do centenário do Orfeon Académico de Coimbra de que adiante se voltará a falar. Na sua génese, esteve o propósito de num percurso aberto a desafios novos e estimulantes, no domínio da arte musical, como noutros, de inegável dimensão humanista, fazer reviver os ideais de Fraternidade, de Tolerância e de Solidariedade que, ao longo de gerações marcaram, de forma algo peculiar, a Academia de Coimbra. Este Coro, já realizou mais de sete centenas de concertos em Portugal e estrangeiro, Europa, Américas-Norte e Sul, África, Ásia, em organizações internacionais como o Parlamento Europeu, Tribunal das Comunidades, Comissão Europeia, UNESCO, ONU. Também já representou Portugal em vários eventos como o Dia de Portugal, na RSA, Macau e Regiões Autónomas.Tem quatro discos gravados, um deles com a Orquestra Filarmónica de Londres e um DVD, aquando da realização da ópera O Barbeiro de Sevilha, em colaboração com a Orquestra do Norte. Foi agraciado com o grau de Membro Honorário da Ordm de Mérito, Medalha de Mérito do Ministério da Cultura, Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra, Sócio Correspondente da Academia Pernambucana de Música/Recife, Amigo Honorário da Fundação Bissaya-Barreto. O Coro conquistou em 2006 a Medalha de Prata no XVI Festival Internacional de Coros de Praga, entre 66 agrupamentos, provenientes de vários continentes.
Foi ao que cremos a ida ao Oriente, uma das últimas saídas de Torga ao estrangeiro, ele que gostava muito de conhecer o mundo. Dessa vez percorreu os cenários que tinha antecipado para o herói do seu romance Senhor Ventura. Torga aproveitando essa deslocação também foi a Goa. No regresso, registou quea civilização (está) no seu apogeu. Quando se vem da Índia e se desembarca nesta terra é que se vê a que baixeza social o homem pode descer e a que alturas subir. Torga conhecia o nosso País, gabava-se de que ninguém o conhecia melhor que ele, pois percorreu Portugal de uma ponta a outra. Falando com ele, dava a ideia de ser pessoa socialmente difícil, pouco comunicativo, aparentemente impermeável à lisonja, quando agradecia (?) nem sorria, falando mais com convicção do que razão, muito cioso da sua imagem pública de aura granítica, detestando fotografias, entrevistas, dedicatórias ou autógrafos (v. não sabe o que me está a pedir!). Mesmo assim não evitou que, num caso ou noutro, a sua imagem de lobo solitário ficasse registada para contentamento de quem com ele aparecia. Segundo se diz, houve pessoas que para lhe caçarem um impossível autógrafo, fizeram-se passar por doentes e então obtiveram-no através da prescrição médica. Registou no Diário X, que nunca me havia sucedido, mas hoje aconteceu: oferecer um livro espontaneamente a uma pessoa desconhecida, feliz por o ter escrito. Recordo-me, todavia, de nos meus tempos de estudante da Faculdade de Direito, de Coimbra, cliente de um café da baixa, entretanto transformado num pronto-a-vestir, o encontrar a tomar a sua bica e a conversar, normalmente na mesma mesa, junto a enorme espelho de parede. Creio que também algumas vezes o terei visto, ouvido não direi, ler textos que o seu interlocutor aprovava, com um discreto muito bem. Seriam versos?
Disse, numa entrevista ao jornal francês Liberation, na edição de 11 de Fevereiro de 1988, que quis sempre manter-me um homem independente. Sentimentalmente, sou socialista, mas, no fundo, permaneço um anarquista. Um rebelde.
Um diligente PIDE, em relatório de Julho de 1947, informou que Adolfo Correia Rocha, conhecido literariamente por Miguel Torga (a própria mulher também o tratava por Miguel… segundo se dizia em Coimbra), era anti-situacionista, de ideias avançadas, mas moralmente nada consta. Torga quis ser de todos, em vez de camarada de poucos, na sua poesia de resistente e cântico à liberdade.
A poesia foi e será sempre universal. Transversal atravessou de forma imparável todos os tempos e sociedades, as ideologias e as correntes de opinião, como se fosse a voz dos deuses. Ela foi o suporte dos grandes anseios e dúvidas da Humanidade. Nenhum Hino capaz de mobilizar as energias de um Povo, utilizou tão bem outra arma para o exaltar na sua alma colectiva. A poesia tem a vitalidade das situações eternas, acompanhou os homens nos momentos de desalento, na solidão das trincheiras, das grades de uma prisão, na subversão e claro… no amor.
MARIA HELENA, A BRUXA DE PORTO DE MÓS, COM MESA DE PÉ DE GALO E RESULTADOS GARANTIDOS…
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
MARIA HELENA, A BRUXA DE PORTO DE MÓS, COM MESA DE PÉ DE GALO E RESULTADOS GARANTIDOS…
Com cerca de trinta anos e casada há mais de quatro, Maria Helena, empregada de balcão numa casa comercial em Alcobaça, ainda não tinha filhos, para seu grande desgosto e do marido.
O médico da Caixa disse-lhe que não encontrava nada que o impedisse. Mas Maria Helena andava desgostosíssima, com enorme receio de perder o marido, que adorava crianças, muito concretamente os dois pequenos sobrinhos, pelo se abriu com uma velha amiga, referindo o angustioso problema e que sentia uma força estranha, que se interpunha na sua vida, na sua felicidade e do marido.
-Menina Helena, sabe uma coisa …Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas eu tenho uma pessoa que trata dessas coisas…
-Que coisas, D. Rosa?
-Bem …Ela não é bem uma bruxa, mas é muito boa, já salvou muitos casamentos, menina Lena! Ela vai ver que, no seu caso, anda aí qualquer coisa estranha. Ela percebe dessas coisas, diz-lhe tudo e como resolver. Ela até já trabalhou com um médico.
-D. Rosa…
-E não é caro. Ela vive em Porto de Mós e leva 20$00 por sessão. A menina se quiser diga-me, que eu falo com ela e marco!
Assim, mesmo antes de nos ocuparmos da bruxa, podemos perguntar-nos como é que se chegava até ela.
E a resposta tradicional e vulgar é, de boca a orelha. Se o interessado nunca consultou um bruxo, há sempre um familiar, vizinho, amigo ou conhecido que consultou um ou que sabe da existência de um.
Por vezes, é mesmo este último que, estando a par do problema, anuncia ao potencial interessado que se trata de uma questão do seu foro.
Até que, um belo dia, a Maria Helena foi a Porto de Mós algo céptica, não obstante se reconhecer ser um pouco supersticiosa, confirmar os poderes de uma senhora, que não era bruxa, mas tinha em casa uma mesa pé-de-galo, que se movia, respondia a perguntas, sabia o passado e previa o futuro.
Na sua simplicidade, Maria Helena associava imprecisamente à ideia do bruxo uma personagem real e imaginária, desde que nele se descortinasse uma vaga associação à magia, a saberes curativos tradicionais ou, mesmo, ao charlatanismo psicológico.Uma personagem que usa nos seus rituais pós mágicos para encantamentos de amor, ritos para enriquecer com dinheiro fácil ou escravos de amuletos e talismãs, como era o caso da bruxa da Cumeira, com dons e poderes muito bons, mesmo especiais.
A bruxa de Porto de Mós, segundo relatavam os consulentes, trabalhava numa sala escura e pequena, onde perpassava um cheiro a incenso, rodeada de livros encadernados e de ar antigo, plantas exóticas e amuletos das mais variadas espécies. Usava uma túnica comprida e falava para os consulentes que se sentavam em frente e a ouviam com atenção, sobre infidelidades, doenças ou heranças. A bruxa abordava todos os assuntos. O consulente pagava 40$00, como primeiro passo para acabarem os problemas, mas os resultados ou demoravam por vezes aparecer ou nem apareciam mesmo pois as pessoas têm sempre muita pressa, há assuntos que não se resolvem de pé para a mão ou não seguem as prescrições que ela indicou. Seja como for, ninguém se queixava de burla, de extorsão, mesmo que depois ficasse com a sensação de isso ter acontecido.
Não espanta a vontade de conhecer o futuro ou a razão de certos acontecimentos, ainda que por intermédio de forças misteriosas ou como tais supostas, recorrendo ao serviço de quem usa eventualmente a charlatanice para explorar os ingénuos.
Como a maior parte das noivas do seu tempo, Maria Helena levou a sério a superstição de usar algo velho, algo novo, algo emprestado ou algo azul, bem como o não permitir ao noivo ver o vestido antes da cerimónia. Claro nem ela nem o noivo, quiseram arriscar a sorte, vendo-se na manhã do casamento.
O grupo não poderia ser grande, mas convinha que fossem sempre mais do que duas pessoas. Havia que respeitar a mesa, não dizer graçolas, nem rir, com ou sem nervoso. Uma vez com os dedos sobre o tampo de madeira, sem carregar, não se podia cruzar as pernas, pois estava a passar o fluido. Crucifixos e medalhinhas também era conveniente tirar, porque aquilo não era lá muito católico, como dizia bruxa.
Esta, como mais tarde Maria Helena soube, trabalhou em tempos num consultório médico de onde saiu, porque o médico e alguns doentes entenderam que ela tinha comportamentos estranhos, pouco condizentes em quem trabalhava num consultório desse tipo.
Não era preciso apagar luzes, nem acender velinhas. As sessões faziam-se porém com pouca luz, normalmente da parte da tarde. Era frequente estarem outras pessoas na sala de espera e a conversar, enquanto que, ao canto da sala, uma molhada de seis pessoas se curvava sobre a mesa, a fazer perguntas, na esperança de obter boas respostas.
A bruxa explicou que era necessário fazer-se uma invocação prévia, chamar por alguém que tivesse morrido, etc., para depois se passar à exploração das potencialidades da Mesa.
Todos se sentavam em volta da Mesa, acotovelando-se, e colocavam as pontas dos dedos das mãos, ou de uma só mão, levemente no tampo, mas sem carregar, tendo o cuidado de permitir que um dedo do próximo tocasse no seu, para não cortar o circuito.
Maria Helena, como os demais, tinha sido avisada pela bruxa de que, mal a Mesa se começasse a mover, não se poderia romper o contacto com o tampo, e devia-se acompanhar o movimento, pois se se largasse a Mesa, esta imobilizar-se-ia. E claro, não poderia haver gracinhas, nem risinhos nervosos, sob pena de a Mesa parar de trabalhar. Isso era mesmo fundamental. As atenções de Maria Helena, incidiam muto especialmente sobre os pés da Mesa, para ver se algum dos três se levantava do soalho.
A Mesa era tratada por ó mesa, diz-me lá isto, diz-me lá aquilo... e, por vezes, era interpelada com rudeza, outras era apaziguada com elogios, como era o caso de Maria Helena (por natureza e por via de dúvidas) do tipo ó mesa, tu que és tão esperta, diz-me lá isto, diz-me lá aquilo...
Havia, segundo a bruxa um código para as respostas, uma pancada dos pés da Mesa no chão significava sim, duas o não. Os números eram representados por pancadas, por exemplo, seis pancadas para o número seis, e, em caso de números grandes, a Mesa era ajudada com perguntas do tipo bate sim, se forem seiscentos, bate seis para seis mil, senão ficavam ali todo o dia e noite. As letras do alfabeto eram representadas por três pancadas para a terceira letra, C, seis para a sexta, F, etc.. e assim sucessivamente.
Isto às vezes obrigava a que a Maria Helena fizesse de secretário da Mesa (ela tinha experiência como balconista….), e anotasse as letras que ela ia indicando, até formar palavras coerentes. Por vezes, com alguma ansiedade, não se esperava que a palavra fosse completada e perguntava-se à Mesa se ela não quereria dizer isto ou aquilo, ao que ela poderia responder com simples sim ou não, encurtando os tempos de espera. Era conveniente ter a Mesa sobre um soalho sem tapete, explicou a bruxa, para que as pancadas dos pés se ouvissem bem, para que ela pudesse deslocar-se sem enrugar o tapete, coisa que a Mesa conseguia com relativa facilidade, bamboleando-se ora num pé, ora noutro.
Num caso, como noutro, era ao participante que cabia, em última instância, não a bruxa, reconhecer o espírito, e só ele é que o podia fazer, com segurança. Os motivos pelos quais o espírito entrava em contacto, podiam ser vários, como explicou a bruxa, na sua grande maioria do tipo seguinte:
O morto não cumpriu uma promessa religiosa. O morto experimenta dificuldades no outro mundo. O morto está com saudade dos seus e da vida na Terra. O morto tem um espírito mau, que vem molestar os vivos e que, por vezes, pretende levar alguém consigo.
Podiam surgir outros motivos, embora sejam raros. Foi contada a Maria Helena o caso de um pai defunto que voltou, por discordar da forma como as partilhas foram feitas entre os filhos-herdeiros e, isso, abriu-lhe os olhos.
Quando se trata de uma promessa religiosa não cumprida, o essencial do ritual consistia no cumprimento da promessa. Podia passar por se colocar um determinado número de velas a arder na capela de um santo, ou então um ex-voto em cera. Da promessa, também devia constar uma pequena esmola ao santo.
O morto que não encontra o repouso no Além, queixa-se das trevas e pede luz para poder ir para um sítio melhor. Pede que lhe ponham velas ou azeite a arder numa capela ou igreja, e que se rezem três missas em sua intenção. O espírito nostálgico, costuma ceder às razões do participante e aceita afastar-se depois. Por vezes, também se põem velas e se mandam rezar missas em sua intenção.
Quanto há um espírito mau, a bruxa pode ter de deslocar-se a casa da vítima, para poder encarná-lo. Ele vocifera, ameaça, não se deixa convencer e acaba por recusar-se a qualquer compromisso e mesmo a qualquer comunicação. A bruxa já conhecera alguns casos destes, que dizia serem muito trabalhosos e de resultados ingratos.
Em breve não obstante a simplicidade, e a sua não grande crendice, Maria Helena extraiu algumas conclusões pragmáticas, sobre o funcionamento da Mesa pé-de-galo, onde participava:
Não valia a pena perguntar coisas que nenhum dos presentes soubesse, pois, nesse caso, as respostas eram disparatadas ou erradas. Mas, desde o momento que algum dos presentes conhecesse a resposta, embora mais ninguém a soubesse, a Mesa respondia em geral correctamente. Ficou demonstrado que as previsões do futuro imediato raramente ou nunca eram correctas. Ninguém acertou na lotaria..
Quando se perguntava à Mesa se fulano(a) tinha um(a) amante, ou se o(a) namorado(a) de sicrano andava com outra(o), se a Mesa respondia que sim, a pancada era sonora.
Havia no grupo quem tivesse mais feeling para a Mesa do que Maria Helena, conseguindo respostas mais rápidas e correctas, depois de um curto período de aquecimento.A movimentação da Mesa, sempre com os dedos sobre o tampo, mas nunca com o polegar por debaixo do tampo para o levantar, como uma vez, alguém acusou a bruxa sem fundamento, arrancava exclamações de admiração. Passou-se até o caso de uma senhora do grupo, com sotaque francês, fruto de alguns anos como concierge em Paris, que veio uma noite a casa da bruxa para fazer, a sós, uma sessão na perspectiva de acelerar as respostas e acabou numa de pires, com chá e bolinhos secos.
Só ao fim da terceira sessão colectiva, a mesa não colaborava em sessões individuais, é que Maria Helena percebeu que o seu mal estar decorria de o espírito de seu falecido pai, pretender entrar em contacto com ela, para lhe dizer que devia fazer partilhas com o irmão, sob pena de enquanto o não fizesse, não conseguir engravidar. Para fazer o espírito ir-se embora, a bruxa recomendou a Maria Helena, que fosse refazer as partilhas com o irmão com estava um zangada e ambos fizessem as pazes. E só depois é que o espírito sossegou.
E querem saber o final?
A verdade é que Maria Helena, no ano seguinte, deu à luz um robusto menino, com quase três quilos, e que de vez em quando aparece no escritório do autor destas notas, para conversar e contar este acontecimento, que jura ser verdadeiro.
MARIA HELENA, A BRUXA DE PORTO DE MÓS, COM MESA DE PÉ DE GALO E RESULTADOS GARANTIDOS…
Com cerca de trinta anos e casada há mais de quatro, Maria Helena, empregada de balcão numa casa comercial em Alcobaça, ainda não tinha filhos, para seu grande desgosto e do marido.
O médico da Caixa disse-lhe que não encontrava nada que o impedisse. Mas Maria Helena andava desgostosíssima, com enorme receio de perder o marido, que adorava crianças, muito concretamente os dois pequenos sobrinhos, pelo se abriu com uma velha amiga, referindo o angustioso problema e que sentia uma força estranha, que se interpunha na sua vida, na sua felicidade e do marido.
-Menina Helena, sabe uma coisa …Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas eu tenho uma pessoa que trata dessas coisas…
-Que coisas, D. Rosa?
-Bem …Ela não é bem uma bruxa, mas é muito boa, já salvou muitos casamentos, menina Lena! Ela vai ver que, no seu caso, anda aí qualquer coisa estranha. Ela percebe dessas coisas, diz-lhe tudo e como resolver. Ela até já trabalhou com um médico.
-D. Rosa…
-E não é caro. Ela vive em Porto de Mós e leva 20$00 por sessão. A menina se quiser diga-me, que eu falo com ela e marco!
Assim, mesmo antes de nos ocuparmos da bruxa, podemos perguntar-nos como é que se chegava até ela.
E a resposta tradicional e vulgar é, de boca a orelha. Se o interessado nunca consultou um bruxo, há sempre um familiar, vizinho, amigo ou conhecido que consultou um ou que sabe da existência de um.
Por vezes, é mesmo este último que, estando a par do problema, anuncia ao potencial interessado que se trata de uma questão do seu foro.
Até que, um belo dia, a Maria Helena foi a Porto de Mós algo céptica, não obstante se reconhecer ser um pouco supersticiosa, confirmar os poderes de uma senhora, que não era bruxa, mas tinha em casa uma mesa pé-de-galo, que se movia, respondia a perguntas, sabia o passado e previa o futuro.
Na sua simplicidade, Maria Helena associava imprecisamente à ideia do bruxo uma personagem real e imaginária, desde que nele se descortinasse uma vaga associação à magia, a saberes curativos tradicionais ou, mesmo, ao charlatanismo psicológico.Uma personagem que usa nos seus rituais pós mágicos para encantamentos de amor, ritos para enriquecer com dinheiro fácil ou escravos de amuletos e talismãs, como era o caso da bruxa da Cumeira, com dons e poderes muito bons, mesmo especiais.
A bruxa de Porto de Mós, segundo relatavam os consulentes, trabalhava numa sala escura e pequena, onde perpassava um cheiro a incenso, rodeada de livros encadernados e de ar antigo, plantas exóticas e amuletos das mais variadas espécies. Usava uma túnica comprida e falava para os consulentes que se sentavam em frente e a ouviam com atenção, sobre infidelidades, doenças ou heranças. A bruxa abordava todos os assuntos. O consulente pagava 40$00, como primeiro passo para acabarem os problemas, mas os resultados ou demoravam por vezes aparecer ou nem apareciam mesmo pois as pessoas têm sempre muita pressa, há assuntos que não se resolvem de pé para a mão ou não seguem as prescrições que ela indicou. Seja como for, ninguém se queixava de burla, de extorsão, mesmo que depois ficasse com a sensação de isso ter acontecido.
Não espanta a vontade de conhecer o futuro ou a razão de certos acontecimentos, ainda que por intermédio de forças misteriosas ou como tais supostas, recorrendo ao serviço de quem usa eventualmente a charlatanice para explorar os ingénuos.
Como a maior parte das noivas do seu tempo, Maria Helena levou a sério a superstição de usar algo velho, algo novo, algo emprestado ou algo azul, bem como o não permitir ao noivo ver o vestido antes da cerimónia. Claro nem ela nem o noivo, quiseram arriscar a sorte, vendo-se na manhã do casamento.
O grupo não poderia ser grande, mas convinha que fossem sempre mais do que duas pessoas. Havia que respeitar a mesa, não dizer graçolas, nem rir, com ou sem nervoso. Uma vez com os dedos sobre o tampo de madeira, sem carregar, não se podia cruzar as pernas, pois estava a passar o fluido. Crucifixos e medalhinhas também era conveniente tirar, porque aquilo não era lá muito católico, como dizia bruxa.
Esta, como mais tarde Maria Helena soube, trabalhou em tempos num consultório médico de onde saiu, porque o médico e alguns doentes entenderam que ela tinha comportamentos estranhos, pouco condizentes em quem trabalhava num consultório desse tipo.
Não era preciso apagar luzes, nem acender velinhas. As sessões faziam-se porém com pouca luz, normalmente da parte da tarde. Era frequente estarem outras pessoas na sala de espera e a conversar, enquanto que, ao canto da sala, uma molhada de seis pessoas se curvava sobre a mesa, a fazer perguntas, na esperança de obter boas respostas.
A bruxa explicou que era necessário fazer-se uma invocação prévia, chamar por alguém que tivesse morrido, etc., para depois se passar à exploração das potencialidades da Mesa.
Todos se sentavam em volta da Mesa, acotovelando-se, e colocavam as pontas dos dedos das mãos, ou de uma só mão, levemente no tampo, mas sem carregar, tendo o cuidado de permitir que um dedo do próximo tocasse no seu, para não cortar o circuito.
Maria Helena, como os demais, tinha sido avisada pela bruxa de que, mal a Mesa se começasse a mover, não se poderia romper o contacto com o tampo, e devia-se acompanhar o movimento, pois se se largasse a Mesa, esta imobilizar-se-ia. E claro, não poderia haver gracinhas, nem risinhos nervosos, sob pena de a Mesa parar de trabalhar. Isso era mesmo fundamental. As atenções de Maria Helena, incidiam muto especialmente sobre os pés da Mesa, para ver se algum dos três se levantava do soalho.
A Mesa era tratada por ó mesa, diz-me lá isto, diz-me lá aquilo... e, por vezes, era interpelada com rudeza, outras era apaziguada com elogios, como era o caso de Maria Helena (por natureza e por via de dúvidas) do tipo ó mesa, tu que és tão esperta, diz-me lá isto, diz-me lá aquilo...
Havia, segundo a bruxa um código para as respostas, uma pancada dos pés da Mesa no chão significava sim, duas o não. Os números eram representados por pancadas, por exemplo, seis pancadas para o número seis, e, em caso de números grandes, a Mesa era ajudada com perguntas do tipo bate sim, se forem seiscentos, bate seis para seis mil, senão ficavam ali todo o dia e noite. As letras do alfabeto eram representadas por três pancadas para a terceira letra, C, seis para a sexta, F, etc.. e assim sucessivamente.
Isto às vezes obrigava a que a Maria Helena fizesse de secretário da Mesa (ela tinha experiência como balconista….), e anotasse as letras que ela ia indicando, até formar palavras coerentes. Por vezes, com alguma ansiedade, não se esperava que a palavra fosse completada e perguntava-se à Mesa se ela não quereria dizer isto ou aquilo, ao que ela poderia responder com simples sim ou não, encurtando os tempos de espera. Era conveniente ter a Mesa sobre um soalho sem tapete, explicou a bruxa, para que as pancadas dos pés se ouvissem bem, para que ela pudesse deslocar-se sem enrugar o tapete, coisa que a Mesa conseguia com relativa facilidade, bamboleando-se ora num pé, ora noutro.
Num caso, como noutro, era ao participante que cabia, em última instância, não a bruxa, reconhecer o espírito, e só ele é que o podia fazer, com segurança. Os motivos pelos quais o espírito entrava em contacto, podiam ser vários, como explicou a bruxa, na sua grande maioria do tipo seguinte:
O morto não cumpriu uma promessa religiosa. O morto experimenta dificuldades no outro mundo. O morto está com saudade dos seus e da vida na Terra. O morto tem um espírito mau, que vem molestar os vivos e que, por vezes, pretende levar alguém consigo.
Podiam surgir outros motivos, embora sejam raros. Foi contada a Maria Helena o caso de um pai defunto que voltou, por discordar da forma como as partilhas foram feitas entre os filhos-herdeiros e, isso, abriu-lhe os olhos.
Quando se trata de uma promessa religiosa não cumprida, o essencial do ritual consistia no cumprimento da promessa. Podia passar por se colocar um determinado número de velas a arder na capela de um santo, ou então um ex-voto em cera. Da promessa, também devia constar uma pequena esmola ao santo.
O morto que não encontra o repouso no Além, queixa-se das trevas e pede luz para poder ir para um sítio melhor. Pede que lhe ponham velas ou azeite a arder numa capela ou igreja, e que se rezem três missas em sua intenção. O espírito nostálgico, costuma ceder às razões do participante e aceita afastar-se depois. Por vezes, também se põem velas e se mandam rezar missas em sua intenção.
Quanto há um espírito mau, a bruxa pode ter de deslocar-se a casa da vítima, para poder encarná-lo. Ele vocifera, ameaça, não se deixa convencer e acaba por recusar-se a qualquer compromisso e mesmo a qualquer comunicação. A bruxa já conhecera alguns casos destes, que dizia serem muito trabalhosos e de resultados ingratos.
Em breve não obstante a simplicidade, e a sua não grande crendice, Maria Helena extraiu algumas conclusões pragmáticas, sobre o funcionamento da Mesa pé-de-galo, onde participava:
Não valia a pena perguntar coisas que nenhum dos presentes soubesse, pois, nesse caso, as respostas eram disparatadas ou erradas. Mas, desde o momento que algum dos presentes conhecesse a resposta, embora mais ninguém a soubesse, a Mesa respondia em geral correctamente. Ficou demonstrado que as previsões do futuro imediato raramente ou nunca eram correctas. Ninguém acertou na lotaria..
Quando se perguntava à Mesa se fulano(a) tinha um(a) amante, ou se o(a) namorado(a) de sicrano andava com outra(o), se a Mesa respondia que sim, a pancada era sonora.
Havia no grupo quem tivesse mais feeling para a Mesa do que Maria Helena, conseguindo respostas mais rápidas e correctas, depois de um curto período de aquecimento.A movimentação da Mesa, sempre com os dedos sobre o tampo, mas nunca com o polegar por debaixo do tampo para o levantar, como uma vez, alguém acusou a bruxa sem fundamento, arrancava exclamações de admiração. Passou-se até o caso de uma senhora do grupo, com sotaque francês, fruto de alguns anos como concierge em Paris, que veio uma noite a casa da bruxa para fazer, a sós, uma sessão na perspectiva de acelerar as respostas e acabou numa de pires, com chá e bolinhos secos.
Só ao fim da terceira sessão colectiva, a mesa não colaborava em sessões individuais, é que Maria Helena percebeu que o seu mal estar decorria de o espírito de seu falecido pai, pretender entrar em contacto com ela, para lhe dizer que devia fazer partilhas com o irmão, sob pena de enquanto o não fizesse, não conseguir engravidar. Para fazer o espírito ir-se embora, a bruxa recomendou a Maria Helena, que fosse refazer as partilhas com o irmão com estava um zangada e ambos fizessem as pazes. E só depois é que o espírito sossegou.
E querem saber o final?
A verdade é que Maria Helena, no ano seguinte, deu à luz um robusto menino, com quase três quilos, e que de vez em quando aparece no escritório do autor destas notas, para conversar e contar este acontecimento, que jura ser verdadeiro.
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JULGAMENTO DE SADDAM HUSSEIN, OS CRIMES DE GUERRA E CONTRA A HUMANIDADE (Nuremberga), VISTOS POR UM ADVOGADO DE ALCOBAÇA
Saddam Hussein, no dia 5 de Novembro de 2006, foi condenado à morte por enforcamento, pelo Alto Tribunal Penal que o julgou no Iraque, muito concretamente num processo em que se apreciou a morte de uns quantos xiitas do sul do Iraque. O encerramento deste caso, não retira Saddam Husseein do banco dos réus, pois tem outros processos pendentes em que é acusado de Crimes contra a Humanidade, como a limpeza étnica, pelos quais deverá responder, se entretanto esta sentença, da qual foi interposto recurso, não for cumprida. Fez-se justiça ao tentar punir, pela lei, o horror praticado no exercício do poder absoluto?
Saddam, que na prisão escreve poesia, estava condenado à partida, com ou sem manipulação de provas por parte dos vencedores, sedentos de justiça?
O julgamento de Saddam Hussein correu seus termos num Tribunal Penal Especial Iraquiano. Foi acusado de violação de direitos humanos durante o seu governo, em especial no desenvolvimento da uma tentativa de assassinato, em 1982. Hussein também pode vir a ser condenado por eventos que ocorreram no decurso da sanguinolenta Guerra Irão-Iraque e da Guerra do Golfo, onde se praticaram enormes atrocidades, Crimes de Guerra, Crimes contra a Humanidade e Genocídio. Aí pode também ser condenado à pena capital. Admito que, com o tipo de acusações deduzidas contra este criminoso, ex-aliado dos EUA, deveria ter sido ele encaminhado para um Tribunal Internacional de Justiça, não um tribunal local, onde a vingança e o ódio se entrelaçam indissoluvelmente com a verdade. Ou seja, um tribunal tão imparcial como eventualmente o de Haia, que se preparava para decidir da sorte de Milosevic, não fora este ter morrido antes de ser julgado. Tendo as Nações Unidas tribunais especializados para crimes desta natureza, semelhantes aos de Hitler e outros inimigos da Humanidade, parece pois que seria justificável julgar Saddam num tribunal independente, que não no Iraque.
Em 30 de Junho de 2004, Saddam foi capturado em Bagdad pelas forças dos EUA, juntamente com 11 oficiais e entregue ao governo interino do Iraque, a fim de aguardar julgamento, longe dos meios de comunicação social. Sempre afirmou, continuar a ser o Presidente do Iraque e, assim, exige a restituição dos seus direitos. No início do julgamento, o líder deposto, parecia confiante, provocador e em boa forma nos seus 68 anos e questionou a legitimidade do tribunal, que imputou ter sido instituído exclusivamente para o condenar. Também insultou o Juiz e mandou-o ir para o inferno, ao mesmo tempo que classificou o tribunal como peça de teatro armada por George W. Bush para ganhar as eleições de 2004. Rejeitou enfática, liminar e absolutamente as acusações, pois é tudo um teatro, o criminoso é Bush!!!. Quando o juiz, no início da sessão, lhe pediu que se identificasse, respondeu que você é iraquiano e sabe muito bem quem sou eu, ainda o Presidente da República e a ocupação americana não me pode tirar isso.
Em 5 de Novembro de 2006, um ano e 15 dias após o início do julgamento, Saddam Hussein foi condenado à forca por crimes cometidos durante o regime que comandou durante 24 anos. O ditador foi considerado responsável pelo massacre, em 1982, de 148 xiitas no sul do Iraque, onde sofrera uma suposta, mas nunca realmente comprovada, tentativa de assassinato. Antes da condenação à morte, Saddam havia declarado que a se-lo, preferiria o pelotão de fuzilamento para morrer como militar e não como um criminoso de direito comum, na forca. Para além deste processo, também será julgado, entre o mais, pelo massacre de milhares de curdos no fim dos anos 80, se entretanto não for enforcado.
A sentença, anunciada por um colectivo de 5 juízes, pôs termo a um julgamento marcado pelo assassinato de 3 advogados de defesa, a substituição do juiz presidente, bem como variados adiamentos e interrupções. Vida longa ao nosso povo! Vida longa à Nação Árabe! Morte aos nossos inimigos! Abaixo os espiões!, declarou Saddam que terminou com o dedo em riste proclamando que Deus é grande. Com Saddam foram também condenados à morte pelo mesmo tribunal, o seu meio-irmão e chefe da Polícia Secreta, um alto dignitário que dirigia o Tribunal Revolucionário Iraquiano, a quem competia apreciar e decidir pela execução as pretensas infracções ao regime. O Vice-Presidente de Saddam recebeu a prisão perpétua, três altos dirigentes do partido único, 15 anos de prisão, enquanto que, um outro foi absolvido.
Julgamentos de Criminosos de Guerra, de Crimes contra a Humanidade ou de Genocídio, não são de todo ainda vulgares e decorrem sempre rodeados de emoção e controvérsia. Até que ponto se pode esperar imparcialidade na justiça dos vencedores?
NUREMBERGA
O primeiro grande julgamento deste tipo de crimes ocorreu no Tribunal de Nuremberga, após a capitulação da Alemanha nazi. Na minha crónica do tempo que passa, referente ao ano de 2004 e na sequência da estadia de 15 dias na Alemanha, já abordei de alguma forma esta questão. Nunca tendo sido, fundamentalmente, um advogado penalista, a verdade é que estes assuntos me interessam, não tanto na sua componente de direito penal, mas na sua vertente histórica, cultural e até dramática.
Após a capitulação dos alemães, a 8 de Maio de 1945 e o conhecimento progressivo dos crimes cometidos, os Aliados decidiram concretizar um projecto que vinha amadurecendo, acordando em Agosto de 1945 julgar os principais responsáveis nazis. Assim, em 20 de Novembro de 1945, 24 réus apresentaram-se no Palácio de Justiça de Nuremberga dando início a uma série de julgamentos. O momento foi histórico pois, pela primeira vez, iriam ser julgados, como Criminosos de Guerra, altas individualidades de um país. Este tribunal, foi composto por juízes que representavam as quatro potências vitoriosas, a França, a Grã-Bretanha, os EUA e a URSS. A acusação tinha sido esquematizada durante a guerra, visando essencialmente cobrir os Crimes contra a Paz e Conspiração, muito num enfoque anglo-americano. Os Crimes de Guerra encontravam-se definidos por Leis Internacionais anteriores à Guerra, como a Convenção de Genebra, enquanto que, não existia tipificado em termos de direito internacional, o Crime contra a Humanidade. O Crime conta a Humanidade, preenche-se pela existência de um plano concebido e orientado com a finalidade de eliminar um grupo de indivíduos e concretiza-se pela deportação, execução maciça, raptos, desaparecimentos e tortura, contra uma população civil, por razões de ordem ideológica, racial ou política. O Crime contra a Humanidade só lentamente e a partir daí foi introduzido nas leis nacionais.
Os réus de Nuremberga eram simples executantes? Pelo menos, salvo a excepção de Albert Speer, o arquitecto do Reich e o Ministro da Indústria de Guerra, foi assim que se apresentaram, declarando-se não culpados. Para muitos juristas de nomeada, este foi um progresso do Direito Internacional. Para outros, ao invés, a negação de postulados elementares do direito penal tradicional, como o princípio da legalidade com o efeito retroactivo a um plano de julgamento para incriminação de factos pretéritos, não considerados crimes no momento da sua prática. Entre os réus presentes, destacavam-se o Marechal Hermann Göring, (o mais alto responsável nazi vivo, a segunda personalidade do regime que se encontrava ao corrente de todas as questões de ordem militar e políticas importantes, Reichmarschall, Comandante em Chefe da Luftwaffe, plenipotenciário para o Plano dos quatro anos, promotor dos planos de guerra, da política de agressão e de bombardeamentos aéreos arrasadores de cidades inteiras para tentar submeter os seus habitantes), Rudolf Hess (outrora braço direito de Hitler, que no início da guerra fez o voo solitário pretensamente de paz para a Grã Bretanha, aonde ficou imediatamente preso), Joachim von Ribbentrop (Ministro dos Estrangeiros), Gustav Krupp (industrial do aço), os generais Wilhelm Keitel e Alfred Jodl (da Wermacht), os Almirantes Karl Dönitz (sucessor de Hitler, por dias, até à capitulação) e Eric Raeder, Albert Speer e Fritz Sauckel que controlavam a indústria de guerra e armamento e foram os principais responsáveis pela deportação de trabalhadores e mão-de-obra escrava ao seu serviço. De Novembro de 1945 a Fevereiro de 1946, sucederem-se em Nuremberga as testemunhas de acusação e poucas as de defesa. A partir de Março, a defesa começou a apresentar, as suas testemunhas. Göring, o herdeiro de Hitler, aproveitou sempre a ocasião para glorificar o regime nazi, sendo o único réu a reconhecer as suas responsabilidades, mas a não renegar, nem condenar os crimes pois, o vencedor será sempre o juiz e o derrotado o acusado. Os demais réus negaram a sua responsabilidade directa, invocaram o dever de obediência ao Führer e, muito concretamente os militares, o de apenas executarem ordens, argumento repudiado pelo tribunal nas palavras do juiz Biddle, os indivíduos têm deveres internacionais a cumprir acima dos deveres nacionais que um Estado particular possa impor. A questão da responsabilidade penal foi colocada em termos novos e delicados, quando se tratou não de julgar pessoas, mas organizações como as SS, a Gestapo ou as Forças Armadas. Os quatro procuradores, representantes das potências aliadas, revelaram em breve divergências e algum mal estar recíproco na apreciação das situações. Enquanto os franceses e soviéticos insistem nos Crimes contra a Humanidade, por não esquecerem os vários anos de ocupação e atrocidades, os britânicos e americanos relevavam os Crimes contra a Paz, os Crimes de Guerra e a Guerra de Agressão. O tribunal tentou iludir ou ultrapassar problemas decorrentes da presença da URSS como parte acusadora e culpada de Crimes contra a Humanidade. A memória de bombardeamentos maciços de populações e instalações civis, por parte de aviões britânicos e americanos, foi evocada pela defesa para questionar a capacidade do tribunal para julgar os alemães por crimes que os acusadores também praticaram. Analisando a questão numa perspectiva puramente jurídica, tendo em conta a originalidade do processo, houve dificuldade em distinguir os Crimes de Guerra, dos Crimes contra a Humanidade, não obstante a projecção de filmes sobre os campos de concentração e de extermínio. Quando o julgamento terminou a 1 de Outubro de 1946, os réus foram processados por crimes cometidos após 1937, não se considerando, portanto, o período anterior às anexações e à Guerra de Agressão. Nesse dia, sem apelo nem agravo, foram condenados à morte 12 dos acusados, 3 a prisão perpétua, vários a penas que oscilaram entre 10 e 20 anos de prisão e até alguns absolvidos. Hermann Göring, o Tribunal Militar Interaliado, aqui reunido em Nuremberg, vos condena à pena de morte por enforcamento. A pena não chegou a ser executada, pois Göring suicidou-se na prisão com uma cápsula de cianeto de potássio na noite de 15 para 16 de Outubro de 1946. Von Ribbentrop foi o primeiro a subir os treze degraus do patíbulo e imediatamente antes do alçapão se abrir declarou que Deus salve a Alemanha. Faço votos para que o Leste e o Oeste se irmanem e que a paz possa reinar no mundo. Seguidamente todos os demais condenados foram enforcados. Mesmo morto algumas horas antes, o cadáver de Göring ainda chegou a ser colocado na forca, num assomo de justiça medieval... Os corpos dos condenados foram cremados nos fornos onde milhões de judeus pereceram e as cinzas lançadas ao rio Isar. O julgamento de Nuremberga, que apaixonou a opinião pública e constituiu um marco que ainda perdura (este ano a RTP 2 exibiu uma magnífica série), terminou deixando uma impressão algo amarga ou incómoda. O mundo esperava ver comparecer na barra impiedosos assassinos. Mas a decepção, especialmente em França e na URSS, foi proporcional à expectativa criada. No tribunal, apareceram políticos, quais funcionários zelosos e cobardes, que se refugiaram em geral atrás de noções primárias de obediência e dever, sem assumirem responsabilidades. Ainda hoje, tal como na altura, não é possível compreender as razões que levaram a certo tipo de comportamentos, com horrores nunca vistos, num país que se reclama de uma civilização requintada. O promotor americano, Robert Jackson, apontando para os acusados disse que é difícil imaginar nestes homens encarcerados, o poder que tiveram como chefes nazis, como o qual dominaram e aterrorizaram grande parte do mundo. São eles o símbolo de um nacionalismo e de militarismo ferozes, de intrigas e de guerra que levaram a confusão à Europa, geração após geração, esmagando s seus homens, destruindo os lares e empobrecendo as vidas. (…) Mesmo os povos mais belicosos souberam colocar, em nome da Humanidade, um limite à ferocidade da guerra. (…) Os acusados parecem admirados que exista uma coisa chamada Direito. Quando eram poderosos, não se baseavam em nenhum procedimento jurídico, o seu programa ignorava e desafiava as leis humanas. Direito internacional, direito natural, direito alemão, qualquer que fosse ele, era apenas um meio de propaganda sempre ignorado quando se opunha aos seus desígnios.
O julgamento de Nuremberga foi mesmo superado pelo de Tóquio, que se iniciou a 3 de Maio de 1946 e terminou a 12 de Novembro de 1948, onde dos 28 acusados japoneses, sete foram condenados à morte, e os restantes com excepção de dois, a prisão perpétua.
Ouço muitas vezes, alguns inocentes bem intencionados, perguntar como é possível um advogado honesto defender certos acusados de crimes horrendos. Seguramente nunca seriam capazes de compreender quanto foi dolorosa para os advogados alemães a defesa dos acusados perante o Tribunal de Nuremberga de gravísssimos e inauditos crimes de guerra e contra a humanidade. Advogar perante o tribunal dos vencedores ao lado dos vencidos, constituiu uma tarefa de gigantes, pois a Alemanha estava de joelhos face aos aliados, que instituíram o Tribunal de Nuremberga.
O promotor norte-americano Robert Jackson iniciou a acusação contra os réus, juntando uma avalancha de documentos altamente comprometedores e fazendo uma violenta denúncia da tirania nazi, proclamando que a civilização esperava que a acção dos juízes do Tribunal colocasse as forças do direito internacional, seus preceitos e, acima de tudo, as sanções ao lado da paz, para que homens e mulheres de boa vontade, em todos os países, pudessem ter protecção da lei. a liberdade de viver, sem depender da permissão de ninguém
Depois da entrega das acusações aos réus, a reacção de cada um foi diversa.
Göering como vimos declarou que o vencedor será sempre o juiz e o derrotado o acusado.
Para Streicher, o julgamento foi um triunfo do sionismo internacional.
Frick afirmou que toda a acusação se baseava na suposição de uma conspiração fictícia.
Albert Speer foi complacente com a acusação pois o julgamento é necessário. Há uma responsabilidade comum por crimes tão horríveis, mesmo num sistema autoritário.
Frank também declarou que considero o julgamento como um Tribunal determinado por Deus, destinado a examinar e a pôr fim à terrível era de sofrimento sob o domínio de Hitler.
Jodl lamentou a mistura de acusações justificadas com propaganda política.
Keitel disse que para um soldado, ordens são ordens, enquanto Funk que se sou considerado culpado por erro ou ignorância, então minha culpa é uma tragédia, não um crime.
Bradley Smith registou que nenhuma defesa seria capaz de anular o feito da acometida inicial do Promotor norte-americano, mas, nesse particular, a posição dos advogados alemães era ainda pior que qualquer outra, e tudo o que podiam fazer não passava de uma resistência simbólica.
As autoridades aliadas não haviam tentado encontrar advogados de talento excepcional para os réus, o que conseguiram foi tão só um grupo de advogados aprovados pelo Tribunal. Um réu podia escolher um entre esses advogados ou solicitar aprovação do Tribunal para um nome que ele próprio lembrasse.
Escolhidos, por terem sentimentos antinazis ou se haverem comportado se não com oposição pelo menos sem colaboração em relação ao regime, os advogados de defesa, dispunham de pouca autoridade e não tinham recursos para recolher provas num país em escombros. Também não lhes fora dado tempo razoável para preparar a defesa e, vez por outra, ficavam surpresos com as expeditas inovações processuais utilizadas pelo Tribunal. A defesa foi prejudicada pela prevalência da prova documental face à testemunhal, pois que as provas documentais carreadas pelos aliados eram muitas e importantes.
Logo no início do julgamento, os advogados de defesa aprovaram um declaração segundo a qual o Tribunal violava o antigo princípio de que não pode ser considerado crime, e por ele ninguém punido, a prática de qualquer acto que não tenha sido declarado criminoso por lei já existente aquando de sua realização, na linha da terminologia romana nullum crimen sine lege, nulla poena sine lege.
A defesa tentou ainda tirar partido de um outro princípio de um estado de direito, tu quoque (isto é, você é outro), considerando que, dentre os crimes denunciados, havia também alguns cometidos pelos aliados (especialmente pelos soviéticos).
Questão importante para os advogados, foi a defesa por parte dos acusados no cumprimento de ordens superiores, e assim, na maioria dos casos, estes poderiam escudar-se (e assim aconteceu) no argumento de que suas ordens obedeciam as directrizes de Hitler, senhor todo poderoso.
Iniciados os depoimentos orais, os advogados alemães sentiram grandes dificuldades no que referente à assimilação das técnicas do contraditório preconizadas pelo Tribunal.
Estavam acostumados a um sistema fundado em maior entendimento entre a defesa, a acusação pública e os juízes. Em Nuremberga, a defesa e os promotores eram inimigos mortais e os advogados alemães não logravam fugir à impressão de que os outros os tinham na conta de auxiliadores de bandidos. Alguns promotores encaravam com hostilidade não apenas os réus, mas os alemães em geral.
Aos advogados de defesa era recordado implicitamente pelo Tribunal que não eram cidadãos de primeira classe tal como os acusados. Esse sentimento, por outro lado, deve te-los encorajado a identificarem-se mais de perto com acusados.
Nos primeiros dias de funcionamento do Tribunal de Nuremberga, a atmosfera que se abateu sobre os advogados alemães era portanto muito hostil. A defesa iniciou os seus trabalhos, com a do processo contra Hermamm Göring, cujo advogado foi Otto Stahmer.
O clima de animosidade contra os advogados havia melhorado aos poucos pelo que passaram descrer menos do Tribunal, que nos primeiros meses, dera sinais de não ser minimamente imparcial.
Três dias antes de Stahmer tomar a palavra, o ânimo de todos os advogados de defesa fora revigorado, pois o Tribunal repreendera as autoridades de ocupação por permitirem ataques da imprensa aos advogados. Além disso, o Tribunal elogiara os serviços prestados pelos advogados em condições que os juízes entendiam ser extremamente difíceis e notificara, oficialmente, o Comando Militar Aliado na Alemanha de que os advogados de defesa se encontravam sob a protecção do Tribunal e que a Corte não toleraria quaisquer outros ataques públicos ou pela imprensa que lhes fossem dirigidos.
A estrutura da defesa dos advogados alemães consistiu ainda em adoptar uma posição que protegesse a honra do alemão comum e defendesse a reputação do país.
Frustados por não poderem basear-se em argumentos essencialmente jurídicos, em detrimento dos políticos, lutaram por expurgar a Alemanha da mácula da culpa colectiva, no que despenderam, com louvor e admiração pública, um enorme e meritório esforço.
Lorde Kilmuir escreveu nas suas memórias que dois dos advogados, o mais velho e o mais jovem, Dr. Roudolf Dix, que defendeu Schacht, e Dr. Otto Kranzbuhler, o almirante Dönitz, eram os melhores que se poderia encontrar em qualquer Tribunal de um país democrático, enquanto os demais estavam à altura da melhor tradição da profissão, em circunstâncias que devem ter sido extremamente penosas.
Pelos violentes ataques de que foram alvo, pela pressão que sofreram, pelas imprevistas práticas processuais impostas pelo Tribunal, pela discriminação decorrente da nacionalidade alemã e pela gravidade dos crimes imputados aos réus que defendiam, os advogados alemães no Tribunal de Nuremberga assumiram, com fidelidade, realismo, dignidade e destemor que se exige de um honrado advogado, mesmo assim a defesa de acusados pelos crimes mais abomináveis de que há registo.
A condenação de Saddam à morte na forca foi validada sem nada acrescentar ou retirar à de 5 de Novembro, por um Tribunal de Apelo Iraquiano, a qual deverá ser executada no prazo máximo de 30 dias, em dia e local desconhecidos, por razões de segurança. Com o Iraque mergulhado num cenário de violência semelhante a guerra civil, a execução de Saddam poderá acarretar consequências, de momento, impossíveis de prever, entre os que lhe são favoráveis (morte com morte se paga, como ditava a sua prática política) ou opositores (ele foi um herói ou nada justifica este tipo e pena). Saddam Hussein Al-Majid Al-Tikriti acabou por ser enforcado à pressa, na madrugada do último sábado do ano, no meio de indecoroso apupos de carrascos e convidados, numa prisão de Bagdad, onde ele próprio no tempo em que foi presidente (cerca de três décadas) fizera executar, humilhar ou torturar centenas de pessoas, que nem julgamento tiveram. A exibição de Saddam, com a corda no pescoço, que correu mundo via net, é o melhor retrato do Iraque de hoje que parece ser uma sociedade medieval. George W. Bush considerou-a um marco para a democracia no Iraque, a Ministra dos Estrangeiros britânica disse que embora o seu governo fosse contra a pena de morte, respeitava as leis dos outros países.
O Vaticano condenou a execução, sem rodeios, por razões de princípio, enquanto a Rússia discordou dela, por a achar politicamente inoportuna. A China manteve-se bastante discreta.
Muitos comentários foram desenvolvidos em Portugal sobre este assunto. A maior parte vieram de pessoas que se declaram contra a pena capital, mas que aduzem argumentos que pretendem justificar o enforcamento de Saddam, que ele era inevitável em função da gravidade dos crimes e do contexto em que o julgamento decorreu. Isto é, há pessoas que se declaram contra a pena de morte, mas que aceitam, compreendem que, no caso concreto, tenha sido aplicada.
Para mim, o acto além de injustificado, errado, é bárbaro. Diria o mesmo se se tratasse de Stalin, Fidel Castro, ou Pinochet, pois considero a pena de morte, a fronteira entre a civilização e a barbárie.
Saddam, que na prisão escreve poesia, estava condenado à partida, com ou sem manipulação de provas por parte dos vencedores, sedentos de justiça?
O julgamento de Saddam Hussein correu seus termos num Tribunal Penal Especial Iraquiano. Foi acusado de violação de direitos humanos durante o seu governo, em especial no desenvolvimento da uma tentativa de assassinato, em 1982. Hussein também pode vir a ser condenado por eventos que ocorreram no decurso da sanguinolenta Guerra Irão-Iraque e da Guerra do Golfo, onde se praticaram enormes atrocidades, Crimes de Guerra, Crimes contra a Humanidade e Genocídio. Aí pode também ser condenado à pena capital. Admito que, com o tipo de acusações deduzidas contra este criminoso, ex-aliado dos EUA, deveria ter sido ele encaminhado para um Tribunal Internacional de Justiça, não um tribunal local, onde a vingança e o ódio se entrelaçam indissoluvelmente com a verdade. Ou seja, um tribunal tão imparcial como eventualmente o de Haia, que se preparava para decidir da sorte de Milosevic, não fora este ter morrido antes de ser julgado. Tendo as Nações Unidas tribunais especializados para crimes desta natureza, semelhantes aos de Hitler e outros inimigos da Humanidade, parece pois que seria justificável julgar Saddam num tribunal independente, que não no Iraque.
Em 30 de Junho de 2004, Saddam foi capturado em Bagdad pelas forças dos EUA, juntamente com 11 oficiais e entregue ao governo interino do Iraque, a fim de aguardar julgamento, longe dos meios de comunicação social. Sempre afirmou, continuar a ser o Presidente do Iraque e, assim, exige a restituição dos seus direitos. No início do julgamento, o líder deposto, parecia confiante, provocador e em boa forma nos seus 68 anos e questionou a legitimidade do tribunal, que imputou ter sido instituído exclusivamente para o condenar. Também insultou o Juiz e mandou-o ir para o inferno, ao mesmo tempo que classificou o tribunal como peça de teatro armada por George W. Bush para ganhar as eleições de 2004. Rejeitou enfática, liminar e absolutamente as acusações, pois é tudo um teatro, o criminoso é Bush!!!. Quando o juiz, no início da sessão, lhe pediu que se identificasse, respondeu que você é iraquiano e sabe muito bem quem sou eu, ainda o Presidente da República e a ocupação americana não me pode tirar isso.
Em 5 de Novembro de 2006, um ano e 15 dias após o início do julgamento, Saddam Hussein foi condenado à forca por crimes cometidos durante o regime que comandou durante 24 anos. O ditador foi considerado responsável pelo massacre, em 1982, de 148 xiitas no sul do Iraque, onde sofrera uma suposta, mas nunca realmente comprovada, tentativa de assassinato. Antes da condenação à morte, Saddam havia declarado que a se-lo, preferiria o pelotão de fuzilamento para morrer como militar e não como um criminoso de direito comum, na forca. Para além deste processo, também será julgado, entre o mais, pelo massacre de milhares de curdos no fim dos anos 80, se entretanto não for enforcado.
A sentença, anunciada por um colectivo de 5 juízes, pôs termo a um julgamento marcado pelo assassinato de 3 advogados de defesa, a substituição do juiz presidente, bem como variados adiamentos e interrupções. Vida longa ao nosso povo! Vida longa à Nação Árabe! Morte aos nossos inimigos! Abaixo os espiões!, declarou Saddam que terminou com o dedo em riste proclamando que Deus é grande. Com Saddam foram também condenados à morte pelo mesmo tribunal, o seu meio-irmão e chefe da Polícia Secreta, um alto dignitário que dirigia o Tribunal Revolucionário Iraquiano, a quem competia apreciar e decidir pela execução as pretensas infracções ao regime. O Vice-Presidente de Saddam recebeu a prisão perpétua, três altos dirigentes do partido único, 15 anos de prisão, enquanto que, um outro foi absolvido.
Julgamentos de Criminosos de Guerra, de Crimes contra a Humanidade ou de Genocídio, não são de todo ainda vulgares e decorrem sempre rodeados de emoção e controvérsia. Até que ponto se pode esperar imparcialidade na justiça dos vencedores?
NUREMBERGA
O primeiro grande julgamento deste tipo de crimes ocorreu no Tribunal de Nuremberga, após a capitulação da Alemanha nazi. Na minha crónica do tempo que passa, referente ao ano de 2004 e na sequência da estadia de 15 dias na Alemanha, já abordei de alguma forma esta questão. Nunca tendo sido, fundamentalmente, um advogado penalista, a verdade é que estes assuntos me interessam, não tanto na sua componente de direito penal, mas na sua vertente histórica, cultural e até dramática.
Após a capitulação dos alemães, a 8 de Maio de 1945 e o conhecimento progressivo dos crimes cometidos, os Aliados decidiram concretizar um projecto que vinha amadurecendo, acordando em Agosto de 1945 julgar os principais responsáveis nazis. Assim, em 20 de Novembro de 1945, 24 réus apresentaram-se no Palácio de Justiça de Nuremberga dando início a uma série de julgamentos. O momento foi histórico pois, pela primeira vez, iriam ser julgados, como Criminosos de Guerra, altas individualidades de um país. Este tribunal, foi composto por juízes que representavam as quatro potências vitoriosas, a França, a Grã-Bretanha, os EUA e a URSS. A acusação tinha sido esquematizada durante a guerra, visando essencialmente cobrir os Crimes contra a Paz e Conspiração, muito num enfoque anglo-americano. Os Crimes de Guerra encontravam-se definidos por Leis Internacionais anteriores à Guerra, como a Convenção de Genebra, enquanto que, não existia tipificado em termos de direito internacional, o Crime contra a Humanidade. O Crime conta a Humanidade, preenche-se pela existência de um plano concebido e orientado com a finalidade de eliminar um grupo de indivíduos e concretiza-se pela deportação, execução maciça, raptos, desaparecimentos e tortura, contra uma população civil, por razões de ordem ideológica, racial ou política. O Crime contra a Humanidade só lentamente e a partir daí foi introduzido nas leis nacionais.
Os réus de Nuremberga eram simples executantes? Pelo menos, salvo a excepção de Albert Speer, o arquitecto do Reich e o Ministro da Indústria de Guerra, foi assim que se apresentaram, declarando-se não culpados. Para muitos juristas de nomeada, este foi um progresso do Direito Internacional. Para outros, ao invés, a negação de postulados elementares do direito penal tradicional, como o princípio da legalidade com o efeito retroactivo a um plano de julgamento para incriminação de factos pretéritos, não considerados crimes no momento da sua prática. Entre os réus presentes, destacavam-se o Marechal Hermann Göring, (o mais alto responsável nazi vivo, a segunda personalidade do regime que se encontrava ao corrente de todas as questões de ordem militar e políticas importantes, Reichmarschall, Comandante em Chefe da Luftwaffe, plenipotenciário para o Plano dos quatro anos, promotor dos planos de guerra, da política de agressão e de bombardeamentos aéreos arrasadores de cidades inteiras para tentar submeter os seus habitantes), Rudolf Hess (outrora braço direito de Hitler, que no início da guerra fez o voo solitário pretensamente de paz para a Grã Bretanha, aonde ficou imediatamente preso), Joachim von Ribbentrop (Ministro dos Estrangeiros), Gustav Krupp (industrial do aço), os generais Wilhelm Keitel e Alfred Jodl (da Wermacht), os Almirantes Karl Dönitz (sucessor de Hitler, por dias, até à capitulação) e Eric Raeder, Albert Speer e Fritz Sauckel que controlavam a indústria de guerra e armamento e foram os principais responsáveis pela deportação de trabalhadores e mão-de-obra escrava ao seu serviço. De Novembro de 1945 a Fevereiro de 1946, sucederem-se em Nuremberga as testemunhas de acusação e poucas as de defesa. A partir de Março, a defesa começou a apresentar, as suas testemunhas. Göring, o herdeiro de Hitler, aproveitou sempre a ocasião para glorificar o regime nazi, sendo o único réu a reconhecer as suas responsabilidades, mas a não renegar, nem condenar os crimes pois, o vencedor será sempre o juiz e o derrotado o acusado. Os demais réus negaram a sua responsabilidade directa, invocaram o dever de obediência ao Führer e, muito concretamente os militares, o de apenas executarem ordens, argumento repudiado pelo tribunal nas palavras do juiz Biddle, os indivíduos têm deveres internacionais a cumprir acima dos deveres nacionais que um Estado particular possa impor. A questão da responsabilidade penal foi colocada em termos novos e delicados, quando se tratou não de julgar pessoas, mas organizações como as SS, a Gestapo ou as Forças Armadas. Os quatro procuradores, representantes das potências aliadas, revelaram em breve divergências e algum mal estar recíproco na apreciação das situações. Enquanto os franceses e soviéticos insistem nos Crimes contra a Humanidade, por não esquecerem os vários anos de ocupação e atrocidades, os britânicos e americanos relevavam os Crimes contra a Paz, os Crimes de Guerra e a Guerra de Agressão. O tribunal tentou iludir ou ultrapassar problemas decorrentes da presença da URSS como parte acusadora e culpada de Crimes contra a Humanidade. A memória de bombardeamentos maciços de populações e instalações civis, por parte de aviões britânicos e americanos, foi evocada pela defesa para questionar a capacidade do tribunal para julgar os alemães por crimes que os acusadores também praticaram. Analisando a questão numa perspectiva puramente jurídica, tendo em conta a originalidade do processo, houve dificuldade em distinguir os Crimes de Guerra, dos Crimes contra a Humanidade, não obstante a projecção de filmes sobre os campos de concentração e de extermínio. Quando o julgamento terminou a 1 de Outubro de 1946, os réus foram processados por crimes cometidos após 1937, não se considerando, portanto, o período anterior às anexações e à Guerra de Agressão. Nesse dia, sem apelo nem agravo, foram condenados à morte 12 dos acusados, 3 a prisão perpétua, vários a penas que oscilaram entre 10 e 20 anos de prisão e até alguns absolvidos. Hermann Göring, o Tribunal Militar Interaliado, aqui reunido em Nuremberg, vos condena à pena de morte por enforcamento. A pena não chegou a ser executada, pois Göring suicidou-se na prisão com uma cápsula de cianeto de potássio na noite de 15 para 16 de Outubro de 1946. Von Ribbentrop foi o primeiro a subir os treze degraus do patíbulo e imediatamente antes do alçapão se abrir declarou que Deus salve a Alemanha. Faço votos para que o Leste e o Oeste se irmanem e que a paz possa reinar no mundo. Seguidamente todos os demais condenados foram enforcados. Mesmo morto algumas horas antes, o cadáver de Göring ainda chegou a ser colocado na forca, num assomo de justiça medieval... Os corpos dos condenados foram cremados nos fornos onde milhões de judeus pereceram e as cinzas lançadas ao rio Isar. O julgamento de Nuremberga, que apaixonou a opinião pública e constituiu um marco que ainda perdura (este ano a RTP 2 exibiu uma magnífica série), terminou deixando uma impressão algo amarga ou incómoda. O mundo esperava ver comparecer na barra impiedosos assassinos. Mas a decepção, especialmente em França e na URSS, foi proporcional à expectativa criada. No tribunal, apareceram políticos, quais funcionários zelosos e cobardes, que se refugiaram em geral atrás de noções primárias de obediência e dever, sem assumirem responsabilidades. Ainda hoje, tal como na altura, não é possível compreender as razões que levaram a certo tipo de comportamentos, com horrores nunca vistos, num país que se reclama de uma civilização requintada. O promotor americano, Robert Jackson, apontando para os acusados disse que é difícil imaginar nestes homens encarcerados, o poder que tiveram como chefes nazis, como o qual dominaram e aterrorizaram grande parte do mundo. São eles o símbolo de um nacionalismo e de militarismo ferozes, de intrigas e de guerra que levaram a confusão à Europa, geração após geração, esmagando s seus homens, destruindo os lares e empobrecendo as vidas. (…) Mesmo os povos mais belicosos souberam colocar, em nome da Humanidade, um limite à ferocidade da guerra. (…) Os acusados parecem admirados que exista uma coisa chamada Direito. Quando eram poderosos, não se baseavam em nenhum procedimento jurídico, o seu programa ignorava e desafiava as leis humanas. Direito internacional, direito natural, direito alemão, qualquer que fosse ele, era apenas um meio de propaganda sempre ignorado quando se opunha aos seus desígnios.
O julgamento de Nuremberga foi mesmo superado pelo de Tóquio, que se iniciou a 3 de Maio de 1946 e terminou a 12 de Novembro de 1948, onde dos 28 acusados japoneses, sete foram condenados à morte, e os restantes com excepção de dois, a prisão perpétua.
Ouço muitas vezes, alguns inocentes bem intencionados, perguntar como é possível um advogado honesto defender certos acusados de crimes horrendos. Seguramente nunca seriam capazes de compreender quanto foi dolorosa para os advogados alemães a defesa dos acusados perante o Tribunal de Nuremberga de gravísssimos e inauditos crimes de guerra e contra a humanidade. Advogar perante o tribunal dos vencedores ao lado dos vencidos, constituiu uma tarefa de gigantes, pois a Alemanha estava de joelhos face aos aliados, que instituíram o Tribunal de Nuremberga.
O promotor norte-americano Robert Jackson iniciou a acusação contra os réus, juntando uma avalancha de documentos altamente comprometedores e fazendo uma violenta denúncia da tirania nazi, proclamando que a civilização esperava que a acção dos juízes do Tribunal colocasse as forças do direito internacional, seus preceitos e, acima de tudo, as sanções ao lado da paz, para que homens e mulheres de boa vontade, em todos os países, pudessem ter protecção da lei. a liberdade de viver, sem depender da permissão de ninguém
Depois da entrega das acusações aos réus, a reacção de cada um foi diversa.
Göering como vimos declarou que o vencedor será sempre o juiz e o derrotado o acusado.
Para Streicher, o julgamento foi um triunfo do sionismo internacional.
Frick afirmou que toda a acusação se baseava na suposição de uma conspiração fictícia.
Albert Speer foi complacente com a acusação pois o julgamento é necessário. Há uma responsabilidade comum por crimes tão horríveis, mesmo num sistema autoritário.
Frank também declarou que considero o julgamento como um Tribunal determinado por Deus, destinado a examinar e a pôr fim à terrível era de sofrimento sob o domínio de Hitler.
Jodl lamentou a mistura de acusações justificadas com propaganda política.
Keitel disse que para um soldado, ordens são ordens, enquanto Funk que se sou considerado culpado por erro ou ignorância, então minha culpa é uma tragédia, não um crime.
Bradley Smith registou que nenhuma defesa seria capaz de anular o feito da acometida inicial do Promotor norte-americano, mas, nesse particular, a posição dos advogados alemães era ainda pior que qualquer outra, e tudo o que podiam fazer não passava de uma resistência simbólica.
As autoridades aliadas não haviam tentado encontrar advogados de talento excepcional para os réus, o que conseguiram foi tão só um grupo de advogados aprovados pelo Tribunal. Um réu podia escolher um entre esses advogados ou solicitar aprovação do Tribunal para um nome que ele próprio lembrasse.
Escolhidos, por terem sentimentos antinazis ou se haverem comportado se não com oposição pelo menos sem colaboração em relação ao regime, os advogados de defesa, dispunham de pouca autoridade e não tinham recursos para recolher provas num país em escombros. Também não lhes fora dado tempo razoável para preparar a defesa e, vez por outra, ficavam surpresos com as expeditas inovações processuais utilizadas pelo Tribunal. A defesa foi prejudicada pela prevalência da prova documental face à testemunhal, pois que as provas documentais carreadas pelos aliados eram muitas e importantes.
Logo no início do julgamento, os advogados de defesa aprovaram um declaração segundo a qual o Tribunal violava o antigo princípio de que não pode ser considerado crime, e por ele ninguém punido, a prática de qualquer acto que não tenha sido declarado criminoso por lei já existente aquando de sua realização, na linha da terminologia romana nullum crimen sine lege, nulla poena sine lege.
A defesa tentou ainda tirar partido de um outro princípio de um estado de direito, tu quoque (isto é, você é outro), considerando que, dentre os crimes denunciados, havia também alguns cometidos pelos aliados (especialmente pelos soviéticos).
Questão importante para os advogados, foi a defesa por parte dos acusados no cumprimento de ordens superiores, e assim, na maioria dos casos, estes poderiam escudar-se (e assim aconteceu) no argumento de que suas ordens obedeciam as directrizes de Hitler, senhor todo poderoso.
Iniciados os depoimentos orais, os advogados alemães sentiram grandes dificuldades no que referente à assimilação das técnicas do contraditório preconizadas pelo Tribunal.
Estavam acostumados a um sistema fundado em maior entendimento entre a defesa, a acusação pública e os juízes. Em Nuremberga, a defesa e os promotores eram inimigos mortais e os advogados alemães não logravam fugir à impressão de que os outros os tinham na conta de auxiliadores de bandidos. Alguns promotores encaravam com hostilidade não apenas os réus, mas os alemães em geral.
Aos advogados de defesa era recordado implicitamente pelo Tribunal que não eram cidadãos de primeira classe tal como os acusados. Esse sentimento, por outro lado, deve te-los encorajado a identificarem-se mais de perto com acusados.
Nos primeiros dias de funcionamento do Tribunal de Nuremberga, a atmosfera que se abateu sobre os advogados alemães era portanto muito hostil. A defesa iniciou os seus trabalhos, com a do processo contra Hermamm Göring, cujo advogado foi Otto Stahmer.
O clima de animosidade contra os advogados havia melhorado aos poucos pelo que passaram descrer menos do Tribunal, que nos primeiros meses, dera sinais de não ser minimamente imparcial.
Três dias antes de Stahmer tomar a palavra, o ânimo de todos os advogados de defesa fora revigorado, pois o Tribunal repreendera as autoridades de ocupação por permitirem ataques da imprensa aos advogados. Além disso, o Tribunal elogiara os serviços prestados pelos advogados em condições que os juízes entendiam ser extremamente difíceis e notificara, oficialmente, o Comando Militar Aliado na Alemanha de que os advogados de defesa se encontravam sob a protecção do Tribunal e que a Corte não toleraria quaisquer outros ataques públicos ou pela imprensa que lhes fossem dirigidos.
A estrutura da defesa dos advogados alemães consistiu ainda em adoptar uma posição que protegesse a honra do alemão comum e defendesse a reputação do país.
Frustados por não poderem basear-se em argumentos essencialmente jurídicos, em detrimento dos políticos, lutaram por expurgar a Alemanha da mácula da culpa colectiva, no que despenderam, com louvor e admiração pública, um enorme e meritório esforço.
Lorde Kilmuir escreveu nas suas memórias que dois dos advogados, o mais velho e o mais jovem, Dr. Roudolf Dix, que defendeu Schacht, e Dr. Otto Kranzbuhler, o almirante Dönitz, eram os melhores que se poderia encontrar em qualquer Tribunal de um país democrático, enquanto os demais estavam à altura da melhor tradição da profissão, em circunstâncias que devem ter sido extremamente penosas.
Pelos violentes ataques de que foram alvo, pela pressão que sofreram, pelas imprevistas práticas processuais impostas pelo Tribunal, pela discriminação decorrente da nacionalidade alemã e pela gravidade dos crimes imputados aos réus que defendiam, os advogados alemães no Tribunal de Nuremberga assumiram, com fidelidade, realismo, dignidade e destemor que se exige de um honrado advogado, mesmo assim a defesa de acusados pelos crimes mais abomináveis de que há registo.
A condenação de Saddam à morte na forca foi validada sem nada acrescentar ou retirar à de 5 de Novembro, por um Tribunal de Apelo Iraquiano, a qual deverá ser executada no prazo máximo de 30 dias, em dia e local desconhecidos, por razões de segurança. Com o Iraque mergulhado num cenário de violência semelhante a guerra civil, a execução de Saddam poderá acarretar consequências, de momento, impossíveis de prever, entre os que lhe são favoráveis (morte com morte se paga, como ditava a sua prática política) ou opositores (ele foi um herói ou nada justifica este tipo e pena). Saddam Hussein Al-Majid Al-Tikriti acabou por ser enforcado à pressa, na madrugada do último sábado do ano, no meio de indecoroso apupos de carrascos e convidados, numa prisão de Bagdad, onde ele próprio no tempo em que foi presidente (cerca de três décadas) fizera executar, humilhar ou torturar centenas de pessoas, que nem julgamento tiveram. A exibição de Saddam, com a corda no pescoço, que correu mundo via net, é o melhor retrato do Iraque de hoje que parece ser uma sociedade medieval. George W. Bush considerou-a um marco para a democracia no Iraque, a Ministra dos Estrangeiros britânica disse que embora o seu governo fosse contra a pena de morte, respeitava as leis dos outros países.
O Vaticano condenou a execução, sem rodeios, por razões de princípio, enquanto a Rússia discordou dela, por a achar politicamente inoportuna. A China manteve-se bastante discreta.
Muitos comentários foram desenvolvidos em Portugal sobre este assunto. A maior parte vieram de pessoas que se declaram contra a pena capital, mas que aduzem argumentos que pretendem justificar o enforcamento de Saddam, que ele era inevitável em função da gravidade dos crimes e do contexto em que o julgamento decorreu. Isto é, há pessoas que se declaram contra a pena de morte, mas que aceitam, compreendem que, no caso concreto, tenha sido aplicada.
Para mim, o acto além de injustificado, errado, é bárbaro. Diria o mesmo se se tratasse de Stalin, Fidel Castro, ou Pinochet, pois considero a pena de morte, a fronteira entre a civilização e a barbárie.
José do Telhado, a Revolta dos Marechais, combate de chão da feira de Alcobaça
A história do combate de Chão de Feira, perto da Ermida de S. Jorge, não muito longe de Alcobaça, no dia 28 de Agosto de 1837, tem sido descrita de várias maneiras, nem sempre muito coincidentes. É um episódio, entre outros, da chamada Revolta dos Marechais, que teve origem remota na instauração em Portugal do regime liberal, a revolução de 1820, a Constituição de 1822, a Carta Constitucional de 1826, a própria legislação de Mousinho da Silveira, enfim o processo de transformação liberal à semelhança do que ia acontecendo pela Europa fora.
As forças dominantes em Portugal, reinava D. Maria, acolheram com apatia e desinteresse a revolução democrática de Setembro de 1836, o setembrismo, de filiação alegadamente popular e pequeno-burguesa. Em breve, porém, criou-se um certo consenso com vista a derrubar a situação estabelecida, que aproveitava apenas, segundo se dizia, a um pequeno grupo de privilegiados, ao mesmo tempo que se receava que, com o regresso da Constituição de 1822, o poder político do País fosse levado a assumir posições radicais desfavoráveis às classes médias e altas. A situação era altamente complexa e como hoje é usual dizer nestes casos, muito fulanizada.
Os setembristas eram comandados no terreno pelo General do Bomfim, apoiados pelo Visconde de Sá da Bandeira, enquanto que os cartistas, tinham à sua frente os não menos prestigiados Marechais Saldanha e Duque da Terceira. Sinteticamemte, embora isso sugira ser demasiado redutor, os setembristas combatiam pela Constituição de 1822, proveniente da revolução liberal de 1820, enquanto os cartistas, daí o seu nome, pela Carta Constitucional de 1826, outorgada por D. Pedro IV. Isto pode parecer, mais de um século depois, algo incompreensível, pois a oposição aos actos políticos de D. Pedro IV e à Carta Constitucional, filiava-se na tradição vintista ou dito doutro modo, na idealização dessa matriz do liberalismo português, que pouco tinha a haver com o afrancesamento das liberdades inglesas.
Finda a fase mais aguda da guerra civil que assolou o País, nem por isso veio finalmente a paz para a sociedade portuguesa, apesar da população rural observar estas ou outras movimentações com alguma indiferença. Pretendendo dar ao movimento que queriam desencadear uma expressão mais ampla, Saldanha e Terceira em 20 de Agosto de1837 chamaram a si Luís Mousinho de Albuquerque e o primeiro manifesto que elaboraram, no âmbito de uma espécie de triunvirato, saldou-se no reconhecer a Carta Constitucional como única lei fundamental da monarquia portuguesa e por conseguinte anular todos os actos políticos dos governos posteriores a 9 de Setembro de 1836. Quando os Marechais Saldanha e Duque da Terceira pretenderam avançar sobre Lisboa, encontraram forte resistência por parte da população da capital, decidida a defender a revolução setembrista, socorrendo-se de fortes argumentos do tipo que invocou contra os franceses, por altura das invasões. Perante esta oposição, que não previam, os Marechais Saldanha e Terceira, decidiram recuar com destino ao norte do País, encontrando-se com os setembristas no lugar de Chão da Feira, perto de Alcobaça.
Bernardo Vila-Nova, no seu interessante trabalho Combates Históricos (Alcobaça, 1957) para onde remetemos os leitores, descreve este combate como tendo sido muito renhido, com numerosos feridos e alguns mortos, destacando pelo lado dos cartistas a do Barão de S. Cosme e a do Conde da Redinha. Consultando Pinheiro Chagas, em História de Portugal, de que Vila-Nova se socorre, mas não cita no seu referido escrito, o Marechal Saldanha, quando se preparava para atacar ou defender-se dos setembristas, antes de abrir fogo, resolveu tentar ainda uma entrevista conciliadora com o Barão do Bomfim, que todavia a repudiou liminarmente, rompendo fogo. Não vamos descrever o combate que terá sido mesmo violento, segundo a opinião de contemporâneos fidedignos. A distância entre os adversários, afinal só portugueses, estava a encurtar-se rapidamente, chegando-se quase ao corpo-a-corpo. Os setembristas, segundo Pinheiro Chagas, não se mexeram, de repente romperam aos gritos Viva a Carta, Viva a Rainha!. A surpresa foi grande e geral. O Marechal Saldanha, num gesto de grande cavalheirismo e generosidade, apesar da força das armas parecer inclinar-se para o seu lado, gritou para o General Bomfim, comandante dos setembristas: Barão do Bomfim! Suspendamos a efusão de sangue. Façamos um acordo sobre a questão constitucional do país!...
A trégua foi aceite. As forças em confronto separaram-se. Os setembristas foram acantonar-se para Aljubarrota, enquanto os cartistas para Alcobaça. O acordo que ficou na história como o Acordo de Alcobaça, porém jamais se concretizou, restando em aberto a questão constitucional. Assim estavam as partes libertas para proceder de novo como entendessem, ou seja, voltar a guerrear entre si, como aconteceu depois no norte do País.
No Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, a versão apresentada é algo diversa, senão caricata, pois travou-se combate no lugar de Chão da Feira em 28, simulacro de luta por, de parte a parte, as duas facções se limitarem aos movimentos militares sem dispararem um tiro. Ao fim de duas horas desta espécie de bafúrdio, estabeleceu-se um armistício (...) com a condição de se celebrar um acordo.
José do Telhado, homem de vida honrada antes da penosa passagem para salteador de fama, foi imortalizado pela pena de Camilo Castelo Branco em Memórias do Cárcere. Camilo esteve preso na Cadeia da Relação do Porto ao mesmo tempo que José do Telhado aguardava a ida para África, no cumprimento da pena de degredo perpétuo com trabalhos públicos. Falaram bastante e a áurea de romantismo que ficou para a história da figura de José do Telhado, deve-se sem dúvida a Camilo Castelo Branco.
A que propósito vem, porém, José do Telhado a estas notas?
Segundo Camilo, José do Telhado, foi moço para Lisboa e jurou bandeira no segundo regimento de lanceiros, denominado o da Rainha. A esbelta figura de José Teixeira (do Telhado) era o encanto dos oficiais.(...).Na conhecida revolta dos marechais, em 1837, saiu José Teixeira na comitiva do duque de Saldanha e mostrou quem era nos combates do Chão da Feira e Ruivães. Lá ouvi -me dizia ele – as cantigas das primeiras balas e algumas me queimaram o cabelo e vinham dizer-me ao ouvido que estivesse sossegado. O Barão de Setúbal disse-me uma vez que choviam balas, eu mostrei-lhe a lança e disse: cá está o guarda-chuva, meu general, deixe chover.
José do Telhado foi dado como ordenança do próprio Visconde de Sá da Bandeira que pessoalmente o chegou a condecorar com a Torre e Espada que lhe apresilhou na farda. Os crimes que José do Telhado cometeu mais tarde e porque veio a responder, não fazem parte desta nossa história.
As forças dominantes em Portugal, reinava D. Maria, acolheram com apatia e desinteresse a revolução democrática de Setembro de 1836, o setembrismo, de filiação alegadamente popular e pequeno-burguesa. Em breve, porém, criou-se um certo consenso com vista a derrubar a situação estabelecida, que aproveitava apenas, segundo se dizia, a um pequeno grupo de privilegiados, ao mesmo tempo que se receava que, com o regresso da Constituição de 1822, o poder político do País fosse levado a assumir posições radicais desfavoráveis às classes médias e altas. A situação era altamente complexa e como hoje é usual dizer nestes casos, muito fulanizada.
Os setembristas eram comandados no terreno pelo General do Bomfim, apoiados pelo Visconde de Sá da Bandeira, enquanto que os cartistas, tinham à sua frente os não menos prestigiados Marechais Saldanha e Duque da Terceira. Sinteticamemte, embora isso sugira ser demasiado redutor, os setembristas combatiam pela Constituição de 1822, proveniente da revolução liberal de 1820, enquanto os cartistas, daí o seu nome, pela Carta Constitucional de 1826, outorgada por D. Pedro IV. Isto pode parecer, mais de um século depois, algo incompreensível, pois a oposição aos actos políticos de D. Pedro IV e à Carta Constitucional, filiava-se na tradição vintista ou dito doutro modo, na idealização dessa matriz do liberalismo português, que pouco tinha a haver com o afrancesamento das liberdades inglesas.
Finda a fase mais aguda da guerra civil que assolou o País, nem por isso veio finalmente a paz para a sociedade portuguesa, apesar da população rural observar estas ou outras movimentações com alguma indiferença. Pretendendo dar ao movimento que queriam desencadear uma expressão mais ampla, Saldanha e Terceira em 20 de Agosto de1837 chamaram a si Luís Mousinho de Albuquerque e o primeiro manifesto que elaboraram, no âmbito de uma espécie de triunvirato, saldou-se no reconhecer a Carta Constitucional como única lei fundamental da monarquia portuguesa e por conseguinte anular todos os actos políticos dos governos posteriores a 9 de Setembro de 1836. Quando os Marechais Saldanha e Duque da Terceira pretenderam avançar sobre Lisboa, encontraram forte resistência por parte da população da capital, decidida a defender a revolução setembrista, socorrendo-se de fortes argumentos do tipo que invocou contra os franceses, por altura das invasões. Perante esta oposição, que não previam, os Marechais Saldanha e Terceira, decidiram recuar com destino ao norte do País, encontrando-se com os setembristas no lugar de Chão da Feira, perto de Alcobaça.
Bernardo Vila-Nova, no seu interessante trabalho Combates Históricos (Alcobaça, 1957) para onde remetemos os leitores, descreve este combate como tendo sido muito renhido, com numerosos feridos e alguns mortos, destacando pelo lado dos cartistas a do Barão de S. Cosme e a do Conde da Redinha. Consultando Pinheiro Chagas, em História de Portugal, de que Vila-Nova se socorre, mas não cita no seu referido escrito, o Marechal Saldanha, quando se preparava para atacar ou defender-se dos setembristas, antes de abrir fogo, resolveu tentar ainda uma entrevista conciliadora com o Barão do Bomfim, que todavia a repudiou liminarmente, rompendo fogo. Não vamos descrever o combate que terá sido mesmo violento, segundo a opinião de contemporâneos fidedignos. A distância entre os adversários, afinal só portugueses, estava a encurtar-se rapidamente, chegando-se quase ao corpo-a-corpo. Os setembristas, segundo Pinheiro Chagas, não se mexeram, de repente romperam aos gritos Viva a Carta, Viva a Rainha!. A surpresa foi grande e geral. O Marechal Saldanha, num gesto de grande cavalheirismo e generosidade, apesar da força das armas parecer inclinar-se para o seu lado, gritou para o General Bomfim, comandante dos setembristas: Barão do Bomfim! Suspendamos a efusão de sangue. Façamos um acordo sobre a questão constitucional do país!...
A trégua foi aceite. As forças em confronto separaram-se. Os setembristas foram acantonar-se para Aljubarrota, enquanto os cartistas para Alcobaça. O acordo que ficou na história como o Acordo de Alcobaça, porém jamais se concretizou, restando em aberto a questão constitucional. Assim estavam as partes libertas para proceder de novo como entendessem, ou seja, voltar a guerrear entre si, como aconteceu depois no norte do País.
No Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, a versão apresentada é algo diversa, senão caricata, pois travou-se combate no lugar de Chão da Feira em 28, simulacro de luta por, de parte a parte, as duas facções se limitarem aos movimentos militares sem dispararem um tiro. Ao fim de duas horas desta espécie de bafúrdio, estabeleceu-se um armistício (...) com a condição de se celebrar um acordo.
José do Telhado, homem de vida honrada antes da penosa passagem para salteador de fama, foi imortalizado pela pena de Camilo Castelo Branco em Memórias do Cárcere. Camilo esteve preso na Cadeia da Relação do Porto ao mesmo tempo que José do Telhado aguardava a ida para África, no cumprimento da pena de degredo perpétuo com trabalhos públicos. Falaram bastante e a áurea de romantismo que ficou para a história da figura de José do Telhado, deve-se sem dúvida a Camilo Castelo Branco.
A que propósito vem, porém, José do Telhado a estas notas?
Segundo Camilo, José do Telhado, foi moço para Lisboa e jurou bandeira no segundo regimento de lanceiros, denominado o da Rainha. A esbelta figura de José Teixeira (do Telhado) era o encanto dos oficiais.(...).Na conhecida revolta dos marechais, em 1837, saiu José Teixeira na comitiva do duque de Saldanha e mostrou quem era nos combates do Chão da Feira e Ruivães. Lá ouvi -me dizia ele – as cantigas das primeiras balas e algumas me queimaram o cabelo e vinham dizer-me ao ouvido que estivesse sossegado. O Barão de Setúbal disse-me uma vez que choviam balas, eu mostrei-lhe a lança e disse: cá está o guarda-chuva, meu general, deixe chover.
José do Telhado foi dado como ordenança do próprio Visconde de Sá da Bandeira que pessoalmente o chegou a condecorar com a Torre e Espada que lhe apresilhou na farda. Os crimes que José do Telhado cometeu mais tarde e porque veio a responder, não fazem parte desta nossa história.
Jogos Florais da E.N em Alcobaça em 1946
http://flemingdeoliveira.com/fotografias/images/caapa.jpg
Também como iniciativa do regime, os Jogos Florais da E.N. referentes a 1946, realizaram-se em Alcobaça, deles tendo feito parte um concorrido concerto com a Orquestra Sinfónica Popular, dirigida por Frederico de Freitas e a declamação das poesias premiadas.
O primeiro prémio em Poesia Alusiva a Alcobaça foi atribuído a Emídio Velasco Martins.
A propósito destes Jogos Florais, o comunista alcobacense Albino Serrano, que voltaremos a referir, recordou em A Hora da Libertação (ed. do PCP), uma situação de perigo passada no dia quatro, ou antes, de quatro para cinco de Outubro de 1946, quando se realizaram os Jogos Florais, no Refeitório do Mosteiro, com a presença de António Ferro, alto dignitário do regime fascista. Eu não estava muito interessado em assistir ao espectáculo, mas, à última hora e já com a casa cheia alguém ofereceu a mim e ao meu irmão, que estava comigo, bilhetes de ingresso no recinto. Entrámos e acomodamo-nos como pudemos. O espectáculo ia prossseguindo normalmente quando, precisamente à meia noite, se ouviram vários estampidos, de tal modo fortes que até parecia que estavam e rebentar bombas ali na praça, mesmo ao lado. Logo a seguir notámos grande movimentação de alguns funcionários da Administração do Concelho, ligados à Secção Policial, e ainda os habituais bufos que se encontravam a assistir ao espectáculo e acto contínuo se dirigiram apressadamente para a saída (…). Não sabia exactamente o que se estava a passar lá fora (…) Entretanto os estampidos continuavam a ouvir-se e eu não sabia o que havia de fazer: se sair rapidamente, aproveitando a confusão, ou se ficar e aguardar os acontecimentos. A primeira hipótese parecia-me mais sensata, embora um pouco perigosa (note-se que, segundo o depoimento de Albino Serrano, nessa altura trazia, como de costume, os bolsos cheios de propaganda do PC) pois não imaginava o que poderia encontrar lá fora.
Mas afinal o que era que estava a acontecer na rua?
Viemos a saber que os estampidos, que ouvíramos lá dentro, eram o resultado duma salva de morteiros deitados no Castelo, assinalando mais um aniversário do Cinco de Outubro, os quais, ao rebentarem provocavam dentro do Refeitório do Mosteiro, onde decorria a festa, um eco de tal modo intenso, que levou a maior parte das pessoas a pensar que estava a rebentar bombas na praça (…).
O autor deste incidente foi Serafim Amaral que, munido de uma autorização do Governo Civil de Leiria, festejava a implantação da República.
Também como iniciativa do regime, os Jogos Florais da E.N. referentes a 1946, realizaram-se em Alcobaça, deles tendo feito parte um concorrido concerto com a Orquestra Sinfónica Popular, dirigida por Frederico de Freitas e a declamação das poesias premiadas.
O primeiro prémio em Poesia Alusiva a Alcobaça foi atribuído a Emídio Velasco Martins.
A propósito destes Jogos Florais, o comunista alcobacense Albino Serrano, que voltaremos a referir, recordou em A Hora da Libertação (ed. do PCP), uma situação de perigo passada no dia quatro, ou antes, de quatro para cinco de Outubro de 1946, quando se realizaram os Jogos Florais, no Refeitório do Mosteiro, com a presença de António Ferro, alto dignitário do regime fascista. Eu não estava muito interessado em assistir ao espectáculo, mas, à última hora e já com a casa cheia alguém ofereceu a mim e ao meu irmão, que estava comigo, bilhetes de ingresso no recinto. Entrámos e acomodamo-nos como pudemos. O espectáculo ia prossseguindo normalmente quando, precisamente à meia noite, se ouviram vários estampidos, de tal modo fortes que até parecia que estavam e rebentar bombas ali na praça, mesmo ao lado. Logo a seguir notámos grande movimentação de alguns funcionários da Administração do Concelho, ligados à Secção Policial, e ainda os habituais bufos que se encontravam a assistir ao espectáculo e acto contínuo se dirigiram apressadamente para a saída (…). Não sabia exactamente o que se estava a passar lá fora (…) Entretanto os estampidos continuavam a ouvir-se e eu não sabia o que havia de fazer: se sair rapidamente, aproveitando a confusão, ou se ficar e aguardar os acontecimentos. A primeira hipótese parecia-me mais sensata, embora um pouco perigosa (note-se que, segundo o depoimento de Albino Serrano, nessa altura trazia, como de costume, os bolsos cheios de propaganda do PC) pois não imaginava o que poderia encontrar lá fora.
Mas afinal o que era que estava a acontecer na rua?
Viemos a saber que os estampidos, que ouvíramos lá dentro, eram o resultado duma salva de morteiros deitados no Castelo, assinalando mais um aniversário do Cinco de Outubro, os quais, ao rebentarem provocavam dentro do Refeitório do Mosteiro, onde decorria a festa, um eco de tal modo intenso, que levou a maior parte das pessoas a pensar que estava a rebentar bombas na praça (…).
O autor deste incidente foi Serafim Amaral que, munido de uma autorização do Governo Civil de Leiria, festejava a implantação da República.
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