terça-feira, 1 de junho de 2010

RAINHA ISABEL II - IV AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP

NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
IV
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA




As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta?
As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que compreendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos.
Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.

Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa.
Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.

Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas.
As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava.




Ouvimos recentemente contar a história que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto.
Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.

E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real?Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.




Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor.
Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas.
O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como muitos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.
Houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria).

Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo.
Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta.
Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.

Hoje, Manuel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos.
Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher.

A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato.
Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.

Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.

Os alfaiates estão, pois, em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção.

Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos, numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos.
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhe para vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!.
CONTINUA

RAINHA ISABEL II - III AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP

(III)
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA





A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra).
Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.

O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.

A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente.
Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.




Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres.
A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia.
Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.

Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.

À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constituir o Rossio da vila.
Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município.
O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...

É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.

Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foi a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a Baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana.
Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.





A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior.
Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade.
Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth.
Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar.
A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V.
Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…)e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo.
Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.
CONTINUA

RAINHA ISABEL II - II AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP

NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
II
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO
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O REI D. CARLOS E ESPOSA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA





O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional.
Recordou-nos que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo.
Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos.
Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento.
Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.



Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construíram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis.
Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo.

Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar!!!. O encarregado do Secretariado Nacional da Informação, cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do S.N.I. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.




A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal.
Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono.
Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.

Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da C.M.A. teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
CONTINUA

Paris - Agosto de 2003 - CAP VI Fontainebleau. A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte

Fontainebleau,
A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte
(2003)

Foi, aproveitando a nossa estadia em Paris na casa do Rebelo e o seu carro, um CITROEN XM, que fomos com ele visitar Le Château de Fontainebleau.

Este palácio que não rivaliza (artisticamente falando) com Versalhes, situa-se no meio de um enorme maciço florestal, segundo se diz de cerca de 17.000 hectares e nasceu fruto da paixão dos reis de França pela caça.
Para a Clara, Versalhes é beleza e ostentação, enquanto que Fontainebleau é só beleza.
Remonta este palácio a meados do século XII, altura em que era pouco mais que um albergue de caça e de cujo original nada resta mais que algumas fundações.

O grande impulsionador de Fontainebleau foi, porém, François I, que gostava tanto do local que lhe chamava a sua casa e decidiu transformar o velho edifício, ainda com telhado em colmo, numa palácio à boa maneira italiana. François I reuniu em Fontainebleau as mais variadas colecções de pinturas, entre as quais as de Leonardo da Vinci e a Gioconda, ali fazendo um centro artístico, aonde acudiam artistas de toda a Europa. Ao longo dos séculos o palácio foi crescendo, mesmo no tempo de Luís XIV, que previlegiou, notoriamente, Versalhes como bem se sabe.
Se raramente Luís XIV foi a Fontainebleau, salvo no outono ou na época da caça, nem por isso deixou de receber hóspedes famosos, como Cristina da Suécia, rainha que abdicou aos 28 anos, depois de abjurar o luteranismo para o catolicismo.
Cristina viajou pela Europa, seguida por uma comitiva faustosa e inquietante, composta por muitos aventureiros, tal como o seu amante Monaldeschi. Os factos que a seguir vou referir, anotei-os de um livro de História e parece-me interessante destacá-los aqui.

Quando Cristina chegou a França, o Cardeal Mazarino, alojou-a em Fontainebleau.
Apercebendo-se que o seu arrogante e oportunista favorito a traía, furiosa decidiu condená-lo à morte, se não confessasse a sua traição.
Cristina recebeu o amante na presença do padre Le Bel, superior do Convento dos Trinitários de Fontainebleau e fez-lhe violentas acusações.
Ele defendeu-se mal, engasgou-se e não conseguiu justificar-se, pelo que a rainha o deixou sem lhe conceder, um mero olhar ou oportunidade.
O favorito recebeu os últimos as sacramentos do padre Le Bel e em seguida o capitão dos guardas da rainha e dois soldados entraram de espadas empunhadas.
Monaldeschi, a tremer, descomposto, lançou-se aos seus pés, implorando clemência.
Em vão.
Os executores atiraram-se a ele e como a sua cota de malha impedia um golpe decisivo e mortal, cortaram-lhe a garganta.
A agonia, durou mais de um quarto de hora.
Para a oração fúnebre, a impetuosa Cristina, dirigiu ainda uma breve mensagem ao Cardeal Mazarino, salientando que não tinha nenhuma razão para se arrepender do que fez ao Monaldeschi, mas mais de cem mil para estar furiosa. Alguns dias após estes acontecimentos, a sueca deixava Fontainebleau e a França.



O palácio sofreu grandes depredações, durante a Revolução Francesa. O mobiliário foi vendido ao desbarato e saqueado por populares. O palácio foi negligenciado, sem sofrer todavia danos excessivos do furor popular, já que não simbolizava da mesma forma os contestados faustos e glórias reaisde Versalhes.

Em 1803, o então Primeiro Cônsul, Bonaparte decidiu instalar ali a Escola Militar Superior (A Academia Militar), mais tarde transferida para Saint-Cyr.
O Imperador gostava de Fontainebleau, ali foi muitas vezes e ordenou importantes restauros, no edifício, no mobiliário e nos jardins. Segundo a Clara, os apartamentos do Imperador eram tão pequenos como ele.
Em 1804, o Papa Pio VII que veio de propósito para a Coroação de Napoleão e Josefina, ficou instalado no Palácio.
Foi porém entre 30 de Março e 20 de Abril de 1814 que o palácio terá vivido algumas das suas horas mais sombrias, relacionadas com a queda de Napoleão. Em 6 de Abril, este abdicou sem condições e a 20 tomou, a partir daí, o caminho do exílio, para a Ilha de Elba, fazendo então o seu memorável e emocionante adeus à Guarda.

O palácio não recuperou mais os fastos de outrora. Luís-Filipe, interessou-se por ele, salvou-o da ruína, mas fez-lhe restauros muito discutíveis. Citando um autor francês, Fontainebleau, assumiu no ancien regime o lugar de residência real logo a seguir a Versalhes, onde em ambos os casos se respirava o ar cortesão. A rota de Fontainebleau tal como Versalhes, encontrava-se no caminho privado do rei.

Ao percorrer Fontainebleau, o turista de hoje pode ficar surpreendido com a sucessão de estilos que apresenta o palácio. Em Santa Helena, Napoleão recordava-o com nostalgia é ali a verdadeira morada real, que perdura pelos séculos e embora não seja rigorosamente um castelo de arquitecto, é um lugar para se viver bem. Era sem dúvida e lugar mais cómodo e bem situado da Europa.
Para o Manel, Versalhes e Fontainebleau são como o Louvre sumptuosos, mas também não são muito o meu género, aprecio mais o subtil que o grandioso.
Às vezes, o Manel que é um burguês e conservador tripeiro, parece querer ceder a uma certa postura, mais inclinada para o proletariado! Foi, porém, em Fontainebleau que no respectivo lago dos desejos (aquele onde se lança uma moeda de costas e faz um pedido) e Manel ainda tentou fazer um pedido sem gastar uma moeda!!!



Um dia destes comentei com a Clara, para ver se a atrapalhava, que aquela gente, parece que não tinha, nestes palácios, locais para fazer as necessidades fisiológicas.
Pelo menos nunca os mostram.
Mas segundo a Aninhas, a minha dúvida não é extraordinária, pois ainda hoje há quem as faça fora do bacio!
Sabem o que a Clara me respondeu, prontamente? Devia haver 5 criados com um pote.

Foi no regresso de Fontainebleau a Paris que íamos quase perdendo a Aninhas. Será verdade?
Ou conversa da treta?
Parámos numa terra qualquer, cujo nome de momento não recordo com segurança, mas suponho ser Montreau, para irmos visitar a sua igreja românica com mais de 1000 anos e curiosa pelas suas duas torres desiguais. Eram quase 19h e esta era uma igreja, não muito frequentada por turistas, de tal modo que as respectivas chaves se encontravam na posse de uma guardiã, velhota, que ao ver-nos sair, a Clara Manel e eu, resolveu fechar de seguida a porta à chave. A certa altura, percebemos que a Aninhas e o Rebelo tinham ficado lá dentro, mas apesar de barafustarem não se ouviam cá fora.
A velhota, felizmente, estava ainda perto e o assunto resolveu-se de imediato, saindo ambos um pouco ofegantes, embora pelo seu pé. A Aninhas não precisou de água..

Mas, como já disse e se sabe, é muito perspicaz, incapaz de se precipitar num juízo errado, tal como acontecia com o Cavaco que nunca se enganava, quando fala é sempre pela forma mais certeira e irrepreensível, o que incomoda, entendeu que a velhota por pura malandrice os tinha deixado lá dentro, o que todavia não chegamos a esclarecer. Mas se a Aninhas o diz... é de certeza pura verdade. O certo é que, tal como o Santa Maria, no dizer do Salazar, a Aninhas está connosco.

PADRE BRIGALHEIRA E AS SUAS AVENTURAS ESQUISITAS

Não é fácil explicar aos nossos filhos e netos, o que eram os meios rurais, as aldeias portuguesas há setenta ou oitenta anos, nos seus usos, costumes e crendices, como por exemplo, Casal de Val Ventos, Moita do Poço, Turquel ou mesmo Benedita.
Por hipótese, se uma jovem queria saber o nome do homem que a ama verdadeiramente, deveria escrever os nomes dos eventuais pretendentes em pedaços de papel, cobri-los com uma camada fina de barro e deitá-los numa taça com água. O primeiro nome a vir ao de cima é o tal.
Nesse tempo, as pessoas ao serão, muitas vezes à lareira, contavam histórias irreais ou verídicas, pois não tinham outra diversão. O conto popular não teve origem nas camadas ditas cultas, mas no povo. Talvez venha daí o facto do conto não ser escrito, pois muitas pessoas não sabiam ler nem escrever. As pessoas mais velhas, os avós, foram os grandes agentes de transmissão do conto. Assim, o conto passou de geração em geração, muitas vezes alterado, pois Quem conta um conto acrescenta um ponto. Uma das características do conto tradicional é a presença do maravilhoso e da moral, Há um problema a resolver, o encantamento, misturado com dragões, fadas, feiticeiras e bruxas. A moralidade de um conto é expressa normalmente num provérbio.

A literatura tradicional é um património que não se deve perder. Tem características específicas e para muitos é mais interessante ouvir um conto do que ler uma história, especialmente quando os gestos, as expressões e a linguagem o tornam mais acessível.
Pela política o interesse era pouco ou nenhum, especialmente a de Lisboa. A minha política é o trabalho, assim se dizia.
Era preciso uma revolução para compor as coisas?
José Libertador Monteiro da Silva, natural de Beja, aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, e principal redactor do efémero Voz dos Montes, não obstante a verdura dos anos, mas por natureza bastante céptico, escrevia que alguns dizem que sim. Uns afirmam-no com aquela convicção, filha do muito amor que têm ao seu santo corpinho, doutros ainda para estabelecer a confusão, deleitando-se ao depois do florido parapeito do seu Sangue Frio com as correrias loucas, as lividezes medrosas dos que vêm na algazarra, vivório ou pasmaceira quotidiana desta espiritualizada gentinha de Lisboa, um indício seguro, irrefutável, da iminência do ribombar da metralha…É radical? Monárquica? Nacionalista? Lenínica? Cá pelas minhas previsões políticas não é nem para restaurar uma bandeira da cor dos céus e da neve, nem para abolir a Selagem, a Reforma Bancária e outros tantos terríveis Adamastores dos homens que não têm as forças mortas, nem adormecidas… É sim para definitivamente consagrar o motu continuo, isto é, fazer uma revolução para gerar duas ou três logo a seguir…

Altino do Couto Ribeiro, Inácio Catarino e Joana Salgueiro, ainda se recordam do tempo, aí pelos anos vinte, em que era padre, em Alpedriz, Joaquim Brigalheira, que aliás residia nos Montes, na Silveirinha, numa casa situada na antiga estrada Montes-Alpedriz. Nome ou alcunha (corruptela de braguilheira?) não se sabe.
Recordam-se, porém, que segundo se dizia, tinha muitas amigas. Quando tocava o sino da Igreja de Alpedriz, pelo número de badaladas, as pessoas e as amigas sabiam qual delas estava a ser chamada, pois cada uma tinha o seu número. Um dia o sino tocou 16 vezes, mas apareceu rapidamente e em primeiro lugar, pronta para todo o serviço, a correspondente ao número quinze, ao que o Padre Brigalheira mandou embora, para ter paciência, que ela tinha contado mal as badaladas.

Este episódio faz-nos recordar um outro conhecido jocosamente pela Portaria dos Sinos.
A Portaria dos Sinos? Em Junho de 1929, uma portaria do Ministro da Justiça, mais tarde conhecida jocosamente como a Portaria dos Sinos, veio permitir a realização de procissões. Esta decisão levou a uma reacção de uma ala (maçónica?) do 28 de Maio, com a efectiva demissão do Prof. Mário Figueiredo e o pedido de demissão, não aceite, do próprio Salazar, que se encontrava em convalescença no hospital da Ordem Terceira, no Chiado, por ter partido uma perna. O Ministro da Guerra Morais Sarmento, orientou os protestos anticlericais no próprio Conselho de Ministros. Mário de Figueiredo pediu a demissão, no que não é acompanhado por Salazar. Os dois não tiveram o apoio dos colegas do governo O Presidente Carmona visitou Salazar, no hospital, não lhe concedendo a demissão, mas aceitou a demissão colectiva do gabinete. Em 7 de Julho, Salazar deu uma entrevista a O Século onde considerou que a demissão do gabinete se filiou em razões de ordem geral, e não apenas por causa da Portaria dos Sinos, assunto menor. Segundo Bernardino Machado, o governo a que presidia o militarista Freitas caiu aos pés do seu verdadeiro chefe, o ungido do Senhor, o clerical Salazar. E a ditadura está como dantes o bronco capitão-mor governado pelo capelão, seu confessor.
O Pe. Brigalheira, zangou-se uma vez com o sacristão (cujo nome não conseguimos apurar) porque este para a missa, tinha enchido os dois jarros com água, por não haver vinho na sacristia. O Padre depois de apurar que o cálice só tinha água, suspendeu a missa, mandou-o buscar o vinho que estava na sua cozinha. Então repetiu a Eucaristia e a missa continuou. No fim da missa despediu o sacristão.

Brigalheira, foi durante anos pároco de Alpedriz, só de lá tendo saído no dia em que se reformou e os sobrinhos o internaram num lar. Pessoa encorpada, brigão temido (Brigalheira vinha do seu gosto de brigar? ), anti-republicano assumido, utilizava as homilias para provocar e incendiar paixões. Não aceitava, nem compreendia a lógica dos suínos,que dão menos valor às saias de um padre, do que aos propósitos dos intelectuais jacobinos ou maçónicos que lhes querem iluminar o espírito e livrar da opressão já cá na terra. Era grande bebedor de vinho e aguardente. Vivia com uma irmã a quem sovava com frequência e que, nessas circunstâncias, se escondia aterrorizada no pinhal da Rosa Carreira, bem como com uma criada para todo o serviço, numa casa rodeada de boa propriedade rural, composta de vinha, pomar e horta, e que amanhava com zelo. Tempos antes do 28 de Maio, um grupo de homens de Alpedriz e dos Montes, depois de um sermão violento, durante o qual o Padre estaria embriagado, o que não era caso raro, e saturados de tantas provocações, sem resposta, amarrou-o com uma corda e levou-o como um animal para Alcobaça, a fim de ser entregue às autoridades. Pessoa deste jaez, tinha naturalmente muitos inimigos, que não eram apenas os maridos, pais, irmãos de algumas paroquianas, pelo que andava normalmente armado com uma pistola, que um dia deixou cair durante a celebração da missa. Brigalheira guardava na sacristia um caderninho onde apontava e identificava as amigas por um número (código), em vez do nome, e agendava os encontros. Um dia, o sacristão Gabriel Fortes, ainda rapaz, futuro sogro de Inácio Catarino, foi encontrado pelo padre a folhear o caderno, só não tendo sofrido de imediato uma violenta tareia, porque fugiu, embora fosse doravante muitas vezes ameaçado, se divulgasse o sucedido ou o conteúdo. Seja como for, a memória do acontecimento chegou até hoje…

Por alturas do Outono de 1925, houve numa tarde um grande temporal na região de Alpedriz, dir-se-ia mesmo um verdadeiro tornado. O rio encheu, transbordou, inundou rapidamente as margens e os campos. Brigalheira, que andava a colher abóboras numa propriedade da Igreja, foi apanhado pela enxurrada, salvando-se de ser arrastado pelas águas, depois de se agarrar custosamente aos ramos de uma árvore. Pessoas que andavam perto assistiram à cena e ouviram os gritos de aflição e pedido de socorro do Padre. Mas este tinha muitos inimigos, alguns dos quais viram ali uma excelente ocasião para se vingarem, muito concretamente um que tempos antes tinha corrido desesperadamente com um machado atrás do Padre, que fugia em ceroulas…, em direcção aos Montes, aonde acabou por ser acolhido por uma paroquiana de confiança.

Assim, alguns dos assistentes, com contas por ajustar, combinarem entre si atirar um foguete agarrado com uma corda, a fim de o Padre depois ser pretensamente puxado para terra. Mas a verdadeira ideia seria bem outra, largá-lo a meio da corrente, de modo a ser arrastado e se possível até perder-se. Seria interessante ver as saias do Padre a boiar na água, antes de ir ter aos quintos do inferno. Acontece que no meio daqueles paroquianos, encontrava-se um, outro cujo nome não vem ao caso, com descendentes ainda vivos e que recordam o acontecimento, que apesar de estar também de relações cortadas com o Padre, o avisou para esperar, que não se agarrasse à corda e não tentasse precipitar os acontecimentos. Foi aliás neste, que o Padre acreditou, pelo que esperando que o temporal amainasse e o nível das águas descesse, conseguiu salvar-se. Mas, segundo se conta entre os idosos descendentes, nem por isso fez as pazes com o homem que lhe deu o bom conselho e lhe salvou a vida.
Quem utilizava bastante a expressão ir (mandar) para os quintos do inferno, era o Ti’ Manuel da Costa Santos, de Salir do Porto, falecido há pouco, que viveu muitos anos no Brasil onde ganhou uma importante maquia em S. Paulo, tendo comido mesmo o pão que o diabo amassou, de onde regressou já com profundo sotaque, hábitos enraizados, muitas histórias para contar, de preferência com um copo de branco à frente e que uma vez nos explicou a origem da dita expressão. Vai para os quintos significa, segundo Ti’ Manel, mandar alguém para longe, para o inferno. A origem da expressão será antiga. Quando o Brasil pertencia aos portugueses, estes cobravam um imposto que correspondia a um quinto do ouro da mineração. O imposto era enviado para Portugal no chamado navio dos quintos, que entre os colonos passou a significar um navio que ia para muito longe, quem sabe até ao inferno.

E comer o pão que o diabo amassou, que significou para si Ti’ Manel?
Significa como vc. sabe passar por uma situação difícil, um grande sofrimento. Imagina Ti’ Manel que a origem da expressão venha do facto que deve ser, realmente, indigesto comer um pão amassado pelo capeta (diabo na gíria do Brasil). Além da procedência, nada segura, do produto (se vem do coisa ruim, boa coisa não pode ser), tem grandes probabilidades do pão vir queimado, já que foi assado pelo diabo no fogo do inferno.
Sobre o Pe. Brigalheira, bem se podia rimar que Durante a sua vida//Comeu com afinco//Mas nunca obrigou ninguém//A ter de apertar o cinto.
Nunca teve enfarte//Nem mesmo congestão//Por isso recomendava//Boa carne, chouriço e salpicão.
Nunca olhava a muitos gastos//Muito menos à poupança,//O que mais o interessava//Era encher bem a pança.
Comia como um alarve//Sempre uma boa pratada//Mas neste seu dia//Só queria feijoada.
Comei e bebei com muito cuidado//Porque a gula é o maior pecado.//É isto que vos aconselhamos//Mas não sei se é o que nós faremos.

O Pe. Brigalheira era supersticioso, mesmo com as trovoadas que lhe incutiam respeito e talvez algum receio. As que vêm do sul, eram tidas pelas mais temidas pois com os raios, o granizo, ventos fortes, etc., causam muitas vezes prejuízos importantes, pelo que é natural que um povo (mas não tanto um padre) invoque o nome de Deus. Assim, para que se extingam depressa, especialmente as mulheres (e o Pe. Brigalheira segundo se dizia), costumavam rezar um terço em que as Avé-Marias se trocam por estas versos:
Com pressa vamos à cruz//Com pressa Mãe de Jesus//Com pressa vamos a Vós//Mãe de Deus rogai por nós.
Santa Bárbara bendita//Que nos céus estás escrita//Com um raminho de água benta//Livrai-nos Senhora desta tormenta.

A propósito de trovoadas, Francisco Instruído, do Juncal, contou que quando era garoto tinha muito medo das trovoadas. Mas o Avô dizia-lhe: Avistas um relâmpago no céu e de seguida, burrum, ouves um trovão que faz imenso barulho. Não sabes porquê, mas, sempre que há uma trovoada, sentes-te muito mal. Toda a gente te diz que não deves ter medo das trovoadas, que não acontece nada, mas eu sei, para ti, parece que o céu está a rasgar-se. Se fosse por mim, nunca haveria trovoadas, para não te assustar. Porque não experimentas observar uma trovoada através de uma fresta da janela? E por que não tentas tapar os ouvidos?
A verdade é que ao fim de algum tempo, quando Francisco passou a conseguir olhar para elas, viu que são fantásticas.
O padre detestava gatos. Dizia às paroquianas que os gatos pretos eram bruxas transformadas em animais. Por isso afirmava que cruzar com gato preto era azar na certa, que se um gato dobrasse as patas e se deitasse sobre elas deixando-as escondidas, era sinal que uma tempestade estava próxima.
Sucedeu ao Pe. Brigalheira, o Pe. Joaquim Henriques que também deixou marcas. Natural de Alpedriz, aonde vivia com uma irmã numa casa perto da igreja, era mais instruído, mas não repudiava, como o seu antecessor, os prazeres da vida.Este sacerdote era invejado pela rapaziada, pois nos fins dos anos trinta, foi dono da primeira motorizada com motor de arranque da freguesia. Antes, andava normalmente de biciclete, onde nas trazeiras também transportava a irmã. O Pe Henriques para cativar os miúdos para a catequese, oferecia-lhes rebuçados ou outras guloseimas. O Zé Narciso, com os seus oito ou nove anos, frequentava a escola primária dos Montes, mas como afilhado do crisma, ia com frequência a casa do padre que engraçava com ele, comer uma bucha, um papo-seco com marmelada ou um naco de broa com uma sardinha a cavalo, depois de o ajudar na missa, lhe regar a horta ou o milho. Batia à porta, entrava e o padre mandava a irmã servi-lo. Um dia, o Pe Henriques até o aliciou para ir estudar para o Seminário de Leiria, ao que o rapaz se negou, pois como dizia tinha tanta vocação para ser padre como ele.

Certa vez em que o Zé Narciso passou por casa do padre com intenção de comer uma bucha (nessa altura em casa dos pais a comida nunca era demais…), a irmã disse-lhe que o padre não estava em casa, mas na Igreja. Entre voltar para os Montes, com a barriguinha a dar horas e subir a íngreme ladeira, ou ir ver o padre que sempre lhe poderia dar uma sandezita, optou por esta. Entrou na Igreja sem fazer barulho, nessa altura andava descalço como toda a rapaziada, e o chão não rangia. Como não viu o padrinho foi andando, até entrar na sacristia.

Mas o que é que aí viu?
O Padre/padrinho, muito bem sentadinho num banco, batina puxada para cima dos joelhos, com uma moçoila bem corada e afogueada, aninhada ao colo. Olhando-se, ficaram todos com ar muito comprometido, mas o Zé Narciso, por via de dúvidas, pernas para que te quero, pôs-se a andar dali para fora.Passadas umas duas ou três semanas, o Pe. Henriques mandou-o chamar, pois o Zé Narciso havia passado a evitá-lo, a prestar-lhe serviços caseiros ou a ajudar na missa. O padre perguntou-lhe se ele naquele dia havia visto alguma coisa. Corajosamente, o Zé Narciso respondeu, Oh padrinho, vi tudo! Então o padre, explicou-lhe que um homem, mesmo padre, tem as suas necessidades. Oh padrinho esteja descansado, que bem sei guardar um segredo! E este foi também tão bem guardado, que só muitíssimos anos depois, é que esta história veio a público e pode ser aqui contada.
Quando o Pe. Joaquim Henriques veio a ser transferido para Porto de Mós, passou a ser o responsável pela escrita de uma empresa, o que lhe permitia retirar alguns proventos, da filha do dono, com que se veio a casar e ter dois filhos, um dos quais terá falecido há poucos anos.

A partir de meados dos anos cinquenta, foi pároco de Alpedriz, o Pe. Vergílio, ao que se crê beirão, de origem humilde, que dava também assistência a Montes e Coz. Tratava-se de um homem forte, encarniçado, o que se tornava ainda mais evidente, depois de beber uns tintos, com alguma sofreguidão, normalmente acompanhados por uns petiscos, nas rondas que fazia pelas casas dos paroquianos, que apreciavam recebe-lo, dado ser expansivo, bem falante, humorado e malicioso. Tinha, em suma, algumas daquelas virtudes e defeitos, que o bom povo português gosta de encontrar no semelhante, pois, além do copo e garfo, apreciava outros prazeres tão simples, como a caça e obelo sexo. Tinha facetas curiosas e paradoxalmente supersticiosas.Considerava de mau agoiro ter treze pessoas à mesa, mas aceitava-o se um das pessoas tivesse um gato ao colo, nem que fosse por breves momentos. Segundo ele não deviam sentar-se 13 pessoas à mesa, pois Jesus Cristo foi crucificado a uma sexta-feira e na última ceia estavam 13 pessoas. Por isso, costumava dizer que dá azar ter 13 pessoas à mesma mesa. Mas nunca explicou como se resolvia o problema com a intervenção de um gato…

Sim, Ti’ Mário já foi sacristão e gosta de recordar esse tempo e contar histórias. Diziam os antigos que quem com Deus anda, Deus ajuda. Portanto, para si o trabalho que fez na igreja era por Deus. O que mais gostava era ouvir os prometimentos que se faziam nos dias de casamento. Foi para sacristão porque um patrão onde esteve, era sacristão e quando ele ia a feiras vender gado ele era que tomava conta o lugar. Ainda hoje gostaria de ser sacristão se pudesse andar melhor. Mas há dois anos esteve muito tempo de cama com uma gripe e um pé partido pelo que entregou as chaves a outro colega que o ajudava.
Lembra-se que uma altura esteve na cadeia comarcã por mentir. Uma vez houve um barulho à porta da venda lá da terra e um homem ficou com a orelha cortada. Eu, como muitos outros rapazes, era testemunha. Fomos todos chamados ao Tribunal de Alcobaça para ser contra o que bateu e a favor do que apanhou e dissemos tudo como realmente se passou. Mas depois o que apanhou e o que deu fizeram as pazes e nós fomos chamados ao Tribunal pela segunda vez para dizermos que não tínhamos visto nada. A verdade é que já estava escrito aquilo a que tínhamos assistido e assim foi uma trapalhada. Quando chegámos lá perguntaram-nos: Então vocês não viram nada? e eu respondi: Eu não, porque estava escuro e não vi dar as pancadas nem vi quem foi!. Aí o Delegado não acreditou disse que estavamos a mentir e assim fomos os sete presos durante três dias, o queixoso que tinha a orelha dependurada, o agressor e as testemunhas. Estivemos presos na cadeia de Alcobaça. Ao que lhe tinham cortado a orelha deram-lhe um conto de rei para não acusar o que lha cortou. Ao entrar na cadeia dizíamos assim: Você já vendeu uma orelha por um conto de rei, não quer vender a outra? Depois houve novo julgamento, tivemos que dizer a verdade e aquilo acabou.

O Processo (Político) de Reunificação da Alemanha; Reminiscências e Sequelas da II Guerra; Andando pela Alemanha, em 2004, com Olhos do Porto e Alcoba

A ocupação alemã no leste da Europa em tempo de guerra deixou uma história de selvajaria única tanto junto de civis, como de trabalhadores escravizados. Isto, tanto por parte do Exército, comandado por uma pretensa casta elitista de oficiais, quase todos filhos de velhas famílias da alta nobreza prussiana que pretendia fazer-se passar por um grupo de cavalheiros, bem como das tropas de choque, as S.S. de Himmler, gente de baixa extracção, arrivistas sem escrúpulos, plebeus grosseiros. As S.S. podem assumir o título, nada honroso, dos piores criminosos de guerra, mas a Luftwaffe, Força Aérea, realizou ataques em massa e indiscriminados a Roterdão, Holanda, Coventry, Inglaterra, ou Varsóvia, Polónia, bem como a colunas de refugiados civis. Por sua vez, a Marinha de Guerra torpedeou sistemática e ordenadamente navios mercantes, sem recolher sobreviventes, como decorre das regras internacionais.


Recordo as palavras, que não continham a ideia de vingança contra os alemães, de W. Churchill, cujo gabinete de guerra perto do Parlamento, hoje museu, visitei com a Aninhas quando estivemos em Londres, a retribuição deve ser incluída entre os principais objectivos desta guerra.



Dentro de sessenta anos alguém se lembrará de realizar um filme sobre a primeira ou segunda guerras do Iraque? Creio que não. Mas como explicar esta obsessão pelo nazismo, sessenta anos passados sobre o termo do III Reich? Afinal, não eram apenas as pessoas da corte de Hitler dominados e fascinados pelo seu magnetismo, pelo carisma que aparece numa pessoa uma vez apenas entre centenas de anos, capaz de arrastar um povo inteiro ao delírio e no fim à tragédia colectiva. Desde a guerra, muito se tem escrito sobre Hitler. Tenho uma variada e boa bibliografia sobre este assunto, que continua longe de se considerar esgotado, pois continuam a revelar-se aspectos inesperados e horríveis.



Quando preparava estas notas, li um comentário que considero notável, atribuído a um embaixador alemão em Roma, no tempo do nazismo (1932-1937), queos generais alemães, (alguns mesmo marechais)não fizeram um golpe de estado contra Hitler, porque nunca receberam ordens nesse sentido.



Adolf Eichmann, no seu julgamento em Israel, argumentou que aculpa reside na minha obediência, no meu respeito pela disciplina e nas minhas obrigações militares em tempo de guerra, no meu juramento de fidelidade.



E, no entanto, sabe-se que muitos sentiam um enorme desprezo político-profissional-social pelo Fuhrer, a quem à socapa chamavam o cabo da Boémia, em alusão ao posto atingido por Hitler na I Guerra.



Falar da Alemanha não é falar apenas da sua História mais ou menos recente. O nazismo foi um interlúdio trágico que tem de ser devidamente considerado e lembrado (a memória dos guetos e dos campos de concentração), para que não esqueça, mas não define uma nação.



Já referi aqui, o caso Adolf Eichmann, que acho bem sintomático, pelo que com a devida vénia aos meus amigos leitores, invocarei de novo. Durante o seu julgamento, o Procurador Público israelita sustentou a tese, que aliás também como outras não vingou, que aquele não passava de sádico perverso. Um dos psiquiatras que o examinou disse que ele era mais normal que eu próprio.Outro clínico, sustentou mesmo que a sua estrutura psicológica, bem como a sua atitude em relação à família, eram não só normais mas absolutamente recomendáveis.O problema, como escreveu, recentemente, um conhecido historiador é que havia muitos como Eichmann e que estes muitos não eram nem perversos nem sádicos, pois eram e ainda são terrivelmente normais, assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições e dos nossos valores morais, esta normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas.

O Processo (Político) de Reunificação da Alemanha; Reminiscências e Sequelas da II Guerra; Andando pela Alemanha, em 2004, com Olhos do Porto e Alcoba

Os grandes rios e os seus vales abundam na Alemanha, tal como os lagos. É impossível não pensar na Alemanha e deixar de parte o Reno. Segundo se diz, há cerca de duzentos anos, os ingleses descobriram o Reno como meta das suas viagens. As vinhas, que produzem o celebrado branco do reno são encimadas por fortalezas e ruínas, pequenas aldeolas vinícolas que fomos descobrindo ao longo do percurso, muito especialmente Koblenz-Bingen, percurso esse que se integra numa zona paisagística considerada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) Património Natural da Humanidade, e fizemos durante quase um dia de barco. Ao longo do percurso fomos confrontados com excepcionais marcas de homem e traços da natureza, com reminiscências de lendas, trovas e textos que transportados para prosa, verso e música, seriam suficientes para formar obras literárias de encher uma biblioteca ou preencher programas musicais, para meses ou anos. Quando entrámos no barco, grande, da empresa de navegação fluvial Koln-Dusseldorfertour não fazíamos bem ideia do que seria esse percurso pelo Reno, num espaço natural e territorial onde alegadamente estão a ser aplicados critérios de selecção com base na unidade ou autenticidade (histórica). Isto acompanhado de um bom almoço, como se impõe a um português tradicional que deseja bom ambiente, passando ao lado do rochedo de Lorelei, um dos mitos e lendas mais conhecidos da germânia, bem com de uma rede de comboios que acompanham o rio. Preservar o património de todas as culturas do Mundo, proteger o equilíbrio de paisagens naturais únicas, é esta a missão que a UNESCO tomou para proteger e ali muito eficazmente.

O Manel A. disse-me que é difícil dizer qual a é a impressão mais forte que se recolhe da Alemanha. Tem grandes cidades com zonas arquitectónicas antigas e bonitas, mas também com zonas modernas. Tem bonitas paisagens no campo, com zonas que fazem lembrar a Áustria. Mas para mim, que passei grande parte do tempo a guiar (ele adquiriu o estatuto de nosso condutor oficial), impressionou-me o bom estado das estradas, as indicações permanentes, a cortesia com os outros condutores e as boas informações em caso de acidente ou congestionamento de trânsito.