A Imperatriz Elizabete/Isabel, Sissi, do Império Austro-Húngaro, veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes.
Vamos fazer um breve apanhado dessas presenças.
Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal do Funchal, votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.
A Imperatriz Elizabete/Isabel, chegou à Madeira a bordo do navio inglês Victoria e Albert, emprestado pelos Reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva de 21 tiros e recebeu ainda a bordo as principais autoridades da região, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou para um bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, no Cais da Pontinha, foi dada outra salva, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa o Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi, dispensou a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.
Em Dezembro, Elizabete/Isabel, Sissi fez passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé ou a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo, do Funchal que no dia 4 de Dezembro do ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz Sissi deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos. Este facto depois de ter sido divulgado na imprensa local, comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer também as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, conforto e consolação dos aflitos ou derradeiro amparo dos órfãos e viúvas. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal e um nobre que a visitou relatou em Viena que Sissi estava melhor, mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta.
A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa madeirense sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.
Em 28 de Abril Elizabete/Isabel, Sissi acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera de Lisboa em representação do pai, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e mais dois vapores de guerra ingleses.
Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.
A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, voltou bastantes anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz não foi oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e nos seus 50cm de cintura, Sissi estava sempre vestida de luto, pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.
Voltando de novo, à Imperatriz Isabel e a sua relação com Portugal, que lhe serviu de porto de abrigo, sabemos conforme um biógrafo, que era intimamente republicana por influência de um pai liberal e sobretudo do seu professor particular de história.
Bela e também profundamente infeliz, a Imperatriz Elizabete, Isabel, Sissi, passou a vida a viajar, numa busca incessante pelo que acontecia simultaneamente no espaço físico do mundo e no seu interior, a sua alma. A sua inquietação não a deixava permanecer em lado nenhum. Sentia-se impelida a partir sempre, a cruzar os mares, a ir mais além, à procura de liberdade, de paz interior, de solidão, em busca de si mesma e de um sentido para a vida. A liberdade era, para Sissi, um valor essencial. Sentia-se qual gaivota, para partir sobre o mar imenso, tendo um dia escrito que:
Uma gaivota sou, de terra nenhuma,
Não chamo pátria a nenhuma praia,
Não me prendem terras ou lugares,
Eu vou de onda em onda .
Num outro poema, pedia que a deitassem numa praia quando morresse, para contemplar o mar, de modo a que esta fosse a sua última visão. E depois que a atirassem à água, onde fosse mais fundo, pois mesmo que há superfície haja tempestade, no fundo encontrarei a calma.
Elizabete/Isabel, Sissi terá confessado que tenho a sensação de que sou permanentemente impelida. Cada barco que deixa o porto, desperta-me o desejo de embarcar. Ir para onde ele for, para o Brasil, para a África, não importa para onde, apenas não permanecer num lugar.
Esta necessidade está também presente numa outra poesia pois:
Para onde ainda, minha alma?,
Estamos no alto mar,
Ele leva-nos de onda em onda,
Agora para baixo logo para cima. (...)
Para onde? Eis a pergunta,
O grande hieróglifo,
O meu amargo tormento da alma,
O enigma sem fundo .
O seu professor de grego, escreveu oportunamente no seu diário que ela é a rainha das águas correntes. É mais do que isso, é a rainha dos mares.
Oficialmente, quando Elizabete/Isabel veio a Portugal (Madeira) pela primeira vez, em Novembro de 1860, foi por motivos de saúde. A Madeira era conhecida como estância terapêutica, com um clima favorável ao tratamento de tuberculose. Terá sido essa mesmo, a razão da viagem? Duvidou-se muito desse diagnóstico médico, a doença seria antes uma desculpa para a sua fuga da corte, cheia de etiquetas e obrigações, que tanto detestava. Outrossim, ela gostava de passeios, montar a cavalo, cavalgadas que chegavam a durar 10horas, e caçar. Admirava a beleza, ela que chegou a ser considerada a monarca mais bela do seu tempo adorava a poesia, em especial o alemão Heinrich Heine e não lhe interessava, nem a política nem o poder. A rigidez da corte austro-húngara não se compadecia com esta maneira de ser e cedo se sentiu prisioneira desse mundo. Tal como acontecia com o seu filho Rudolfo, que era tido por liberal- antiaristocrático e pró húngaro. Assim começou a distanciar-se e a virar-se para si mesma. Um dos seus biógrafos escreveu que o pretexto da doença abafará tudo isso. Na realidade, pode-se dizer que ela está doente, porque o seu estado de espírito influencia o corpo e o que não passaria de uma pequena anemia, de uma tosse insignificante, com esses comportamentos pode tornar-se uma verdadeira doença.
A sua sogra, com quem nunca se deu bem, terá dito que ela encenou a doença para fugir ao inverno da Áustria e, longe dali, poder viver de acordo com os seus próprios hábitos. Todavia, segundo a sua própria mãe, o problema de Isabel era mais psíquico que físico. Porquê então, a Madeira?
O Arquiduque Maximiliano, irmão do Imperador, conhecia bem a Madeira. Ali estivera pela primeira vez de 4 a 7 de julho de 1852, no regresso a uma viagem ao Brasil, voltou de 6 a 15 de Dezembro de 1859 e ainda de 5 a 12 de Março de 1860. Na Madeira, terá tido um romance com a princesa D. Amélia de Bragança, filha de D. Pedro IV, de Portugal, falecida pouco tempo depois, vítima de tuberculose. O Arquiduque, entretanto casado com Carlota de Saxe, filha de Leopoldo I da Bélgica, ia a caminho de se sentar no trono do México, cuja mulher Carlota veio a mergulhar na loucura, ainda passou outra vez pela Madeira, de 28 a 29 de Abril de 1864. Não admira que tenha ficado ligado à Madeira pelo que é possível que tendo falado desta ilha, tenha assim influenciado Elizabete/Isabel, na escolha. Durante a sua primeira deslocação à Madeira, a certa altura desencadeou-se no mar uma violenta tempestade. Enquanto os outros passageiros se mostraram amedrontados e se sentiam mal, ela admirava o espectáculo, sentia a tempestade, queria participar dela. Em vez de se recolher ao camarote, perante o perigo de ser arrastada pelas ondas, pediu para ser arrastada a um mastro, de modo a admirar o furor da natureza.
De Viena, Elizabete/Isabel, Sissi apenas terá tido saudades dos filhos e dos seus cavalos. Após uma separação de meses, o casal imperial voltou a ver-se em Maio de 1861. Ao fim de 4 dias os acessos de febre, ataques de tosse e de choro voltaram, tomando proporções preocupantes. O médico particular diagnosticou uma tuberculose e propôs uma estadia em Corfu, que se veio a realizar mais tarde.
Porque terá voltado Isabel, à Madeira? Saúde? Procura de distância da corte? Fuga ao inverno de Viena? Tentativa de recuperar os anos passados?
Quatro anos antes desse regresso, uma tragédia abalou seriamente a vida da Imperatriz, a morte do seu filho Rudolfo, e herdeiro do trono, que se suicidou em Meyerling, a 30 de Janeiro de 1889, depois de matar a amante, por não ter conseguido por razões de Estado o divórcio da mulher a Princesa Stephanie, da Bélgica, para casar com uma bela jovem de 17 anos, a baronesa Maria Vetsera. Este casal tinha feito um pacto de suicídio. A corte abafou a verdade. O corpo da baronesa foi retirado em segredo do local e pôs-se a correr aversão que Rudolfo morrera de um ataque cardíaco.
A tragédia parece ter feito parte da vida desta mulher, que teve o seu cunhado preferido, o irmão mais novo do marido, Maximiliano, fuzilado no México a 19 de Junho de 1867, o afogamento do marido da irmã, Ludwig II, e ainda a morte da irmã Sofie, queimada num incêndio de um bar.
Elizabete, Isabel, Sissi ficou para a história como uma mulher enigmática, que não viveu nenhum conto de fadas, mas uma vida trágica, coroada por uma morte também trágica, ao ser assassinada na via pública em Geneve (Suíça), nas margens do lago Leman, a 10 de Setembro de 1898, por um anarquista italiano, que procurava um grande feito em nome da causa, a apunhalou com um estilete, de certo modo por engano, dado que inicialmente a vítima pretendida era o Príncipe de Orleães, pretendente ao trono de França, tido pelos anarquistas como o grande representante da aristocracia. Aqui a toilette da Imperatriz pode ter sido fatal. Depois de agredida a Imperatriz caiu no chão tendo sido ajudada a levantar-se por populares a quem agradeceu. Mas devido ao apertado espartilho, o sangue passou a sair tão lentamente que ninguém se apercebeu que estava gravemente ferida. Antes de morrer e depois de ter percorrido a pé uma centena e metros perguntou:O que é que aconteceu comigo?
A vida de Isabel, Sissi acabou por se tornar um mito, que até hoje continua a fascinar as pessoas e que corporizou o glamour, mas também a dificuldade da vida na corte da Áustria-Hungria, no século XIX.
A cidade do Funchal, decidiu prestar-lhe homenagem e nessa sequência os jardins da Hotel Carlton, junto ao Casino, ganharam nova vida com a colocação de uma estátua da Imperatriz, em bronze e em tamanho natural.
A saga dos Habsburg em Portugal continuou depois de Elizabete/Isabel, Sissi,. Com o termo da I Guerra e a derrota do Império Austro-Húngaro muita coisa mudou no panorama europeu e mundial. Não vamos fazer a história político-militar desses tempos conturbados, mas uma simples evocação dos Habsburg entre nós. O final é triste como convém a estas histórias. Desde a Princesa Maria Leopoldina, futura imperatriz do Brasil, até Carlos, último soberano do Império Austro-Húngaro, todos começaram bem, pelo menos assim-assim, e acabaram mal. Carlos está sepultado na Igreja do Monte-Funchal, perto da casa onde passou os últimos meses de vida. A Madeira, foi o seu porto de abrigo ou de exílio e também a escala para o passamento, aos 34 anos de idade.
Em 1817 desembarcou na Madeira uma jovem princesa estrangeira, Maria Leopoldina filha de Francisco I, da Áustria, que ia a caminho do Brasil, onde a esperava o príncipe D. Pedro, com quem casara por procuração, depois de se conhecerem por retrato. Todavia este casamento foi um autêntico desastre. D. Pedro desprezou-a mal a viu, porque era feia e odiou-a mal a ouviu, porque era culta. No dia em que assumiu o trono do Brasil, D. Pedro promoveu a marquesa de Santos a concubina oficial. Leopoldina deu-lhe os filhos que lhe eram exigidos, desmazelou-se, engordou e entregou-se à melancolia e à bebida. Antes dos 30 anos morreu de um aborto por efeitos de um pontapé que o marido lhe deu, estava ela grávida.
Decorridos 35 anos sobre a passagem de Leopoldina, corria o ano de 1852 chegou à Madeira Fernando Maximiliano de Habsburg, irmão do Imperador Francisco José, que ao que se diz se tomou de amores pela princesa D. Maria Amélia de Bragança, que ali estava em tratamentos e à procura de melhoras. Parece que eles já se conheciam de Viena. D. Maria Amélia, órfã do segundo casamento de D. Pedro IV era uma jovem bela, viajada, culta e brilhante, que frequentara a corte de Viena onde terá impressionado Maximiliano. Morreu ao fim de 5 meses na Madeira, já Maximiliano tinha seguido viagem.
Quando Maximiliano voltou ao Funchal em 1859, nada faria prever que se iria tornar uma figura patética da história moderna. É aqui de certo modo a continuação da sua lua-de-mel, com a bela Carlota, que entretanto desposara, mas que fica no Funchal durante o inverno, enquanto ele segue para o Brasil. No regresso da América passou uns curtos dias na ilha, deixando a marca de pessoa boa e generosa nos donativos.
Voltando a escalar a ilha em 28 de Abril de 1864, Maximiliano vinha já investido do título de Imperador do México. Nunca mais conhecerá horas tão leves como as que ali passou. Em Junho de 1867, a Madeira e o mundo souberam que o Imperador Maximiliano, do México, acusado de traição e usurpação do poder público, morreu num pelotão de fuzilamento. Carlota que viera à Europa mendigar apoio para o marido, entra em estado de loucura.
Quando Isabel, Sissi, chegou ao Funchal, a cidade estava habituada a receber personalidades de relevo. Mas nenhuma outra terá deixado marca tão importante. Segundo Agustina Bessa-Luís, as meninas do Funchal começaram a imitar a Imperatriz no porte, nas indumentárias, nos gostos e até nos caprichos...
A Europa e o Mundo mudaram muito. A Guerra pôs termo a uma ordem há muito moribunda, instaurando outra ainda muito instável, que é uma incógnita. O Império Austro-Húngaro já não existia mais. Carlos I abdicou em Novembro de 1918 e no ano seguinte Karl Renner foi o primeiro chanceler da República da Áustria. A 25 de Março de 1921, Carlos de Habsburg chegou a Viena, via Suiça e França, com um passaporte espanhol falsificado para prosseguir viagem à Hungria, em companhia dos legitimistas mais próximos. No dia 22 de Outubro desse ano quando a avioneta do casal real aterrou na Hungria para arrancar o poder pela força, o governo em sessão desse dia tomou a decisão unânime de o rei Carlos (...) não poderá tomar o exercício dos seus direitos de soberano e terá de abandonar o território da Hungria, outra vez. Depois de falhada a tentativa de restauração, foram feitas pressões para abdicar voluntariamente do trono e prepara-se a lei da destronização. Carlos I desembarcou na Madeira, a 19 de Novembro de 1921, como derrotado e proscrito, acompanhado de Zita, a esposa. A Inglaterra, e os aliados, impuzeram-lhe esse destino depois da recambolesca tentativa de recuperar o trono. Ele assinou a renúncia, sem abdicar dos direitos ao trono. Os sete filhos em breve chegarão da Suíça. Grande número de pessoas acorreu ao cais, praia e Estrada da Pontinha para assistir ao desembarque dos ex-imperadores. Os viajantes sorriem agradavelmente, agradecendo com muita cortesia os cumprimentos que lhes eram dirigidos, embora tentassem esquivar-se a fotografias e filmagens.
O ex-Imperador devia pensar que o esperava um exílio longo. Teve missa todos os dias na sua residência, a Villa Victoria. Uma vida familiar, longe de intrigas, fá-lo-à esquecer dois anos de reinado para que não fora feito.
Como chegou lá? A herança caiu-lhe nas mãos devido ao suicídio de Rudolfo e ao assassinato de Francisco Fernando, respectivamente filho e sobrinho de Francisco José. Pouco tempo antes da sua morte Francisco José comentou que o seu sucessor é realmente um excelente príncipe. O meu povo pode depositar nele toda a confiança.
Se a ilha estava habituada a receber personalidades de destaque foi a primeira vez que recebe um monarca exilado. Mas estranhou quando cinquenta e tal anos depois, recebeu de passagem para o Brasil, Américo Tomás e Caetano.
Qual era o estatuto de Carlos da Áustria? Hóspede ou prisioneiro? Os ilhéus não se queriam ver no papel de carcereiros. Nem este era um Napoleão que também por ali passou a caminho de Santa Helena. Em breve a situação dos ex-imperadores tornou-se constrangedora. O casal real vinha pobre, sem dinheiro ou rendimentos. Além do mais tem sete filhos, o que obrigou a vender joias. Ao mesmo tempo a Checoeslováquia confiscou todos os bens dos Habsburg. Escasseia-lhes dinheiro para tudo, para pagar as dívidas, nomeadamente para se deslocarem à Sé-Catedral onde gostavam muito de comungar. Em Lisboa publicou-se a notícia da divergência sobre o pagamento das despesas com o exílio, pelo que são auxiliados por vários particulares madeirenses durante a estadia. Portugal pretendia ficar à margem de qualquer tipo de responsabilidade, favorecendo uma custódia cujas despesas correriam por conta dos Aliados. Carlos passava muitas tardes embrulhado num capote, por causa do frio e humidade, a jogar cartas com um elemento qualquer da comitiva.
De compleição débil, adoeceu em meados de Março. Nas igrejas da Madeira, a população rezou pela sua salvação, mas veio a falecer em 1 de Abril de 1922. As missas celebradas nas igrejas do Funchal em sufrágio de Carlos de Habsburg foram muito concorridas. No dia 4 de Abril, o Arquiduque Otto, de 12 anos, filho mais velho de Carlos e Zita, foi proclamado rei pelos monárquicos austro-húngaros. Os próprios irmãos passaram a tratá-lo por magestade. No dia 7 de Abril chegaram ao Funchal várias personalidades régias, entre as quais, a Infanta D. Maria Antónia, Duquesa de Parma, filha de D. Miguel de Bragança, que manifestou a sua satisfação por ela poder acolher-se na Madeira, entre Portugueses. Na sala principal da sua casa havia dois retratos a óleo, um de D. João VI e outro de D. Carlota Joaquina, que eram antepassados comuns de Carlos e Zita. Ele era bisneto de D. Pedro IV e ela neta de D. Miguel. Ficou sepultado no cemitério da freguesia enquanto na Igreja não se abriu uma capela para o receber. Mas o coração foi mandado para Viena, a fim de se reunir aos dos outros Habsburg. A ex-Imperatriz Zita e os seus filhos deixaram a Madeira no dia 19 de Maio com destino a Espanha. O seu oitavo filho, aliás uma menina, nasceu em Espanha, dois meses depois da morte do pai, facto que por gentileza foi comunicado à população do Funchal a pedido da ex-Imperatriz Zita. Esta, durante um longo exílio pela Europa, veio por várias vezes ao Funchal, rezar junto ao túmulo do marido. Faleceu em 1989.
Em 1 de Abril de 1972, 50 anos após a sua morte e assinalando esse meio século, quis a Santa Sé proceder à abertura do túmulo do soberano. A exumação dos restos mortais de Carlos I foi feita na presença dos técnicos necessários à operação, uma comissão nomeada pelo Vaticano a pedido da Causa de Beatificação de Carlos de Áustria.
terça-feira, 1 de junho de 2010
RAINHA ISABEL II - VI AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
VI
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Em 25 de Junho de 1891, visitaram Alcobaça, o Rei D. Carlos e Esposa, D. Amélia, tendo sido festivamente recebidos pela população e pelas forças vivas. Segundo Bernardo Villa-Nova, no Livro de Honra do Hospital de Alcobaça, então recentemente inaugurado, D. Carlos escreveu com o seu punho:
APROVEITO A OCASIÃO DESTA VISITA PARA FELICITAR A MESA DA MISERICÓRDIA PELA PERFEIÇÃO DE ARRANJO E DE ASSEIO EM QUE TEM O HOSPITAL.
EL-REI D. CARLOS
D. AMÉLIA-RAINHA
Em 29 de Abril de 1907, de novo o Rei D. Carlos visitou Alcobaça, acompanhado do príncipe alemão Guilherme de Hohenlern.
A Rainha D. Amélia havia feito uma visita particular ao Mosteiro em Agosto de 1892.
De origem francesa, era pessoa culta e artista e que, não obstante os tempos conturbados do fim da monarquia e do exílio que cumpriu, assumiu sempre postura digna e respeitável.
D. Amélia era delicada pintora e desenhadora, sendo a sua obra mais conhecida, a colecção de desenhos do Paço de Sintra, destinados a ilustrar o estudo do Conde de Sabugosa, sobre esse palácio. Já no exílio, em França, manifestou para com os desprotegidos de Portugal, o espírito beneficente. Note-se, que o produto da venda da edição em dois volumes fac-similados de Mes Dessins, reverteu a favor da Associação Nacional aos Tuberculosos. D. Amélia dedicou parte da sua vida a fundar e apoiar instituições de beneficência, ligadas à saúde, à ciência e à cultura.
Entre estas, destacam-se dispensários e sanatórios, lactários, cozinhas económicas, bem como as creches que davam assistência às crianças pobres.
Em 1899, fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos e criou em Portugal, o primeiro Instituto Pasteur, com o nome de Instituto Câmara Pestana.
Também o interesse pelos bens e cultura portugueses, levou-a a fundar o Museu Nacional dos Coches. Voltando à referida visita, diremos que nesse mês de Agosto de 1892, D. Amélia veio a Alcobaça acompanhada dos seus amigos Conde de Sabugosa e Esposa, para desenhar alguns temas do Mosteiro, na altura em fase de degradação, por incúria dos governantes e também de pessoas da terra.
Segundo rezam as crónicas locais (imprensa), eivadas de algumas pinceladas poéticas, naquela mansão de luto que arte tornou tão bela, a presença da Rainha, sentada num tosco escadote, desenhando o túmulo de outra rainha que a precedeu no mesmo trono e cuja existência custou tantas lágrimas a uma pobre repudiada, tomou a nossos olhos um vulto especial, uma especial feição. Não víamos nela somente a mulher coroada, víamos uma artista modestamente vestida, extasiada ante um modelo que foi um primor na arte. (...) Vimos a arqueóloga seguindo a evolução da arte, não se importando com os dramas e os idílios que cada um daqueles monumentos representa.
Não constitui exagero, afirmarmos que o Mosteiro de Alcobaça, sintetiza alguns dos aspectos que nos identificam como Povo e Nação.
Talvez, por isso, uma mulher de origem francesa, tentou em Alcobaça compreender o verdadeiro e profundo ser e sentir de um povo, que já não nutria simpatia especial pela Monarquia, mas que nunca deixou de considerar a Rainha. Segundo o jornal que se publicava na vila, denominado De Alcobaça, após ter almoçado no Claustro de D. Dinis, sentada nuns degraus arruinados, demorou-se seis horas em trabalho delicado e paciente e, ao despedir-se, disse que voltaria muitas vezes, porque tinha muito que desenhar ali.
D. Amélia não chegou a voltar a Alcobaça, nem mesmo quando terminada a Guerra, foi em Junho de 1945 autorizada, tal como a demais família real, a visitar Portugal.
No início da Guerra, Salazar ofereceu-lhe asilo, que foi recusado. Faleceu em França, a 25 de Outubro de 1951 e encontra-se sepultada no Panteão Nacional.
Depois de Isabel, os jovens Príncipes de Mónaco, Rainier e a charmosa Grace, acompanhados dos filhos, visitaram Alcobaça em 1964, no seguimento de uma ida a Fátima, tendo almoçado na Estalagem do Cruzeiro, em Aljubarrota. Há quem conte, como Luísa Pescadinha, ter assistido na Nazaré, a Princesa Grace, a contar e confirmar pessoalmente, as suas típicas sete saias de peixeira.
Em 1959, o Rei dos Reis, O Senhor dos Senhores, O Conquistador Leão da Tribo de Judah, O Supremo Defensor da Fé e Poder da Santíssima Trindade, o Imperador Etíope, Hailé Selassié, que havia sido coroado em 2 de Novembro de 1930 (o salmo 87:4-6 foi também interpretado como a previsão da coroação de Hail Selassié), efectuou uma visita a Portugal e, a Alcobaça, atirando aquando do acesso ao Mosteiro, moedas de ouro aos populares que se debatiam histericamente atrás delas. Hailé Selassié era, de acordo com a tradição, o ducentésimo vigésimo quinto da linhagem de imperadores etíopes, descendentes do bíblico Rei Salomão e a Rainha de Sheba. Nos discursos da praxe, o Chefe de Estado africano e os responsáveis portugueses, fizeram referências aos laços históricos que uniam os dois países, desde o século XVI.
Na evocação da amizade luso-etíope, um episódio parece ter sido deliberadamente omitido, a posição assumida por Portugal na Sociedade das Nações, aquando da agressão da Itália fascista à Abissínia. Porque é que até determinada altura a defesa da independência da Abissínia mereceu o apoio do governo de Lisboa?
E quais os motivos do volte-face operado por Portugal, em 1936, quando chegou internacionalmente a altura de endurecer o regime de sanções imposto à Itália?
FIM
VI
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Em 25 de Junho de 1891, visitaram Alcobaça, o Rei D. Carlos e Esposa, D. Amélia, tendo sido festivamente recebidos pela população e pelas forças vivas. Segundo Bernardo Villa-Nova, no Livro de Honra do Hospital de Alcobaça, então recentemente inaugurado, D. Carlos escreveu com o seu punho:
APROVEITO A OCASIÃO DESTA VISITA PARA FELICITAR A MESA DA MISERICÓRDIA PELA PERFEIÇÃO DE ARRANJO E DE ASSEIO EM QUE TEM O HOSPITAL.
EL-REI D. CARLOS
D. AMÉLIA-RAINHA
Em 29 de Abril de 1907, de novo o Rei D. Carlos visitou Alcobaça, acompanhado do príncipe alemão Guilherme de Hohenlern.
A Rainha D. Amélia havia feito uma visita particular ao Mosteiro em Agosto de 1892.
De origem francesa, era pessoa culta e artista e que, não obstante os tempos conturbados do fim da monarquia e do exílio que cumpriu, assumiu sempre postura digna e respeitável.
D. Amélia era delicada pintora e desenhadora, sendo a sua obra mais conhecida, a colecção de desenhos do Paço de Sintra, destinados a ilustrar o estudo do Conde de Sabugosa, sobre esse palácio. Já no exílio, em França, manifestou para com os desprotegidos de Portugal, o espírito beneficente. Note-se, que o produto da venda da edição em dois volumes fac-similados de Mes Dessins, reverteu a favor da Associação Nacional aos Tuberculosos. D. Amélia dedicou parte da sua vida a fundar e apoiar instituições de beneficência, ligadas à saúde, à ciência e à cultura.
Entre estas, destacam-se dispensários e sanatórios, lactários, cozinhas económicas, bem como as creches que davam assistência às crianças pobres.
Em 1899, fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos e criou em Portugal, o primeiro Instituto Pasteur, com o nome de Instituto Câmara Pestana.
Também o interesse pelos bens e cultura portugueses, levou-a a fundar o Museu Nacional dos Coches. Voltando à referida visita, diremos que nesse mês de Agosto de 1892, D. Amélia veio a Alcobaça acompanhada dos seus amigos Conde de Sabugosa e Esposa, para desenhar alguns temas do Mosteiro, na altura em fase de degradação, por incúria dos governantes e também de pessoas da terra.
Segundo rezam as crónicas locais (imprensa), eivadas de algumas pinceladas poéticas, naquela mansão de luto que arte tornou tão bela, a presença da Rainha, sentada num tosco escadote, desenhando o túmulo de outra rainha que a precedeu no mesmo trono e cuja existência custou tantas lágrimas a uma pobre repudiada, tomou a nossos olhos um vulto especial, uma especial feição. Não víamos nela somente a mulher coroada, víamos uma artista modestamente vestida, extasiada ante um modelo que foi um primor na arte. (...) Vimos a arqueóloga seguindo a evolução da arte, não se importando com os dramas e os idílios que cada um daqueles monumentos representa.
Não constitui exagero, afirmarmos que o Mosteiro de Alcobaça, sintetiza alguns dos aspectos que nos identificam como Povo e Nação.
Talvez, por isso, uma mulher de origem francesa, tentou em Alcobaça compreender o verdadeiro e profundo ser e sentir de um povo, que já não nutria simpatia especial pela Monarquia, mas que nunca deixou de considerar a Rainha. Segundo o jornal que se publicava na vila, denominado De Alcobaça, após ter almoçado no Claustro de D. Dinis, sentada nuns degraus arruinados, demorou-se seis horas em trabalho delicado e paciente e, ao despedir-se, disse que voltaria muitas vezes, porque tinha muito que desenhar ali.
D. Amélia não chegou a voltar a Alcobaça, nem mesmo quando terminada a Guerra, foi em Junho de 1945 autorizada, tal como a demais família real, a visitar Portugal.
No início da Guerra, Salazar ofereceu-lhe asilo, que foi recusado. Faleceu em França, a 25 de Outubro de 1951 e encontra-se sepultada no Panteão Nacional.
Depois de Isabel, os jovens Príncipes de Mónaco, Rainier e a charmosa Grace, acompanhados dos filhos, visitaram Alcobaça em 1964, no seguimento de uma ida a Fátima, tendo almoçado na Estalagem do Cruzeiro, em Aljubarrota. Há quem conte, como Luísa Pescadinha, ter assistido na Nazaré, a Princesa Grace, a contar e confirmar pessoalmente, as suas típicas sete saias de peixeira.
Em 1959, o Rei dos Reis, O Senhor dos Senhores, O Conquistador Leão da Tribo de Judah, O Supremo Defensor da Fé e Poder da Santíssima Trindade, o Imperador Etíope, Hailé Selassié, que havia sido coroado em 2 de Novembro de 1930 (o salmo 87:4-6 foi também interpretado como a previsão da coroação de Hail Selassié), efectuou uma visita a Portugal e, a Alcobaça, atirando aquando do acesso ao Mosteiro, moedas de ouro aos populares que se debatiam histericamente atrás delas. Hailé Selassié era, de acordo com a tradição, o ducentésimo vigésimo quinto da linhagem de imperadores etíopes, descendentes do bíblico Rei Salomão e a Rainha de Sheba. Nos discursos da praxe, o Chefe de Estado africano e os responsáveis portugueses, fizeram referências aos laços históricos que uniam os dois países, desde o século XVI.
Na evocação da amizade luso-etíope, um episódio parece ter sido deliberadamente omitido, a posição assumida por Portugal na Sociedade das Nações, aquando da agressão da Itália fascista à Abissínia. Porque é que até determinada altura a defesa da independência da Abissínia mereceu o apoio do governo de Lisboa?
E quais os motivos do volte-face operado por Portugal, em 1936, quando chegou internacionalmente a altura de endurecer o regime de sanções imposto à Itália?
FIM
RAINHA ISABEL II - V AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
V
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Por onde andou, Belém, Alcobaça, Nazaré, aonde assistiu à exibição de dois ranchos folclóricos, e Batalha, a soberana britânica foi aclamada por milhares de pessoas, embora muitas das situações tivessem sido encenadas, como se veio a saber com os pescadores da Nazaré.
Percebe-se pela correspondência trocada entre diplomatas dos dois países, que o embaixador britânico em Lisboa, Sir Charles Stirling, quis conhecer, com mais de um mês de antecedência, o conteúdo do discurso do Presidente da República. Fez-se saber, de Londres, que a Rainha não desejava uma visita do Presidente do Conselho, alegando que tal podia implicar uma conversa sobre grandes problemas políticos.
Faltava mais de uma semana para a concretização da visita oficial da Rainha Isabel, e já a correspondência engrossava o dossier no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre todos os pormenores, incluindo financeiros.
Enquanto as ofertas inglesas parece não ascenderem a mais de 20 ou 25 mil escudos, as nossas somaram 222.590$90, alertava uma nota do M.N.E. em Janeiro de 1957, dando conta dos valores: uma banda para a Rainha-95.000$00; um serviço de jantar para a Rainha e de chá para o Duque- 90.000$00); um lugre Gazela para o príncipe Carlos-25.000$00; uma boneca, vestidos e toucador de prata para a princesa Ana-11.000$00.
E até houve um presente extra para Isabel II, o Bussaco, um belo garanhão castanho, com oito anos, de pura raça lusitana e detentor certificado de árvore genealógica de três gerações, com arreios encomendados pelo próprio Presidente da República. Sabe-se que o animal deixou descendência nas cavalariças inglesas. Para lá do protocolo, a Rainha conversou com Craveiro Lopes, que sendo oficial de cavalaria, era um entendido em assuntos de raças e performances, como a Rainha.
Todos os passos da visita real foram previstos ao detalhe. As dormidas, a hora do chá, a criadagem, os seguranças, que não deviam dormir em Queluz no mesmo piso da Rainha, a presença da PIDE, os cortejos, os banquetes inclusive de Alcobaça, as visitas, os petiscos. E algumas dicas: A Rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata, lia-se nas indicações do Embaixador Inglês, em Lisboa.
António Pinto de Mesquita, embaixador reformado, contou ao Diário de Notícias, a propósito dos cinquenta anos da visita, que ainda conserva o uniforme que o Ministério dos Negócios Estrangeiros ofereceu aos funcionários para a visita, mas ofereci-o ao meu filho, porque já vamos na quarta geração de diplomatas.
Na altura, Pinto de Mesquita tinha 29 anos, e estava no Serviço de Protocolo do M.N.E., pelo que assisti à cena em que o duque renunciou, no Porto, ao Rolls-Royce e entrou num carro de bombeiros aberto..
Lembra que Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo o esforço diplomático de Armindo Monteiro, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido.
A visita de 4 dias de Isabel de Inglaterra, constituiu uma prova de fogo para a RTP, que começava a dar os primeiros passos.
Foi acontecimento que teve significado especial para o País e o Regime.
Um tema como este, rodeado de um enorme interesse popular, levou a RTP a ter a oportunidade, bem como a necessidade, de oferecer a um relativamente significativo número de espectadores em expansão, a cobertura integral da visita, fazendo uma reportagem, até à altura, sem paralelo na história da informação no país.
Os passos da soberana e marido, foram minuciosa e rigorosamente documentados pelas equipas de repórteres de câmara e chegaram, escassas horas depois, a uma audiência que, estimativas ao tempo, calcularam ser cerca de um milhão de portugueses, atendendo à invulgar frequência registada nos locais públicos, como cafés e estabelecimentos, onde normalmente ainda só se encontravam os receptores.
A visita, mereceu na RTP as honras de um jornal diário, e que, incluindo as reportagens do dia, não deixava de documentar o programa do dia seguinte, mostrando os locais a visitar, a descrição dos acontecimentos próximos, os preparativos que estavam a decorrer. Alcobaça sentiu essa presença e afã, que mobilizou, pelo inusitado, o interesse das pessoas, ao reconhecer algumas caras do pequeno ecrã e proporcionou motivos de conversa nas famílias e tertúlias.
A par do serviço que houve que assegurar para a RTP, teve esta de responder ao interesse do estrangeiro, pelo fornecimento de imagens. Largas dezenas de metros de filme, na altura utilizava-se uma película que tinha de ser impressionada ao jeito do cinema, foram fornecidos ao Brasil e à United Press Television.
Por outro lado, tanto a BBC, como a ITV, fizeram deslocar a Portugal equipas de reportagem. A BBC, chegou a Portugal com alguma antecedência para documentar todos os locais a visitar por Isabel II.
A cerimónia do desembarque de Isabel II no Terreiro do Paço, foi objecto de um interesse especial. Uma bobina com muitos metros de filme, compreendendo planos colhidos de posição estratégica, era necessária ao conjunto da reportagem e foi rodada por um operador da RTP, o único que teve permisdsão para aceder ao local. Um jacto da RAF, aguardou na Portela o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega do filme, e de outros realizados por operadores britânicos. Cerca de 3 horas depois, o Reino Unido via as imagens da Rainha a desembarcar em Lisboa.
Na memória colectiva de Alcobaça, está indissoluvelmente ligado a esta visita real, a pessoa do Presidente da Câmara, Joaquim Augusto de Carvalho. É de justiça fazer-lhe aqui uma pequena homenagem, para o que nos socorremos da notícia publicada em O Alcoa, de 17 de Julho de 2008, da autoria de Luís Peres Pereira:
Natural de Ílhavo, veio para Alcobaça na década de 30. Foi co-fundador da Crisal e Presidente do Clube Desportivo Comércio e Indústria de Alcobaça. No mandato de Júlio Biel, foi vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo. Tomou posse como Presidente da Câmara a 9 de Outubro de 1953. O seu mandato, fortemente, ligado à aplicação do II Plano de Fomento, permite-lhe investir em várias frentes, nomeadamente, na electrificação, que neste período foi alvo de colossal avanço. Assim, em várias sedes de freguesia e respectivos lugares, é inaugurada a rede eléctrica: Alpedriz, Bárrio, Benedita, e cinco dos seus lugares, Cós e dois lugares, Évora de Alcobaça, Turquel, Montes, Vestearia, Vimeiro, Maiorga e quatro lugares, Pataias e um lugar, Pataias- Gare, e Alfeizerão e dois lugares. A componente educativa também foi contemplada, destacando-se o apoio prestado para o arranque da Escola Técnica de Alcobaça, a criação do Posto Escolar de Monte de Bois, no Bárrio; edificação das cantinas escolares, em Pataias, Aljubarrota e Ataíja; construção de escolas nas freguesias de Cela (Junqueira) Turquel (Casal de Vale de Ventos, Louções, Carvalhal e Fonte Santa) e Pataias e início das obras da futura escola de Cós. As ligações viárias também conheceram avanço. Na freguesia de Alfeizerão inaugurou a estrada do Casal Pardo e o acesso ao Valado de Santa Quitéria; ligação entre Turquel e Carvalhal; e a abertura da estrada de ligação da Castanheira ao Juncal. Outros investimentos, como a requalificação da Avenida Marginal em S. Martinho do Porto, a construção do Estádio Municipal de Alcobaça, uma fonte no Casal dos Lopes, freguesia da Maiorga, ou um lavadouro público no Casal de Aguiar, freguesia de Alfeizerão, espelham bem a diversidade da sua actividade autárquica.
Várias Igrejas são abertas ao culto neste período: Benedita, Bárrio, Vimeiro e Carris, freguesia de Évora. Assiste-se à reabertura de Igrejas Paroquiais de Turquel e da Vestearia, e da Igreja da Misericórdia de Alcobaça. As visitas internacionais também marcaram o seu mandato: a visita de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia; da Princesa Margarida, de Inglaterra, e a visita da Rainha Isabel II, de Inglaterra, acompanhada do Presidente da República General Craveiro Lopes. Esta última visita impulsionou uma impressionante transformação urbana da Praça Oliveira Salazar, de onde foi retirado o Edifício do Jardim-Escola João de Deus Ramos, libertando mais ainda visualmente a Praça, ao mesmo tempo que promoveu obras de reintegração do Castelo de Alcobaça. Ao longo do mandato homenageou Frei Estêvão Martins, o Bispo D. António de Campos, Manuel Vieira Natividade e a Ala dos Namorados, o grupo dos bravos jovens cavaleiros mortos na Batalha de Aljubarrota, que se encontram sepultados no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça, contando nestes dois momentos com a presença do Sub-Secretário da Educação Nacional, Baltasar Rebelo de Sousa. Na ocasião da sua retirada da Autarquia, em 1963, foi alvo de apoteótica homenagem (…). Completaria 96 anos de idade a 4 de Setembro.
CONTINUA
V
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DAS INSTALAÇÕES DA TOILETTE DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
Por onde andou, Belém, Alcobaça, Nazaré, aonde assistiu à exibição de dois ranchos folclóricos, e Batalha, a soberana britânica foi aclamada por milhares de pessoas, embora muitas das situações tivessem sido encenadas, como se veio a saber com os pescadores da Nazaré.
Percebe-se pela correspondência trocada entre diplomatas dos dois países, que o embaixador britânico em Lisboa, Sir Charles Stirling, quis conhecer, com mais de um mês de antecedência, o conteúdo do discurso do Presidente da República. Fez-se saber, de Londres, que a Rainha não desejava uma visita do Presidente do Conselho, alegando que tal podia implicar uma conversa sobre grandes problemas políticos.
Faltava mais de uma semana para a concretização da visita oficial da Rainha Isabel, e já a correspondência engrossava o dossier no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre todos os pormenores, incluindo financeiros.
Enquanto as ofertas inglesas parece não ascenderem a mais de 20 ou 25 mil escudos, as nossas somaram 222.590$90, alertava uma nota do M.N.E. em Janeiro de 1957, dando conta dos valores: uma banda para a Rainha-95.000$00; um serviço de jantar para a Rainha e de chá para o Duque- 90.000$00); um lugre Gazela para o príncipe Carlos-25.000$00; uma boneca, vestidos e toucador de prata para a princesa Ana-11.000$00.
E até houve um presente extra para Isabel II, o Bussaco, um belo garanhão castanho, com oito anos, de pura raça lusitana e detentor certificado de árvore genealógica de três gerações, com arreios encomendados pelo próprio Presidente da República. Sabe-se que o animal deixou descendência nas cavalariças inglesas. Para lá do protocolo, a Rainha conversou com Craveiro Lopes, que sendo oficial de cavalaria, era um entendido em assuntos de raças e performances, como a Rainha.
Todos os passos da visita real foram previstos ao detalhe. As dormidas, a hora do chá, a criadagem, os seguranças, que não deviam dormir em Queluz no mesmo piso da Rainha, a presença da PIDE, os cortejos, os banquetes inclusive de Alcobaça, as visitas, os petiscos. E algumas dicas: A Rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata, lia-se nas indicações do Embaixador Inglês, em Lisboa.
António Pinto de Mesquita, embaixador reformado, contou ao Diário de Notícias, a propósito dos cinquenta anos da visita, que ainda conserva o uniforme que o Ministério dos Negócios Estrangeiros ofereceu aos funcionários para a visita, mas ofereci-o ao meu filho, porque já vamos na quarta geração de diplomatas.
Na altura, Pinto de Mesquita tinha 29 anos, e estava no Serviço de Protocolo do M.N.E., pelo que assisti à cena em que o duque renunciou, no Porto, ao Rolls-Royce e entrou num carro de bombeiros aberto..
Lembra que Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo o esforço diplomático de Armindo Monteiro, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido.
A visita de 4 dias de Isabel de Inglaterra, constituiu uma prova de fogo para a RTP, que começava a dar os primeiros passos.
Foi acontecimento que teve significado especial para o País e o Regime.
Um tema como este, rodeado de um enorme interesse popular, levou a RTP a ter a oportunidade, bem como a necessidade, de oferecer a um relativamente significativo número de espectadores em expansão, a cobertura integral da visita, fazendo uma reportagem, até à altura, sem paralelo na história da informação no país.
Os passos da soberana e marido, foram minuciosa e rigorosamente documentados pelas equipas de repórteres de câmara e chegaram, escassas horas depois, a uma audiência que, estimativas ao tempo, calcularam ser cerca de um milhão de portugueses, atendendo à invulgar frequência registada nos locais públicos, como cafés e estabelecimentos, onde normalmente ainda só se encontravam os receptores.
A visita, mereceu na RTP as honras de um jornal diário, e que, incluindo as reportagens do dia, não deixava de documentar o programa do dia seguinte, mostrando os locais a visitar, a descrição dos acontecimentos próximos, os preparativos que estavam a decorrer. Alcobaça sentiu essa presença e afã, que mobilizou, pelo inusitado, o interesse das pessoas, ao reconhecer algumas caras do pequeno ecrã e proporcionou motivos de conversa nas famílias e tertúlias.
A par do serviço que houve que assegurar para a RTP, teve esta de responder ao interesse do estrangeiro, pelo fornecimento de imagens. Largas dezenas de metros de filme, na altura utilizava-se uma película que tinha de ser impressionada ao jeito do cinema, foram fornecidos ao Brasil e à United Press Television.
Por outro lado, tanto a BBC, como a ITV, fizeram deslocar a Portugal equipas de reportagem. A BBC, chegou a Portugal com alguma antecedência para documentar todos os locais a visitar por Isabel II.
A cerimónia do desembarque de Isabel II no Terreiro do Paço, foi objecto de um interesse especial. Uma bobina com muitos metros de filme, compreendendo planos colhidos de posição estratégica, era necessária ao conjunto da reportagem e foi rodada por um operador da RTP, o único que teve permisdsão para aceder ao local. Um jacto da RAF, aguardou na Portela o tempo necessário para que um estafeta-moto fizesse entrega do filme, e de outros realizados por operadores britânicos. Cerca de 3 horas depois, o Reino Unido via as imagens da Rainha a desembarcar em Lisboa.
Na memória colectiva de Alcobaça, está indissoluvelmente ligado a esta visita real, a pessoa do Presidente da Câmara, Joaquim Augusto de Carvalho. É de justiça fazer-lhe aqui uma pequena homenagem, para o que nos socorremos da notícia publicada em O Alcoa, de 17 de Julho de 2008, da autoria de Luís Peres Pereira:
Natural de Ílhavo, veio para Alcobaça na década de 30. Foi co-fundador da Crisal e Presidente do Clube Desportivo Comércio e Indústria de Alcobaça. No mandato de Júlio Biel, foi vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo. Tomou posse como Presidente da Câmara a 9 de Outubro de 1953. O seu mandato, fortemente, ligado à aplicação do II Plano de Fomento, permite-lhe investir em várias frentes, nomeadamente, na electrificação, que neste período foi alvo de colossal avanço. Assim, em várias sedes de freguesia e respectivos lugares, é inaugurada a rede eléctrica: Alpedriz, Bárrio, Benedita, e cinco dos seus lugares, Cós e dois lugares, Évora de Alcobaça, Turquel, Montes, Vestearia, Vimeiro, Maiorga e quatro lugares, Pataias e um lugar, Pataias- Gare, e Alfeizerão e dois lugares. A componente educativa também foi contemplada, destacando-se o apoio prestado para o arranque da Escola Técnica de Alcobaça, a criação do Posto Escolar de Monte de Bois, no Bárrio; edificação das cantinas escolares, em Pataias, Aljubarrota e Ataíja; construção de escolas nas freguesias de Cela (Junqueira) Turquel (Casal de Vale de Ventos, Louções, Carvalhal e Fonte Santa) e Pataias e início das obras da futura escola de Cós. As ligações viárias também conheceram avanço. Na freguesia de Alfeizerão inaugurou a estrada do Casal Pardo e o acesso ao Valado de Santa Quitéria; ligação entre Turquel e Carvalhal; e a abertura da estrada de ligação da Castanheira ao Juncal. Outros investimentos, como a requalificação da Avenida Marginal em S. Martinho do Porto, a construção do Estádio Municipal de Alcobaça, uma fonte no Casal dos Lopes, freguesia da Maiorga, ou um lavadouro público no Casal de Aguiar, freguesia de Alfeizerão, espelham bem a diversidade da sua actividade autárquica.
Várias Igrejas são abertas ao culto neste período: Benedita, Bárrio, Vimeiro e Carris, freguesia de Évora. Assiste-se à reabertura de Igrejas Paroquiais de Turquel e da Vestearia, e da Igreja da Misericórdia de Alcobaça. As visitas internacionais também marcaram o seu mandato: a visita de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia; da Princesa Margarida, de Inglaterra, e a visita da Rainha Isabel II, de Inglaterra, acompanhada do Presidente da República General Craveiro Lopes. Esta última visita impulsionou uma impressionante transformação urbana da Praça Oliveira Salazar, de onde foi retirado o Edifício do Jardim-Escola João de Deus Ramos, libertando mais ainda visualmente a Praça, ao mesmo tempo que promoveu obras de reintegração do Castelo de Alcobaça. Ao longo do mandato homenageou Frei Estêvão Martins, o Bispo D. António de Campos, Manuel Vieira Natividade e a Ala dos Namorados, o grupo dos bravos jovens cavaleiros mortos na Batalha de Aljubarrota, que se encontram sepultados no Claustro do Silêncio do Mosteiro de Alcobaça, contando nestes dois momentos com a presença do Sub-Secretário da Educação Nacional, Baltasar Rebelo de Sousa. Na ocasião da sua retirada da Autarquia, em 1963, foi alvo de apoteótica homenagem (…). Completaria 96 anos de idade a 4 de Setembro.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - IV AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
IV
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta?
As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que compreendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos.
Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.
Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa.
Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.
Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas.
As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava.
Ouvimos recentemente contar a história que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto.
Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.
E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real?Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.
Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor.
Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas.
O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como muitos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.
Houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria).
Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo.
Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta.
Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, Manuel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos.
Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher.
A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato.
Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.
Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Os alfaiates estão, pois, em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção.
Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos, numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos.
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhe para vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!.
CONTINUA
IV
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
As pessoas em Alcobaça também se prepararam, para a visita, mesmo sabendo que não iriam nem poderiam ser convidadas para as recepções.
Como era a moda e o que se usava nos fins da década de cinquenta?
As senhoras da sociedade usavam luvas, sempre que possível a condizer com o vestido, composto de uma jaqueta e saia, com abertura nas mangas e golas em bico. O chapéu era cónico, o sapato negro de tacão, por vezes alto, e com biqueira. Tal como sempre, houve senhoras que queriam ver e ser vistas, revelando estarem up date, adquirindo conjuntos de toiletes, que compreendiam sapatos, chapéus e vestidos, em modistas e estabelecimentos de Lisboa (pois que em Alcobaça não se sentiam confortadas, para o grande momento…), apesar de haver modistas. Mas estas eram mais tipo costureiras como a Maria Amélia do Couto, a Segismunda, a Maria Pequena ou a Sineiro, que faziam vestidos simples, inclusive de noiva, e principalmente muitos arranjos.
Há cerca de 50 anos a principal modista de Alcobaça era talvez Elvira Veríssimo, que tinha um atelier na rua do Dr. Brilhante, situado ao lado da actual Ourivesaria Rilhó, considerada por muitos como a mestra das outras que trabalharam em Alcobaça. Não se esqueça a Lúcia costureira, a América, mulher do Fernando Albano, a Joaquina Coelho, com atelier perto da antiga Olaria de Alcobaça, a Maria do Carmo, a Alice, a Virgínia Mineiro, com atelier na Pissarra e mulher de Pica Sapateiro. Estas modistas/costureiras tinham clientes, tanto da vila, como de vários pontos do Concelho. A mulher de Altino fez os vestidos por medida para muita noiva, embora houvesse já as que os compravam feitos.
Domingas Lucas, que não ganhou com a visita da Rainha, diz na sua forma peculiar de se exprimir, que nunca ninguém lhe ensinou costura, que esta arte é um dom. Não sei explicar, mas acho que cada qual nasce com uma habilidade e um gosto para uma coisa.
Além de ser bastante conhecida e por vezes ainda solicitada na zona onde reside, Alfeizerão, os seus fatos já tiveram méritos reconhecidos. Algumas senhoras nem chegavam a tirar medidas, explicou, adiantando que, a maior parte das vezes, saía-lhe bem à primeira, o que dispensava as provas.
Para a visita da Rainha, os sapateiros de Alcobaça, como o Cândido Sarmento, o João Elias, o Juveo, o Pica, da Pissarra, também não tiveram clientes, não fizeram negócio, não competiam com os de Lisboa, seja com os cavalheiros ou com as senhoras. Eram, ainda e só, sapateiros à maneira tradicional. O calçado, faziam-no à mão. Utilizavam peles de vitelo e vaca, que, quando secas e grosseiras, tinham o nome de atanadas.
As peles eram ensebadas, ao lume para se impermeabilizar, com sebo de borrego que se comprava no talho. Usava-se pneu para as solas. O cerol servia para untar as linhas, de modo a ficarem mais resistentes. O sapateiro tradicional usava martelos, torqueses e sovelas, instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros usavam para furar o cabedal para coser, pois do calçado faziam parte a presilha, o tacão, a gáspea, daí o dizer-se que mandei gaspear os sapatos, a palmilha, a vira, o rebordo, as almas, as solas, daí o dizer-se mandei deitar meias solas. Nas solas dos sapatos e botas usavam-se com frequência os chamados pregadores ou protectores, peças pequenas em ferro, colocadas nas biqueiras ou calcanhares, para que as solas durassem mais tempo. Era dura, não desafogada, a vida do sapateiro, até porque muita gente, há sessenta anos ainda andava descalça... ou não pagava.
Ouvimos recentemente contar a história que segue, embora não tenhamos conseguido apurar com quem se passou. Há cerca de 60 anos um sapateiro de Alcobaça, começou a exigir o pré-pagamento do trabalho. As razões eram evidentes. Alguns clientes não pagavam, outros não levantavam os trabalhos, e no fim do mês as más consequências desses comportamentos eram manifestas. Um dia, um cliente pediu que lhe fossem substituídos os tacões dos seus sapatos de marca, alegadamente para ir à recepção à Rainha. O sapateiro explicou ao cliente que tinha de os deixar, podendo levantá-los mais tarde. Ao mesmo tempo, propôs-lhe o prévio pagamento do serviço. Mas como o cliente dizia ter todo o tempo do mundo, não se importava de esperar. E, assim foi. Tirou os sapatos, sentou-se numa cadeira, cruzou as pernas, mostrando meias de boa qualidade, e fumou um cigarrinho, enquanto aguardava. Ao fim de algum tempo, o trabalho estava pronto.
Calçou-se, perguntou quanto era e disse que tinha que ir ao carro buscar a carteira, pois não tinha ido antes, porque não podia ir descalço.
-Concerteza, comentou, com a maior naturalidade o sapateiro.
O cliente, sapatos arranjados, saiu da loja e nunca mais apareceu.
E os cabeleireiros da terra?
Tinham ou tiveram muito que fazer com a visita real?Com a vista real cremos também que não. O cabeleireiro de Alcobaça com mais freguesia, com clientes mesmo de Caldas da Rainha, era o Manuel Catita, com salão ao lado do actual do Café Portugal e entrada tanto pela Rua Alexandre Herculano, como pela Praça da República. Este salão teve o serviço da Lili manicure, bem como de aprendizes, cuja função era apenas lavar cabeças. Não penteavam, muito menos pegavam na tesoura.
Do alto dos seus quase sessenta anos no ramo, Joaquim Cabeleireiro, de Caldas da Rainha, fez umas considerações sobre a profissão. Há anos, dizia-se que um cabeleireiro com uma escova e um pente não passaria fome. Hoje, esse conceito deve ser modificado pois, dificilmente sobreviverá o que dispuser apenas de talento e habilidade. Recorda que, antigamente, a noiva lhe levava uma foto ou revista e, assim, fazia o modelo que ela queria, mas hoje respeitamos sim, mas, com toda delicadeza e educação sugerimos modelos que lhe ficarão melhor.
Atendeu noivas que queriam casar com o cabelo solto, porque tinham orelhas de abano, nariz saliente, rostos muito redondos ou pequenos demais…. Nos últimos vinte ou trinta anos, profissionais como Joaquim Cabeleireiro sentiram a grande mudança no dia-a-dia do salão, concretamente com relação ao movimento de clientes, cuja assiduidade e rotina foi aumentando. Vários factores concorreram para a alteração, como hábitos e técnicas que substituíram algumas, anteriormente utilizadas.
O perfil da cliente mudou. Antes, Joaquim Cabeleireiro, como muitos colegas de Alcobaça, trabalhava exaustivamente, de segunda-feira a sábado, aos sábados, por causa dos casamentos ou festividades, o trabalho começava às 7h30, e os serviços mais procurados eram o corte, o pentear, o banho de creme, a coloração, a permanente e a touca de gesso, isto é, uma mistura de líquido de permanente e farinha de trigo, utilizada para diminuir o volume.
Hoje, comenta Joaquim Cabeleireiro só continua inalterado o perfil da cliente que procura o serviço de corte mensal, bimestral ou semestral. A diferença está na procura de outros trabalhos. Há cinquenta anos, algumas das minhas clientes, mesmo as que tinham cabelos curtos, iam ao Salão até duas vezes por semana, ainda que tão só para pentear. Com a evolução das técnicas de corte e a moda, a escova deixou de ser exclusividade e prioridade no meu salão. Em compensação, outros serviços ganharam força, substituindo práticas anteriores. É o caso da coloração, que antigamente só era procurada para cobrir fios brancos, e agora passou a ser um factor de fidelidade, como reconhece Joaquim Cabeleireiro.
Houve homens, os cavalheiros como se reputavam e usava dizer, que fizeram fatos de em Leiria ou Lisboa, mesmo não indo à recepção. Recordamo-nos do que era fazer um fato antes da era do pronto-a-vestir, como o caso de nosso Pai (no Porto) ou do Dr. Magalhães (em geral em Lisboa, mas por vezes em Leiria).
Faça-se aqui uma pequena e incidental digressão sobre o tema, abordando uma profissão que se extinguirá, definitiva e eventualmente, dentro de algum tempo.
Com efeito, a arte de alfaiate, muito popular há meio século, está praticamente extinta.
Haveria na altura da visita, na vila de Alcobaça, cerca de uma vintena de profissionais a exercer a arte, já com a categoria de mestre, como o reviralhista Serafim Amaral, o Gaivoto, à Pissarra, o Bento Ricardo, perto do Posto de Turismo e que era padrinho da mulher de Altino Ribeiro, o Bajouco, ao lado do antigo Quartel dos Bombeiros, o Amaral, ao lado do Capador, o Abílio Alfaiate Lourenço Marques, junto aos antigos sanitários públicos, ao lado da actual sede da Junta de Freguesia de Alcobaça, o Xico Belo, ao lado do Palácio Costa Veiga, o Isidro Caneco, perto da Fonte dos Talassas ou o Manel Alfaiate. Aprendizes, semi-oficiais e oficiais, talvez houvesse para aí o dobro dos que se tinham alcandorado ao topo da arte. Só era mestre quem já sabia tomar medidas e talhar.
Hoje, Manuel Alfaiate, que em novo foi profissional de sucesso, está com mais de oitenta anos.
Não se aventurando a fazer obra de responsabilidade, ainda constitui um pronto-socorro para um vizinho que precise de apertar, alargar um casaco ou umas calças, subir, descer bainhas ou mangas, e se for bem conversado, antes de almoçar, ainda confecciona umas calças para ambos os sexos.
Até aos anos cinquenta, rara era a peça de vestuário que não fosse feita por medida, como diz Manuel Alfaiate. Quando um fato era adquirido numa loja de pronto a vestir, o que acontecia apenas nas cidades, o alfaiate da província comentava, desdenhosamente, que se tratava de obra de fancaria. O freguês entregava o tecido na alfaiataria, ou comprava-o lá, submetendo-se a tomada de medidas de rigor geométrico pelo mestre, cuja fita métrica estava ordinariamente suspensa sobre o pescoço. A fazenda era molhada para depois não encolher.
A obra iniciava-se com o esboço do fato, feito com giz branco apropriado, seguindo-se o corte e depois todas as operações de confecção que incluía uma ou duas provas. Na segunda prova de Manuel Alfaiate, entrava o pormenor da dimensão das mangas, tomada com o braço estendido e dobrado, e o cair da gola, os rebuços. Era importante assegurar ao cavalheiro que o casaco caía bem, tanto de frente como de costas, sendo para tal necessário que permanecesse quieto, direito, sem levantar os ombros. A altura das calças dependia do tacão do sapato.
Depois de tudo, poderia sair um trabalho digno de aparecer, se não na recepção à Rainha, pelo menos numa festa ou tão só na rua. O traçado de giz de Manuel Alfaiate, denunciava o futuro formato do casaco ou das calças. Com o corte certeiro da tesoura, o mestre transformava o tecido numa peça única. Um casaco, colete e calças, exigia trabalho aprimorado e era feito geralmente de tecido de qualidade, que só os clientes mais abastados tinham possibilidades de adquirir. Para os outros havia o cotim, a ganga e a saragoça, que não exigiam confecção muito apurada, dispensavam forros e, por isso, eram mais ruraos e menos onerosos.
Recordamo-nos da azáfama que, nos nossos tempos de estudante, reinava nas alfaiatarias do Porto, nas semanas que precediam as épocas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
O Domingo de Páscoa e o Natal eram os dias em que muitos desejavam estrear roupa nova e então, o trabalho nas oficinas de alfaiate, desenrolava-se com um frenesim, fora do comum. Não havia horários, e os serões prolongavam-se até às tantas. Também não havia folgas e era apertado o tempo dispensado às refeições e ao descanso.Talhar, alinhavar, coser à máquina e à mão, provar, casear, pregar botões e passar a ferro, eram operações que se sucediam com celeridade, mas quase sempre sem prejuízo do apuramento da obra, pois estava em jogo o prestígio do mestre, sem excluir a rivalidade dentro da classe. Os janotas queriam exibir-se, e os alfaiates, na mira de proventos que os compensassem de épocas mais brandas, davam o máximo.
Os alfaiates estão, pois, em vias de extinção como se sabe. As lojas de pronto a vestir e concorrência dos ciganos, foram acabando com eles. Nas grandes cidades ainda vão subsistindo os que são procurados por executivos ou gente da alta que, embora pagando caro, ainda preferem um fato que se molde bem ao corpo ou então que, pela corpulência ou defeito físico, não encontrem naqueles estabelecimentos, coisa que lhes assente bem. Mas a verdade é que a confecção de obra personalizada, está a passar à história. Alcobaça não é excepção.
Conhecemos um alfaiate, à moda antiga, que trabalhou no Porto para o autor destas notas e, especialmente, para o seu Pai, que ainda tem oficina na Rua Sá da Bandeira, ao Bolhão. Os mais de 70 anos do Sr. Miguel, não são visíveis no rosto e postura erecta, homem que desde os 11 anos é alfaiate. Segundo diz, não se imagina reformado e ainda faz as suas peças de roupa, com excepção das camisas. Aprendeu a arte muito novo, quase criança, acabara de sair da escola baptista, sem poder prosseguir os estudos. Foi ao longo dos anos que aprendeu os segredos da actividade. A dedicação, o empenho, a habilidade e até a afabilidade, valeram-lhe uma seleccionada e fiel clientela, hoje quase só da sua idade!, que ainda vem encomendar fatos ou, simplesmente, umas calças ou um casaco especiais. Enquanto conversámos, numa visita para matar saudades, admitiu que o volume de trabalho tem vindo a diminuir, mas que mesmo assim consegue viver. Gosta de conversar e, apesar de não ter muitos estudos.
-Um homem mandou fazer um fato no alfaiate. Este disse-lhe para vir fazer a prova daqui a oito dias. O homem foi lá e o alfaiate disse-lhe que ainda não estava bom pois que venha daqui a mais oito dias. O homem voltou na data marcada e o alfaiate disse-lhe, mais uma vez, que ainda não estava bem, devendo voltar daqui a oito dias. Então, o homem retorquiu, impaciente: O senhor demora mais a fazer um fato do que Deus o mundo! O alfaiate respondeu muito senhor de si: Mas depois se comparar um com o outro... verá que o fato ficou perfeito!.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - III AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
(III)
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra).
Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.
O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.
A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente.
Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.
Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres.
A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia.
Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.
Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.
À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constituir o Rossio da vila.
Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município.
O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...
É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.
Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foi a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a Baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana.
Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.
A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior.
Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade.
Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth.
Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar.
A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V.
Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…)e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo.
Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.
CONTINUA
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR DA RAINHA E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA D. AMÉLIA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
A organização da recepção em Alcobaça, foi da responsabilidade dos serviços da Presidência da República e de algumas senhoras da nossa melhor sociedade, como a Duquesa de Palmela, D. Lúcia Monteiro (viúva do Dr. Armindo Monteiro, antigo Embaixador de Portugal em Londres no tempo da II Guerra) e D. Maria de Mello Breyner (Mafra).
Salazar não veio à recepção em Alcobaça, mas na quinta-feira anterior aqui se deslocou para ver os preparativos, no que foi secundado, no dia seguinte, por Marcelo Caetano.
O Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, que não podia ser acusado de pendor monárquico, recebeu fidalgamente a Rainha Isabel. O almoço foi servido no Refeitório dos Monges, decorado com tapeçarias de parede e chão, telas dos nossos primitivos, porcelanas e esculturas.
Craveiro Lopes tinha à sua roda, alguns monárquicos assumidos, que se aproveitaram da situação, colocando na parede do Refeitório dos Monges, em frente ao lugar que lhe estava reservado, um escudo monárquico, comentando à boca calada que o Chiquinho não gosta, mas vai aguentar.
A visita da Rainha trouxe no próprio dia muitos turistas a Alcobaça, bem outros posteriormente para ver os melhoramentos no Mosteiro, a decoração e zona envolvente.
Uns dois ou três dias depois foram suspensas as visitas à Sala dos Reis e Refeitório, bem com retirada a decoração, embora tivesse sido prometido que esta iria ficar por mais uns oito dias.
Havia um fotógrafo em S. Martinho do Porto, conhecido por Pedro, o Coxo, tido por um pouco atrevido. A sua propalada ideia, era furar o cordão policial no Rossio, a fim de fotografar a Rainha, antes de entrar no Mosteiro e se possível, fazer uns cobres.
A verdade, é que conseguiu mesmo tirar algumas fotografias, não obstante andar a fugir da polícia.
Mas como era coxo, e com a precipitação, nas fotos que conseguiu tirar, a Rainha aparecia sempre com a cabeça cortada !!! Nenhuma se aproveitou.
Regressada a Inglaterra, a Rainha Isabel II agraciou com o grau de cavaleiro da Royal Victorian Order, o Presidente da Câmara de Alcobaça, Joaquim Augusto de Carvalho, depois de ter sido publicado no Diário do Governo a necessária autorização por parte do Ministério do Interior.
À data do abandono do Mosteiro pelos monges, Alcobaça era um pequeno aglomerado de casas e com um reduzido número de habitantes, muito propriamente no local fronteiro ao Mosteiro e dele separado por um terreno. Esse terreno, o adro da Igreja, passaria em breve a ser usado para realização de feiras e festas locais bem como a constituir o Rossio da vila.
Rossio, Praça Serpa Pinto, Praça do Conselheiro João Franco, Praça do Município, Praça Dr. Oliveira Salazar, Praça 25 de Abril, eis os nomes que, graças aos ventos da História, foi assumindo o nome de uma praça, espaço que reflecte na sua morfologia a história a diálogo entre o povo e o Mosteiro. Até 1833, foi uma região de fronteira. Essa contenção materializava-se no terreno, na sua cerca e decorria da lei cisterciense (ascetismo e exclusão do mundo).
Após o triunfo do liberalismo, deu-se a apropriação particular e estatal dos espaços, nomeadamente de propriedades do Mosteiro, que passaram para a posse de famílias influentes ou do Município.
O Rossio foi apropriado à medida que o Mosteiro foi reintegrado na vida urbana, ao ser usado como Teatro, Câmara Municipal, Tribunal, Repartição de Finanças, Cadeia, etc. ...
É no Rossio que se condensa grande parte da história de Alcobaça, mas que deixou de ser, após a última intervenção, um lugar importante na vida urbana do dia a dia.
Ainda há quem diga que a visita de Isabel II foi a visita do século.
Tirou-se o bergantim real do Museu da Marinha (para ser manobrado por oitenta remadores), para fazer a ligação de 300 metros do Iate Britania ao Terreiro do Paço. Ofereceram-se presentes caros à família real, requisitou-se a Baixela Germain, fez-se um desfile de barcos no Tejo, um cortejo pela cidade de Lisboa com um coche do século XVIII, construído em Londres para o casamento de D. João VI com D. Carlota Joaquina (foi esta a última vez que saiu à rua), arranjos no Palácio de Queluz e Mosteiro da Alcobaça.
E até se comprou um Rolls-Royce, embora em segunda mão, para transporte da soberana.
Enfim, Salazar fez tudo para que a encenação fosse perfeita. E conseguiu.
A Rainha Isabel, trazia consigo os olhos do mundo, a imprensa cor-de-rosa e não só, que designou a sua estada, no Portugal de Salazar como uma segunda lua-de-mel, o que não era desinteressante em termos de imagem para o exterior.
Isabel era uma jovem com um guarda-roupa elegante, que marcou a moda. O casal real esteve, a título privado, em casa dos Duques de Palmela, por os ligar uma velha amizade.
Filipe de Edimburgo, veio juntar-se a Isabel em Portugal, depois de uma viagem de vários meses pela Commonwealth.
Os ingredientes estavam reunidos para os focos internacionais se centrarem em Lisboa, facto que Salazar, não desdenhou aproveitar.
A Capital e pontos-chave da cidade foram embelezados por Leitão de Barros, onde não faltaram os entalhados a ouro, cetins brancos, veludos vermelhos e panejamentos da época de D. João V.
Relativamente aos custos é verdade que o Presidente do Conselho achou um exagero de orçamento, (por isso se decidiu comprar um Rolls Royce usado, mas que mesmo servia mais que bem…)e que acabou por não discutir, pois considerou como não se veio a comprovar esta viagem como importante contrapartida, no enquadramento da sua concepção de defesa do regime e especialmente do Ultramar já em perigo.
Até então a Grã-Bretanha seguia a orientação de Churchill que era a de manter o império onde o sol nunca se punha. A situação política mudara, agora governava McMillan que defendia, ao contrário de Éden, ambos conservadores, o abandono progressivo das colónias, como acontecera com a Índia, a aliança com os EUA e a aposta na Europa.
CONTINUA
RAINHA ISABEL II - II AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO. UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO. OS PRIMÓRDIOS DA RTP
NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
II
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional.
Recordou-nos que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo.
Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos.
Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento.
Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.
Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construíram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis.
Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo.
Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar!!!. O encarregado do Secretariado Nacional da Informação, cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do S.N.I. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.
A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal.
Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono.
Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.
Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da C.M.A. teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
CONTINUA
II
A RAINHA ISABEL II EM PORTUGAL E ALCOBAÇA (1957)
AS CORES DAS LOIÇAS DO TOUCADOR E O PROTOCOLO BRITÂNICO
UM ROLLS ROYCE EM SEGUNDA MÃO
OS PRIMÓRDIOS DA RTP
O REI D. CARLOS E ESPOSA, GRACE KELLY (MÓNACO) E HAILÉ SALASSIÉ (ETIÓPIA) EM ALCOBAÇA
O Eng. José Costa e Sousa era, ao tempo da visita, Chefe dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal, aonde fez a carreira profissional.
Recordou-nos que as obras de desaterro do Mosteiro foram alargadas para além do inicialmente previsto, tendo sido expropriadas propriedades contíguas à Rua Dr. Zagalo.
Esta foi alargada para dentro dessas propriedades, de modo a permitir aumentar o espaço frente ao Mosteiro, tornando-o simétrico com o lado norte. Para as obras na Rua Dr. Zagalo, conhecida por Ladeira do Mata Galinhas, e porque havia habitações em risco de ser arrastadas numa derrocada, construiu-se um muro com sacos de cimento, descarregados directamente das camionetes, os quais funcionavam como blocos.
Nesse local, e para escorar algumas casas em perigo, tiveram de ser colocados troncos de pinheiros, cortados no Pinhal da Gafa, alguns com 14 metros de comprimento.
Dado que o corte se fez de noite nunca se soube da razão…, o pessoal municipal trabalhava à luz dos faróis de camionetes e depois carregava, a braço, os enormes e pesados troncos. Para pegar nalguns era, segundo Costa e Sousa, necessário o esforço de mais de 20 homens.
Costa e Sousa, ainda se ri do vendaval num copo de água que foi o problema das instalações sanitárias que se construíram para uso dos Reis de Inglaterra. Estava previsto que estes descessem pela nave lateral do Mosteiro e entrassem na Sala dos Reis.
Esta encontrava-se ricamente mobilada com armários de laca carmesim, biombos orientais e uma colecção de cerâmica chinesa. Anexos à Sala, foram construídos o toucador para a Rainha e a toilette para o Duque de Edimburgo.
Aconteceu que o verniz estalou, a propósito da cor das louças a aplicar!!!. O encarregado do Secretariado Nacional da Informação, cuja presença no local, ao que se dizia, tinha uma componente política, pretendia que se aplicassem louças cor-de-rosa, o do Ministério das Obras Públicas defendia o azul, enquanto que o do Ministério dos Negócios Estrangeiros se inclinava para o branco.
Como quem estava mais tempo no local das obras era o técnico da Câmara, neste caso o Eng. Costa e Sousa, todos lhe diziam nas costas do outro, para aplicar a louça na cor que defendiam. O assunto assumiu tais proporções que o encarregado do S.N.I. ameaçou fazer queixa ao Dr. Salazar, se outra fosse a cor da louça, que não o rosa.
A visita de Isabel de Inglaterra não foi a primeira que um soberano inglês fez a Portugal.
Antes, em 1903, já tinha estado em Lisboa o seu bisavô, Eduardo VII, a convite de D. Carlos, na primeira viagem de Estado que fez ao estrangeiro, depois de ter acedido ao trono.
Em Alcobaça, houve forte entusiasmo quando em Novembro de 1956 se soube que a Rainha de Inglaterra tinha sido convidada pelo Gen. Craveiro Lopes a visitar o País, e que do programa estava prevista uma visita à vila.
Fevereiro, é um dos meses do ano em que o frio mais aperta. O Governo Português não podia correr o risco de constipar o real casal, pelo que foram descarregadas no Mosteiro várias camionetes com botijas de Gazcidla será o Presidente da C.M.A. teria interesse no assunto?, que logo aplicadas a aquecedores, estiveram em experiência e a preparar o ambiente, durante cerca de 15 dias!!!
CONTINUA
Paris - Agosto de 2003 - CAP VI Fontainebleau. A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte
Fontainebleau,
A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte
(2003)
Foi, aproveitando a nossa estadia em Paris na casa do Rebelo e o seu carro, um CITROEN XM, que fomos com ele visitar Le Château de Fontainebleau.
Este palácio que não rivaliza (artisticamente falando) com Versalhes, situa-se no meio de um enorme maciço florestal, segundo se diz de cerca de 17.000 hectares e nasceu fruto da paixão dos reis de França pela caça.
Para a Clara, Versalhes é beleza e ostentação, enquanto que Fontainebleau é só beleza.
Remonta este palácio a meados do século XII, altura em que era pouco mais que um albergue de caça e de cujo original nada resta mais que algumas fundações.
O grande impulsionador de Fontainebleau foi, porém, François I, que gostava tanto do local que lhe chamava a sua casa e decidiu transformar o velho edifício, ainda com telhado em colmo, numa palácio à boa maneira italiana. François I reuniu em Fontainebleau as mais variadas colecções de pinturas, entre as quais as de Leonardo da Vinci e a Gioconda, ali fazendo um centro artístico, aonde acudiam artistas de toda a Europa. Ao longo dos séculos o palácio foi crescendo, mesmo no tempo de Luís XIV, que previlegiou, notoriamente, Versalhes como bem se sabe.
Se raramente Luís XIV foi a Fontainebleau, salvo no outono ou na época da caça, nem por isso deixou de receber hóspedes famosos, como Cristina da Suécia, rainha que abdicou aos 28 anos, depois de abjurar o luteranismo para o catolicismo.
Cristina viajou pela Europa, seguida por uma comitiva faustosa e inquietante, composta por muitos aventureiros, tal como o seu amante Monaldeschi. Os factos que a seguir vou referir, anotei-os de um livro de História e parece-me interessante destacá-los aqui.
Quando Cristina chegou a França, o Cardeal Mazarino, alojou-a em Fontainebleau.
Apercebendo-se que o seu arrogante e oportunista favorito a traía, furiosa decidiu condená-lo à morte, se não confessasse a sua traição.
Cristina recebeu o amante na presença do padre Le Bel, superior do Convento dos Trinitários de Fontainebleau e fez-lhe violentas acusações.
Ele defendeu-se mal, engasgou-se e não conseguiu justificar-se, pelo que a rainha o deixou sem lhe conceder, um mero olhar ou oportunidade.
O favorito recebeu os últimos as sacramentos do padre Le Bel e em seguida o capitão dos guardas da rainha e dois soldados entraram de espadas empunhadas.
Monaldeschi, a tremer, descomposto, lançou-se aos seus pés, implorando clemência.
Em vão.
Os executores atiraram-se a ele e como a sua cota de malha impedia um golpe decisivo e mortal, cortaram-lhe a garganta.
A agonia, durou mais de um quarto de hora.
Para a oração fúnebre, a impetuosa Cristina, dirigiu ainda uma breve mensagem ao Cardeal Mazarino, salientando que não tinha nenhuma razão para se arrepender do que fez ao Monaldeschi, mas mais de cem mil para estar furiosa. Alguns dias após estes acontecimentos, a sueca deixava Fontainebleau e a França.
O palácio sofreu grandes depredações, durante a Revolução Francesa. O mobiliário foi vendido ao desbarato e saqueado por populares. O palácio foi negligenciado, sem sofrer todavia danos excessivos do furor popular, já que não simbolizava da mesma forma os contestados faustos e glórias reaisde Versalhes.
Em 1803, o então Primeiro Cônsul, Bonaparte decidiu instalar ali a Escola Militar Superior (A Academia Militar), mais tarde transferida para Saint-Cyr.
O Imperador gostava de Fontainebleau, ali foi muitas vezes e ordenou importantes restauros, no edifício, no mobiliário e nos jardins. Segundo a Clara, os apartamentos do Imperador eram tão pequenos como ele.
Em 1804, o Papa Pio VII que veio de propósito para a Coroação de Napoleão e Josefina, ficou instalado no Palácio.
Foi porém entre 30 de Março e 20 de Abril de 1814 que o palácio terá vivido algumas das suas horas mais sombrias, relacionadas com a queda de Napoleão. Em 6 de Abril, este abdicou sem condições e a 20 tomou, a partir daí, o caminho do exílio, para a Ilha de Elba, fazendo então o seu memorável e emocionante adeus à Guarda.
O palácio não recuperou mais os fastos de outrora. Luís-Filipe, interessou-se por ele, salvou-o da ruína, mas fez-lhe restauros muito discutíveis. Citando um autor francês, Fontainebleau, assumiu no ancien regime o lugar de residência real logo a seguir a Versalhes, onde em ambos os casos se respirava o ar cortesão. A rota de Fontainebleau tal como Versalhes, encontrava-se no caminho privado do rei.
Ao percorrer Fontainebleau, o turista de hoje pode ficar surpreendido com a sucessão de estilos que apresenta o palácio. Em Santa Helena, Napoleão recordava-o com nostalgia é ali a verdadeira morada real, que perdura pelos séculos e embora não seja rigorosamente um castelo de arquitecto, é um lugar para se viver bem. Era sem dúvida e lugar mais cómodo e bem situado da Europa.
Para o Manel, Versalhes e Fontainebleau são como o Louvre sumptuosos, mas também não são muito o meu género, aprecio mais o subtil que o grandioso.
Às vezes, o Manel que é um burguês e conservador tripeiro, parece querer ceder a uma certa postura, mais inclinada para o proletariado! Foi, porém, em Fontainebleau que no respectivo lago dos desejos (aquele onde se lança uma moeda de costas e faz um pedido) e Manel ainda tentou fazer um pedido sem gastar uma moeda!!!
Um dia destes comentei com a Clara, para ver se a atrapalhava, que aquela gente, parece que não tinha, nestes palácios, locais para fazer as necessidades fisiológicas.
Pelo menos nunca os mostram.
Mas segundo a Aninhas, a minha dúvida não é extraordinária, pois ainda hoje há quem as faça fora do bacio!
Sabem o que a Clara me respondeu, prontamente? Devia haver 5 criados com um pote.
Foi no regresso de Fontainebleau a Paris que íamos quase perdendo a Aninhas. Será verdade?
Ou conversa da treta?
Parámos numa terra qualquer, cujo nome de momento não recordo com segurança, mas suponho ser Montreau, para irmos visitar a sua igreja românica com mais de 1000 anos e curiosa pelas suas duas torres desiguais. Eram quase 19h e esta era uma igreja, não muito frequentada por turistas, de tal modo que as respectivas chaves se encontravam na posse de uma guardiã, velhota, que ao ver-nos sair, a Clara Manel e eu, resolveu fechar de seguida a porta à chave. A certa altura, percebemos que a Aninhas e o Rebelo tinham ficado lá dentro, mas apesar de barafustarem não se ouviam cá fora.
A velhota, felizmente, estava ainda perto e o assunto resolveu-se de imediato, saindo ambos um pouco ofegantes, embora pelo seu pé. A Aninhas não precisou de água..
Mas, como já disse e se sabe, é muito perspicaz, incapaz de se precipitar num juízo errado, tal como acontecia com o Cavaco que nunca se enganava, quando fala é sempre pela forma mais certeira e irrepreensível, o que incomoda, entendeu que a velhota por pura malandrice os tinha deixado lá dentro, o que todavia não chegamos a esclarecer. Mas se a Aninhas o diz... é de certeza pura verdade. O certo é que, tal como o Santa Maria, no dizer do Salazar, a Aninhas está connosco.
A Rainha Cristina e Napoleon Bonaparte
(2003)
Foi, aproveitando a nossa estadia em Paris na casa do Rebelo e o seu carro, um CITROEN XM, que fomos com ele visitar Le Château de Fontainebleau.
Este palácio que não rivaliza (artisticamente falando) com Versalhes, situa-se no meio de um enorme maciço florestal, segundo se diz de cerca de 17.000 hectares e nasceu fruto da paixão dos reis de França pela caça.
Para a Clara, Versalhes é beleza e ostentação, enquanto que Fontainebleau é só beleza.
Remonta este palácio a meados do século XII, altura em que era pouco mais que um albergue de caça e de cujo original nada resta mais que algumas fundações.
O grande impulsionador de Fontainebleau foi, porém, François I, que gostava tanto do local que lhe chamava a sua casa e decidiu transformar o velho edifício, ainda com telhado em colmo, numa palácio à boa maneira italiana. François I reuniu em Fontainebleau as mais variadas colecções de pinturas, entre as quais as de Leonardo da Vinci e a Gioconda, ali fazendo um centro artístico, aonde acudiam artistas de toda a Europa. Ao longo dos séculos o palácio foi crescendo, mesmo no tempo de Luís XIV, que previlegiou, notoriamente, Versalhes como bem se sabe.
Se raramente Luís XIV foi a Fontainebleau, salvo no outono ou na época da caça, nem por isso deixou de receber hóspedes famosos, como Cristina da Suécia, rainha que abdicou aos 28 anos, depois de abjurar o luteranismo para o catolicismo.
Cristina viajou pela Europa, seguida por uma comitiva faustosa e inquietante, composta por muitos aventureiros, tal como o seu amante Monaldeschi. Os factos que a seguir vou referir, anotei-os de um livro de História e parece-me interessante destacá-los aqui.
Quando Cristina chegou a França, o Cardeal Mazarino, alojou-a em Fontainebleau.
Apercebendo-se que o seu arrogante e oportunista favorito a traía, furiosa decidiu condená-lo à morte, se não confessasse a sua traição.
Cristina recebeu o amante na presença do padre Le Bel, superior do Convento dos Trinitários de Fontainebleau e fez-lhe violentas acusações.
Ele defendeu-se mal, engasgou-se e não conseguiu justificar-se, pelo que a rainha o deixou sem lhe conceder, um mero olhar ou oportunidade.
O favorito recebeu os últimos as sacramentos do padre Le Bel e em seguida o capitão dos guardas da rainha e dois soldados entraram de espadas empunhadas.
Monaldeschi, a tremer, descomposto, lançou-se aos seus pés, implorando clemência.
Em vão.
Os executores atiraram-se a ele e como a sua cota de malha impedia um golpe decisivo e mortal, cortaram-lhe a garganta.
A agonia, durou mais de um quarto de hora.
Para a oração fúnebre, a impetuosa Cristina, dirigiu ainda uma breve mensagem ao Cardeal Mazarino, salientando que não tinha nenhuma razão para se arrepender do que fez ao Monaldeschi, mas mais de cem mil para estar furiosa. Alguns dias após estes acontecimentos, a sueca deixava Fontainebleau e a França.
O palácio sofreu grandes depredações, durante a Revolução Francesa. O mobiliário foi vendido ao desbarato e saqueado por populares. O palácio foi negligenciado, sem sofrer todavia danos excessivos do furor popular, já que não simbolizava da mesma forma os contestados faustos e glórias reaisde Versalhes.
Em 1803, o então Primeiro Cônsul, Bonaparte decidiu instalar ali a Escola Militar Superior (A Academia Militar), mais tarde transferida para Saint-Cyr.
O Imperador gostava de Fontainebleau, ali foi muitas vezes e ordenou importantes restauros, no edifício, no mobiliário e nos jardins. Segundo a Clara, os apartamentos do Imperador eram tão pequenos como ele.
Em 1804, o Papa Pio VII que veio de propósito para a Coroação de Napoleão e Josefina, ficou instalado no Palácio.
Foi porém entre 30 de Março e 20 de Abril de 1814 que o palácio terá vivido algumas das suas horas mais sombrias, relacionadas com a queda de Napoleão. Em 6 de Abril, este abdicou sem condições e a 20 tomou, a partir daí, o caminho do exílio, para a Ilha de Elba, fazendo então o seu memorável e emocionante adeus à Guarda.
O palácio não recuperou mais os fastos de outrora. Luís-Filipe, interessou-se por ele, salvou-o da ruína, mas fez-lhe restauros muito discutíveis. Citando um autor francês, Fontainebleau, assumiu no ancien regime o lugar de residência real logo a seguir a Versalhes, onde em ambos os casos se respirava o ar cortesão. A rota de Fontainebleau tal como Versalhes, encontrava-se no caminho privado do rei.
Ao percorrer Fontainebleau, o turista de hoje pode ficar surpreendido com a sucessão de estilos que apresenta o palácio. Em Santa Helena, Napoleão recordava-o com nostalgia é ali a verdadeira morada real, que perdura pelos séculos e embora não seja rigorosamente um castelo de arquitecto, é um lugar para se viver bem. Era sem dúvida e lugar mais cómodo e bem situado da Europa.
Para o Manel, Versalhes e Fontainebleau são como o Louvre sumptuosos, mas também não são muito o meu género, aprecio mais o subtil que o grandioso.
Às vezes, o Manel que é um burguês e conservador tripeiro, parece querer ceder a uma certa postura, mais inclinada para o proletariado! Foi, porém, em Fontainebleau que no respectivo lago dos desejos (aquele onde se lança uma moeda de costas e faz um pedido) e Manel ainda tentou fazer um pedido sem gastar uma moeda!!!
Um dia destes comentei com a Clara, para ver se a atrapalhava, que aquela gente, parece que não tinha, nestes palácios, locais para fazer as necessidades fisiológicas.
Pelo menos nunca os mostram.
Mas segundo a Aninhas, a minha dúvida não é extraordinária, pois ainda hoje há quem as faça fora do bacio!
Sabem o que a Clara me respondeu, prontamente? Devia haver 5 criados com um pote.
Foi no regresso de Fontainebleau a Paris que íamos quase perdendo a Aninhas. Será verdade?
Ou conversa da treta?
Parámos numa terra qualquer, cujo nome de momento não recordo com segurança, mas suponho ser Montreau, para irmos visitar a sua igreja românica com mais de 1000 anos e curiosa pelas suas duas torres desiguais. Eram quase 19h e esta era uma igreja, não muito frequentada por turistas, de tal modo que as respectivas chaves se encontravam na posse de uma guardiã, velhota, que ao ver-nos sair, a Clara Manel e eu, resolveu fechar de seguida a porta à chave. A certa altura, percebemos que a Aninhas e o Rebelo tinham ficado lá dentro, mas apesar de barafustarem não se ouviam cá fora.
A velhota, felizmente, estava ainda perto e o assunto resolveu-se de imediato, saindo ambos um pouco ofegantes, embora pelo seu pé. A Aninhas não precisou de água..
Mas, como já disse e se sabe, é muito perspicaz, incapaz de se precipitar num juízo errado, tal como acontecia com o Cavaco que nunca se enganava, quando fala é sempre pela forma mais certeira e irrepreensível, o que incomoda, entendeu que a velhota por pura malandrice os tinha deixado lá dentro, o que todavia não chegamos a esclarecer. Mas se a Aninhas o diz... é de certeza pura verdade. O certo é que, tal como o Santa Maria, no dizer do Salazar, a Aninhas está connosco.
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