segunda-feira, 12 de setembro de 2011

BARBEIROS DE OUTRORA -BARBEIROS (Baetas) LÁ DA TERRA -UM BARBEIRO (Baltasar desesperado) NO DEPÓSITO DA ÁGUA DE CALDAS DA RAINHA


Óscar Santos, presidente da Junta de Freguesia dos Montes-Alcobaça, conhece como poucos histórias da sua terra.
Recorda-se de ouvir histórias do barbeiro que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana. Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas. Há quarenta, cinquenta ou mais anos, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina afiava numa assentadura, fita de couro, posta num suporte de madeira. Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor. Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo. Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar. O barbeiro todavia nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas como Cós ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.
Já que falamos de barbeiros e o Baltasar, barbeiro de Alcobaça? Isso é outra história que já tínhamos ouvido de passagem. Por alturas de 1934/35 ocorreram umas estranhas mortes em Caldas da Rainha, ao que se dizia em consequência do consumo de água da rede inquinada com tifo. A Delegação de Saúde começou a investigar a situação, fazendo análises na rede pública, na nascente às Águas Santas. Os resultados foram aí inconclusivos, mas por via de dúvidas foi proibida a apanha e venda dos bivalves da Foz de Arelho. Mas o surto de de intoxicações e mortes por tifo (?) prosseguia.
Em último recurso, mandou-se proceder à análise da água canalizada recebida em casas particulares. E, para grande surpresa, chegou-se à conclusão que, o foco da infecção não estava na nascente, mas no depósito da água para abastecimento da rede. Este situava-se na parte mais alta da cidade, junto à mata, perto do Hospital. Depois de esvaziada a água do depósito, com grande emoção foi descoberto um corpo, em elevado estado de decomposição, junto a uma grade de ferro, destinada a impedir a entrada de sólidos na canalização.
Apesar do mau estado do corpo, que ali estava há tempos, conseguiu-se apurar a identidade do morto, também pela aliança de casamento, que tinha no dedo. Segundo Altino do Couto, na altura com 14 ou 15 anos, e que andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, de Caldas da Rainha e chegou a ver o corpo estendido numa padiola, acabado de retirar do depósito, apurou-se que se tratava de Baltasar, barbeiro, em Alcobaça, dono de um estabelecimento em frente, ao actual, Café Portugal, na rua Alexandre Herculano, sito entre a loja de ferragens de Gilberto Magalhães Coutinho e a Farmácia Belo Marques. Identificado o corpo, apurou-se que o Baltasar vinha anunciando à mulher (que não o levou a sério) que se iria matar (por nunca devidamente esclarecidas razões de dinheiro ou saias?) e que ninguém mais o encontraria. O barbeiro Baltasar, de acordo com o Dr. Hermínio Marques, que o chegou a conhecer, pois era quem lhe cortava o cabelo em rapaz, tratava-se de pessoa de cerca de cinquenta anos, educada, respeitada e estimada, pelo que o seu desaparecimento, sem deixar rastos, teve algum impacto na vila de Alcobaça, onde criou emoção. Conforme ainda contou o Dr. Hermínio Marques, o barbeiro matou-se, ingerindo previamente um potente veneno. Depois atirou-se para o depósito da água da rede pública e lá ficou durante algum tempo.
Durante meses, a população de Caldas da Rainha bebeu da água, onde esteve mergulhado o corpo do infeliz Baltasar, e apesar de a Câmara Municipal, ter anunciado uma desinfecção total e eficaz no depósito da água, gente houve que durante algum tempo se recusou a voltar a beber água da rede, ou tê-la mesmo em casa.
Que recoradações acarreta o barbeiro Baltasar? Nos anos trinta, haveria uma meia dúzia de barbeiros na vila de Alcobaça, cada qual com uma clientela própria, a que não era estranho o respectivo estatuto social. Era um tempo em que o cantar cadenciado da tesoura, manobrada com mestria, ecoava na pequena barbearia, emprestando ao ambiente um ritmo e um toque muito especiais, que os clientes apreciavam.
A barbearia de Baltasar era um espaço pequeno, com um espelho ao alto, uma só cadeira assente numa base redonda metálica. O baeta Baltasar usava uma bata branca, abotoada ao lado, e fazia caprichadamente uma barba escanhoada, com uma navalha afiada em assentadores de fita de couro, pedras para deixar a cara coberta de frescura, e dominava os cabelos mais rebeldes, graças a um fixador que ele mesmo fazia, com um pó comprado na drogaria, misturado em água, a que adicionava perfume, conforme o gosto do cliente.
Baltasar, segundo os muito poucos que dele se lembram e nos contaram, foi sempre barbeiro, profissão que começou a aprender em rapaz, apenas interrompida pela tropa. O pai, também de nome Baltasar, tinha a seu modo uma pequena história de vida. Pobre, começou a vida profissional abrindo covas para colocar postes, entrando embora sem vínculo para os C.T.T., aonde chegou ao posto de guarda-fios, cuja função era subir aos postes. A história do avô paterno, tem algo de estranho, pois ao nascer foi rejeitado pelos pais e colocado na roda, em Lisboa (roda giratória onde eram deixados os bébés indesejados. Para o identificarem eventualmente um dia, os pais colocaram-lha ao lado uma pequena Bíblia). O avô de Baltasar, cujo nome não apuramos, terá sido adoptado por uma família de Caldas da Rainha ou arredores, que não lhe deu instrução, nem cumpriu a obrigação de pelo menos uma vez por ano o levar ao orfanato. No tempo em que o futuro barbeiro Baltasar, ainda não tinha barba para se escanhoar, era frequente os rapazes, concluída a terceira ou quarta classes e que não iam prosseguir estudos por falta de posses, começarem a aprender uma profissão, onde nada ganhavam. A primeira tarefa que coube ao Baltasar, foi na barbearia de um tio, a fazer trabalhos menores, como varrer e apanhar os cabelos do chão e depois fazer barbas. A sua primeira remuneração foi de três tostões por dia, mas só ao fim de três meses. Tempos difíceis em que se fazia muito e se ganhava quase nada. O aprendiz Baltasar teve de esperar dois anos para ficar a saber que iria receber quarenta escudos por mês, (uma muito especial atenção por parte do tio), o que significava que já aprendera o mínimo, não dava golpes na cara do cliente, e merecia a confiança do patrão e, claro, do cliente. Assim, até à idade das sortes, Baltasar ficou-se pela barbearia. Mas, depois de passar uns tempos em Leiria arrumadas a farda e botas, voltou aos cortes de cabelo e às barbas bem escanhoadas, como impunha o cliente.

Na barbearia do Baltasar, vendiam-se cigarros. Era o tempo em que se ia ao barbeiro não apenas para cortar o cabelo, fazer ou aparar a barba, mas para pôr a conversa em dia, pois no barbeiro falava-se de tudo, e até se podia ler-se o jornal de graça. Enquanto Baltasar manobrava a tesoura ou fazia a barba, em gestos demorados e calmos, o tempo passado com o cliente, acabava por ser quase um confessionário. A pessoa gosta de ouvir e também tem sempre algo para contar. Antigamente, quem quisesse conhecer histórias e vidas, ia ao barbeiro ou encostava-se à porta.
O assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pêlo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente. Os barbeiros também foram acabando. Entretanto em Alcobaça estabeleceram-se outros que por sua vez já lá vão, como o Nabais, o Zé do Aço (estabelecimento ao lado da antiga Casa Sineiro), o Artur Barbeiro (ao lado do actual Café Restaurante Trindadde), o Maleiro (na Rua Alexandre Herculano perto da actual loja de Gilberto Magalhães Coutinho) ou o Baeta (em frente ao Mosteiro).
Um barbeiro em Alcobaça era senhor de estabelecimento discreto, muito discreto, em geral pequeno com o chão aos quadradinhos vermelhos e bejes, paredes revestidas de azulejos brancos e vários espelhos sem moldura. Uma ou duas cadeiras de barbeiro, difíceis de consertar, porque não havia peças em Alcobaça (só em Lisboa) que lhe valessem. O som da rádio (telefonia), saía de umas pequenas colunas e mesmo, ainda que com pouco uso, parecia que o aparelho queria mostrar que já precisava de reforma. Um ou dois calendários de parede mostravam dias longos, cansados os pés e braços de tanto labutar. Na mesa de madeira ao lado das quatro ou cinco cadeiras para quem esperava, por princípio nunca havia marcações, encontravam-se revistas e jornais, por vezes com alguns dias.

FLEMING DE OLIVEIRA

REGEDORES -Último regedor da I REPÚBLICA (Maiorga) -Primeiro regedor com o Estado Novo (Montes) -A barriga do boi


Mário Fadigas, da Maiorga, gosta de recordar a pequena história do último Regedor da I República, na freguesia.
O seu pai, António Fadigas da Silva, que vivia com a respectiva mãe, nunca frequentou a escola, tendo realizado o exame da 4ª classe na tropa, depois de ter aprendido a ler com os serralheiros da extinta Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça (COFTA), para onde foi trabalhar com 10 anos. Republicano, reviralhista, foi todavia pouco interventivo politicamente, e ao que se diz terá sido maçon. 2º Sargento de Artilharia de Costa, esteve nas trincheiras em França, durante a I Guerra. Felizmente não foi gaseado, tendo-se oferecido para o C.E.P., dada a admiração que nutria por Afonso Costa. Embora simpatizante do Partido Democrático, nunca se inscreveu nele e embora vivesse num meio rural, segundo o filho Mário nos contou, não sabia plantar uma batata, nunca foi agricultor. Era essencialmente um serralheiro. António Fadigas da Silva, com trinta anos de idade, foi nomeado por Alvará, escrito à mão em papel azul e com selo branco do Governo Civil de Leiria, datado de 8 de Maio de 1925, Regedor Efetivo da Freguesia da Maiorga, sob proposta do delegado do governo em Alcobaça, tendo tomado posse no dia 14. A verdade é que não ocupou o lugar por muito tempo pois, com o 28 de Maio, pediu a imediata exoneração, tendo-lhe a mesma sido concedida por Alvará do novo Governador Civil de Leiria, Cap. Henrique Pereira do Vale, natural da Cela-Alcobaça, datado de 24 de Junho de 1926.
Mário Soares, de acordo com uma entrevista que tivemos com Fadigas pediu-lhe há uns anos, quando uma vez o visitou em sua casa na Maiorga, que oferecesse ao Museu da República, os Alvarás de Nomeação e de Exoneração de seu pai, que ainda guarda ciosa e cuidadosamente.


Alguns anos mais tarde era Regedor no Vimeiro Ti’ Joaquim sapateiro. Lá no Vimeiro, Ti’ Joaquim, era de facto a alta instância e o senhor da última palavra. Era sapateiro e regedor (bem gostaria de ter sido Presidente da Junta, mas como não sabia ler nem escrever o Presidente da Câmara de Alcobaça nunca o nomeou), mestre na arte da sovela, no passar do sebo com grande rigor, para evitar ao fio qualquer problema, quando cosia a gáspea à sola.
Ti’ Joaquim percebia tanto de gáspeas, de solas, como de pessoas, pois se necessário tanto batia numas, quanto nas outras. Chamava à razão o calaceiro, dirimia zangas quanto a extremas e conjugais, desmascarava o trapaceiro e os seus argumentos soezes, bem como não perdoava ao taberneiro o crime gravíssimo de deitar água no vinho. Se uma cabra distraída fazia a pastagem numa vinha, comendo ora a erva, ora as videiras, ficavam de dieta durante dois dias, pelo menos a cabra e pastor. Tendo Ti’Joaquim tanta aceitação popular para ser regedor ou até eventualmente ser Presidente da Junta (o problema como se referiu era não ter andado na escola), nunca se achegou ao rabecão. É que se a moldar a sola ele era audaz e bom pastor, a tocar as reses (os vizinhos), eventualmente não seria mais que capataz, se ousasse ir além de regedor. E por ali se quedou.

O que era um Regedor?
Regedor era a designação da autoridade administrativa do grau mais baixo, a qual funciona em cada freguesia, subordinada ao Presidente da Câmara Municipal que livremente o nomeava e exonerava. O termo regedor serviu, outrora, para a designação de altos cargos como Regedor de Justiça, que presidia ao Tribunal da Casa da Suplicação. O Regedor, durante o Estado Novo, era um vulgar cidadão, com a missão de manter a ordem na pequena circunscrição, que é a freguesia. O Regedor tinha as atribuições definidas no Código Administrativo, de natureza administrativa e policial. No atual ordenamento jurídico, já não existe a figura do Regedor. O Regedor fazia um relatório das atividades que entregava com regularidade na Câmara Municipal, que depois encaminhava para o Governo Civil. O Regedor tinha a função de zelar pelas pessoas e pelos bens da freguesia. Não recebia ordenado por um trabalho que lhe ocupava muito tempo. Quando havia necessidade de prender alguém, o Regedor era o responsável pelo preso, tinha que o levar a Alcobaça a pé. Se a prisão acontecesse à tarde, ficava toda a noite a vigiá-lo e a esposa mantinha o lume aceso para se aquecerem, e fazer café para não adormecerem. Havia casais que discutiam ou brigavam, pelo que acontecia por vezes um deles ir queixar-se ao Regedor, que assim fazia de conselheiro matrimonial. O Regedor era testemunha, juiz, e a sua palavra valia mais do que um documento.
No tempo da II Guerra, não havia comida com fartura, pois tinha de ser racionada. Mesmo que alguém tivesse muito dinheiro, podia não comprar o que quisesse. A cada família era atribuído um número de senhas, que eram distribuídas pelo Regedor.
Inácio Catarino, dos Montes, ainda conheceu o primeiro Regedor da freguesia de Alpedriz dos tempos do Estado Novo, o carpinteiro e agricultor José Alves Catarino, e que tinha como cabo de ordens José Carreira. Também conheceu alguns que se lhe seguiram como José Santo, José Henriques Salgueiro, Fernando Gomes Loureiro e recorda Presidentes da Junta como José Ribeiro Malhó, José Rodrigues Ascenço, Francisco Rodrigues Ascenço Franco ou José Salgueiro Rodrigues Franco, todos dos Montes e inscritos na União Nacional (U.N.), ou pelo menos adeptos do regime. Lembra-se da vez em que o Regedor José Santo denunciou Afonso Salgueiro como perigoso conspirador político, o que determinou que este fosse conduzido aos calabouços do Governo Civil de Leiria para averiguações. Afonso Salgueiro sempre se assumiu como republicano, adepto de Afonso Costa e anticlerical, mas nunca foi pessoa de significativa ação política, pelo que era manifestamente sem sentido, injusta e inquietante a sua detenção. Assim foi libertado ao fim de dois ou três dias, o que não impediu que durante algum tempo se louvasse junto dos amigos dessa incursão pela política. Quando regressou a casa, nos Montes, as pessoas perguntavam-lhe se havia provado a barriga do boi (isto é, se tinha levado com cavalo marinho), o que sempre negou, alegando que tinham tido pena dele, por ter um filho deficiente.

FLEMING DE OLIVEIRA

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

(VII) NO TEMPO DE D.PEDRO, D. INÊS E OUTROS Histórias e Lendas que o tempo não apagou (COMEMORAÇÕES INESIANAS)


Em 1944, Leitão de Barros realizou o filme Inês de Castro, um dos clássicos do tempo do Estado Novo, numa co-produção hispano-portuguesa com apoio governamental e dedicado à memória de Manuel Vieira Natividade. Os produtores aproveitaram as facilidades que se davam em ambos países para este tipo de realizações.
A postura do governo português, face ao cinema, está de certo modo bem expressa, num discurso de António Ferro (SNI), pronunciado em finais de Dezembro de 1947, durante o ato de entrega dos prémios cinematográficos do ano. Ferro, colocava os filmes históricos em segundo lugar da classificação das películas que interessavam ao salazarismo/Estado Novo, depois dos filmes regionais ou folclóricos. Os filmes históricos marcam (...) um dos caminhos seguros sólidos, do cinema português. Aqui o cinema nacional acompanha a tendência da nossa própria literatura contemporânea onde os estudos históricos ocupam, neste momento, um lugar de alto relevo. É um cinema caro, nem sempre com fácil colocação fora de Portugal e que muitos consideram falso, artificial. Não importa!

Leitão de Barros procurou não ferir suscetibilidades políticas, pelo que realizou duas versões, uma portuguesa, outra espanhola. A história de Inês era uma trama peninsular e, para a levar ao cinema, Leitão de Barros teve que pesar a História e a Lenda. A lenda, é bem portuguesa, mas a história ultrapassa as nossas fronteiras. A lenda apresenta-nos um rei consumido pelo desvario de uma paixão que o leva a esquecer deveres com o País e o Povo. Mas estes amores, tal como os conhecemos da história que nos chegou, enredam-se também na intriga política internacional, em que a Castro servria interesses estrangeiros e os seus matadores desejos portugueses.
Afinal, tratou-se de um acto criminoso, excesso de poder ou um acto de justiça imposto pela política?
Apesar de o filme ter uma grande base histórica, nem por isso deixa de dar profundo (e fácil) relevo aos amores incómodos.
Se Inês não tivesse morrido nestas trágicas circunstâncias, quem hoje recordaria essa mulher, ainda que muito bela ou insinuante, amante de um príncipe herdeiro ou mulher de um rei?
Naquela contradição, perpassam os matadores, umas vezes assassinos implacáveis, sem sentimentos e a soldo, outras homens honrados, cientes do risco, fiéis ao Rei e à Pátria.
Nos anos 40 do século XX, em pleno Estado Novo, estas intervenções de índole histórica, estavam conforme as necessidades da sua implantação João Ameal (in História de Portugal), autor comprometido com o salazarismo, apresenta D. Pedro, na perspetiva de justiceiro popular, um senhor de justiça íntegra, atenta a cada caso, diligente e eficaz. O povo sabe que tem o rei por si. D. Pedro está sempre ao alcance dos que precisam da intervenção régia. É assim a justiça, uma mão espalha benesses, outra segura o gládio. O povo aprova a ação do soberano, que lhe assegura o bem-estar, a prosperidade económica, a ordem moral baseada na clara e inflexível justiça.
Para Aquilino Ribeiro (in, Príncipes de Portugal, Sua Grandeza e Misérias), a imagem é diametralmente diferente: O infante que tanto que reparou nela, ficou enamorado, acabando por perder o juízo que já era pouco. (…) No nosso labrusco D. Pedro, a dança era uma bambochata, saricoté de escravos. (…) Este rei era tudo o que há de mais ramboeiro, e em chulas, comezainas e lausperenes, consumia os maravedis que lhe chegavam à mão (…).


FLEMING DE OLIVEIRA
NOS 650 ANOS DA TRANSLADAÇÃO DE INÊS DE CASTRO PARA ALCOBAÇA

(VI) NO TEMPO DE D.PEDRO, D. INÊS E OUTROS Histórias e Lendas que o tempo não apagou (COMEMORAÇÕES INESIANAS)


Sobre Inês de Castro foram também produzidas peças musicais, com destaque para a Inês de Castro (música de Giuseppe Persiani e libreto de Salvore Cammmarano), que estreou no teatro San Carlo-Nápoles, a 28 de Janeiro de 1835. Esta ópera, em três atos, entretanto um pouco esquecida, foi apresentada no Pátio da Universidade de Coimbra, a 6 e 7 de Junho e nas escadarias do Mosteiro de Alcobaça, a 10 de Junho de 2003, com alguma expectativa.
Inês de Castro continuou a interessar compositores contemporâneos, sendo também de referir a peça de James McMillan, a primeira ópera deste compositor escocês católico, nascido em 1959, apresentada no Coliseu do Porto em 2001, no âmbito do Porto-Capital Europeia da Cultura.
Narrado por Fernão Lopes, trovado por Garcia de Resende, poetizado como ninguém por Camões, dramatizado por António Ferreira, mitificado por Manuel Faria de Sousa, o episódio de Inês de Castro entrou no imaginário nacional português, e até no europeu.
Ainda talvez esteja na memória de alguns alcobacenses, a representação, de A Castro, de António Ferreira, no adro do Mosteiro de Alcobaça, pela companhia de Amélia Rey Collaço e marido Robles Monteiro, na noite de 25 de Agosto de 1935, numa encenação de Júlio Dantas.
Foi considerada como uma manifestação artística sem par, aliás repetida anos depois, 30 de Agosto de 1941. Segundo o Diário de Notícias, Amélia Rey Colaço acabara de encontrar a expressão definitiva de um espetáculo nacional e No templo gótico transformado pela magia da luz, aconteceu um milagre.
Nesta representação grandiosa e imponente, participaram cerca de 400 figurantes, que utilizaram adereços do Torneio Medieval e do Cortejo, organizado por Leitão de Barros, em Lisboa. Em Alcobaça e no Mosteiro, pode-se concretizar um projeto antigo de Amélia Rey Colaço, que nessa década dos anos trinta foi considerado um ponto alto da sua carreira.
O espetáculo começou com Palmira Bastos a dizer (obviamente) Afonso Lopes Vieira:
Na Estremadura, coração de Portugal
Entre mosteiros e castelos e memórias
Alcobaça rebrilha entre as mais altas glórias,
Primeiro Afonso invocou Claraval.
Povo da nobre Vila! Ante vós neste adro
Vamos representar a tragédia de chama
E compor para vós o mais formoso quadro
Que o amor neste mundo inspirou quem ama.
Perto daqui, lá dentro, os túmulos de encanto
Monumentos que o mundo aqui vem admirar
Vibram de beijos, de saudades e de pranto.
E assistem entre nós (noss’alma e adivinha)
Eternos na paixão, sombras dispersas no ar,
D. Pedro Rei do Amor, e Dona Inês Rainha!
O momento culminante foi a encenação do enterro de Inês. O Diário de Lisboa descreveu com destaque o espetáculo, relevando a vasta figuração, os sinos a dobrar a finados, e os violinos que gemiam os últimos acordes musicais da oratória acompanhados dum rumor surdo, de uma luz de luar, derramada sob o préstito fúnebre, desde a base da escadaria, até à entrada do templo.
Esta segunda representação de A Castro, no adro do Mosteiro, na noite de 30 de Agosto de 1941, estava inserida no que se pretendeu ser os Festivais de Alcobaça, que não tiveram seguimento. Afonso Lopes Vieira escreveu, que esta segunda tentativa de Grande Arte no sentido mais português e mais europeu faz-nos esperar que venha a criar-se nesta nobre vila o Ciclo Nacional de Teatro e Música, capaz de ser tão belo como os mais belos da Europa. Então haveria Portugal, documentado da maneira mais bela as capacidades do seu espírito. Ajudemos, pois, com amor e saibamos ser gratos ao Heroísmo artístico da empresa Rey-Colaço-Robles Monteiro. Neste Agosto de 1941, o Festival de Alcobaça consistiu, na noite de 29, num Concerto de Música Espiritual na nave do Mosteiro (I Parte), com áreas de Bach, o poema sinfónico de César Franck e a música dos executantes de Cruz Fidelis, bem como uma representação no claustro do Mosteiro (à esquerda da Igreja) do Mistério de Gil Vicente- Auto de Mofina Mendes (II Parte), (…) uma obra humana e divina a que a Virgem preside e em que a realidade destrói os arroubos de fantasia numa réplica interpretativa de um conto milenar oriental (…), numa encenação de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro.
A representação de A Castro, na noite do dia 30, constituiu um notável e cuidadoso espetáculo em termos de efeitos de luz, guarda-roupa, adereços, brocados e cabeleireiro, onde além dos atores da tragédia, Amélia Rey Colaço, Lucília Simões, Raúl de Carvalho, João Villaret, Robles Monteiro, Igrejas Caeiro, Vital dos Santos, José Cardoso e Augusto Figueiredo, atuaram o Choro das Moças de Coimbra e Orquestra, sob a regência do maestro René Bohet.
Como em 1935, por uma noite de milagre, A CASTRO, volta a ser representada sobre o fundo evocador, dominador, impressionante de Stª Maria de Alcobaça, monumento tão ligado à tragédia quinhentista de Ferreira, que já nos parece que sem ele faltaria à obra uma personagem. O mosteiro que guarda os túmulos de Pedro e de Inês, aguarda também um pouco de drama que a morte acabou e começou de novo, dando-a à imaginação dos intrepretadores. (…) A luz, que é a cortina que se abre para exibir o espetáculo, cria logo um ambiente roçando a pedraria e os vestuários e chamando o público para o campo da tragédia, valoriza a forma e o relevo do cenário e trá-lo também para a ação. O choro, outra personagem essencial da obra, ora vivendo como comentador, ora como interlocutor, enleado na linha evolutiva, fecha-a num parêntesis camoneano, tão ajustados e próprios se acharam os versos do Príncipe ao comentário coral criado por Ferreira. Complemento do ambiente imaginado, poetização melódica dos versos do autor, como óleo de penetração sensível, a música intervém também acompanhando o lirismo dos ritmos propositadamente irreal, nebulosa, indefinida quasi sonho, quasi imaginação um cortejo fúnebre sobre o ponto final da morte de Inês, dará ao público a nota evocadora da interpretação passional das gerações que ainda souberam acrescentar em beleza uma História de Amor.
(CONTINUA)

(V) NO TEMPO DE D.PEDRO, D. INÊS E OUTROS Histórias e Lendas que o tempo não apagou (COMEMORAÇÕES INESIANAS)



Voltando a Afonso Lopes Vieira, parece interessante recordar um Serão Literário e Musical por si organizado em 17 de Agosto de 1913, em colaboração estreita com M. Vieira Natividade, no qual aquele proferiu a conferência Inês de Castro na Poesia e na Lenda. Alcobaça vivia nesses anos um ambiente histórico e artístico interessante, ao qual figuras como Afonso Lopes Vieira procuraram dar projeção nacional e internacional. Vieira Natividade relacionara-se com destacadas figuras da sua época e, ao serão, um autêntico Salão acontecia no seu escritório, onde se debatiam temas artísticos e científicos, que bastante influência tiveram na formação dos filhos (António e Joaquim). Graças a Lopes Vieira, ficaram-se a dever vários serões de arte, realizados à sombra do Mosteiro. Assim, a 17 de Agosto de 1913 realizou-se o primeiro Serão Literário e Musical de Alcobaça. O serão incluiu versos declamados pelo ator, declamador e empresário teatral Augusto Rosa (1852-1918), dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço que tocaram e cantaram temas de Schubert.
No Claustro de D. Dinis, Augusto Rosa, recitou sonetos de Camões, bem como o Ato V de A Castro. Este, anos mais tarde, na sua obra Memórias e Estudos (ed. de 1917), deixou algumas notas, sobre este Serão. Às nove horas da noite, na Igreja e no Claustro, tudo estava concluído e os que iam assistir ao Serão ficaram deslumbrados com a beleza do Mosteiro, realçada pela sumptuosidade da iluminação.
O Serão começou pela admirável conferência feita por Afonso Lopes Vieira Inês da Castro na Poesia e na Lenda. Um dos pontos interessantes e novos dessa conferência é a evocação e a aproximação dos amores de Tristão e Isolda, os namorados imortais, dos amores de D. Pedro e Inês, Afonso Lopes Vieira trabalha num pequeno poema em prosa em que o conto medieval é singelamente narrado, no género do célebre livro de Bedier, La Roman de Tristan et Iseult. Há em toda a conferência um encanto, uma poesia, uma saudade, uma tal profusão de sentimentos finos, subtis, delicados, que o público que assistiu à leitura, comovido e delicado, aplaudiu entusiasticamente o grande poeta quando ele terminou (…). Estava terminado o Serão. A maior parte das pessoas que assistiram à festa retirou-se, ficando apenas umas quarenta, mais íntimas, sue foram convidadas para assistir a uma piedosa romaria. Distribuíram brandões acesos a todas essas pessoas que, atravessando o templo, se dirigiram à Sala dos Túmulos, onde repousam Pedro e Inês. Aí, eu, no alto piso da ogiva que domina os dois sarcófagos, recitei à luz das tochas, dominado por uma íntima comoção, o magnífico e impressionante soneto de Afonso Lopes Vieira, escrito para esta solenidade, trabalhado sobre o tema do adeus esculpido na rosácea do túmulo de D. Pedro e que vou transcrever:

Até ao fim do mundo! A grande amada
Escuta o adeus da grande voz sentida
Santa e Rainha, aguarda aquela vida
Que só depois do fim é começada.
Pedra de sonho e cor, foste lavrada
Pela saudade imensa aqui vivida;

Guarda a saudade, pois, da despedida
É a esperança da hora desejada.
Guarda a saudade que jamais acaba
Que o dia há-de vir, de amor contente
Os que dormem aqui vão esperando.
E no fragor dum mundo que desaba
Hão-de acordar, sorrindo eternamente
Os olhos um no outro enfim pousando.

Na verdade, um dia haverá o reencontro, um dia soarão as trombetas para o Julgamento Final.
Anjos pressurosos irão ajudá-los a soerguer-se dos leitos de pedra.

A Câmara Municipal de Alcobaça, na sua sessão de 27 de Agosto de 1913, registou uma homenagem a Lopes Vieira:
Que não devendo a Câmara Municipal desinteressar-se de qualquer facto que concorra para o celebrizar esta vila, chamando a atenção dos estranhos para as suas coisas notáveis, e reconhecendo que a festa de Arte, realizada no Claustro do Mosteiro em 17 de Agosto, teve a beleza estranha de um acontecimento surpreendente, impregnado de beleza genial e poesia emotiva, que a toda a assistência maravilhou, resolve consignar na acta a homenagem de respeito e consideração da câmara pelo ilustre poeta sr. ALV; e os seus agradecimentos por ele se ter dignado escolher Alcobaça para a realização do sarau literário e artístico, que para o seu altíssimo valor lhe bastava a preciosa jóia literária que é a conferência apresentada por aquele delicadíssimo poeta.

Lopes Vieira (in, Passeio nas Minhas Terras), escreveu em 1940:
(…) Eis-nos agora em a nobre Vila de Alcobaça, terra culta e rica e cuja cultura e riqueza foram criadas pela grande escola do Mosteiro; Alcobaça, berço de Portugal, onde a primeira infância do Reino foi acarinhada heroicamente pelos monges de hábitos brancos, enviados de França por D. Bernardo de Claraval - como lhe chama a velha crónica - ao Rei fundador da Nação. Se eu fosse desfiar as recordações pessoais que a nobre Vila me sugere, falaria durante horas, por exemplo do primeiro serão de Arte no Mosteiro (…)

Em Agosto de 1914, tentou organizar um novo Serão em Alcobaça, rebatizado Serão de Arte, por lhe parecer que a designação de literário era pelintra. O programa do Serão Musical e Literário no Claustro do Mosteiro de Alcobaça, a 12 de Agosto de 1914, era efetivamente grandioso, com Berta e Viana da Mota, declamações de Augusto Rosa, coros de Mme. Bensaúde e interpretações de Bach, A. W. Mozart, R. Wagner, Cesar Frank e D'Albert. Lopes Vieira reservava para si um papel desta vez mais modesto, e as suas breves palavras serviriam de introdução ao Serão, embora tenham permanecido inéditas. Tratava-se-se de um prefácio de conteúdo pedagógico, uma explição à audiência sobre o significado a retirar do evento e a sua projeção simbólica, num mundo dedicado à arte. Este posicionamento professoral era assumido com a naturalidade de um guia a encaminhar o grupo numa direção conhecida e desejada. Embora o Serão tivesse sido previsto com os mais reputados artistas, ele seria o anfitrião a quem caberia a tarefa de transformar uma noite de arte numa tradição pela arte.
Mas estas romagens pela arte foram interrompidas pelo clima de tensão que antecedeu a I Guerra. Aliás, aquele Serão já nem se realizou. A I Guerra iria deflagar dias depois.
Só em Julho de 1929 foram retomadas iniciativas deste tipo, aquando da reintegração do Refeitório do Mosteiro, o que ficou registado numa conferência de Lopes Vieira.
Veja-se a este propósito o interessante trabalho de Cristina Nobre, da Escola Superior do IPL, Afonso Lopes Vieira: A Campanha Vicentina e os Serões de Alcobaça na imprensa e na intimidade -ou de como reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu…
(CONTINUA)

(IV) NO TEMPO DE D.PEDRO, D. INÊS E OUTROS Histórias e Lendas que o tempo não apagou (COMEMORAÇÕES INESIANAS)


Vejamos, que registo nos deixou a Princesa Rattazzi sobre Inês de Castro, após a visita ao Mosteiro da Alcobaça, em 1879, cerca de 100 anos após William Beckford. A Princesa Rattazzi (1813-1883), foi publicista, romancista, poetisa, viajante, autora de textos dramáticos e tradutora, mas não entrou certamente para a galeria dos autores literários de grande, médio ou pequeno relevo. Em 1879 escreveu o Portugal de Relance, que desencadeou uma grande polémica entre nós, na qual intervieram, entre outros, Camilo, Antero e Ramalho.
Os túmulos de Inês de Castro e do seu real esposo são maravilhosos! É de pedra, marfim, renda? Os dois sarcófagos estão de pés de um para os do outro, a fim de no dizer da lenda, quando no dia do Juízo Final a trombeta do arcanjo acordar os dois amantes, o seu primeiro olhar seja um olhar de amor. A estátua de Inês de Castro é jacente, sustentada por anjos que a olham chorosos, segurando uma coroa sobre a sua cabeça. Na mão direita tem um colar de pérolas. A seus pés vêm-se vestígios de cães, que foram partidos ou arrancados e que deviam simbolizar a fidelidade. Os quatro lados do túmulo estão cobertos de baixos-relevos admiráveis. O túmulo propriamente dito, está apoiado em seis esfinges, cujas faces destruídas e sem relevo, testemunham a curiosidade dos visitantes. O sarcófago de D. Pedro, o Justiceiro, está seguro por seis Leões. A sua figura nobre respira suavidade, a mão direita empunha uma espada. A seus pés estira-se um cão de caça. Nos cantos da capela, encontram-se três arcas de pedra, restos mortais dos três filhos de Inês de Castro.
Estes túmulos, foram abertos mais que uma vez.
Logo em 1524, por ordem de D. João III, na sua presença e, pouco depois, por D. Sebastião, em 1 de Agosto de 1569. Este foi o ano da peste grande, que nos meses de Julho, Agosto e Setembro atingiu o pico de intensidade. Sem ficar à espera da progressão do flagelo, a família real saiu de Lisboa. D. Sebastião, acompanhado pelo tio Cardeal D. Henrique, ficou em Sintra até meados de Julho e a partir (22 de Julho) iniciou uma volta por localidades mais pequenas, menos povoadas e assim, eventualmente, mais seguras. A partir de Óbidos, foi para Alcobaça, aonde ficou até 23 de Agosto. A estadia da Corte em Alcobaça ficou marcada por alguns episódios, quiçá, macabros protagonizados pelo rei que quis mandar abrir as sepulturas de D. Afonso II, D. Afonso III e respetivas consortes. O túmulo de D. Afonso III, mereceu-lhe especial respeito pois foi este que reconquistou o Algarve aos mouros. D. Pedro e D. Inês não lhe mereciam especial consideração, nomeadamente aquele pelo seu passado mulherengo. Vieira Natividade (in, Mosteiro de Alcobaça) escreveu que D. Sebastião por uma doida fantasia de criança andou pelo reino vendo os restos mortais dos seus antepassados. Sobre aquele acontecimento chegaram-nos várias versões. O túmulo de D. Inês foi danificado no tampo pelos pedreiros. Como dissessem a D. Sebastião que o sepulcro de D. Pedro não se podia abrir, sem quebra dos ricos lavores que o ornavam, o rei terá replicado, com aspereza (e infantilidade): Deixem-no, não lhe toquem porque nem nele, nem no outro há que ver ou tirar proveito; pois além de nenhum (referia-se ao túmulo de D. Afonso II) acrescentar por armas um palmo de terra ao reino, um com amar mulheres e outro com as perseguir, deram assas trabalho e deixaram pouca que imitar a seus sucessores (Fonseca Benevides, in Rainhas de Portugal). Conta-se, mais, que Frei Francisco Machado, terá ousado censurar D. Sebastião (se D. Afonso II e D. Pedro não conquistaram terras, pelo menos souberam conservar e governar o reino) pelo que foi repreendido pelo Cardeal D. Henrique, embora todos reconhecessem que estava a declarar alto, o que diziam pelas costas. Ainda se diz que, aberto o túmulo de Inês, alguns fidalgos novatos, aproveitando-se da distração do rei, apanharam e embolsaram algumas madeixas do cadáver.
Admite-se que a observação de M. Vieira Natividade, não seja especialmente adequada ou justa pois, antigamente, a exposição e veneração de restos mortais de pessoas ilustres, nem sempre se encontrava associada a cerimónias macabras, religiosas ou de culto. Para além dos casos de D. João III e D. Sebastião, a monarquia portuguesa teve outros casos, antecedentes. Os restos mortais de D. João II foram expostos, aquando da transladação, a mando de D. Manuel, em 1499 de Silves para a Batalha e uma outra vez, por ordem do Cardeal D. Henrique, em 1565. Em 1520, por ordem ainda de D. Manuel, os restos de D. Afonso Henriques foram objeto de cerimónia semelhante, antes de serem transferidos para o novo túmulo, na Igreja de StªCruz, em Coimbra.
A delapidação dos túmulos mais conhecida, e também a mais grave, ocorreu aquando da 3ª Invasão Francesa, em 1810. Os soldados do Gen. Conde de Erlon, sediados em Peniche, assaltaram o Mosteiro e, entre atos de enorme vandalismo, arrombaram os túmulos e destruiram de forma irreparável algumas das suas edículas. Os corpos foram retirados e profanados. Diz-se que o de D. Pedro estava mumificado e revestido de um manto de púrpura e a cabeça de D. Inês que ainda conservava alguns cabelos alourados, foi atirada para uma sala ao lado. Os monges reuniram piedosamente os elementos dispersos dos corpos e voltaram a selar os túmulos, até hoje. Após 1810, os túmulos passaram por vários sítios da igreja, para voltarem em 1956 à posição no transepto, frente a frente. Hoje em dia, os túmulos são uma das grandes atrações dos visitantes, sem prejuízo de alguns populares pensarem que é ali que se encontra o túimulo do soldado desconhecido, o destino dos que os visitam no dia do casamento, para fazerem juras de amor eterno e de fidelidade.
O conjunto dos túmulos, com mais de 600 anos é, afinal, tão grandioso que um observador apressado não repara, para além das grandes mutilações, que faltam cerca de 100 cabeças às figuras. A destruição implacável de tantas mini-esculturas permite, não obstante, ajuizar da suprema mestria do escultor.
O que ali se destaca, mais que o tratamento conferido às imagens jacentes é, no nosso entender, a variedade e riqueza, tanto iconográfica como plástica, das faces das arcas, feitas de cenas e não de simples personagens isoladas, como acontecia normalmente ao tempo, em situações similares.
Inês de Castro encontra-se representada rodeada por anjos e coroada como rainha. A sua mão direita, segura a ponta do colar que lhe cai do peito e a mão esquerda, enluvada, a outra luva.
Os grandes temas invocados no túmulo estão nos frontais, a Infância e a Paixão de Cristo e, nos faciais, o Calvário e o Juízo Final. Salientamos O Juízo Final.
Certos autores avançam que D. Pedro, quis mostrar ao mundo, ao pai e assassinos, que com Inês tinham um lugar no Paraíso e os causadores de tanto sofrimento, iriam precipitar-se no Inferno, representado pelo diabo, no canto inferior direito do facial. Pode-se aí ainda encontrar um Cristo entronizado, bem como a direita a Virgem e os Apóstolos a rezar. Em baixo, estão representados os mortos que, ouvidas as trombetas, se levantam da sepultura, para aguardarem sentença no Dia do Juízo.
D. Pedro I, coroado e rodeado por anjos, segura o punho de uma espada na mão direita, enquanto a esquerda agarra a bainha.
Nos frontais, estão representados a Infância de S. Bartolomeu e o Martírio de S. Bartolomeu e, nos faciais, a Roda da Vida, a Roda da Fortuna e a Boa Morte de D. Pedro. A Roda da Vida, recorda nas suas 12 edículas, momentos da vida amorosa e trágica de Pedro e Inês.
Numa leitura das edículas (feita no sentido ascendente e da esquerda para a direita), e seguindo, de perto, o alcobacense M. Vieira Natividade, pode-se observar:
1)-Inês acaricia um filho, 2)-O casal convive com os três filhos, 3)-D. Inês e D. Pedro jogam xadrez, 4)-Os dois amorosos mostram-se em familiar convívio, 5)-D. Inês subjuga uma figura prostrada no chão, 6)-D. Pedro encontra-se sentado num grandioso trono, 7)-D. Inês é apanhada de surpresa pelos assassinos, 8)-D. Inês desmascarando um dos assassinos, 9)-Degolação de Inês, 10)-O carrasco puxa-lhe brutalmente a cabeça), 11)-Inês encontra-se já morta,12)-Os assassinos de Inês são castigados, 13)-D. Pedro encontra-se envolto numa mortalha.
A Roda da Fortuna, representa (numa leitura feita no mesmo sentido):
a)-D. Inês sentada à esquerda de D. Pedro (note-se que então ainda não estão casados), b)-O casal troca de posição (D. Inês sentada à direita de D. Pedro, o que indica que já estão casados), c)-D. Pedro e D. Inês sentados lado a lado como num retrato oficial, d)-D. Afonso IV a expulsar Inês do reino e)-D. Inês repele um homem que parece ser D. Afonso IV, f)-D. Pedro e D. Inês prostrados no chão subjugados pela figura híbrida da Fortuna que segura com as mãos a Roda.
Em termos escultóricos, o túmulo de D. Pedro I é considerado uma obra mais elaborada, chegando os altos-relevos a atingir 15cm, enquanto no de D. Inês atingem apenas os 10cm.
(CONTINUA)

(III) NO TEMPO DE D.PEDRO, D. INÊS E OUTROS Histórias e Lendas que o tempo não apagou (COMEMORAÇÕES INESIANAS)


A relação de D. Pedro com os frades de Alcobaça era muito estreita, pois, tendo-lhes seu pai, tirado alguns territórios que considerava sonegados à coroa, eles foram-lhes restituídos por aquele.
O imponente e célebre funeral de D. Inês, foi descrito por Fernão Lopes (in Crónica de D. Pedro I) e por Frei Manuel dos Santos (Cronista Mor do Reino e continuador da Monarquia Lusitana), de forma algo semelhante, embora em ambos os casos, porventura, com uma componente lendária. O corpo, veio do Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra (note-se que o corpo da Rainha Santa já fora porém transladado), e ao longo das dezassete léguas do trajeto passou por fileiras de milhares de pessoas, em silêncio, empunhando círios acesos. O cadáver foi acompanhado pelo clero e nobreza mais importantes do reino. E apeando-se os da comitiva à porta do Mosteiro foram por o corpo da Rainha na Igreja, sem fazer por então outra coisa. No outro dia oficiou os funerais em Pontifical o Bispo de Viseu; e no fim fez El-rei descobrir o cadáver acomodando-o como puderam em uma cadeira e trazendo o Abade uma coroa prevenida outra vez deram princípio a nova e celebradíssima cerimónia de beijaram a fina mão de D. Inês como sua Rainha todos os que eram presentes; por remate da ação depositaram o real cadáver na elegante e soberbíssima sepultura, que o esperava; e nela descansa até ao último dia da ressurreição universal (Frei Manuel dos Santos, in Alcobaça Ilustrada).
D. Pedro, havia mandado vestir e sentar o cadáver num trono e cingir a cabeça com uma coroa de ouro.
Esta tétrica cerimónia do beija-mão, tão vivida e revivida no imaginário popular, foi acolhida nas narrativas do final do século XVI, depois de Camões escrever em Os Lusíadas, a tragédia da Linda Inês, de colo de garça.
A transladação terá sido mesmo assim, ou aquelas descrições fizeram eco de uma lenda, já consolidada? Fernão Lopes nasceu em finais do século XIV e escreveu a Crónica de D. Pedro I (a mando de D. Afonso V) com grande distância cronológica, pelo que talvez tivesse tido acesso a uma lenda com laivos de verdade, que foi recuperar. Deve-se a Fernão Lopes muito da imagem, por vezes confusa, que de D. Pedro chegou até hoje. Note-se que a transladação de Inês de Castro para Alcobaça, terá ocorrido a 2 de Abril de 1361, por isso assinalamos 650 anos, seis anos após a morte, o que é, eventualmente, pouco compatível com a cerimónia do beija-mão e riscos de peste ainda não esquecida.
Sobre os túmulos de D. Pedro e Inês de Castro muito se tem dito e escrito, pois são reputados como das obras mais belas, da escultura funerária do Ocidente e, especialmente, de Portugal. A sua autoria permanece desconhecida, mas há quem admite ser atribuída a uma dupla de escultores portugueses (há também quem diga franceses).
Apesar da extensão da bibliografia nacional e estrangeira que o drama inspirou, os túmulos nunca tinham sido objeto de estudo, sério e detalhado, até 1910, com Manuel Vieira Natividade (in, Ignes de Castro e Pedro, o Cru, perante a Iconografia dos seus Túmulos).
Inicialmente os túmulos estavam colocados, lado a lado, no braço sul do transepto da Igreja, com os pés virados para nascente, sendo o de D. Inês à direita do de D. Pedro. Possivelmente em 1827, foram transferidos para a Sala dos Túmulos e aí colocados frente-a-frente, criando-se então a lenda que esta era a forma de os amantes se reencontrarem, de pronto, no Dia do Juízo Final. A atual localização, o de D. Inês no lado norte e o de D. Pedro no lado sul do transepto, remonta a 1956, após as obras no Mosteiro, por alturas da visita de Isabel II, de Inglaterra. No Panteão Real, em Alcobaça, onde se encontram sepultados D. Afonso II e D. Afonso III, sua mulher e filhos, há ainda três pequenos sarcófagos, não identificados, mas que se admite destinados a crianças. Nenhum historiador conceituado os atribui aos filhos de Inês de Castro (dois rapazes e uma rapariga), mas William Beckford, em 1794, a Princesa Rattazi, em 1879 e Ramalho Ortigão, em 1886, aceitaram mais esta lenda romântica.
Os amores de Inês na literatura aparecem, pela primeira vez, com as Trovas à Morte de Inês de Castro, da autoria de Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral de 1516. Aí, Inês, a partir do Inferno, lamenta a tristeza da sua sorte, advertindo as mulheres para os perigos do amor. No entanto, é com Os Lusíadas, que se constitui o mais influente fundo lírico do episódio inesiano. Muitas das referências a espaços, como os campos do Mondego, e à figura dos carrascos, surgem pela primeira vez neste poema, assumindo parte integrante da história e lenda nacionais. A influência da obra de Camões, contribuiu em muito para firmar Inês de Castro como uma das suas personagens mais férteis da nossa literatura. Em 1587, foi publicada A Castro (António Ferreira) a primeira tragédia clássica portuguesa, que inspirada nos trágicos amores, deu ênfase ao conflito interior de D. Afonso IV, nas suas hesitações quanto à sorte da Mulher do filho e mãe de seus netos.
Ao longo dos séculos, a história de Pedro e Inês foi contada com inúmeros pormenores inventados ou fantasiosos. O espanhol Jeronimo Bermudez escreveu a Nise Lacrimosa. No século XVII, a monarquia dual (no trono português estava Filipe II de Espanha, neto do rei D. Manuel I de Portugal) proporcionou um maior contacto cultural entre os dois países. Escritores portugueses escreveram em castelhano também sobre o tema, como D. Francisco Manuel de Melo, com os Sonetos a la Muerte de D. Inês de Castro. No século XVIII, Inês de Castro (1723), do francês Houdar de la Motte, celebrizou e espalhou na Europa a história de Inês, acentuando os aspetos sentimentais e dramáticos.
Em Portugal, os amores de D. Inês popularizaram-se, não apenas na literatura erudita (com a pena dos árcades Manuel de Figueiredo e Reis Quita), mas também entre o povo, com o teatro e o cordel (a literatura de cordel, muitas vezes apreciada depreciativamente, apropriou-se do tema com personalidade, linguagem solene, grave, majestosa). Também Bocage lhe dedicou uma cantata, que termina assim: Toldam-se os ares/Murcham-se as flores: morrei amores/Que Inês morreu.
A Europa correspondeu ao apelo desta história pelo que se sucederam traduções, edições ou reedições de obras literárias..
Com o romantismo, bem alicerçado na época que o antecede, cresceu o interesse pelos factos históricos associados ao episódio. Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, procuraram investigar, com algum rigor, as pessoas intervenientes e factos. Todavia, o fundo sentimental destes amores, correspondia ao gosto do popular, tanto pelo fatalismo, como pelo conflito que opunha o indivíduo à sociedade (corporizada no Estado e em D. Afonso IV), quer ainda pela localização em plena época medieva. O historicismo que caracteriza este período reflete-se, na literatura sobre o tema, e nomeadamente nos dramas históricos de Henrique Lopes de Mendonça (in, A Morta) e António Patrício (in, Pedro, O Cru), onde se nota uma crescente atenção à figura de D. Pedro.
Após o romantismo, o tema persistiu numa literatura nacionalista e saudosista, explorando aspetos da lenda, prolongando-se por todo o século XX. Mais recentemente, podem indicar-se os exemplos de poetas como Ruy Belo, Miguel Torga ou Natália Correia. A nível internacional, e já no século XX, alguns escritores recorreram a Inês de Castro, como o existencialista francês Henri de Montherlant, em La Reine Morte.
Enquanto personagem, Inês de Castro tem assumido roupagens diferentes conforme o autor e a época dos textos, mas a universalidade e intemporalidade do tema amor absoluto que sobrevive à morte, a tragédia da morte sem culpa face à mesquinhez dos interesses humanos ou do Estado, têm lhe garantido uma resistência ao tempo e possibilitado a sua atualização. Mais do que uma personagem, Inês é, na História ou na Lenda, um símbolo do amor impossível e infeliz aquele que faz o Homem sonhar, que causa uma compaixão e comoção. Tristão e Isolda, Romeu e Julieta. Teresa e Simão são casais que têm como destino um fim trágico que surge a partir do momento que decidem tentar alcançar o impossível. Todos esses casos caminharam para o abismo que por exemplo em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, vem bem retratado na carta que Simão escreve a Teresa: Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo.
No caso de Inês de Castro, esta desafia o poder do Estado. Por motivos de ordem política D. Afonso IV não aceita Inês como esposa legítima de D. Pedro e, por tal, ela terá de morrer, pois escolheu entregar-se a este amor. O abismo é, então, a partir dessa escolha, inevitável.
(CONTINUA)