terça-feira, 13 de setembro de 2011

BEBER AGUARDENTE


-A ENGORDA DO GADO CASEIRO
-O MATO-BICHO E SOPAS DE CAVALO CANSADO
-UM BOM “BAGAÇO”

Na engorda dos animais, utilizavam-se produtos da horta, frutas e sobejos. Na sociedade rural dos tempos da II Guerra e até meados do século passado, não existiam desperdícios. Tudo se aproveitava e tudo se transformava. Era o caso dos sobejos de comida destinados à preparação da vianda para os porcos que incluia ainda, as águas das primeiras lavagens da loiça ou de lavagens de utensílios que tivessem tido matérias gordas, a lavadura. Os desperdícios resultantes da preparação dos alimentos, como couves amarelas e bichadas, cascas de batatas, de feijão, nabo, abóbora, cenoura, fruta, e de espécies espontâneas, os eventuais excessos de produtos da horta ou fruta, também serviam de alimentação como cereais, em grão ou farinha, como o milho e favas. Toda a vianda era preparada com muita água e sal. O azeite era conservado em talhas de barro vidrado.
A aguardente fazia-se do bagulho das uvas. Quando não era para vender guardava-se em garrafões de 5 e 10 litros e feita em alambique de cobre, como em casa do Dr. Amílcar Magalhães que tinha um semi-industrial, que alguns vizinhos também utilizavam.
Também se salgava o peixe, aliás de uma forma não muito diferente das carnes. Neste caso, amanhado o peixe e retiradas as escamas, numa operação à unha, em sentido contrário à sua posição natural ou normal, ele ia para a salga. O Ti’ Alfredo Bonifácio, recorda um costume muito antigo de Cós, Montes e Alpedriz. Havia muitos texugos que estragavam as culturas, pelo que quem caçasse um, ia de porta em porta mostrar a façanha e pedir um contibuto para o trabalho em prol da comunidade.
O alcoolismo era um problema de saúde e social, enraizado, mas encarado de uma forma equívoca. As crianças em zonas de vinho, a partir dos oito ou nove anos já o consumiam com a anuência dos pais, desde logo ao pequeno almoço, na forma do mata bicho ou sopas de cavalo cansado, como ainda veremos adiante.
Altino da Cunha Ribeiro lembra-se de um homem de Alpedriz, tão velho quantos os cerca de 90 anos, trabalhador rural, grande bebedor de vinho tinto (branco nunca!) e que jamais estivera doente. Por vezes bebia tanto que caía na valeta, onde era socorrido por um passante, que lhe atirava com um balde de água à cabeça. Havia até quem dissessse (malevolamente?) que nessas ocasiões, a fermentação do vinho no estômago, fazia com que deitasse vapor ou fumo pela boca…Um dia o homem encontrava-se parado à porta da fábrica de Altino, a comer toucinho crú salgado, acompanhado de pão e, claro, de uma garrafa de vinho tinto, que levava directamente à boca.
-Oh senhor António, você está a matar-se!
-Porquê, senhor Altino?
-Um homem da sua idade, a comer toucinho cru, quer-se matar…
-Olhe que não, senhor Altino, daqui vou à taberna da Hermínia, bebo mais um copo e desinfecto a mánica.
Mas também recordamos aqui uma outra história, de que ainda se fala, de um velhote da Ribeira do Pereiro. Ti’ Manel gabava-se também de nunca ter ido a um médico, nem ter uma dor de cabeça em oitenta anos. O mata-bicho era uma inevitavelmente uma aguardente de bagaço, que bebia de um trago sem se engasgar.
Solteiro, Ti´Manel não tinha descendentes directos, vivia com uma prima solteira, de trinta e muitos anos. Costumava levantar-se cedo, logo ao alvorecer, era o primeiro a chegar à taberna, onde o Zé Póvoa lhe servia o mata-bicho, já sem necessidade de pedir. O costume. Um dia a prima estranhou o tio não se levantar à hora habitual e, preocupada, foi indagar o que se passava. Encontrou-o ainda na cama. Mau sinal mesmo, muito mau.
-Está doente, primo?
-Não sei o que tenho p’riga, respondeu o velhote numa voz rouca e abafada, o que a deixou ainda mais preocupada.
Perplexa, chamou um carro e sem hesitar levou o primo ao médico, apesar da despesa. Este auscultou-o e perante a constatação que Ti’Manel, especialmente de manhã, gostava de pinga (afirmação quase desnecessária, por notória), proibiu de imediato o consumo. O homem regressou casa ainda mais abatido, não se conformando com tão drástica prescrição, assumindo intimamente a vontade de a não cumprir. A prima, ajudada por uns vizinhos, conseguiu a muito custo, porém, faze-lo cumprir. Mas dia após dia, o homem ia piorando, pelo que a rapariga depois de ouvir a opinião de algumas pessoas não resistiu ao último pedido.
-P’riga, a última coisa que peço é que me vás comprar uma garrafa de aguardente.
A prima não conseguiu dizer-lhe que não, pelo que foi à taberna do Zé Póvoa comprar a tão desejada aguardente.
O velho bebedola bebeu sofregamente a tão almejada aguardente e, para espanto da prima e dos vizinhos que conheciam o seu estado, começou a melhorar rapidamente, pelo que a partir do terceiro ou quarto dia, já saía à rua, havia retomado os hábitos normais, passando a ir de manhã à taberna, como o fizera em toda a vida. Morreu no ano em que iria fazer noventa anos. Ainda se fala dele na Ribeira do Pereiro.

FLEMING DE OLIVEIRA

BAILES E FESTAS POPULARES


Hoje em dia poucos são aqueles que se recordam de como eram os brinquedos, brincadeiras e bailes de tempos antigos. Em frente a casa de Ti’ Manel Joaquim, havia na estrada umas sarjetas, uma quase em frente à outra, onde os putos, geralmente dois contra dois, jogavam futebol, com uma bola de trapos. As sarjetas serviam de balizas.
Onde estão os bailes de outrora, onde se faziam despiques para dançar com a rapariga mais bonita, se arranjavam namoricos que acabavam por dar em casamento? Nas festas da aldeia, nas que a tinham, havia baile, além do domingo, também ao sábado à noite. Durante os casamentos e batizados, os bailes prolongavam-se habitualmente pelos três dias que durava a festa, tal como acontecia também no Carnaval. Nos Santos Populares o baile armava-se na noite da véspera, à volta das fogueiras. Nos dias das sortes, os rapazes, após percorrerem as ruas da sede do concelho em arruada musical, com um tocador para o efeito contratado, ainda regressavam à aldeia com energia para fazerem um baile.
Os bailes populares raramente ainda acontecem. Francisco do Couto, da Ribeira do Pereiro, gosta de recordar a emoção que representava ter músicos de carne e osso a tocar num baile e a série de imprevistos que isso acarretava, como cordas partidas, problemas com a aparelhagem, provocações, enganos e uma variedade de peripécias que tinham de ser criativamente resolvidas pelos executantes e organizadores. Graças ao álcool consumido pelo público e, às vezes, pelos músicos, muitos bailes degeneravam em pancadaria. E esses eram tidos como os bons, os melhores…
A execução dos músicos era em si mesma frequentemente hilariante, como sabe José Pereira Machado, com o seu Conjunto de Jazz. Sendo muitos deles meros amadores, como era o seu caso, dedicavam-se à atividade nas horas vagas, a troco de uns cobres para despesas ou uns copos. Os espectáculos decorriam nos fins de semana, Adiafas, Santos Populares. Carnaval e com maior intensidade nos meses de Verão. Os repertórios eram monótonos e mal ensaiados, a capacidade técnica e a qualidade dos instrumentos deixava muito a desejar, e diluía-se no sonoro matraquear da bateria.
Será intuito destas notas não deixar desvanecer na memória dos que ainda tiveram o privilégio de assistir a alguns desses arraiais e paralelamente dar a conhecer às gerações mais recentes que apenas conhecem a noite actual, com discotecas e bares, como e onde eram passadas os dias ou as noites de alguns anos atrás. Não vamos fazer, por princípio, o elogio desses tempos, nem a sua crítica. Naqueles bons velhos tempos, dizem os costumeiros idealizadores do passado, havia rigorosos padrões de moralidade pública e particular, realidade todavia bem mais complexa quando a olhamos com cuidado. Uma investigação histórica atenta admite, uma visão bem menos optimista e desmistificadora. Em síntese, adúlteros, bígamos, homessexuais de ambos os sexos, incestuosos, estupradores, toda essa gente constituía uma multidão desviante que durante três séculos desafiou o Estado e a Igreja pela transgressão de condutas oficialmente instituídas. Ontem como hoje, jamais faltaram personagens no teatro dos vícios.

FLEMING DE OLIVEIRA

HISTÓRIAS DE PADEIROS ANTIGOS Pão base da alimentação


José Pereira Machado, que já dobrou a casa dos oitenta, nasceu nos Montes-Alcobaça, onde passou a sua juventude, indo viver para Cós, quando se casou com a idade de vinte e tal anos. A sua aparência ainda é boa, mas diz que é velho, bastante velho mesmo, pois nasceu quando a I Guerra acabou. Não tem especial nostalgia desse tempo para além, do facto de ser muito mais novo. Machado dava-se mais ou menos por feliz, por viver em paz. A sua tropa em Portrugal fora boa. A II Guerra era muito longe, lá na Europa, por cá não faltava a malga de sopa, broa, e toucinho para adubar. Teve sorte e as mães portuguesas bem o reconheceram, agradecendo a Salazar. Esle e Portugal escaparam quase incólumes da Guerra, graças à argúcia e boa governação do Chefe.

Os portugueses, como Salazar bem sabia, têm no pão um emblema forte da sua dieta.
Ainda hoje, os portugueses são zelosos guardadores da epopeia do pão, símbolo dos seus anseios, nas palavras de políticos e poetas.
A paz ao lado do pão, tal como a saúde e a habitação. O preço do pão, foi o grande barómetro descontentamento mais elementar e o único produto a que o Salazar nunca permitiu subir de preço. Assim, quando Salazar não deixou aumentar o preço do pão, foi necessário fabricar um pão mais leve, vendido ao mesmo preço do de meio ou de um quilo. Enganava-se o cliente, mas tornava-se mais viável o negócio. Terminada a Guerra tudo iria melhorar, melhores dias virão, como suponha e confia a boa sabedoria popular.

Embora o pão continue entre nós a ser especialmente apreciado, a tradição da profissão de padeiro encontra-se definitivamente em crise. Pelo mundo fora, a profissão teve que se adaptar ao desenvolvimento da sociedade, das tecnologias e do comércio, sofrendo com novos padrões de vida e competição.
O processo de adaptação às mudanças começou no final dos anos 60, com o aparecimento de tecnologias, como o fogão eléctrico e os armários para impedir o excesso de fermentação. A profissão, que fora baseada na habilidade manual, no olfacto e na visão, passou a ser controlada e substituída por equipamentos, como balanças e termómetros.
Francisco (vulgo Sico) Carlos da Costa, industrial de panificação à moda antiga, ora reformado, salienta que no passado havia uma íntima relação entre o padeiro e o pão, pois aquele tinha que usar os sentidos para descobrir se o pão estava no ponto. No seu tempo, havia que sentir com as mãos a textura da massa e conhecer o cheiro próprio para avaliar se o pão estava pronto. No entanto, reconhece que, com novas máquinas, a vida dos padeiros foi facilitada e, ao invés de acordarem às duas da manhã de inverno ou verão como acontecia, podem acordar (pelo menos) às quatro.
Apesar do desenvolvimento da profissão, os padeiros portugueses tradicionais, como Sico Carlos, sofreram uma crise a partir dos anos 80, quando nutricionistas começaram a apregoar que o pão engorda. Além disso, com a expansão dos supermercados, o comércio tradicional e a sua forma de aquisição começou a modificar-se.
Hoje, há pão fresco, variado e saboroso a toda a hora. A venda de pão assemelha-se a uma confeitaria.
Sico Carlos aprendeu há mais de cinquenta anos o ofício com os mais velhos, trabalhando de início como assistente em funções menores, como limpeza. Depois de ter trabalhado bastante tempo numa padaria, já preparado, abriria o seu próprio negócio.
No entanto, com a industrialização e a necessidade de satisfazer as exigências da clientela, os aprendizes têm logo aulas práticas, sem terem que passar por essas funções. À medida que a sociedade se transformou, evoluíram também as necessidades e desejos. Um português come em média metade da quantidade que há 50 anos atrás. Apesar de os padeiros serem continuamente desafiados, a população portuguesa mesmo a rural, não cosendo mais o pão em casa, mantém a tradição de consumir pão todos os dias, ainda que em menor quantidade, o preço não é irrelevante, porque está nas raízes de sua cultura.

Fleming de Oliveira

ALCOBAÇA


-JOGOS FLORAIS DA EMISSORA NACIONAL,
-COMEMORAÇÕES D0 5 DE OUTUBRO EM 1946,
-UMA GRANDE CONFUSÃO,
-ALBINO SERRANO, DO PC.

Como iniciativa do regime, os Jogos Florais da Emissora Nacional, referentes a 1946, realizaram-se em Alcobaça, deles tendo feito parte um concorrido concerto com a Orquestra Sinfónica Popular, dirigida por Frederico de Freitas e a declamação das poesias premiadas. O primeiro prémio em Poesia Alusiva a Alcobaça foi atribuído a Emídio Velasco Martins. A propósito destes Jogos Florais, o comunista alcobacense Albino Serrano, recordou em A Hora da Libertação (ed. do PCP), uma situação de perigo passada no dia quatro, ou antes, de quatro para cinco de Outubro de 1946, quando se realizaram os Jogos Florais, no Refeitório do Mosteiro, com a presença de António Ferro, alto dignitário do regime fascista. Eu não estava muito interessado em assistir ao espectáculo, mas, à última hora e já com a casa cheia alguém ofereceu a mim e ao meu irmão, que estava comigo, bilhetes de ingresso no recinto. Entrámos e acomodamo-nos como pudemos. O espectáculo ia prossseguindo normalmente quando, precisamente à meia noite, se ouviram vários estampidos, de tal modo fortes que até parecia que estavam e rebentar bombas ali na praça, mesmo ao lado. Logo a seguir notámos grande movimentação de alguns funcionários da Administração do Concelho, ligados à Secção Policial, e ainda os habituais bufos que se encontravam a assistir ao espectáculo e acto contínuo se dirigiram apressadamente para a saída (…). Não sabia exactamente o que se estava a passar lá fora (…) Entretanto os estampidos continuavam a ouvir-se e eu não sabia o que havia de fazer: se sair rapidamente, aproveitando a confusão, ou se ficar e aguardar os acontecimentos. A primeira hipótese parecia-me mais sensata, embora um pouco perigosa (note-se que, segundo o depoimento de Albino Serrano, nessa altura trazia, como de costume, os bolsos cheios de propaganda do PC) pois não imaginava o que poderia encontrar lá fora.
Mas, afinal, o que era que estava a acontecer na rua?
Viemos a saber que os estampidos, que ouvíramos lá dentro, eram o resultado duma salva de morteiros deitados no Castelo, assinalando mais um aniversário do Cinco de Outubro, os quais, ao rebentarem provocavam dentro do Refeitório do Mosteiro, onde decorria a festa, um eco de tal modo intenso, que levou a maior parte das pessoas a pensar que estava a rebentar bombas na praça (…).
O autor deste incidente foi Serafim Amaral que, munido de uma autorização do Governo Civil de Leiria, festejava a implantação da República.

FLEMING DE OLIVEIRA

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

UMA FEIRA À PORTUGUESA (à antiga)


- A Feira de S.Bernardo em Alcobaça
-O vendedor da Banha-da-Cobra
-O Teatro de Robertos/Fantoches
-O Circo
-O Poço da Morte
-Uma boa feira tem sempre pancadaria

A Feira de S. Bernardo, realiza-se há muitos anos em Alcobaça, umas vezes com mais animação ou interesse que outras.
O certo é que, não obstante a descaracterização que hoje em dia apresenta, aliás como muitas outras que por esse País se realizam, nem por isso deixa de estar enraizada nos hábitos da terra.
As festas e romarias são uma componente importante da cultura popular do povo português. Numerosas e variadas, acontecem um pouco por todo o país e fazem parte das tradições e memórias de um povo que pretende preservar e manter atual a cultura secular que lhe confere uma identidade própria. Apesar de decorrerem ao longo do ano, é nos meses de Julho e Agosto que acontece a maior parte das festas e romarias em Portugal, unindo quase sempre a componente religiosa a um programa popular.
A Feira de S. Bernardo teve sempre uma componente essencialmente lúdica. Falando com pessoas idosas ou consultando notícias de jornais, atrevemo-nos a dizer que a Feira de S. Bernardo, quando no Rossio, era o ponto de encontro dos alcobacenses da terra com os de fora, a ocasião para mercadejar algumas coisas, beber uns copos com os amigos e foliar durante algum tempo. E pôr a coversa em dia, porque a vida não é só canseiras.
O que era uma boa Feira, no dizer dos antigos, lá pelos anos trinta?
No tempo da República e dos primórdios do Estado Novo, da parte da tarde as tendas lado a lado pejavam, como convinha, no Largo do Rossio, em longas fileiras, e vendiam de tudo, fazendas, bugigangas, algodão doce, ouro, ouro sim, ouro de lei, ou prata contrastada, como o material do Maneca de Febres, porque o metal é que tem valor amanhã, no meio de enorme algazarra e estridência de conversas, de realejos ou outros instrumentos menos afinados, interpretados por cegos (que afinal talvez não o fossem…) que faziam números com saltimbancos e artistas de circo, enquanto se comiam tremoços ou pevides. Havia a tômbola das panelas que era muito procurada, pelas mulheres, na esperança de poder sair uma peça, que mesmo de refugo iria fazer muito geito na decoração da cozinha ou no serviço da casa. Também havia as tendas do vai um tirinho o q´rido, das caixas com furinhos que davam prémios e as dos matraquilhos.
O povo gostava de ir passear e ver. Famílias inteiras, com ar grave e pasmado, rapazes vestidos à maruja, paravam diante dos artistas a quem davam uns cobres, ajustavam o preço de um alguidar ou de uma peça de fazenda, tiravam medidas para o rapaz fazer um par de botas de carneira, iam ao mercado do gado, da fruta, da hortaliça ou do
peixe da Nazaré (oh qu’ rida, oh freguesa!). Tudo era bom de apreciar. As ciganas liam a buena dicha, as vendedeiras de limonada faziam negócio com as mulheres e crianças. Alcobaça, em Agosto, com pó e algumas moscas quanto baste à mistura, fazia sede que também se matava moderamente na tenda da ginjinha. As mulheres apreciavam muito as pesadas mantas listadas de Minde, a lã azul fiada para as saias, as loiças da Olaria, de Alcobaça, com motivos pintados à mão simples e ingénuos, mas já a começar a vulgarizar os decalques, os vidrados amarelos ou verdes das Caldas da Rainha. Os homens, de pesado cajado, frequentavam principalmente, a feira do gado, faziam alguns negócios com dinheiro vivo (como poderia ser de outra forma?), entre dois copos de tinto, acompanhados de pequenos queijos de cabra ou de ovelha, da serra, vendidos em poceiros cobertos por alvas toalhas e, claro, sempre com o marisco, os tremoços e pevides. Esta era sim, uma boa Feira de S. Bernardo, com a PSP e a GNR sempre por perto e atentas à malandragem (além dos ciganos, havia outros… como os carteiristas) e às brigas do mau vinho. Os carteiristas que frequentavam as festas e romarias do país, como a Feira de S. Bernardo, eram normalmente provenientes do norte e bem referenciados pela polícia, pois usavam habitualmente um característico pequeno chapéu. A Polícia detinha-os preventivamente pelo tempo das festas, mesmo que nada tivessem ainda feito. A história dos carteiristas foi uma vez contada a Altino pelo Chefe Martins, da P.S.P., que depois foi motorista da Olaria, aquando de uma viagem em serviço que fizeram ao Porto. Os anos passaram. Algumas coisas mudaram outras nem tanto.

Durante a Feira havia circo.
Em primeiro lugar apareciam os cartazes espalhados pela vila, ilustrados com animais ferozes, palhaços ou trapezistas, homens e mulheres gordos, tatuados e anões. Depois vinham as carruagens, puxadas por camionetas ou mesmo animais, que desfilavam com música, um tambor ou corneta pelas ruas. Era este ainda o tempo do grande espetáculo (o maior espetáculo do mundo), exibido em tendas redondas de lona onde entrava a chuva e seguramente o vento, a arena colorida, as luzes feéricas, os maillots lustrosos das mulheres, os corpos atléticos dos homens. Os palhaços, os animais. Os trapezistas, lá nas alturas.
Senhoras e Senhores, Meninas e Meninos, benvindos ao circo!!! Senhoras e Crianças, não pagam... Senhoras e Crianças, não pagam!!!
João Matias lembra-se que devia ter aí uns seis anos quando pela primeira vez o pai o levou ao circo, que assentava no Parque da Gafa. Mas para a criança que era, aquele foi um dos maiores acontecimentos da ainda muito curta vida. Gostou das trapezistas, riu-se com os palhaços mas, sobretudo, ficou fascinado com o atleta das argolas. Nunca mais o esqueceu. O fascínio do circo resiste a tudo e tem o condão de persistir na memória de crianças, jovens e adultos. O das argolas era um velho, de cabelos brancos e estatura pequena. Os músculos como que lhe saltavam da roupa, e nas argolas não deixou de fazer um Cristo, com uns braços trémulos. Esperado, esperado, era o momento dos palhaços. O de cara branca, o palhaço rico, e o outro, o pobre. O rico, servia para enganar o pobre, que superava pela esperteza os ardis que o cercavam. A assistência projetava-se no azougado pobretana. João Matias ria. A música evolava-se da concertina inglesa e de um xilofone de garrafas penduradas, líquidos coloridos em escala harmonizada na subtilidade dos martelinhos. Ninguém dava pelo desconforto das bancadas duras de madeira.

E o teatro de fantoches ou de robertos? O teatro de Robertos era um dos principais divertimentos (quase obrigatório) das feiras, romarias e até praias do século XX, como recordam Altino Ribeiro e Tó Lopes. Este estilo de teatro entrou, porém, em desuso em meados do século XX. Nos seus tempos de criança, na altura da feira, apareciam os Robertos, tão ansiados pela criançada. Trata-se de espetáculos de fácil compreensão, com uma manipulação rápida e cheia de ação, cuja característica importante é o uso pelo fantocheiro de uma palheta na boca que lhe permite ampliar e distorcer a voz, produzindo efeitos surpreendentes, algo ridículos e que abordam rábulas tradicionais, que reproduzem a animação de rua (à moda antiga), algum acontecimento e centram a atenção do público com o alarido e picardias dos bonecos. Tó Lopes, em criança, gostava muito de ver os robertos e lembra-se bem de um número especialmente apreciado, pois metia (muito fantasiosamente) o Marquês de Pombal e a expulsão dos Jesuítas. Os adultos e a criançada achavam-lhe muita graça, pagava-se cinco tostões. Mas o tema mais corrente era o de um homem mal comportado, um touro para assustar e uma mulher que zangada com o comportamento do marido lhe pregava umas valentes pauladas no final.
Nos dias que correm, é difícil verem-se os Robertos, mas, de certeza, que haveria muitas crianças que gostariam de assistir a um espetáculo, com os nossos saudosos e deliciosos Robertos.

João Matias, já rapazote com pêlos a aparecer na cara, também não se esquece mais do vendedor da banha da cobra que aparecia todos os anos na Feira de S. Bernardo. O vendedor da banha da cobra não é uma personagem de ficção, pois existe, sempre existiu, evoluiu, é muito hábil e astuto.
Todos sabemos, João Matias sem dúvida, que a banha da cobra não serve para nada, mas a convicção que o vendedor transmite, através duma oratória estudada e estruturada, é capaz de convencer pessoas sobre as capacidades infinitas do milagroso medicamento. Impigens, mau olhado, torcicolos, urticária, febre dos fenos, dentes, nervos, escleroses, artroses, entorses, diarreias, sarampo, escarlatina, espinhela caída, dores das cruzes, doenças do miolo, verrugas, cravos, etc., são alguns dos males que a banha da cobra afasta a quem a quiser comprar.
Matias parece que ainda tem no ouvido essa oratória, não custa nem 20, nem 15, nem dez. Custa apenas cinco, e quem levar dois tubos leva um totalmente de graça. Um para aquele senhor, outro para aquela menina, e enquanto eu vou lá à frente receber o dinheiro, a minha mulher vai lá atrás distribuir o pacote.
Se é certo que a banha da cobra não cura nada, também não consta que daí tenha saído algum mal para a saúde pública ou para o mundo. Não custa dez nem quinze, custa apenas vinte e cinco tostões, e quem levar dois tubos leva um de graça.
Era assim tentador!
É assim que ainda conserva no ouvido o pregão com que na feira, o vendedor da banha da cobra anunciava as virtudes miraculosas daquela mistela, de composição indecifrável. E não havia mal ou maleita onde o seu resultado não fosse prodigioso. E para que não houvesse dúvidas, os argumentos eram um primor de explicação:
-Se bocência tem uma dor de dentes, fique a saber que não é o dente que lhe dói. O dente é corno, o corno é osso e o osso não dói, o que dói é o nervo.
Cremos que a grande maioria das pessoas, não apenas de Alcobaça, não acreditava naquilo, mas inexplicavelmente comprava, pelo que a vida de vendedor de ilusões ia andando embora com dificuldade. O homem era vigarista, golpista ou apenas um desenrascado a fazer pela vida? Há uma palavra tipicamente portuguesa, que caracteriza bem o nosso povo, o Desenrascanço, muito próprio do Xico Esperto, de que aliás já falámos. Saudade e desenrascanço são palavras/expressões que provavelmente conseguem definir um povo na perfeição. Vivemos saudosos do passado, desenrascando o futuro. Esta palavra (desenrascanço) é difícil de traduzir para uma outra língua, talvez por ter um significado menos romântico que o de saudade. Não recordamos alguém a referi-la como bastião da língua e maneira de ser português. O desenrascanço português é conhecido desde tempos antigos. Diz-se que durante as viagens marítimas era frequente navios de outros países levarem um português na tripulação, com o propósito de este tomar conta do navio em tempos de crise. No meio de uma tempestade, o Português ficaria com total controlo do navio, e daria uso ao seu dom do desenrascanço para livrar o navio da tormenta.

Ouvimos contar a seguinte história que se terá passado na Feira de S. Bernardo em meados dos anos cinquenta. O GNR reformado Joaquim Meneses tinha uma vaga ideia de a ouvir a colegas mais velhos, quando muitos anos depois foi colocado no Posto de Alcobaça. Ainda música entoava no ar quando no sábado, por volta da meia noite, várias pessoas se envolveram em confrontos físicos. A principal vítima da sessão de pancadaria foi o Luís da Horta, da Moita do Poço, que garantiu ter sido agredido pelo Secretário da Junta de Freguesia de Turquel, com um pau de eucalipto com 2 metros de comprimento e mais de dois centímetros de diâmetro…
-Deu-me com o pau nas costas umas cinco vezes, contou Luís. Um gesto que foi seguido por mais dois conterrâneos do Secretário da Junta.
-Os paus destes eram mais pequenos, mas mais grossos, afirmou o agredido, tão grossos que acabaram por lhe abrir a cabeça, que foi suturada com sete pontos no Hospital de Alcobaça, onde chegou bastante atordoado.
O jovem apresentou queixa por agressão contra o Secretário da Junta e os dois amigos, na Guarda Nacional Republicana. De acordo com as informações colhidas junto Chefe do Posto da G.N.R., uma patrulha foi chamada por volta da uma da madrugada de sábado, com a informação é de que estariam a decorrer desacatos no recinto da Feira. Chegada ao local, a patrulha (3 homens) deparou com o facto já consumado, pois o Luís da Horta já teria levado as pauladas, estava no chão, com a cara ensanguentada e a gemer.
-Só sei que ainda havia gente a bater-me, a dar-me pontapés nas costas e na barriga, garantiu depois.
O caricato da situação é que o assunto que terá dado iniciou a zaragata, nada tinha a ver com o Secretário da Junta, com esta ou mesmo com o Luís da Horta. Mas sim, com um irmão deste e um rapaz do Carvalhal, que terá sido apanhado, algum tempo antes, a roubar um cabrito.
O Secretário da Junta mostrou-se muito espantado pelo facto do seu nome estar envolvido na questão.
-Não tenho nada a ver com o assunto. Na altura dos acontecimentos até estava sentado a beber um copo e a petiscar com uns amigos. Referindo nunca se ter metido em zaragatas (não se esqueça que faço parte da Junta…), salientou que até andava de muletas por ter um problema numa perna, que o obrigou a fazer uma cirurgia em Leiria.
-Acha que com a perna assim eu estava em condições de bater em alguém?, perguntou ao Comandante do Posto da G.N.R, adiantando que se o Luís apresentou queixa contra si irá também fazer outra por difamação.

Falar de uma festa popular portuguesa e esquecer o Poço da Morte seria uma falta grave.
O primitivo Poço da Morte, era em madeira, e nele pontificavam os motoqueiros pai, mãe e um filho, já que no cartaz aparecia a imagem dos três, como recorda Matias. Circulavam numa estrutura cilíndrica, a girar sempre à volta até ficarem paralelos ao chão. Era um trio de fascinantes corajosos aventureiros que, com os palhaços, ilusionistas e acrobatas do circo, preenchia o imaginário de muita gente que ia à Feira. O público ficava a ver na parte superior, tendo apenas uns cabos de aço como limite, para que numa manobra imprevista (e possível) não levasse com eles.
Desafiavam a morte, no dizer do apresentador, cruzando-se com arrojo, audácia e emoção a alta velocidade de olhos vendados pela bandeira portuguesa, que depois era desfraldada triunfantemente, para gáudio da assistência e vibrantes aplausos. Especialmente emocionantes eram as voltas de moto, com o artista (filho) sentado de lado virado para o fundo do Poço, sem mãos no volante e de braços cruzados. Suscitavam emoções fortes em João Matias, que ia acompanhado pelo pai, espalhando entre os demais espectadores um clima de euforia e ansiedade, apimentado pelo ruído ensurdecedor das motos sem escape e o cheiro de gasolina mal queimada.

FLEMING DE OLIVEIRA

BARBEIROS DE OUTRORA -BARBEIROS (Baetas) LÁ DA TERRA -UM BARBEIRO (Baltasar desesperado) NO DEPÓSITO DA ÁGUA DE CALDAS DA RAINHA


Óscar Santos, presidente da Junta de Freguesia dos Montes-Alcobaça, conhece como poucos histórias da sua terra.
Recorda-se de ouvir histórias do barbeiro que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana. Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas. Há quarenta, cinquenta ou mais anos, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina afiava numa assentadura, fita de couro, posta num suporte de madeira. Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor. Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo. Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar. O barbeiro todavia nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas como Cós ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.
Já que falamos de barbeiros e o Baltasar, barbeiro de Alcobaça? Isso é outra história que já tínhamos ouvido de passagem. Por alturas de 1934/35 ocorreram umas estranhas mortes em Caldas da Rainha, ao que se dizia em consequência do consumo de água da rede inquinada com tifo. A Delegação de Saúde começou a investigar a situação, fazendo análises na rede pública, na nascente às Águas Santas. Os resultados foram aí inconclusivos, mas por via de dúvidas foi proibida a apanha e venda dos bivalves da Foz de Arelho. Mas o surto de de intoxicações e mortes por tifo (?) prosseguia.
Em último recurso, mandou-se proceder à análise da água canalizada recebida em casas particulares. E, para grande surpresa, chegou-se à conclusão que, o foco da infecção não estava na nascente, mas no depósito da água para abastecimento da rede. Este situava-se na parte mais alta da cidade, junto à mata, perto do Hospital. Depois de esvaziada a água do depósito, com grande emoção foi descoberto um corpo, em elevado estado de decomposição, junto a uma grade de ferro, destinada a impedir a entrada de sólidos na canalização.
Apesar do mau estado do corpo, que ali estava há tempos, conseguiu-se apurar a identidade do morto, também pela aliança de casamento, que tinha no dedo. Segundo Altino do Couto, na altura com 14 ou 15 anos, e que andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, de Caldas da Rainha e chegou a ver o corpo estendido numa padiola, acabado de retirar do depósito, apurou-se que se tratava de Baltasar, barbeiro, em Alcobaça, dono de um estabelecimento em frente, ao actual, Café Portugal, na rua Alexandre Herculano, sito entre a loja de ferragens de Gilberto Magalhães Coutinho e a Farmácia Belo Marques. Identificado o corpo, apurou-se que o Baltasar vinha anunciando à mulher (que não o levou a sério) que se iria matar (por nunca devidamente esclarecidas razões de dinheiro ou saias?) e que ninguém mais o encontraria. O barbeiro Baltasar, de acordo com o Dr. Hermínio Marques, que o chegou a conhecer, pois era quem lhe cortava o cabelo em rapaz, tratava-se de pessoa de cerca de cinquenta anos, educada, respeitada e estimada, pelo que o seu desaparecimento, sem deixar rastos, teve algum impacto na vila de Alcobaça, onde criou emoção. Conforme ainda contou o Dr. Hermínio Marques, o barbeiro matou-se, ingerindo previamente um potente veneno. Depois atirou-se para o depósito da água da rede pública e lá ficou durante algum tempo.
Durante meses, a população de Caldas da Rainha bebeu da água, onde esteve mergulhado o corpo do infeliz Baltasar, e apesar de a Câmara Municipal, ter anunciado uma desinfecção total e eficaz no depósito da água, gente houve que durante algum tempo se recusou a voltar a beber água da rede, ou tê-la mesmo em casa.
Que recoradações acarreta o barbeiro Baltasar? Nos anos trinta, haveria uma meia dúzia de barbeiros na vila de Alcobaça, cada qual com uma clientela própria, a que não era estranho o respectivo estatuto social. Era um tempo em que o cantar cadenciado da tesoura, manobrada com mestria, ecoava na pequena barbearia, emprestando ao ambiente um ritmo e um toque muito especiais, que os clientes apreciavam.
A barbearia de Baltasar era um espaço pequeno, com um espelho ao alto, uma só cadeira assente numa base redonda metálica. O baeta Baltasar usava uma bata branca, abotoada ao lado, e fazia caprichadamente uma barba escanhoada, com uma navalha afiada em assentadores de fita de couro, pedras para deixar a cara coberta de frescura, e dominava os cabelos mais rebeldes, graças a um fixador que ele mesmo fazia, com um pó comprado na drogaria, misturado em água, a que adicionava perfume, conforme o gosto do cliente.
Baltasar, segundo os muito poucos que dele se lembram e nos contaram, foi sempre barbeiro, profissão que começou a aprender em rapaz, apenas interrompida pela tropa. O pai, também de nome Baltasar, tinha a seu modo uma pequena história de vida. Pobre, começou a vida profissional abrindo covas para colocar postes, entrando embora sem vínculo para os C.T.T., aonde chegou ao posto de guarda-fios, cuja função era subir aos postes. A história do avô paterno, tem algo de estranho, pois ao nascer foi rejeitado pelos pais e colocado na roda, em Lisboa (roda giratória onde eram deixados os bébés indesejados. Para o identificarem eventualmente um dia, os pais colocaram-lha ao lado uma pequena Bíblia). O avô de Baltasar, cujo nome não apuramos, terá sido adoptado por uma família de Caldas da Rainha ou arredores, que não lhe deu instrução, nem cumpriu a obrigação de pelo menos uma vez por ano o levar ao orfanato. No tempo em que o futuro barbeiro Baltasar, ainda não tinha barba para se escanhoar, era frequente os rapazes, concluída a terceira ou quarta classes e que não iam prosseguir estudos por falta de posses, começarem a aprender uma profissão, onde nada ganhavam. A primeira tarefa que coube ao Baltasar, foi na barbearia de um tio, a fazer trabalhos menores, como varrer e apanhar os cabelos do chão e depois fazer barbas. A sua primeira remuneração foi de três tostões por dia, mas só ao fim de três meses. Tempos difíceis em que se fazia muito e se ganhava quase nada. O aprendiz Baltasar teve de esperar dois anos para ficar a saber que iria receber quarenta escudos por mês, (uma muito especial atenção por parte do tio), o que significava que já aprendera o mínimo, não dava golpes na cara do cliente, e merecia a confiança do patrão e, claro, do cliente. Assim, até à idade das sortes, Baltasar ficou-se pela barbearia. Mas, depois de passar uns tempos em Leiria arrumadas a farda e botas, voltou aos cortes de cabelo e às barbas bem escanhoadas, como impunha o cliente.

Na barbearia do Baltasar, vendiam-se cigarros. Era o tempo em que se ia ao barbeiro não apenas para cortar o cabelo, fazer ou aparar a barba, mas para pôr a conversa em dia, pois no barbeiro falava-se de tudo, e até se podia ler-se o jornal de graça. Enquanto Baltasar manobrava a tesoura ou fazia a barba, em gestos demorados e calmos, o tempo passado com o cliente, acabava por ser quase um confessionário. A pessoa gosta de ouvir e também tem sempre algo para contar. Antigamente, quem quisesse conhecer histórias e vidas, ia ao barbeiro ou encostava-se à porta.
O assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pêlo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente. Os barbeiros também foram acabando. Entretanto em Alcobaça estabeleceram-se outros que por sua vez já lá vão, como o Nabais, o Zé do Aço (estabelecimento ao lado da antiga Casa Sineiro), o Artur Barbeiro (ao lado do actual Café Restaurante Trindadde), o Maleiro (na Rua Alexandre Herculano perto da actual loja de Gilberto Magalhães Coutinho) ou o Baeta (em frente ao Mosteiro).
Um barbeiro em Alcobaça era senhor de estabelecimento discreto, muito discreto, em geral pequeno com o chão aos quadradinhos vermelhos e bejes, paredes revestidas de azulejos brancos e vários espelhos sem moldura. Uma ou duas cadeiras de barbeiro, difíceis de consertar, porque não havia peças em Alcobaça (só em Lisboa) que lhe valessem. O som da rádio (telefonia), saía de umas pequenas colunas e mesmo, ainda que com pouco uso, parecia que o aparelho queria mostrar que já precisava de reforma. Um ou dois calendários de parede mostravam dias longos, cansados os pés e braços de tanto labutar. Na mesa de madeira ao lado das quatro ou cinco cadeiras para quem esperava, por princípio nunca havia marcações, encontravam-se revistas e jornais, por vezes com alguns dias.

FLEMING DE OLIVEIRA

REGEDORES -Último regedor da I REPÚBLICA (Maiorga) -Primeiro regedor com o Estado Novo (Montes) -A barriga do boi


Mário Fadigas, da Maiorga, gosta de recordar a pequena história do último Regedor da I República, na freguesia.
O seu pai, António Fadigas da Silva, que vivia com a respectiva mãe, nunca frequentou a escola, tendo realizado o exame da 4ª classe na tropa, depois de ter aprendido a ler com os serralheiros da extinta Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça (COFTA), para onde foi trabalhar com 10 anos. Republicano, reviralhista, foi todavia pouco interventivo politicamente, e ao que se diz terá sido maçon. 2º Sargento de Artilharia de Costa, esteve nas trincheiras em França, durante a I Guerra. Felizmente não foi gaseado, tendo-se oferecido para o C.E.P., dada a admiração que nutria por Afonso Costa. Embora simpatizante do Partido Democrático, nunca se inscreveu nele e embora vivesse num meio rural, segundo o filho Mário nos contou, não sabia plantar uma batata, nunca foi agricultor. Era essencialmente um serralheiro. António Fadigas da Silva, com trinta anos de idade, foi nomeado por Alvará, escrito à mão em papel azul e com selo branco do Governo Civil de Leiria, datado de 8 de Maio de 1925, Regedor Efetivo da Freguesia da Maiorga, sob proposta do delegado do governo em Alcobaça, tendo tomado posse no dia 14. A verdade é que não ocupou o lugar por muito tempo pois, com o 28 de Maio, pediu a imediata exoneração, tendo-lhe a mesma sido concedida por Alvará do novo Governador Civil de Leiria, Cap. Henrique Pereira do Vale, natural da Cela-Alcobaça, datado de 24 de Junho de 1926.
Mário Soares, de acordo com uma entrevista que tivemos com Fadigas pediu-lhe há uns anos, quando uma vez o visitou em sua casa na Maiorga, que oferecesse ao Museu da República, os Alvarás de Nomeação e de Exoneração de seu pai, que ainda guarda ciosa e cuidadosamente.


Alguns anos mais tarde era Regedor no Vimeiro Ti’ Joaquim sapateiro. Lá no Vimeiro, Ti’ Joaquim, era de facto a alta instância e o senhor da última palavra. Era sapateiro e regedor (bem gostaria de ter sido Presidente da Junta, mas como não sabia ler nem escrever o Presidente da Câmara de Alcobaça nunca o nomeou), mestre na arte da sovela, no passar do sebo com grande rigor, para evitar ao fio qualquer problema, quando cosia a gáspea à sola.
Ti’ Joaquim percebia tanto de gáspeas, de solas, como de pessoas, pois se necessário tanto batia numas, quanto nas outras. Chamava à razão o calaceiro, dirimia zangas quanto a extremas e conjugais, desmascarava o trapaceiro e os seus argumentos soezes, bem como não perdoava ao taberneiro o crime gravíssimo de deitar água no vinho. Se uma cabra distraída fazia a pastagem numa vinha, comendo ora a erva, ora as videiras, ficavam de dieta durante dois dias, pelo menos a cabra e pastor. Tendo Ti’Joaquim tanta aceitação popular para ser regedor ou até eventualmente ser Presidente da Junta (o problema como se referiu era não ter andado na escola), nunca se achegou ao rabecão. É que se a moldar a sola ele era audaz e bom pastor, a tocar as reses (os vizinhos), eventualmente não seria mais que capataz, se ousasse ir além de regedor. E por ali se quedou.

O que era um Regedor?
Regedor era a designação da autoridade administrativa do grau mais baixo, a qual funciona em cada freguesia, subordinada ao Presidente da Câmara Municipal que livremente o nomeava e exonerava. O termo regedor serviu, outrora, para a designação de altos cargos como Regedor de Justiça, que presidia ao Tribunal da Casa da Suplicação. O Regedor, durante o Estado Novo, era um vulgar cidadão, com a missão de manter a ordem na pequena circunscrição, que é a freguesia. O Regedor tinha as atribuições definidas no Código Administrativo, de natureza administrativa e policial. No atual ordenamento jurídico, já não existe a figura do Regedor. O Regedor fazia um relatório das atividades que entregava com regularidade na Câmara Municipal, que depois encaminhava para o Governo Civil. O Regedor tinha a função de zelar pelas pessoas e pelos bens da freguesia. Não recebia ordenado por um trabalho que lhe ocupava muito tempo. Quando havia necessidade de prender alguém, o Regedor era o responsável pelo preso, tinha que o levar a Alcobaça a pé. Se a prisão acontecesse à tarde, ficava toda a noite a vigiá-lo e a esposa mantinha o lume aceso para se aquecerem, e fazer café para não adormecerem. Havia casais que discutiam ou brigavam, pelo que acontecia por vezes um deles ir queixar-se ao Regedor, que assim fazia de conselheiro matrimonial. O Regedor era testemunha, juiz, e a sua palavra valia mais do que um documento.
No tempo da II Guerra, não havia comida com fartura, pois tinha de ser racionada. Mesmo que alguém tivesse muito dinheiro, podia não comprar o que quisesse. A cada família era atribuído um número de senhas, que eram distribuídas pelo Regedor.
Inácio Catarino, dos Montes, ainda conheceu o primeiro Regedor da freguesia de Alpedriz dos tempos do Estado Novo, o carpinteiro e agricultor José Alves Catarino, e que tinha como cabo de ordens José Carreira. Também conheceu alguns que se lhe seguiram como José Santo, José Henriques Salgueiro, Fernando Gomes Loureiro e recorda Presidentes da Junta como José Ribeiro Malhó, José Rodrigues Ascenço, Francisco Rodrigues Ascenço Franco ou José Salgueiro Rodrigues Franco, todos dos Montes e inscritos na União Nacional (U.N.), ou pelo menos adeptos do regime. Lembra-se da vez em que o Regedor José Santo denunciou Afonso Salgueiro como perigoso conspirador político, o que determinou que este fosse conduzido aos calabouços do Governo Civil de Leiria para averiguações. Afonso Salgueiro sempre se assumiu como republicano, adepto de Afonso Costa e anticlerical, mas nunca foi pessoa de significativa ação política, pelo que era manifestamente sem sentido, injusta e inquietante a sua detenção. Assim foi libertado ao fim de dois ou três dias, o que não impediu que durante algum tempo se louvasse junto dos amigos dessa incursão pela política. Quando regressou a casa, nos Montes, as pessoas perguntavam-lhe se havia provado a barriga do boi (isto é, se tinha levado com cavalo marinho), o que sempre negou, alegando que tinham tido pena dele, por ter um filho deficiente.

FLEMING DE OLIVEIRA