quinta-feira, 15 de setembro de 2011

VIDA NO CAMPO



-O jogo do pião
-Saltar ao eixo
-A menina dos 5 olhos do prof. Adelino (palmatória escolar)
-As botas de carneira

Inácio Catarino, nasceu há mais de oitenta nos Montes-Alcobaça aonde fez a sua vida, seja na agricultura com sete ou oito anos (nas férias escolares e na vindima), por conta própria ou de outrém como na Cova da Onça, da casa Raposo de Magalhães, em Alcobaça ou durante cerca de dezoito anos na construção civil.
Por isso, conhece, como poucos, as pessoas a vida e os costumes da terra, inclusivamente alguns pequenos segredos ou factos esquecidos. É do tempo em que o amola-tesouras ia de terra em terra afiar as facas e tesouras, usando uma bicicleta que tinha uma roda que amolava o que fosse preciso. Utilizava uma gaita que fazia um som característico que chamava as pessoas. Até se dizia que a presença do amola tesouras trazia chuva
Há muitos, muitos anos, havia os peixeiros que iam da Nazaré até Alcobaça, levando um pau ao ombro, segurando às pontas duas canastras carregadas de peixe. Percorriam distâncias por vezes grandes, numa corrida de passinho curto, descalços e aos pregões. Alguns andavam com burros e bicicletas. Também existiam as vendedeiras de peixe que gritavam: Olh’ó chicharro bibinho.
Hoje ainda existem os peixeiros, vendedores de peixe, mas, ou vendem-no nas praças ou em carrinhas com câmara frigorífica.
É do tempo em que os meninos sabiam de onde vinham os pintos, cortar canas, construir um moinho de água, apanhar rãs, distinguir os pássaros, os insectos ou répteis, bem como as árvores de fruto. Recorda-se do frio ou calor intensos que as crianças sentiam nos pés decalços, o que era todavia esquecido pelas intensas e emocionantes brincadeiras. Jogava-se à cartola ou à macaca com uma bola de trapos ou saltava-se ao eixo. O jogo do pião, com o imprescindível bico de prego, era muito popular.
Lembram-se os leitores, como era o jogo?
O pião era feito de madeira muito dura, redondo na parte superior, adelgaçando para baixo, terminando em ponta onde se crava um bico de prego de ferro, destinado a fazê-lo girar. Alguns rapazes costumavam espetar, personalizando, na parte superior, uma tacha que se chamava o selo. Para lançar o pião, era necessário a baraça ou faniqueira, cordão que se enrolava à volta, preso no bico, subindo ao ponto mais bojudo e prendendo-se depois no dedo indicador do jogador. Voltado o pião, seguro na mão com o bico para o ar, lançava-se ao chão, puxando para trás a faniqueira, que ao desenrolar-se, o fazia rodopiar. Recolhia-se esta rapidamente, e com a mão direita livre, apanhava-se o pião para a palma da mão onde continuava a girar.
Havia normalmente no bolso de cada jogador (profissional…), pelo menos dois tipos de piões. Um de castigo e outro de jogo. O pião de castigo era o pião velho, só é aceite no jogo se ainda estivesse em condições mínimas de funcionamento. O pião de jogo tinha um bico grande afiado, destinado a castigar o pião perdedor. Para iniciar um bom jogo de acordo com as regras, marcava-se um risco de partida e uma buraca, em lugar afastado a uns 15/20 metros. Então um dos participantes traçava no chão (de preferência terra) uma cruz e todos lançavam os respectivos piões para o ponto de intercepção. O que ficava mais afastado era o que ia amouchar e, em conseqência, deixar o pião no risco para se iniciar o jogo. Assim era o que se chamava jogar à molha. O primeiro a jogar será o que tirou o pião mais próximo. Os restantes parceiros jogam pela sua ordem .
O jogo era à molha, se fosse na modalidade simples, mas podia ser combinado crivar de buracos o pião que perde. Se o pião fosse jogado com violência, a jogada era a malhão ou de escacha. Durante o jogo tentava-se arrastar o pião que estava no chão, até à cova. O jogador experiente procurava por isso, logo no lançamento atingir a carcaça, encaminhando-a na direcção pretendida. Se o não conseguisse, aparava o pião na mão e sempre com ele a girar, dava as cucadas na piasca para a empurrar no sentido da cova. Logo que o pião entrava na cova os intervenientes no jogo ficavam no direito de dar as nicas ou ferroadas acordadas. Estas podiam ser simples ou de escacha 10, 20 ou mais vezes, mas podia estabelecer-se que, como especial castigo, fosse permitido tirar pequenas lascas, o que acarretava grande emoção, quando o pião era rachado ao meio e ficava com as entranhas à mostra. Também era frequente na zona de Alcobaça, como recorda Catarino, jogar o pião à roda, ou raia grande. Desenhava-se no chão um círculo e jogava-se para dentro devendo o pião ao deixar de rodopiar sair da roda. Se não sair, fica sujeito aos golpes dos outros piões lançados. Alguns rapazes faziam como lembra Catarino autênticos números de circo com o pião a rodopiar na terra ou na palma da mão.

E o jogo do eixo?
Neste jogo, o número de participantes era variável, sendo que quanto maior fosse o número de jogadores, mais interessante se tornava o jogo. Embora existam diversas versões do jogo, a mais comum na região de Alcobaça, consistia em fazer amochar um ou mais jogadores, curvados, apoiando as mãos ou os cotovelos nos joelhos. Este jogo consistia em saltar sucessivamente sobre todos os colegas (dizendo previamente aqui vai eixo), de forma a que todos saltem e amochem.
Catarino ao mesmo tempo que a jogar o pião ou saltar ao eixo aprendeu com os mais velhos que, quem nos Montes ensinou o homem a podar, foi um jumento que roeu uma cepa, que depois veio a rebentar com mais força e deu melhores cachos.
É também do tempo em que se o exame da terceira classe, no seu caso em Alpedriz, era o limite normal da maioria da população escolar, dos meios rurais. Recorda, sem saudade especial, o mestre-escola professor Adelino, que dava aulas na recém inaugurada escola masculina, num edifício (longe estava ainda o Plano dos Centenários), cuja falta há muito se sentia. Este tinha um método infalível para ensinar a ler, escrever e contar. A sentença, de que não havia recurso, consistia em que cada erro implicava umas reguadas ou o uso da menina dos cinco olhos.
Segundo o Voz dos Montes, de 1 de Março de 1925, para esse fim veio a esta terra um Técnico enviado do Governo, verificar se o prédio teria as condições acústicas que satisfizessem o fim para que foi construído. Agora cumpre a todos os montenses, sem distinção de classe ou categoria, comemorar a sua inauguração com as festas que já noutra ocasião estiveram projectadas, mostrando assim que é sempre com regozijo que se recebem benefícios desta natureza.
O professor Adelino bebia bastante, mesmo logo de manhã, o que se traduzia na forma violenta e colérica como lidava com os alunos, a quem além de bofetadas dava reguadas com a travessa de uma cadeira ou vergastava o trazeiro com uma cana. O professor ausentava-se com frequência da sala de aulas, dizia-se que era para matar a sua enorme e permanente sede, encarregando sempre um aluno, filho de algum agricultor mais abonado e a quem devia favores, o que não era o caso da família de Catarino, de vigiar os demais e apontar no quadro preto, as pretensas infracçõesà disciplina, que depois eram objecto de pronta sanção à bofetada, reguada ou palmatória, quando chegava, a cambalear. Inácio Catarino diz que se não tem o diploma da quarta classe, o deve ao medo que o professor Adelino lhe inspirava e que nem a ameaça de chamar a Guarda (GNR) ou lhe bater, caso não prosseguisse os estudos, o demoveu, no que foi apoiado pelos pais.
A temível palmatória ainda ensombra os pesadelos de muita gente como Inácio Catarino. Indiferente a tudo, atravessou ainda grande parte do século XX ao serviço daquele tipo de professor que, desdenhava das novas correntes pedagógicas, da legislação reguladora e das tendências, e a legitimava como um instrumento de manutenção da ordem e da propagação do conhecimento, à falta de melhores expedientes e assim se manteve bem guardada na sala de aula, sempre pronta a intervir.
Palmatória ou menina dos cinco olhos.
Seja qual for a designação, aquele objecto circular, em madeira, era um ícone da sala de aula. E não obstante os múltiplos nomes tem um só significado, sanção disciplinadora.
Conhecemos a história de velho professor primário, que quando se reformou a deixou no armário a seu sucessor, no meio da papelada. Os dois já não fazem parte do número dos vivos! Foi há anos mostrada, por este último, ao autor destas notas, não por ser usada por ele, mas como artefacto de recordação de uma época em que a autoridade (na escola, na política) estava sempre primeiro e que ele também não preconizava.
A escola feminina dos Montes era no primeiro andar de um prédio, hoje pertença de Fernando Santo. A professora, D. Isabel, vivia no rés do chão. As condições eram fracas, mas o povo não se queixava.

Recorda-se Joaquim Fortes das botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas que para caminhadas pareciam feitas de chumbo, bem como do colega que teve umas botas para estrear no primeiro dia de aulas, o que acontecia, então a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia, chovia torrencialmente e as botas vinham mesmo a calhar. Ao fim do dia, o colega chegou a casa desolado e com os pés molhados, pois as solas das botas estavam desfeitas. Eram de cartão colado sobre uma sola inicial já gasta. Bem pintadas, com anilina preta e graxa, as botas tinham um aspecto consistente e novo. O rapaz fartou-se de chorar com o desgosto. Mas como tudo tem solução, foi ela encontrada na circunstância de o avô ser sapateiro habilidoso. Arranjou um bocado de sola e, como tinha as ferramentas adequadas, formas, sovelas etc., foi ele próprio quem colocou as solas nas botas que o colega usou enquanto lhe serviram. Calcula até que um dia acabaram por levar umas solas de borracha.
São ambos do tempo em que se desfolhava o malmequer entre os namorados para saber se um deles tinha ou não amor ao outro e dos vários remédios contra feitiços, embora neste caso asseverem que nunca ligaram a isso.
Já Mestre-Escola, certa vez, Albano Cunha não teve papas na língua no lamento público sobre os vencimentos da classe.
-Com o dinheiro que ganho, não posso criar os meus filhos.
Ora, se a polícia política o trazia debaixo de olho, tamanho desplante levou-o a Alcobaça ao Delegado Escolar, que, com delicadeza sugeriu-lhe tento na língua.

FLEMING DE OLIVEIRA

ABEL, UM CAVADOR (de enxada) AGRÍCOLA



-O Mercado Negro e a Candonga nos tempos da II Guerra
-Beber vinho

Vem da lavoura, cansado.
Abel Martinho sempre foi cavador e nunca mais que isso. Escola, há cerca de setenta anos, pouco teve, e dela quase nem se lembra. No bolso, traz a chave de casa que lhe promete uma ceia e descanso, ao ombro a enxada de uma vida. Corpo hirto e rígido, Abel caminha por entre as veredas, até a casa onde a mulher o espera. Antes de chegar às casas, dobra-se ligeiramenteao passar ao lado daqueles muros brancos, tira o chapéu e saúda com reverência os que já partiram.
O cabo da enxada deu-lhe calos, a mão grossa é o seu orgulho, e o jeito de testemunhar o amor pela terra, de onde nunca quis, soube ou pode sair. A mão calejada é o resultado do esforço dos que, como ele, sabem que cultivar a terra é mais do que uma atividade económica, é um destino, por vezes fatal.

A história da enxada e a do camponês confundem-se. Nómada e caçador, o homem primitivo inventou a sua ferramenta, a partir de uma pedra lascada e de um pedaço de madeira. Perpendicular, o homem primitivo depois deu-se conta de que esse instrumento poderia cavar a terra. E assim se fez a enxada. E o homem viu que era muito útil, pois poderia assim cultivar a terra e angariar o alimento nos arredores da casa. A enxada fixou o homem e a mulher à terra. Eles criaram famílias, grupos, aldeias, vilas, cidades, vizinhanças, compadrios, enfim a civilização. A enxada criou a cultura. A cultura deu sentido à vida.
Mas nem toda a gente vivia assim e teve a sorte de Abel Martinho.

O Dr. António Costa foi um grande apaixonado pelos automóveis. Industrial bem sucedido, residente em Oeiras, teve variados veículos alguns dos quais, se não se tivessem perdido, seriam hoje verdadeiras preciosidades. No seu tempo (entre as duas Guerras) o automóvel não era apenas um meio de transporte. Um passeio de automóvel, não obstante estradas com muitas curvas e piso irregular, constituía para ele um prazer incomparável que repetia com D. Berta aos fins de semana, por vezes até Alcobaça, com escala em Caldas da Rainha, onde tinha família pelo lado da mulher. Havia poucos automóveis no País e eram todos diferentes, qual deles o mais belo. Como se pensava que mecanicamente já se tinha descoberto tudo (ou quase tudo), as atenções dos construtores e sportmen concentravam-se então no aperfeiçoamento e no design das máquinas.

Elisa da Silva Delgado, com perto de quarenta anos trabalha num escritório em Alcobaça. A sua família é da zona Évora de Alcobaça. O meu avô é agricultor. Ele trabalha muito (ainda é vivo), pois pode e gosta de ser agricultor. Tem orgulho naquilo que faz, porque quando era pequeno o seu pai também era agricultor e seguiu as suas pisadas. O meu avô trabalha para toda a gente, tem um tractor e uma máquina agrícola. Os pais dos meus avós eram agricultores, e no tempo deles eram considerados pessoas abastadas. Agora na minha terra quase ninguém vive da agricultura.Trabalhar na agricultura é muito difícil, porque hoje em dia esta está de rastos. As pessoas têm que trabalhar muito, porque não compensa pagar a pessoal. Antigamente (como dizem os meus avós) havia lá na terra muita agricultura. Agora, a maior parte das terras estão abandonadas e só se faz agricultura para o gasto da família.

A vida em Portugal, e concretamente em Alcobaça, decorria com dificuldades, mitigadas, é certo, por o País não ter entrado na Guerra. Vamos viajar um pouco num tempo, onde ainda havia mercados de rua, pessoas que compravam e vendiam galinhas, legumes e fruta, inseridos numa malha urbana que se manteve ainda por alguns anos, sem grande demolição ou evolução. Assim, entendemos ter interesse contribuir para contrariar, embora de uma forma pessoal, e como tal subjetiva, a perda de uma memória colectiva, perante a dobra do tempo. Na I República, também tinha sido bastante difícil, com carestia de todo o tipo, desde logo de dinheiro. Por isso, até se dizia paradoxalmente que foi um tempo em que em Alcobaça se fazia dinheiro (vejam-se as notas, aqui em extratexto, mas há anos publicadas no jornal O Alcoa).

A Câmara Municipal, ainda de Manuel da Silva Carolino, em 16 de Março de 1942, mandou afixar e distribuir profusamente pela vila um Edital, transcrevendo o texto de uma exposição do oficial encarregado da Secção contra o Açambarcamento e Especulação, do seguinte teor: Os preços do feijão e grão, de largo consumo, estão a subir sem justificação por virtude especialmente da perniciosa influência de intermediários e compradores que expontaneamente oferecem preços incomportáveis à produção. Torna-se necessário que as autoridades locais vigiem tais indivíduos e os processem nos termos do Decreto nº 29.964 (artº 7º) por alterarem os preços normais do artigo. Alguns deles não estão colectados, nem compram por delegação de qualquer firma inscrita como grossista no Grémio dos Armazenistas de Mercearia, o que agrava o delito. O crime de especulação é punido com a multa de 500$00 a 100.000$00.
O racionamento dos produtos esssenciais, entre os quais o pão, existia em todo o País. O racionamento era feito através de cupões individuais que conferiam direito a comprar pequenas quantidades de bens alimentares de primeira necessidade, bem como o petróleo do fogareiro onde se cozinhava. O racionamento do pão era especialmente gravoso, um quarto de pão por pessoa, para todo o dia. O pão, assim tinha de ser comido com parcimónia. Pedacinho de pão que ao chão caísse era apanhado, beijado e às vezes soprado, mas sempre comido, o que acabou por originar uma tradição que nalgumas famílias como a nossa se mantém. Quando numa casa faltava a broa, pedia-se uma emprestada à vizinha, devolvendo-lha após a cozedura seguinte, aliás que em quase todas as casas do campo se fazia.
Mas, antes do sistema de racionamento ter sido instituído, a situação era pior, pois formavam-se grandes filas de espera, junto aos estabelecimentos. Havia pessoas que, quando viam uma dessas filas, alinhavam logo nela, sem indagar sequer o que estavam ali a dar, como então se dizia, porque o quer que fosse era batalha ganha, mesmo pagando caro. O merceeiro tinha uma caderneta para cada chefe de família, onde estavam registadas as pessoas que faziam parte do respectivo agregado. Era mediante estes dados que cada família tinha direito a um certo número de senhas e alimentos. Ocorreram muitos casos em Alcobaça, mas não só, em que o merceeiro, embora sujeitando-se a multa ou mesmo prisão, vendia na candonga produtos aos amigos ou a quem melhor os pudesse pagar. Até o papel higiénico faltava.
No caso da vila de Alcobaça, as senhas eram levantadas na Câmara Municipal, onde funcionava a delegação da Intendência Geral de Abastecimentos, sendo o Moita o respectivo encarregado, como recorda José Crespo. Para o efeito formavam-se filas, nem sempre muito calmas ou pacíficas. Havia uma relação onde constava o nome e número de pessoas de cada agregado familiar. Cada pessoa tinha direito, por exemplo, a 1dl de azeite ou 1 quilo de açúcar, por mês. O café, quando não faltava, era adoçado com rebuçado. Nos meios rurais de Alcobaça utilizava-se ainda o arrobo como adoçante. Tratava-se de mosto de uva branca, de preferência da casta Fernão Pires. O mosto, era colocado numa panela grande a ferver, e ia-se mexendo bem, até engrossar. Depois, guardava-se para ser utilizado para barrar pão. Mas nem toda a gente utilizava os mesmos procedimentos.

Ti’ Zé da Costa Leão nasceu, nos Moleanos, por alturas de 1930. Desde muito novo, percorreu a região de Leiria, quando se trabalhava de sol a sol e o almoço era um naco de broa, um pedaço de toucinho ou uma sardinha, quando a havia. Trabalhou especialmente na agricultura desde os 9 anos, aprendeu a fazer sementeiras, a roçar mato, ajudou a cozer fornadas de pão, foi por conta do patrão (que fazia o favor de lhe pagar alguma coisa) de madrugada para as filas do racionamento, da mercearia e do pão, para obter meio quilo de açúcar, café e um pão.
O português sempre fez jus (quando podia) a uma boa refeição, pois gosta da boa cozinha e comida. A verdade é que durante a primeira metade do século XX, a escassez de alimentos obrigou muita gente a reduzir a alimentação. Nos tempos da Guerra, graças ao racionamento, os géneros alimentícios, eram vendidos por senhas de acordo com o agregado familiar. Nem os alimentos produzidos em casa se podiam con¬sumir à vontade, pois a produção devia ser manifestada. Se alguns alcobacenses das aldeias não passavam tantas privações como outros, os citadinos, era porque conseguiam esconder alguns produtos que cultivavam. Os mais endinheirados, não produtores, adquiriam na candonga, bens menos correntes.
Na década de quarenta muito português (rural como Ti’ Zé Leão ou do operariado), comia frugalmente, meia sardinha ou um naco de toucinho por refeição. A carne de porco, que muitos tinham de produção própria como TI’ Zé Leão, era aproveitada para tempero, dado o azeite ser raro ou caro (mesmo na sua terra), óleos e margarinas nem pensar e a manteiga era muito cara.
Galinha ou coelho matava-se e comia-se ao Domingo em casa das famílias mais remediadas. O caldo de galinha era dado como dieta aos doentes (e até se dizia que neste caso que um deles estava doente). Em certos meios da nossa terra, quando uma mulher dava à luz, tinha o privilégio de comer à vontade galinha durante algum tempo, como foi o caso da mãe dos filhos de TI’ Zé Leão, a Srª Adélia Gomes. O peixe mais frequente era a sardinha, chicharro ou o carapau, que vinha da Nazaré e era vendido por todo o concelho.

Até à década de 1960, a população distribuía as refeições ao longo do dia do seguinte modo, especialmente no campo:
-De manhã cedo com o levantar tomava-se um café, geralmente de cevada, que se fazia ao borralho, na chocolateira de cobre que aí permanecia toda a semana com as borras, às quais todos os dias se acrescentava uma ou duas colheradas de pó. Como complemento, homens e muitas mulheres matavam o bicho com um copo de aguardente, prática que Ti’Zé não repudiava.
-Depois pelas nove, comia-se o almoço que constava de sopa ou comida de garfo, como batatas cozidas com cebola e conduto, se houvesse;
-Ao meio dia era altura do jantar, que incluía sopa de feijão, batata, couve e carne de porco, acompanhada com um naco de broa;
-À noite vinha a ceia, com a mulher e filhos, escorrido de batatas com bacalhau e couves, temperadas com azeite, se o houvesse.
A refeição do meio dia era, comida no campo, onde por regra (e necessidade) a família de TI’Zé trabalhava de manhã à noite. Em geral era apenas a mulher Adélia que ficava em casa durante o dia, para tratar de um doente (a mãe durante alguns anos até falecer), e fazer a comida, logo pela manhã, numa pane¬la de ferro. Ao lado, na lareira fervia o panelão grande, da lavagem dos porcos. A D. Adélia ia atiçando afanosamente o lume de um lado para o outro, enquanto ainda cuidava das galinhas, dos coelhos ou dos porcos. Chegado o meio dia, preparava o cesto com a panela da sopa, broa e uma garrafa de vinho.
Durante a refeição a garrafa do vinho rodava (muitas vezes sem copo) e todos bebiam, incluindo as crianças, pois o vinho ajudava a empurrar a comida e dava força. Chegava-se ao extremo de calar os bebés quando choravam, com uma chucha de açúcar molhado em vinho..., como recorda D. Adélia, embora reconhecendo hoje que talvez não fosse um bom procedimento.
Leite estava reservado as crianças de colo, aos doentes (como a mãe de D. Adélia) e alguns outros idosos. Bom, os doces eram para os dias de festa. Os rebuçados, que vulgarmente se encontravam à venda na mercearia da terra, não era necessário ir a Alcobaça ou Benedita, cinco por meio tostão e cada cor seu paladar, serviam também para adoçar o café, o leite ou mesmo o chá.
O bacalhau, fiel amigo, não faltava em casa de TI’ Zé, normalmente pendurado por um guita numa das paredes da casa, ao lado da chami¬né da lareira. Umas aparas de bacalhau cru e um naco de broa, eram o melhor aperitivo, ou a ajuda para beber um copo quando o pessoal, chegado do campo, vinha derreado e com a barriga a dar horas.

Em terra de vinhedos, como a de Alcobaça, o vinho não podia faltar à mesa e se um copo estimulava o apetite e tornava mais agradável o repasto, não deixava de ser verda¬de que o vinho dava de comer a um milhão de portugueses. A embriaguês era, porém o estado normal de muita gente, especialmente ao Domingo à tarde, e a origem de incontáveis males (físicos, morais e sociais) que se projectaram de geração em geração. Ti´Zé recorda alguns casos de sua famíliac omo um tio, um irmão e um cunhado. Beber um copito na adega, convidar um amigo para vir provar o tinto, chamar o compadre para beber um branquinho, pagar uma rodada na taberna, estava de acordo com o certo e habitual, tal como brigar ao fechar da taberna, chegar a casa e dar uma tareia à mulher e filhos, partir a loiça, andar pelas ruas a camalear, seja a pé ou de bicicleta até ficar caído na valeta, enfim gerar filhos com problemas.
Mas nem toda a gente bebia vinho. Para esses, além da água da nascente (que era muita e boa no poço de TI’Zé), havia o pirolito, até que mais tarde apareceu com muito sucesso a laranjada Buçaco (mas sé em dias especiais).
Ti’Zé passou azeite da produção do avô, como contrabando, porque deveria ser manifestado no lagar e a família só tinha direito a uns tantos litros por cabeça durante um ano. Entrou pela primeira vez, aos 15 anos, numa furgonete de um senhor da Benedita, para ir buscar pedra. Na tropa em Leiria, o sargento aconselhou-o a não ler certos livros, porque podia ser incomodado. Teve um amigo preso pela PIDE, apelidado de comunista, por ter denunciado as matreirices de um padre.
O pai, tal como o avô, velhos camponeses, não tiveram direito a reforma. O País tinha pedintes de mão estendida. Em Leiria, sabia-se que iam parar às prisões da Polícia, porque oficialmente não podiam existir pobres.
A crise provocada pela Guerra foi vivida na zona da Serra (de Mira d’Aire e Candeeiros) de forma intensa, com o Estado a racionar o azeite, um dos mais preciosos produtos dos seus habitantes, o que conduziu ao fomento do seu contrabando, como recorda D. Graciete, da Mendiga.
A vida de pessoas da Serra dependia em grande parte da produção do azeite já que, os terrenos são bastante fracos para a agricultura (um homem nesse tempo dificilmente conseguia ganhar 10$00 por dia), mas bons para a oliveira. O racionamento levou portanto ao desenvolvimento do contrabando do azeite, como destaca a viúva D. Inocência Maria, do Casal Ventoso, hoje com perto de oitenta anos, em bom estado de saúde, actividade que desenvolveu durante anos, sem nunca ter sido apanhada, e que a ajudou alimentou a boca ao marido e três filhos rapazes. As famílias, escondiam as talhas no meio das terras, debaixo do soalho ou nos currais, para depois venderem o azeite directamente ou aos contrabandistas. Inocência Maria, conhece histórias que não se importa de reviver, como a de um almocreve da Mendiga, parente de seu marido, que transportava azeite para a Nazaré numa furgonete. Escondia os odres dentro dos bancos e assim conseguia iludir a fiscalização. Outros, escondiam o azeite dentro das enxergas de palha, das mulas.
Mulas carregadas com odres de azeite, atravessavam de noite a serra. Os destinos principais eram a Nazaré, Marinha Grande, Leiria e Alcobaça. Saíam ao fim da tarde, subiam a encosta da Bezerra, ou desciam até às Pedreiras. Os vendedores escondiam as mulas, enquanto alguém se ia certificar se não havia guardas por perto. Mas estes, por vezes, ouviam os passos dos animais e também se escondiam, apanhando os negociantes. Era um trabalho duro e com manifestos riscos, como reconhece a D. Inocência. Por vezes, feria os pés, pois calçado era mau. Além disso, havia os riscos, pois, quando a guarda actuava não se podia fazer nada. Ficávamos sem o azeite e, em alguns casos, sem a mula e tínhamos de calar o bico. A alternativa, quando havia, passava por subornar o guarda o que não era raro, embora consigo nunca tenha acontecido.
O contrabando de azeite era normalmente reservado aos homens, sendo o caso de D. Inocência se não único na zona, pelo menos raro. Entre os habitantes mais idosos contam-se ainda histórias de mulheres envolvidas no contrabando, escondendo o azeite debaixo da roupa, fingindo estarem grávidas, ou colocando os depósitos entre as pernas.
Na edição de 30 de Novembro de 1946, o jornal O Mensageiro, de Leiria, relatou o caso de uma mulher que transitava de comboio, com volumosos seios que, embora bem ajustados ao corpo da madama, tremiam, dançavam e moviam-se (...) e até ameaçavam desandar para as costas. Quando desabotoou a blusa no posto de fiscalização instalado no comboio, a mulher mostrou duas grandes bexigas cheias de azeite. O mesmo jornal conta, também, a história de uma ama que se sentou num comboio e que, nos braços trazia um gorducho menino, roliço, imbuído em mantilha de seda (...) um pimpolho que (a ama) amamentava aos seus úberes seios. O bebé afinal, era um odre de azeite e os seios eram bexigas cheias do dito.

FLEMING DE OLIVEIRA

LUÍS, caçador de lebres e perdizes


Luís Miranda, do Juncal, acabara de fazer 16 anos.
Um primo, sabendo do seu entusiasmo pela caça, oferecera-lhe uma velha arma, calibre 16, que dizia ter mais de 70 anos, uma arma pequena de 2 canos e com cães exteriores, que já pertencera ao avô comum.
Depois de muita ansiedade, o pai acompanhado do Sr. Francisco farmacêutico, chegou a casa e anunciou que, finalmente, lhe tinha conseguido em Alcobaça, licença de uso e porte de arma. Foi uma ótima notícia para o rapaz, pois a caça abria no dia seguinte, ou seja, o dia um de Outubro. Havia já algum tempo, que Luís acompanhava o pai e dois colegas, e até tinha a licença de caça, com direito a fotografia e tudo, e que tinha custado 29$00!!!
Deste modo até podia levar um pau na mão, pois ninguém da venatória o incomodava.
Mas doravante as coisas fiavam mais fino. Foi bastante agitado o sono daquela noite. Muito antes das 5 horas da madrugada, lá partiram os quatro a pé. Eram todos muito mais velhos do que Luís Miranda, com a idade a rondar os 50 anos. Sentia-se vaidoso, munido de uma arma a sério e cartucheira à cintura, bem como com o barulho nas pedras da estrada, graças à carda metálica das botas de cabedal. Evidentemente, não podia faltar o bornal, tipo tropa, com um pequeno farnel, nem um pequeno odre cheio de refresco de água com café adocicado, preparado pela mãe, de véspera. Acontece que nesse dia a caça era muito pouca, para não dizer quase nenhuma. Nos outros anos, lá aparecia um coelhito de vez em quando, que servia para animar os cães. Mesmo assim, Luís Miranda não desanimava e o seu entusiasmo mantinha-se intacto. Ao romper o dia chegaram finalmente ao local de caça lá para os lados da Ataíja. Largaram os 4 cães, o galego, o faísca, o ladino e o raio. Como se lembra deles!

Ainda hoje, passados tantos anos, parece a Miranda estar a vê-los dar as primeiras correrias de alegria ao serem desatrelados, após mais de 2 horas de caminhada. Andavam no monte havia já algumas horas. Os cães cumpriam com algum zelo o seu dever, procurando no mato um coelho que teimava não aparecer, não porque fosse matreiro, mas, provavelmente porque não existia mesmo. A dada altura Luís Miranda afastou-se um pouco dos colegas, e passou para o outro lado do cabeço, onde estavam. Após caminhar algumas dezenas de metros, foi surpreendido com um ruído que nunca tinha escutado, e viu saltar mesmo a frente, uns quatro ou cinco pássaros. Apontou a arma e disparou o seu primeiro tiro como caçador e, para aumentar a satisfação e orgulho, não obstante o fumo provocado pela pólvora preta, que usava, viu cair perto de si um dos pássaros. Não hesitou. Colocou a arma no chão e correu a apanhar a ave, sem se lembrar porém que ainda tinha mais um cartucho para disparar e que isso lhe permitiria a abater outra peça. Pegou eufórico na ave, na arma e correu para os colegas a gritar, apanhei um pássaro enorme.
Ainda hoje não sabe se a alegria aumentou, quando o Sr. Francisco famacêutico, exclamou que é uma perdiz. Sabe porém, que a partir daquele momento tinha-se tornado num caçador de perdizes.

Desde então, outros factos venatórios aconteceram, alguns bem curiosos, que às vezes recorda com amigos. As épocas de caça sucedem-se umas às outras, com maior ou menor sucesso, e cada uma tem as suas histórias mais ou menos verdadeiras.
O episódio que nos contou e registámos, refere-se possivelmente à época 1993/94, sendo testemunhado pelos amigos e companheiros destas andanças, que com ele rumaram ao Alentejo, no último dia do calendário para caça de salto à lebre.
Luís Miranda tinha um perdigueiro com pouco mais de um ano, mas que revelava já boas aptidões, por vezes com lances um pouco largos, mas com uma paragem segura e uma busca perfeita, lateralizando muito bem.
Como era o último dia de caça às lebres, e o ano não tinha sido especialmente fértil no tocante a esta espécie, sairam cedo no jeep em direcção ao Alentejo. Após mais ou menos meia hora o início da jornada, o perdigueiro fez uma paragem. Luis tomou posição, acelerou o passo na tentativa de ganhar terreno e acompanhar mais de perto animal, que encetou uma busca mais cautelosa e direccionada, a bom vento. Estavam eles numa encosta não muito íngreme, semeada de aveia com algumas zonas bem crescidas. Ao chegar ao cimo, o cão parou, ficou seguro, e quando Miranda. se preparava para ver se descobria caça, saltou uma lebre à sua frente. Retraiu-me na tentativa de atirar na melhor distância, e ao desenrolar do animal, disparou. A lebre deu uma cambalhota, endireitou-se e correu ainda na zona de tiro. Refeita a pontaria, apertou o gatilho, mas o tiro não saiu. Adeus lebre, que já lá vais à tua vida. Depois de verificar o que se teria passado, constatou que a extracção do cartucho do primeiro disparo não fora bem feita. No meio deste episódio e indiferente a ele, o perdigueiro, arrancou no rasto do animal e Luís Miranda desanimado, com a oportunidade perdida, retomou o lugar na linha, sem se lembrar quer da lebre, quer do cão. Quando se refez do desaire, olhou em redor e qual não foi o seu espanto, quando lá bastante longe, talvez a mais de um quilómetro, no cimo dum cabeço, descobriu o cão, a trazer algo na boca.
Depois de percorrer a grande distância que os separava, chegou o cão com a lebre que dera como perdida.

FLEMING DE OLIVEIRA

VIRGÍLIO TEIXEIRA E UM SÓSIA ALCOBACENSE (José Ferreira Tempero)




Virgílio Teixeira nasceu no Funchal, em 1917.
Galã português do cinema nos anos de 1940, 1950 e 1960, conseguiu, desde o início da carreira, ultrapassar as próprias fronteiras geográficas da sétima arte nacional. Numa altura em que o mundo se recompunha de um período bastante conturbado, como a II Guerra, havia a vontade de mudaça. É neste contexto que surge Virgílio Teixeira, um jovem madeirense que decide, em 1940, deixar para trás a ilha e partir para Lisboa, levando na bagagem muitos sonhos e a vontade de ser ator. Estava dado o que seria o passo mais importante na sua vida. Do anonimato para as luzes da ribalta foi um pequeno instante. Em Espanha, Virgílio Teixeira viveu 12 anos e participou em cerca de 50 filmes. Ainda hoje há espanhóis que pensam que o ator é espanhol e não português, devido à sua grande participação no tempo de Franco, cujo regime chegou a conceder-lhe os mesmos direitos que os atores espanhóis, facto que adiou a sua vinda para Portugal. A razão pela qual a Espanha se tinha tornado num atrativo destino para as grandes produtoras de cinema, devia-se às facilidades concedidas, com vista à procura do reconhecimento político e ao facto das produtoras de Hollywood procurarem mão-de-obra e cenários baratos.
Com papéis de maior ou menor importância, a verdade é que o nome do ator madeirense passou a figurar em elencos de luxo.

O meu amgo José Ferreira Tempero, contava que há anos, havia pessoas que o confundiam com Virgílio Teixeira, momeadamente no Funchal, aonde ia por vezes em trabalho. No tempo em que Tempero era viajante por conta de um armazém de mercearias de Caldas da Rainha, já lá vão mais de quarenta anos, foi uma tarde à Nazaré visitar o cliente, António da Silva Pereira, que tinha uma empregada com os seus dezasseis ou dezassete anos. A partir de certa altura, a miúda que não tirava os olhos de José Tempero, aproveitando o facto de o patrão se ter de deslocar ao escritório, perguntou-lhe tímida, corada eemocionadamente, ouça lá, meu senhor, vomecê não é o Virgílio Teixeira?
A pergunta ou o comentário, não eram nada originais para Tempero que respondeu, brincalhonamente como era habitual, sim sou eu, mas não diga nada a ninguém, muito menos às p’rigas da Nazaré, porque senão elas abeiram-se de mim e eu vou ter dificuldade em continuar a trabalhar, porque nas horas vagas quando não tenho filmes para fazer em Espanha, trabalho como viajante.
Quando o comerciante, regressou ao balcão, a Clara assim se chamava a rapariga, pediu-lhe autorização para ir a casa dos pais, que era ali perto, beber uma pinga de café... O Silva Pereira, embora contrafeito, mas para não fazer má figura diante de Tempero, respondeu que sim podes ir, vocês só sabem beber café e fazer chichi... .
Passado um quarto de hora, a mercearia, que tinha frente para duas ruas, situava-se perto da avenida marginal, começou a ter um movimento inusitado de raparigas e mulheres, que entravam e saíam ser fazer quaisquer compras, pelo que o Silva Pereira ainda sem perceber nada (a empregada fora anunciar nas redondezas que na loja estava o célebre Virgílio Teixeira) desabafou, aliás numa forma muito típica/nazarena, ah p’rigas, isto aqui parece que pariu a galega.
Só passados alguns dias, é que a menina Clara, quando José Tempero lá voltou, é que percebeu que tinha sido vítima de um ingénuo embuste.

FLEMING DE OLIVEIRA

SAUDADES DO ANTIGAMENTE



Saudades do antigamente?
Às vezes, temos uma saudade enorme do tempo em que as mulheres eram donas de casa e os homens chefes de família. Por favor, não fiquem incomodados com esta linguagem fora de moda, eventualmente considerada como bafienta/reaccionária. Sabemos que não se pode andar para trás, e nem achamos que o caminho seja esse, mas podemos considerar ainda assim algumas coisas boas que existiam e, quem sabe, adaptá-las na medida do possível aos nossos dias.
Presentemente, a mãe quase não tem tempo para os filhos (coisa que as Avós têm sempre), pois precisa trabalhar fora de casa. A sua correria mal lhe permite momentos de descontracção em família. Muitas vezes estão todos juntos, embora cada qual numa sala. A mãe na cozinha, o pai na sala, o filho no quarto. Antigamente não era assim. Havia, aparentemente pelo menos, mais proximidade e calor nos lares. As mulheres (e que dizer das Avós?) sabiam cozinhar e fazer coisas apetitosas. Muitos adoravam os seus petiscos e visitas chegavam por vezes sem avisar, para almoçar.
As mulheres costuravam as roupas da família e os maridos trabalhavam para angariar o sustento aos seus. Ambos tinham orgulho em possuir uma família equilibrada e feliz. Faziam os possíveis e impossíveis para que os filhos pudessem estudar e tivessem brinquedos.

Hoje em dia, por mais que se esforcem, não lhes sobra dinheiro pois todo faz falta. Ambos trabalham como loucos, dormem mal, comem correndo, vivem ansiosos e com medo do futuro. Parece que todos lhes exigem mais e depois ainda mais. A esposa insatisfeita, os filhos consumistas, o patrão ávido por lucro. Já não se sabe onde buscar refúgio nos momentos de desolação. Onde será que nos perdemos? Será que é possível começar a competir e disputar para ver quem era melhor?
Hoje muitos jovens casais constroem casas, mas não de forma empenhada na edificação do lar, porto seguro para a criação dos filhos e convívio em família. E sofrem pelos desencontros que poderiam ser evitados, se a visão não estivesse obstruída pelo hedonismo, onde cada qual busca somente o seu prazer. Temos saudades das bolachinhas, biscoitos ou compota de amoras da Mãe, dos passeios com o Pai, das reuniões em família, … das cantigas de roda. José Machado, como nós, tem saudades destas letras e músicas.
Quem não se lembra, pois, da infância e das cantigas de roda, das cantigas de ninar que se aprendiam? Aprendiam-se em casa com o(a)s avós, com as mães, na escola com o professor primário, e era sempre uma alegria quando alguém sugeria para cantar uma música.
Atualmente, as cantigas de roda não são muito cultivadas, pois foi hábito que se perdeu em casa. Recordemos apenas duas:
Atirei o pau ao gato, tô, tô//mas o gato, tô, tô//não morreu, reu, reu //dona Chica, cá, cá //assustou-se, se //do berrô, do berro, que o gato deu. //MIAU!
ou também
Ó malhão, malhão,//que vida é a tua?//Ó malhão, malhão,//que vida é a tua?//Comer e beber, ó terrim, tim, tim,//passear na rua//comer e beber, ó terrim, tim, tim,//passear na rua.
Ó malhão, malhão,//ó malhão d'aqui,//ó malhão, malhão,//ó malhão d'aqui,//se dançar, dancei, ó terrim, tim, tim,//se fugi, fugi//se dançar, dancei, ó terrim, tim, tim,//se fugi, fugi.
Ó malhão, malhão,//ó malhão vai ver,//ó malhão, malhão,//ó malhão vai ver,//as ondas do mar, ó terrim, tim, tim,//ai, onde vão ter//as ondas do mar, ó terrim, tim, tim,//ai, onde vão ter.
Ó malhão, malhão,//ó malhão do Norte,//ó malhão, malhão,//ó malhão do Norte,//quando o mar está bravo, ó terrim, tim, tim,//faz a onda forte//quando o mar está bravo, ó terrim, tim, tim,//faz a onda forte.
Ó malhão, malhão,//ó malhão do Sul,//ó malhão, malhão,//ó malhão do Sul,//quando o mar está manso, ó terrim, tim, tim,//faz a onda azul//quando o mar está manso, ó terrim, tim, tim,//faz a onda azul.

Tenho, sim, saudades do antigamente!

FLEMING DE OLIVEIRA

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PESCADORES DE MAR


-Histórias de pescadores
-Os pescadores são exagerados?
-Viver lado a lado com a natureza

Quem não tem um tio, cunhado, parente ou amigo metido a pescador, que chega cheio de historias fantásticas e inacreditáveis, que estava à beira-rio ou no mar, ficou horas e horas a lutar com o bicho, mas na hora em que o foi tirar da água, acabou por partir a linha ou o deixar escapar com o anzol, e assim não foi possível trazer para casa o maior peixe da sua vida. Nunca mais vi um igual !!!
Assim, começam muitas vezes os pescadores antes de contar algo em que só eles acreditam, Manel eu vou contar-te uma coisa, em que não vais acreditar. Como Altino e o ditado dizem, é tudo história de pescador, pois que muitas das histórias são temperadas com uma boa dose de exagero. Existe normalmente um detalhe na procura de condimentar o peixe, aumentar seu comprimento ou valorizar o esforço desenvolvido durante a captura, no dizer de Altino Ribeiro. O único pescador de confiança que conheceu, como não mentiroso, foi o amigo Salvador, da Castanheira, seu companheiro em muitas pescarias e bom conhecedor dos pesqueiros neste mar da Nazaré. Mas os caçadores também são mentirosos ou exagerados. Contou-nos um diálogo entre dois seus velhos amigos, o Antunes e o Bernardes.
-Ontem, matei dez coelhos e dez perdizes.
-Eu tive também na Nazaré uma sorte muito boa. Pesquei seis robalos e três chernes.
-Também és pescador? Não sabia…
-Não. Também sou mentiroso.

Gozar a brisa do mar e a paisagem, ver o tempo passar, falar sozinho ou com os colegas, comer uma bucha e beber um trago, eis o que motiva(va) o pescador como Altino, num ritual comum a todos os da pesca desportiva. Durante a pesca tenho momentos de lazer, descanso, reflexão e sinto-me mais próximo da natureza, conta Altino que nunca se preocupou com grandes filosofias, nem em apanhar peixes grandes ou raros.
Altino é pessoa com mais de cinco décadas muito dedicadas a pesca desportiva sempre e só de barco (nunca pescou em água doce), tem boas histórias para contar, aliás como de caça. Mas, a contrariar a crença popular de pescador aldrabão, as suas histórias não são normalmente exageradas. Mais do que a quantidade ou o tamanho dos peixes que apanhou ou os temporais que o assolaram, como aquele em que no chamado Mar entre Pedras, a ondulação ficou de repente tão grande que não se via terra e se encontrava sozinho no barco, o que por elas perpassa é a preocupação com a preservação ambiental, pois sabe bem que a degradação do meio ambiente e a pesca predatória, afastaram os peixe, antigamente não faltava pescado, onde antes eram encontrados com abundância. Além dessa preocupação, as suas histórias revelam a paixão, que fez com que o que para si era apenas um desporto ou mera diversão (a sua profissão foi sempre a indústria de cerâmica), ganhasse um espaço, como que sagrado (se fosse religioso, o que não é o seu caso). Altino é, por exemplo, ferozmente contra os covos, gaiolas com grades que se colocam na água, e onde os peixes ou polvos entram engodados, e dos quais não saiem mais. Antigamente os covos tinham que ser levantados até 1 de Setembro, sob pena de pesada multa, eventualmente até prisão. Hoje em dia encontram-se impunemente durante todo o ano..

Altino, com 86 anos, reformado, a ouvir e ver muito mal, com artroses, faz parte da um selecto grupo de amantes da pesca que reúne homens e mulheres de todas as idades, que não medem esforços para enfrentar o mar, o sol quente, o frio, a noite ou longas esperas pelo peixe desejado. O seu interess pela pesca começou ainda na infância e adolescência. Foi aos 6 anos de idade, viver de Alpedriz para Caldas da Rainha e em breve começou a frequentar a Foz do Arelho, a tomar banho, a apanhar e a comer berbigão. Não foi incentivado pelos pais que nunca foram pescadores, que fez suas primeiras pescarias no mar. Aos 86 anos, conta que se apaixonou pela pesca, à primeira vista, como se fosse uma namorada, uma paixão que nunca enfraqueceu. Pelo contrário, foi ganhando força a cada ano.
Já pesquei muitos gorazes, chernes, robalos e safios, recorda. Navegar nas águas que vão da Foz do Arelho até S. Pedro de Moel foi um programa que fez vezes sem conta, até há poucos anos.
Já não posso voltar ao mar. Era no mar que eu estava bem, com muito peixe, não na caça ou na fábrica, lastima, à medida que ia vendo a lavoura (a que aliás nunca se dedicou, não obstante as suas origens rurais) estender-se em direcção ao mar da Nazaré, e a fauna marítima desaparecer. Era para o mar de S. Martinho, da Nazaré ou de S. Pedro e sempre de barco (teve variados barcos com motores fora de bordo e interiores, todos matriculados na Nazaré) que seguia sempre que podia nos fins de semana, até vender a fábrica de louça de Alpedriz. Tem carta de patrão de costa, carta de marinheiro e cédula marítima, que hoje não são mais que factor de recordação.

O robalo da nossa costa mudou o comportamento ou está em perigo, interroga-se retoricamente o pescador profissional João Faneca. Porque é que este peixe, de ano para ano é mais raro e se torna mais difícil de capturar? De há umas décadas para cá a rotina das estações do ano é tudo menos rotineira. O verão apresenta menos dias de calor intenso e é mais chuvoso, complementa o primo José Eustáquio. O inverno instável com alterações de ano para ano, ora chuvoso ora seco e frio, tem tendência para continuar e para afectar o clima, bem como a fauna marítima.
Altino, João Faneca, José Eustáquio e José Tempero, não esquecem os desastres ecológicos de grandes dimensões, bem como as descargas de poluentes para os rios, causando a mortandade nas respectivas espécies, que também afectam as costeiras, como o robalo, que frequenta os estuários. A situação agrava-se com a colocação de redes de emalhar a uma centena de metros da costa, tal como a presença de arrastões (espanhóis, mas não só…) que praticam a faina muito perto da costa, em transgressão. Grave é ainda o caso das redes de cercar para bordo, quando os robalos se encardumam para a reprodução na época da desova. Será que os profissionais, com quem por vezes Altino saía para a pesca, não se apercebem que estão a matar as gerações vindouras de robalos? José Eustáquio não o nega, mas diz que o pescador tem família e estômago para alimentar…. Um robalo adulto com o peso de seis quilos (o que é muito raro…) tem um par de ovas com oitocentos gramas aproximadamente. Imaginem os robalos em estado embrionário que se matam e que não chegam a nascer. Pois é, que havemos de fazer, comenta José Faneca com um encolher de ombros, afivelando um esgar misto de malandrice e resignação. Será que a pesca desportiva vai ter um futuro semelhante ao da caça, em que só quem tem posses para se deslocar a outros países é que se diverte praticando o seu passatempo favorito? Altino, já não o poderá confirmar. Será que se quiser almoçar ou dar um robalo ao um neto tem de o ir comprar ao supermercado Modelo, aqueles robalinhos todos do mesmo lote, criados em tanques alimentados a farinha ao que chamam de piscicultura (ou até de aviário…)?
Ao contrário de Faneca e Eustáquio, nunca pensou em apanhar peixe com a finalidade de vender, mas apenas para presentear amigos, família ou consumir em casa. Os peixes que pescava eram para consumo imediato, nunca para encher a arca frigorífica. Depois de colocado no gelo, o peixe perde o sabor, acrescenta Altino com a segurança de quem percebe do assunto, e que do peixe para consumo prefere entre todos os gorazes Antes, nem tínhamos como guardar o peixe, declara referindo-se a seu tempo de criança em Alpedriz ou Caldas da Rainha, onde não havia frigorífico. A minha experiência como pescador desportivo, esclareceu, diz-me de que com mar bravo este peixe afunda e distancia-se da costa, com mar manso gosta de rodear pedras que afloram do mar onde faça água branca, por duas razões, a primeira devido à maior oxigenação das águas, a outra por ter mais facilidade em criar emboscadas a algum pequeno peixe desprevenido.

No verão, com mar manso e água limpa, este peixe na nossa costa, como sabe Altino, tende a procurar a sombra das furnas, buracos ou caneiros com fundos de areia ou areão. A partir do Outono, gosta de percorrer as praias e começar a encardumar, preparando-se para a reprodução. Nessa altura os machos perseguem as fêmeas, que se distiguem pelo maior porte, esperando a desova para procederem à fecundação. Quando o mar é manso, vêem-se principalmente de manhã, do cimo das arribas, enquanto o Sol está baixo, não incidindo directamente na água. Altino, Eustáquio e Faneca viam-os nadar, lentamente, à superfície uns atrás dos outros, pois estão com o sentido na fertilização. Sabiam por experiência de muitos anos que nessa altura é difícil apanhá-los. Por vezes consegue-se capturar um ou outro peixe quando nadam sozinhos. Também pegam bem nas últimas horas da vazante e na primeira da enchente, pois com a descida das águas são arrastados crustáceos e pequenos peixes, que voltam a acompanhar as águas na sua subida. A altura em que o robalo demonstra mais actividade é nas fases de Lua Nova e Lua Cheia. Quando via os robalos mergulhar e nadar com maior velocidade, era sinal de que andam a caçar, a altura ideal para os ferrar, explica Altino. Apanhei robalos com sol, chuva, nevoeiro, águas limpas ou barrentas, mar chão ou bravo, mas penso que o importante é escolher a técnica e o momento que mais se adaptem às condições do mar. Os dias sem vento e tempo encoberto em que as águas tenham uma cor azul ou verde leitoso, são os mais propícios à captura de alguns exemplares, defendem os que sabem como Altino, Faneca ou Eustáquio
O cherne é porém o peixe mais saboroso que conheço pois é criado a cerca de 300 braças de profundidade, garante Altino, que afirma ter respeitado sempre espontaneamente o tamanho mínimo para a captura de cada espécie. Conta que já apanhou peixes, alguns bem grandes e uma vez um cherne com quase 5 quilos, bem como um robalo com perto de 7 quilos (sem exagero… de pescador), usando desta vez um equipamento rudimentar.
Era um peixe resistente, que lutava muito para se soltar, o que torna a pesca emocionante, até por vezes perigosa, pois é na zona da rebentação.
Entre as muitas histórias de pescaria, destaca o dia em que apanhou um peixe e ao tirá-lo da água percebeu que tinha sido apanhado também pelo colega que estava ao seu lado, no barco. O peixe acabou devolvido ao mar.
Gosto é de peixe fresco, que eu mesmo frito em casa.
Altino garante que nunca pensou em ter um dia de parar de pescar. Enquanto pude subir ao barco, fui à pesca, diz Altino, que levou trambolhões, passou por situações caricatas ou delicadas. Uma delas aconteceu, quando ficou sem a cana de pesca e a linha, que foram arrastadas por um peixe, que não se contentou apenas em devorar o isco. Não se esquece daquela vez que, há mais de cinquenta anos, foi de mota, numa noite, à Nazaré com o amigo e ex-patrão António Elias ( de Elias &Paiva). Eram cerca de 11 horas. Na praia havia uma grande excitação e animação, pois os pescadores estavam a puxar, com muita canseira para terra, uma rede de arte xávega, que se apresentava pesada. Porém, quando a rede chegou à areia, o pessoal para grande frustração, constatou que ela quase só trazia caranguejos. Tão grande foi a frustração, que os pescadores saltaram para cima da rede e esborracharam à pesada os inocentes caranguejos, que pouco ou nenhum valor comercial tinham.

Voltando ao robalo.
O robalo é o grande caçador do nosso litoral continental, estando presente nas águas que varrem pela ondulação as praias com declive suave, bem como nas zonas rochosas onde a agitação do mar também produz águas transparentes, bem oxigenadas, tão do agrado deste predador. Considerado por Altino e outros pescadores mesmo profissionais como um peixe extraordinário e imprevisível, o robalo alterna a voracidade com a desconfiança e o desinteresse pelos iscos e amostras, o que leva a que a sua pesca seja encarada com paixão e entusiasmo. Embora não sendo em termos de paladar o peixe que mais aprecia, Altino entende que o robalo está para o mar como o salmão para o rio, sendo o rei da nossa costa. Faneca não discorda, tal como Eustáquio. É recorrente ouvir-se falar dos segredos que os pescadores guardam para si, a propósito do robalo, mas parte do que se pensa serem os segredos, não são mais do que uma experiente utilização dos equipamentos, como diz com total franqueza Altino, pois canas, carretos, linhas, montagens, amostras, etc., tem sido grande e permanente evolução. Aliás na pesca em geral, como salienta com convicção Faneca e nomeadamente na do robalo, as condições meteorológicas, o estado do mar, a hora do dia, a altura das marés em função das fases da Lua, são muito importantes.

FLEMING DE OLIVEIRA

M.U.D.


-O M.U.D. (EM ALCOBAÇA)
-UMA HISTÓRIA

O MUD, tal como o MUDJ, também teve presença em Alcobaça.
A apreensão de documentos relativos ao MUD, de um jornal clandestino e de um panfleto anti-fascista, em Alcobaca, no ano de 1947 que constam do Processo nº 230/47 da PIDE, que a Profª. Zulmira Marques consultou, têm interesse para a pequena história política de Alcobaça.
No dia 28 de Abril de 1947, no laboratório da Farmácia Campião foram descobertos um Relatório e Mapas de Contas da Comissão Concelhia de Alcobaca do MUD, um exemplar do n°19 do jornal clandestino A Terra (embora de 1945), muito amarelecido, e um panfleto intitulado O Povo Português Quer Justiça. De referir que o jornal A Terra, assumia-se como órgão anti-fascista e trazia no editorial um artigo muito crítico de Salazar.
Estiveram, entre outros, envolvidos na formação e desenvolvimento do MUD, em Alcobaça:
-Carlos Pereira Campeão, farmacêutico, de 64 anos, casado, natural de Tomar, dono da farmácia com o mesmo nome, que ainda hoje existe;
-Acácio da Silva Morais, de 37 anos, casado, empregado na Farmácia Campião;
-Artur Faria Borda, de 38 anos, casado, comerciante (de que adiante voltaremos a falar);
-Joaquim Belo Marques da Silveira, de 56 anos, divorciado, farmacêutico;
-José Sanches Furtado, de 56 anos, casado, comerciante;
-João da Trindade Ferreira, de 32 anos, solteiro, comerciante;
-António Joaquim Moreira, de 51 anos, casado, proprietário, de Évora de Alcobaça;
-Joaquim dos Santos Cesário, de 42 anos, casado, empregado comercial;
-Adelino Serrano de Sousa e Silva, de 25 anos, solteiro, empregado de comércio;
-José de Oliveira Júnior, de 51 anos, casado, industrial de tipografia;
-João Duarte, de 62 anos, casado, reformado dos correios; e
-Aníbal Duarte, de 32 anos, casado, industrial de tipografia (dono da Tipografia Provir), e residente nas Caldas da Rainha;
Segundo o referido processo, que vamos seguir de perto graças à disponibilidade e amabilidade da Profª Zulmira Marques, chamado a depor pela secção local da PIDE, o proprietário da Farmácia Campeão, Carlos Pereira Campeão, afirmou que o exemplar do Relatório e Mapas de Contas do MUD lhe foram entregues na sua ausência, desconhecendo a pessoa que o tivesse enviado, enquanto que o jornal e o panfleto clandestinos foram lhe enviados pelo correio, desconhecendo do mesmo modo o remetente. O interrogado garantiu que na farmácia nunca teve mais exemplares do Relatório e Mapas de Contas do MUD, mas que teve na montra um impresso aconselhando o povo a fazer o seu recenseamento eleitoral, trabalho executado pela Comissão Concelhia do MUD, e um impresso com as instruções para essa acção cívica. Declarou que quem recebeu, via correio, tais impressos foi o seu empregado Acácio da Silva Morais.
Chamado a depor, José Sanches Furtado afirmou que faz efectivamente parte da Comissão Concelhia do MUD de Alcobaça, sem sede fixa, entidade que tem cobrado quota aos seus adeptos. José Sanches Furtado disse ignorar quem foi a pessoa que enviou os documentos.
Interrogado, Artur Faria Borda referiu por sua vez que o Relatório e Mapas de Contas do MUD foi impresso na Tipografia Provir, dado a recusa da parte da Tipografia Alcobacense em executar o trabalho.
Todos os demais implicados neste processo, foram ouvidos pelos agentes da PIDE, mas os seus testemunhos não acrescentaram nada de relevante para o historial do caso. Os Autos de Declarações podem ser consultados nos originais existentes na Torre do Tombo.
Por fim, há que mencionar um relatório da PIDE acerca destes acontecimentos e a avaliação do meio político de Alcobaça. Neste documento é transmitida a ideia que Alcobaça é uma terra pouco afecta à Situação e que, por via disso, os trabalhos de investigação foram difíceis e demorados. Os agentes da PIDE queixavam-se, da quase inexistência de colaboradores bufos, nos órgãos camarários e policiais da terra.

De acordo ainda com informações disponibilizadas pela Profª Zulmira Marques, seu pai José Sanches Furtado, nasceu em 28 de Dezembro de 1891, no seio duma família da alta burguesia de Alcobaça e, naturalmente pela sua condição, estaria destinado a ter uma vida fácil, e acomodada. Porém, ele era muito diferente de seu pai, um monárquico fervoroso, duas vezes Presidente da Câmara e que nem queria ouvir falar da República, que se anunciava…. Meu pai tinha 19 anos quando foi proclamada a República, e no ardor da sua juventude, ela tornou-se a sua grande paixão. Serviu-a abnegadamente, foi duas vezes Administrador do Conselho de Alcobaça, granjeou muitas simpatias nas populações, pela forma como exerceu essas competências. Quando se deu a Revolta de Braga e depois a Revolução (28 de Maio de 1926), para ele foi um golpe terrível, e a partir daí tudo fez para que caísse o Estado Novo. Já em 1931, foi um dos mentores duma conspiração em que, seriam cortadas as comunicações em Pataias (que já referi atrás). Por isso, um grupo de alcobacenses teve que fugir para Espanha, onde estiveram exilados durante dois anos. Quando regressou a Alcobaça, não se conformou com a situação e depois de ter estado muito activo nas várias conspirações como, a Revolta da Mealhada foi de casa de meu pai que a família Botelho Moniz, primos do General Botelho Moniz, sairam juntamente com meu pai, já todos devidamente fardados para ir cortar as comunicações no Valado. Negligentemente e como sucedeu várias vezes ao longo de sua vida, quando lá chegaram foram informados que a revolta abortara e tiveram que regressar a minha casa. Quando das eleições do General Norton de Matos, foi um dos elementos mais activos, e isso valeu-lhe ser de novo preso e ter estado em Caxias durante três meses. Não esteve mais tempo porque nessa altura era Procurador-Geral da República, seu primo António Furtado Santos que intercedeu por ele. Infelizmente alguns dos seus companheiros, como pertenciam ao PC, estiveram presos em Peniche durante vários anos. Meu pai pertencia ao Partido Republicano Democrático, de Afonso Costa, e toda a vida se guiou esse ideário. Quando das eleições em que interveio o General Humberto Delgado, pela oposição, apesar da idade e doença agitou o Concelho todo a seu favor, e acompanhou-o durante a sua estadia em Alcobaça, por todas as freguesias e no dia das eleições esteve a fiscalizar as urnas, tendo obtido o partido da oposição uma vitória.

Existe uma foto, tirada à porta do antigo Café Restaurante Bau e Pastelaria Toval, onde José Sanches Furtado aparece ao lado do general, que se encontra publicada no jornal O Alcoa, na secção RECORDAR PARA NÃO ESQUECER! Nesta foto, a redacção de O Alcoa, sob a pena de Orlando Carvalho Pedrosa, teve o cuidado de qualificar José Sanches Furtado, como democrata, idealista, homem vertical que a todos deixou profunda saudade.

FLEMING DE OLIVEIRA