terça-feira, 27 de setembro de 2011

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(VII)


MIRAMAR,
-O PARQUE DA GâNDARA,
-O TÉNIS,
-O GOLF…(anos 50 e 60, muito selectinhos)
E
-AINDA (mais recentemente) AS EMPANADAS
DA PALOMA


Como diz o Nuno FO, nada é como dantes.
Para o exemplificar evocou para nós um episódio, em que interveio na verdura dos seus doze a catorze anos, mas que eu mesmo reconheço como se se tivesse passado comigo há perto de cinquenta anos, nesse saudoso ponto de convívio e gerações que era então o Parque da Gândara. Recorde-se que o Parque da Gândara, hoje com perto de 80 anos de idade, foi fundado em 1930, entre outros, por Alberto Júlio Pereira e Manuel Menéres, conforme uma pequena lápide que havia (há?) no Jardim de Inverno. Frequentado pelas melhores famílias de Miramar, Porto e arredores, nos anos 50, 60, promovia excelentes festas e exposições, com destaque para os torneios de ténis. Demos a palavra ao Nuno, era Verão e como todos os anos começavam as grandes provas de ténis. Sempre havia muitos espectadores, Miramar nesse tempo era muito chique e social, tal como a Assembleia da Granja, a Quinta da Conceição, na altura ainda não se ia para o Algarve, as pessoas do Porto alugavam casa na praia para passar o Verão, e reuniam-se à volta do ténis, que se iam juntando no relvado do morro em frente do court 2 (o que ficava mais a oeste penso…). Era a final de pares senhoras. Dum lado, iam bater-se a Julita Pinto Leite e suponho a Gracinha Costa Pereira (as duas melhores jogadoras do norte) contra outro onde estava a filha do Alberto Abreu (creio que queres dizer o Aníbal Abreu, pai) fazendo par com alguém, talvez de Lisboa.
Antes do jogo, era natural o árbitro procurar quem o coadjuvasse, como os juízes de linha. Também, era comum, toda a gente se desenfiar, principalmente em jogos de responsabilidade (como era o caso de uma final, em pares femininos!!!). Alguém terá pensado em mim que ali estava e que sabia o que era uma arbitragem (o Nuno FO era melhor árbitro, que jogador de ténis!, embora batesse bem da bola). Penso que terá ido o Ramiro Magalhães. E não me deixaram dizer que não, depois de me terem convencido de que não iria haver problemas, de jeito nenhum. Lá me sentei numa cadeira do campo sul. A certa altura, uma bola vinda do outro campo cai muito perto da linha final, talvez queimando o risco. Numa fracção de segundo ( eu explico que o Nuno FO sempre foi um rapaz muito expedito, talvez por isso é que a Paloma o aprecia) avaliei se deveria pronunciar-me ou não e fi-lo com toda a determinação, para logo a seguir gritar fora (antigamente era de bom tom, dizer britanicamente out). Errado, pois pareceu-me ouvir da assistência muitos protestos como se a bola devesse ter ficado dentro. Eu muito enfiado, lá ia sustentando o que me tinha parecido. Mas o que aconteceu foi que os pais Abreu e Pinto Leite quiseram adoptar o critério que mais favorecia cada uma das filhas, um achando que a decisão do juiz de linha (eu) era soberana e o outro valendo-se do que parecia ser a demonstração da maioria do público, tentando com que o árbitro invalidasse a minha decisão. E aqueles (verdade seja dita, pessoas de bom nível social e trato) que eram amigos de longa data, começaram a travar-se de razões, arregaçaram as mangas e envolveram-se em pancada...
Em pancada mesmo, ao sopapo? perguntei ao Nuno FO ainda hoje um pouco incrédulo e desmemoriado, apesar de me lembrar bem, a paixão em que decorriam aqueles jogos de ténis, muito amadores, selectos e sociais. E concluiu o Nuno FO, que de exagerado não tem, que aí o jogo parou, até serem afastados (os contendores do sopapo) um do outro. O tempo suficiente para o Abreu (da Agência Abreu!!!) abandonar o recinto ficando o Pinto Leite (conhecidíssimo radiologista do Porto e pai de uns dez filhos!!!) a ver o resto da partida.

Em Miramar havia também o golfe, esse menos frequentado por nós, e quase só pelo Zico, que aliás chegou a ser seu Presidente da Direcção, do que muito se orgulhava. O Club de Golfe foi fundado nos anos 30, pouco depois do Parque da Gândara e se bem me lembro, entre outros, por Frank Gordon. O campo é pequeno, apenas de 9 buracos, mas muito bem cuidado e dele desfruta-se uma bela paisagem sobre as dunas e o mar.
Nessa altura, o golfe era considerado por nós, os rapazes, um desporto menor, de sociedade, pois não fazia músculo. O golfe era praticado pelos mais velhos, lembro-me do Xavier, do Mariani ou do Pablo Gali, mais por causa da barriga do que pelo desporto e ainda menos pela competição, assim pensávamos nós. Era para respirar o ar puro, dar umas voltas a pé e ao fim da sessão, um pouco cansados os velhotes, terminar no bar a beber um whisky ou uma cerveja, enquanto recordavam uma (boa ou má) pancada.
Não sei se o Zico enveredou pelo golfe, dada a experiência que trazia do hóquei em campo, que à mocada jogou com sucesso em rapaz no Leixões, suponho que chegou mesmo a ser convocado para a selecção para jogar contra a Espanha, mas por qualquer razão não pode ir, levando se necessário com uma bola na tola, dando uma sticada nas canelas, ou ficando com uma cicatriz no alto da testa.

Ó Nuno, de empanadas sabes mais alguma coisa de interessante, para além daquilo que a Paloma abundantemente já me disse? Ela não sabia nada até ontem à tarde claro, e por isso remeteu-me para umas pesquisas que efectuou, que parecem destinar-se mais a uma tese de mestrado ou doutoramento. Os argentinos (para onde os Espanhóis as exportaram) observam alguns cuidados com as empanadas. Escolhem em geral boa carne, cortam a peça em bifes, a seguir em finas tiras e depois picam com a faca, pacientemente. Desaconselham o uso de carne moída, porque seca rapidamente e requer mais gordura para o cozimento. Afinal, uma das características das melhores empanadas é o recheio húmido. Recomendam pegá-las com a mão. As bancas de jornais e revistas do país vendem um poster que difunde essa etiqueta. Uma das lições, sugere sacudir a empanada antes da primeira dentada, a fim de distribuir o suco no seu interior. (e este hein?) Para maior deleite, as pessoas devem estar sentadas. As mulheres, são aconselhadas a puxar as saias acima dos joelhos e os homens a abrir as pernas (tomem bem nota desta regra, minhas pudibundas senhoras…, Esposa, Manas, Filhas, Sobrinhas e clientes brasileiras) para o suco não escorrer e sujar a roupa. O deleite estende-se ao vinho. Segundo os argentinos, as empanadas de carne pedem companhia de um belo tinto de Mendoza.

Como disse, não quero fazer daqui um livro de recordações, mais ou menos grosso, qual sábio que pretende compilar a sua sabedoria, enquanto é tempo. Nem encontrar uma alternativa menor à fonte da juventude, qual ávido alquimista, à procura da transmutação do metal, da espécie ou da vida.
Nunca quis o Homem deixar-se enlear pelo poder, benefício duvidoso ou épico de não morrer jamais, ainda que de acordo com lendas tão moralizadoras como a dos jovens cristãos de Éfeso, ou tão amaldiçoados como o Judeu Errante, que foi castigado de modo a ter de viver pelos séculos dos séculos, além!
Algumas lacunas, no que se refere a pessoas queridas, surgiram nos últimos anos. Dentro de alguns anos mais, quantas outras? Como ia dizendo, afinal, aqueles de quem mais gostamos e mais gostam de nós, são os com quem passamos menos tempo.

Fleming de OLiveira

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(VI)




-ALÔ F.C.PORTO,
-DAQUI ALCOBAÇA !!!

Embora vivendo há cerca de 30 anos em Alcobaça, ao contrário do que acontece com Coimbra, onde vivi e estudei uns anos de Faculdade, nunca deixei de me considerar um a pessoa do Porto, o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias, como escreveu Sofia de Mello Breyner. Não esqueço onde se come bem e ao mesmo tempo são servidas doses abundantes, como na Adega Vila Meã ou no Ribeiro, restaurantes à moda antiga, que confeccionam o que de melhor há na comida portuguesa, como as pataniscas de bacalhau, o serrabulho (em Semana Santa, mais tarde com o Paulo), o cabrito assado, os filetes de polvo e, claro, as Tripas à Moda do Porto, que já têem uma Confraria para as defender. Mas não se esqueça ainda, que uma das especialidades do Porto, um dos seus ícones, são as francesinhas, cuja receita também evoluiu e agora já se serve com ovo a cavalo e batata frita ao lado a acompanhar.
Como não esqueço, por exemplo, a sofisticada Avenida Marechal Gomes da Costa, a rotunda que serve de antecâmara à Foz, aonde se situava o de saudosa memória Colégio Brotero, a Casa de Serralves, cor de rosa, onde viveu o Conde de Vizela, que mandava buscar um neto ao colégio, num carro deslumbrante, com motorista fardado a preceito (luvas incluídas).
Nesse tempo, eu e os meus amigos andávamos muito democrática e principalmente de Carro Eléctrico, que tomava junto ao colégio feminino da Nª Srª do Rosário, na Boavista, para ver a saída e fazer a boca, ir almoçar a Matosinhos, passeava pela Rua de Santa Catarina, passando ao lado do Majestic, que ainda conserva neste ano de 2004, a atmosfera aristocrática da Belle Epoque com os seus espelhos, dourados e sofás de veludo vermelho, que nem os célebres cafés da Áustria, dava uma saltada à Batalha, ia ao Palácio de Cristal ver os campeonatos do mundo em hóquei em patins com a Zica, ouvindo os épicos relatos do Artur Agostinho, tendo por perto a Torre dos Clérigos, o máximo em matéria de grandeza à beira da qual tudo empalidecia mesmo em Espanha, como se dizia, ao Jardim da Cordoaria (aonde existiu em tempos a infame árvore de forca) e a Cadeia (da Relação), então com presos atrás das grades, que estendiam a mão à caridade pública, e onde na cela 12 Camilo escreveu o Amor de Perdição, se encontrou com o Zé do Telhado, ultimamente tão falado na nossa RTP. Por fim, dirigia-me a pé ou de eléctrico à Estação de S. Bento, com o seu magnífico conjunto de azulejos azuis alusivos aos transportes e à nossa história pátria, para comprar bilhete e apanhar o comboio para Miramar, passando sempre algo receosamente sobre a Ponte D. Maria Pia, essa sim a projectada por Eiffel, entretanto desactivada, como se sabe.
Com os meus 12 a 14 anos, nunca fui precoce como sabem, já gostava de ver as meninas finas de pelos rapados debaixo do braço ou sem buço e boca pintada à mariline, como passava no catálogo das beldades que folheávamos gulosamente ou nos filmes do Trindade ou Coliseu e, desde que não quiséssemos armar ao pingarelho, se ficássemos pelas soquetes do primeiro ciclo, ainda conseguíamos alguns resultados, para na segunda feira por com a malta a escrita em dia, embora com algumas regadelas pelo meio. Histórias de passarinhos, dirão hoje. Cresceram? Envelheceram? Morreram? Rostos que se perderam na cidade e no País, como algumas que na altura nos pareceriam para sempre inesquecíveis e não entrariam no rol das desilusões da vida.
Como disse sou adepto do FCP, mas não obcecado. Não canto, mas gostaria de cantar, o hino que embalou a equipa para as mais recentes e retumbantes vitórias, de 2003 e 2004: Allez Porto, allez. Queremos esta vitória. Conquista-a para nós. Com o FCP, não propriamente com o Sr. Pinto da Costa, constatei, aprendi, que é possível vencer, desde que se trabalhe muito e bem não nos fiemos na sorte, só a arte triunfa!
Eça de Queiroz escreveu a propósito do Porto, Jesus! Que terra! Verdadeiramente inabitável.
Embora seja um dos meus autores preferidos, não o acompanho nesta máxima arrasadora.

Fleming de Oliveira

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(V)

MIRAMAR (anos 50/60),
-A PRAIA DAS ROSAS E
-O SENHOR DA PEDRA
Não estou neste momento a fazer nenhum balanço de vida, com um deve e um haver, um diário ou uma autobiografia. As minhas glórias são efectivamente muito limitadas.
Podem perguntar-me se sinto um vazio por não ter conseguido realizar coisas com que sonhei. Respondo que não. Por isso, digo que não tenho medo de, mais cedo ou mais tarde, me reformar. Nunca fui obsessivo ao ponto de fazer ou construir toda a vida exclusivamente à volta da actividade profissional, como aliás tenho dito ao Nuno G.. Doutro modo, estava já em contagem decrescente. Tentei criar alguns focos de interesse e um deles é, escrever.
Vou continuar a escrever, embora já não para publicar, a não ser que achem que sou chato, piegas ou ridículo.
Estou convencido de que todos, mais ou menos, temos uma missão e que alguns valores que me foram transmitidos, devo passá-los, nomeadamente aos filhos e netos.
Sei lá o que é o Mundo de amanhã !!!

Há momentos que me pergunto porque razão gosto tanto de ir ao Porto ou a Miramar e outros em que não me apetece mesmo nada lá ir, embora lá tenha a Paula, e me sinta muito bem na sua casa, tal como a Aninhas bem demais, porque supõe que lá manda alguma coisa. Porque é que por vezes gosto menos de lá ir? É que os anos mudaram tanto as coisas, como as pessoas. São os prédios novos, as ruas e as pessoas. Sem dúvida que ainda reconheço alguma coisa. Mas a casa de janelas com portadas verdes, no nº 179 da Avenida Principal da Praia das Rosas, (…e porque aqui se cultivam rosas todo o ano, alguém a chamou de Costa das Rosas) o emblema do nosso ramo FO, já não é nossa. Era uma casa onde cada recanto nos dizia muito a todos, e a cada um por si. Longe estão os tempos que remontam ao início do século XX, dos belos chalets de praia, alamedas frondosas, arborizadas e belas roseiras envolventes, antigamente não era a Praia das Rosas?, e na rotunda da nossa Avenida Vasco da Gama, a delicada escultura dos meninos (um anjo protector e dois meninos) de José de Oliveira Ferreira ocupava o seu lugar, sem o disputar com uns muito inestéticos montículos mamudos, propostos pelo Meneses, de Gaia, seguramente com a concordância do Aguiar, de Arcozelo.
Conhecem a Lenda da Costa das Rosas?

Das lindas praias que tem,
Granja, Aguda e Miramar
Arcozelo é doce mãe,
Com três filhas p’ra cuidar.

Praias de finas areias,
Cheias de rara beleza
Com encanto de Sereias
Fascínio da Natureza.

Nasceram de Pai Velhinho,
Nas areias da Marinha,
O Sol foi seu Padrinho
Tendo a Lua por Madrinha.

Uma Fada abençoou
Essas Sereias Formosas
Com carinho as transformou
Na bela Costa das Rosas.

O arraial do Senhor da Pedra é agora, uma esplanada muito turística e domingueira graças ao Meneses, boa para fotografias de casamentos e ir almoçar ao badalhoco. A própria romaria, no Domingo da Santíssima Trindade e nos dois dias seguintes, uma das mais típicas da região do Porto, praticamente acabou e com ela a nossa excitação. Apenas a capelinha é a mesma, assente num rochedo negro, a Pedra da Assoreira, no areal de Miramar, o rochedo sim é eterno, rochedo esse que o mar rodeia na maré cheia. A capela foi mandada reconstruir num lugar de antigo culto pagão, pelo Abade José Barbosa Pereira, com o produto das esmolas dos fiéis, em meados do século XVIII para, segundo a tradição, dar guarida a uma imagem do Senhor que deu à costa e por isso estaria abençoada. Segundo um documento a que tive acesso para estas notas Medição da Freguesia de Arcozelo feita aos 17 de Abril de 1653, diz-se que começando pela Pedra da Assoreira, fica no meio dela uma pedra, que serve de marco para extremar as duas freguesias de Arcozelo e Gulpilhares.
Já não há mais o intenso foguetório, barraquinhas com venda de louça de barro, carrinhos de choque, nova corrida, nova viagem que esta terminou !!!, comboio fantasma, poço da morte, o gigante e a mulher-anã ou o homem mais gordo, carrosséis, ourives de Gondomar e de Ermesinde que transportavam o material em malas de madeira rodeadas por um cordel, bandas de música ainda sem mulheres, excursões de camionetas e rusgas, com o povo a farnelar pastéis de bacalhau em qualquer canto, seja nas bouças ou no passeio. Antigamente havia pinhais, mas hoje desapareceram. Não há mais comboios especiais, bêbados de vinho tinto e aguardente a fazer desacatos que acabavam com galos e nódoas negras, a vomitar e cambalear com o garrafão a bambolear mas bem preso na mão, barracas de farturas e mendigos andrajosos a pedir compaixão dos fiéis, lado a lado com ciganas que lêem a buena dicha.
Muito ligado à romaria do Senhor da Pedra, se bem me lembro, eram as camarinhas, com que se faziam raminhos para colocar ao peito, ao pescoço ou nas fitas do chapéu dos namorados enlevados. Por esta altura do ano, fins de Maio ou princípios de Junho, apareciam as primeiras cerejas. Hoje creio que praticamente acabaram as camarinhas, fruto silvestre comestível, em forma de pequenas bagas esbranquiçadas, que proliferavam nas dunas arenosas do litoral. A romaria era (é?) de três dias, com missa celebrada no Domingo de manhã na capelinha, na terça-feira eloquente sermão e procissão, com bandas de música a preceito e imagem para benzer o mar, a percorrer o areal até ao arraial.
Entre lendas, tradição e histórias com pedaços de verdade, hoje em dia o Senhor da Pedra menos para pagar promessas, está ligado a estranhas práticas de bruxaria, em determinados dias da semana.
Ao preparar estas notas, encontrei algumas saborosas quadras populares que segundo o já prestimoso Dr. Helder Pacheco e Soledade Martinho Costa, terão sido cantadas pelas antigas rusgas ao Senhor da Pedra:

Fostes ao Senhor da Pedra,
Minha rica Mariquinhas,
Nem por isso me trouxestes
Um ramo de camarinhas.

Hei-de ir ao Senhor da Pedra,
P’ra colher as camarinhas,
Meu amor é da lá,
Já m’as tem apanhadinhas.

Hei-de ir ao Senhor da Pedra,
Nem que me leve um Verão,
Em manguinhas de camisa,
Co’o meu amor pela mão.

Meu rico Senhor da Pedra,
Meu rico Senhor da Areia,
Eu queria lá ir dentro,
Mas a capela está cheia.

Hei-de ir ao Senhor da Pedra,
Que meu irmão já lá foi,
Hei-de ir ao Senhor da Pedra,
Ver a pegada do boi.

Também não existe mais o Hotel de Miramar, arrojadamente construído no fim da II Guerra, pelos irmãos Amândio e Afonso. A partir de certa altura, os tempos não indo de feição, sofreu grandes alterações arquitectónicas, que o desfiguraram completamente num característico e frio bloco de cimento e tijolo, hoje em ruínas.
Também ali perto, estão definitivamente em ruínas o Hotel da Granja e a Assembleia da Granja, que mesmo nos seus bons tempos pouco frequentávamos mais por uma questão de princípios.
Segundo se sabe, ainda a Granja dava os primeiros passos como praia de banhos, por iniciativa de alguns dos seus frequentadores se criava (1876) a Assembleia da Granja, durante muitos anos a sua sala de visitas. O Hotel foi outro ponto de encontro da elite de outros tempos, frequentadora daquela praia.

Fleming de Oliveira

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(IV)



-O TEMPO PASSA DEPRESSA E CUSTA A
PASSAR?
-HOJE SOMOS PEQUENOS, AMANHÃ JÁ
NÃO.

Vendo bem, o tempo não custa nada a passar.
Hoje somos pequenos, amanhã já somos grandes.
Era uma vez, um menino pequenino que queria ser grande, seria eu?, mas quando ficou grande queria ser outra vez pequenino, porque chegou à conclusão que ser pequenino é capaz de ser bem melhor do que grande. Afinal, a vida é assim. Quando somos pequeninos, pensamos que chegados a grandes, tudo será diferente.
Em pequeno, pensava que era grande e em grande senti-me muitas vezes pequeno.
Falando dos tempos da Casa, já na geração seguinte, a Núnú relembra um concurso entre famílias em que o Miguel e o João tiveram que fazer uma mímica representando a Raquel e a Paula. A maneira que acharam para as representar foi discutirem, darem pontapés no carro da Biquica, estacionado no pátio.
Também me lembrou que quando o Miguel era bebé estava sentado na minha cama (dela Núnú) e tu atiravas-lhe coisas para cima dele e só dizias mexe-te morcão, pois era supersossegado.
Desculpa lá mais esta, Miguel!

Agora que tanto se fala dos fundamentalismos islâmicos e das mulheres de véu, lembrei-me que ainda sou do tempo em que as senhoras cobriam a cabeça com um manto, quando iam à missa, ou usavam chapéu, com véu, quando saíam à rua. Não eram só as noivas.
Lembro-me muito bem da Avó Laura (Ferreira), usar chapéu com um véu escuro e transparente, que lhe cobria a cara, muito especialmente quando ia com a Zica às compras ou tomar chá na Confeitaria do Bolhão ou na Leitaria da Quinta do Paço, sentada no banco de trás, do lado direito, no automóvel preto conduzido pelo chofer, senhor Manuel, que usava boné, mas não luvas, vivia em Rio Tinto, mas dormia no Porto, num quarto por cima da garagem, ao fundo do jardim. O carro, um Austin grande, nunca parava à porta dos locais aonde a Avó Ferreira se queria dirigir, mesmo que houvesse espaço, porque suspeitava que se a vissem sair de um carro com chofer de boné, lhe cobrariam as coisas mais caras. Nessa altura era vulgar no Porto pedir uma atenção isto é, desconto. Em casa da Avó Laura Ferreira, vivi algum tempo enquanto estudava nos primeiros anos do Liceu D. Manuel II e o Zico trabalhava na Barragem de Picote, a primeira do Douro internacional.
Menino são horas! Ainda rameloso, sentava-me no banco da cozinha para tomar o pequeno-almoço, rápido e curto, com as duas empregadas que faziam renda a assistir e a ouvir o ralhete amável da Tia Otília, viúva, tal como a Avó Ferreira, menino, isso não chega para a tua idade !
Lembra a Náná que enquanto o Zico estava a acabar o curso de Direito, antes era Agente Técnico de Engenharia, como então se dizia aos alunos saídos do Instituto Industrial do Porto, esteve três anos a trabalhar na Barragem de Picote e nós íamos lá passar o Verão; o Pai vinha a casa mais ou menos de 15 em 15 dias. Num desses verões que lá passamos o Nuno era bébé e dormia numa gaveta dum armário.
Foi por isso que se tornou um sofredor? Espero que a Paloma, a quem o entregamos carinhosamente, o compense bem disso tudo…
Mas desde pequeno, o Nuno FO sempre foi dado a engenhocas. Era um gosto ve-lo, embora por vezes com desespero dos Zicos, a desmontar uma televisão, um rádio ou um gira discos, ainda em bom ou perfeito estado de funcionamento, e depois a sobrar peças, miúdas de preferência, quando queria refazer o aparelho. Ao trabalhar em Braga, na Grundig, os alemães ficaram espantados com a argúcia do portuguesito, a mexer nos botões, alguns com casas outros não, do aparelho que lhe vinham à mão.
Seria o verão de 66 talvez. Naquele tempo o Pai tinha um terreno ao lado da casa do Tio António (a bouça como lhe chamávamos). Era em grande parte um matagal, mas com uma diversidade de vegetação muito densa. Mais ou menos no meio do espaço, existia uma clareira com o chão em areia e terra que era um ponto de reunião de alguns amigos meus, que ali descobrimos um sítio ideal para as nossas fantasias de aventuras: era a nossa floresta virgem onde antes nunca ninguém entrara (e o Nuno também ali queria ser o primeiro a experimentar), o esconderijo secreto. Em Casa existia uma tenda de campismo que fora outrora utilizada pelos Pais, suponho que em estadia na Serra da Estrela, como tive oportunidade de ouvir. Era suspensa por uma corda horizontal, que se esticava entre duas árvores e não tinha chão. Mas isso também não importava para nada. Lembrei-me que podia fazer campismo (estas ideias luminosas do Nuno foram sempre um perigo, como vimos e veremos) ao lado da casa, com os amigos. Na tarde em que montamos a tenda (sempre foi um grande montador), o entusiasmo só foi esbatido com a possibilidade de chover. O tempo ameaçava isso mesmo. Então ocorreu-me uma maneira de tornar a tenda impermeável (outra extraordinária ideia desta cabeça engenhosa e sensível) : cobri-la com uma gordura que bem poderia ser… cera dos móveis. Se assim pensei melhor o fiz, mas claro sem me denunciar em casa pois já havia outros antecedentes, que não tinham sido bem recebidos: as minhas invenções às vezes eram um pouco loucas (e é ele que o diz…vejam bem). Quando antes do jantar o Pai foi fazer a revista ao acampamento, aquilo cheirou-lhe mal, mas mal mesmo, porque ao entrar dentro da tenda sentiu logo os vapores e odores dos diluentes e químicos do produto, que entretanto tinham passado através da tela e asfixiavam o ambiente. Claro que aquela intervenção acabou com a nossa aventura mas poderá ter-nos salvo de uma asfixia.
E conclui o Nuno FO, que está felizmente de boa saúde,os joelhos afinados, bem entregue a uma Senhora e a contar-nos esta história, não muito pedagógica, quanto à tenda, foi logo para o lixo.

FLEMING DE OLIVEIRA

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(III)

A CARMINDA E A PARÁBOLA MINHOTA (sempre atual) DO MAU VIZINHO
A Carminda Afonso de Castro, nasceu no lugar da Lage, Vila Praia de Âncora, Minho, como gostava de dizer, filha de uma família pobre, que mourejava de pés descalços, de sol a sol, numa terra arrendada. Nunca andou na escola, mas sabia as horas, conhecia o dinheiro e ninguém a enganava nas contas do padeiro ou da mercearia.
O Minho foi sempre uma terra pobre de onde emigrava muita gente para o Porto, Lisboa, Brasil, África, França ou Canadá.
A Carminda tinha 17 anos quando veio para o Porto, servir como então se dizia, para casa de uns ingleses, na Ramada Alta. Não tinha consigo mais, do que o saco de pano que trazia às costas. Creio que nem mala de cartão.
Só depois é que foi para a casa da Avó Ferreira, na Avenida da Boavista, e quando os Zicos se casaram foi, com eles, para a Casa.
A Carminda tinha lá na terra a sua família, que ajudava como podia.
Mas onde gostava mais de estar, era connosco, em Miramar. Da terra recebia, às vezes, amoras ou framboesas silvestres, que faziam uma compota espessa preta ou avermelhada de que gostávamos imenso. A Carminda contava bem histórias ingénuas que inventava e que nós devorávamos, gulosamente, na proporção inversa do apetite, por certos pratos ou pela sopa. Por isso não nos importávamos nada quando os Zicos saíam para jantar fora ou em passeio.
Durante uns anos, recorda a Náná, os mais velhos, no Verão íamos com os Pais (Zicos) uns dias ao estrangeiro. Era cómico que ao chegar à Granja ou a Espinho, o Pai quisesse voltar para trás com saudades dos que tinham ficado.
Lembro-me, entre outras, uma viagem que nos anos 50 fizemos a Sevilha, Córdoba e Granada, a Náná muito sapudinha e a Núnú, onde tiramos uma fotografia num estúdio, vestidos como árabes, fumando cachimbo de água, foto que ainda possuo religiosamente, bem como registei a máxima árabe é tão bom não fazer nada e depois descansar. Também me lembro de uma outra viagem a S. Sebastião (Espanha) onde a Náná num parque de diversões montou um pobre burro e se agarrou desalmadamente ao seu pescoço, que quase ia morrendo afogado. Dessa vez, demos uma saltada a França, vimos pela primeira vez uma senhora de bikini e lembra a Náná que num restaurante o Fernando desabou a dizer palavrões (não, não era o meu costume); então o empregado no mais correcto português perguntou o que queríamos para sobremesa. A Mãe passou por todas as cores.

A Carminda não era uma beata, embora fosse temente de Deus. Não sei se em criança foi à catequese, mas seguramente não precisou disso para ser uma óptima pessoa. A sua cultura, que era popular e rural, não rejeitava, antes pelo contrário, algumas antigas crenças, superstições ou lendas do Alto Minho. Recordo as digressões que fazíamos pela Via Láctea ou Estrada de Santiago, como era conhecida, muito empoeirada pelas almas que vão em romaria a Santiago de Compostela, o hábito de encomendar as almas do Purgatório ou a crendice que à noite a procissão dos defuntos, descia às ruas escuras da freguesia.

Conhecia a Carminda algumas emocionantes histórias, que por vezes contava mas que apreciávamos menos que as do menino que ia de comboio comprar com 2$50 um carro a Coimbra, e nos dizia ter aprendido com as velhotas da terra, nas noites de inverno, à volta da lareira, antes de vir servir para a cidade. Nessas histórias apareciam bruxas e espíritos maus, que se reuniam em lugares tremendos como a figueira do enforcado ou o pego do afogado, o que explicava certos e inexplicáveis males que acontecem, com a morte dos inocentes.
Já era grande e pai de filhos, quando percebi o que eram os custodinhos. Eram os bebés, antes de nascer, ter nome ou ser baptizados. Quando antigamente uma senhora estava à espera de bébé, não se sabia se era menino ou menina, era o custodinho. Em casa dos Zicos fomos todos custodinhos e claro a Raquel, Paula e Miguel também foram custodinhos, no dizer da Carminda. A expressão custodinho era típica do Minho e foi uma entre muitas, que a Carminda introduziu na Casa. É aquele que deve ser guardado das bruxas ou dos que lhe podem fazer mal. São os inocentes.

Como disse, a nossa Carminda nunca foi à escola.
Falava-nos da sua devoção ao S. Bartolomeu, que era o advogado dos medos. O S. Bartolomeu, um dia dominou e prendeu o mafarrico, o diabo, e salvou uma criança que estava possuída.
Lembro-me, de ouvir falar numa antiga romaria que se fazia em Âncora, terra da Carminda, talvez do tempo da Idade Média, aonde havia uma cerimónia para impedir que o mafarrico, fizesse mal às crianças.
Um dia, vim encontrar esta ideia, na iconografia do túmulo de D. Pedro, no Mosteiro de Alcobaça.
Disse-me a Biquica que me lembrou duma história de Miramar, que a Carmindinha querida, fazia connosco para nos gozar dizendo que era para tirar o medo do escuro e da noite…Trincar uma crista de galo (quando havia um que ela destinava ao repasto) dizendo que imediatamente ficávamos sem medo. Mandava-nos passar pela portinha pequenina que nos levava ao ainda terreno do Santos Coelho, sozinhos, um de cada vez, e andar ali um bocado às escuras. Por segundos, todos julgávamos que a crista do galo era miraculosa.

Deus nos livre dos maus vizinhos, era uma ladainha que ouvi algumas vezes à Carminda, misturada com algumas inocentes asneirolas, invocações ao Santo António de Lisboa e padres-nossos, para atalhar a um mal ou desgraça. Ter um mau vizinho, é muito mau porque prejudica as relações das pessoas, é uma autêntica desgraça. O Santo António, salvou o pai, que ia a caminho da forca, por causa da infâmia de falsas acusações, feitas por um mau e invejoso vizinho.
-Não gosto desta sopa. Conte uma história, Carminda.
-Está bem, mas primeiro o menino (a) vai comer a sopa.

Um dia, em que Nosso Senhor veio ao Mundo, encontrou um lavrador a trabalhar a terra ao Domingo, com um arado de bois.
-Solta os bois e guarda o Dia Santo, disse-lhe o Senhor.
-Não posso Senhor, que tenho mulher e filhos pequeninos para cuidar, respondeu o lavrador.
-Solta os bois e guarda o meu Domingo, pois mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga, insistiu o Senhor.
-Tendes toda a razão, mas não posso, pois enquanto tiver forças, tenho de trabalhar.
E o Senhor continuou a insistir:
-Homem teimoso, solta os bois, pois ainda te mando raios e trovões que te levam num piscar de olho.
E o lavador respondeu:
-Não posso, meu Senhor, que tenho palha e pão para arrecadar.
O Senhor repetia e o lavrador continuava a dizer que tinha de trabalhar na terra.
-Solta os animais, homem sem fé, que te mando moléstia que te leva os bois de morte.
-Não posso Senhor, se me matais os bois, ainda mais tenho de trabalhar.
Como o lavrador não cedia aos argumentos do Senhor, Este resolveu utilizar um decisivo:
-Solta os bois, guarda o dia Santo, que senão mando-te um mau vizinho, para o pé da porta.
Ao ouvir esta ameaça, o lavrador ficou aterrado e abandonando os animais desatou a fugir leira acima, em direcção a casa gritando:
-Piedade Senhor, tende compaixão dos pobres.
Esta história, que agora recuperei, já a havia publicado há alguns anos num jornal aonde colaborava e num artigo dedicado à memória da Carminda.

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(II)

-A FAMÍLIA FO É GRANDE E CRESCEU BEM
-BRINCADEIRAS SEM MALDADE
Era uma excitação muito grande quando ouvíamos o choro de mais um bébé, ou seja, mais um mano que acabava de nascer.
Depois, éramos autorizados, íamos em fila, ver a Zica e o menino (a).
Há muitos anos, as famílias no Norte de Portugal, eram grandes e nós em Miramar, não éramos uma verdadeira excepção. Isso foi possível, porque a Zica não trabalhava fora de casa, tinha várias empregadas para a ajudar e claro a Carmindinha. Não sei se foi isso que a deixou muito cansada e doente de cama.
Sou do tempo que havia 3 ou 4 empregadas na casa, ou seja, uma para a cozinha e de confiança, a Carminda, outra chamada de dentro, para servir à mesa, outra para tomar conta dos meninos na rua, e outra, a dias, para lavar, passar a ferro e fazer limpezas.
Até chegamos a ter, nas férias de verão, uma fraulein, o que era nesse tempo uma coisa muito chique, mas que no nosso caso não era autêntica alemã, pois era de Espinho. Nem sabia, nem uma palavra de alemão. Inglês, pouco! Gostava, se bem me lembro, de jogar voleibol. Eu gostava de jogar ténis. Recorda a Náná que, quando éramos pequenos havia uma rivalidade com os Pinto Leite, porque eles tinham uma mademoiselle belga, suíça, etc. e nós tivemos uma menina de Espinho.
E as reuniões da canasta, quem se lembra disso? A Náná pois quem haveria de ser. Eram todas as semanas e rodavam pelas amigas da Mãe. Quando eram lá em casa, nós ficávamos atrás da porta, a fazer um bocadinho de barulho para ver se não comiam tudo e nos deixavam algumas torradas e bolos.
Um dia ainda contarei aos meus netos, como fui na Foz do Douro campeão de juniores do norte em ténis, com direito a fotografia no Comércio do Porto, no Senhor da Pedra campeão de prego à espanhola, ou seja, com o bico ao contrário o que era muito mais difícil, do jogo da macaca no Parque da Gândara ou do salto à corda, na escola primária. E também como aprendi a jogar damas, o que me permite ganhar sem batota, às vezes à Teresinha, que gosta pouco de perder..
A Naná, que era muito fina e senhoreca como dizíamos para peguilhar com ela, tinha um enorme desgosto. De facto, a Naná nos seus doze anos gostava muito de andar de tacões altos e de ter conversas profundamente filosóficas sobre a existência da Alma, ou o inferno para os pardais. O desgosto da Náná era a nossa fraulein não ser mesmo alemã, como acontecia numa outra família, os Pinto Leite, nossos vizinhos, que tinha uma verdadeira fraulein, para os 10 filhos. Eu não gostava de sair à rua com a nossa fraulein, porque com os meus 12 anos, entendia que não precisava que tomassem conta de mim, muito menos por uma menina, para aí com uns 20 anos, morenaça, de cabelo cortado à rapaz e jogadora de vólei. Mas a Náná também tinha um desgosto profundo que só conheci em tempos recentes, que nunca manifestara anteriormente. O quê? Além de tudo eles, os Pinto Leite, podiam tomar groselha todos os dias e nós só podíamos comer um chupa-chupa por semana !!!

Os Zicos, iam com frequência vezes jantar fora com amigos ou a casa de parentes, os jantares dos primos ou da toga como eram conhecidos, e nós ficávamos, com a Carminda. Nesses dias fazíamos as coisas mais variados. Lembras-te Náná? Claro que se lembra dos concursos para arrotar mais alto, para ver quem cuspia caroços de cereja mais longe. Durante uma larga temporada os primos direitos do lado Fleming, juntavam-se todos os meses e de cada vez em casa de cada um.
Embora isso não seja muito bonito, tenho de confessar aos meus meninos que também fazíamos, de vez em quando, as nossas birras, dizíamos que não gostávamos do jantar para arreliar a Carminda e ela nos contar, as mais que sabidas, histórias, que não eram da carochinha ou contos de fada, mas da Carminda. Segundo a Náná que tem boa memória, graça e cabeça para certas coisas, pelo menos no dizer das manas, o que subscrevo, o Fernando e eu andávamos sempre a batatada no entanto não nos podíamos ver separados. Durante o 1º e 2º ano do liceu, ele estava no Porto em casa da Avó Laura, só vinha nos fins de semana e quando voltava ao Porto eu ficava a chorar. Nunca me tinha apercebido disso, nunca me tinhas dito isto, querida irmã.
A Clara era muito boazinha e acreditava em tudo. Mesmo tudo?
Quando os Zicos não estavam em casa, eu sentava-me à cabeceira da mesa de jantar. Eu era o mais velho dos manos, o patrãozinho, tal como o Miguel também chegou a ser conhecido, e gostava já nessa altura de dar ordens.
Querem recordar comigo algumas coisas que fazíamos à Clara?
Comecemos pela Náná, que não era nenhuma santinha como hoje se pode benevolamente pensar. Um dia, conta a Náná, a Clara era bebé e eu também pequena, é claro, e estava proibida de lhe pegar porque ainda estava no berço. Apanhei a Mãe longe e peguei-lhe mas ela virou-se para trás e caiu. Eu peguei nela, fui po-la no berço mas de vez em quando ia ver se já tinha morrido.
E agora eu.
Em Casa comia-se muitas vezes bacalhau dourado, prato de que gostávamos, mas também de que por vezes estávamos enjoados. Dizíamos à Clara para ir, por exemplo, à cozinha chamar a Carminda, buscar água, ou ver se estava a chover, mesmo que estivesse uma bela noite de verão ou de luar. Como era boa menina e obediente, a Clara ia logo num pulinho. Nós aproveitávamos essa saída, e dos nossos pratos ou da travessa enchíamos o prato dela. Quando a Clara voltava, ficava admirada, pois tinha muito mais comida do que a que deixara no prato, quando fora ver se chovia. Nós dizíamos-lhe, com o ar mais sério do mundo, que foram as bruxas que vieram pelo tecto da sala encher-lhe o prato, no que ela acreditava, ou fingia acreditar como agora diz com ar sério, e assim comia tudo, até ficar empanturrada e ter de desapertar a saia.
Lembra a Náná que quando nos portávamos mal, o Pai dizia-nos que íamos para a tutoria (a Carminda por sua vez dizia titoria). Um dia convenci-me que isso era verdade e comecei a distribuir os meus bens.
Outras vezes quando a Naná se portava mal, o que raramente acontecia, mas acontecia, a Mãe dizia-lhe não és mais minha filha. Eu começava a chorar e a dizer eu quero ser filha da mãe.
Nessa altura, a Núnú e Clara eram bem redondinhas. Acreditam nisto, ao ver hoje a Núnú tão magra? A Clara é bem mais fácil de acreditar, ainda está redondinha…
É mesmo verdade, e posso provar, pois há fotografias desse tempo.
A Clara, tinha a mania de dizer que gostava de champanhe, porque uma vez em bébé, molhou o dedo numa taça do Zico. Dizia que gostava de beber, mas não bebia champanhe nenhum. Pelo menos nunca a vi beber, mesmo pouco. Não que isso tivesse mal, sendo ela uma FO de nascença e Almeida por casamento. A Náná diz que eu pagava, não me lembro nada, à Inês vinte e cinco tostões para lhe dar beliscões e ela chorar: achava que era mais encantadora quando chorava. Não acredites nisto, Inês se me vieres a ler, que a Náná é uma refinada linguaruda!

FLEMING DE OLIVEIRA

AS NOSSAS MEMÓRIAS FLEMING DE OLIVEIRA


(I)

-O BAÚ DA INFÂNCIA (anos 50)-MIRAMAR
-HISTÓRIAS DE NINAR PARA COMER A
SOPA
A vida é feita de memórias, saudades e histórias que nos marcaram, marcam e marcarão.
Assim, e porque alguns desses momentos devem ser partilhados com a Família, vamos falar de algumas coisas bem intemporais. Todos buscamos, dia após dia, ano após ano, uma vida cheia de bons momentos. Buscamos a alegria, os prazeres e o conforto. Ou seja, as coisas boas da vida, que passa por ter perto ou presente quem se gosta, cuida ou se preocupa connosco.
O meu baú da infância é como uma arca de Noé, está lá tudo o que fomos, Miramar (a Casa), Porto/Foz (Boavista-Brotero-Tenis), Matosinhos (Avó Lícia, Tio Mário e Quitolas), o que somos, mesmo aquilo que não conseguimos lembrar ou que inventamos como verdadeiro. Este baú de infância é um dos mais produtivos da existência e um autor que se preze, segundo certos psicólogos teve, pelo menos, um trauma na sua infância. Porque não descortino esse trauma, não serei verdadeiramente um autor digno desse nome.
Em Miramar, na nossa Casa FO, havia sempre muita gente, de verão e inverno, especialmente aos fins-de-semana.
Nesses dias, ninguém se sentia sozinho, apesar das crises de mau génio que ia havendo. Seria pesado e tortuoso o silêncio lá de Casa, sem as discussões dos mais crescidos entre si ou com os mais novos. Porque nós, como crianças saudáveis que fomos, não éramos certinhos de todo. Há uma pessoa que desses tempos recordo, com muito amor e saudade, a Carminda, que ajudou a criar os 8 filhos dos Zicos e alguns filhos dos filhos dos Zicos.
A Carminda já cá não está, deixou-nos há uns anos, doente e velhinha, depois de ter vivido e trabalhado connosco, cerca de 50 anos. Não sabia ler nem escrever, os seus pais eram pobres, tinham vários filhos, e por isso não puderam mandá-la para a escola, mas, com a prática e o tempo aprendeu as horas, a conhecer o dinheiro e a contar histórias emocionantes, para nós comermos a sopa, o bacalhau dourado ou a farinha de pau, quando os Zicos não estavam.
O senhor tem bilhete? Se eu tenho colete?
Era meiga, esperta e gostava de nós, como se fossemos filhos. Aliás, éramos a sua família.
Quando normalmente de quinze em quinze dias íamos os cinco de Alcobaça a Miramar, a Raquel que era muito bibinha com os seus caracóis muito fechadinhos com eram os da Teresinha, a Paula, a muito bonitinha, senhora das dores, e o Miguel, o nosso menino jesus delico-doce, ela ficava sobre brasas para preparar o almoço, o jantar, os iogurtes, comprar os 100 pães, é verdade !!!, e tudo o mais necessário, para que nada faltasse. Na sua alegria, chamava-nos, ingenuamente, a Sagrada Família.
Quando era mais nova, cozinhava muito bem. Recordo, o bacalhau dourado, à Gomes de Sá (do senhor sá), à espanhola ou em filetes, os rojões à moda do Minho com cominhos, as viradinhas ou as bolinhas de farinha de pau. Em doces, porém, não era muito forte. Ainda sinto o cheiro e os paladares desses pratos.
O Rodrigo, tentou ensiná-la a ler e a escrever !!! Para isso, arranjou-lhe um caderno com linhas, onde passava os deveres, como se fosse na escolinha. Claro que ela nunca aprendeu as letras. A Carminda não tinha cabeça, nem idade para isso. Éramos nós que lhe escrevíamos as cartas para a terra, as quais começavam sempre da mesma maneira: Espero que esta carta os encontra a todos bem de saúde, que nós por cá estamos bem.
Quando éramos miúdos, recorda a Náná e a Carminda tinha de tomar conta de todos, para nos ter quietos, contava-nos histórias e punha-nos s descascar ervilhas ou favas. A história era sempre a do pai, que tinha ido para Coimbra e comprado um carro por um tostão; não me lembro do enredo, mas sei que era sempre o mesmo e quando ela se enganava nos corrigíamos. A Náná tem toda a razão eram totalmente proibidas alterações à história, ainda que fossem de mero pormenor.
Gostava, que a T. quando for mais crescida, se pudesse lembrar do tempo em que vinha a casa dos Minanos e me ensinava com rigor, mesmo a ralhar se necessário, porque sou distraído e preguiçoso, mas com muito carinho, a fazer contas e a tabuada no quadro preto onde a mãe e tios também escreveram em meninos e sujaram as mãos com giz. A T. e eu, conversamos sobre muitas coisas, novas ou antigas, fazemos difíceis jogos de palavras com pistas, brincamos aos doutores, ou jogávamos ao quem vê primeiro, como antigamente com a Raquel que, no banco de trás do carro, nunca via nada antes dos manos e, perdia sempre.

Na nossa Casa FO, de Miramar, que era grande, havia muitos meninos. Ao todo, os Zicos tiveram 8 filhos !!! Eu era o mais velho, e logo a seguir vinham só meninas, a Náná, Núnú, Clara e Xica.
O Tio Santo, apareceu mais tarde e foi o primeiro a nascer, na Casa. Ficou com o alcunha de Santo por ser muito bonzinho, como alías ainda se conserva. Depois dele, nasceram lá a Biquica e a Inês. Todos os outros até à Xica, tinham nascido na Avenida da Boavista/Freguesia de Cedofeita, no Porto.
Quando o Nuno era pequenino, recorda sem maldade e a rir a Náná, e nós tínhamos que ir no comboio para a escola na Aguda (da D. Dorinda e do Sr. Gregório), eu fazia o Nuno levantar-se, vestia-o, punha-lhe um lacinho vermelho, e obrigava-o a ir connosco para o mostrar na rua, depois voltava para Casa com a Carminda que nos ia levar.
A Freguesia de Cedofeita, é onde também nasceram a Raquel, Paula, Miguel, a T. e o Diogo (DODO).
Como ia dizendo, a Zica ia ter os filhos a casa da Mãe, a Avó Ferreira, no chamado quarto azul, que era o seu, do tempo de solteira. Os quartos, em casa da Avó Ferreira, eram conhecidos pelas cores do papel da parede.
Nesse tempo, já lá vão muitos anos, as crianças nasciam normalmente em casa como nós, só raramente na maternidade.
Deste tempo, há cerca de 50 anos !!!, a Náná recorda amavelmente que éramos muito amigos e apesar das rixas entre irmãos, que aliás é próprio, se não, não seríamos irmãos.

FLEMING DE OLIVEIRA