segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ALCOBACENSES NA REVOLUÇÃO (PREC)-1975




-LEIRIA
-Zé Póvoa
-Rio Maior (sempre)
-V.N. de Famalicão
-O dinheiro de plástico







Sobre os incidentes de Leiria, Óscar Santos, hoje em dia (2010) Presidente da Junta de Freguesia dos Montes, em segundo bom mandato, grande e interessante contador de histórias, muito respeitador da memória do pai e seus companheiros, recorda que há 35 anos, normalmente, as notícias urgentes e importantes chegavam via telefone para a casa do Firmino Franco ou do Café Catarino.
Dessa vez, elas vinham do PPD, de Leiria, num toca a reunir para o assalto à sede do PC.
José Acácio dos Santos, mais conhecido como Zé Póvoa, homem digno e muito respeitado, desaparecido prematuramente, militante do PPD da primeira hora, que nunca deixava de responder a um bom apelo, reuniu dois ou três fiéis companheiros, desta vez sem o filho que muitas vezes o acompanhava, partiram de imediato rumo a Leiria. Ao chegarem ao largo fronteiro à Rodoviária, encontraram algumas centenas de populares que, sem desfalecer ou perder o ritmo, se animavam e gritavam palavras de ordem. A concentração durava há várias horas, sem indiciar desfecho, já que a sede do PC se encontrava guardada por militares que ripostavam com tiros para o ar, cada vez que alguém tentava atravessar a estreita ponte que ligava as duas margens. As horas iam passando, a noite chegava e tornava-se cada vez mais claro que naquele dia as coisas não teriam qualquer desfecho, pelo que alguns manifestantes começavam a desmotivar e a desmobilizar.
A alguns metros do meu pai, um jovem de 18 ou 20 anos gritou que se não conseguimos atacar o PC vamos ao MDP. A maioria das pessoas, nem sabiam onde se situava a sede do MDP e olhavam uns para os outros, como que a perguntar o que fazemos.
Mas os presentes não queriam, melhor dizendo, não podiam, recusar esta fortíssima sugestão e apelo. Entretanto, o mesmo rapaz voltou a lançar a dita palavra de ordem e, juntamente com outro colega, também bastante jovem começaram a correr, dirigindo-se para a rua lateral à Sé.
José Acácio dos Santos sem saber para onde ia, começou a correr e juntamente, com uma ou duas dezenas de populares, encetaram a corrida atrás dos jovens. Pouco a pouco, todos os manifestantes se aperceberam do que estava a acontecer e seguiram-nos. A sede do MDP situava-se no final da rua, num primeiro andar de varandas baixas. Os dois jovens da frente lançaram-se em voo, e agarrando-se às grades da varanda treparam, arrombando a porta. Zé Acácio apercebeu-se que havia iluminação dentro da sede e passados alguns segundos os dois rapazes saíram em voo da varanda e caíram com aparato no chão. Os que assistiam, julgaram, inicialmente, que eles tinham sido agredidos e mandados pela varanda por elementos que se encontravam dentro do edifício. Mais tarde, perceberam que estavam armados com um enxame de abelhas no interior da casa e que a luz estava acesa para poderem actuar. Entretanto, a tropa destacada para defender a sede do PC, ao constatar o que estava a ocorrer, deu a volta pela rua que dá acesso ao Castelo e desceu pela calçada até ao Largo da Sé, parando expectante ao lado dos manifestantes.
O oficial que comandava o grupo, à medida que vinha a descer disparava rajadas de tiros para o ar, na tentativa de se acalmar a si próprio e amedrontar a multidão, o que de facto conseguiu, pois as balas batiam no telhado e na parede da casa em frente, fazendo cair pedaços de telha em cima das pessoas. Nessa altura, um homem munido de uma máquina fotográfica, talvez jornalista estrangeiro, destacou-se da multidão, posicionou-se junto à dita casa, de frente para as tropas, tentando obter em exclusivo fotografias espectaculares. O oficial continuava a disparar descontroladamente rajadas de tiros que atingiam a parede e o telhado da casa. O fotógrafo foi atingido na cabeça, caindo de imediato morto, enquanto o sangue e os miolos escorriam pela parede.
Terá sido acidente? A José Acácio dos Santos custou a acreditar. Óscar Santos é da mesma opinião. As pessoas que estavam à frente começaram a recuar, forçando o grupo a comprimir e andar para trás. Zé Acácio encontrava-se no grupo da frente e contou que a força era tanta, que as pessoas eram arrastadas quase sem tocar com os pés no chão e nesse movimento alguém lhe pisou o sapato que ele puxou com a ponta do pé, até conseguir atingir o vão duma porta que lhe proporcionou abrigo, permitindo-lhe voltar a calçá-lo e seguir caminho. A rua era pequena para tanta gente e aqueles que tentavam empurrar para trás, eram não obstante forçados a avançar. Decorreu algum tempo, até que alguém conseguiu novamente trepar para a varanda do MDP/CDE, entrar e abrir a porta do rés-do-chão que lhe dava acesso. Deste modo, alguns manifestantes começaram a lançar papéis e pequenos móveis para meio da praça, com grande entusiasmo, vivas e palmas. O fogo foi ateado, o material continuou a voar pela janela. E Zé Acácio concluiu que os militares assistiram, não voltaram a disparar e desmobilizaram. Estes militares não estavam, nem podiam estar, ao mesmo tempo com o MFA e com o Povo. Eram Povo, em primeiro lugar.

Fleming de Oliveira, deslocou-se nesse dia pela primeira e única vez para assistir a uma sessão da tarde da Assembleia Constituinte e reunir com Gonçalves Sapinho e dirigentes do PPD. Chegou antes das três e entrou em direcção às instalações do grupo parlamentar, onde esteve à conversa com Costa Andrade. Acontece, porém, que a sessão foi suspensa por cerca de meia hora, devido a ameaça de um engenho explosivo, que depois de aturadas buscas não se encontrou, mas criou alguma excitação, que persistiu mesmo depois de reiniciado o plenário. Sapinho, pelo menos pareceu, imperturbável.

Em Famalicão, arderam toda a noite fogueiras ateadas para queimar os livros, papéis e móveis do MDP/CDE e PC. Durante a noite automóveis e motorizadas pertencentes a elementos de esquerda, foram vandalizados, bem como assaltados escritórios e estabelecimentos de pessoas ligadas àqueles partidos.

E em Rio Maior onde, Aqui começa Portugal?
Com as barricadas de Rio Maior, tratores, pedras, pneus velhos, tudo o que vinha à mão, pretendeu-se impedir que operários da cintura industrial de Lisboa, o COPCON ou ocupas da Reforma Agrária, avançassem em direcção ao norte do País, como retaliação para os ataques que o PC e agrupamentos satélites ou de esquerda, estavam a sofrer sem piedade. O ambiente que nelas se vivia era de excitação, camaradagem e solidariedade. Nunca faltava o frango assado, as febras, uns pastéis de bacalhau, um casqueiro, uma navalha de bolso e um garrafão de tinto do produtor. E alguma música.
Aí estiveram, os indefectíveis dos Montes, mais Joaquim Evangelista, de Alcobaça e Luís Graça, da Ataíja, que se fez a pulso, ainda salazarista, homem bom, solidário, respeitado e que colaborava com o PPD, que conta que a determinada altura, foi localizado um bem conhecido alentejano, que vinha em apoio da Reforma Agrária, do slogan A Terra Para Quem a Trabalha, Abaixo os Latifundiários e contra os empedernidos reaccionários que defendiam o seu património, como os da Benedita até Ataíja, passando pelo Vimeiro e Alfeizerão, e entendiam que ali começava, ou acabava, Portugal. Este sujeito estava referenciado, pelo facto de antes do 25 de Abril ter vendido uma propriedade e aproveitando-se da maré das ocupações, ter de novo voltado a quere-la, agora pela força. Quando o localizaram, percebeu-se que de imediato iriam surgir problemas, pois os populares ao aproximarem-se começaram a mimoseá-lo com nomes que, não apenas fariam corar, mas ofendiam a mãe o pai ou a mulher e a ameaçá-lo fisicamente. A GNR ainda interveio, para o defender, mas o povo chocado com uma presença que reputava de provocatória, tentava atingi-lo, o que se conseguiu, causando-lhe ferimentos, mais ou menos dolorosos. A agressão só terminou, quando a GNR compadecida do alentejano, pediu para que fosse deixado em paz, o que aconteceu no meio de enorme assuada, sem mais ser visto por ali, ao que se diz até hoje.
Francisco Catarino, que sempre que podia ia às movimentações, conta que quando foi com os companheiros dos Montes apoiar o movimento de Rio Maior, teve de deixar o carro na Ribafria, seguindo o restante percurso a pé. Ao chegarem perto de Rio Maior, encontraram dois soldados, ali destacados, pertencentes ao Quartel de Caldas da Rainha, que lhes disseram para não seguir por determinada rua, pois a sede do PC estava a ser atacada e os comunas já estavam a queimar dinheiro de plástico. Catarino nunca tinha ouvido falar em dinheiro de plástico, não sabia o que era, nem o que aquele conselho significava. Seja como for, sem mesmo perceber nada do assunto, criou a partir daí uma profunda e inexplicada animosidade ao dinheiro de plástico, pelo que quando tempos depois começaram a aparecer os cartões, nunca se serviu deles. O seu estabelecimento passou a ter de usar cartões, mas quem o faz é a filha.
Francisco Catarino nunca utilizou nenhum, os seus negócios são, apenas, com bom dinheiro vivo.


Fleming de Oliveira

ALCOBACENSES NA REVOLUÇÃO (PREC)-1975

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-Arsenal de armas em Bouças-Alpedriz
-Um Franco nada exagerado
-Incidentes em Amor, Batalha, Sever do Vouga, Águeda,
Évora, Póvoa do Lanhoso, Ponte de Lima, Braga, Lamego,
Viseu, Ponta Delgada, Angra do Heroismo e outros mais
-Bancários do BPA (Lisboa) manifestam-se muito
democraticamente
Para apoiar a luta dos batalhenses organizou-se, no dia 17, um grupo nos Montes-ALcobaça, composto, entre outros, pelos primos e companheiros Américo e António Malhó, José Firmino Franco, bem como Jorge Mateus, em cujo carro se deslocaram.
Ao chegarem à Batalha, e antes da entrada na vila ouviram dizer que os comunas da Marinha Grande já vinham a caminho, pelo que decidiram voltar a casa, para buscar as caçadeiras ou o material que houvesse. No regresso à Batalha, ao passarem no Juncal, já se dizia que à entrada da Batalha havia brigadas populares a revistar os carros. Por isso, o António Malhó disse que ia fazer uma mija, vou ali e já venho e, resolveu enterrar num pomar junto à estrada, a pistola, aliás ilegal, que possuía e tinha ido buscar.
Chegara pelo lado de S. Jorge, e antes mesmo de entrarem na vila começaram a ouvir tiros, pelo que o Jorge Mateus parou o carro, querendo estacionar, para fazer o resto a pé, já que estrada estava barricada por populares armados de caçadeiras. O José Firmino Franco disse para o Jorge Mateus segue até lá para ver se nos deixam passar. Ao aproximarem-se, reconheceram um dos populares que estava na barricada de caçadeira em punho com os canos virados para o solo. Olha quem está ali, disseram uns para os outros.
Ao chegarem junto desse popular, o Franco sacou da pistola que trazia e da janela do carro apontou-lha, tentando que o gesto não desse muito nas vistas e disse oh pá, deixa passar a malta e vê lá se tens juizinho na tola, não penses levantar a caçadeira senão já sabes o que acontece, e não queiras experimentar, digo-te eu que sei. Este defensor da revolução, que por acaso era dos Montes, mas pouco valente, gritou para os seus camaradas deixem passar estes, que é malta fixe.
Em seguida foram até ao Mosteiro sem problemas de maior com o carro e o Jorge que o conduzia, começou às voltas no adro, onde apenas se encontravam alguns militares armados e uns poucos civis dispersos. O Américo enervou-se, pelo que disse ao Jorge Mateus para parar imediatamente, pois tal movimentação podia entender-se como provocação e criar-se ali um incidente estúpido e desnecessário. Quando saírem do carro, depararam um grupo de militares, mais uma vez e como ia sendo corrente nos demais sítios onde tinham estado com ar jovem, indeciso e desmotivado, pelo que o José Firmino se dirigiu a um e perguntou como ar meio sério, meio zangado, se sabia de eram são as armas que traziam.
Sem receber resposta, acrescentou já mais à vontade e confiante, meu grande cabrão, quando saíres daqui vais bater com os cornos numa lage, quando fores à procura de emprego.
Américo Malhó, mais tarde disse que José Franco tinha dito (…) daqui vais bater com os cornos num chaparro (…).
Seja como for, sem ninguém saber bem o que isto significava, se é que significava alguma coisa, a verdade é que os militares nada fizeram e as coisas permaneceram calmas.
Para Américo Malhó, José Firmino revelou coragem pois se algo corresse mal não tínhamos ninguém que nos defendesse. Nem o meu rico Stº. António ou Santa Marta
Para quem o conhece de perto, José Firmino Franco parece um inato contestatário, sem receio de dizer verdades, apreciador de uma boa discussão e incapaz de guardar rancores. O próprio admite que tem noção do ridículo, que por vezes se admira de atitudes que tomou, mas, como seu pai, raramente delas se arrepende.
Em seguida, encaminharam-se para a saída de Fátima e estacionaram num pequeno largo junto da Adega Cooperativa. Estava a anoitecer e, de tempos a tempos, ouviam-se algumas rajadas de metralhadora, disparadas para o ar. O Jorge Mateus deu uma segunda chave do carro ao Franco, nunca fosse o diabo tece-las. Separaram-se em dois grupos, o Jorge Mateus e o Américo Malhó, para um lado o Franco e o António Malhó para outro, por que corria que a Estalagem tinha sido ocupada e o dono, Engº Monteiro, atirado pela janela. Quando se aproximaram, encontraram um furriel de fartas barba e cabeleira, que exprimia a sua alegria disparando a sua FBP, como se se tratasse de uma festa de casamento talibã. Franco aproximou-se dele e perguntou-lhe quando acaba a festa e o barulho que estás a fazer. O furriel, em euforia incontida, acabou de despejar o carregador e respondeu olha, acabaram! Foi o que Franco gostou de ouvir, pelo que encostou-lhe a sua pistola à barriga e com ar muito meigo e voz suave, ordenou que lhe entregasse tudo, a Walter incluída, e não pias, senão limpo-te o sebo, estás a ouvir? Ficas aqui quietinho encostado à esquina, não sais daqui, senão arrefeço-te e entrego-te esticado ao padre.
O militar, perdeu a genica e a confiança, passou-lhe as duas armas para as mãos e nem piou.
Esconderam as armas debaixo da roupa, embora fizessem um certo e indisfarçável volume e avançaram, até avistarem dois soldados perto dum prédio em construção. A noite já tinha caído. Depois de verificarem que ninguém os estava a ver, abordaram os dois soldados, o José Firmino Franco encostou a pistola às costas de um e sacou a ambos as metralhadoras. De seguida, para que estes não criassem problemas, obrigou-os a despir a farda, fazendo-lhes adequadas recomendações, para que não fizessem barulho. Como quem tem cu tem medo, estes militares, ali ficaram, sem reagir. Perante a situação, o António Malhó mal conseguiu conter o riso, pois nem queria acreditar no que estava a acontecer. Dirigiram-se rapidamente para o automóvel para guardar as armas e esconderam-se, para não abusarem da sorte. Entretanto, começaram a ouvir gritos, vindos do centro da vila, de que andava alguém a roubar armas. Quem piara? Nessa altura, o Jorge Mateus e o Américo Malhó, apercebendo-se que as coisas podiam aquecer, regressaram rapidamente ao automóvel. Sem mais, saíram todos da Batalha, na direcção de Fátima e voltaram para Montes, via Porto de Mós. Chegados a Montes, param junto ao antigo café do Firmino Franco (Pai), onde esconderam as armas. O Jorge Mateus e o Américo Malhó não sabiam que traziam armas no carro e só, muito mais tarde, o José Franco lhes contou a história, que não acaba aqui.
Após os incidentes relacionados com o assalto à sede do PC em Alcobaça, foram presos vários alcobacenses, levados para Leiria, os quais depois foram transferidos para Caxias, como oportunamente contaremos. Quando chegaram a Lisboa, apurou-se que não havia nenhum documento que formalizasse a detenção (não havia mandados ou estes eram em branco) ou mesmo a libertação. Para tentar resolver a situação, organizou-se um grupo de pessoas de vários pontos do Concelho de Alcobaça, a fim de se deslocarem a Leiria. Foram várias pessoas, entre as quais, os Franco (pai e filho), pelos Montes, o Joaquim Zeferino Lucas, por Alcobaça e o António Barbosa Ribeiro, por Cós. O José Franco foi, com o pai Firmino e Joaquim Zeferino Lucas com o António Barbosa no Ford Escort branco deste, ainda de matrícula francesa, pois regressara há pouco de França, onde estivera a trabalhar. Chegados ao quartel pediram para falar com o responsável, pelo que veio falar com eles um tal Tenente O (…), que tinha metido o chico, e que o José Firmino conhecia do tempo da recruta, a quem disse sei onde estão as armas que foram roubadas na Batalha, que serão entregues, quando os documentos dos alcobacenses forem para Lisboa. De acordo? Trocas?
O Ten. O (…), que era tido por um grande fascista antes do 25 de Abril, virara para o outro lado da barricada e agora o próprio comandante da unidade até o receava. O Barbosa batia as palmas, boa Franco, dá-lhe. Mais tarde António Barbosa, que nunca se meteu em políticas, mas dizia não pactuar com comunas que lhe fazem nervoso, confessava que tinha gostado tanto daquele momento, que era capaz de estar ali o dia todo a gozar e a bater palmas.
O Ten. O (…) prometeu-lhes que os papéis seriam enviados ainda nesse dia para Lisboa (mas ao que consta não havia nenhuns), pelo que o José Firmino Franco foi na Ford aos Montes para levar a Leiria, as armas apreendidas na Batalha, embrulhadas num saco de serapilheira. Ao chegar à porta de armas, chamou o soldado, atirou com o saco para o chão e com as armas espalhadas, disse-lhe que ali estava uma prenda para que Ten. O (…) e o Comandante gozassem bem.

Na Batalha, centenas de pessoas que se juntaram na EN 1, obrigaram a parar a carrinha de distribuição do jornal República, não deixando a mesma prosseguir, enquanto não lermos o jornal.
Como o jornal noticiava que os incidentes tinham sido provocados por forças reaccionárias, foram destruídos, deitados à rua e queimados todos os exemplares, pelo que o carro depois seguiu, sem nenhum aproveitável.
Com carrinha de A Capital também houve problemas. Embora tendo seguido um percurso diferente do habitual, o Manuel Antunes, seu condutor, foi localizado e interceptado por populares no Alqueidão, conduzido até à Batalha, onde os jornais foram destruídos. Só de manhã foi restabelecida a ordem. Ao mesmo tempo, umas centenas de pessoas, assaltaram e destruíram, em Porto de Mós, a sede da contestada Associação 1º de Maio.
A 29 de Julho, foi atacada e destruída a sede do MDP/CDE, em Sever do Vouga, houve um assalto às instalações dos Sindicatos dos Metalúrgicos, em Águeda, bem como à Associação Recreativa Cultural de Amor, nos arredores de Leiria.
A 30 de Julho, durante a madrugada, tropas das Regiões Militares do Norte e Centro tentaram, sem sucesso, que uma multidão de cerca de 3.000 pessoas, incendiada com palavras de ordem como vamos dar cabo dos comunas, destruísse sucessivamente as sedes do OCMLP, PC e MES.
No mesmo dia, em Évora, a casa do teorizador e promotor da Reforma Agrária, o Deputado Constituinte Dinis Miranda, do PC, foi destruída numa explosão que causou vários feridos, seus familiares. Este alegadamente nunca percebeu a razão do evento, que não merecia, nem se justificava…Ai não!
Nos assaltos as sedes do PCP e MDP/CDE, em Póvoa do Lanhoso, a 1 de Agosto, encontravam-se dois conhecidos militantes do PS, o que este partido negou sem convicção, pois era verdade e estava documentado por fotografias. Esses socialistas, ideologicamente pouco ou nada tinham de comum com o PS, antes eram pessoas perfeitamente identificados com o anterior Regime. Um deles até tinha sido Presidente da uma Junta de Freguesia e o outro membro da União Nacional.
No lugar de Bouças, Alpedriz, em meados de Agosto de 1975, correu a notícia que, numa casa abandonada, encontrava-se escondido um arsenal de armas desviadas, pelo que pessoal do Andam, decidiu confirmar in loco se era mesmo verdade, escondendo-se por perto e esperando para ver. A certa altura da tarde, chegou uma camioneta, que começou a carregar bidões, que iam sendo retirados da casa. Quando terminou o serviço, deixaram-na partir, mas avisaram o pessoal amigo de Rio Maior, que ia a caminho um carregamento de talvez de armas, pelo que a camioneta deveria ser interceptada, o que aliás aconteceu. Não constou, porém, que levasse armas. Mas os bidões eram de quê? interroga-se Américo Malhó, que até hoje nunca soube a resposta, pelo que continua intrigado.
A 11 de Agosto, em Lamego e Braga realizaram-se manifestações, muito participadas, de apoio à Igreja Católica.
Em Braga, ocorreram alguns dos mais graves incidentes do Verão Quente, de que resultaram cerca de 30 feridos, 3 dos quais com gravidade, entre eles dois jornalistas estrangeiros, na sequência de uma manifestação com cerca de 2.000 de pessoas, de apoio ao Episcopado, na pessoa de D. Francisco Maria da Silva.
Depois de terminada a manifestação, começaram os confrontos, quando um grupo de manifestantes passou em frente à sede do PC. Após uma troca exaltada de palavras com militantes do PC, que se encontravam à janela, um dos manifestantes subiu à varanda, arriou a bandeira do partido, que no chão foi rasgada, pisada e queimada, no meio de palmas, urras e vivas a Portugal, Abaixo o PC e Álvaro Cunhal para a Sibéria. Quando a porta de entrada foi rebentada, do interior foi feito fogo de caçadeira sobre os manifestantes. Os incidentes só terminaram com a intervenção de uma força militar, que lançou gases lacrimogéneos e fez disparos de metralhadora para o ar. Foram ainda destruídas nesse dia, em Braga, as sedes do MDP/CDE, da Intersindical e o Mercado do Povo.
O Bispo de Braga, horas antes, dissera aos fiéis que o problema português é este: Do lado uma minoria, contra a vontade do povo, está a impor à nação o comunismo, onde não tem lugar a Pátria independente, nem a religião. Do outro, uma esmagadora maioria a dizer não a tal comunismo.
No assalto à sede do PC, em Viseu, cujo recheio foi como habitualmente atirado pelas janelas para a rua, queimado em fogueiras, no meio de grande e histérica algazarra, registou-se um morto, doze feridos, quatro dois quais em estado grave e levados para o hospital, na sequência de disparos, cuja origem nunca foi apurada. Foram também assaltadas as sedes do MDP, FSP, MES, UDP e PRP, sindicatos e dois estabelecimentos comerciais, propriedade de elementos afectos ao PC, tidos por provocadores.
A 17 de Agosto, a sede do PC foi atacada em Ponte de Lima, onde ocorreu a morte de um militante do Partido e ficaram feridos vários populares. Os primeiros disparos de caçadeira, partiram de militantes comunistas, cercados por mais de 5.000 pessoas, em fúria incontida.
A 20 de Agosto foram assaltadas as sedes do PC, MDP/CDE e MES em Ponta Delgada, por um grupo avaliado em mais de mil facínoras e energúmenos, numa expressão da comunicação social do continente. Durante a evacuação da sede do PC, as outras tinham entretanto sido rapidamente auto-abandonadas, ficaram feridos alguns militantes, bem como soldados, que as tentaram proteger.
Nesse dia, no Porto, foi assaltada a sede do MDP/CDE e a da União dos Sindicatos tendo o mobiliário e documentos sido atirados à rua e destruídos perante a satisfação dos presentes.
No dia anterior, em Angra do Heroísmo, foram destruídas as sedes do PC, MDP/CDE e MES, bem como as instalações do jornal O Trabalhador, de que resultaram inúmeros feridos de gravidade diversa. Ao mesmo tempo, lavradores de Ilha Terceira, aprovaram na cooperativa leiteira moções em plenário, exigindo a deportação para o continente de vários militantes do PC e seus satélites, incluindo um padre progressista e alguns militares, entre os quais seis oficiais do MFA, cuja identificação não nos foi possível confirmar.
A 26, ocorreram assaltos às sedes do PC e MDP/CDE, em Leiria, de que resultou um morto a tiro e muitos feridos, como melhor se verá a diante. Os militantes que lá se encontravam sitiados/refugiados, foram evacuados pelas Forças Armadas. As sedes da LCI, MES E FEC foram saqueadas e destruídas. Rico mobiliário, quadros incluídos, documentos e livros dos escritórios dos advogados José Henriques Vareda e Guarda Ribeiro, ligados ao MDP/CDE, foram queimados e lançados à rua, com vivas e palmas dos populares, que também cantaram o Hino Nacional.

Por essa altura, um grupo de bancários do Banco Português do Atlântico, de Lisboa, num proclamado plenário representativo (embora pouco) da instituição, aprovou uma declaração de solidariedade com os bancários progressistas de Rio Maior, Ponta Delgada, Lourinhã e Minde, no sentido da sua imediata reintegração, na instituição. Em Alcobaça foi-lhe dado apoio, superiormente orientado por um macambúzio Amílcar Salgueiro (MCP/CDE e Presidente da CA da Junta de Freguesia de Alcobaça).

FLEMING DE OLIVEIRA


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ALCOBAÇA NAS BARRICADAS-1975



-Rio Maior. Aqui começa Portugal
-As alianças do dr. Cunhal
-Leiria
-Incidente (esfaqueamento mortal) em Caldas da Rainha por razões político-partidárias
-Alcobaça PRESENTE!

Em comunicado distribuído em Alcobaça, o PPD convidava os seus militantes e simpatizantes a comparecerem e a incorporarem-se, ao princípio da tarde de 21 de Julho de 1975, no funeral do comerciante António Ramalho Junior, que morreu em consequência de ferimentos contraídos durante uma discussão em que se envolveu por razões partidárias. O PPD de Alcobaça fez-se representar por uma delegação composta por Fleming de Oliveira, Silva Carvalho, Firmino Franco e Carvalho Lino, entre outros, tendo apresentado condolências aos companheiros da Concelhia do PPD de Caldas da Rainha.
O Ramalho, incitava a população de Caldas da Rainha a tomar de assalto a sede do PC, quando Mário Fernandes de Sousa, também comerciante, após uma breve troca de palavras, o esfaqueou no peito, com uma faca de ponta e mola. O homicida era militante do PC e a vítima adepto do PPD.

Nesse mesmo dia, cerca de 10.000 pessoas assistiram em Leiria a um comício do PPD, enquanto que a sede do PC era guardada por militares armados. Após a intervenção de vários oradores, entre os quais Ferreira Junior e Oliveira Dias, que criticaram as opções do MFA, sob o slogan socialismo sim, ditadura não, isto é do povo não é de Moscovo, Cunhal para a Sibéria, foi aprovada uma moção para ser entregue ao MFA, na qual o PPD exigia a constituição de um governo que garanta o exercício das liberdades e da democracia, a imediata remodelação dos meios de informação, transformando-os em órgãos nacionais, isentos e imparciais, medidas de respeito e dignificação da Assembleia Constituinte, a destituição das Câmaras e Juntas arbitrariamente constituídas e a instauração de novos corpos administrativos em eleições que constituam a vontade do povo.

Na tarde de 13 de Julho, cerca de 200 pessoas, a mando de caciques locais, assaltaram as sedes do PC e FSP, de Rio Maior, de onde resultaram cinco feridos, todos do PC.
Quando souberam que estavam a decorrer estes acontecimentos, Américo Malhó e Jorge Mateus, foram dos Montes ver o que se passava. Sempre que possível, não perdiam uma oportunidade, até diziam que já estavam a ganhar-lhe o gosto e podiam dizer, com legitimidade, que tinham cicatrizes feitas nas trincheiras partidárias.
Antes de chegarem à entrada da vila, depararam com um grupo de soldados um dos quais os mandou parar, sair do carro e abrir a mala para ver o que continha. Américo Malhó disse que a não abria, tanto mais que o carro que conduzia, um Peugeot, não era seu, mas do amigo e conterrâneo Jorge Mateus. O soldado, com ar irado e ameaçador, disse-lhes que ou a abriam ou lhes dava um tiro. Como Américo Malhó e o Jorge Mateus continuavam a nada fazer, diziam para o militar, abre-a tu se quiseres, o soldado tentou abrir a mala, para o que colocou a arma ao ombro. Américo Malhó, saído à pouco da P.M., com toda a facilidade, sacou-a e disse ao soldado então diz lá agora, quem é que dá um tiro?
Depois de lhe terem sacado a arma, meteram no carro o pobre diabo que, mudo e calado, nem protestava, e rumaram em direcção ao centro de Rio Maior, aonde se propunham soltá-lo, com uma palmada no traseiro, sem todavia lhe restituírem a arma. Porém, quando entraram num café, viram outros militares armados, a cavaquear amenamente e tendo reconhecido um, que era dos Montes, o nosso conhecido 70, foi a este que o entregaram, com a arma e algum sarcasmo.

Zé Póvoa, Hermínio Fortes, António Malhó e Firmino Franco, queriam estar na primeira linha dos acontecimentos, pelo que també foram para Rio Maior. Ao chegarem perto de Rio Maior, pela EN 1, por alturas do Alto da Serra, já o trânsito estava condicionado, pelo que tiveram que deixar a viatura antes do cruzamento para Caldas da Rainha. Fizeram o restante caminho a pé até à entrada norte da Vila, onde começava a concentração de populares. O movimento ainda estava algo desorganizado, era apenas uma manifestação da CAP, contra a ocupação e controlo do Grémio da Lavoura, por elementos afectos ao PC. Os manifestantes queriam cortar o acesso de alimentos a Lisboa, ocupavam a via pública e, com determinação, não permitiam a passagem a qualquer viatura. Foi o início do famoso corte de estrada de Rio Maior que provocou a divisão do país em dois, com o forte slogan Aqui começa Portugal, ou seja, dali para baixo não era reconhecido como solo português, mas sim, terra ocupada por estranhos.
Com o passar do tempo os manifestantes tornaram-se mais organizados e objetivos, tomando força através da colocação de máquinas e viaturas pesadas, a obstruir a estrada.
Os montenses, que estiveram a dar o apoio, regressaram satisfeitos ao final do dia a casa, e para se prepararem para voltar à noite às barricadas, pois estavam cansados.

Dois dias depois, grupos de pessoas, onde se encontravam bastantes beneditenses conhecidos de José Vinagre que ficara na Benedita a trabalhar no seu estabelecimento comercial, rasgaram e queimaram maços de jornais transportados pelas carrinhas do Diário de Lisboa, destinados ao centro e norte, como desagravo pela forma tendenciosa como os vespertinos lisboetas DP e DL, relataram os assaltos às sedes do PC e FSP, por hábeis e perniciosos elementos agitadores contra revolucionários, na linha de um comunicado do COPCON.
O Povo de Rio Maior também emitiu um comunicado em que pretendeu justificar aquelas ações pois foi alvo de humilhante e insidiosa adjectivação, através da Rádio, TV e da Imprensa.
Os montenses passaram várias noites de vigília em Rio Maior, engrossando as fileiras dos resistentes. Ali, juntavam-se grupos à volta de fogueiras, onde não faltava pão, febras ou chouriço, sardinhas e vinho, trazidos por gente solidária e repartir comunitariamente. De vigília, com as armas por perto, passavam a noite entre histórias e anedotas. Também havia acordeão ou viola. Entre os resistentes encontravam-se pessoas que, não podendo passar, se juntavam a eles para conviverem e manifestarem o apoio. José Acácio dos Santos contava que, numa dessas noites, estava um senhor de meia-idade, sentado junto à fogueira, mas nada dizia, triste e de olhar fixo no fogo. Começaram a pensar se ele não pertencia ao outro lado da barricada, pelo facto do seu comportamento ser algo estranho, até que alguém não se conteve e perguntou-lhe o que se passava, se concordava ou não com eles. Ele respondeu, de forma simultaneamente altiva e dolorosa, que vinha do Porto para o Alentejo, onde possuía uma pequena herdade, tendo ficado ali retido. Entretanto, tinha recebido um telefonema da esposa a anunciar-lhe que a sua herdade tinha sido ocupada e que durante a ocupação, a mãe dele tinha morrido, ao ser arrastada à força para fora da sua casa. Era essa a razão da sua profunda tristeza, estava totalmente solidário com o movimento de Rio Maior, mas queria ir para junto da família enlutada.

Em Rio Maior, a Secção do PS, com data de 7 de Novembro de 1975, emitiu um comunicado em que,
(…) Os militantes do PS da Secção de Rio Maior, constituída por operários, camponeses, trabalhadores rurais, na sua esmagadora maioria, dão o seu incondicional apoio às objectivas afirmações do Secretário Geral, Camarada Mário Soares, considerando a sua intervenção no Frente a Frente com o sr. Dr. Álvaro Cunhal, traidor da classe operária, que ostensivamente não vê a realidade portuguesa extremamente válida para a contribuição da resolução da crise política actual, vindo a propósito, lembrar ao PC:
-Que, após o 25 de Abril os comunistas portugueses foram recebidos na sociedade de braços abertos, nomeadamente no caso de Rio Maior.
-Que antes do 13 de Julho de 1975 (incidentes de Rio Maior) os Partidos Políticos aqui implantados viviam um salutar clima de democracia, tendo até, todos, organizado diversas actividades em conjunto, recreativas, culturais e até políticas.
-Que perante uma convocação para um plenário de agricultores, com a assistência do IRA, delegação de Alpiarça, no referido dia 13, em que o PC tomou para si a responsabilidade da organização fazendo convocatórias à socapa e mandando umas circulares entre 6000 agricultores inscritos no então Grémio da Lavoura, para o plenário, o clima político, salutar, estragou-se pois o POVO, que o sr. Dr. Cunhal diz considerar acima de tudo, descobriu as suas manobras.
-Que o PC a nível de Rio Maior, também pretendia ser a VANGUARDA do processo político, e não a vanguarda dos trabalhadores portugueses, tão, dizemos nós, dominado por PC’s.
-Que isto vem reafirmar ou confirmar, a declaração do Camarada Mário Soares, ao dizer que os lugares chaves da vida Portuguesa estavam ou ainda estão, entregues a um só partido.
-Que o PC, na verdade, tinha intenção de se infiltrar em todo o aparelho de Estado e dai contrariar a seu belo prazer a revolução portuguesa, sem se importar de regar os cravos de 25 de Abril com o generoso sangue dos portugueses.
-Que disso é uma prova o assalto às armas, facto que o sr. dr. Cunhal sempre se esquivou a definir a posição do seu partido, no Frente a Frente realizado na T. V.
-Os ódios fomentados em Portugal desde o 25 de Abril, precisamente por o PC não aceitar as regras do jogo, são um índice de que a sociedade portuguesa está em crise moral aliada à crise económica a que o PC não é ilibado de responsabilidades com o seu sistemático incitamento aos honestos trabalhadores portugueses, a ocuparem terras, que, se o PC não sabe devia saber, não têm possibilidades técnicas, de desenvolver.
-Isto é um convite ao suicídio, e não um pacto com os trabalhadores.
-Os trabalhadores militantes do PS em Rio Maior repudiam as afirmações do sr. dr. Cunhal, quando diz que o seu partido tem uma aliança com a direita.
-Por outro lado disse que o PS tinha uma aliança com o MRPP e AOC o que é falso.
Serão estes partidos
de direita?
-O programa do PS, é claro, quando diz que é pela liberdade e respeito por todas as ideologias.
-Será que o sr. dr. Cunhal confunde alianças com respeito pela maneira de pensar dos outros?
-Os trabalhadores militantes do PS em Rio Maior repudiam a auto-nomeação de um Partido Político como único defensor da classe operária.
-Os trabalhadores militantes do PS em Rio Maior repudiam a discriminação feita pelo sr. dr. Cunhal ao Povo Português, e aqui também incluem os militares, na sua classificação de reaccionários e progressistas.
-Os trabalhadores militantes do PS em Rio Maior solidarizam-se com o secretário-geral do PS, camarada Mário Soares, na defesa intransigente do socialismo em liberdade e na sua determinação em querer, acima de tudo, salvar este país da situação em que presentemente se encontra.(…)



FLEMING DE OLIVEIRA

UMA CARTA APÓCRIFA PARA A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE “EX-MILITANTE” DO MDP/CDE




Basílio Martins, foi protagonista de um incidente porventura lamentável, mas sem consequências.
Em 12 de Setembro de 1975, o Diário da Assembleia Constituinte publicou uma carta, lida no Período de Antes da Ordem do Dia, como tendo sido escrita por si:
Basílio José Martins, jornalista da Voz de Alcobaça, ex-militante do MDP/CDE, apoia a Assembleia Constituinte e repudia a conduta demagógica e antipopular dos membros do PCP e MDP/CDE.

Medeiros Ferreira, in História de Portugal, ed. Círculo de Leitores, defende que uma das principais discussões sobre o Regimento da Constituinte teve a ver com a existência ou não, da chamada Hora Prévia, em que se jogou a natureza política da Assembleia.
Isto relacionava-se com a questão das competências políticas gerais da Assembleia, em suma, de se defender como Octávio Pato, que se trata de uma mera Assembleia Constituinte e não um Parlamento, com outros objectivos. Esta carta de Basílio Martins, lida e registada no Período de Antes da Ordem do Dia, insere-se como uma manobra, embora apócrifa, de intervir no momento político. O mesmo Basílio Martins veio expressamente, a refutar a carta tendo solicitado de imediato o desmentido à própria Assembleia e a sua divulgação no jornal O Alcoa. O assunto teve nulo impacto local, apesar de, no dizer do visado, as reacções foram variadas. Uns-de cruz gamada no olhar vitorioso-acreditavam e sorriam satisfeitos; outros-seguros-disseram que já esperavam; outros ainda, achavam muito bem (até começaram a cumprimentar melhor…).


FLEMING DE OLIVEIRA

-MARCELO CAETANO, -HERÓIS DE ÁFRICA, -MONUMENTO AOS COMBATENTES NA BENEDITA



A vinda de Marcelo Caetano à Benedita, no ano de 1973 que referimos com algum detalhe na nossa obra NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS. Alcobaça e Portugal, constituiu um evento muito marcante, de modo que a Junta, entendeu, por bem, colocar um medalhão em bronze com a sua efígie, no largo principal, mandada fazer em Lisboa.
Mudaram-se os tempos e, portanto, as vontades, e em Março de 1975, com discrição, a Junta de Freguesia mandou retirá-lo do local. Durante a campanha para a Assembleia Constituinte, a placa da Rua Heróis do Ultramar, na Benedita, foi suja com tinta preta. Discutido o assunto em Assembleia de Freguesia foi decidido, por maioria, mandar pintá-la e manter o nome da rua.

Manuel Violante, então com 35 anos e já, como hoje, vendedor de calçado, mais conhecido como Gineto (palavra que de acordo com o dicionário corresponde a um animal carnívoro, semelhante à raposa), havia em princípios de Maio de 1975 feito em casa uma matança de porco, tendo solicitado ao amigo, Joaquim Carocho, dono de um talho, que lho desmanchasse. Quando ia levar o animal ao talho, viu dois homens, um com os pés em cima dos ombros do outro, a partir com uma picareta a placa da Rua Heróis do Ultramar, que já tinha sido vandalizada, tempos antes com tinta preta. Incomodado com a situação e a estupidez do ato, pois como muitos outros rapazes de Benedita e da sua geração prestara serviço militar em Angola, reprovou com veemência os indivíduos mas, como estava sozinho e sem ninguém à vista, resolveu ir ao Café do António do Carmo, pedir ajuda, o que não conseguiu, pois os presentes eram apenas uns velhotes, que jogavam a sueca.
Quando regressou ao local, já a pedra se encontrava partida, perante o ar espantado e também incomodado de algumas pessoas que, entretanto, haviam chegado a quem se foram rapidamente juntando muitas mais, dir-se-ia mesmo sem exagero umas centenas. Incapaz de se conter, o Gineto ainda tentou tirar desforço físico de um dos rapazolas, aos quais já se havia juntado um tal Adelino Nicolau, conhecido localmente pelo Manguinhas, que não tendo participado directamente no acto iconoclasta, fora sem dúvida o seu mentor. Mas os presentes supuseram ser este o autor material, pelo que o perseguiram, obrigando-o a refugiar-se no primeiro lugar que encontrou, o Café Talacha, cujo dono nada tinha a ver com o assunto e o repudiava, mas que mesmo assim, viu partida uma montra de vidro com o lançamento de um paralelepípedo. Como os ânimos continuavam cada vez mais exaltados, Luís Nicolau, o pai do Adelino Nicolau, decidiu telefonar para o RI 5, Quartel de Caldas, a pedir proteção para o filho, o que veio de certa forma a acontecer, tendo esse feito deslocar à Benedita, um jeep com uns três ou quatro militares armados, que todavia não precisaram de intervir, apesar de continuarem a chegar ao local cada vez mais pessoas, nomeadamente de Rio Maior.
Nessa noite, realizou-se um concorrido Plenário no Salão Paroquial, onde foi decidido recolocar na rua uma nova placa, a expensas dos vândalos/energúmenos, o que aconteceu no dia 1 de Junho de 1975.
O ambiente na Benedita passou a tornar-se tão difícil para o Adelino Nicolau, que foi viver para Lisboa e, ainda hoje trinta e cinco anos passados, só raramente vem à terra e envergonhadamente de fugida.
De acordo com José Vinagre, estes acontecimentos tiveram, localmente, bastante repercussão, pelo que o 25 de Abril tendo ali colhido de início bastantes adesões, passou a acarretar preocupações e reservas.

Nem sempre com a coerência e oportunidade desejáveis, o certo é que o MFA havia já emitido, a propósito de outra situação, que:

O MFA TUDO FARÁ PARA QUE OS HERÓIS NÃO SEJAM ESQUECIDOS

As Forças Armadas, não obstante se terem oposto à continuação de guerras no Ultramar, sentem-se frontalmente atingidas quando, de qualquer forma são visadas, através daqueles que, no campo da batalha, souberam cumprir o seu dever militar. O MFA vector dinamizador das Forças Armadas, e que com elas se identifica, não renega, não renegará, nem autorizará que sejam renegados os seus heróis do Ultramar. Pelo contrário, tudo fará para que não sejam esquecidos.

A 16 de Maio de 2010, mais de 35 anos passados sobre o fim da Guerra, foi inaugurado na Benedita um monumento ao Combatente do Ultramar (entre 1961 e 1974 foi cerca de um milhão de portugueses os que passaram como combatentes por África), numa cerimónia concorrida, representativa, digna e emocionante, onde este presente o Gen. Altino Pinto de Magalhães.
A conceção da obra de escultura, pelo jovem arquitecto beneditense Renato Franco da Silva, que apresentou à apreciação da Liga dos Combatentes (núcleo de Alcobaça), referia-se à construção de um monumento a edificar no largo do cemitério da Benedita. Aliás, no Concelho de Alcobaça existem outros memoriais, ainda que menos imponentes. Pelo País além, existem mais de cento e trinta.
Renato Franco da Silva, que nasceu quase com o 25 de Abril, e não passou pelo mato africano, apreendeu de uma forma notável, a importância do seu trabalho no contexto histórico nacional e local em que se ia inserir, e assim a frente/entrada do cemitério, as características naturais do terreno em declive, a orientação solar e as árvores foram factores determinantes para a execução do projecto. Formalmente a edificação apresenta uma forma paralelipipédica quase pura, composta por duas naves em paralelo na horizontal que acondicionam entre si uma passadeira em relvado que termina junto à base da árvore, existente, mais a nascente. O declive natural do terreno visa promover um afundar/sepultar natural dos blocos, terminando junto da árvore, central ao corredor, numa atitude de renascer, de ressuscitar, de esperança.
Os oito blocos que compõem as naves, quatro a cada lado, remetem a um formato tumular, sendo reforçada esta intenção pela aplicação dos símbolos de cada parcela do Ultramar Português:
1)-Angola, São Tomé, Guiné e Cabo Verde (a ocidente);
2)-Moçambique, Timor, Índia e Macau (a oriente).
A disposição dos mesmos, segue a ordem dos paralelos do Mapa-Mundo, com os símbolos gravados em relevo na pedra ou fundidos em bronze.
Nos oito blocos/túmulos aparecem também gravados os nomes das vítimas de combate, que pertenceram à Benedita, sendo a localização das gravações no centro no lado interior de cada bloco, respeitando o local de óbito.
Na pedra de fecho, elemento central, aparece a gravação de Monumento ao Combatente, em conjunto com o símbolo da Liga dos Combatentes. Nos topos nascente das duas naves poderão ser também gravadas inscrições alusivas à memória dos militares.



FLEMING DE OLIVEIRA

(II) O 1º DE MAIO DE 1975 EM ALCOBAÇA -Várias versões. -A festa era só para os escolhidos ?




Timóteo de Matos em diferentes momentos, veio a sofrer todas as punições constantes dos Estatutos do PC, excepto a da expulsão, certamente porque não tenho feitio para defender continuamente a opinião da maioria, só porque é a da maioria.
Só em Março do ano seguinte, voltou ao Partido, perante uma acesa discussão sobre a sua expulsão da Concelhia, reentrando pela mão de dois dirigentes do Comité Central, Osvaldo Castro e Lancinha, dirigente e homem de grandes qualidades, infelizmente já falecido e de quem vim a ser muito amigo e companheiro de muitas lutas e de alguns momentos de grande alegria. Voltei pois, cheio de força, de ideias e de ideais. Que diabo! Os tempos que se seguiram ao 11 de Março, eram necessariamente, para qualquer revolucionário, por mais ofendido que se encontrasse, tempos que não podia ignorar. Estar de fora nessas lutas, teria sido para mim inimaginável, embora deva confessar que nunca fui daqueles que confiavam que o socialismo fosse instalado em Portugal, assim já ali, ao virar da esquina. Sempre via (e ainda vejo) o PCP mais como um partido com uma influência decisiva na sociedade e na política portuguesa, mas muito mais no aspecto de não deixar descambar tudo para a direita, o que necessariamente aconteceria com o PS que temos, do que na assumpção do poder, num momento em que o capitalismo está por cima, pesem embora os óbvios disparates e manigâncias em que cada vez se enterra mais, na ânsia de sobrevivência.
A partir daí, e durante cinco ou seis anos, manteve-se em bastante actividade, tendo chegado a membro da Comissão Nacional de Desporto.
O PC, no Concelho de Alcobaça, atingiu, no seu melhor momento, os cerca de duzentos e cinquenta militantes, com considerável força no norte e centro e muito pequena no sul do Concelho onde, especialmente nas freguesias da Benedita, Turquel e Vimeiro, ser comunista equivalia a ter problemas no dia a dia.
Depois do 11 de Março, as nacionalizações, a reforma agrária, manifestações gigantescas e o PREC, a luta entre a direita e a esquerda agudizaram-se. É opinião de Timóteo de Matos, agora de conteúdo muito benévolo/reciclado, enfim cauteloso e politicamente correcto, que em todos os casos em que duas facções entram em confronto, a razão deixa frequentemente de imperar e as respostas são, muitas vezes, desproporcionadas em relação às acções que pretendem combater. Em Portugal, a linha do PC em relação à PIDE e ao fascismo em geral, sempre foi, após o 25 de Abril, a da defesa do julgamento justo e não a da vingança. Substituir, nos comícios, a palavra de ordem MORTE À PIDE! por JUSTIÇA! foi coisa que a extrema-esquerda nunca pode tolerar e que a maioria dos militantes comunistas tiveram dificuldade em engolir.
Timóteo de Matos justifica-o, porque acabava-se de ver o que ocorrera no Chile de Allende, onde a extrema-direita tinha perseguido selvaticamente os elementos da esquerda e os democratas em geral, os comunistas portugueses, ou melhor, alguns deles, não deixaram, aqui e ali, de responder com violência às provocações e, por vezes, serem eles próprios a iniciarem-nas. Mas pode dizer-se que, na Revolução Portuguesa, os que estavam do lado dos vencedores levaram mais do que deram.
Logo no 1º de Maio de 1975 as coisas azedaram.
Estava marcada uma manifestação, pelas ruas de Alcobaça, integrada numa festa na Praça D. Afonso Henriques, com razoável número de presenças e em que recordo que o actor José Viana foi um dos animadores. Da Praça partia-se para a manifestação, junto ao Café Trindade e à então sede do PPD. Como é sabido, nestas manifestações, o colorido de bandeiras e faixas tem papel primordial, em conjunto com as palavras de ordem que se gritam e o número de manifestantes. E lá estavam as bandeiras de alguns sindicatos, de alguns partidos de extrema-esquerda, também do PS e grande quantidade do PC. Aconteceu então descerem da sede do PPD com o fim de se integrarem na manifestação com outros manifestantes da sede do seu partido, Gonçalves Sapinho com uma bandeira nacional e Fleming de Oliveira empunhando a do PPD. Fruto do acaso, a distribuição das bandeiras? Ou “ratice” maior de Gonçalves Sapinho? O que é certo é que a presença da bandeira do PPD foi contestada imediatamente por parte do funcionário do PCP (Manuel Beja) que se atribuía o papel de comandante da manifestação e que era portador de um megafone para melhor iniciar as palavras de ordem. Não estavam pelos ajustes os do PPD e travaram-se de razões os de um e outro lados. Razões de rua, bem gritadas, mal ouvidas, as coisas aqueceram e o megafone experimentou a dureza de duas ou três cabeças. Lembro-me que o principal agredido foi o Dr. Fleming. Não me recordo, mas estou em crer que a bandeira se manteve na manifestação, até ao fim.
Manuel campos, inscrito no MDP/CDE, mas sem renegar totalmente o Estado Novo, reconhece que neste 1º de Maio, houve turbulência em Alcobaça, que não aprovou. Não participou na manifestação, tendo-se limitado a assistir do passeio, mas destaca o momento em que viu um grupo no qual seguia à frente o dr. Fleming, com uma bandeira do PPD, se ter envolvido em desavença com outro afecto ao PC.
Quanto aos acontecimentos com Natália Evangelista, embrulhada na bandeira laranja e correndo ao longo da rua, não se apercebeu de nada, mas ouviu falar deles.
Com a finalidade de esclarecer a opinião pública sobre a verdade das comemorações do 1º de Maio em Alcobaça, que alegadamente deveriam ser de concórdia e unidade entre os trabalhadores, independentemente do credo político, a Secção de Alcobaça do PS, veio a público informar que este foi contactado no sentido de organizar com o PC e o MDP/CDE, os respectivos festejos. O PPD, obviamente, não foi convidado, o que não o impediu de comparecer na festa. O PS defendeu que as comemorações deveriam ser apenas obra dos trabalhadores, levada a cabo por intermédio dos sindicatos, embora com o apoio dos partidos, que participando, não deveriam assumir a direcção dos trabalhadores. Acontece que acabou por não ser esse o entendimento que prevaleceu pelo que só o respeito pela classe operária, impediu que, pelo menos, no seu dizer o PS não abandonasse a organização.
O PS informou os alcobacenses que discordou da instalação de stands dos partidos com fins lucrativos, aliás no seu stand apenas foram distribuídos cravos vermelhos, e alertou para o perigo que poderia resultar da inclusão de bandeiras partidárias no desfile. O PS tinha razão e o mau exemplo não lhe pode ser imputado.
As comemorações foram, enfim, programadas nas costas do PS, sendo a reunião uma mera e vazia formalidade, pois que terminou na madrugada do dia 29 e o programa deu entrada na tipografia na manhã desse mesmo dia.
Tudo isto acarretou, segundo o PS, graves incidentes, imputados à cegueira partidária de alguns como PC e MDP/CDE.

FLEMING DE OLIVEIRA

(I) O 1º DE MAIO DE 1975 EM ALCOBAÇA -Várias versões. -A festa era só para os escolhidos ?




A 1 de Maio de 1975, os Bombeiros Voluntários de Alcobaça, fizeram 87 anos de vida, pelo que organizaram um vasto programa que abrangia uma romagem ao cemitério, projecção de uns filmes com uns incêndios em que intervieram, baile, almoço-convívio, homenagens e a apresentação de uma nova ambulância. Ao mesmo tempo ficou a saber-se que se pretendia organizar um Corpo Feminino Auxiliar, aberto a meninas e senhoras com mais de 14 anos, indo começar em breve a instrução das primeiras aderentes.
Nesse dia a festa política, em Alcobaça, era só para alguns, pois o PC, MDP/CDE e outros, os organizadores da festa, não queriam a presença dos populares-democráticos, quer no comício da Praça D. Afonso Henriques, quer no desfile, muito menos aos portadores da bandeiras laranja.
Logo de manhã, a população de Alcobaça foi acordada pelo som estridente do foguetório lançado do Castelo e pela animação das bandas de música da Vestearia e da Maiorga, a desfilar pela rua.
Vamos ou não participar no desfile?
Como sempre, as questões discutiam-se na sede do PPD, como em plenário improvisado, pelo que após acalorado debate, em cima da hora, com as manifestações já a decorrer, foi decidido que o PPD, depois de grande instigação de Silva Carvalho e do casal Evangelista (Natália Evangelista saiu a empunhar uma bandeira do PPD, o que lhe acarretou momentos de glória quando alguém a quis tirar-lhe), e não obstante os apelos à moderação de parte de Gonçalves Sapinho, iria integrar o desfile, ainda que sujeito ao risco de uns mimos verbais e físicos, como aliás veio a acontecer, com Natália Evangelista e Fleming de Oliveira. Ao fim e ao cabo, à escala de Alcobaça, expressavam-se contradições de um processo que teve o seu ponto mais elevado no Estádio 1º de Maio, em Lisboa. Na verdade, ocorreram lá confrontos graves entre grupos de manifestantes alinhados com a Intersindical, que reclamavam a unicidade, a exclusiva representação dos trabalhadores e os defensores de um sindicalismo livre, com destaque para Mário Soares, Salgado Zenha e o PS. Os dirigentes do PS foram impedidos de entrar na tribuna do Estádio por militares e pelo PC. Como que à moda das claques de futebol, gritava-se do lado do PS socialismo sim, ditadura não e do MFA e PC socialismo sim, vigarice não.
(...) Quando Mário Soares, com Salgado Zenha e outros dirigentes do PS, se dirigiu à tribuna do Estádio 1º. de Maio, onde decorriam as festividades e onde se comemorava o que ali tinha acontecido um ano antes, não o deixámos entrar na tribuna. (...) Ele não ia entrar no palco para falar no Estádio 1º. de Maio. Aquele povo era nosso, e nós precisávamos dele. Na tribuna estavam, entre outros, o Presidente da República Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, para além dos dirigentes da Intersindical. Na véspera, o governo tinha aprovado o decreto da unicidade sindical. (...) Eles tinham chegado com a manifestação dos que não queriam a unicidade sindical. (...) Quando Mário Soares, com Salgado Zenha e outros dirigentes do PS, se dirigiu à tribuna do Estádio 1º. de Maio, onde decorriam as festividades e onde se comemorava o que ali tinha acontecido um ano antes, não o deixámos entrar na tribuna. (...) Ele não ia entrar no palco para falar no Estádio 1º. de Maio, cfr. Zita Seabra in Foi Assim.

Ao cair da tarde, em Alcobaça, lambidas algumas feridas e com os ânimos mais serenados, houve um espectáculo de variedades com um José Viana engagé, Ermelinda Duarte, Uma gaivota voava, voava, e a estreia da Orquestra Típica da Maiorga, sob a regência do Maestro Ricardo Cunha.
A Comissão Política Concelhia de Alcobaça do PPD, reuniu e emitiu um seguinte comunicado, pleno de expressões ideológicas, bem de acordo com a terminologia da época:

A RAZÃO DA FORÇA SUBSTITUI A FORÇA DA RAZÃO

Dominada por forças partidárias, comemorou-se também em Alcobaça, o 1º de Maio, a Festa dos Trabalhadores, monopolizada pelos apregoados antimonopolistas PC, MDP/CDE. O PPD de Alcobaça, consciente da sua responsabilidade e do apoio que o eleitorado inequivocamente lhe conferiu no País e, nomeadamente, no Distrito e no Concelho, pretendeu sem reservas, associar-se às manifestações, apesar de ter conhecimento prévio que a sua presença seria contestada por tais anti monopolistas PCP e MDP/CDE. Durante o comício que inaugurou as cerimónias, pelas 15 horas, com a presença do MFA, não se registaram incidentes, tendo estes surgido apenas durante o desfile que percorreu as ruas da vila. Inicialmente, verificaram-se insultos vários a militantes do PPD, os quais atingiram o ponto máximo diante do edifício da Conservatória do Registo Civil. Ali, as forças anti-democráticas organizaram o ataque físico comandado com altifalantes. Usando o microfone como arma, um destacado membro do PCP local, agrediu um militante do PPD o que fez também a soco e a pontapé. Dois militantes do PPD vieram a ficar feridos, tendo um deles ido receber tratamento no Hospital desta Vila. Pensamos que estas forças antidemocráticas agem apenas movidas por despeito e que a única via que se lhes oferece, e que aproveitam, é a razão da força. E isto tem de ser definitivamente desmascarado pelos verdadeiros democratas que só aceitam a força da razão.
ABAIXO O SOCIAL-FASCISMO!
ABAIXO A DITADURA!
VIVA A SOCIAL-DEMOCRACIA!
VIVA PORTUGAL!

De acordo com o Voz de Alcobaça, as coisas não se passaram assim. A festa foi muito solidária, abrangente e agradável, para um dia recordar com muito afecto. Bandas na rua, um comício, uma manifestação, uma tarde de pintura infantil, vários espectáculos e muitas horas de confraternização popular, assim foi assinalado o 1º de Maio de 1975, em Alcobaça.
Este programa foi organizado pelo PC, PS e MDP, correspondendo a um apelo da União dos Sindicados do Distrito de Leiria. No comício, que teve lugar pelas 15h, falaram Armando Correia, pela União dos Sindicatos Livres do Distrito de Leiria, Basílio Martins, do MDP/CDE, Rui Alexandre, do PC, Joaquim Matias Ferreira, do PS e Ten. Carvalhão, em representação do MFA.
Gilberto de Magalhães Coutinho, defendeu anos mais tarde que, na época, as coisas viviam-se muito intensamente, com paixão, e às vezes surgiam aqui e acolá excessos, comportamentos menos serenos, palavras menos correctas. Mas o panfletário/esquerdista Voz de Alcobaça, nas suas notícias passava ao lado desses pequenos pormenores.
Vergílio Ferreira, numa carta a Vasco Gonçalves, após as acidentadas comemorações do 1º de Maio de 1975, criticou a tese de contrapor uma cultura elitista a uma cultura popular, pois que cultura é uma só.
É bom que assim seja, para que nela ao menos nos sintamos irmãos e o povo tenha acesso ao que foi dos privilegiados.

(CONTINUA)


Fleming de OLiveira