segunda-feira, 3 de outubro de 2011

AS (NOVAS) LEIS REVOLUCIONÁRIAS. A JUSTIÇA EM NOME DO POVO (1974-1975)




(III)



Entre marido e mulher…
Plenário de Advogados diz, NÃO!.
O Juiz/Poeta Madeira Bárbara, colocado em Alcobaça.
Os tribunais de Alcobaça, Tomar e Boa-Hora.
O José Diogo, mata um latifundiário e tem o apoio da UDP no Campo Pequeno.
Sopapos e mimos entre um PPD e um CDS.
Tribunais Populares Tribunais Cívicos e um Auto de Fé.
A Concordata, o aborto e o feminismo.
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Palha da Silveira (Desembargador jubilado), um juiz polémico.






Concordata não, divórcio sim. Os presos da Concordata querem a libertação. Os slogans do Movimento Nacional Pró-Divórcio ecoavam alto e liam-se nos cartazes dos comícios e anúncios pagos nos diários, logo a seguir a 25 de Abril. Eram católicos, mas não só, pois muitos casaram-se pela Igreja, porque ficava bem, os que exigiam a alteração ao Código Civil, até porque os filhos nascidos fora destes casamentos eram tidos como ilegítimos. A alteração chegou com um Protocolo Adicional à Concordata de 1940. Quando regressou de Roma, Zenha foi aclamado por dezenas de pessoas no aeroporto de Lisboa.
Em todo o mundo, apenas um outro país navega nas mesmas águas desta solução dualista, a República Dominicana. Estamos em boa companhia !, escreveu Francisco Salgado Zenha, na revista O Tempo e o Modo.

Maria Elvira (…), do Porto, casou-se pela Igreja, mas separou-se em 1967 e, enquanto não foi alterada a Concordata, o seu estado civil tinha a designação de casada, mas separada de pessoas e bens. Assim sendo, tinha de continuar para certos actos civis a pedir autorização a um homem que já não era o seu e com quem não vivia. O seu problema, como desabafava, não era tanto o religioso, pois sempre foi e é religiosa mas não ia inventar coisas, junto do advogado portuense Dr. José da Silva, antigo deputado caetanista/Ala Liberal ou do Tribunal Eclesiástico, para pedir a anulação do casamento.
Foi Salgado Zenha, enquanto Ministro da Justiça, quem subscreveu o Protocolo Adicional à Concordata de 1940, ao lado do cardeal Giovanni Villot, secretário de Estado do Vaticano, a 15 de Fevereiro de 1975, em Roma.
A Santa Sé e o Governo Português, afirmando vontade de manter o regime concordatário vigente para a paz e o maior bem da Igreja e do Estado, tomando em consideração a nova situação apresentada pela parte portuguesa, concordaram em alterar o artigo XXIV da Concordata.
O Movimento Nacional Pró-Divórcio, foi criado depois do 25 de Abril e fazia do estatuto dos filhos ilegítimos, a principal arma de arremesso. O divórcio impõe-se como meio de legalização de situações anómalas e sobretudo como meio de legitimação de filhos nascidos de ligações perfeitamente legítimas, no foro da consciência de seus pais. Aos olhos de Deus não há filhos ilegítimos. Foram os homens que inventaram esse cruel adjectivo, lia-se no documento entregue na Nunciatura de Lisboa, em Junho de 1974. O movimento criticava, com alguma virulência, a Igreja portuguesa, que havia celebrado a Concordata com um regime fascista e pretendia continuar essa política. A Igreja condescendeu, mais ou menos voluntariamente, mas não ficou convencida, pois que não abdicou de recordar a quem contraiu o matrimónio canónico, o relevante dever que lhe incumbe de não se valer da faculdade civil de requerer o divórcio.
Em fins de Agosto de 1975, aconteceu o fim da discriminação entre filhos legítimos e ilegítimos. Os filhos nascidos fora de casamento, não podem por esse motivo ser objeto de qualquer discriminação, não podendo a lei ou as repartições oficiais usar designação discriminatória relativa à filiação.
A 27 de Maio de 1975, entrou em vigor a Lei do Divórcio. Entretanto foi revogado o artigo 327º do Código Penal. A lei portuguesa previa uma pena de desterro, por seis meses para fora da comarca, ao homem casado que, achando a sua mulher em adultério, a matasse a ela ou ao adúltero ou a ambos, ou lhes fizesse qualquer ofensa grave. De certo modo, o mesmo direito também era conferido à mulher casada, nas pessoas do marido e concubina teúda e manteúda pelo marido na casa conjugal, bem como assim aos pais, a propósito das filhas menores de 21 anos e dos respetivos corruptores.

A Liberdade de Expressão foi, sem dúvida, uma das importantes conquistas do 25 de Abril. Rapidamente apareceram as críticas de alguns sectores da população, que se insurgiam contra o excesso de liberdade que tomava conta dos jornais, revistas, televisão, rádio, teatro e cinema. Filmes, até então proibidos, passaram a ser exibidos, alguns com anos de atraso, para regozijo de uns e horror de outros. A crítica social e política nos teatros, por exemplo, no teatro de revista, embora este começasse a declinar, e na RTP tornou-se vulgar. A CRP consagrou a Liberdade de Expressão e Informação (artigo 37.º) e a Liberdade de Imprensa (artigo 38.º). Revisões posteriores alargaram a Liberdade de Expressão a todos os meios de comunicação social. A Lei 3/74, de 14 de Maio, definiu a estrutura constitucional transitória, que regerá a organização política do país, até à entrada em vigor da nova CRP.
Para alguns, onde o Governo não é excepção, a Liberdade de Expressão tem limites democráticos muito interessantes e sofismados pois começa nas coisas com que concordam e acaba naquilo de que não gostam ou acham reprováveis.

No século XX, atravessado por quatro regimes políticos, o final da Monarquia, a I República, o Estado Novo e a Democracia, a situação das mulheres em Portugal mudou radicalmente.
No princípio do século XX, a vida da mulher, no seio da família, era regulada pelo CC de 1867, vulgo Código de Seabra, que impunha à mulher casada a residência do marido, prestar-lhe obediência e não a autorizava, sem o consentimento, a administrar, adquirir, alienar bens, publicar escritos ou mesmo apresentar-se em juízo. Em vigor até 1967, esse Código tinha outras cláusulas que se diferenciavam consoante se referissem ao homem ou à mulher, como o homem poder exigir o divórcio sempre que a mulher praticasse adultério, enquanto que esta só o podia fazer, se o adultério tivesse sido praticado com escândalo público.
A República, graças a Afonso Costa, atenuou algumas dessas imposições e aboliu diferenciações jurídicas, em função do sexo. As polémicas leis, do Divórcio e da Família, de 1910, estabeleceram a igualdade entre os cônjuges quanto às causas da separação, a Lei do Divórcio eliminou um artigo do Código Penal de 1886, segundo o qual a esposa adúltera era punida com prisão maior celular de dois a oito anos, enquanto o homem casado adúltero era condenado a uma simples multa que podia ir de três meses a três anos do seu rendimento.

Nunca foi conseguido, durante a I República o sufrágio feminino para todas as mulheres, embora tivesse concedido, em 1911, o direito de voto aos portugueses com mais de vinte e um anos que soubessem ler e escrever e aos chefes de família, sem especificar o sexo dos eleitores. A partir de 1913, o regime republicano esclareceu que só os chefes de família do sexo masculino podiam eleger e ser eleitos. E reclamavam-se progressistas.
Para Teresa Pizarro Beleza, no Estado Novo, a limitação da capacidade das mulheres, era coisa imposta com diligência e severidade por parte do legislador, como questão de ordem pública. Não se tratava apenas de avalizar uma sociedade de desiguais, mas, positivamente, de a construir.
Na fase revolucionária, depois de 25 de Abril, muitas mulheres participaram em manifestações, integraram comissões de moradores, de sindicatos e de trabalhadores e apresentaram reivindicações de carácter igualitário. Surgiram novas organizações de mulheres, ligadas ou não a partidos políticos.
A 28 de Abril o MDM-Movimento Democrático de Mulheres, apresentou à Junta de Salvação Nacional, o Caderno Reivindicativo da Mulher (ainda elaborado e aprovado no I Encontro Nacional, em 1973), no qual se faziam reivindicações transversais, como salário igual para trabalho igual, proteção durante a gravidez, parto e primeiros anos de vida da criança, existência de creches e jardins de infância gratuitos, cantinas e lavandarias com meios e condições acessíveis, igualdade jurídica e direito de dispor livre e unilateralmente do seu corpo, consequentemente a praticar o aborto.
Com a democracia, foram assumidas medidas que tornavam a igualdade mais próxima, nomeadamente, o desaparecimento da figura do chefe de família, paridade entre homem e mulher no seio da família, o reconhecimento das mulheres como iguais no trabalho, na família e na participação política, o reconhecimento da maternidade como função social. As mulheres passaram a poder concorrer à administração local, à função pública sem limitações, à carreira diplomática e às magistraturas seja do MP ou Judicial.
A década de 1970 ficará para a história portuguesa, como a Década da Mulher. As actividades do MDM continuaram com a finalidade de tornar real e justa a entrada da mulher, no mundo laboral, impulsionando a construção de creches, mercados, lares de terceira idade. Criaram, por auto iniciativa, centros de ocupação de tempos livres, onde eram leccionados cursos de higiene e saúde, dactilografia, entre outros, e promoveram acampamentos de Verão para crianças de bairros degradados.
Um dos temas que veio a provocar maiores manifestações e crispação, é o direito ao aborto, principalmente no final da década de 1970 e durante os anos 80, destacando-se as intervenções de Zita Seabra, e que se prolongou durante mais de uma dezena e meia de anos, após ter sido aprovado na sequência de um segundo referendo. Em 1979 surge com nova força, ateada pelo julgamento da jornalista Maria Antónia Palla, acusada de atentado ao pudor e incitamento ao crime, pela sua participação num filme sobre a IVG, que a RTP transmitiu em 1976, bem como o julgamento de uma mulher casada, acusada por denúncia anónima, de ter praticado um aborto clandestino.
Ambas foram absolvidas.
O Dec. 85-C/75, de 26 de Fevereiro, promulgou a Lei de Imprensa. Imediatamente a 25 de Abril, dois grupos, tentaram moldar os meios de comunicação social. De um lado, os saudosistas/nostálgicos do Estado Novo e os marxistas, manifestavam-se favoráveis a uma censura de conteúdos, embora a posteriori, para tentar evitar uma ruptura com os mecanismos então vigentes.
Por outro lado, democratas como Soares ou Sá Carneiro, que se batera aguerridamente por este assunto, enquanto deputado na ANP e na Ala Liberal, e Freitas do Amaral, advogavam a extinção pura e simples da censura, o que deu origem a que o artº 4º Lei de Imprensa, de 1974 consignasse que a liberdade de imprensa será exercida sem subordinação a qualquer forma de censura. A este propósito é curioso recordar o que Álvaro Cunhal, assegurou a jornalistas à saída de um Conselho de Ministros que discutiu a Lei de Imprensa que, nós comunistas não queremos controlar os jornais de outros partidos, do mesmo modo que não comemos criancinhas, nem damos injecções detrás de orelha.

A primeira manifestação feminista em Portugal depois da revolução foi promovida pela UMAR-União de Mulheres Alternativa e Resposta, no Parque Eduardo VII, a 13 de Janeiro de 1975, fez-se contra os símbolos da opressão das mulheres silenciadas e foi escarnecida por homens, que se juntaram para a ela assistirem, alguns dos quais malevolamente a descreveriam, e tentariam reduzir, a um acto de queima de soutiens, que, garante quem nele participou, como a feminista radical e militante, antiga professora do ensino básico, Zulmira Gomes, de Caldas da Rainha, nunca aconteceu. Zulmira Gomes, hoje reformada, recorda-se bem da data, pois nesse dia teve um acidente de viação ao sair da Ponderosa onde parara, para um breve jantar no regresso de Lisboa, a casa. Embora, nem todas as manifestantes comungassem o mesmo conceito de feminismo, Zulmira diz que era e é radicalmente contra o que diz ser o falso feminismo, grosseira imitação do homem, o que é uma imagem deturpada daquilo porque lutava e aspirava. Este conceito acarretava a que os homens se rissem ou indignassem e que mulheres, no tempo em que ainda coravam..., pensassem que era falta grave cometida por umas tantas tolas, mas que com elas não se identificavam.

Mas podemos encontrar já movimentos em prol da defesa dos direitos da mulher e da igualdade, no tempo da I República.
Fundada em 1909, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, que no ano seguinte atingiu cerca de 500 filiadas, teve um papel determinante, na luta pela liberdade e igualdade dos direitos da mulher e homem. Liderada por mulheres como Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete e Maria Veleda, a Liga elaborou um programa de educação e defendeu o direito ao voto das mulheres. A lei eleitoral de 1911, não era explícita quanto à restrição do direito voto das mulheres, tanto assim que Carolina Beatriz Ângelo, conseguiu inscrever-se nos cadernos eleitorais, tornando-se na primeira mulher eleitora, nas eleições legislativas de 1911. Mas a audácia desta médica não teve continuidade, pois logo em 1913, a lei retirou às mulheres o direito de participar em eleições. Só em 1931, em pleno Estado Novo, as mulheres voltaram a gozar daquele direito. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, destacou-se pelo facto de em 1911, ser a primeira professora universitária. Mas foi durante a I Guerra Mundial que a participação das mulheres se evidenciou definitivamente. Apareceram organizações de mulheres que se dedicaram ao apoio à vítimas da Guerra, como as Damas Enfermeiras da Cruz Vermelha Portuguesa, de inspiração republicana, tanto mais que a presidente era Alzira Dantas Machado, mulher de Bernardino Machado. Também faziam parte, entre outras, as mulheres de Afonso Costa, António José de Almeida e Norton de Matos. Além de promoverem a assistência e a educação das mulheres dos soldados que lutavam na Guerra na França ou Flandres, fundaram escolas profissionais e lutaram pela igualdade de direitos entre homem e mulher.

J. Palha da Silveira ingressou na magistratura judicial em 1973, sendo juiz em Tavira aquando do 25 de Abril, e colocado mais tarde em Caldas da Rainha.
Percorreu a Via Sacra da Magistratura, antes de o recrutamento dos Juízes ter deixado de partir de uma raiz comum com o Ministério Público, e se ter autonomizado. É do tempo em que os Tribunais constituíam um universo exclusivamente masculino onde estava vedado às mulheres o exercício de quaisquer funções, não apenas as jurisdicionais.
Fui Delegado e juiz de 3ª, 2ª e 1ª classes, presidente de tribunais colectivos, paguei todos os meus impostos, nunca desrespeitei um prazo judicial, proferi sempre sentenças honestas e fundamentadas, sou portador da mais alta classificação de serviço atribuível a um juiz, sou hipertenso e tenho bicos de papagaio. E também foi Inspector Judicial.
Polémico e controverso, nunca se coibiu de emitir opiniões pblicamente (por exemplo em O DIABO), nem sempre bem aceites por colegas, advogados ou políticos, que lhe atribuíam um pendor conservador, anti comunist primário, reaccionário até. Alguns Ministros da Justiça, de sensibilidade epidérmica, queixaram-se de mim ao Conselho Superior da Magistratura, sofri algumas pressões e tive alguns dissabores. Também recebi muitíssimas provas de apreço e cartas de encorajamento.
Colocado no Tribunal da Relação de Lisboa, aí pediu a jubilação, sem ter acedido ao Supremo Tribunal de Justiça e não sem antes ter escrito em O DIABO, em Julho de 1990, uma carta aberta de um juiz desesperado, ao Ministro da Justiça (Laborinho Lúcio) em que justificava que foi para este Tribunal por necessidade…Foi a pobreza que a tal me obrigou! Em nenhum estabelecimento comercial me foi aceite senão dinheiro em troca de carne para guisar! Foi assim, Sr. Ministro que me vi no caso de ser obrigado a requerer ao CSM (Conselho Superior da Magistratura) que me nomeasse Juiz-Desembargador auxiliar do Arsenal, perdão, do Venerando Tribunal da Relação de Lisboa. Vive “alternadamente” entre Caldas da Rainha e S. Martinho do Porto.
A instituição judicial, no seu entender, nos primeiros tempos após a Revolução, não sofreu alterações significativas, nem quanto à estrutura administrativa, nem quanto aos comportamentos profissionais de magistrados e funcionários, salvo a circunstância de se ter feito a abertura ao sexo feminino.
Não sei se o maior inimigo da independência dos Tribunais, condição sine qua non da protecção séria dos direitos dos cidadãos, é a constante apetência do poder político pelo controlo do judicial ou a tradicional passividade dos juízes, a sua constante tendência para confundir dignidade com silêncio, prudência com abulia, cautela com hesitação. A passividade do poder judicial pode ser o alfobre de todas as prepotências.
Para Palha da Silveira, durante alguns meses após a Revolução, os Tribunais e só eles, tinham resistido à desorganização e à desmotivação patente em quase todos os outros órgãos da Administração Pública. Pouco duraria, no entanto, esse estado de graça pois o PREC, com a sua dinâmica igualitarista, vingativa e atabalhoadamente reformadora, depressa se faria reflectir na Justiça, o que lhe criou bastante desconforto.
A crescente sovietização do regime, provocada conscientemente por uns e consentida ingenuamente por outros, em breve conduziu a uma concepção de tribunal assente na exaltação da Procuradoria da República, órgão representante do poder central, de concepção marxista.
Não se chegou, todavia, ao extremo de se considerar a Procuradoria da República, como entidade máxima do sistema judicial, na linha do que sucedia na URSS aonde aos juízes nenhuma formação jurídica se exigia, aos candidatos aos cargos de procurador, eram exigidas condições de formação jurídica superior e de tirocínio prático.
Estamos de acordo quando defende que na vertente judicial do regime, a vitória da democracia era(é) assegurada por um poder judicial independente e dignificado, servido por juízes isentos e prestigiados, capazes de aplicar a justiça com total liberdade e sem controlo do poder político.
As profissões judiciárias rapidamente se corporativizaram, com o que tinha enorme dificuldade de co-habitar não por razões de elitismo, formando-se sindicatos de funcionários e de magistrados e autonomizando-se o controlo disciplinar de todos os agentes, sendo o CSM para juízes, o CSMN para agentes do MP e o COJ para funcionários. O juiz quase perdeu os poderes de presidência do tribunal. As inspecções judiciais passaram a ser tripartidas, uma para juízes (as que realizava), outra para o MP e, ainda, outra para os funcionários, pelo que a ninguém cabia avaliar unitariamente, a qualidade do serviço prestado aos cidadãos, nem a disciplina. O próprio corpo judicativo, que passou a ser formado no CEJ, esse centro híbrido de artes e ofícios judiciais, a pouco e pouco foi perdendo o sentido de missão soberania que lhe estava constitucionalmente cometido. Em diversas ocasiões recebi pedidos, sugestões e até quase ordens, todos devidamente rechaçados, de indivíduos que se intitulavam ligados ao MFA, oficiais em serviço nas Campanhas de Dinamização Cultural e até uma carta testemunhando a favor de uma parte num processo cível, no qual não fora indicado por testemunha, de um Oficial da Armada: Saiba V. Exª que F.....é um homem honesto e incapaz de mentir...
Um Juiz quer-se inteligente, experiente ao nível da vida, tecnicamente bem preparado, perspicaz na apreciação da prova, expedito e sem receio de decidir. Enfim na nossa opinião era o caso de Palha da Silveira. Ou seja, queremos Juízes vivos, não burocratas, juízes íntegros, não vulgares, juízes cultos, com sensibilidade intuitivos e humanos, em suma engagés que, como diria o velho Calamandrei, saibam levar com humano e vigilante desempenho, o grande peso que implica a enorme responsabilidade de fazer justiça.
Os Juízes não são mais seres longínquos e inatingíveis, fechados ao Mundo que os rodeia. Palha da Silveira, nunca teve problemas em receber os Advogados no gabinete, sem necessidade de invocarem urgência, com naturalidade e afabilidade e conversava sobre assuntos processuais, sem se esquivar a dar uma opinião, não por entender que a judicatura é serviço público e o juiz um seu agente (o que seria um pressuposto inadequado). O serviço prestado pelo Advogado também é público. Necessariamente, aquele tem que se relacionar (não estamos a falar de relação jurídica processual) com o juiz, no patrocínio da causa. O que não significa que, nessa relação, haja subordinação. Tem que ser simétrica, cada um cumprindo o papel reservado pela lei. Urbanidade, consideração e respeito foram os princípios que o nortearam.

Um Juiz, nem nos tempos do PREC deveria ser político, por lhe faltar agenda política a cumprir ou a impor. A sua função é julgar e decidir, pelo que não tem, nem deve exercer poderes de mediação e conciliação, fora do quadro que a lei lhe faculta ou impõe. Palha da Silveira, emitia desassombradas opiniões políticas e sociais, não no exercício da judicatura, mas no quadro mais amplo do exercício de cidadania. Fez a carreira no gabinete, a trabalhar e estudar, sem fazer questão de ter amizades com políticos, enquanto tais, de certo modo ao contrário dos advogados, como Fleming de Oliveira, que tendem a andar bem vestidos, (pelo menos assim era no antigamente), tem de ser simpáticos, cultivar relações de amizade e de interesses.
Palha da Silveira, foi um Juiz da velha guarda, o que nos leva a citar um escrito de Lobo Antunes: O que disse uma vez da profissão de médico aplica-se com igual propriedade ao que observo em relação aos magistrados. Nunca foi tão complexo, tão arriscado e tão difícil ser juiz como é hoje. Parte das suas atribulações nascem da dificuldade que têm experimentado em desenredar o novelo da modernidade. Mas este é, também, um tempo apaixonante de viver, que oferece oportunidades únicas de fazer subir a outra altitude uma profissão eminentemente moral.
Sem pretender estabelecer comparações, ser Magistrado Judicial é muito diferente de ser Advogado. Não é mais, nem menos importante ou valioso. Nos tempos do PREC, quando Fleming de Oliveira iniciava em Alcobaça a sua actividade profissional, depois de ter também passado pelo MP, percebeu depressa que tinha pela frente uma vida de trabalho duro, a qualquer hora, mas muito honrosa para quem o faz com dedicação e assumida honestidade, sem a misturar com a política partidária, embora tivesse de reconhecer que havia alguns momentos indissociáveis. Desde logo, a perseverança e o destemor, para não desistir quando encontrasse obstáculos, viver a luta pelos direitos do cliente ou dos portugueses que se identificassem, pelo menos, com a democracia e o PPD, sem descurar a ética e a moral. Ser advogado credível no Prec impunha, como hoje, ser destemido, para defender os interesses do cliente, enfrentar com respeito e acatamento, os adversários e as decisões adversas, lutar para vencer as dificuldades e os problemas do dia-a-dia. Para o Dr. Amílcar Magalhães, distintíssimo advogado do antigamente, é ser humilde para reconhecer os erros, bem como para aceitar e compreender os entendimentos contrários.
Para ser advogado, nesses tempos agitados, sem perder a sanidade mental, impunha saber sofrer derrotas, aceites com a naturalidade possível, respeitando o que não era favorável, procurando, dentro dos incertos e difusos procedimentos legais ao dispor, reverter a situação e, sobretudo fazer da derrota, uma útil aprendizagem.
Ser advogado impunha e impõe saber ouvir, não apenas os colegas mais velhos, mas também os mais novos, bem como o cliente, o adversário, o juiz e todos os que trabalham com o Direito, para assim adquirir experiência e confrontar ideias.

Há mais de 35 anos, ser Advogado em Portugal era talvez, mais que hoje, lutar por um ideal de Justiça e Paz, pois esta é o desiderato último do Direito e da própria Justiça e da DEMOCRACIA. Ser advogado em Alcobaça ou Caldas da Rainha, era além disso tudo, buscar a paz social, pacificando os conflitos de interesse, sem a qual a sociedade não pode sobreviver, fim último da Justiça e do Direito, que buscam a convivência harmónica e pacífica dos homens.



FLEMING DE OLIVEIRA

AS (NOVAS) LEIS REVOLUCIONÁRIAS. A JUSTIÇA EM NOME DO POVO (1974-1975)




(II)


-Entre marido e mulher…
-Plenário de Advogados diz, NÃO!.
-O Juiz/Poeta Madeira Bárbara, colocado em Alcobaça.
-Os tribunais de Alcobaça, Tomar e Boa-Hora.
-José Diogo, mata um latifundiário e tem o apoio da UDP no
Campo Pequeno.
-Sopapos e mimos entre um PPD e um CDS de Alcobaça.
-Tribunais Populares Tribunais Cívicos e um Auto de Fé.
-A Concordata, o aborto e o feminismo.
-A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
-Palha da Silveira (Desembargador jubilado), um juiz
polémico.



(II)

Recordemos agora uma notificação expedida na sequência de um despacho de arquivamento de um processo-crime na fase de inquérito no MP.

Alcobaça, 22 de Outubro de 1974

Exmº Sr.
Comandante da GNR de
Alcobaça

Rogo a V. Exª que seja notificado o arguido ( …), residente em (…), de que por despacho de 15.10.1974, do Digno Agente do MP, e nos termos do Artigo 277º, nº 1 do CPP, foi ordenado o arquivamento dos autos, dado o crime ser de natureza cível.
(…).

No dia 6 de Julho de 1979, pelas 22 horas, iniciou-se na Voz do Operário, em Lisboa, a primeira sessão do Tribunal Cívico sobre a Reforma Agrária.
A comissão promotora deste singular tribunal cívico, era integrada por nomes como Rui Luís Gomes, Paulo Quintela, Teixeira Ribeiro, Bernardo Santareno, Ary dos Santos, Carlos Paredes, Carlos do Carmo, Fernando Lopes Graça, João de Freitas Branco, Luís Albuquerque, Rui Polónio de Sampaio, Helena Cidade Moura, Alexandre Cabral, Urbano Tavares Rodrigues, Óscar Lopes, Avelãs Nunes, Mário Murteira, Luís Francisco Rebelo, César Oliveira, Miriam Halpern Pereira, José Gomes Ferreira, António Hespanha, Gomes Canotilho, Boaventura Sousa Santos, Jorge Leite e Xencora Camotim. O processo alegadamente obedeceria aos rituais próprios de um julgamento, sendo todavia o tribunal presidido pelo juiz desembargador Aníbal de Castro e contava, na qualidade de juízes, nomes como o historiador Armando de Castro, o escritor Manuel da Fonseca ou os professores universitários Maria Lúcia Lepecki, Orlando de Carvalho e Vital Moreira. Perante uma assistência variada, que integrava trabalhadores rurais alentejanos e convidados estrangeiros, o advogado comunista Fernando Luso Soares desempenhou, com facilidade, o papel de acusador público, sendo ouvidos, como testemunhas, José Saramago, Lino de Carvalho ou Carlos Carvalhas, entre outros. Feitas as alegações da acusação, o acórdão decidiu condenar o latifúndio, reconhecer a legitimidade da reforma agrária e, enfim, condenar a ofensiva contra a reforma agrária. Tudo se passaria ali como se de um julgamento normal se tratasse, não fora a circunstância de só existir uma parte. O princípio do contraditório não teve lugar. No Tribunal Cívico sobre a Reforma Agrária, apenas existiu uma acusação e um acusador, não se prevendo que os réus (?) apresentassem defesa ou sequer comparecessem. Do extenso Rol de Testemunhas, donde constavam muitos funcionários do PC, nenhuma fora chamada para contestar a legitimidade da reforma agrária, criticar alguns excessos, abusos ou referir aspetos menos conseguidos, constrangedores, do processo de ocupações levado a cabo.
À distância de 30 anos, é-nos difícil ajuizar o motivo pelo qual se realizou esta encenação político-judiciária, o que levou pessoas, a oferecerem o prestígio de seus nomes, a um simulacro de processo judicial que não passava de uma manifestação puramente política. Se o desfecho era conhecido à partida, chamar tribunal não passava de uma figura de estilo, duvidosa quanto à forma, inútil quanto aos resultados e, acima de tudo, questionável quanto à ética dos procedimentos. Por esse tempo, outras organizações levaram a cabo iniciativas semelhantes, como o Tribunal Cívico Humberto Delgado, promovido pela Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas. É certo também que existiram precedentes estrangeiros, com destaque para o Tribunal Russell, em Estocolmo, sobre a participação dos EUA no Vietname. O verdadeiro réu na Voz do Operário, condenado in absentia, era com efeito, o processo histórico, para recorrer à fraseologia marxista que esteve presente nas sessões e depoimentos. Se a incapacidade de reverter o Rumo da História, como diria Sartre, é sintoma de independência, poder-se-á dizer que o Tribunal da Voz do Operário, pese ter ouvido apenas uma das partes, sem se preocupar em assegurar o contraditório, foi mesmo assim, uma instância independente. De uma independência que resulta tão-só da impotência dos julgadores em alterarem a Marcha da História.

Tanto os Dr. Manuel Almeida, como o Dr. Amílcar Magalhães eram advogados muito respeitados e conceituados em Alcobaça, quando se dá o 25 de Abril. Além destes, também exercia o Dr. José Bento da Silva, e residualmente o Dr. Amílcar Ramos Ferreira, que sofria de alguns problemas…. Tinham acabado de chegar à comarca e começado a exercer advocacia, Virgílio Ribeiro e Pessanha Gonçalves. Fleming de Oliveira, veio viver para Alcobaça, a 20 de Abril de 1974, acabada a sua comissão militar na Guiné e foi trabalhar com o Dr. Amílcar Magalhães.
O Dr. Manuel de Almeida, ainda exerceu durante alguns anos, recusando-se a seguir alguns novos conceitos e métodos da profissão. Era vulgar vê-lo, ao fim da tarde, à porta do escritório na Praça 25 de Abril, conversando afavelmente com quem passava. Não era frequentador de cafés ou restaurantes e nunca quis ter automóvel ou mesmo carta de condução. Contava aos colegas mais novos, alguns dos seus casos, sempre muito complicados e o daquele advogado de Leiria, licenciado no pós-25 de Abril, que comentava a propósito de um inventário, que o de cujus, isto é, o falecido e inventariado, havia deixado cinco de cujinhos. Ele queria dizer, na sua ignorância, que o morto deixou cinco filhos vivos, menores.
O Dr. Amílcar Magalhães, sogro de Fleming de Oliveira, gostava de salientar que jamais aceitou uma causa em que tivesse de mentir com inteiro conhecimento, pois o juiz e o colega da outra parte descobririam tudo pela sua cara e o cliente acabaria por perder a questão. Assim, na década de 1960 recusou tomar conta do caso de um indivíduo da Nazaré, ao descobrir que isso seria a ruína de uma viúva, com seis filhos. O caso referia-se a seiscentos contos. Numa carta ao cliente recusado, o Dr. Magalhães dizia que não fico com o seu caso, embora pudesse, sem dúvida alguma, ganhá-lo. Há coisas que são legalmente certas, mas moralmente erradas. Quando puder passe pelo meu escritório para lhe explicar melhor.
Assim, o Dr. Magalhães deu-lhe depois, um gratuito conselho, que desconhecemos se foi apreciado, um homem vivo, capaz e enérgico como o senhor, deveria tentar recuperar os seiscentos contos de outra maneira, sempre civilizada…
E o caso daquela mulher acusada de ter partido um braço a uma outra, que andava enrolada com o seu marido e se ria quando se cruzavam na rua. O Dr. Magalhães defendia a acusada e, embora fosse muito formal, fleumático e normalmente pouco dado a graçolas, em alegações orais finais não resistiu em salientar a importância da sincera confissão, pois ela diz sempre a verdade. Ela (a acusada) disse que ia dar uma valente sova aquela filha da mãe e deu mesmo!
Foi condenada, embora com a pena suspensa.

A notícia caiu como uma bomba nos meios forenses da região, mas nunca foi muito divulgada. Na Marinha Grande, fizera-se um Auto de Fé na praça pública, pois o Senhor Juiz, comunista assumido, frequentador da sede do PC, mandou queimar códigos fascistas. Julgamentos de acções de despejo, tinham a intervenção, nem sempre meramente consultiva, de comissões de moradores e de populares. Não que estes atos, fossem verdadeiramente originais, não que não tivessem sido perpetrados noutros tempos e paragens. Não que houvesse diferença especial entre os pressupostos da esquerda radical portuguesa, da direita nazi-fascista, excepto no facto daquela aplicar esses métodos com a hipocrisia da defesa das virtudes públicas e sociais.
Camilo José Cela, escreveu in Tomas Cerudellar Cavilador que um juiz deve ser sereno, velho e céptico, dado que a justiça não tem por missão consertar o mundo mas, sim, evitar que se deteriore mais, isso basta. Quando um juiz se sente depositário dos valores morais da sociedade, a justiça ressente-se e protesta.
Para além da queima dos códigos fascistas na Marinha Grande, noutros tempos e locais, estiveram incluídos na lista de material combustível, livros ou páginas de escritores como Ana Hatherly, José Régio, Urbano Tavares Rodrigues, Hermano Saraiva, Fernanda de Castro, Tomás Ribas, Vitorino Nemésio, Barrilaro Ruas, Esther de Lemos, Calvet de Magalhães e Maria de Lurdes Belchior. O que formalmente ainda distinguiu quaisquer um dos ditos autos-da-fé portugueses, dos levados a cabo pelos nazis, decorreu que estes, eram feitos, em geral, sem alarido público, mais ou menos às escondidas. Por sua vez, os nazis assumiam com orgulho e publicitavam os seus Autos-de-Fé.
Sottomayor Cardia, num discurso em Outubro de 1976, dois anos depois do despacho de Rui Grácio, Secretário de Estado da Educação, que determinava os Autos-de-Fé, acusou o ME de ter à maneira inquisitorial, ordenado a destruição de livros pelo fogo. Há no Ministério prova da realização de autos-de-fé por determinação oficial.
Na altura, os jornais na sua censura não ligaram a estas denúncias, porque alinhavam com o politicamente correto, que dominava os meios de comunicação social. Veja-se, por exemplo, Saramago, no Diário de Notícias, que acharia profilática a queima dessa literatura viciosa e, assim, exercia a censura camuflada, sob a capa das boas intenções.


(CONTINUA)


FLEMING DE OLIVEIRA

-AS (NOVAS) LEIS REVOLUCIONÁRIAS. -A JUSTIÇA EM NOME DO POVO (1974-1975)

(I)



Entre marido e mulher…
Plenário de Advogados diz, NÃO!.
O Juiz/Poeta Madeira Bárbara, colocado em Alcobaça.
Os tribunais de Alcobaça, Tomar e Boa-Hora.
O José Diogo, mata um latifundiário e tem o apoio da UDP no Campo Pequeno.
Sopapos e mimos entre um PPD e um CDS.
Tribunais Populares Tribunais Cívicos e um Auto de Fé.
A Concordata, o aborto e o feminismo.
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Palha da Silveira (Desembargador jubilado), um juiz polémico.

Se pensarmos bem, e depois de alguns anos de experiência, damos conta de que os advogados pertencem a uma classe especial de contadores de histórias, pois que afinal, não fazem outra coisa senão contar histórias, a partir de outras tantas.
O destinatário não é apenas o juiz.
Uns contam tragédias, outros, comédias. Uns preferem o conto, outros, a novela, o romance ou o ensaio e fazem-no com maior ou menor imaginação ou talento.
Mas todos, ao contar histórias, dão sua própria versão dos factos. Sim, porque o que pretendem como sentença, denúncia, testemunho, não é pura narração, mas uma construção, isto é, uma interpretação a partir do que a mente percebe e a memória retém.
Neste livro trata-se, enfim, de uma história recontada conforme os sentidos, as necessidades, os interesses, as crenças, as limitações. Não existem só factos. Existem interpretações, mesmo porque o direito, escreve roteiros que permitem aos atores grande margem de improviso.
De certo modo, o direito é uma ficção que, não se assume como verdadeira ficção. Quem são afinal os advogados senão bons contadores de histórias, e que, como bons contadores, contam-nas conforme o seu respectivo auditório (juiz, tribunal, leitores, etc.), com ele interagindo e persuadindo-o?
Enfim, que fazem os advogados senão contar histórias, mais ou menos verosímeis, mais ou menos exatas, no seu interesse e no interesse de seus clientes ou leitores?

Eles gostam muito de beber, é o comentário que num misto de condenação e desculpa fazem em geral os familiares e vizinhos do casal, que já lá vão 35 anos vivia num lugar do concelho de Barcelos.
Mas daquela vez a discussão acabou no hospital da pior maneira para Maria Domingas, de 39 anos, que só teve alta ao fim de dois dias. Esta foi espancada pelo companheiro, com quem vivia há 4 anos, até que caiu inanimada no chão da cozinha. Este, que já tinha alguns antecedentes criminais por violência doméstica e não só (fora despedido da fábrica por ter dado um murro no encarregado), apresentado pela GNR ao juiz, saiu em liberdade, com o agrado da opinião pública.
Entre marido e mulher…
Duas filhas da Domingas (…) assistiram sem grande sobressalto à cena, que terá começado quando aquela atirou com um martelo e uma chave de fendas ao companheiro e depois ainda o atingiu com uma mesa. O homem respondeu, puxando-lhe os cabelos, calcando as mãos e batendo na cabeça.
Quando o filho mais velho chegou a casa, encontrou a cozinha toda baldeada, com pingos de sangue e a mãe estendida no chão.
E agora o que vamos jantar?
Tal como as irmãs, entende que a mãe que nunca acertou com os homens, não tem juízo pois que que numa casa quem tem calças é o homem…

Em meados de Julho de 1975, reuniu-se em Coimbra um Plenário de Advogados, no qual Fleming de Oliveira recém advogado em Alcobaça, proveniente do MP, se tinha inscrito, mas acabou por não comparecer, que disse NÃO! à criação de Tribunais Especiais. Esta posição que foi subscrita, entre outros, por Sousa Tavares, Proença de Carvalho e Abranches Ferrão, era oposta à do Conselho da Revolução e Governo, que pretendiam elaborar legislação adequada e tribunais específicos para o julgamento de criminosos fascistas, como os agentes da PIDE e os implicados na intentona reacionária de 11 de Março. O Dr. Amílcar Magalhães também não foi, e estava ansioso por saber como iriam decorrer os trabalhos.
Os advogados recusaram, quase por unanimidade, uma moção de apoio à linha política do CR. Também foi recusada, acompanhada de muitos protestos, com os advogados de pé a gritar severamente Rua, Rua, uma outra, da iniciativa de Duarte Vidal, que propunha a adaptação da advocacia ao rumo socialista!
Fleming de Oliveira teve, há tempos, acesso ao conteúdo dessa iniciativa, de que destaca a proposta de ida de uma delegação de advogados a países socialistas, a fim de recolher elementos para uma mais correta inserção da advocacia na nova sociedade portuguesa (leia-se socialista).

A forma categórica como rejeitou a ajuda do oficial de justiça, denunciou uma personalidade orgulhosa e indómita. Caminhou erecta até ao lugar indicado, apenas apoiada na bengala, que agarrava firme na mão direita. Permaneceu de pé. Os cabelos alvíssimos e as rugas profundas, que não disfarçava, anunciavam uma idade provecta, mas indefinível.
–Pode sentar-se, minha senhora, dirigiu-se-lhe com delicadeza o juiz Madeira Bárbara, poeta de rima duvidosa, mas cujos pensamentos chegou a estar afixada em algumas salas do Tribunal, nomeadamente na Sala dos Advogados, por iniciativa do Secretário Judicial e activista do MDP, José Maria Cascão.
–Ficarei de pé, como me impõe o respeito devido a este Tribunal, ripostou num tom que quase não admitia réplicas, batendo com a bengala no chão de soalho carunchoso.
Note-se que por esta altura o tribunal, em muito más condições, funcionava ainda no primeiro andar da ala norte do Mosteiro, aguardando a mudança para o novo edifício feita por mão de obra prisional, quase concluído.
Às perguntas da praxe foi respondendo, sem hesitações: nome, estado civil, morada, profissão.
–É alguma coisa a algum dos interessados nesta acção?
–Sou a mãe do Francisco.
–Mas não está zangada com ninguém?
–Jesus Cristo ensinou-nos a amar até os nossos inimigos.
–Sim, mas o facto de ser a mãe do Francisco não a vai impedir de responder, com verdade, àquilo que aqui lhe for perguntado?
–Na minha idade, Senhor Doutor Juiz, o temor das penas do inferno impede-me a mentira.
–Muito bem! Então jura por sua honra que vai dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade?
–Juro por Deus, Senhor Doutor! Pela minha honra não, que ela se perdeu, tal como a deste pobre País…
O juiz, perplexo, disse apenas:
-Adiante, mas jura?

José Diogo, assalariado rural, foi acusado de ter morto à facada em Castro Verde, Columbano Monteiro, um latifundiário de 78 anos, seu antigo patrão, que o havia despedido e ameaçara.
Em sua defesa, o réu invocou a provocação da vítima e um longo rol de acções prepotentes ao longo do tempo da outra senhora. Depois de muitas peripécias que o caso provocou, dada a atenção (política) de que foi objecto, o réu foi julgado e condenado. De uma das vezes em que o julgamento estava agendado, quando o processo corria no Tribunal de Tomar, cujos advogados de defesa eram José Augusto Rocha, Amadeu Lopes Sabino e Luís Filipe Sabino e de acusação, Proença de Carvalho, o Tribunal Colectivo presidido pelo Corregedor Soares Caramujo, que lhe havia imposto uma caução de 50.000$00, marcou nova data para Outubro. No exterior, na escadaria do edifício, organizou-se um Tribunal Popular, composto por 20 elementos seleccionados entre a assistência, operários da cintura industrial de Lisboa e assalariados rurais do sul. José Diogo, homicida confesso, foi absolvido, apesar de o tribunal ter reconhecido que, a ação, sendo um acto de violência individual não podia ser considerada revolucionária, enquanto que a vítima foi condenada postumamente, pela opressão e exploração que exerceu sobre o povo.
A fiança foi paga por Américo Duarte, deputado da UDP na Assembleia Constituinte, e à noite, José Diogo, compareceu num comício daquele partido no Campo Pequeno, que o vitoriou como herói da Revolução proletária.
Este caso é interessante, pois põe-nos em confronto diferentes graus de regulação das formas de direito. Para o direito aplicado pelo Tribunal Popular, a legalidade revolucionária, a acção da vítima e réu, eram eticamente semelhantes. Se a acção do acusado não era considerada como revolucionária, era todavia isenta de culpa, como resposta ao comportamento provocatório da vítima.

Na Bemposta, a vida seguia o seu ritmo tradicional nesse mês de Maio ou Junho de 1974, sem grandes conflitos entre os seus habitantes. Mas nem tudo eram rosas neste período pós-revolução e os desentendimentos entre a vizinhança continuavam normais e inevitáveis, como ancestralmente. Foi isto que aconteceu entre dois homens nesta localidade perto de Alcobaça. Um deles foi mordido pelo cão do vizinho e levou o caso ao regedor. Ainda havia regedor. A vítima alegou ter perdido seis dias de trabalho, facto que comprovou com um atestado médico do Dr. Henrique Trindade Ferreira, e exigiu o pagamento das despesas médicas e a jorna perdida. O assunto ainda estava em fase de mediação, quando os dois vizinhos chegaram a acordo.
Ficou decidido que o dono do cão iria lavrar a terra do seu vizinho, até que esse serviço pagasse o prejuízo da vítima. A amizade de muitos anos entre os dois falou mais alto num assunto que poderia ter tido um desfecho pior, se tivesse sido levado à GNR do Sarg. Barbosa ou ao tribunal.
E assim se faziam as coisas, em Alcobaça.

Em Novembro de 1975, no Tribunal da Boa-Hora, estava marcado o julgamento de Maria Rodrigues, acusada de ter ocupado uma casa clandestina, melhor dizendo, um cubículo clandestino pertencente a Viúva Rodrigues & Rodrigues, Ldª.
Perante a decisão do Juiz em realizar o julgamento na Sala de Audiências, as cerca de 400 pessoas que haviam comparecido para demonstrar a sua solidariedade com a acusada, convocaram um Tribunal Popular com Júri, que realizou o julgamento no pátio, e decidiu que a senhoria era especuladora, exploradora e opressora do povo e, como tal, sua inimiga. As denunciantes, eram fascistas criminosas, inimigas do povo, pelo que iriam ser levadas a tribunal popular, quando o povo assumisse o poder. A inquilina/ocupante foi absolvida, com o reconhecido direito a permanecer na casa, enquanto precisasse. Ainda foi decidido criar uma equipa de vigilantes para defender a Maria Rodrigues, do capital e dos provocadores.
Quanto ao resultado do processo judicial e como terminou tudo isto não conseguimos apurar.

E o caso do taxista pouco escrupuloso que prestava serviço no aeroporto de Lisboa, e que tentou enganar dois pombinhos que regressavam da lua-de-mel?
Na viagem de regresso a casa, o taxista teve pouca sorte, porque a recém casada apercebeu-se de que a tarifa que lhes estava a ser cobrada era imprópria. O caso envolveu a polícia e acabou no tribunal, muito tempo depois cerca de dois anos, que a justiça portuguesa é lenta, muito lenta.
Menos normal foi o tom dissonante dos depoimentos dos dois antigos noivos. Não foram rigorosos e nada esclarecedores.
Não se lembram?, perguntava o juiz, era a vossa lua-de-mel. Concerteza que se recordam daquele dia!
Pois é, a vida moderna e a morosidade da justiça têm consequências estranhas. Os noivos, entretanto, divorciados, tinham varrido das respectivas memórias as recordações que importavam para o caso.

Há algum tempo, Luísa M (…) com trinta e tal anos, foi ao escritório de Fleming de Oliveira, por sugestão de sua mãe Albertina M (…)., que também por lá passara, por alturas de 1975. Apesar do tempo decorrido, Fleming de Oliveira lembrava-se do assunto, pois foi dos primeiros que assumiu enquanto novel advogado no escritório do Dr. Amílcar Magalhães. Albertina M (…), menina de boas famílias de Pataias, aos 18 anos deixou de estudar, para casar, com um rapaz de 25 anos, com um bom emprego, mas sem fortuna. Foi um verdadeiro romance de amor, bem aceite em casa, que acabaria por ser abençoado no altar do Mosteiro de Cós. Mas a paixão arrefeceu e, passados não muitos anos, a quase ainda menina, viu o marido sair de casa, deixando-lhe uma filha nos braços. Luísa M (….) para criar educar. Como era pessoa de profunda e tradicional formação católica, que aliás herdou da família aonde havia dois sacerdotes, rejeitava liminarmente o divórcio, que aliás nem era possível. Luísa (M…) recorda a dor que a ruptura conjugal provocou na mãe, a que acresceu uma certa marginalização da sociedade, família e amigos. Albertina (M…), achava que o marido, ao sair de casa e deixar a família, cometeu um pecado grande e, por isso, não iria para o Céu. Embora tenha refeito a vida com outro homem, com quem viveu (e cremos que ainda vive não obstante ser idosa), muito mais tempo, que com o primeiro marido, é a aliança do casamento católico que sempre manteve no dedo, verdade seja dita, com um certo constrangimento do outro. Albertina M (…), sempre ouviu dizer em casa dos pais, que o que Deus juntou ninguém pode separar. O facto de a lei civil não permitir o divórcio aumentava o sentimento de culpa/pecado da mãe, que só teve mais dois filhos, aliás muito mais novos que Luísa M (…), após legalizar a situação no escritório do Dr. Magalhães, isto é, convertendo a separação de pessoas e bens em divórcio, evitando o ónus dos filhos ilegítimos.

Naquela história, estava em causa uma troca de sopapos entre dois elementos locais de partidos diferentes, num sábado à noite de campanha para as eleições para a Constituinte. O do PPD, apresentou queixa contra o outro do CDS, por ofensas à integridade física. Tudo acabou de uma forma satisfatória, de acordo com o auto elaborado pelo Sarg. Barbosa, que até se dizia ir lanchar muitas vezes a casa do queixoso, de onde trazia um garrafão…., de vinho ou azeite.
Pelos elementos apurados, não se compreende na realidade o que se passou, visto que houve gente ouvida no processo que não falou a verdade. Há duas testemunhas a dizer que o agressor andava num Fiat branco e, pelo menos uma, afirmou que era o sr. Manuel (…) que tem um Fiat branco. Apareceram outras pessoas de boa situação social, uma professora, um bancário, um comerciante e um empreiteiro, também conceituados na praça a dizerem o contrário. Isto é, disseram que estavam naquele momento com o arguido. Assim sendo, havendo só um Manuel (…) não poderia estar em ambos os locais à mesma hora.

No Tribunal de Alcobaça, um certo individuo estava a ser julgado pelo juiz Morais, que durante quase um ano só despachava no crime. Na parte final do julgamento, o juiz fez-lhe perguntas sobre as suas posses e rendimentos. Tinha em vista colher dados que lhe permitissem fixar o montante da multa se, porventura, viesse a impor-lhe uma sanção desse tipo. O valor de cada dia de multa é fixado em função da situação económico-financeira do arguido.
Este, era pouco esperto mas muito vaidoso, pelo que não querendo prejudicar a imagem de empresário de sucesso que julgava arranjado em França, respondeu que não tinha salário fixo, havendo alturas em que ganhava muito dinheiro e outras em que ganhava menos. O juiz, que precisava de dados concretos, provocou uma resposta concreta, perguntando:
-Ganha 1000, 2000, 5000 contos por mês?
O arguido, do alto da sua soberba, respondeu apenas que havia meses em que até ganhava mais. Foi condenado na taxa diária máxima.

(CONTINUA)
FLEMING DE OLIVEIRA


ALCOBACENSES NA REVOLUÇÃO (PREC)-1975




-ARMAS (G3) DISTRIBUIDAS NOS MONTES
-AINDA RIO MAIOR
-ASSALTO E DESTRUIÇÃO DA SEDE DO PC (Alcobaça)
-DE QUE É QUE ESTÃO À ESPERA?
-DEPOIMENTOS DE COMUNISTAS E NÂO SÓ

Em pleno movimento contestatário de Rio Maior, soube-se que estava previsto que, dos lados do Bombarral, viesse um grupo de populares armados com caçadeiras e outras armas de origem desconhecida para apoiar os camaradas de Leiria, que estavam em apuros, cercados por populares. Quando o grupo chegou a Rio Maior, foi detido nas barricadas, cujos elementos apreenderam cerca de 18 armas que, tal como os portadores foram entregues, no posto local da GNR, não sem antes terem levado um bom par de democráticos tabefes e açoites no lombo.
Perante este incidente, os manifestantes excitaram-se ainda mais, pelo que teve de ser solicitada a intervenção do Quartel de Caldas, na perspectiva de repor alguma ordem, que fez deslocar ao local o próprio comandante o Ten. Cor. Viegas Vaz, na companhia de mais dois militares, conduzidos num Land Rover, pelo fiel 70 que sempre que tinha oportunidade, gostava de estar presente nos momentos quentes. O comandante, quando chegou a Rio Maior, encontrou militares de outras unidades, que desmotivados e sem comando, tentavam controlar as entradas na vila, de modo a impedir mais conflitos. Subiu para cima de uma carrinha de caixa aberta e ordenou aos manifestantes que debandassem, pois se não o fizessem, ainda teria de mandar activar uma morteirada.

O PC assegura que nunca distribuiu armas aos seus militantes. Alguns factos ocorridos durante o PREC, desmentem esta afirmação, que não é apenas fruto de vox populi. Vejamos um curioso acontecimento ocorrido nos Montes, onde os nomes dos intervenientes, não serão referidos, mas para bom entendedor…, bem os de Alcobaça, aquando dos incidentes com a sede do PC e outros, como vimos.
Numa daquelas noites quentes do verão de 1975, cerca das três horas da manhã, M (…), residente nos Montes, ao chegar próximo de casa do pai, ouviu vozes vindas do interior duma adega próxima. Aproximou-se e escondeu-se numa travessa lateral, ficando à escuta. Apercebeu-se que dentro estavam umas quatro pessoas, reconhecendo pela voz, dois de Montes, L (…) e R (…), conhecidos activistas muito ligados ao PC e apenas um de Alcobaça, o controleiro C (…). No desenrolar da conversa, num tom de sussurro, constatou que se tratava duma entrega de armas por parte dos indivíduos de Alcobaça aos de Montes, ao que estes diziam que (…) cinco chegam, não são necessárias mais, com cinco tomamos conta da situação, dá para controlar isto. Eles não valem nada.
M (…) que estava à escuta do lado de fora, esperou que o grupo se se separasse e fosse embora e pensou para si que, tenho que ver que armas são essas, que estão em tão boas mãos.
Por acaso, como conhecia bem os cantos à casa, neste caso à adega, por se dar bem com o dono L (…), resolveu entrar. Acontece que apesar de existir uma pequena porta lateral, com truque, mas o qual o próprio dono lhe tinha ensinado, o principal problema era o cão, que se encontrava ali preso e que não parava de ladrar. M (…) abriu a porta, entrou sorrateiramente e como reconhecia o interior, mesmo às escuras, julgou saber que as armas estariam escondidas debaixo de uns tonéis. Pé ante pé, para não acordar ninguém, nem excitar o cão, que aliás o conhecia, apalpou e não se enganou, lá se encontrava um embrulho de pano com as armas de guerra. Como tinha sido militar, percebeu que se tratavam de espingardas G3, de facto as cinco. O seu primeiro pensamento foi de levar as armas, mas pensou melhor e refletindo achou que isso seria imprudente. Conhecendo as armas como a palma da mão, decidiu, desmontar uma a uma e mesmo às escuras, retirou-lhes o percutor. Voltou a montar as armas, colocou-as no embrulho, meteu os percutores no bolso e saiu sem fazer barulho, apenas o cão deu por ele com um ou dois latidos de despedida. Estas armas nunca foram utilizadas, e os percutores ainda hoje, trinta e cinco anos passados, se encontram na posse de M (…), que se ri do golpe de mestre que executou e que as vítimas possivelmente nunca perceberam.
E que conta aqui pela primeira vez!

Eu próprio testemunhei, diz o vendedor de uma casa comercial de Coimbra, Aniceto Barbosa, que num café de estrada, ao lado da EN 1, depois da Batalha e antes de chegar a S. Jorge, um cliente assomou ao balcão, pediu uma cerveja e uma sande mista e meteu conversa com o empregado, perguntando se a sede do PC, em Alcobaça, ainda estava inteira. Como o empregado respondesse que supunha que sim, o cliente disse que vivia em Lisboa, mas era natural de Aljubarrota, pelo que achava que era uma vergonha ainda nada ter sido feito, pelo que o empregado lá teve que retorquir que supunha que em Alcobaça já estavam a pensar no assunto. E estavam.
A cronologia dos acontecimentos da segunda-feira, dia 21 de Julho de 1975, em Alcobaça, tem sido descrita por vários intervenientes de ambos os lados da barricada, aliás de maneira diversa e por Mário Vazão, numa reportagem que O Alcoa publicou e que ainda serve de modelo. Vazão sobre este assunto disse que esse dia longínquo marcou qualquer um e no caso do jornalista, mesmo amador, são coisas que não se esquecem. Sentimos que estávamos a presenciar a História e a escreve-la para as gerações vindouras.
A sirene dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça tocou numa espécie de senha às 11h40m. Isto tinha sido debatido em várias reuniões, nomeadamente no Casal Velho, e noutra realizada na sede de Alcobaça do PPD. Estiveram presentes nesta, entre outros, Firmino Franco, Lino Catarino, Miguel Damásio, Casimiro Guerra, Fleming de Oliveira, Carvalho Lino, este que fazia parte da CA da Câmara. A iniciativa não foi do PPD, mas algumas pessoas do partido estavam ao corrente do que se passava. Silva Carvalho, membro da Comissão Política, sobre este assunto não tinha informação, ao contrário de Sapinho que estava ao corrente, mas que como Constituinte, salvaguardou-se, não participou em reuniões e no dia ausentou-se, prudentemente (segundo alguns), ao que se disse, para o Sabugal. Depois do almoço, no centro da Vila, na Praça D. Afonso Henriques e arredores, estava uma multidão contida de mais de duas mil pessoas, que só ainda não tomara de assalto a sede do PC, por estar guardada por militares, que foram chamados de Leiria para a defender. Alguns populares de Montes e Alfeizerão subiram para cima de alguns carros militares. Havia receio das consequências de uma acção pois, no rés-do-chão, encontrava-se instalada a Farmácia Campeão, aonde havia produtos inflamáveis ou até explosivos. Houve pessoas que garantiram, como Piedade Neto, que foram vistas armas a entrar no prédio, passando por cima do telhado, embrulhadas em panos, apesar de as coronhas terem ficado à mostra. Esta afirmação veio mais tarde a ser expressamente e publicamente desmentida por Rui Baltasar, num programa da Rádio Cister.
O propósito de assaltar a sede do PC não era especialmente novo, original nem resultou de um impulso de momento. Na opinião de Vazão, pouco coincidente com outras, apenas ocorreu no Salão Nobre da Câmara já depois de eu lá estar e com o José Pinto junto a mim como se eu fosse um super-homem. Um elemento do PS disse mais ou menos isto: consta que na sede do PC têm armas. Vamos assaltá-la para se saber se é verdade.
Dois rapazotes conseguiram, a meio da tarde e socorrendo-se de uma corda, trepar pelas traseiras do prédio, a partir da Praça da República e retiraram a bandeira da foice e do martelo, perante aplausos vibrantes. Um militar que entretanto entrou na sede do PC, veio à janela mostrar duas armas e dizer que, com esta, são cinco as já apreendidas.
José Póvoa, Firmino Franco e António Malhó, deslocaram-se dos Montes para Alcobaça, onde já tinham estado de manhã frente à Câmara, quando souberam que estava eminente o ataque à sede do PC. Ao chegarem, encontraram muitos manifestantes a ladear a sede, pelo que foram abrindo caminho com dificuldade, até chegaram perto da porta. Entre eles encontrava-se Armindo de Sousa, que trabalhava numa fábrica de rações, com os seus trinta anos, e viera de Leiria com dois amigos, à procura de emoção mas que, por via de dúvidas, não esquecera uma pistola que pertencia ao pai. O local estava a ser guardado por militares, não permitindo a entrada a ninguém. O cerco à sede do PC manteve-se persistente e sem desarmar, até que uns amedrontados comunistas, que se encontravam dentro do edifício, cerca das 19h30m, saíram escoltados por militares, entraram para uma Berliet descapotável. Muitas pessoas que assistiam aos acontecimentos, comentavam à boca cheia que, eles estão mesmo a pedi-las, e esses malandros, esses filhos da p… ou eu muito me engano ainda vão te-las hoje forte e feio. Aqueles que saíram já se safaram. Vê como vão aliviados. E se lá ainda ficou alguém, não queria estar na sua pele.
José Vinagre conta que estes militares eram desajeitados, mesmo mal preparados, pois que até dispararam sob as arcadas da Praça D. Afonso Henriques, o que se revelou perigosíssimo pois, as balas, faziam ricochete e uma delas atingiu um assistente num braço que de imediato começou a sangrar. Cerca das 22h decidiu-se finalmente iniciar, o assalto à sede do PC. Desde há algum tempo, os populares vinham ganhando terreno, avançando, tendo conseguido forçar a porta que dava acesso ao primeiro andar. O primeiro, irrompeu pela escada de madeira de pinho encerado e gasto pelos anos, composta por um só lance e que dava acesso ao piso superior. Neste, existia uma porta em frente e uma outra para a direita que dava acesso à sala principal. Quando estava sensivelmente a meio da subida, a porta em frente abriu-se e daí vieram um ou dois tiros, o que o obrigou a recuar, tropeçando nos degraus. Os que se encontravam na rua, junto à entrada, foram surpreendidos pelo tiroteio, pois supunham que lá já não se encontrava ninguém. De facto, dois militantes comunistas Rui Baltazar e Américo Areias não saíram com os restantes na primeira oportunidade, ficando com dignidade a guardar a sede. Entre os sitiantes, os ânimos exaltaram-se mais, pelo que voltaram a fazer uma investida, desta vez, com vários voluntários, que foram de igual modo recebidos a tiro. Na sequência desta segunda investida, um individuo de grande estatura, residente na zona de São Jorge, encetou uma corrida pelas escadas acima, mandou um pontapé à porta em frente, onde se encontrava o atirador, e avançou dentro. José Acácio dos Santos, contou que o atirador, talvez por já não ter mais balas tentou apunhalar o intruso, com uma facada. Um outro que o precedia, ao perceber o que estava para acontecer alertou: cuidado com o filho da p…, o gajo tem uma faca. O aviso foi mesmo a tempo de se virar, agarrar o braço e desarmar o agressor. Não contendo a sua raiva, agarrou nele e atirou-o pelas escadas, entretanto já ocupadas por populares, que entre socos e pontapés, o enxotaram até à rua, onde ainda foi agredido a pontapé e arrastado até perto da montra da antiga TeleRio. Afinal, na sede do PC havia armas, ainda que só caçadeiras, pois os atacantes foram recebidos a tiro, sofrendo cinco feridos, um dos quais foi levado para o hospital. Como os militares tinham ido embora, a partir daí deixou de haver controlo da situação, pois que os gases lacrimogéneos não foram dissuasores e o recheio, começou a vir rapidamente para a rua. Duas equipas estrangeiras de televisão, uma americana e outra inglesa, filmaram os acontecimentos, cujas imagens os portugueses nunca viram. Américo Areias e Rui Baltazar que tinham ficado na sede enquanto os outros fugiram mal puderam, tiveram de ser assistidos no Hospital, pois ficaram feridos, o que justificou o seu agradecimento público no Voz de Alcobaça, aos camaradas e verdadeiros democratas, esperando voltarem breve ao seu convívio. Américo Malhó, conta que havendo um militante do PC no solo, que parecia morto, alguém saiu do meio da multidão, ajoelhou-se ao seu lado e pediu com veemência ele é meu, deixem-me acabar com ele à dentada...

Na tarde desse dia, José Vinagre, encontrava-se na Benedita a trabalhar no seu estabelecimento comercial, mas ouvindo na rádio, que estavam a ocorrer graves incidentes em Alcobaça, ali se deslocou, cheio de curiosidade. Tendo familiares e amigos nos Estados Unidos, recebeu alguns preocupados telefonemas a inquirir o que se passava. Mais vez, os emigrantes e estrangeiros sabiam o que se passava em Portugal, primeiro que os portugueses, como no tempo da outra senhora.
De madrugada, o povo alcobacense que ocupava o edifício da sua CMA, já sem a presença de José Pinto, cuja romântica intenção, no seu dizer linear, era ver todos os alcobacenses unidos, em prol do progresso da nossa terra, distribuiu um comunicado em que se destacava o propósito de destituir imediatamente a CA da Câmara maioritariamente, realizar plenários com a presença de um representante do MFA e das freguesias, para eleger um presidente e um vice-presidente, até se realizarem eleições para as autarquias locais. Este propósito, apesar de alguns desenvolvimentos a curto prazo, não teve efeitos, porque a demissão de Pinto não foi aceite e este aceitou, muito gostosamente, voltar ao lugar, de onde fora expulso pelos seus conterrâneos, como se nada de especial tivesse ocorrido…
Ele gostava muito do lugar.
No dia seguinte, de manhã, apesar da insistência do encarregado Henrique Pimenta, o pessoal da Câmara sob as suas ordens, responsável pela limpeza das ruas, não queria proceder à remoção do recheio da sede do PC, deitado à rua. De facto, na véspera tinham sido atiradas granadas de gás lacrimogéneo para dispersar a multidão, cujos efeitos ainda se faziam sentir, na medida em que ficara retido nos destroços húmidos pela água utilizada para apagar os pequenos focos de incêndio.
Sabia-se junto dos manifestantes, numa versão diferente da que parece resultar do que conta Vazão, que a senha para a ocupação da Câmara Municipal, era o toque da sirene dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, pelas 11h40. Assim aconteceu.
Estes, pressionados pelos acontecimentos, vieram a emitir um comunicado em que se refere que (…) no dia 21 de Julho, cerca das 11h40 da manhã, foi recebido no quartel um telefonema avisando que havia um incêndio numa casa, perto da Escola do Vimeiro. Como é hábito, a pessoa que atendeu (o motorista) pediu o número do telefone donde provinha o aviso, ligando para lá de seguida, a fim de obter a confirmação. Deste número ninguém atendeu. Perante a dúvida, o motorista contactou telefonicamente o Comandante (Carlos Leão da Silva, vulgo Caranquejo) para expor o caso e saber se devia ou não tocar a sirene e este, após ligação ao Vimeiro, donde lhe foi comunicado que não sabiam se efectivamente havia incêndio, mas que os sinos tinham tocado a rebate. Viria a saber-se, mais tarde que, à mesma hora, na Gafa, um grupo de pessoas começava a avançar para a Câmara (…).

Basílio Martins, que fazia já parte do Corpo dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, desconhecia obviamente a existência de qualquer senha, tomou como bom o toque da sirene e conta que depois, em Alcobaça, dizia-se que já não percebo nada disto. Quando toca a sirene, costumamos ver pessoas a caminho do quartel, para saberem o que se passa; agora, vai gente a correr para a Câmara.
Efetivamente, no tristemente célebre dia 21 de Julho de 1975, um dos sinais para o começo da invasão da Câmara Municipal foi dado, pelas 11 horas e 40 minutos, através do toque da sirene dos bombeiros. Segundo a chamada telefónica recebida no quartel, tratar-se-ia dum incêndio numa casa, perto da escola do Vimeiro. Como elemento do Corpo Activo, fiz parte da guarnição da viatura para o local, onde verificámos ter sido falso alarme.
Após o regresso do Vimeiro a Alcobaça, tomando conhecimento do que na realidade, se estava a passar, dirigiu-se aos Paços do Concelho, para observar os acontecimentos.
Mal cheguei ao primeiro andar do edifício, fui reconhecido como activista do Movimento Democrático e logo hostilizado por vários manifestantes.
Apercebendo-se do facto, e no intuito de evitar novos pretextos de conflito, alguns agentes da PSP insistiram para que subisse ao Posto, que então funcionava no terceiro andar.
Lá permaneci até a situação acalmar. Retido, não detido, num ambiente de estima e cordialidade que não esqueço e que até chegou ao ponto de o chefe fazer o favor de partilhar comigo o seu almoço.

Sobre estes acontecimentos, Artur Faria Borda escreveu, com a sua veemência habitual, no Voz de Alcobaça, de 1 de Agosto que (…), actos repulsivos, perpetrados por pessoas ignorantes ou mal intencionadas, instigadas por outras de espírito sectário e reaccionário, todas, no conjunto, dementadas pela paixão, perante a ineficiência das forças militares encarregadas de manter a ordem. (…) Não tenhamos ilusões. Dias difíceis nos esperam, pelo que se impõe a unidade de todos os portugueses, verdadeiramente interessados no progresso da nossa querida Pátria. Não é com um clima de guerra civil, que se podem superar as dificuldades. (…) Mostremos ao mundo que somos dignos de nós próprios e que saberemos construir um Portugal renovado e radioso.

Rogério Raimundo, tem uma opinião, não coincidente com a dos reaccionários.
A versão em que acredita, vem dos seus camaradas Américo Areias e Rui Baltazar que resistiram e sofreram a pancadaria dos assaltantes arruaceiros e dos agitadores contra-revolucionários que percorreram o país, bem pagos, para fomentar esta desordem, numa onda anti-comunista e para instalarem o medo juntos dos que lutavam pelos ideais da Revolução de Abril.
Já há alguns dias, havia permanência de comunistas na sede, dia e noite, para a defenderem. De acordo com Rogério Raimundo, perto da hora de almoço, o militar que comandava a defesa do Centro de Trabalho, conseguiu convencer 28 dos 30 que lá estavam, a serem evacuados numa chaimite, apesar de afirmar que nunca permitiria que alguém invadisse a sede do PCP, só por cima do meu cadáver. Afinal não houve cadáver nenhum.
O pior só se passou quando este grupo de militares foi substituído, pois o novo comandante das tropas destacado chegou, abandonou a zona de protecção e foi o descalabro.
Rui Baltazar, assume que houve alcobacenses que ocupavam lugares em instituições de Alcobaça, que foram com os agitadores até ao 2º andar e se comportaram como energúmenos.
Quer Américo Areias, quer Rui Baltazar, dizem que naqueles momentos ouviram gritar, deixem-nos morrer para aí. É o que merecem.
Américo Areias ficou ferido e teve de ser transportado ao Hospital por Carlos Carmo, actual membro da PJ. Rui Baltazar, que chegou a ser considerado como morto, mas felizmente recuperou, trabalha como empresário de panificação em Valado de Frades.
Só quando acabou o treino no CCC, é que Rogério Raimundo se deslocou a Alcobaça e viu a fogueira com os móveis e papéis da sede do PC na rua.
No dia seguinte, militantes da UDP e outros marxistas como por exemplo o MRPP, entendiam que o PC era o único culpado de ter sido atacado. Américo Areias esteve três semanas hospitalizado, tendo alta no dia do comício no Gimnodesportivo, com a presença de Álvaro Cunhal e que adiante abordaremos.
Em ar de brincadeira, Rui Baltazar dizia que feitas bem as contas tínhamos ganho 3-2, pois houve 3 feridos do lado dos arruaceiros e 2 do PCP.
Mas as contas, talvez, não estejam certas.

E o que pensa sobre estes incidentes, Timóteo de Matos, que hoje em dia pouco ou nada tem de comum, com o seu irrequieto tempo juvenil de 1974/1975, em que ainda não usava gravata?
Desde o 1º de Maio de 1975, tanto em Alcobaça como a nível nacional, extremaram-se, cada vez mais, as posições e iniciaram-se provocações verbais ou escritas e nalguns casos seguidas de agressões. É então que, no Norte se iniciou a moda os assaltos aos Centros de Trabalho do PC e quando chegou a vez de Alcobaça, já não foram necessárias lições, nem mão-de-obra alheias.
Aqui damos-lhe razão. Reuniões muitíssimo discretas prepararam, minuciosamente, o ataque que foi marcado para uma segunda-feira, dia 21 de Julho. Embora fosse de esperar, a verdade é que o à-vontade era tanto, que só faltou ter sido publicada uma convocatória nos jornais, pois não havia pessoa que desconhecesse a data e os pormenores. Também tem novamente razão.
Nesse dia, quando cheguei a Alcobaça, foi já depois do almoço. Um razoável grupo de pessoas amontoava-se em frente à sede do PCP. Por ali andei durante toda a tarde, apesar de alguns amigos, temendo o pior, me terem tentado afastar do local. Queridos e grandes amigos! Enquanto isso, lá dentro da sede, um numeroso grupo de militantes recusava-se a sair. Mas já chegava a tropa, vinda não me recordo de onde. Onde chegava a tropa, a sede ardia. E claro, os “briosos” militares conseguiram retirar da sede os seus defensores, juntamente com uma ou outra caçadeira e, de seguida só faltou abrirem a porta aos arruaceiros. Terá sido assim?
Dois militantes recusaram-se a abandonar, a sede do Partido. Dois heróis, como os classifica a história do PC, o Américo Areias e o Rui Baltazar que ainda conseguiu esconder uma velha arma dos olhos dos “aplicados e cuidadosos” militares que vasculharam toda a sede!
Retiradas as defesas, os militares lançaram uma ou duas granadas de gás lacrimogéneo e fizeram meia dúzia de disparos para o ar, para justificar a presença.
Deram, então, os militares a guerra por ganha e ala para o quartel que se faz tarde e quem cá ficar que se avenha, pelo que os arruaceiros viram o campo livre e toca de avançar. Daí a arrombarem a porta e subirem a escadaria foi um passo. Tentou travá-los o digno Baltazar, mas a arma encravou. Depois, a turba multa deu asas à sua ira. O Américo e o Rui foram descidos a murro, a pontapé e à cacetada e desta maneira “passeados” pela Rua Alexandre Herculano e abandonados quase mortos. Foram depois levados ao hospital por almas caridosas. O Américo ainda hoje sofre de mazelas desse tempo, o que lastimamos sincera e democraticamente. Recentemente Américo Areias publicou um livro de histórias para crianças, que foi apreciado em Alcobaça.
Fartos de “molhar a sopa” nos dois desgraçados, os heróicos assaltantes voltaram a subir as escadas e, metodicamente, peça a peça, fizeram descer mobiliário e restante recheio, pelas janelas, até ao solo. Cá em baixo, outros não menos “heróicos energúmenos” fizeram a fogueira e dançaram em volta. Não sei quem foram os verdadeiros e maiores heróis desta história: se os bravos militares, se os corajosos salteadores.
Manuel Campos, que estava na rua a assistir aos acontecimentos, notou que o automóvel de Bertilde (…), um Peugeot quase novo, encontrava-se estacionado ao lado do Café Portugal, isto é, muito próximo da sede do PC. Esta era uma conhecida activista do PC, ao qual se dedicava com alma e coração, pelo que tendo receado que o veículo viesse a ser vandalizado, foi à procura do cunhado João Fragata, e ambos o retiraram, colocando-o a recato.
Na Vestiaria, perto da residência de Campo, vivia uma família, cujo filho era conhecido pela sua intensa militância no PC, enquanto que os pais não revelavam a inclinação. Como nesse dia o rapaz estivesse bastante atrasado em termos de hora de entrada em casa, a mãe sabendo da existência de problemas em Alcobaça e receando por ele, muniu-se de uma grande faca de cozinha e saiu à sua procura, disposta a fazer justiça pelas suas mãos, caso lhe tivesse acontecido algum coisa de mal.
Alcobaça, na sua quase totalidade, consentiu tacitamente na operação e em grande parte ainda se congratulo, aplaudiu-a.
Após o assalto, alguns militantes do PC saíram das suas terras e mantiveram-se noutras localidades, para evitarem vinganças e perseguições. A Comissão Concelhia passou a reunir em Valado de Frades, até à reabertura da sede, vários meses depois. Por mim, conclui Timóteo de Matos, achei que tinha o dever de continuar, dadas as circunstâncias, e assim o fiz.
Mas sempre reservando se ao direito de criticar e discordar. Afinal, estamos num País livre…

António Maduro, cristão e militante do PS, proferiu um depoimento de solidariedade em O Alcoa, eivado dos melhores e mais nobres princípios, salientando que foi com profunda tristeza que vivi os últimos acontecimentos de Alcobaça. Sim, com muita tristeza pois vi no rosto de irmãos o ódio, o desejo de destruir, de matar. Como é possível, Deus meu, a nossa boa gente cristã deixar-se conduzir por processos tão violentos? (…).

FLEMING DE OLIVEIRA


ALCOBACENSES NA REVOLUÇÃO (PREC)-1975




-LEIRIA
-Zé Póvoa
-Rio Maior (sempre)
-V.N. de Famalicão
-O dinheiro de plástico







Sobre os incidentes de Leiria, Óscar Santos, hoje em dia (2010) Presidente da Junta de Freguesia dos Montes, em segundo bom mandato, grande e interessante contador de histórias, muito respeitador da memória do pai e seus companheiros, recorda que há 35 anos, normalmente, as notícias urgentes e importantes chegavam via telefone para a casa do Firmino Franco ou do Café Catarino.
Dessa vez, elas vinham do PPD, de Leiria, num toca a reunir para o assalto à sede do PC.
José Acácio dos Santos, mais conhecido como Zé Póvoa, homem digno e muito respeitado, desaparecido prematuramente, militante do PPD da primeira hora, que nunca deixava de responder a um bom apelo, reuniu dois ou três fiéis companheiros, desta vez sem o filho que muitas vezes o acompanhava, partiram de imediato rumo a Leiria. Ao chegarem ao largo fronteiro à Rodoviária, encontraram algumas centenas de populares que, sem desfalecer ou perder o ritmo, se animavam e gritavam palavras de ordem. A concentração durava há várias horas, sem indiciar desfecho, já que a sede do PC se encontrava guardada por militares que ripostavam com tiros para o ar, cada vez que alguém tentava atravessar a estreita ponte que ligava as duas margens. As horas iam passando, a noite chegava e tornava-se cada vez mais claro que naquele dia as coisas não teriam qualquer desfecho, pelo que alguns manifestantes começavam a desmotivar e a desmobilizar.
A alguns metros do meu pai, um jovem de 18 ou 20 anos gritou que se não conseguimos atacar o PC vamos ao MDP. A maioria das pessoas, nem sabiam onde se situava a sede do MDP e olhavam uns para os outros, como que a perguntar o que fazemos.
Mas os presentes não queriam, melhor dizendo, não podiam, recusar esta fortíssima sugestão e apelo. Entretanto, o mesmo rapaz voltou a lançar a dita palavra de ordem e, juntamente com outro colega, também bastante jovem começaram a correr, dirigindo-se para a rua lateral à Sé.
José Acácio dos Santos sem saber para onde ia, começou a correr e juntamente, com uma ou duas dezenas de populares, encetaram a corrida atrás dos jovens. Pouco a pouco, todos os manifestantes se aperceberam do que estava a acontecer e seguiram-nos. A sede do MDP situava-se no final da rua, num primeiro andar de varandas baixas. Os dois jovens da frente lançaram-se em voo, e agarrando-se às grades da varanda treparam, arrombando a porta. Zé Acácio apercebeu-se que havia iluminação dentro da sede e passados alguns segundos os dois rapazes saíram em voo da varanda e caíram com aparato no chão. Os que assistiam, julgaram, inicialmente, que eles tinham sido agredidos e mandados pela varanda por elementos que se encontravam dentro do edifício. Mais tarde, perceberam que estavam armados com um enxame de abelhas no interior da casa e que a luz estava acesa para poderem actuar. Entretanto, a tropa destacada para defender a sede do PC, ao constatar o que estava a ocorrer, deu a volta pela rua que dá acesso ao Castelo e desceu pela calçada até ao Largo da Sé, parando expectante ao lado dos manifestantes.
O oficial que comandava o grupo, à medida que vinha a descer disparava rajadas de tiros para o ar, na tentativa de se acalmar a si próprio e amedrontar a multidão, o que de facto conseguiu, pois as balas batiam no telhado e na parede da casa em frente, fazendo cair pedaços de telha em cima das pessoas. Nessa altura, um homem munido de uma máquina fotográfica, talvez jornalista estrangeiro, destacou-se da multidão, posicionou-se junto à dita casa, de frente para as tropas, tentando obter em exclusivo fotografias espectaculares. O oficial continuava a disparar descontroladamente rajadas de tiros que atingiam a parede e o telhado da casa. O fotógrafo foi atingido na cabeça, caindo de imediato morto, enquanto o sangue e os miolos escorriam pela parede.
Terá sido acidente? A José Acácio dos Santos custou a acreditar. Óscar Santos é da mesma opinião. As pessoas que estavam à frente começaram a recuar, forçando o grupo a comprimir e andar para trás. Zé Acácio encontrava-se no grupo da frente e contou que a força era tanta, que as pessoas eram arrastadas quase sem tocar com os pés no chão e nesse movimento alguém lhe pisou o sapato que ele puxou com a ponta do pé, até conseguir atingir o vão duma porta que lhe proporcionou abrigo, permitindo-lhe voltar a calçá-lo e seguir caminho. A rua era pequena para tanta gente e aqueles que tentavam empurrar para trás, eram não obstante forçados a avançar. Decorreu algum tempo, até que alguém conseguiu novamente trepar para a varanda do MDP/CDE, entrar e abrir a porta do rés-do-chão que lhe dava acesso. Deste modo, alguns manifestantes começaram a lançar papéis e pequenos móveis para meio da praça, com grande entusiasmo, vivas e palmas. O fogo foi ateado, o material continuou a voar pela janela. E Zé Acácio concluiu que os militares assistiram, não voltaram a disparar e desmobilizaram. Estes militares não estavam, nem podiam estar, ao mesmo tempo com o MFA e com o Povo. Eram Povo, em primeiro lugar.

Fleming de Oliveira, deslocou-se nesse dia pela primeira e única vez para assistir a uma sessão da tarde da Assembleia Constituinte e reunir com Gonçalves Sapinho e dirigentes do PPD. Chegou antes das três e entrou em direcção às instalações do grupo parlamentar, onde esteve à conversa com Costa Andrade. Acontece, porém, que a sessão foi suspensa por cerca de meia hora, devido a ameaça de um engenho explosivo, que depois de aturadas buscas não se encontrou, mas criou alguma excitação, que persistiu mesmo depois de reiniciado o plenário. Sapinho, pelo menos pareceu, imperturbável.

Em Famalicão, arderam toda a noite fogueiras ateadas para queimar os livros, papéis e móveis do MDP/CDE e PC. Durante a noite automóveis e motorizadas pertencentes a elementos de esquerda, foram vandalizados, bem como assaltados escritórios e estabelecimentos de pessoas ligadas àqueles partidos.

E em Rio Maior onde, Aqui começa Portugal?
Com as barricadas de Rio Maior, tratores, pedras, pneus velhos, tudo o que vinha à mão, pretendeu-se impedir que operários da cintura industrial de Lisboa, o COPCON ou ocupas da Reforma Agrária, avançassem em direcção ao norte do País, como retaliação para os ataques que o PC e agrupamentos satélites ou de esquerda, estavam a sofrer sem piedade. O ambiente que nelas se vivia era de excitação, camaradagem e solidariedade. Nunca faltava o frango assado, as febras, uns pastéis de bacalhau, um casqueiro, uma navalha de bolso e um garrafão de tinto do produtor. E alguma música.
Aí estiveram, os indefectíveis dos Montes, mais Joaquim Evangelista, de Alcobaça e Luís Graça, da Ataíja, que se fez a pulso, ainda salazarista, homem bom, solidário, respeitado e que colaborava com o PPD, que conta que a determinada altura, foi localizado um bem conhecido alentejano, que vinha em apoio da Reforma Agrária, do slogan A Terra Para Quem a Trabalha, Abaixo os Latifundiários e contra os empedernidos reaccionários que defendiam o seu património, como os da Benedita até Ataíja, passando pelo Vimeiro e Alfeizerão, e entendiam que ali começava, ou acabava, Portugal. Este sujeito estava referenciado, pelo facto de antes do 25 de Abril ter vendido uma propriedade e aproveitando-se da maré das ocupações, ter de novo voltado a quere-la, agora pela força. Quando o localizaram, percebeu-se que de imediato iriam surgir problemas, pois os populares ao aproximarem-se começaram a mimoseá-lo com nomes que, não apenas fariam corar, mas ofendiam a mãe o pai ou a mulher e a ameaçá-lo fisicamente. A GNR ainda interveio, para o defender, mas o povo chocado com uma presença que reputava de provocatória, tentava atingi-lo, o que se conseguiu, causando-lhe ferimentos, mais ou menos dolorosos. A agressão só terminou, quando a GNR compadecida do alentejano, pediu para que fosse deixado em paz, o que aconteceu no meio de enorme assuada, sem mais ser visto por ali, ao que se diz até hoje.
Francisco Catarino, que sempre que podia ia às movimentações, conta que quando foi com os companheiros dos Montes apoiar o movimento de Rio Maior, teve de deixar o carro na Ribafria, seguindo o restante percurso a pé. Ao chegarem perto de Rio Maior, encontraram dois soldados, ali destacados, pertencentes ao Quartel de Caldas da Rainha, que lhes disseram para não seguir por determinada rua, pois a sede do PC estava a ser atacada e os comunas já estavam a queimar dinheiro de plástico. Catarino nunca tinha ouvido falar em dinheiro de plástico, não sabia o que era, nem o que aquele conselho significava. Seja como for, sem mesmo perceber nada do assunto, criou a partir daí uma profunda e inexplicada animosidade ao dinheiro de plástico, pelo que quando tempos depois começaram a aparecer os cartões, nunca se serviu deles. O seu estabelecimento passou a ter de usar cartões, mas quem o faz é a filha.
Francisco Catarino nunca utilizou nenhum, os seus negócios são, apenas, com bom dinheiro vivo.


Fleming de Oliveira

ALCOBACENSES NA REVOLUÇÃO (PREC)-1975

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-Arsenal de armas em Bouças-Alpedriz
-Um Franco nada exagerado
-Incidentes em Amor, Batalha, Sever do Vouga, Águeda,
Évora, Póvoa do Lanhoso, Ponte de Lima, Braga, Lamego,
Viseu, Ponta Delgada, Angra do Heroismo e outros mais
-Bancários do BPA (Lisboa) manifestam-se muito
democraticamente
Para apoiar a luta dos batalhenses organizou-se, no dia 17, um grupo nos Montes-ALcobaça, composto, entre outros, pelos primos e companheiros Américo e António Malhó, José Firmino Franco, bem como Jorge Mateus, em cujo carro se deslocaram.
Ao chegarem à Batalha, e antes da entrada na vila ouviram dizer que os comunas da Marinha Grande já vinham a caminho, pelo que decidiram voltar a casa, para buscar as caçadeiras ou o material que houvesse. No regresso à Batalha, ao passarem no Juncal, já se dizia que à entrada da Batalha havia brigadas populares a revistar os carros. Por isso, o António Malhó disse que ia fazer uma mija, vou ali e já venho e, resolveu enterrar num pomar junto à estrada, a pistola, aliás ilegal, que possuía e tinha ido buscar.
Chegara pelo lado de S. Jorge, e antes mesmo de entrarem na vila começaram a ouvir tiros, pelo que o Jorge Mateus parou o carro, querendo estacionar, para fazer o resto a pé, já que estrada estava barricada por populares armados de caçadeiras. O José Firmino Franco disse para o Jorge Mateus segue até lá para ver se nos deixam passar. Ao aproximarem-se, reconheceram um dos populares que estava na barricada de caçadeira em punho com os canos virados para o solo. Olha quem está ali, disseram uns para os outros.
Ao chegarem junto desse popular, o Franco sacou da pistola que trazia e da janela do carro apontou-lha, tentando que o gesto não desse muito nas vistas e disse oh pá, deixa passar a malta e vê lá se tens juizinho na tola, não penses levantar a caçadeira senão já sabes o que acontece, e não queiras experimentar, digo-te eu que sei. Este defensor da revolução, que por acaso era dos Montes, mas pouco valente, gritou para os seus camaradas deixem passar estes, que é malta fixe.
Em seguida foram até ao Mosteiro sem problemas de maior com o carro e o Jorge que o conduzia, começou às voltas no adro, onde apenas se encontravam alguns militares armados e uns poucos civis dispersos. O Américo enervou-se, pelo que disse ao Jorge Mateus para parar imediatamente, pois tal movimentação podia entender-se como provocação e criar-se ali um incidente estúpido e desnecessário. Quando saírem do carro, depararam um grupo de militares, mais uma vez e como ia sendo corrente nos demais sítios onde tinham estado com ar jovem, indeciso e desmotivado, pelo que o José Firmino se dirigiu a um e perguntou como ar meio sério, meio zangado, se sabia de eram são as armas que traziam.
Sem receber resposta, acrescentou já mais à vontade e confiante, meu grande cabrão, quando saíres daqui vais bater com os cornos numa lage, quando fores à procura de emprego.
Américo Malhó, mais tarde disse que José Franco tinha dito (…) daqui vais bater com os cornos num chaparro (…).
Seja como for, sem ninguém saber bem o que isto significava, se é que significava alguma coisa, a verdade é que os militares nada fizeram e as coisas permaneceram calmas.
Para Américo Malhó, José Firmino revelou coragem pois se algo corresse mal não tínhamos ninguém que nos defendesse. Nem o meu rico Stº. António ou Santa Marta
Para quem o conhece de perto, José Firmino Franco parece um inato contestatário, sem receio de dizer verdades, apreciador de uma boa discussão e incapaz de guardar rancores. O próprio admite que tem noção do ridículo, que por vezes se admira de atitudes que tomou, mas, como seu pai, raramente delas se arrepende.
Em seguida, encaminharam-se para a saída de Fátima e estacionaram num pequeno largo junto da Adega Cooperativa. Estava a anoitecer e, de tempos a tempos, ouviam-se algumas rajadas de metralhadora, disparadas para o ar. O Jorge Mateus deu uma segunda chave do carro ao Franco, nunca fosse o diabo tece-las. Separaram-se em dois grupos, o Jorge Mateus e o Américo Malhó, para um lado o Franco e o António Malhó para outro, por que corria que a Estalagem tinha sido ocupada e o dono, Engº Monteiro, atirado pela janela. Quando se aproximaram, encontraram um furriel de fartas barba e cabeleira, que exprimia a sua alegria disparando a sua FBP, como se se tratasse de uma festa de casamento talibã. Franco aproximou-se dele e perguntou-lhe quando acaba a festa e o barulho que estás a fazer. O furriel, em euforia incontida, acabou de despejar o carregador e respondeu olha, acabaram! Foi o que Franco gostou de ouvir, pelo que encostou-lhe a sua pistola à barriga e com ar muito meigo e voz suave, ordenou que lhe entregasse tudo, a Walter incluída, e não pias, senão limpo-te o sebo, estás a ouvir? Ficas aqui quietinho encostado à esquina, não sais daqui, senão arrefeço-te e entrego-te esticado ao padre.
O militar, perdeu a genica e a confiança, passou-lhe as duas armas para as mãos e nem piou.
Esconderam as armas debaixo da roupa, embora fizessem um certo e indisfarçável volume e avançaram, até avistarem dois soldados perto dum prédio em construção. A noite já tinha caído. Depois de verificarem que ninguém os estava a ver, abordaram os dois soldados, o José Firmino Franco encostou a pistola às costas de um e sacou a ambos as metralhadoras. De seguida, para que estes não criassem problemas, obrigou-os a despir a farda, fazendo-lhes adequadas recomendações, para que não fizessem barulho. Como quem tem cu tem medo, estes militares, ali ficaram, sem reagir. Perante a situação, o António Malhó mal conseguiu conter o riso, pois nem queria acreditar no que estava a acontecer. Dirigiram-se rapidamente para o automóvel para guardar as armas e esconderam-se, para não abusarem da sorte. Entretanto, começaram a ouvir gritos, vindos do centro da vila, de que andava alguém a roubar armas. Quem piara? Nessa altura, o Jorge Mateus e o Américo Malhó, apercebendo-se que as coisas podiam aquecer, regressaram rapidamente ao automóvel. Sem mais, saíram todos da Batalha, na direcção de Fátima e voltaram para Montes, via Porto de Mós. Chegados a Montes, param junto ao antigo café do Firmino Franco (Pai), onde esconderam as armas. O Jorge Mateus e o Américo Malhó não sabiam que traziam armas no carro e só, muito mais tarde, o José Franco lhes contou a história, que não acaba aqui.
Após os incidentes relacionados com o assalto à sede do PC em Alcobaça, foram presos vários alcobacenses, levados para Leiria, os quais depois foram transferidos para Caxias, como oportunamente contaremos. Quando chegaram a Lisboa, apurou-se que não havia nenhum documento que formalizasse a detenção (não havia mandados ou estes eram em branco) ou mesmo a libertação. Para tentar resolver a situação, organizou-se um grupo de pessoas de vários pontos do Concelho de Alcobaça, a fim de se deslocarem a Leiria. Foram várias pessoas, entre as quais, os Franco (pai e filho), pelos Montes, o Joaquim Zeferino Lucas, por Alcobaça e o António Barbosa Ribeiro, por Cós. O José Franco foi, com o pai Firmino e Joaquim Zeferino Lucas com o António Barbosa no Ford Escort branco deste, ainda de matrícula francesa, pois regressara há pouco de França, onde estivera a trabalhar. Chegados ao quartel pediram para falar com o responsável, pelo que veio falar com eles um tal Tenente O (…), que tinha metido o chico, e que o José Firmino conhecia do tempo da recruta, a quem disse sei onde estão as armas que foram roubadas na Batalha, que serão entregues, quando os documentos dos alcobacenses forem para Lisboa. De acordo? Trocas?
O Ten. O (…), que era tido por um grande fascista antes do 25 de Abril, virara para o outro lado da barricada e agora o próprio comandante da unidade até o receava. O Barbosa batia as palmas, boa Franco, dá-lhe. Mais tarde António Barbosa, que nunca se meteu em políticas, mas dizia não pactuar com comunas que lhe fazem nervoso, confessava que tinha gostado tanto daquele momento, que era capaz de estar ali o dia todo a gozar e a bater palmas.
O Ten. O (…) prometeu-lhes que os papéis seriam enviados ainda nesse dia para Lisboa (mas ao que consta não havia nenhuns), pelo que o José Firmino Franco foi na Ford aos Montes para levar a Leiria, as armas apreendidas na Batalha, embrulhadas num saco de serapilheira. Ao chegar à porta de armas, chamou o soldado, atirou com o saco para o chão e com as armas espalhadas, disse-lhe que ali estava uma prenda para que Ten. O (…) e o Comandante gozassem bem.

Na Batalha, centenas de pessoas que se juntaram na EN 1, obrigaram a parar a carrinha de distribuição do jornal República, não deixando a mesma prosseguir, enquanto não lermos o jornal.
Como o jornal noticiava que os incidentes tinham sido provocados por forças reaccionárias, foram destruídos, deitados à rua e queimados todos os exemplares, pelo que o carro depois seguiu, sem nenhum aproveitável.
Com carrinha de A Capital também houve problemas. Embora tendo seguido um percurso diferente do habitual, o Manuel Antunes, seu condutor, foi localizado e interceptado por populares no Alqueidão, conduzido até à Batalha, onde os jornais foram destruídos. Só de manhã foi restabelecida a ordem. Ao mesmo tempo, umas centenas de pessoas, assaltaram e destruíram, em Porto de Mós, a sede da contestada Associação 1º de Maio.
A 29 de Julho, foi atacada e destruída a sede do MDP/CDE, em Sever do Vouga, houve um assalto às instalações dos Sindicatos dos Metalúrgicos, em Águeda, bem como à Associação Recreativa Cultural de Amor, nos arredores de Leiria.
A 30 de Julho, durante a madrugada, tropas das Regiões Militares do Norte e Centro tentaram, sem sucesso, que uma multidão de cerca de 3.000 pessoas, incendiada com palavras de ordem como vamos dar cabo dos comunas, destruísse sucessivamente as sedes do OCMLP, PC e MES.
No mesmo dia, em Évora, a casa do teorizador e promotor da Reforma Agrária, o Deputado Constituinte Dinis Miranda, do PC, foi destruída numa explosão que causou vários feridos, seus familiares. Este alegadamente nunca percebeu a razão do evento, que não merecia, nem se justificava…Ai não!
Nos assaltos as sedes do PCP e MDP/CDE, em Póvoa do Lanhoso, a 1 de Agosto, encontravam-se dois conhecidos militantes do PS, o que este partido negou sem convicção, pois era verdade e estava documentado por fotografias. Esses socialistas, ideologicamente pouco ou nada tinham de comum com o PS, antes eram pessoas perfeitamente identificados com o anterior Regime. Um deles até tinha sido Presidente da uma Junta de Freguesia e o outro membro da União Nacional.
No lugar de Bouças, Alpedriz, em meados de Agosto de 1975, correu a notícia que, numa casa abandonada, encontrava-se escondido um arsenal de armas desviadas, pelo que pessoal do Andam, decidiu confirmar in loco se era mesmo verdade, escondendo-se por perto e esperando para ver. A certa altura da tarde, chegou uma camioneta, que começou a carregar bidões, que iam sendo retirados da casa. Quando terminou o serviço, deixaram-na partir, mas avisaram o pessoal amigo de Rio Maior, que ia a caminho um carregamento de talvez de armas, pelo que a camioneta deveria ser interceptada, o que aliás aconteceu. Não constou, porém, que levasse armas. Mas os bidões eram de quê? interroga-se Américo Malhó, que até hoje nunca soube a resposta, pelo que continua intrigado.
A 11 de Agosto, em Lamego e Braga realizaram-se manifestações, muito participadas, de apoio à Igreja Católica.
Em Braga, ocorreram alguns dos mais graves incidentes do Verão Quente, de que resultaram cerca de 30 feridos, 3 dos quais com gravidade, entre eles dois jornalistas estrangeiros, na sequência de uma manifestação com cerca de 2.000 de pessoas, de apoio ao Episcopado, na pessoa de D. Francisco Maria da Silva.
Depois de terminada a manifestação, começaram os confrontos, quando um grupo de manifestantes passou em frente à sede do PC. Após uma troca exaltada de palavras com militantes do PC, que se encontravam à janela, um dos manifestantes subiu à varanda, arriou a bandeira do partido, que no chão foi rasgada, pisada e queimada, no meio de palmas, urras e vivas a Portugal, Abaixo o PC e Álvaro Cunhal para a Sibéria. Quando a porta de entrada foi rebentada, do interior foi feito fogo de caçadeira sobre os manifestantes. Os incidentes só terminaram com a intervenção de uma força militar, que lançou gases lacrimogéneos e fez disparos de metralhadora para o ar. Foram ainda destruídas nesse dia, em Braga, as sedes do MDP/CDE, da Intersindical e o Mercado do Povo.
O Bispo de Braga, horas antes, dissera aos fiéis que o problema português é este: Do lado uma minoria, contra a vontade do povo, está a impor à nação o comunismo, onde não tem lugar a Pátria independente, nem a religião. Do outro, uma esmagadora maioria a dizer não a tal comunismo.
No assalto à sede do PC, em Viseu, cujo recheio foi como habitualmente atirado pelas janelas para a rua, queimado em fogueiras, no meio de grande e histérica algazarra, registou-se um morto, doze feridos, quatro dois quais em estado grave e levados para o hospital, na sequência de disparos, cuja origem nunca foi apurada. Foram também assaltadas as sedes do MDP, FSP, MES, UDP e PRP, sindicatos e dois estabelecimentos comerciais, propriedade de elementos afectos ao PC, tidos por provocadores.
A 17 de Agosto, a sede do PC foi atacada em Ponte de Lima, onde ocorreu a morte de um militante do Partido e ficaram feridos vários populares. Os primeiros disparos de caçadeira, partiram de militantes comunistas, cercados por mais de 5.000 pessoas, em fúria incontida.
A 20 de Agosto foram assaltadas as sedes do PC, MDP/CDE e MES em Ponta Delgada, por um grupo avaliado em mais de mil facínoras e energúmenos, numa expressão da comunicação social do continente. Durante a evacuação da sede do PC, as outras tinham entretanto sido rapidamente auto-abandonadas, ficaram feridos alguns militantes, bem como soldados, que as tentaram proteger.
Nesse dia, no Porto, foi assaltada a sede do MDP/CDE e a da União dos Sindicatos tendo o mobiliário e documentos sido atirados à rua e destruídos perante a satisfação dos presentes.
No dia anterior, em Angra do Heroísmo, foram destruídas as sedes do PC, MDP/CDE e MES, bem como as instalações do jornal O Trabalhador, de que resultaram inúmeros feridos de gravidade diversa. Ao mesmo tempo, lavradores de Ilha Terceira, aprovaram na cooperativa leiteira moções em plenário, exigindo a deportação para o continente de vários militantes do PC e seus satélites, incluindo um padre progressista e alguns militares, entre os quais seis oficiais do MFA, cuja identificação não nos foi possível confirmar.
A 26, ocorreram assaltos às sedes do PC e MDP/CDE, em Leiria, de que resultou um morto a tiro e muitos feridos, como melhor se verá a diante. Os militantes que lá se encontravam sitiados/refugiados, foram evacuados pelas Forças Armadas. As sedes da LCI, MES E FEC foram saqueadas e destruídas. Rico mobiliário, quadros incluídos, documentos e livros dos escritórios dos advogados José Henriques Vareda e Guarda Ribeiro, ligados ao MDP/CDE, foram queimados e lançados à rua, com vivas e palmas dos populares, que também cantaram o Hino Nacional.

Por essa altura, um grupo de bancários do Banco Português do Atlântico, de Lisboa, num proclamado plenário representativo (embora pouco) da instituição, aprovou uma declaração de solidariedade com os bancários progressistas de Rio Maior, Ponta Delgada, Lourinhã e Minde, no sentido da sua imediata reintegração, na instituição. Em Alcobaça foi-lhe dado apoio, superiormente orientado por um macambúzio Amílcar Salgueiro (MCP/CDE e Presidente da CA da Junta de Freguesia de Alcobaça).

FLEMING DE OLIVEIRA