segunda-feira, 3 de outubro de 2011

(VI) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NESSE TEMPO DO TUDO POSSÍVEL



-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem
atividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café
em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão
de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de
Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.



Lurdes Costa Ribeiro é mulher que sempre se destacou, pela vitalidade, vontade de servir e elevada noção do valor do serviço comunitário.
Foi a primeira Presidente de Junta de Freguesia do Concelho de Alcobaça, para cujo lugar, em Turquel foi eleita, em 1979. Depois de ter estado emigrada com o marido vários anos na Alemanha, regressou a Portugal em 1973, pouco depois deste ter falecido e com um filho de 18, tendo sido sócia da Solancis, até 1992. A família do marido fazia pressão para que voltassem a Portugal, trabalhar naquela empresa, em franco crescimento que já era, como ainda é, uma referência, não só no concelho de Alcobaça, mas no país, na área da exploração da pedra da Ataíja e Moleanos, bem como do vidraço, cuja produção em grande parte se destina à exportação. Em 1992 a Solancis, que integrava duas empresas, dividiu-se ficando Lurdes Costa e o filho com a que se dedica à Construção Civil.

Por alturas do mês de Julho de 1975, um conhecido e antigo fornecedor de componentes de máquinas para corte de pedra, estabelecido no Alentejo, na zona de Borba, foi à Solancis saber das necessidades, mas apresentando-se com um braço ao peito, engessado, e alguns hematomas faciais. Contactando com Lurdes Costa, que tinha a seu cargo as relações com o exterior, esta perguntou-lhe que acidente é que ele tinha sofrido, ao que respondeu que ao passar em Rio Maior, e o pessoal de sabendo que era alentejano, mas desconhecendo os seus princípios e propósitos, provocou-o e agrediu-o, com tal violência, de que resultou a fratura de um braço e os hematomas. Todavia, este alentejano nada tinha de comunista ou simpatizante e até dizia que se dava muito bem com os fascistas, pois eram quem lhe pagavam a tempo e horas e o ajudavam a viver a vida, com decência.
Na empresa de Lurdes Costa Ribeiro, salvo um pequeno incidente, rapidamente sanado com o despedimento célere de alguns contestatários que reivindicavam de forma abusiva e exagerada aumento de salários e diminuição das horas de trabalho, não houve mais nenhuma contestação laboral e os sindicatos não tiveram oportunidade para intervirem.
Relativamente à Solancis, é justo trazer ao conhecimento geral que os seus verdadeiros pais, foram os antepassados dos actuais sócios que iniciaram a exploração da pedra na Serra dos Candeeiros, numa pedreira denominada Vale da Louceira, sendo o seu primeiro exportador José Oliveira Delgado, na década de 1900. A exploração consistia no arranque da pedra e sua transformação, em pias, no próprio local. Essas pias, além de outras utilizações, tinham como função principal guardar o azeite, da azeitona que o lavrador apanhava e mandava transformar. Serviam as pias ainda para guardar e salgar porco, que se matava pela altura dos Santos e era governo para o ano inteiro. Do equipamento inicial constavam apenas alavancas e serrotes e especialmente a força do braço de dois trabalhadores, que ganhavam 7$50 por dia.
Pias e cantarias abasteciam as terras limítrofes de Alvorninha, Santa Catarina, Vimeiro, Cela, Alfeizerão, Bárrio, Famalicão e Nazaré, sendo o transporte feito por carro de bois. O serviço era moroso, necessitando de um dia para percorrer 30km. A partir de 1920, Silvino Oliveira Delgado, após herdar desenvolveu a actividade do pai, e já munido com macaca e mais tarde com compressor, dedicou-se ao trabalho de fazer cantarias e campas para cemitérios. A herança passaria doravante de pais para filhos, já que desde cedo o pai, os ia iniciando na arte e desenvolvendo o gosto pelo trabalho da pedra.
O filho mais velho, Manuel Costa Oliveira Delgado, em 1951, e com 17 anos de idade, assumiu a responsabilidade de fornecer à firma Marques da Cruz, de Leiria, o trabalho de pedra para o Campo do Benfica, o Estádio da Luz. O entusiasmo adquirido levou a Solancis a comprar um terreno no Casal do Carvalho-Benedita, para montar uma oficina e assim se constituiu em 1969, a Solancis-Sociedade Exportadora de Pedreiras, Ldª, dada a necessidade de satisfazer a procura de lancis e cantarias de calcário, vidraços e semi-rijos da Ataíja e Moleanos.
Inicialmente as suas pedreiras tinham estrutura produtiva insatisfatória, que se suspendia nos períodos de maior actividade agrícola. Por outro lado, eram manifestas as carências de equipamentos. Os blocos eram arrastados com alavancas, macacas e crapoud.

No curriculum da empresa consta o trabalho de reconstrução de um Arco da Memória, em 1981.
O projeto foi do arquitecto Joaquim Pereira. A iniciativa do restauro, pois encontrava-se em ruínas, ficou a dever-se ao padre Manuel Vitorino da Silva Fernandes, pároco dos Vidais. Nos trabalhos foram aplicadas cerca de 90 toneladas de blocos cortados e emparelhados na Solancis.
No cimo da Serra dos Candeeiros, existe um arco de volta perfeita que foi construído pelos Frades de Alcobaça para assinalar a divisão administrativa dos coutos. Segundo alguns autores, o arco data do século XVI e serviu para o Mosteiro assinalar os limites das suas terras. Há quem defenda que terá sido mandado erguer por Frei Bernardo de Brito.
Esse arco veio a ficar conhecido por Arco da Memória e está localizado no limite dos Concelhos de Alcobaça e Porto de Mós, mais precisamente, numa sub-área da freguesia do Arrimal chamada Memória.
Conforme uma conhecida lenda, D. Afonso Henriques, quando ia a caminho da conquista de Santarém, em 1147, jurou, do alto da Serra de Albardos-Serra dos Candeeiros, que caso o conseguisse doaria a Bernardo de Claraval, todos aos terrenos avistados na direcção do mar. O lugar onde o rei teria feito esse juramento é onde se encontra o Arco da Memória.
De acordo com alguns autores, menos esclarecidos, no topo do Arco da Memória havia uma estátua, representando D. Afonso Henriques, ladeada por duas pirâmides. Mas, estão a fazer confusão com outro arco, um pouco maior nas suas dimensões, também chamado Arco da Memória e que fica situado numa povoação chamada Arco da Memória, pertencente à freguesia de Vidais, no Concelho de Caldas da Rainha.
Os habitantes da freguesia de Vidais chamavam ao seu arco, O Rei da Memória, porque a meio do cano do arco ostentava os seguintes dizeres: O Santo Rei D. Afonso Henriques, fundador de Alcobaça.
Também não podemos esquecer mais uma vez que a lenda diz que D. Afonso Henriques terá prometido mandar erguer um mosteiro em homenagem a Santa Maria, nas terras concedidas a Bernardo de Claraval, caso conseguisse conquistar Santarém aos mouros.
No local da promessa feita pelo rei, ao cimo da Rua de Cister, da actual povoação designada por Arco da Memória, foi levantada uma estátua de D. Afonso Henriques e mais tarde um arco, o Arco da Memória. No seu cimo aplanado, foi colocada a estátua do nosso primeiro rei. Assim, o Arco da Memória permaneceu até aos dias em que a fúria republicana, destruiu o monumento, a 12 de Janeiro de 1911. A destruição do Arco da Memória, encimado com estátua de D. Afonso Henriques, coincidiu com a construção da estrada municipal que liga a Benedita a Caldas da Rainha, via Alvorninha, pelo que quase todas as pedras do monumento que se encontravam espalhadas encosta abaixo foram partidas pelos cantoneiros e utilizadas para a construção da estrada. A estátua de D. Afonso Henriques fora vandalizada e ficou ao abandono. Mais tarde, foi salva por um habitante local, Joaquim Martins, que a guardou, enterrou e participou o feito às autoridades das Caldas da Rainha. Esse morador, mais tarde, foi encarregado de transportar a estátua para Caldas da Rainha. Ao chegar à cidade, o homem foi multado pois, ia no seu carro de bois, sentado em cima da estátua, o que foi considerado falta de respeito por um símbolo nacional. Diz-se que o homem pagou pela multa, três vezes mais do que veio a receber do frete. Posteriormente, a estátua foi levada para Leiria pelo Eng. Afonso Zúquete, que dirigia as obras de solidificação do Castelo. Atualmente, a estátua está situada no mirante da Avenida Ernesto Korrodi, no sopé do monte onde assenta o Castelo de Leiria. Inicialmente a estátua esteve no claustro do edifício dos antigos Paços Episcopais, na ocasião quartel do RAL 4, onde se aloja a PSP, até ser transferida para o local em que se encontra. No dia 28 de Junho de 1981, foi inaugurada a reconstrução do Arco com o contributo da população e de várias entidades públicas e privadas, como a Solancis. Desde essa altura, tem havido esforço para que a estátua de D. Afonso Henriques volte a ocupar o seu lugar, no cimo do novo Arco da Memória, na Freguesia de Vidais.

O Arco da Memória, sito na Serra dos Candeeiros, serviu como marco assinalando o limite dos coutos, a entrada de quem vinha fazer os seus negócios ou mesmo de quem vinha à procura de refúgio nas terras dos frades. Sobre este assunto, na nossa obra NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS. Alcobaça e Portugal, escrevemos a propósito de uma visita de D. Miguel a Alcobaça, que a maior parte dessa viagem à Região do Oeste, em Agosto de 1830, decorreu nos coutos de Alcobaça, que continuavam a ser palco de conflitos acesos entre os frades e os aldeões, por razão do pagamento dos direitos senhoriais. O Marquês de Fronteira, recordou nas suas memórias que, em 1824 os rendeiros dos frades tinham-se rebelado, largando fogo às medas de trigo que pertenciam à comunidade e que o Abade Geral do Mosteiro se vira obrigado a chamar a tropa que estava em Leiria. No caso de Aljubarrota, o conflito traduzia-se na questão dos limites da doação de D. Afonso Henriques e arrastou-se desde os finais da Idade Média. Terá sido depois do jantar, durante uma conversa havida na varanda do seu quarto, que a questão foi apresentada ao Rei. O Esmoler-Mor, Frei António da Silva que fora Abade Geral dos Coutos de Alcobaça, durante o vintismo, aproveitou a ocasião para dizer ao Rei que nessa época os povos dos coutos, principalmente os de Aljubarrota, aproveitando-se da rebelião que as Cortes causaram, tinham arruinado o Arco Memória, onde fez voto o Sr. D. Afonso I, e que pedia a S.M. o mandasse reedificar. Ora (independentemente da data de construção), o Arco da Memória assinalava o limite norte dos Coutos e era o símbolo material dos poderes do Mosteiro, cuja contestação o Abade circunscrevia ao período liberal. D. Miguel terá concordado com a sugestão, propondo que no Arco a reconstruir, se fizesse uma inscrição que o ligaria física e simbolicamente a Afonso Henriques: El Rei D. Afonso I o mandou fazer e D. Miguel I reedificar.
A réplica do Arco da Memória, na freguesia de Vidais, tem o mesmo efeito no imaginário do povo local, leva-o a ouvir falar de lendas e de sérios registos históricos do seu passado. Mas, além de ser o lugar que assinalava os territórios do Mosteiro de Alcobaça, de ser o sítio onde os republicanos mostraram o seu repúdio para com os símbolos da monarquia, de ser o ponto que transporta os habitantes locais para o mundo das lendas e para o mundo dos factos históricos, marca ainda a legítima vontade de um povo querer ter junto a si o património que lhe pertence e com o qual ele fortemente se identifica.
Este Arco da Memória é um dos marcos limites dos coutos do Mosteiro de Alcobaça, alinhando a Norte com o Arco da Memória existente na Serra dos Candeeiros e a Poente com a foz do rio Vau, em Salir do Porto.

No dia 25 de Maio de 2008, foi inaugurado na Ataíja de Cima, o Monumento ao Cabouqueiro, estátua grande, pujante de força e solidez, como forma de prestar homenagem a uma profissão, que se conta entre as mais antigas da região de Alcobaça, que é ainda um pilar da economia, tal o número de empresas, unidades de extracção de pedra existentes e pessoas que nelas trabalham.
O acontecimento foi aproveitado para homenagear Luís da Graça, empresário e benemérito, que conseguiu, conciliar as facetas de empresário empreendedor e de sucesso com a de cidadão solidário e simples, dada a sua natureza de homem de fé. Luís da Graça dispõe de onze pedreiras, das quais se encontram oito em plena laboração e as restantes de reserva, sendo o seu produto o vidraço da Ataíja, o Moleanos e o Porto de Mós, designação regional que atingiu prestígio mesmo internacional.
Luís da Graça, no pós 25 de Abril, nunca se arrogou de antifascista, progressista, nem de quaisquer louros que não merecesse. Não sendo militante do PPD, colaborava de vez em quando nalgumas suas iniciativas, aparecia na sede e esteve presente em muitos momentos difíceis, não propriamente em defesa da nova democracia, pois nunca recusou manifestar o apreço por certas facetas do Estado Novo e Salazar, mas no combate à perversão totalitária de esquerda que ameaçava o país.

Em 1975, após muitos e aguerridos confrontos verbais e físicos entre a população de Caldas da Rainha, foi chamado intervir, o Quartel para apear a estátua do Gen. Carmona que tinha 4 a 5 metros de altura, feita em bronze, pesava umas toneladas e se encontrava no Borlão, na Praça (conhecida dos 3 poderes-Tribunal, Câmara e Igreja) em frente ao Tribunal Judicial, que fora inaugurada numa luzida cerimónia por Américo Tomás. Para tal, deslocou-se uma Berliet-Tramagal com guincho e um Unimog, que transportava o pessoal, veículo conduzido pelo montense, soldado António Moiteiro, o 70, que mais uma vez se ofereceu para o serviço. A estátua, desaparafusada do pedestal, foi colocada pelo guincho em cima da Berliet, e levada para o Quartel, a fim de ser arrecadada, se possível, bem longe da vista do público. Acontece porém, que quando se pretendeu guardar a estátua numa arrecadação, junto à prisão e, supostamente, bem longe do olhar do público, que não deveria ser contaminado, chegou-se à conclusão que, afinal, ela não cabia lá, pelo que ficou com a cabeça e um braço de fora, através de uma janela, para forte embaraço do Comando e espanto divertido de quem a via.

O 70, como motorista de confiança do CA do Quartel de Caldas da Rainha, fazia os mais variados serviços, muitas vezes voluntariamente. Uma ocasião, foi num jeep do Comando buscar ao banco dois sacos de lona, cheios de notas, para fazer pagamentos a um empreiteiro, colocados no banco de trás, e dispondo como única segurança, a presença de um corpulento, idoso e bondoso pastor alemão do Quartel.

No dia 28 de Agosto de 1975, cerca das 22h, na sede da Filarmónica Vestiariense Monsenhor José Cacela, reuniram-se 47 pessoas, que acorreram ao apelo de um panfleto anónimo, dias antes distribuído pela freguesia:

Ao povo, da Freguesia da Vestiaria.

Convida-se toda a população desta Freguesia a participar numa reunião que terá lugar na sede da Filarmónica, no próximo dia 28, pelas 21h30, a fim de se eleger uma Comissão de Moradores, a qual terá por finalidade velar pelos interesses da nossa terra.
Vestiaria, 19 de Agosto de 1975.

Carlos Alberto Duarte, então operário na COFTA, tomou a iniciativa de presidir à sessão, e convidou para a Mesa, Manuel José dos Santos Campos, José Fernando Cardoso, António Damásio de Campos e Joaquim Paulino de Sousa, dando início aos trabalhos. Manuel José Campos foi o primeiro a usar da palavra, e como as coisas deveriam decorrer em profunda e inequívoca legalidade propôs que a Assembleia se pronunciasse sobre a legalidade do panfleto, que não estava assinado, nem continha referências sobre a origem. Perante isto, Carlos Alberto Duarte, e antes de pôr o assunto à discussão ou mesmo deliberação, informou os presentes que a ideia do panfleto fora sua, e que o facto de o não ter assinado, se justificava apenas pela circunstância de não querer sobressair na iniciativa, perante os conterrâneos.
Mesmo assim, esta convocatória foi posta à votação, para se saber se haveria ou não de considerar-se legal, tendo sido aprovada por 27 votos a favor, contra 4, sendo os restantes de abstenção.
Manuel José Campos, salientando que a Mesa não fora eleita, nem a sua constituição aprovada pela Assembleia, propôs que se pusesse à discussão e à votação, se esta concordava com a composição, o que foi aprovado por unanimidade. O auto-assumido Presidente da Mesa, depois de ouvir entre os presentes algumas observações sussurradas de que a Mesa haveria também de ser constituída por elementos femininos (estamos ou não em Democracia?), convidou Ilda Casimira Marques, que aceitou juntar-se, o que a Assembleia rectificou muito alegre e democraticamente, por unanimidade e com palmas.
Carlos A. Duarte referiu que o número de presentes, 47, não era suficientemente representativo do querer dos residentes da Freguesia, não chegava nem de perto a 1/3 do seu total, pelo que requereu que se começasse por aí o debate.
Perante esta iniciativa, foi proposto constituir uma Pró-Comissão a fim de trabalhar para a realização de uma nova Assembleia representativa da população, a realizar logo que possível no mesmo local, que ficou constituída pelos seguintes vestiarienses, voluntários, Joaquim Paulino de Sousa, António Damásio de Campos, Carlos Alberto Duarte, Manuel José dos Santos Campos, José Fernando Cardoso e Ilda Casimira Marques, decidiu fazer uma convocatória escrita, que foi distribuída pela freguesia, para a quarta-feira seguinte, dia 3 de Setembro, pelas 21h30, na sede da Filarmónica.
Entretanto, também de forma anónima, mas cuja procedência desta vez nunca se apurou, foi distribuído pela Freguesia um panfleto em que alguns residentes, nos casais da Vestiaria, comunicam a toda a população da Freguesia da Vestiaria, que não precisam de Comissão de Moradores, porque nós estamos todos unidos, e isso é um facto.
A reunião, marcada para o dia 3 de Setembro, não chegou a realizar-se, tendo possivelmente sido desmobilizador o segundo panfleto, dadas as conhecidas e antigas rivalidades entre os Casais e a Sede da Freguesia.
António Damásio Campos, que nunca foi um ativista político, entendia a constituição de uma Comissão de Moradores da Vestiaria poderia ter tido real utilidade, de modo a suprir a falta de interesse e capacidade, frequentemente demonstrada, pelos sucessivos executivos da Freguesia da Vestearia.

(V) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NO TEMPO DO TUDO POSSÍVEL




-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem
atividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de
Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.



Sobre os saneamentos, Otelo Saraiva de Carvalho entendia que (…) O saneamento no seu contexto mais amplo terá que se traduzir, por um lado, no afastamento de determinada estrutura dos indivíduos comprometidos com o regime fascista, nos diversos aspectos de que esse comprometimento se possa revestir, por outro lado terá que ser o afastar de todos os indivíduos que, por não acompanharem o processo revolucionário, o obstruam. Desde logo, para que o saneamento seja efectivo é necessário que os componentes dos órgãos que o fazem tenham compreendido a sua missão. É precisamente na composição dos órgãos encarregados do saneamento e nos vícios da legislação que o regula que estão os males ou ineficácia do processo. Claro que um e outro aspecto nasceram num momento em que o estádio revolucionário era inferior ao actual. Assim, e para superar o desfasamento entre as condições políticas do presente e a legislação que regula o saneamento, legislação essa vinda do anterior, está o assunto a ser revisto, de modo que o necessário saneamento das instituições seja conseguido em moldes mais correctos.
Perceberam desta vez?

A 9 de Novembro de 1975, indiferente a este tipo de eventos a Paróquia de Alcobaça foi visitada pelo Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. Houve missa e crisma no Mosteiro e, depois do almoço com os sacerdotes da Vigararia, D. António Ribeiro visitou o Lar Residencial, os doentes do Hospital e rezou junto à campa do Bispo, D. António de Campos, cujos activistas do MDP/CDE, tentaram ainda chamuscar a memória.
Este foi também um dia de festa para os Bombeiros Voluntários de Alcobaça. Perante o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, foram impostas medalhas e insígnias a diversos membros da corporação, ao que se seguiu um desfile e a apresentação da Fanfarra. Entre os vários condecorados, destaca-se o dedicado Comandante Carlos Leão da Silva, vulgo Caranguejo, alguns meses antes envolvido em lamentáveis incidentes próprios do PREC, que recebeu a Medalha de Ouro.
Por esta altura, o embaixador americano em Portugal, Frank Carlucci, passou por Alcobaça. Tinha ido em visita de trabalho à Base de Monte Real e no regresso a Lisboa, quis fazer uma visita, ao que supunha, ser um antigo Convento Templário. Nem a CMA, nem a PSP foram avisadas da passagem. Possivelmente, também nem o Governo Civil de Leiria soube, tudo por razões de segurança. Carlucci, acompanhado por dois homens, entrou no estabelecimento de Firmo Lisboa, aonde adquiriu uma peça de louça, que pagou do seu bolso e se deteve por breve espaço a conversar. Não fora Firmo Lisboa o ter reconhecido, possivelmente nunca se teria sabido deste acontecimento.

Com a presença de sete funcionários decorreu, no dia 8 de Março de 1975, a inauguração da Sala de Convívio dos Funcionários Judiciais de Alcobaça. Do programa, destacava-se uma reunião para abordar problemas da classe. A mesa foi presidida pelo dinâmico Palma Rodrigues e José Maria Cascão, dinâmicos activistas do MDP/CDE. Para iniciar o acto, usaram da palavra os funcionários Alfredo Guerreiro e Palma Rodrigues e encerrou-o o Juiz da Comarca e Poeta, José Guerreiro Madeira Bárbara.
Na mesma Sala de Convívio realizou-se, no dia 17 de Abril de 1975, uma conferência subordinada ao tema Sindicalismo, com a presença de 17 pessoas ligadas à função pública, banca, CTT e outros sectores. Após uma breve intervenção do funcionário José Maria Cascão-MDP/CDE, falou o convidado sindicalista Aires Rodrigues-PS, seguindo-se debate.
Embora tivessem sido anunciadas mais iniciativas com convidados de outras forças políticas progressistas, tanto quanto conseguimos apurar, não se realizou mais nenhuma.

A Feira de S. Bernardo, em Agosto de 1975, não foi a que inicialmente se previa e a organização desejava. O ambiente político-social estava muitíssimo encrispado, pois era presente a acidentada vinda de Cunhal a Alcobaça a um comício no Pavilhão Gimnodesportivo. Mas apesar de tudo realizou-se e, como referiu Francisco Cipriano, que orientou os preparativos, a Feira não podia morrer. Fez-se uma feira à moda antiga, só para manter a chama acesa…
Assim, num ambiente muito tradicional, nada progressista afinal, houve as habituais barracas de quinquilharias e miudezas, farturas e imperiais bem fresquinhas. Não faltaram os pavilhões de tiro, matraquilhos, carrosséis, aviões e pistas de automóveis de choque. Em suma, como dizia condescendentemente o articulista do Voz de Alcobaça, a Feira fez-se, não tão boa quanto se desejava. Mas mesmo à moda do antigamente, com as características de festa popular, que a tornavam atraente e ao gosto dos alcobacenses!
Em 1974, com a CA da CMA também já se haviam ensaiado algumas pequenas alterações na Feira, que ao invés de encerrar à meia-noite, só o fez de madrugada. Numa entrevista ao Voz de Alcobaça, Isaura Bento, proprietária da antiga Adega Damásio, afirmou que, no seu stand de 1974, realizou o dobro do movimento do ano anterior (ainda era fascismo) e a satisfação pela grande afluência de pessoas provenientes dos vários lugares do Concelho. O fenómeno da afluência de público até tarde, teve correspondência ao longo do ano nos estabelecimentos comerciais que se encontravam abertos ainda de madrugada, como o Café do Luís, à Piçarra, que funcionava muitas vezes até às três ou quatro horas da madrugada onde se reuniam em volta de um bitoque, uma sande, um tinto ou uma imperial, elementos dos diversos grupos políticos, embora sem se misturarem entre si.

António Rainho foi com a família dar uma volta pelo norte do País, tendo pernoitado uma vez em Amarante.
De manhã, depois de organizada a mala, deixou a mulher a arrumar a fraldas do filho mais velho, na altura com poucos meses e saiu à rua, para tomar o pequeno almoço e procurar uma loja de jornais.
Ao entrar no café, teve um momento de sobressalto, de orgulho e espanto pois, ao canto, um homem que tomava o café e passava a vista pelo jornal, afirmou firme e em voz alta eh pá, esta gente de Alcobaça é que põe o gajo na ordem. O tipo teve de fugir, se não teria sido linchado ali mesmo no local do comício. Estava mesmo a pedi-las. E se não se tem pirado, como um cachorro com o rabo entre as pernas…
Rainho percebeu que se estava a referir a Álvaro Cunhal, pelo que disse, também, em voz alta, eu sou de Alcobaça, o que é que se passou?
O outro, esclareceu que ontem, no comício do PC, em Alcobaça, atacaram o local onde o Álvaro Cunhal fazia um comício e teve de fugir porque atacaram o local com pedras e tiros e o homem teve de ser defendido e levado pelas traseiras das instalações, onde decorria o comício.
Claro que logo comprou o jornal, para saborear as notícias acompanhadas do inevitável galão e uma torrada, de modo directo e comprovar a fascinante afirmação.
Escusado será dizer todos os presentes ficaram de cabeça erguida e a tentar saber mais da faceta das minhas gentes alcobacenses. Não me foi difícil verificar que quantos estavam por ali, comungavam da satisfação do indivíduo que me anunciou o facto até então inédito, se não mesmo impensável.
Estas coisas, eram da maior importância para cada um, e Rainho como alcobacense, não fugia à regra. Foi no dia seguinte que regressou com a família a casa, mas entretanto telefonou ansiosamente, para saber as primeiras dicas de origem local e fonte fidedigna.
O comício tinha decorrido no Pavilhão Gimnodesportivo, com boa assistência por deslocações de vários locais, nomeadamente Marinha Grande e Lisboa. Parece que o pavilhão estava cheio e quando caíram pedras sobre o telhado de lusalite, tiveram um efeito assustador sobre os que ali assistiam ao discurso do Álvaro Cunhal, que, devidamente escoltado, fugiu pelas traseiras do pavilhão e foi conduzido pelo dono da casa onde pernoitou, um tal “pobre homem”, que de pobre não tinha nada (…). Essa casa estava localizada na ladeira que leva até à Palmeira-Bemposta, a pouco mais de cinquenta metros do local do comício.

(CONTINUA)



FLEMING DE OLIVEIRA

(IV) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NO TEMPO DO TUDO POSSÍVEL




-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem
atividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café
em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para
manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na
arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.



O relógio da Igreja da Cela Nova, estava há muito parado nas 8h15m de um dia qualquer, não dava badaladas e as pessoas da terra sentiam a sua falta, tão habituadas a ele se encontravam.
O Voz de Alcobaça, de 3 de Janeiro de 1975, noticiou o facto e fez o alerta pois, no seu rotundo dizer anticlerical, é rara a aldeia que não tenha uma igreja. A igreja é o centro de convívio do povo na maioria das aldeias portuguesas. Ali se concentram as pessoas, especialmente ao domingo, para tratarem de negócios, para saberem e darem novidades (…).

O Clube Alcobacense, em 27 de Dezembro de 1974, realizou uma Assembleia-Geral, com a presença de 20 sócios, tendo eleito para os seus corpos sociais:
DIREÇÃO:
-Efetivos-
João Trindade; Jorge Vasco; e Eduardo Vieira Coelho
-Suplentes-
Gabriela André Trindade; José Maria Cascão; e Álvaro Trindade,
CONSELHO FISCAL:
Mercedes Heitor; José Freitas Martins; e António Nabais Pinheiro,
pessoas que, de acordo com o Voz de Alcobaça, pareciam capazes de contribuir para a eliminação do carácter fechado e elitista que tem distinguido aquela agremiação, de molde a adaptá-la ao clima de abertura e democratização, iniciado com o 25 de Abril. Esta Assembleia, cuja presença de sócios em termos de número coincidiu quase com os candidatos eleitos, foi impugnada com o fundamento de a convocatória não ter respeitado o prazo estatutário, por associados como Joaquim Pena, António Magalhães, António Nascimento e Sousa, Tarcísio Trindade, Silvino Rosário Pires, António Soares, Julião Amaral, Francisco Pessoa de Amorim e José Ribeiro Coutinho. Realizada, na semana seguinte, nova Assembleia-Geral, também pouco frequentada confirmou o resultado da antes impugnada.
A primeira iniciativa da democrática direção do Clube Alcobacense, foi a realização no dia 1 de Fevereiro de um espectáculo com os palhaços Emilita, Ezequiel e Companhia, pois pretendia dar cumprimento à sua prometida e imperiosa renovação e abertura, admitindo a presença de não sócios e que crianças com menos de 10 anos tivessem entrada gratuita na colectividade.

O Voz de Alcobaça, de 31 de Janeiro de 1975, pela pena do impenitente anticlerical correspondente de Cós, o nosso conhecido Barbosa Rodrigues, pediu o saneamento do pároco de Cós, que continua mistificando as pessoas e a própria religião.
Este articulista, considerou ainda, ser a anedota da semana, a homilia proferida na Missa do Galo, a que graças a Deus !, não assistiu.
Não era este a única pessoa que os antifascistas de Alcobaça pretendiam sanear, por incapazes de viver nos novos tempos. A atenção incidiu sobre Manuel Ângelo da Silva, qualificado como cacique da borda da serra e ex-comandante da Legião Portuguesa de Aljubarrota, que não obstante se encontrar em estado de falência continuava a exercer o cargo de Provedor da Misericórdia de Aljubarrota e de Louvado, inscrito na Repartição de Finanças.
De acordo com o Voz de Alcobaça, Manuel Ângelo da Silva serviu durante largos anos o regime fascista, pressionando as pessoas dos lugares onde preponderava e o seu domínio foi tão nítido e demorado que jocosamente o alcunhavam de governador civil de Aljubarrota.
De facto, Manuel Ângelo da Silva foi pessoa ligadas ao regime, o que nunca escondeu, mas não consta que fosse muito mais que isso. Mas isso era suficiente para ser excluído da nova sociedade socialista do MDP/CDE ou PC, que iria ser cientificamente implantada?
E enxovalhado desta maneira.

(CONTINUA)

FLEMING DE OLIVEIRA

(III) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NO TEMPO DO TUDO POSSÍVEL



-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem
atividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café
em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para
manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na
arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão
de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de
Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.




Francisco Cardoso, de S.Paulo, que já não vinha a Portugal há cerca de 6 anos, chegou a Lisboa em princípios de Julho de 1974. Antes de se deslocar para o Porto, tomou um táxi para ir ao banco comprar escudos. Como o carro não tinha ficado bem estacionado, saiu a correr, sem deixar de, ostensivamente, tomar nota da matrícula, pois nele deixara toda a bagagem. Quando voltou, disse ao motorista que Portugal era o único país onde faria isso, o que fez com este ficasse satisfeito e tivesse respondido que o português trabalhador é homem honesto. No entanto em lugares problemáticos, a coisa poderia ser diferente.
Contou que quase era assaltado, à porta de um bar no Cais do Sodré.
Ainda estou muito chateado com uns vadios que andavam por lá. E como sou cem por cento revolucionário, fico irritado vendo gente que não quer trabalhar e vive à custa dos outros. Se mandasse, ia lá e fuzilava todos esses vadios.

Em Setembro de 1974, havia alguma animação em S. Martinho do Porto, graças à ação dos amigos do alheio.
No dia 7, o agente Rui Jesus, da PSP ao entrar de serviço na parte da tarde, soube que estava pendente um pedido de captura de dois reclusos, um dos quais se havia evadido, pela segunda vez, da prisão de Caldas da Rainha e que se faziam transportar num automóvel roubado, com o qual já tinha feito alguns assaltos, que se apuraram depois serem a casas de electro-domésticos. Saindo para a rua, o agente Jesus deparou a certa altura com um homem que conduzia uma motorizada, aliás sem capacete, que aparentava ser um dos evadidos procurados. Este não só não parou, quando para tal foi intimado, como ainda tentou atropelar o agente Jesus, pondo-se em fuga, em direcção a Salir do Porto. O guarda Jesus, auxiliado por populares que presenciaram o caso, encetou a imediata perseguição, que não se revelou fácil. Após alguns tiros para o ar, como intimidação, mas sem sucesso, o fugitivo acabou por ser atingido numa anca, caindo para o chão e detido, foi transportado para o Hospital, onde ficou internado, sob prisão.
Dias depois, a 12, em S. Martinho apareceram notas falsas de 1.000$00, entregues para pagamento em estabelecimentos comerciais, como no Café Rosa, onde se deu pelo crime. Um dos passadores, pagou o jornal com uma nota de 1.000$00 e o outro com nota igual, uma despesa de 32$50, tendo desaparecido. No dia seguinte, no posto de gasolina da SACOR, parou um automóvel para se abastecer, preparando-se o condutor para pagar, também, com uma nota de 1.000$00. O fornecedor da gasolina desconfiou, por já andar no ar a notícia, graças ao caso do dia anterior, e a um outro ocorrido em Fátima, pelo que examinando cuidadosamente a nota, notou à transparência que não tinha selo de água e teria exclamado Alto! Aqui está mais uma! Já te apanhei, ganda vígaro!
Recusado o pagamento, o ocupante do automóvel pareceu admirado. Encontrando-se, casualmente, presente o taxista António Pedreiro, sugeriu que se dirigissem ao Posto da PSP, para denunciar a ocorrência. O condutor do automóvel acedeu à ideia, mas logo tentou fugir, pelo que com a ajuda de José Lopes da Silva, o burlão acabou por ser detido. No automóvel e nos bolsos foram encontradas mais notas falsas, prontas a entrar em circulação. O passador, um tal Nelson, foi preso e referiu que já havia passado duas notas em cafés de Tornada. Apreendidas, contaram-se 17 notas de 1000$00 e apurou-se elas vinham da Lourinhã, através de um tal Anacleto, que espalhara os seus agentes pelo país. Mais seis notas tinham sido passadas na Nazaré, aproveitando se os burlões das festas do Sítio, embora não fossem de grande qualidade. Apurou-se, porém, que estes não foram os passadores do dia anterior, no Café Rosa, de S. Martinho do Porto.

Em S. Martinho do Porto criou-se um grupo que se intitulou Vigilantes da Revolução (supostamente numa linha cubano-castrista), que, entre o mais, ia à noite para o Facho ver se detectava embarcação que transportasse homens e os desembarcasse com armamento, em apoio da contra-revolução fascista. Este grupo terá estado em contacto directo com o Cap. Gonçalves Novo, do Quartel das Caldas da Rainha. Pelo menos assim fazia constar para intimidar, dado este estar conotado com a ala mais radical do MFA. O Cap. Gonçalves Novo era conterrâneo (Sabugal) e parente de Gonçalves Sapinho.
Um dia, convidou-me para ir almoçar à Messe de Oficiais. Avisei-o de que não necessitava de correr riscos, por eu ser do PPD. Insistiu e fui almoçar. Cumprimentei alguns oficiais, mas vi noutros um ambiente gélido, pois o PPD não era bem visto por alguns.
Sapinho admite que foi algo com significado, com mais coragem pelo lado daquele que pelo seu, embora isso lhe pareça agora irrelevante, mas a mim antes não me pareceu.

O mesmo Grupo dito de Vigilantes, comunicou em fins de 1974, ao Quartel, a suspeita que na cave de determinada casa da rua Conde de Avelar, e que se encontrava alugada ao ano, havia armamento guardado e pronto a ser usado. Os militares vieram pressurosamente a S. Martinho do Porto, arrebentaram as portas, invadiram a casa e nada encontraram, salvo uns beliches de crianças, mobílias de quarto, sala e utensílios domésticos. As perigosas armas eram, afinal, tão só garfos e facas de cozinha.
O Quartel de Caldas da Rainha, participava com frequência e gostosamente neste tipo de operações ou controlos de estrada, umas vezes por iniciativa própria, outras por denúncias exteriores, ainda que anónimas e que alegadamente era para detectar armas e munições em más mãos. Nessas operações, a que por vezes se aliavam populares, montavam-se barreiras cada qual com 4 militares armados de G3 ou metralhadoras ligeiras e espaçadas, entre si, por cerca de 200m.
Uma operação montada na Matoeira, onde participou o sempre disponível e dinâmico soldado Moiteiro, o 70, terminou de uma forma trágica. Em determinado momento, surgiu um Mini, que não tendo respeitado o sinal de Stop, acelerou, quase atropelando um militar, para fugir. Por isso, e sem hesitação foi prontamente disparada uma rajada de tiros sobre o automóvel, um dos quais feriu mortalmente o condutor e gravemente a sua namorada na zona dos rins. Depois, apurou-se que se tratava apenas de um casalinho de namorados, cujo condutor não tinha carta de condução e usava o automóvel do pai, com o seu desconhecimento.
Se houvesse conhecimento de agitação na sua zona de intervenção específica entrava em regime de prevenção. A tropa de Caldas da Rainha em 11 de Março de 1974 rumou até Lisboa com dois piquetes em apoio ao Ralis, indo o soldado Moiteiro, o 70, a conduzir um dos veículos.

(CONTUNUA)

FLEMING DE OLIVEIRA

(II) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NO TEMPO DO TUDO POSSÍVEL



-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem
atividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café
em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na
arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão
de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de
Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.



Em Valado de Santa Quitéria, houve uma iniciativa que pareceu assemelhar-se à de Cós, pois em 26 de Janeiro de 1975, cerca de 80 pessoas de todas as categorias sociais e profissionais, incluindo estudantes, reuniram-se para levar a cabo a limpeza das valetas que liga a EN8 até à saída do lugar, numa extensão de cerca de 6 km.

Foi presente, em Junho de 1974, à Câmara Municipal uma petição de uma Comissão de Moradores de S. Martinho do Porto que sugeria o nome do Prof. Francisco Nunes Eliseu, para patrono da Escola Preparatória da Vila. A CMA, sem tomar posição, ”lavando as mãos”, encaminhou superiormente o assunto. Porém, em resposta, foi recebido um ofício da Direção Geral da Administração Escolar, informando que à Escola Preparatória de S. Martinho do Porto, fora atribuído o nome do Professor Eng.º Joaquim Vieira Natividade.

A Maiorga, de acordo com uma auto proclamada Comissão de Moradores, apoiada pela CA da Junta, queixava-se das condições higiénicas que deixavam bastante a desejar. Além do péssimo estado das ruas, não há esgotos, nem retretes públicas, que neste caso serviriam não só os habitantes, como até as muitas pessoas que a visitam.
Era, portanto, urgente construírem-se essas retretes, devendo a CMA colaborar materialmente nesse sentido. Analisado o assunto em sessão com todo o cuidado que merecia, a CMA encarregou o Engº Costa e Sousa e os Serviços Técnicos, de o estudar e apresentar propostas.
Cremos que, ainda hoje, o assunto continua em estudo, apesar da suja gravidade da situação.

A vida associativa dos Bombeiros de S. Martinho do Porto, não tem sido tradicionalmente muito pacífica, pautada por instabilidade nos corpos sociais, associados e comando.
Associados antigos, invocam episódios rocambolescos, que todavia não serviram de modelo para se evitarem outros posteriores, que acabam sempre por deixar sequelas.
Joaquim Francisco Pereira e Mário Félix Pedro, também conhecido por Mário Inhas, recordam que após o 25 de Abril, um grupo de associados, a que se juntaram elementos estranhos à corporação, liderados por uma tal Luísa Bazenga, estouvada professora do Ciclo Preparatório, ocupou os Bombeiros, impedindo que os corpos sociais e comandante, exercessem as funções para que tinham sido eleitos, saneando pessoas respeitáveis e conceituadas, mas perigosos fascistas, como o Presidente de Direção, João Maria Lopes da Silva (primeiro Presidente da Junta de Freguesia, eleito em democracia), os vogais Mário Pedro, Carlos Rosa e Joaquim Moura, o Presidente da Assembleia Geral Dr. Rafael Gagliardini Graça e o Comandante Manuel Clérigo.
Perante o impasse criado, dado que os ocupantes careciam de legitimidade, foi chamado a intervir o Governo Civil de Leiria, cujo Governador, Rocha e Silva, republicano e socialista, nomeou uma CA presidida por José da Silva Pereira, assessorado por Mário Pedro e um outro associado.
Mário Pedro, natural de S. Martinho do Porto, aí sempre viveu.
Foi admitido na PLATEX, em Famalicão da Nazaré, grande empregadora da região, em 1969, aonde se manteve até 1990, quando esta encerrou a actividade. Em 1981, por incapacidade de João Venceslau de Oliveira, assumiu as funções de Presidente da Junta de Freguesia, tendo como secretário Joaquim Francisco Pereira e tesoureiro Manuel Francisco. Foi ainda Presidente da Direção da Fundação Manuel Francisco Clérigo, membro da Direcção dos Bombeiros, do Clube Recreativo e Cultural de S. Martinho do Porto, militante da primeira hora do PPD e Presidente da Junta por mais dois mandatos completos. Hoje em dia, retirado da política ativa, tem todavia gosto em recordar alguns episódios.
Por sua vez, Joaquim Francisco Pereira, natural de S. Pedro do Sul, veio com cerca de 12 anos viver para S. Martinho do Porto, com a família Carvalho, ao tempo dona da Pensão Carvalho.
Aos vinte anos foi trabalhar para a Marinha Mercante, tendo aí efectuado muitos fretes de mercadorias e transportes de tropas, para África. Mais tarde veio a ingressar na PLATEX, aonde esteve até 1988, saindo antes de esta encerrar. Foi Presidente da Junta de Freguesia de S. Martinho do Porto, durante dois mandatos e um dos fundadores do PPD de Alcobaça, cuja vinculação mantém.
Apesar de José da Silva Pereira, ter acabado de adquirir, à sua custa, novo fardamento para a corporação, o certo é que nem ele, nem os restantes elementos da CA puderam assumir funções, porque a Luísa Bazenga e o seu grupo contestatário a tal se opunham pela força, fazendo vigílias na sede, onde de noite ficava sempre alguém como Vigilante. Chegou a formar-se um grupo que tentou, munido de paus e outros instrumentos agressivos, assaltar a casa de José da Silva Pereira, para se apropriar do fardamento que este comprara destinado à corporação e levara consigo. Segundo se soube mais tarde, José da Silva Pereira estava disposto a defender-se e ao fardamento, pelo que esperava os atacantes atrás da porta de entrada, munido de uma caçadeira, que não foi necessário utilizar, porque a rija porta não cedeu.
Em S. Martinho do Porto, o povo e mesmo algumas famílias estavam divididos, embora só uma minoria apoiasse os ocupantes e a Luísa Bazenga. Por sua vez, a PSP nada fazia com o argumento que era o MFA quem mandava, através do famigerado Cap. Gonçalves Novo (da 5ª Divisão do EMGFA), do Quartel de Caldas da Rainha, que dava cobertura a todo este tipo de incidentes.
Por esta altura, o mesmo Capitão Novo mandou prender Manuel Costa, o qual esteve cerca de dois dias detido na PSP de Caldas da Rainha, pelo facto de se ter pronunciado sobre um assunto da saias e sobre a Luísa Bazenga.
Em consequência da ocupação dos Bombeiros, houve também uma manifestação de apoio ao MFA, e aos ocupantes, sem prejuízo de outras, em sentido contrário, como as que foram em dois ou três autocarros manifestar, ao Governador Civil de Leiria, o repúdio pela ocupação, e solicitando medidas. Rocha e Silva não tinha força para impor a sua decisão, pelo que o assunto só veio a ter solução, quando em Assembleia-Geral, foram eleitos os novos corpos sociais.

(CONTINUA)


Fleming de OLiveira

(I) -A VIDA NA SOCIEDADE CIVIL DE ALCOBAÇA, POR ALTURAS DE 1974. -NO TEMPO DO TUDO POSSÍVEL




-Populares limpam as ruas e a escola de Cós.
-Luísa Bazenga, uma estouvada ativista, ataca os
Bombeiros.
-Notas falsas em S. Martinho do Porto.
-Os Vigilantes da Revolução.
-O Clube Alcobacense tem nova direcção, que inicia funções
com um número de palhaços.
-Há que sanear os caciques, sejam padres ou não.
-O saneamento correto, segundo Otelo.
-D. António Ribeiro visita Alcobaça.
-Os funcionários judiciais de Alcobaça, desenvolvem actividades político-sindicais.
-António Rainho, fica comovido e sobressaltado num café
em Amarante, com as notícias que lê no jornal.
-A Feira de S. Bernardo realiza-se à moda antiga para manter acesa a chama, apesar dos temos de revolução.
-O Gen. Carmona fica com a cabeça e um braço de fora, na
arrecadação do quartel de Caldas da Rainha.
-O 70, com dois sacos cheios de notas e um Pastor Alemão
de guarda.
-Lurdes Costa Ribeiro e o negócio da pedra.
-Há dois Arco da Memória, a definir os limites dos Coutos de
Alcobaça.
-Luís da Graça, empresário de sucesso e homem bom.
-Casais da Vestiaria, não quer Comissão de Moradores, com
pena de Damásio Campos.

A partir de 1974, abriram-se de repente as comportas de uma corrente social, durante décadas reprimida.

O povo, como nas caricaturas de Bordalo Pinheiro, sacudiu a canga e pretendeu tornar-se protagonista da peça, surpreendendo o poder político e económico. Movimentos populares ultrapassaram, com frequência, enquadramentos partidários, sindicais, religiosos ou outros.
Comissões de Moradores e outras formas organizativas, surgiram à luz do dia por todo o país, sendo mais numerosas em zonas com tradição histórica de lutas sociais. Efetivamente, um dos movimentos populares mais significativos no pós-revolução, foi o aparecimento das Comissões de Moradores. Em determinadas zonas do País, como Setúbal e as cinturas industriais de Lisboa e Porto, este movimento teve alguma expressão, ainda que transitória.
Em Alcobaça, nunca a teve.

Em 4 de Dezembro de 1974 uma auto intitulada Comissão de Moradores, da Azinhaga da Palmeira, veio pedir à CA da CMA, nova designação para o caminho, que há pouco tinha sido arranjado. Gilberto de Magalhães Coutinho propôs que se chamasse Rua da Liberdade, o que foi aprovado pela por unanimidade.
Embora possa ter havido casos de manipulação partidária, estas Comissões foram na maioria, a expressão sincera, embora tantas vezes utópica, de aspirações locais, fruto de um momento histórico exaltante, no qual as populações, sem esquecer as rurais, supuseram ser possível construir, por suas mãos, alternativas ligadas à resolução dos problemas concretos e imediatos.
No domingo, 25 de Maio de 1975, terá havido (???) um arremedo de uma manifestação de vontade e querer de habitantes, homens, mulheres e crianças de Cós que, munidos de enxadas e vassouras, limparam as imundas ruas e recantos.
António Barbosa nunca se apercebeu desta iniciativa. Aliás, nem apreciava o Barbosa Rodrigues, seu parente distante.
O Voz de Alcobaça deu enfático, demolidor e poético destaque a essa iniciativa de algumas dezenas de pessoas, cujo redactor, o panfletário, acintoso e azedo José Barbosa Rodrigues, se não o promotor da iniciativa, foi interveniente activo, que depois escreveu que, limpas as ruas, foi iniciado a escalada que leva à Escola Primária onde, ficou desesperado e revoltado com o espetáculo com que deparou na casa de banho que serve a Escola, nunca detetado, nem denunciado por alunos ou famílias e a que nem todos conseguiram assistir pois, as fezes cobriam todo o chão não deixando qualquer espaço livre para a entrada de quem quer que fosse, o cheiro pestilento obrigou-nos a fechar a porta. Esta escandalosa situação deixou-nos perplexos e revoltosos, pois já não bastava o próprio estado do edifício, o miserável estado das carteiras em que é necessário os alunos segurarem as carteiras uns dos outros para conseguirem fazer as cópias, o quadro que deveria estar num museu de artigos escolares do século XV, o material didáctico que julgávamos já nem servir para sucata e a biblioteca fenomenal de obras salazaristas e caetanistas que de certo muito irão contribuir para o desenvolvimento dos nossos filhos…
José Barbosa Rodrigues, enfatizou que, entre alguns populares, depois de terem dado como terminada a jornada, alguém alvitrou irmos limpar o adro da Igreja de Santa Eufémia, o qual se encontrava fechado a cadeado por uma fanática, a viver nesta localidade, que num acto de valentia, orgulho religioso e por raivas pessoais, resolveu um dia fechar com corrente e cadeado, o portal que dá acesso ao adro daquela igreja, sem que para isso tivesse consultado qualquer pessoa ou entidade, quer religiosa, quer pública.
Assim, foi organizado um cortejo de protesto, ele à frente seguido de mais alguns, com que nos dirigimos a casa dessa senhora, a fim de obtermos a chave, o que foi conseguido com alguma dificuldade, com a qual abrimos o portal. Depois de ter sido feita a limpeza e descarregado o 14º tractor de lixo, iniciámos uma marcha cantada por todo o grupo pela rua principal da aldeia (…).
Não obstante José Barbosa Rodrigues ter prometido proceder a outras obras de interesse local e das quais em breve haveremos de falar, esta iniciativa não deu frutos. Pudera, romancear é diferente de realizar. Romanceou tanto… que um dia acabou mal.

(CONTINUA)

FLEMING DE OLIVEIRA

-UM EMPRESÁRIO EXPLORADOR DA CLASSE OPERÁRIA (1974) -AQUI JÁ NÃO SE EXPLORAM OS TRABALHADORES, DIGA LÁ ISSO AO PATRÃO !!!




Altino do Couto Ribeiro, de que já tenho falado por várias vezes, fazia a distribuição das encomendas da sua fábrica em Alpedriz, em qualquer parte do País, de Norte a Sul e, muito especialmente em Lisboa, onde ia muitas vezes e tinha bons clientes, com destaque para a Brás & Brás, dadas as cordiais relações com o dono, António Brás. Por alturas de Setembro de 1974, Altino deslocou-se numa tarde a Lisboa para entregar mercadoria a um novo cliente, com loja de decoração e artigos para casa, na Rua Forno do Tijolo. Ao chegar, foi recebido por alguém que se apresentou como o dono e que muito democraticamente lhe referiu que, em Lisboa, já não se exploram os trabalhadores como antes, pelo que não compreendia como o patrão obrigava que o motorista fizesse a distribuição, sem ajudante.
Sem se desmanchar, Altino respondeu que o patrão da sua empresa, era um gajo de gancho, expressão que fez acompanhar, com o expressivo e popular gesto do dedo. Assim, avisou que quando o viajante por lá passasse, haveria de lhe chamar a atenção para tal prepotência e dizer-lhe das boas. Com a entrega da mercadoria, recebeu a gratificação de 10$00 para uma cerveja, o que não rejeitou e intimamente divertido meteu no porta-moedas. Dias depois, o viajante passou pelo estabelecimento, tendo-lhe sido feita a queixa anunciada. O viajante esclareceu que, na fábrica de Altino, a distribuição foi sempre feita pelo patrão, sem qualquer ajudante e nunca se deu mal com o processo.
Mais tarde, Altino Ribeiro voltou à Rua Forno do Tijolo para entregar mercadoria, e no meio de risota, o cliente disse-lhe que você saiu-me cá uma boa prenda.
Com o tempo tornaram-se amigos e fizeram muitos negócios.

Em Outubro ou Novembro de 1974, Altino do Couto Ribeiro recebeu mais um aviso para se deslocar à Delegação do Ministério do Trabalho, em Leiria, a fim de tratar de um assunto do seu interesse. Não foi a primeira, nem a última vez que recebeu avisos semelhantes, pois não obstante ser pequeno empresário de louça, estava sob a mira atenta dos sindicatos, sem que estes se identificassem, propriamente, com os trabalhadores ao serviço da empresa.
O assunto que, afinal, tinha a tratar em Leiria era relativamente insignificante, pelo que a deslocação aborreceu-o muito mais que a sua importância. Todavia, sem que nada o justificasse, à falta de melhor argumento, um sindicalista do Valado de Frades, trabalhador da SPAL, com que não tinha de há muito boas relações, rotulou-o publicamente e em voz alta de explorador dos trabalhadores.
Altino sentindo a injúria no corpo e alma, irritou-se de imediato e tentou agarrar pelo colarinho o provocador, só não conseguindo o seu intento, porque este era bastante corpulento e foram separados pelo Delegado do Ministério do Trabalho, de Leiria.
Ao chegar à fábrica, resolveu telefonar ao Delegado do MT, para dar-lhe uma satisfação e pedir desculpa pela atitude. Ficou bastante reconfortado ao ouvir do outro lado da linha, assegurar-lhe que compreendi muito bem a reação. Comigo não sei como reagiria.


FLEMING DE OLIVEIRA