segunda-feira, 10 de outubro de 2011

VERGILIO., BULHÃO PATO E CAÇADORES

(I)

-BULHÃO PATO
-AS SUPERSTIÇÕES
-OS PADRES TAMBÉM SÃO
SUPERSTICIOSOS E VÃO PARA O
INFERNO?
-HISTÓRIAS DE CAÇADORES DE
ALCOBAÇA, CASTANHEIRA E
ARREDORES

FLEMING DE OLIVERIA




Bulhão Pato em Fevereiro de 1893 escreveu, de Monte da Caparica, este texto delicioso que não resistimos em transcrever:
Alexandre Herculano, quando via na sua mesa um pão com o lar para cima, ia muito depressa e voltava-o. Nos primeiros tempos que estive em sua casa notei esta circunstância e olhei um dia para ele interrogativamente.
Ele, sorrindo, respondeu:
–Em criança disseram-me que um pão, posto assim, era sinal de morte na família. Não lhe resisto; a educação é uma grande natureza.
Eu era muito rapaz; o caso repetia-se, sempre que havia pão voltado, e tomei-lhe o hábito. Herculano meteu-me este enguiço.
Outro-e por fatais exemplos!-foi o meu co-irmão, o Dr. José de Avelar, que mo sugeriu.
Em 1860 estávamos no Vale de Santarém, Francisco Maria Bordalo, D. Diogo de Vasconcelos, José de Avelar e eu, em casa de Rebelo da Silva. Um filho da viúva Caldas, que fora meu companheiro no colégio do Quelhas, convidou-nos para jantarmos numa propriedade sua – Malpique. Soberba propriedade.
Num dia deslumbrante, partimos todos, a cavalo, lezíria dentro, para a quinta do nosso hóspede. Nos tapizes de relva os malmequeres e as margaridas; nos trigais tenros e lanciolados as âmbulas purpurinas das papoilas e toda a campina encrespando-se suavemente, como o mar chão e esmeraldino, arrepiado por uma leve aragem. O Tejo, que trasbordava com a invernia, enchendo as valas, alongava os braços prateados pelas ínsuas, sob os salgueiros recarvos e já frondeados. O ar vivo, as planuras do campo, animadas pelas manadas de poldros relinchantes, de novilhos brincões, e de toiros, de cabeça alta, alegres e mansos na sua plena liberdade; o globo rutilante do Sol, iluminando a imaculada esfera, produziam em todos nós o desafogo e bem-estar que, mais do que em parte alguma, se dá no fecundo regaço da natureza! Chegou a hora do jantar, que o nosso estômago acusava já de tardia. Quando íamos sentar-nos à mesa, José de Avelar-tinha ele então os seus vinte e cinco anos e era um raro exemplar de beleza masculina, tão viril como correcta-disse para Bordalo e para mim:
–Olhem que somos treze!...
Bordalo que, apesar de marinheiro, não tinha nenhum desses preconceitos, respondeu, rindo:
–Pois tu acreditas nisso, José?
–Não acredito; mas que queres...
E sentou-se visivelmente perturbado. O jantar correu alegre. O sogro de Rebelo da Silva, fidalgo no berço e no carácter, fazia parte dos convivas. Passava dos sessenta, porém, sadio e robusto; Bordalo não tinha ainda quarenta anos e não acusava lesão alguma. Antes de completo o ano, morria o sogro de Rebelo e, a pouco trecho, Francisco Maria Bordalo.
José de Avelar dizia-me:
–Olha que éramos treze em Malpique!
Deram-se-nos depois mais casos análogos; mas vamos ao derradeiro.
Alexandre Herculano fazia anos a vinte e oito de Março. Nesse dia, os seus amigos mais íntimos iam jantar com ele. Em 1877, na véspera dos anos do mestre, João Pedro da Costa Basto e eu chegámos a Vale de Lobos. No dia seguinte, apareceram Henrique Augusto de Sousa Reis, o marquês de Sabugosa e José de Avelar. Havia mais convivas. A srª D. Mariana Hermínia Meira, mulher de Alexandre Herculano, desde pela manhã que sentira os rebates de uma enxaqueca, a que era atreita, e que lhe não passava senão ao cabo de vinte e quatro horas largas. Próximo ao jantar o ataque aumentava. Uma hora antes de irmos para a mesa, Avelar disse a Herculano:
–Olhe que somos treze!
O mestre, que tinha o enguiço do pão voltado, como homem justo em tudo respeitava os dos outros.
–O pior, meu amigo, é que não vejo agora que volta se lhe dê.
A senhora de um lavrador vizinho do Vale, senhora simpática e íntima da casa acudiu logo:
–Tudo se arranja facilmente. Eu mando à quinta buscar a minha filhita.
Assim se fez. Descemos à casa de jantar. Ainda se não tinha servido a sopa, quando vimos, no rosto da dona da casa, que aumentava o seu mal-estar, e todos, com seu marido, instámos para que se retirasse. Era apenas uma indisposição, que não dava o minimo cuidado, e o jantar principiou alegre; mas o dr. José de Avelar, que se assentara ao pé de mim, disse-me, muito baixinho:
–Sempre ficámos treze!
Alexandre Herculano esteve esplêndido, como nos dias da mocidade. Mais uma vez todos o admirámos comovidos! Demorou-se a palestra até tarde. O marquês de Sabugosa, Sousa Reis e dr. Avelar partiam no comboio da madrugada. João Pedro da Costa Basto e eu ficámos por mais dois dias. No último dia, ao jantar, contei umas anedotas, que deram no goto ao mestre. Riu, do riso franco e prolongado, que lhe era peculiar. Chegou o trem que devia conduzir-nos ao comboio da tarde. Herculano, na melhor disposição de espírito, veio acompanhar-nos até à caleobe. Quando o carro partiu, uma nuvem envolveu subitamente o espírito de João Basto, e tal foi ela, que a muito custo conteve as lágrimas.
–Se não fosse-disse ele-a necessidade impreterível de estar amanhã em Lisboa, voltava para trás.
Ruim pancada lhe bateu o coração! Era a última vez que apertava a mão do seu grande amigo! A 13 de Setembro de 1877, sobre as dez horas da noite, Alexandre Herculano expirava na sua casa de Vale de Lobos. Dias antes, José de Avelar-depois de haver observado o enfermo com olho de médico-entrou no gabinete de trabalho do mestre. Deixou-se cair desalentado sobre a cadeira onde Herculano se assentava para escrever e, passando a mão pela testa, nesse momento húmida de suor, disse-me:
-Éramos treze, no dia dos anos dele!
O seu funesto prognóstico resumia-se nessas palavras! De então para cá não tornei a sentar-me a mesa alguma com treze pessoas.

O Pe. Vergílio apreciava gatos (contrariamente ao Pe. Brigalheira de quem já falámos) e tinha um.
Afirmava que acariciar um gato atrai a sorte, ter um gato em casa atrai a fortuna e que se um pão cair no chão, deve ser beijado por quem o deixou caír, porque está lá Nosso Senhor e assim não faltará comida ao desleixado. Fez, segundo constava, o ensino primário na sua aldeia da Beira-Alta. Entre os cinco e os seis anos, frequentou a escola das meninas, porque o seu pai conhecia a professora. Desse modo, pôde familiarizar-se com as letras e os números, em boa companhia. A companhia das raparigas garantiu-lhe mesmo a passagem directa para a segunda classe bem como a facilidade e gosto de em adulto lidar com mulheres. Em todos os anos lectivos, foi sempre o aluno mais novo. Acabou por ter as suas vantagens, mas penso que me faltou um ano de brincadeiras, confessava a algumas pessoas mais chegadas.
Para continuar a estudar, o Seminário de Viseu era a única possibilidade. A vocação não seria profunda. Rezava muito bem, garantia muito mais tarde, muitos padre-nossos e ave-marias, segundo o preceito. A vida no Seminário não era muito fácil devido, em especial, as regras de conduta impostas ao seu funcionamento diário. No entanto, para alguns, como ele, isso não foi grande problema. Os anos que ali passou permitiram-me adquirir regras de comportamento e de atitude que foram úteis enquanto decorreram os estudos e, mesmo, para a vida, dizia também sem consciência de hipocrisia.
O contacto com a natureza fazia parte da rotina do dia a dia no Seminário, o que aliás não era estranho ao seminarista Vergílio e facilitou-lhe a integração. Ao lado do Seminário, havia uma quinta que os alunos frequentavam, onde além de produtos da terra como legumes e vinho, tinha uma vacaria. O Pe. Vergílio gostava de recordar a junta de bois que puxava o carro, a charrua ou o arado, guiada pelo criado, apoiado pela aguilhada com o respectivo aguilhão na extremidade. E tendo em conta a sua origem e formação, invocava saberes tão simples como o que sendo o arco-íris um bom prenúncio, conseguir ver ao mesmo tempo as pontas do arco-íris é um sinal muito favorável, ou que ver ou ouvir um pica-pau significa chuva, tal como se as formigas estiverem muito ocupadas.
Altino Ribeiro, embora nunca tivesse sido pessoa frequentador da igreja, nada tinha contra os padres, e dava-se bem com o Pe Vergílio. Encontravam-se para conversar e, de vez em quando, até para caçar coelhos ou perdizes. Além da pesca Altino também apreciava a caça. Num determinado dia, antes de saírem para a caça, armas, cães e farnel preparados, bem como tudo o mais que cumpre, o Pe. Vergílio anunciou que, dessa vez, iria levar um furão. Como se sabe, em Portugal, é ilegal ter furões, mesmo como animais de estimação, devido a lei da caça não permitir que estes animais sejam utilizados para caçar, sem uma licença. Não existe, todavia, qualquer diferença entre os furões utilizados para a caça e os furões como animais de estimação.
-Eu sei que é proibido, mas sempre ajuda a apanhar um coelho, acrescentou o Pe. Vergílio.
-Oh Senhor Padre, se levar o furão eu não saio, respondeu Altino. Não quero ter problemas com a Venatória.
Perante esta firmeza, o furão ficou mesmo em casa. Depois de dados uns uns tiros com mais ou menos pontaria encontraram, a meio da manhã, os guardas da Venatória que os mandaram parar. O Padre ainda tentou evitá-los, enquanto Altino ficou a pequena distância a assistir com muita curiosidade à conversa, durante a qual aquele tentava convencer os guardas que, enquanto sacerdote, estava dispensado de licença de uso e porte de arma de caça, razão porque a não tinha.
Na Castanheira, com o Fernando Gomes Salgueiro aconteceu por alturas dos anos sessenta um caso interessante. A caça de perdizes era bastante vulgar, pois estas ainda não faltavam. Muitos da Castanheira, como aliás em todo o País, iam caçar, levando consigo os seus próprios perdigueiros.
Fernando Gomes Salgueiro tinha um cão considerado de fidelidade máxima. Durante uma caçada o cão desapareceu. Não voltou para o dono como era habitual. Apesar de chamado insistentemente, não apareceu. Cansado de esperar e cheio de desgosto, Fernando Gomes resolvou dar a caçada por terminada e voltou para casa sem o animal. No ano seguinte com a abertura da temporada, lá foi caçar no mesmo local do ano anterior. Para sua surpresa, ao lá chegar encontrou o esqueleto do cão, junto aos restos de uma perdiz. Ficou bem evidente que o cão tinha morrido de fome sem comer a caça. Gomes é do tempo do terreno dito livre, como gosta de dizer, que o era por haver caça e não excesso de caçadores, como também o é já também do tempo das coutadas, cuja existência defende. A caça, alega, tem que ter um dono, como as cabras, o que é de todos não é de ninguém, como o mel dos enxames silvestres que ninguém aproveita.

CONTINUA











(II)

-BULHÃO PATO
-AS SUPERSTIÇÕES
-OS PADRES TAMBÉM SÃO
SUPERSTICIOSOS E VÃO PARA O
INFERNO?
-HISTÓRIAS DE CAÇADORES DE
ALCOBAÇA, CASTANHEIRA E
ARREDORES

FLEMING DE OLIVERIA

Mas também há quem goste mais de caçar sozinho, como Luís Pires, dos Carris. Nas suas caçadas de muitos anos normalmente solitárias, acha agradável não ter obrigação de seguir por aqui ou por ali, progredir a bel-prazer, parar ou andar, falar em voz alta com os cães, com as peças de caça, ou com as fragas e as árvores. Não ter que interromper o acto, alimentar-se frugalmente com o que a natureza dá, figos, uvas, maçãs, peras, marmelos, nabos, tomates e outros frutos esquecidos, como laranjas, tangerinas, tudo honestamente roubado sem exageros e sem desrespeitar a propriedade alheia. Nisso é intransigente. Na caça, tudo complementado com o indispensável naco de pão, queijo duro, uma fatia de presunto ou linguiça.

Manuel Deodoro, de Turquel, conta muitas histórias de caça, ocorridas consigo e amigos ao longo de mais de quarenta anos de espingarda nas mãos. Caçava normalmente com um grupo de mais dois ou três colegas, seus vizinhos, inclusivamente no Alentejo. Alguns metros à frente, conta ele, vejo a pointer marrada de nariz ao alto. Aproximo-me calma e silenciosamente. A pointer vai olhando pelo canto do olho, dá 2 ou 3 passos e estaca de novo. De repenta salta uma perdiz e logo ao primeiro tiro acerto em cheio e prego com ela no chão. A pointer arrancou e trouxe-me a ave à mão. Linda, dá cá, faço-lhe uma festa, depois de retiro-lhe a perdiz e dou-lhe a cheirar o troféu. O animal abanou alegremente a cauda, cheio de satisfação.
Ainda nesse dia mais à frente, aconteceu outro lance interessante com Manuel Deodoro. O António Manco, dono de 2 de dois excelentes cães de caça, estava com ele e com outro coldega. Um dos cães levantou uma lebre jovem e bastante pequena. O Manco pegou prontamente na arma e preparou-separa lhe desferir um tiro. Mas o Manuel gritou-lhe de imediato: Não atires, a lebre é nova e vamos ver se consegue escapar. Os cães desataram no seu encalço e depois de voltas e quebras de rins, a pequena lebre, certamente já muito cansada, acabou por se deixar agarrar, já dentro de um vinhedo. Apesar dos gritos do António Manco, os cães não lhe obedeceram e acabaram por cobrar a lebre.

Os caçadores, comos pescadores, têm mil e uma histórias, algumas verdadeiras, outras assim-assim ou até pura ficção, mas que contadas com alma e emoção deixariam as suas vítimas com lágrimas nos olhos ou com uma revolta maior que a terra queimada num incêndio de verão. Manuel Deodoro pode afiançar-nos que o seu relato … é a verdade verdadinha, que eu vi com estes olhos que a terra há-de comer, assim Deus me salve a alma, e ainda há por aí muito povo de Turquel que não me deixa mentir. Seja como for, o nosso leitor perceberá logo que essas narrativas são histórias e que as histórias podem ser aquilo que dissemos atrás, mesmo com Manuel Deodoro, e até podem começar com o tradicional era uma vez a que, no caso, se pode acrescentar nos bons tempos em que havia perdizes. Para Manuel Deodoro, a caça foi sempre antes de mais um ritual, tal com para outros aficcionados seus colegas, a subir montes e vales, calcorreando quilómetros, andando a pé, muitas vezes sem resultados práticos que não sejam umas tainadas com farnel preparado em casa (isso sim mesmo importante…). Foi esta uma das boas razões para quem caçava como Manuel Deodoro. Juntar-se com amigos, conhecer bonitas paisagens e comer uns petiscos. Deodoro porém nunca gostou de caçar com padres, pois acredita que estes não dão sorte aos caçadores, por acompanharem os mortos ao cemitério. Contudo, conheceu casos de homens que antes de partirem para a caça se benziam e pediam a bênção para afastar os agouros e azares.
Mas nem só de perdizes vivia a caça de Deodoro e amigos, sendo recorrente a sua afirmação de que perdiz que canta não espera. Durante várias décadas, o coelho bravo foi também uma caça se não predilecta, mas importante para si e outros caçadores. O coelho bravo era um complemento alimentar de muitas famílias do mundo rural, devido à sua abundância e facilidade de captura. Nas últimas décadas, temos assistido a um decréscimo acentuado das populações desta espécie, devido essencialmente às alterações do meio, aos predadores, ao esforço de caça e às doenças.
Não há ainda muitos anos, era costume pelo Natal, no fim da missa, as pessoas fazerem fila para, em frente ao altar, se ajoelharem a beijar uma imagem do Menino Jesus, normalmente no pé. Há quem diga, à margem de outro argumento mais consistente, que a prática não era muito higiénica e, por isso, a recusavam, apesar de o sacristão passar de cada vez, uma toalha para limpar os restos de saliva ou os perdigotos que alguns, mais gulosos ou ávidos, lá deixavam. Num Natal, do início dos anos sessenta, o uso cumpria-se em Alpedriz, com o povo postado ordeira e piedosamente para beijar o pé do Menino. O Pe. Vergílio, que conhecia por dentro e por fora a vida de todos os paroquiano(a)s, descortinou na fila, através do véu, uma muito compenetrada senhora, quarentona e em bom estado, que já há algum tempo se tentava insinuar junto dele, embora sem sucesso. Ele não queria nada com ela, pois tinha sempre disponíveis, raparigas novas e fresquinhas. Todavia, o Pe. Vergílio não conseguiu evitar fazer-lhe publicamente uma maldade. Qual? Quando chegou a vez dela, retirou-lhe ostensivamente o Menino Jesus, o que criou um grande surúrú, especialmente entre as pessoas que não perceberam a razão do insólito gesto.
Por estas e por outras, havia também muita gente que não gostava do Pe. Vergílio e dizia mal dele. Mas ele não se preocupava com isso e tinha um argumento eficaz e sempre pronto. Quando a orelha aquecia e rosava de repente, isto é, de acordo com a tradição popular porque alguém estava a falar mal dele, o Pe. Vergílio começava a dizer rapidamente o nome dos suspeitos, em voz alta (fosse onde fosse) até a orelha parar de arder ou perder a cor. Para aumentar a eficiência do contra-ataque, o Pe. Vergílio mordia mesmo o dedo mínimo da mão esquerda, para que o sujeito maldizente mordesse a própria língua… As paroquianas mais chegadas achavam muita graça a estes trjeitos. Parece correcto concluir que podemos (Padres e laicos) ignorar muitas superstições, usos ou costumes antigos que deixaram de ter sentido hoje em dia, tais como rituais e prenúncios ligados à feitura manual de feno, a crença de que encontrar um limpa-chaminés é um bom sinal ou que os amola-tesouras e facas trazem chuva.
Porém, ainda permanece um número surpreendente de prenúncios úteis, nos quais as pessoas acreditam, no início do racional e cientifico século XXI.
Durante a vindima, uma rapariga ao retirar o lenço do bolso do avental, deixou inadvertidamente e sem se aperceber, cair ao chão um papel. As colegas trataram de ver logo o que nele estava escrito, antes de o devolverem. E para enorme gáudio e surpresa, constataram que lá estava ajustado, para o dia seguinte, um encontro com o Pe Vergílio, que só poderia ser de amor. O facto correu célere, não tanto por ser interveniente o Padre, o que não seria novidade, mas por ser com a rapariga, noiva e acima de toda a suspeita. Assim, os seus familiares, para lavarem a honra maculada, foram queixar-se ao Bispo de Leiria, que, possivelmente à espera de uma oportunidade, resolveu castigar o Pe. Vergílio, mandando-o coadjuvar um outro, numa terra do Ribatejo. Segundo conta Altino Ribeiro, nessa localidade, o Pe Vergílio, voltou a ter sarilhos de saias, pelo que ali esteve pouco tempo, até ser nomeado capelão militar e enviado para Angola.

O Pe. Vergílio faz-nos recordar neste momento, salvo as devidas proporções, um seu (quase) conterrâneo. Saiba-se que o maior progenitor do País, terá sido um Padre, que gerou 299 filhos. A heresia que ocorreu no século XV, em Trancoso, terá tido também pelo meio um nada comedido consumo de vinho do Dão. Diz o povo que com o primeiro copo o homem bebe vinho. Com o segundo, o vinho bebe vinho. Com o terceiro, o vinho bebe o homem. Diz-se também que, quem bebe bem, dorme bem e, quem dorme bem, pensa bem. Quem pensa bem, trabalha bem e, quem trabalha bem, deve beber bem. Mas em Trancoso, um houve um padre, que dizia que beber vinho, para mim, pode ser o caminho do pecado, mas transporta-me para o afrodisiasmo. Mas o padre de Trancoso, de nome Francisco Costa, ia mais longe. Recordava ao Bispo, aos maridos, namorados ou irmãos, por descargo de consciência, que Cristo disse: Crescei e multiplicai-vos. Foi quanto bastou ao padre Costa, que viveu pelo século XV, para ser tido até hoje como o mais prolífero progenitor português. Ao todo, contaram-se-lhe 299 filhos, concebidos em 53 mulheres, sendo 214 raparigas e 85 rapazes. A sua capacidade reprodutora, assente numa ilimitada libertinagem e no o vinho, chegou a ser condenada por um tribunal, naturalmente com uma sentença medieval. Foi arrastado pelas ruas, preso ao rabo de cavalos, para depois ser esquartejado aos quartos, sendo que a cabeça e as mãos depositadas em diferentes localidades.
Damião da Agonia tinha uma interessante faceta. Um belo dia um grupo de senhoras que organizavam a festa de Santa Marta, talvez por sugestão do Pe. Vergílio, dirigiram-se a casa do Sr. Damião a pedir-lhe flores do seu jardim, junto casa. Ele respondeu-lhes muito delicada, mas firmemente, que não, não dou nem uma flor, porque as só flores são belas no jardim, e os jardins só são bonitos quando têm flores. Mas as senhoras e o senhor padre que não me levem a mal, têm aqui o dinheiro necessário para comprar flores, que não faltem na nossa capela, nem no andor que quero com muitas flores. Quero que este ano a festa tenha muitas e bonitas flores, mas as flores do meu jardim não chegariam para nada.
Os padres também vão para o Inferno?
Altino Ribeiro diz que um padre das suas relações lhe confidenciou que estava convencido que, quando morresse, ia para directo para o Inferno, tal como as línguas das freiras (porque são muito cuscuvilheiras…). Altino respondeu lhe que não tinha razão, além de que tinha muito gosto em defender a reputação delas, aliás suas cunhadas.
-Mas vc. tem alguma freira cunhada?, perguntou-lhe admirado o padre.
-Tenho muitas, não uma, pois para a minha mulher elas são todas irmãs.
Nestas notas, quando abordamos alguns factos antigos relacionados com sacerdotes, não os pretendemos ridicularizar, nem diminuir. Estamos a falar de homens, em geral estimáveis, mas cuja vocação não nos permitimos em caso algum discutir (em muitos casos nem os próprios então a discutiam… com seriedade), embora pensemos que se enveredaram por esse munus, tal poderá ter sido fundamentalmente devido à falta de opções de outro tipo. O seminário foi durante larguíssimo período de tempo, o local que independentemente da vocação relativamente à qual não era muito exigente, permitia a rapazes de grupos sociais mais desfavorecidos, limitados e/ou rurais, o acesso ou trampolim a estudos, doutro modo impossíveis. E se o futuro sacerdote, embora estimável, não possuísse a devida vocação (em termos de Fé), haveria de naturalmente ter no seu dia a dia de adulto, todo um conjunto de características de ordem comportamental (como a não aceitação do celibato e o despreendimento material), cuja cedência se aceitaria mais benevolamente se se tratasse de um laico. Hoje, ser sacerdote, pressupõe em geral uma vovcação consciente. Por isso, entendemos que para a Igreja, o problema do nosso tempo não é tanto a mera falta de vocações para o sacerdócio, mas a verdadeira exigência que cada candidato faça si próprio, antes de o assumir. Hoje em dia, poderíamos dividir o tempo da vida no Seminário em dois períodos distintos:
Um, caracterizado pela forma tradicional de o gerir, cuja filosofia poderia ser sintetizada em quantos mais alunos entram, mais padres saem. Outro, caracterizado por uma mudança de filosofia na pastoral vocacional. Menos alunos, entrados com mais idade, melhor preparação e motivação, dão na recta final, em menos tempo e com menos gastos, talvez melhores padres.
A aplicação deste princípio levou a que uma parte dos seminários fechassem ou ficassem sem número suficiente de alunos e ao argumento, redutor, que há menos vocações.
Mas voltemos ao tema da caça. Há anos vivia em Chiqueda, um indivíduo violento que era temido pelos vizinhos e tido por pessoa de mau carácter. Gostava de brigar, de beber (dizia-se que tinha mau vinho) e de caçar, o que neste caso fazia sem critério, pois tudo o que lhe aparecia à frente poderia ser abatido, mesmo em tempo de defeso. Um dia, em pleno mês de Agosto, foi encontrado por uma patrulha da GNR que, perante a manifesta infracção às leis da caça, lhe pediu a identificação. O nosso homem apontou para o interior dos canos da arma com os dois dedos da mão direita e respondeu, ao guarda com sobranceria, que a sua licença ali se encontrava… Perante isto, o GNR nada mais acrescentou e, mandou-o seguir. Mas adiante, quando o homem já se encontrava a um distância superior à da sua capacidade de tiro, o GNR apontou-lha a respectiva arma (que atingia com eficácia uma distância de mais de um quilómetro), mandou-o parar, pousar a arma e chegar até ele devagarinho e, sem ondas. Então deteve-o para o fazer apresentar e prestar contas em Tribunal.
Por algumas fotografias que nos chegaram, por memórias pessoais ou até transmitidas de familiares, poderemos recordar casas, ruas, pessoas e cenas do quotidiano rural de um lugar como Montes, um espaço integrador e apesar de tudo com poder afectivo. Era um mundo de trabalho, aonde se impunha a par de pequenos prazeres a cultura da vinha, pois estava ainda longe o tempo dos grandes pomares, não havia indústria nem serviços, aliás como agora, salvo o café ou as bombas de gasolina. As histórias da vida contavam-se na taberna, entre dois de branco ou tinto, e nos mexericos das comadres à porta ou à janela, na saída da missa ou nas festividades religiosas. Era um ambiente de mosto em Outubro, fumos de lareira a preparar os enchidos depois da matança do porco. Era um tempo em que havia miúdos a correr despreocupadamente na rua aonde só transitavam carros de bois e bicicletes, o que justificava um olhar desconfiado sempre que aparecia um estranho. Era um tempo em que em fins de Agosto de um ano longínquo e quente, as uvas estavam bonitas, e assim parecia que se podia começar a vindimar. O pai do Ti’ Manel da Costa, então com uns cinco ou seis anos, tirou um bago do cacho que este acabara de colher, deu-lhe a provar. Trincou e logo cuspiu, era azedo. Assim, o Ti’ Manel começou aos poucos a perceber que tudo tem o seu tempo, obedece a regras, Lei suprema quer para a Natureza, quer para a sociedade, que é outra forma da Natureza. Quem não respeita as regras é desordeiro. Mas quem sempre as põe em causa e delas troça, é ateu a infectar os que estão por perto.
Era um mundo onde não estava arredado um sentido de hospitalidade, para com os de fora. Era isso mesmo o que o regime queria e fomentava, se possível para sempre, em prol do bom povo português.
Era um mundo onde paradoxalmente se citava de vez em quando o provérbio, tal como nos recordou Manuel Carolino que, sol que nasce cedo, mulher que sabe latim e padre que ama o bom vinho, nunca terão bom fim…



FLEMING DE OLIVERIA


PANFLETÁRIOS

-UM PANFLETÁRIO INIGUALÁVEL
MAS COM SEGUIDORES
-Pe JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO
-A TRUCULÊNCIA DO JORNAL A VOZ
DE ALCOBAÇA (1ª Série)


FLEMING DE OLIVEIRA





AO FALAR DE JORNALISMO POLÍTICO E PANFLETÁRIO, é impossível esquecer, o exemplo do Pe. José Agostinho de Macedo, talvez o mais incontrolado e sabido caceteiro da pena que houve em Portugal, que viveu no virar do século XVIII, um dos mestres de Frei Fortunato de S. Boaventura, que fundou jornais e folhetos de que se chegaram a tirar quatro mil exemplares !!!
Frade, veio a ser expulso da sua congregação (da Graça), por devassidão. Segundo regista a pequena história, apresentava-se em público de batina desabotoada, de ventas largas cheias de rapé, munido de um bordão que gostava de desandar apesar do seu físico ossudo e grande, dava murros violentos no balcão gorduroso da taberna e agitava Lisboa com a sua fama de vida boémia e desbragada. Vivia (amancebado assim se dizia antigamente) com uma freira de Odivelas.
Depois de provocar e empanturrar Bocage, que também andava perdido, com um indigesto amontoado de vulgaridades panfletárias, este respondeu-lhe (…) Epístolas, Sonetos//Odes, Canções, Metamorfoses…//Na frente põe o teu nome, e estou vingado.
Quando morreu em 1831, deixou saudades, pois o Povo sentiu pelos seus nervos, falou pela sua boca. O Povo Português, reconhecia-se retratado na sua figura de padre a arrastar-se pelas portarias de conventos, casas senhoriais ou vielas mal frequentadas de Lisboa, ébrio de cólera e muitas vezes de vinho. E o Povo, não obstante esse comportamento tido por licencioso, encontrou nele a franqueza e desinteresse, salvo talvez a cobiça da popularidade, dos que não tendo vergonha, têm o mundo por si. Viveu quase sempre como mendigo. Nas arremetidas do Pe. Macedo havia ódios, fruto de antagonismos antigos, fundados e viscerais. Os papéis, folhetos e jornais que produziu, não se inseriam numa comédia pretensamente civilizada, como as de hoje, para prazer de um público de camarote ou de TV. As injúrias e as ofensas, pagavam-se frequentemente com bengaladas, facadas ou tiros, eram mesmo a sério. Podemos dizer que se existe algum paralelismo entre o espírito panfletário da 1ª. Série de o Voz de Alcobaça e o Pe. Agostinho de Macedo, reside tão só no facto de as injúrias inflamantes, os epítepos obscenos de Mário Sá, e as verduras de Vasco da Gama Fernandes ou Lameiras de Figueiredo, entre outros, dirigirem-se preferencialmente a instituições, como a Igreja ou a Monarquia, ou ao poder anti república, ao invés de hoje, personalizadas cupidamente em A ou B, pesssoas eventualmente incómodas, mas com quem nos cruzamos na rua e nos sentamos em mesas contíguas do café.




FLEMING DE OLIVEIRA





O PIREZA

-O REVIRALHO E AS INTENTONAS FALHADAS
-O PIREZA É ASSALTADO EM PATAIAS POR
FUNCIONÁRIOS DO FISCO !!!
-A HONRA DO PARTIDO DEMOCRÁTICO

FLEMING DE OLIVEIRA
Ao privilegiar a estratégia insurreccional, a acção do Reviralhismo ficou aliada à instrumentalização das unidades militares especialmente sediadas em zonas mais urbanas. Para tal, tentou constituir no seio dessas unidades núcleos clandestinos, os quais eram enquadrados politicamente por civis, provenientes maioritariamente, do funcionalismo público, comércio e profissões liberais, onde normalmente se integravam alguns advogados.

Neste aspecto, o Reviralhismo manteve e reproduziu algumas semelhanças com formas organizativas e as tácticas que caracterizaram os movimentos revolucionários da fase final da Monarquia e da I República, fiel à que tinha sido a base político-social do republicanismo. Na selecção de operacionais foi dado relevo aos ferroviários, motoristas, empregados dos telefones e telégrafos e muto especialmente os que possuíssem experiência na manipulação de material bélico e explosivo, instrumentos indispensáveis nas intentonas. Estes operacionais, eram em geral arredados do conhecimento do plano de acção, até pouco antes da sua prevista eclosão do movimento.
Face às perturbações que as suas acções provocavam na vida das populações, pelo cansaço e repúdio ao golpismo que décadas de instabilidade republicana tinham inevitavelmente trazido à generalidade da população portuguesa, este reviralho teve fraco apoio na opinião pública, sendo-lhe naturalmente adversos a Igreja, as famílias e os grandes meios de comunicação social, sujeitos a censura. As dificuldades de comunicação e de imagem do Reviralhismo eram grandes, nunca tendo conseguido fazer chegar uma mensagem forte junto do grande público, especialmente o rural. Muitas das características da ditadura, e depois do salazarismo, resultaram da sua propagada intenção de conter a restauração do republicanismo democrático, parlamentarista e anticlerical. Embora algum republicanismo conservador tenha consentido tácita e inicialmente a ditadura como referimos, e os salazaristas tivessem procurado integrar no seu projecto esta corrente, por razões de oportunismo e sedimentação, mas não de convicção, o que aliás foi recíproco, as arremetidas conspiratórias do republicanismo de esquerda e das suas adjacências comunista e anarquista, exerceram uma profunda influência sobre a estruturação e consolidação do novo regime, com destaque para a instauração em breve da censura e a criação da polícia política.

A criação da União Nacional, em 1930, surge no contexto da resposta da ditadura e das forças que a apoiavam, à pressão do reviralho, procurando, através do enquadramento das elites a que apelava e dos quadros do funcionalismo público conservador, até aí com forte influência republicano-democrática, reduzir a influência revolucionária e introduzir mecanismos de controlo e de redução das tensões. Assim se criava um espaço controlado onde, pelo menos formalmente, era permitida a participação cívica.
Na prática, este objectivo era pouco consensual, não era bem assim em 1930, pelo menos em Alcobaça.

Registe-se que um grupo de 4 indivíduos que se supõe serem funcionários do Fisco, surpeenderam na estrada de Pataias uns carreiros que vinham buscar cal, saqueando-lhes os bolsos; o mesmo aconteceu a vários trabalhadores que andavam nos seus trabalhos ali próximos, que foram intimados a mostrar os seus fatos; nada foi encontrado a uns e outros, apenas a um pobre homem de Fanhais, a quem chamam O Pireza, foi aplicado uma multa por lhe ser encontrado na algibeira um canudo de fazer isca.
Não obstante esses lamentáveis acidentes de percurso, a que as novas autoridades político-policiais não davam expressa cobertura, a ditadura consolidou-se e anular em parte o reviralhismo, fazendo uso das condições sociais e do enquadramento externo que a vitória franquista em Espanha, lhe potenciou.
Numa atitude que não terá sido comum entre os reviralhistas, o capitão Nuno Cruz, vagamente aparentado com a nossa família portuense pelo lado materno, que viria a morrer no exílio em Madrid, depois de uma acidentada fuga da prisão, por participação numa intentona, reconheceu que, apesar do grande empenhamento de todos os participantes, nunca fora possível juntar forças militares bastantes para vencer e apontava como causa do fracasso a dolorosa verdade em que muitos se recusam a crer, sendo sempre mais fácil procurar as causas do insucesso nas fraquezas do nosso campo, que gostosamente se espiolham, do que na força do inimigo, que sempre ao nosso orgulho custam a reconhecer.

O fracasso da oposição à ditadura em que se traduziu o ano de 1931, em particular o insucesso do movimento de 26 de Agosto e a eficácia da repressão que se lhe seguiu, marcou o Reviralhismo. É portanto, por esta altura, que se vão desnudando alguns factos do tempo da República.
Assim nos relata, por exemplo, o Ecos do Alcoa, de 10 de Setembro de 1931, sob a epígrafe-
A Honra… do Partido Democrático-

Meu Ilustre e Querido Amigo Pimenta, não conseguimos apurar quem seria este senhor Pimenta: Não se esqueça de me recomendar o assunto que sabe e além disso receber o portador, nosso querido amigo e cooreligionário João Branco que tratará junto de si dum assunto que muito me interessa e pelo qual tenho o maior dos empenhos. Um amigo nosso, (não conseguimos também apurar a sua identidade), foi condenado pela Boa Hora em dois meses de cadeia por um assunto que ele lhe contará. É necessário que pelo Ministério da Justiça seja deferido um requerimento que se deve fazer, a fim de a pena ser cumprida na Cadeia de Alcobaça, onde se arranjarão as coisas de forma a ele nem sequer lá dar entrada. É um caso de menos importância e pelo qual a política que defendemos e apoiamos se interessa e faz caso de honra. Já vê por isso, o meu amigo, o quanto é urgente e preciso que isto se consiga e faça.

Mande no seu afeiçoado e Amgº Obgº

José Henriques Barreto
(Admnistrador)


FLEMING DE OLIVEIRA

GUERNICA




-PICASSO,
GUERNICA E
A PROPAGANDA.

FLEMING DE OLIVEIRA



Se Guernica, de Picasso foi utilizado como elemento de propaganda por parte dos republicanos contra os nacionalistas, a história seguinte, a não ter fundamento, o que se admite, poderá funcionar como contra-resposta dos nacionalistas.
A tela foi solenemente apresentada ao público, com o nome Guernica, pelo próprio Picasso e por Max Aub, Sub-Comissário da Exposição, na inauguração do Pavilhão de Espanha, na Exposition Internationale des Arts et Techniques, em Paris, no dia 4 de Maio de 1937. Logo na inauguração, Max Aub enfatizou que muito se iria falar daquela pintura. As gravuras que testemunhavam a tragédia de Guernica, provocada pela aviação alemã, A Legião Condor, aliada dos franquistas, estavam a ser divulgadas pela imprensa internacional, que assim fornecia a única informação que não suscitava liminares reservas. Quanto ao demais, aquilo que as agências internacionais remetiam para as redacções dos jornais nacionalistas, chegava e sobrava para deixar desconfiadas as pessoas e a opinião pública. A máquina de propaganda dos nacionalistas nada deixava passar no território sobre o seu controlo, que escapasse à sua verdade. Pelo que, imagens terríveis dessa povoação basca, foram prontamente acompanhadas de despudorados desmentidos, do género os aviadores bolchevistas continuam a sua táctica de bombardear as cidades abertas da retaguarda e tentaram mais uma vez bombardear Saragoça. Mas os aviões de caça nacionalistas levantaram voo e derrubaram um avião bolchevista.
Logo a obra converteu-se num dos símbolos publicitários do Governo Republicano, até ao fim da Guerra Civil e mesmo no exílio. O quadro transformou-se num manifesto contra a guerra, que ultrapassou claramente a sua natureza estética.
Guernica acabou por ter uma grande importância política e social, mas não devemos deixar de o ver como uma obra de arte. Se fosse apenas um manifesto contra a guerra não seria um grande quadro. Guernica é uma obra de maturidade [Picasso pintou-a aos 56 anos], uma síntese do que o pintor viu, do que aprendeu e fez até àquele momento da sua vida. Tudo o que ele amou está lá.
O quadro foi entendido como a resposta de Picasso ao brutal bombardeamento alemão a Guernika-Lumo.
Durante muitos anos, as reproduções de Guernica, substituíram as da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, em muitos lugares, tal como lembra o escritor espanhol Manuel Vicent. A figura de Picasso transcende a própria pintura.

Porém, se se atentar nas datas do bombardeamento e da apresentação da obra, admite-se que pode não ser mesmo assim, conforme os republicanos. O bombardeamento de Guernica (Guernika-Lumo) ocorreu na tarde de 26 de Abril de 1937, pelas 16h,40m (há quem fale em 1500 vítimas, há quem diga 7000, mas isso seria a totalidade dos habitantes…). Todavia, isso não altera o seu significado histórico e político. O bombardeamento de Guernika-Lumo ao longo de cerca de 4horas consecutivas, foi o primeiro ocorrido na Europa sobre uma população civil indefesa, uma localidade desmilitarizada. Era dia de mercado, muitas pessoas morreram, durante o ataque ou nos dois dias seguintes, enquanto os escombros estavam ainda a arder.
Em breve, o acontecimento começou a ser noticiado e amplamente comentado em Paris. Mas o quadro foi apresentado cerca de uma semana depois do acontecimento. Trata-se de uma obra de grande envergadura, com 3,5m de altura por 7,77m de largura. Picasso, chegou a declarar que tinha demorado 60 dias a executá-la. Pensar que o quadro foi iniciado e completado entre 27 de Abril e 3 de Maio de 1937, não explica a contradição com aquela informação. Uma conclusão pode-se eventual, mas não seguramente, extrair. O trabalho de Picasso não foi inspirado, nem representa o bombardeamento de Guernica, pelos alemães, aliados dos nacionalistas. A história do quadro Guernica terá começado em Janeiro de 1937, quando Max Aub encomendou a Pablo Picasso, por ordem do Governo Republicano, um mural para ser exposto no Pavilhão de Espanha, mediante o pagamento de 150.000 francos. Em vez de um mural, foi executado aquele painel, enorme, em óleo sobre tela. Se foi Picasso, Max Aub ou outro qualquer, que anteviram o seu grande potencial e se lembraram de baptizar o quadro de Guernica, nos breves dias que antecederam a inauguração da exposição, é facto que dificilmente poderá ser esclarecido. Desde então, Guernica tem sido objecto de estudo, crítica, opinião e inspiração um pouco por toda a parte. Representará mais uma impressiva visão sobre os horrores da guerra?

Segundo alguns, a tensão expressa no quadro lembra Los Horrores de la Guerra, de Goya. A denominação da obra e a propaganda republicana desencadeada a partir daí, representou uma operação político-mediática em que participou Pablo Picasso, como eventualmente esta versão nacionalista. Alguns espanhóis, obviamente não afectos aos republicanos, mas não necessariamente comprometidos com os nacionalistas, adiantam que o quadro estava pronto antes, ou em adiantada execução quando ocorreu o bombardeamento de Guernica, e Picasso previa chamar-lhe Lamento en La Muerte del Torero Joselito, evocando a memória do toureiro Joselito, caído na arena de Talavera de la Reina, numa tarde de 16 de Maio de 1920. Não sabemos, e o facto em si não nos parece verdadeiramente relevante, mas é sabido que Picasso dedicou grande atenção aos temas taurinos, desde a juventude. Observando a tela, podem distinguir-se touros e cavalos, num paroxismo de drama e morte. O que não se consegue descortinar são aviões, casas, guerra ou bombardeamentos. Mas quanto a isso lá saberá o pintor aquilo que quis representar!

Depositado no Museum of Modern Art, de Nova Iorque, o quadro permaneceu fora de Espanha até 1981, ano em que foi recebido no Museu do Prado. Picasso havia determinado que o quadro só deveria vir para Espanha, quando o país vivesse em democracia. Construído o Museu Rainha Sofia, em 1992, foi transferido para o lugar que hoje ocupa. Guernica define a identidade do nosso museu, disse a directora do Rainha Sofia, Ana Martínez de Aguilar, tal como a Mona Lisa define o Louvre.




FLEMING DE OLIVEIRA

ELECTRICIDADE EM ALFEIZERÃO




-A ELECTRICIDADE EM ALFEIZERÃO E
ALCOBAÇA
-O CAMEFEGO
-O PADRE, O BURRO E O CIGANO

FLEMING DE OLIVEIRA

Nesse tempo, ainda não havia luz eléctrica em Alfeizerão, como em geral no concelho de Alcobaça.
A iluminação pública era feita com candeeiros a petróleo, grandes e bonitos, colocados nas esquinas. Nesse aspecto, o País estava muito atrasado e o Concelho não era uma excepção gritante, não obstante na sede do concelho a luz eléctrica ter sido inaugurada em 1905, aliás, no mesmo ano que Barcelos, como nos recordou um nosso parente de Nine.
No último quartel do século XIX, dera-se o início à produção e distribuição industrial de electricidade, com o aparecimento de instituições públicas e privadas, agências estatais, municipais, empresas, grupos profissionais, associações de classe (desde as associações industriais e comerciais aos sindicatos) e também de consumidores que, em conjunto, deram forma a uma indústria, estabeleceram fronteiras, construiram os seus standards organizacionais, tecnológicos, culturais. Logo nessa altura, uma das mais importantes aplicações industrializadas, foi a iluminação eléctrica. As primeiras redes de distribuição e antes destas, os primeiros sistemas de produção isolada da época, destinavam-se a gerar electricidade para iluminação. As redes estiveram mais associadas à iluminação de ruas e vias públicas e as produções isoladas, à iluminação de fábricas, hotéis, teatros. Mas isso era noutros locais do País, as grandes urbes, que não Alcobaça.

O Camafego (talvez corruptela de camafeu) que José Tempero chegou a conhecer, avô de Manuel Vizoso, que foi Presidente da Junta há alguns anos, era quem todos os dias ia junto de cada candeeiro, com uma escada e com uma medida, deitar a quantidade necessária de petróleo para satisfazer as necessidades de uma noite. Aceso um candeeiro, o Camafego passava ao seguinte. A determinada altura, por pura malandrice, alguém arranjou um molho de papel enrolado com uns cordões, e com uma ponta a fingir ser um fio de detonador, que dependurou num candeeiro. Quando o Camafego subiu ao candeeiro e ao ver aquilo que tinha todo o aspecto de uma bomba, desceu prontamente e comentou em voz alta quem te pôs aí que te acenda. Nessa noite não houve iluminação pública em Alfeizerão.

O fornecimento generalizado de luz eléctrica no concelho de Alcobaça começou tardiamente, mais propriamente na segunda metade séc. XX. Até aí, os alcobacenses de Évora, Turquel, Maiorga, Alpedriz, Alfeizerão ou os serranos, usavam para sua iluminação, candeias de azeite, candeeiros de petróleo, lanternas e petromaxes. As candeias de azeite eram muito simples, feitas de lata e possuiam um bico, que suportava uma torcida, feita dum pouco de pano. Produziam uma fraca luz, eram leves e penduravam-se num prego ou num local à mão. Nos lagares e adegas, usava-se preferencialmente uma candeia de azeite de maior volume, com quatro bicos e torcidas.
Os alunos estudavam em casa à luz de candeeiros a petróleo, tal como as senhoras faziam malha, costura ou a lide da casa.
Quando se fala de petróleo relativamente a candeeiros, para sermos mais precisos deveríamos dizer mais querosene, petróleo de iluminação. Hoje obviamente não se usa. É um líquido avermelhado, de cheiro característico, que se vendia nas mercearias, como recorda o T´Zé das Tojeiras.
As candeias e os candeeiros funcionavam com uma torcida embebida em parte no combustível, que subia ao longo desta. Quando se acendia a ponta da torcida, a chama produzida ia consumindo o combustível e a torcida e emitia algum fumo, como refere Tempero.
Os candeeiros a petróleo eram, geral, de vidro. Alguns tinham um pé alto, como vemos com alguns utilizados com finalidade meramente decorativa. As torcidas vendiam-se nas mercearias, drogarias e estabelecimentos semelhantes. Podiam fazer-se subir ou descer por meio duma roda exterior ligada a outra que tinha dentes e estava em contacto com as torcidas. Estes candeeiros tinham chaminés de vidro que protegiam as chamas.
Para acender um candeeiro a petróleo, retirava-se a chaminé e chegava-se à torcida um fósforo. Para apagar o candeeiro, levantava-se a chaminé e apagava-se a chama com um sopro.
Nas casas havia, em geral, suportes para os candeeiros a petróleo, aliás, colocados estrategicamente onde era mais cómodo e útil, como por exemplo, a mesa de cabeceira do quarto de dormir, a mesa de refeição ou ao pé do lume.
Havia candeeiros a petróleo apropriados para usar na rua ou em palheiros munidos de uma pega para transporte. Podia-se levantar e baixar a chaminé por meio duma mola. Com a mesma finalidade se podiam usar as lanternas, em que quatro vidros laterais protegiam a chama. As charretes tinham lanternas redondas Um lampião era uma grande lanterna fixa no tecto ou numa parede.
Para obter uma luz forte usava-se um petromax que tinha que ser manejado com cuidado, porque a camisa se desfazia com facilidade.

A electricidade não estava de todo ausente do Concelho de Alcobaça até à Guerra e alguns anos seguintes. Havia lanternas eléctricas, chamadas comumente foxes qjue eram usadas para iluminar o caminho. Em noites sem lua, os caminhos especialmente os rurais eram percorridos, antes da chegada da luz eléctrica, em completa escuridão. No entanto, as pessoas como que tinham uma espécie de instinto inato que lhes permitiam pôr sempre o pé, no sítio certo e seguir os percursos correctos.

O Pe. João Matos Vieira, que esteve em Alfeizerão durante várias décadas, natural do Alentejo, foi interveniente numa estória, que José Ferreira Tempero recorda como uma, onde se pode aplicar o rifão com a verdade me enganas.
O Padre tinha uma mula quase cega, e que também sofria de pulmoeira. O Padre decidiu então, desfazer-se no animal e vendê-lo. Aproveitando um dia de feira, em Alfeizerão, disse ao criado para levar a mula à feira e tentar vende-la pelo melhor preço possível. A mula não obstante aqueles defeitos, estava bem apresentada, com uma pelagem bonita. O Padre estava dividido entre dizer ou não a verdade acerca do estado do animal, o que desvalorizava quase totalmente o negócio. Em breve, começaram a aparecer eventuais interessados, mas o criado dizia logo que não era ele quem mandava, mas o Padre que estava ali perto, que fossem falar com ele. Até que uns ciganos foram ter com o Padre, que lhes disse que não lhes vendia a mula, pois era quase cega, e tinha pulmoeira. Se eu vos vendesse a mula, sem dizer nada, amanhã vinham-me dizer que os tinha enganado, e não quero ser disso acusado.
Quanto mais o Padre dizia que a mula tinha defeito, que não os queria nem podia enganar, e que portanto não pretendia vende-la, mais eles insistiam, subindo a parada. Os ciganos estavam a supor que o Padre não lhes queria vender o animal, que era muito bom, por serem ciganos. Depois de muita insistência, acordado o preço, acabou por ser fechado negócio. No dia seguinte, pela manhã, os ciganos apareceram com a mula pela arreata, pedindo para falar com o Senhor Prior, então Senhor Prior a mula é cega e tem pulmoeira. O Senhor Prior tem que ficar com a mula a dar-nos o dinheiro de volta.
-O dinheiro? Então eu falei-vos verdade sobre o estado do animal e nunca vos quis enganar.
-Mas nós pensávamos que o Senhor Prior não nos queria era vende-la.
Perante tanta insistência e começo de uma menos interessante pressão, o Padre disse para a irmã oh Adília! chama aí a .GN.R. de S. Martinho, que estes senhores estão-me a incomodar. Nesta altura, a G.N.R. tinha efectivamente alguns meios persuasórios, que os ciganos, na dúvida, não queriam experimentar.



FLEMING DE OLIVEIRA

CORETO DA VILA




-UMA BOA CENA DE
PANCADARIA NA FEIRA DE S.
BERNARDO
-O POÇO DA MORTE
-PORTUGUESES VALENTES


Fleming de OLiveira
Ouvimos contar a seguinte história que se terá passado na Feira de S. Bernardo, em meados dos anos cinquenta.
O GNR reformado Joaquim Meneses tinha uma vaga ideia de a ouvir a colegas mais velhos, quando muitos anos depois foi colocado no Posto de Alcobaça.
Ainda música entoava no ar quando no sábado, por volta da meia noite, várias pessoas se envolveram em confrontos físicos. A principal vítima da sessão de pancadaria foi o Luís da Horta, da Moita do Poço, que garantiu ter sido agredido pelo Secretário da Junta de Freguesia de Turquel, com um pau de eucalipto com 2 metros de comprimento e mais de dois centímetros de diâmetro…
-Deu-me com o pau nas costas umas cinco vezes, contou Luís. Um gesto que foi seguido por mais dois conterrâneos do Secretário da Junta.
-Os paus destes eram mais pequenos, mas mais grossos, afirmou o agredido, tão grossos que acabaram por lhe abrir a cabeça, que foi suturada com sete pontos no Hospital de Alcobaça, onde chegou bastante atordoado.
O jovem apresentou queixa por agressão contra o Secretário da Junta e os dois amigos, na Guarda Nacional Republicana. De acordo com as informações colhidas junto Chefe do Posto da GNR, uma patrulha foi chamada por volta da uma da madrugada de sábado, com a informação de que estariam a decorrer desacatos no recinto da Feira. Chegada ao local, a patrulha (3 homens) deparou com o facto consumado, pois o Luís da Horta já teria levado as pauladas, estava no chão, com a cara ensanguentada e a gemer.
-Só sei que ainda havia gente a bater-me, a dar-me pontapés nas costas e na barriga, garantiu depois.
O caricato da situação é que o assunto que terá dado iniciou a zaragata, nada tinha a ver com o Secretário da Junta, com esta ou mesmo com o Luís da Horta. Mas sim, com um irmão deste e um rapaz do Carvalhal, que terá sido apanhado, algum tempo antes, a roubar um cabrito.
O Secretário da Junta mostrou-se muito espantado pelo facto do seu nome estar envolvido na questão.
-Não tenho nada a ver com o assunto. Na altura dos acontecimentos até estava sentado a beber um copo e a petiscar com uns amigos.
Referindo nunca se ter metido em zaragatas (não se esqueça que faço parte da Junta…), salientou que até andava de muletas por ter um problema numa perna, que o obrigou a fazer uma cirurgia em Leiria.
-Acha que com a perna assim eu estava em condições de bater em alguém?, perguntou ao Comandante do Posto da G.N.R, adiantando que se o Luis apresentou queixa contra si irá também fazer outra por difamação.

Falar de uma festa popular portuguesa e esquecer o Poço da Morte seria uma falta grave.
O primitivo Poço da Morte, era em madeira, e nele pontificavam os motoqueiros pai, mãe e um filho, já que no cartaz aparecia a imagem dos três, como recorda Matias. Circulavam numa estrutura cilíndrica, a girar sempre à volta até ficarem paralelos ao chão. Era um trio de fascinantes corajosos aventureiros que, com os palhaços, ilusionistas e acrobatas do circo, preenchia o imaginário de muita gente que ia à Feira. O público ficava a ver na parte superior, tendo apenas uns cabos de aço como limite, para que numa manobra imprevista (e possível) não levasse com eles.
Desafiavam a morte, no dizer do apresentador, cruzando-se com arrojo, audácia e emoção a alta velocidade de olhos vendados pela bandeira portuguesa, que depois era desfraldada triunfantemente, para gáudio da assistência e vibrantes aplausos. Especialmente emocionantes eram as voltas de moto, com o artista (filho) sentado de lado virado para o fundo do Poço, sem mãos no volante e de braços cruzados. Suscitavam emoções fortes em João Matias, que ia acompanhado pelo pai, espalhando entre os demais espectadores um clima de euforia e ansiedade, apimentado pelo ruído ensurdecedor das motos sem escape e o cheiro de gasolina mal queimada.


Fleming de OLiveira

CINEMA




-IR AO CINEMA ERA UM ACTO SOCIAL
-O CINEMA AMBULANTE
-O CINEMA, COMO ARMA DE PROPAGANDA DO
REGIME DE SALAZAR E SEUS VALORES
-O CINEMA (antigo) EM ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira


Nos meios urbanos, ir ao cinema era um acto social, de convívio que implicava rituais no vestir, no conversar nos tempos de intervalo, ver e ser visto, nas entradas e saídas.
As salas de cinema, onde as havia, eram os novos templos de culto, que iam ganhando adeptos e densidade mí(s)tica. Os portugueses da cidade ou dos meios urbanos da província, ganharam o hábito, talvez a necessidade, de ir ao cinema. Uma geração estava a nascer dentro dele, adoptava a sua visualidade, aferia por ele os gostos, os desejos ou as ansiedades. Por isso, eram necessários novos espaços.
Até 1917, pode-se dizer que não houve produção nacional, que aliás começou com a empresa portuense Invicta Film que, de Paris, mandou vir material e técnicos, entre os quais o realizador George Pallu, da Pathé.

O Cinema Ambulante, ou Cinema Popular Ambulante, foi uma criação do SPN. Se a ideia era levar o cinema às povoações que não tinham salas para este efeito, como muitas do concelho de Alcobaça, o certo é que o cinema ambulante foi, antes de mais, um instrumento de propaganda, uma vez que as exibições se cingiam, com frequência, a documentários oficiais. Mas não só. Levando o cinema até aos núcleos dos trabalhadores, numa tradução da ideia corporativista, o sistema acabava por favorecer a exibição de documentários fora das salas comerciais e o crescimento da produção patrocinada pelo Estado. O regime percebeu e utilizou a força do cinema como instrumento, colocando-o ao seu serviço. Quando surgiu o Cinema Ambulante, dois anos depois da criação do SPN, já este organismo produzira ou encomendara cerca de 50 filmes, prontos para serem exibidos em Portugal e no estrangeiro. Eram documentários sobre os feitos e figuras do Estado Novo, prontos a serem apresentados ao olhar dos portugueses e estrangeiros. Através de carrinhas devidamente equipadas, o cinema era itinerante, parando para fazer exibições nocturnas em locais colectivos, como as Casas do Povo, Associações Recreativas, Sedes de Sindicatos, Salas da União Nacional (UN) ou mesmo jardins e campos de futebol. Desta forma, a mensagem do regime chegava onde nunca tinha chegado, com a eficácia das imagens, mostrando acontecimentos seleccionados, enaltecendo Salazar, Carmona e o Estado Novo. Este projecto poupou ao Governo ter que construir salas de cinema para desenvolver a acção de propaganda. É sabido que Salazar não era propriamentre um devoto do cinema, mas percebeu quanto o cinema poderia ser uma fonte de propaganda, suporte à divulgação de mensagens gratas.
Apesar de ser o seu ponto principal, as sessões cinematográficas faziam parte de um programa mais extenso, que incluía palestras e propaganda. Eram convidadas a discursar figuras afectas ao Regime, como membros da U.N, responsáveis locais de organizações corporativas ou até mesmo padres. Reforçava-se a mensagem, com as personalidades locais conhecidas do público a sublinhar a força das imagens. Recorde-se um texto do Diário da Manhã, onde se escreveu em Abril de 1937, que as notícias publicadas em vários pontos do País dizem-nos alguma coisa do alvoroço que para todas as populações constitui a visita do Cinema Popular. Durante algumas horas o povo evadiu-se das suas imagens habituais, emigrou do seu pequenino mundo para ver como o Estado Novo modificou não só a sua terra, mas o País de lés-a-lés, e comunicou às almas dos portugueses um novo entusiasmo criador (...). Um punhado de imagens comunica a todos os bons portugueses, o verdadeiro povo, em nome e à custa do qual, durante algum tempo, meia dúzia de aventureiros, de ideológicos e energúmenos falaram e viveram, o grande drama da nossa época, a luta entre tudo o que constitui o espírito da Nação e as ideias e paixões estrangeiradas que ameaçam subverter o País.
Entre os inimigos, o comunismo era, desde o surgimento do Governo da Frente Popular em Espanha, o mais temido entre todos. Com a revolta dos nacionalistas e o início da Guerra Civil, Salazar depressa apoiou (embora não declarada ou oficialmente) a facção encabeçada por Franco. O cinema ambulante foi uma das armas utilizadas para enaltecer os falangistas e denegrir os comunistas, juntando no mesmo saco republicanos, socialistas, anarquistas e comunistas. No final da II Guerra, quando o Estado Novo se preparava para enfrentar as mudanças geo-políticas decorrentes da vitória dos Aliados, há registos de um manifesto interesse pelo cinema ambulante por parte das autoridades de regiões como Alcobaça, Nazaré ou as ilhas dos Açores e Madeira. Num telegrama de Setembro de 1945, dos Açores para Lisboa, o Chefe Militar da Ilha de Santa Maria reputava da maior oportunidade e mais salutares efeitos sob aspectos político cultural e de propaganda exibições nesta ilha de filmes portugueses mormente os relacionados com o ressurgimento nacional (...). Sugiro seguintes filmes: Viagens presidenciais Açores e Colónias, realizações Ministério Obras Públicas, inauguração Stadium (sic), parada militar ano findo, documentários folclóricos, vários filmes carácter regional como Ala Arriba e outros. (...) Permito-me insistir altas vantagens efectivação estas exibições reputando-as até indispensáveis e urgentes.
No mesmo mês, o Governador Civil do Distrito da Horta, enviou um telegrama, onde, alegava que as dificuldades características próprias do momento que se vivia aconselham propaganda política local. Uma vez que todas as freguesias desse distrito nunca tinham visto cinema, pediu que o SPN intercedesse junto de Salazar para que o Cinema Ambulante ali fosse no próximo vapor, com filmes focando chefes do Estado Novo, seus discursos e obras realizadas. Se este último pedido foi ou não atendido, não se sabel,mas admite-se que sim. Sabe-se que, pelo menos, o primeiro foi. Num inventário do S.N.I., datado de Dezembro de 1945, anunciava-se que a actuação dos Cinemas Ambulantes Motorizados tinha levado a cabo 203 espectáculos, onze dos quais na Ilha de Santa Maria, nos meses de Novembro e Dezembro, sendo a única ilha contemplada. No continente, os 192 espectáculos realizados pelos cinemas ambulantes tiveram lugar em outras tantas localidades de vários distritos. Segundo o SN., fizeram a apresentação dos cinemas 103 oradores e assistiram aos espectáculos cerca de 412.250 pessoas. O Pátio das Cantigas andou por todo o País, concretamente por Alcobaça, Valado de Frades e Nazaré, e antes do espectáculo se iniciar, usava da palavra um orador (que nesta zona era José de Sousa) que, em frases empolgadas, se referia a obra de sucesso do SNI em prol de defesa dos valores tradicionais da Nação. Ao mesmo tempo, defendia-se (equivocamente como já referimos) que as tabernas acarretam a indisciplina social, pela venda de vinho e outras bebidas alcoólicas.
Nos meios rurais, as tardes de domingo estavam cheias de homens embriagados. Assim, em Alcobaça onde se diz que se bebe vinho em demasia (longe parece estarem já os tempos da apologia do vinho…), propunha-se, no seio da UN, que a FNAT organizasse espectáculos teatrais, musicais e principalmente sessões de cinema, para criar uma alternativa ao vício. Por esta altura, um agricultor de Évora de Alcobaça, também na sede concelhia da U.N. insurgia-se contra o facto de o mercado semanal da vila ocorrer à segunda-feira, pelo inconveniente de, assim, ter de ser obrigado a trabalhar ao domingo…
O cinema foi objecto de apertada atenção, por parte do regime de Salazar. Do preâmbulo do diploma que, em 1952, veio regulamentar a Assistência a Espectáculos Cinematográficos, destaca-se que o problema não se restringe, pois, embora seja esse o seu mais premente aspecto, à defesa dos menores contra a acção nociva de certos espectáculos (…). Por isso, se tem como objectivo neste diploma, além de vedar aos mais jovens a assistência a exibições cuja organização não tenha tido em conta as especiais exigências do seu desenvolvimento intelectual e da saúde física e moral, manter o maior número de espectáculos dentro de condições que permitam a sua frequência pela grande massa da população sem distinções de idade e reservando aos adultos os que, embora permissíveis, possam conter matéria inconveniente para pessoas em quem não é de supôr, vista a sua idade, completa formação intelectual e moral.


Fleming de Oliveira