segunda-feira, 21 de novembro de 2011

VINHO


-UM BOM COPO (de vinho) EM
ALCOBAÇA?
-O FRANGO NA PÚCARA (fraco sucedâneo)
da Perdiz na Púcara
-HISTÓRIAS DO VINHO

FLEMING DE OLIVEIRA

Nos tempos que correm, não se faz mais bom vinho em Alcobaça (nem tinto nem branco, perdoem-me alguns esforçados produtores) e o prato apontado ao turista como típico da terra, o Frango na Púcara, é um triste sucedâneo de uma antiga Perdiz na Púcara.
Gosto de um bom copo, e de histórias relacionadas com o vinho que vou contar.
Uma lenda grega, como bonita é também esta lenda !!!, atribui a descoberta da videira a um pastor, de nome Estáfilo que ao procurar uma cabra tresmalhada a foi encontrar a comer parras. Colhendo os frutos da planta, até então desconhecida, levou-os ao patrão Oinos, que deles extraiu um sumo cujo sabor foi melhorando com o decurso do tempo. Assim, em grego, uma videira designa-se por Staphyle e o vinho por Oinos.
A mitologia romana, atribui a Saturno a introdução das primeiras videiras no Mundo.
Na Península Ibérica, é imputada a Hércules e terá sido inicialmente cultivada nos vales do Tejo e do Sado, cerca de 2000 anos a.C., funcionando como moeda de troca no comércio de metais. Mais tarde, ao fundar Lisboa, Ulisses terá usado o costume das suas viagens, oferecendo vinho, para assinalar as boas vindas.
Mas noutras regiões do Mediterrâneo, a origem do vinho encontra-se em muitas lendas e, desde tempos remotos, o vinho tem desempenhado papel de relevo em quase todas as civilizações. Fruto da videira e do trabalho (suor e sangue…) do Homem, não é ultrapassado por nenhum outro produto da terra. Repleto de simbologia, impregnado de religiosidade e misticismo, o vinho surge cedo na vida da Humanidade, tornando-se fonte de Lendas e Mitos. Expressões tão interessantes como
Dádiva dos Deuses, Sangue de Cristo, Essência da Vida, In Vino Veritas, Bonum Vinum Laetificat Cor Hominis. explicam a sua importância na Cultura Ocidental, no Direito, no Cristianismo e na Literatura, onde ocupou um lugar de destaque ao longo das eras. O interesse de expressões como aquelas, para a história da gastronomia, é, por demais. evidente. Mostram-nos a dicotomia existente no mundo romano entre o exagero, a extravagância e a imoderação de banquetes com orgias e os apelos à temperança e à racionalidade de pensadores como Séneca non facit ebrietas vitia sede protahit (isto é, a embriaguês não faz vícios apenas os evidencia), um estóico como Cícero optimum cibi condimentum fames (isto é, o melhor condimento é a fome) ou um Quintilhano.
O mesmo podemos dizer da Idade Média, aonde encontramos a alternância entre ascéticos conselhos médicos e os apelos à libertinagem.
Procura ser feliz ainda hoje, pois não sabes o que te espera no dia de amanhã. Toma uma taça cheia de vinho, senta-te ao clarão do luar e monologa: Talvez amanhã a lua me procure em vão.
O vinho pode ser encarado sob as mais diversas facetas, como um produto comercial, como uma mera bebida alcoólica que se bebe para esquecer, como símbolo de status e sofisticação ou como fonte inesgotável de prazer.
Não faço a apologia da bebida, muito menos dos excessos, nem me abalanço a falar deste tema numa perspectiva de enólogo ou de técnico, mas de um pequeno filósofo de horas vagas, leigo que chegou tarde, seguindo o conselho alguns bem mais competentes, como a minha Mulher. Um leigo que não tem pretensões de deixar de ser leigo, mas ainda obter algum estilo, embora correndo o risco de uma vez por outra, quando a Aninhas não está a ver, ficar emocionado. Gostaria de ser um virtuoso na arte de beber de vez em quando um Sirah, Esporão, ou um barca Velha!!!, percebendo os seus gostos, aromas e compartilhando alegrias com alguns amigos.
Pensamos, sonhamos e agimos de acordo com o que bebemos e comemos, escreveu Marinetti.
In Vino Veritas, é uma expressão antiga associada a mais uma lenda curiosa. É bastante conhecida, podendo entender-se que sob a acção do vinho prevalece a verdade e nesse caso o que se diz é mesmo sincero e espontâneo.
Um agreste povoado italiano vinha preocupando sobremodo as autoridades romanas que resolveram designar para assumir a paróquia, promissores padres da nova geração. Esperava-se assim conseguir mudar o sentimento dessa localidade, cujos habitantes se mostravam indiferentes aos assuntos religiosos. Indicado para fazer uma visita pastoral, o bispo da diocese verificou que o jovem padre era tímido nos sermões, actuando de forma acanhada e inibida. À guisa de resolver esse impasse, aconselhou o sacerdote que, antes de subir ao púlpito tomasse alguns cálices de vinho. O jovem padre seguiu de bom grado tão agradável sugestão, e bebendo uns copos, passou mesmo os limites da moderação. No término do seu inflamado sermão, recebeu efusivas felicitações, acompanhadas de admiração e pasmo por tão radical transformação de pregador. Tinha superado as expectativas e havia sido até demasiado veemente nas suas exortações, não havendo necessidade de clamar cinco vezes pelas profundas do inferno! É fora de qualquer dúvida que os eflúvios catalizadores do vinho tiveram o condão de romper as cadeias que prendiam os arroubos e impulsos do seu talento.

O Dr. Amílcar Magalhães, há bastantes anos, mas depois do 25 de Abril, quando certo tipo de vinho já se encontrava em declínio, resolveu engarrafonar para escoar mais fácil, rápida e a melhor preço, a sua produção de mais de cem pipas de vinho tinto dos Montes, tido por muito bom conforme as castas tradicionais. A esse vinho foi atribuído o nome de Vinho Montês e no bonito rótulo que se mandou desenhar, além de uns cachos de uvas vermelhinhas, aparecia o aforismo latino Bonum vinum laetificat cor hominis, o que traduzido para português significa que o bom vinho alegra o coração do homem. Nessa altura há mais de 25 anos,o vinho estava já numa fase de irreversível transição em termos de exigências dos consumidores, o vinho em garrafão ainda se vendia, embora cada vez menos, pelo que esta experiência não se revelou de grande sucesso, e que não durou muito tempo, em breve sendo abandonada.


FLEMING DE OLIVEIRA

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

TRADIÇÕES DE NATAL

-O PRESÉPIO
-VAMOS CANTAR AS JANEIRAS
-O DIA DE REIS


Fleming de Oliveira



(I)
A palavra presépio significa, etimologicamente, um lugar onde se recolhe o gado, curral, estábulo.
Contudo, esta é também a designação dada à representação artística do nascimento do Menino Jesus, acompanhado pela Virgem, S. José, a vaca e o jumento. Por vezes, acrescentam-se, decorativamente, pastores, ovelhas, anjos ou Reis Magos.
Os primeiros presépios surgiram com vista adois tipos de representações da Natividade, a plástica e a teatral. A representação plástica, surge no final do século IV, com Santa Helena, mãe do Imperador(Romano) Constantino. A teatral, com Francisco de Assis, como veremos, que fez uma mistura de personagens reais e imagens. Embora seja indubitável a importância destas representações da Natividade para o aparecimento dos presépios, elas não constituem ainda verdadeiros presépios.
O nascimento de Jesus começou a ser celebrado desde o século III, data das primeiras peregrinações a Belém, para visitar o local do nascimento.
No século IV, começaram a surgir representações do nascimento de Jesus em telas, relevos ou frescos.
Passados séculos, mais precisamente no ano de 1223, S. Francisco de Assis decidiu celebrar a Missa da Véspera de Natal, de forma diferente, quiçá mais apelativa. Assim, esta Missa, em vez de celebrada no interior de uma igreja, foi-o numa gruta situada na floresta de Greccio, perto da cidade. S. Francisco transportou para lá um boi, um burro e feno, e colocou imagens em argila do Menino Jesus, da Virgem e de S. José.
Este acontecimento faz com que posteriormente S. Francisco passasse a ser visto como o criador dos presépios. Todavia, os presépios tal como os conhecemos hoje, só surgiram muito mais tarde.
No século XV, surgiram algumas representações do nascimento de Cristo. Contudo, estas representações não eram modificáveis, outrossim estáticas.
É, nos finais do século XV, graças ao desejo crescente de fazer reconstruções plásticas da Natividade mais sofisticadas, que as figuras de Natal se libertam das paredes das igrejas ou das telas, surgindo em figuras nas próprias igrejas ou noutros espaços. Estas figuras, dada a plasticidade, podem ser observadas de todos os ângulos e sendo soltas, permite criar cenas diferentes e inovadoras. Surgem, assim, os presépios.
A característica mais importante de um presépio e a que mais facilmente permite distingui-lo das restantes representações da Natividade, é a sua mobilidade. O presépio é modificável pois com as mesmas peças pode-se recriar diferentes episódios, que marcam a época natalícia.
No século XVIII, a recriação da cena do nascimento de Jesus estava completamente inserida nas tradições de Nápoles e da Península Ibérica, incluindo Portugal.
De entre os presépios mais conhecidos, é de salientar os presépios napolitanos, surgidos no século XVIII. Nestes podem observar-se várias cenas do quotidiano, mas o mais importante é a qualidade das figuras. Por exemplo, os Reis Magos eram vestidos com sedas ricamente bordadas e usavam jóias muito trabalhadas.
No que se refere a Portugal, não é exagero dizer que aqui foram feitos alguns dos mais belos presépios do mundo, com destaque para os dos escultores e barristas Machado de Castro e António Ferreira, no século XVIII.
Atualmente, ainda é costume de armar o presépio, tanto em locais públicos como particulares. Contudo, com o surgimento da árvore de Natal, os presépios, cada vez mais, ocuparam um lugar secundário nas tradições natalícias.
(CONTINUA)







(II)
-O PRESÉPIO
-VAMOS CANTAR AS JANEIRAS
-O DIA DE REIS

I
Fleming de Oliveira
Cantar as janeiras é uma tradição bem antiga, imemorial, nomeadamente no Norte de Portugal, que todavia está a perder-se, e consiste no cantar, de forma um pouco esganiçada (cana rachada), de músicas por grupos que à noite vão pela rua, pelas casas, anunciar o nascimento de Jesus, desejando um Feliz e Próspero Ano Novo. Esses grupos iam alegremente de porta em porta, pedindo aos residentes algumas sobras das festas natalícias, que se traduziam, preferencialmente, em dinheiro. Mas também em doces e até vinho…
Inicialmente, ocorreriam apenas em Janeiro, começando no dia 1 e estendendo-se até dia 6, Dia de Reis. Nos meus tempos de rapaz, muitos grupos de janeiras que iam a casa de meus Pais, começavam mesmo por alturas do Natal, estivesse frio, chuva ou vento.
A tradição geral, é a de grupos de amigos ou vizinhos (homens) que se organizavam, com instrumentos, pandeireta, bombo ou viola. Feito o grupo, distribuidas as letras e os instrumentos, iniciavam o cantar de porta em porta da vizinhança.
Terminada a canção numa casa, esperava-se naturalmente que os donos tragam as janeiras, de preferência alguns trocos, no nosso caso já preparados para o efeito.
No fim da função, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou comem juntos o que receberam.
As músicas utilizadas são, por norma, muito populares, simples, habitualmente à volta de quadras que louvam o Menino Jesus, Nossa Senhora, São José e, claro, os moradores que contribuíram. Também era usual algumas quadras pouco lisonjeiras, reservadas aos moradores que não davam as janeiras.
Hoje em dia as janeiras são cantadas de forma muito memorialista ou folclórica. Efeito dos tempos…
(CONTINUA)






(III)

-O PRESÉPIO
-VAMOS CANTAR AS JANEIRAS
-O DIA DE REIS

Fleming de Oliveira


Tornou-se costume em várias culturas montar um Presépio quando é chegada a época de Natal. Variam em tamanho, alguns em miniatura, outros em tamanho real.
Em Portugal, o presépio tem tradições muito antigas e enraizadas nos costumes populares. Em Casa de meus Pais, era montado no início do Advento, ainda sem a figura do Menino Jesus que só era colocada na noite de Natal, após todos irem à Missa do Galo. Quando regressávamos era perto do presépio que estavam colocados os presentes, embora só distribuídos depois de se colocar a imagem do Menino Jesus sobre uma manjedoura de palhinhas. O Presépio a seguir ao Dia de Reis era desmontado pelos filhos em benévola disputa, com a minha Mãe à cautela sempre por perto.
O nosso Presépio era formado por figuras tão diversas, que não correspondiam exactamente à época que deveriam representar. Mas isso para nós era irrelevante. À exceção das figuras de S. José, Virgem Maria e Menino Jesus, dos pastores e dos Três Reis Magos, todas as restantes figuras do nosso Presépio eram adicionadas com vista a dar uma representação mais nortenha à história da Natividade. Assim, podiamos encontrar figuras como um moleiro, uma lavadeira, ou uma mulher com um cântaro na cabeça. A origem destas peças era normalmente de Barcelos, onde os meus Pais tinham amigos e parentes. A Estrela de Belém nunca podia faltar. Foi ela que guiou os Reis Magos.
Durante o Estado Novo, os bonecos de Estremoz tiveram boa procura e após uma deslocação de meus Pais ao Alentejo, o nosso Presépio desse ano teve uma nova encenação, não necessariamente mais apreciada.
Belchior ( é, o que vai inspecionar), Baltasar (é, Deus manifesta o Rei) e Gaspar (é, o meu rei é luz), não seriam reis, nem necessariamente três, mas, talvez, sacerdotes da religião zoroástrica persa ou conselheiros. Como nenhum documento diz quantos eram, presume-se serem três, pelo número e tipo de presentes oferecidos.
Talvez fossem astrólogos ou astrónomos, pois, segundo consta a tradição, viram uma estrela e foram assim guiados, até ao local onde nascera Jesus. Os Magos sabendo que se tratava do nascimento real, foram previamente ao palácio de Herodes, a quem perguntaram sobre a criança. Herodes alarmou-se, sentiu-se ameaçado, pelo que pediu aos Magos que, se o encontrassem, o avisassem de pronto, pois iria adorá-lo. A sua intenção era, obviamente, a de o matar. Até os Magos chegarem ao local onde estava o Menino, já havia decorrido algum tempo, pelo que a tradição atribuiu à visita dos Magos, o dia 6 de Janeiro.
A Estrela que os precedia, segundo o Evangelho, parou por sobre onde se encontrava o Menino Jesus. E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande e intenso júbilo. Os Magos ofereceram três presentes ao Menino, ouro, incenso e mirra, cujo significado e simbolismo espiritual é, juntamente com a própria visita um resumo do Evangelho e da Fé Cristã, embora exista especulação a respeito do significado das dádivas. O ouro pode representar a Realeza (era presente real), o incenso a Fé ou a Divindade (o incenso usado nos templos, simboliza a oração que chega a Deus, assim como a fumaça sobe ao céu) enquanto que a mirra, resina usada em embalsamamentos desde o Egito (visava assegurar a imortalidade), remete-nos ao mesmo tempo para o género da morte de Jesus, o Martírio (a sua humanidade). Um composto de mirra e aloés foi, aliás, usado no embalsamamento de Jesus
Entrando na casa, viram o menino (Jesus), com Maria sua mãe. Prostando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.
Sendo por divina advertência prevenidos em sonho a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra .
Nada mais a Escritura nos diz sobre essa história cheia de poesia, não havendo outros documentos históricos sobre eles.
A mais pormenorizada descrição dos Reis Magos deve-se a S. Beda, o Venerável (673-735), no seu tratado Excerpta et Colletanea: Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz.
Assim se pretendia dizer que representavam os reis de todo o mundo, as três raças humanas conhecidas, em idades diferentes. Melquior entregou-Lhe ouro em reconhecimento da realeza, Gaspar, incenso em reconhecimento da divindade e Baltasar, mirra em reconhecimento da humanidade.
A exegese vê na chegada dos reis magos o cumprimento a profecia contida no livro dos Salmos: Os reis de toda a terra hão de adorá-Lo.
Durante a Idade Média começou a devoção dos Reis Magos, tendo as suas relíquias sido transladadas no séc. VI de Constantinopla para Milão. Em 1164, com os três já a serem venerados como santos, foram levadas para a Catedral de Colónia (Alemanha).
Há diferentes opiniões quanto à visita do Menino Jesus pelos Magos
A crença tradicional que Jesus foi visitado aquando do seu nascimento, não é consensual. Há pessoas que acreditam que Jesus já possuia uma certa idade, pois há vários indícios nesse sentodo, como traduções respeitáveis do texto de Mat. 2.11 que usa a expressão uma criancinha, um menino, e não um recem nascido. Mat. 2.11 também cita que quando Jesus foi encontrado estava em uma casa e não em uma manjedoura. O facto de Herodes mandar matar as crianças até dois anos e, por último, o facto de Maria ter dado apenas dois pássaros no templo como contribuição pelo nascimento do menino, o que a identificava como muito pobre, já que na visita ela, através de seu filho, recebeu ouro e outros bens valiosos.
Devemos aos Magos a tradição portuguesa de trocar presentes no Natal. Dos presentes dos Magos surgiu essa tradição em celebração do nascimento de Jesus. Em diversos países, como por exemplo os de língua espanhola, a principal troca de presentes é feita não no Natal, mas no dia 6 de Janeiro.
Em Casa de meus Pais, no Dia de Reis desmontava-se carinhosamente o Presépio e a Árvore de Natal e comia-se ao jantar ao última fatia de Bolo Rei, da Cunha (considerado o melhor do Porto) e a minha Mãe bebia excepcionalmente um golo de Vinho do Porto, de um conjunto de garrafas mais antigas que qualquer dos 8 filhos, que tinha vindo de S. João da Pesqueira.
Até ao Ano!






FLEMING DE OLIVEIRA

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

-COMEMORAÇÕES INESIANAS EM ALCOBAÇA -650 ANOS DA TRANSLADAÇÃO DE INÊS DE CASTRO PARA ALCOBAÇA -UM JANTAR “MEDIEVAL”



Realizou-se no dia 21 de Outubro de 2011, inserido nas Comemorações Inesianas um jantar com uma ementa no estilo medieval.
As inscrições para o mesmo jantar foram limitadas a 30 pessoas.
Antes do jantar, Filomena Fadigas fez uma pequena intervenção, que a seguir se reproduz, de modo a fazer compreender o sentido desta iniciativa.
Também se juntam algumas fotografias de presentes no mesmo jantar.

Boa noite a todos

Em primeiro lugar, quero agradecer a todos a vossa presença. O principal objetivo deste convívio à volta da mesa e jantar com Inês de Castro é, além de recordar os 650 anos da transladação dos seus restos mortais para o nosso Mosteiro, recriar um pouco do ambiente e da gastronomia de uma refeição da época em que ela viveu. E mesmo sem ela fisicamente presente, se espiritualmente nos estiver a ver, decerto estará feliz por esta iniciativa e quiçá até um pouco saudosa por não poder relembrar os sabores de outros tempos.
Levantando um pouco o véu do que foi a gastronomia no século 14, época em que Inês viveu, vamos poder deliciar-nos com algumas das iguarias que então estariam presentes à mesa de uma família de classe média.
Já o francês François Rabelais, médico, escritor e monge quinhentista dizia e muito bem,…a gastronomia é uma arte complicada, da qual o estômago é o pai. É também um dos melhores reflexos dos hábitos e costumes de uma época… Cozinhar não é apenas confecionar alimentos, cozê-los, prepará-los e comê-los! Cozinhar, para quem gosta de o fazer, é uma arte e para que resulte na perfeição, como qualquer outro tipo de arte, como pintar, escrever, esculpir…tem que ser feita com paixão, com imaginação, com gosto e paciência. É um estado de alma! Pouco se sabe da etiqueta à mesa naquele tempo, principalmente na classe média e baixa. A nobreza exibia luxos, grandezas e exageros. Era uma época em que a fome era comum, o alimento era um importante indicador do estatuto social. Normas sociais impunham que o alimento da classe média fosse menos refinado, já que se acreditava que havia uma semelhança divina ou natural entre o trabalho e os alimentos das pessoas. Assim, o trabalho manual requeria alimentos mais vulgares e mais baratos. De uma maneira geral, a alimentação medieval era pobre comparando-a com os padrões atuais. A quantidade superava a qualidade.
A arte de cozinhar estava ainda numa fase rudimentar, bastante primária, uma vez que as conquistas da cozinha romana se tinham perdido com a queda do império romano.
Imaginemo-nos então no século 14, à volta de uma mesa, e vamos cear, já que nessa época o jantar teria sido por volta das 10 horas da manhã. A ceia era entre as 6 e as 7 horas da tarde, e já estamos um pouco atrasados na hora!
Temos a mesa posta com as malgas, os pucarinhos, os pratos. Estes não se usavam ainda. A carne e o peixe eram servidos em tábuas de madeira ou sobre fatias de pão duro. Temos facas, colheres e garfos, mas no século 14 estes ainda eram pouco conhecidos na Europa. Comia-se à mão, com os dedos, e hoje não o iremos fazer por questões óbvias. Além do mais, seria um incómodo muito grande para quem nos está a servir, ter que trazer à mesa as bacias com água de rosas para lavarmos as mãos com frequência!
Mas como ninguém aqui veio para me ouvir falar e muito menos tenho a pretensão de vos dar uma aula de gastronomia, jantemos, convivamos e disfrutemos da companhia dos amigos, partilhando a boa disposição e a alegria de momentos únicos.

Bom apetite e até um novo encontro…quem sabe!


Filomena Fadigas












terça-feira, 25 de outubro de 2011

O CÉU NÃO PODE ESPERAR


Fleming de OLiveira
É comum pessoas falharem objetivos, pois ao atingirem determinado ponto, acreditam que chegaram ao limite.
Em relação a minha situação anterior, estou muito bem, cheguei onde queria.
Esta conclusão é processada no subconsciente, quando se atingem posições melhores do que o esperado.
Devido a esse tipo de pensamento, muitas pessoas deixam de ganhar o mundo. A capacidade do ser humano é infinita e encontramos essa prova em muitas pessoas insuspeitas. Quantos começaram a vida partir do nada e chegaram aos cargos mais cobiçados. Esses podem ter como especial, apenas o fato de acreditarem, sempre, poder ir mais longe.
Lamentavelmente, há os que pensando o céu como limite, são de má índole, visam atingir o máximo de poder para se sentirem superiores aos demais. Dessa forma, querem potencializar sua capacidade, não por um sonho, mas por pura vaidade.
A acomodação é um fator que leva as pessoas a deixarem de progredir, o que pode acarretar um arrependimento posterior (mas já nada ha a sanar), tanto mais que o mercado exige um estudo constante e persistente. Pois, enquanto muitos se estão a preparar, outros continuam acomodados. Num futuro não muito distante, os acomodados serão definitivamente os desempregados (hoje ainda não é assim…), enquanto os que estão em constante preparo, dominarão o mundo.
Por isso acredite, caro leitor, que tem capacidade para ir mais longe do que lhe vaticinaram. Todos tem um potencial infinito, pelo que não devem que coisas pequenas inutilizem as capacidades maiores. O progresso é a melhor maneira de alguém se manter vivo e com vontade de viver.
Pensando bem, talvez não seja tão maravilhoso pertencer à espécie humana.*
Todos os dias milhares de crianças morrem de causas evitáveis, como a fome. Governos dispendem milhões em armas de destruição. Aliás, é até possível que a espécie humana se venha auto-destruir, um dia. Somos atingidos por novas doenças mortais, doenças que afetam a qualidade de vida, pelo que não obstante a Ciência todos, inevitávelmente, vamos envelhecer e morrer. No fundo, talvez não sejamos tão bons, como pensamos merecer ser.
Acredito que é possível melhorar a vida e a sociedade em vez de rezar, que a evolução individual e da humanidade vista como um todo, se vai basear cada vez mais na tecnologia, um auto-aperfeiçoamento e uma evolução através de uma utilização racional que a Ciência oferece. Acredito e desejo na evolução coletiva ou individual através de meios tecnológicos, ainda que conjunturalmente em direcão desconhecida ou até temida. Enfim, um processo de utilização racional, sensata e inteligente da tecnologia para proveito próprio.
Imagine, caro leitor, o que seria deixar de envelhecer, ter o dobro da inteligência e memória!
Imagine, caro leitor, o que seria viver num mundo, não constantemente devastado por doenças ou guerras!
Estes objectivos são inatingíveis no futuro?
Quando me refiro a futuro, estou a pensar naquele que muitos de nós, ou nossos netos, ainda vão viver. Não tendo sido criado, nem educado, para compreender e coabitar com certas tecnologias e a melhor forma de as utilizar, tenho dificuldade acrescida em antecipar e compreender as grandes revoluções tecnológicas das próximas décadas, de forma a permitir uma utilização racional que as leve ao progresso da Humanidade.
Neste sentido, sinto-me inepto para prever até que ponto uma tecnologia vai ser útil ou destruidora. Mas assim que ela se desenvolve, bem sei que não pode mais ser esquecida ou apagada. Pelo contrário, destacados ambientalistas, teólogos, filósofos, cientistas ou investidores, defendem que compreender os avanços tecnológicos é melhor do que tentar destruí-los.
A minha conceção de futuro começa com uma melhoria individual que, consequentemente, leva a uma melhoria da Humanidade como um todo. Algumas pessoas poderão querer apenas deixar de envelhecer, enquanto outras pretendem também aumentar a inteligência.
A liberdade individual é um dos princípios éticos em que a generalidade dos ocidentais (europeus) concordam. Se houver pessoas que não querem usufruir das tecnologias, ninguém as pode contrariar. Se pretenderem libertar-se das correntes que limitam o ser humano, não podem outrossim obrigar alguém a esse progresso.
Sei quem defenda princípios de economia e política ultra-liberal, sob a forma de uma ordem espontânea, na qual a humanidade evolui melhor, sem um planeamento centralizado ou ordens constantes. Mas acresecento que não concordo com o princípio de ordem espontânea, apesar de ser um defensor da liberdade individual.
Uma pessoa tem de procurar novos objetivos e novas fronteiras. Devemos tentar ser melhores do que somos, remodelar as nossas capacidades. A evolução da espécie humana já não é, nem pode ser casa vez mais, um processo natural.
A civilização é um protesto contra a natureza; o progresso exige que nós assumamos o controle da evolução. Por isso é que o céu é o limite.
Uma espécie que, como a nossa, pode conquistar o céu, não se pode contentar com a Terra.
*

Fleming de Oliveira

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

S. MARTINHO, TODOS OS SANTOS, PÃO POR DEUS E FIÉIS DEFUNTOS




Fleming de OLiveira
Ti’ Zé das Tojeiras lembra-se bem do S. Martinho, quando de verruma em punho ia abrir um orifício na madeira do pipo, de onde sairia, de certeza certa, um belo vinho. Bebido o copo, com sincera reverência, tapava o buraco com um olhar embevecido, pois ele bem sabia que ali estava o produto da sua lavra de um ano, com aroma e paladar inconfundíveis em qualquer parte do Mundo. Vinho não há melhor de que o das encostas da Castanheira ou dos Montes, terra de muito vinho e poucas fontes. E disso lá ele percebia.
Antes do S. Martinho, há um momento especialmente relevante no nosso sentimento popular. Todos os anos, no dia 2 de Novembro multidões, como que procissões, visitavam o cemitério, as campas dos seus mortos. Ao final do dia, já se encontravam muitas velas a arder. Aquela data não foi escolhida ao acaso. A Igreja Católica celebra no dia 1, Todos os Santos, e no dia 2, os Fiéis Defuntos. O culto dos mortos, no dia que lhes é dedicado, traduz-se em ritos nem sempre iguais, embora com o comum da romagem ao cemitério, a colocação de flores e velas sobre as campas. Esta é uma prática corrente, tais celebrações, costumes e crenças existem em todos os países da Europa, onde se acredita, embora com variantes, que no dia consagrado aos mortos as suas almas, isoladas ou em grupo, visitam na terra os lugares que habitaram em vida. O sociólogo Moisés Espírito Santo, escreveu entre nós que desde os tempos mais arcaicos, anteriores ao cristianismo, que os mortos eram celebrados no princípio do inverno. O frio, a chuva, as sombras, tudo isto contribui para a relação entre o inverno e a morte, época dos frutos secos (figos, nozes, uvas passas, castanhas). O fruto seco é um fruto morto. É a morte da terra que tmbém tem como simbolismo a morte das pessoas. O culto dos mortos e os seus rituais também têm o efeito de acalmar. São uma recompensa por todas as injustiças que lhes possam ter sido feitas em vida. Apaziguar a memória, o espírito dos mortos é próprio de todas as sociedades.
Crentes e não-crentes recordam, sem sentimento mórbido ou de luto, os que já partiram em gestos traduzidos por um simples ramo de crisântemos, uma oração ou mesmo pelo simples recolhimento, frente à sepultura. Basta um ramo de flores, não é preciso um braçado. Ramos e vasos de flores, das mais variadas qualidades, cores e tamanhos. Velas grandes, pequenas, brancas, vermelhas, amarelas, lamparinas, castiçais ou pequenas taças de cera. Tudo isto e, muito mais, é colocado ao dispor das pessoas, nas semanas que antecedem o um ou dois de Novembro. O momento é de comprar velas, encomendar flores, porque o que importa é deixar as campas das familiares (é a voz do sangue, sabe-se que estão ali pessoas muito queridas) devidamente ornamentadas para o grande dia. Gestos que marcam a saudade dos que já não pertencem ao número dos vivos, do resto da família desaparecido... e dos amigos. Em cada recanto depara-se com a fotografia de um conhecido que traz à memória recordações, algumas longínquas outras bem mais próximas...uma lágrima teimosa que não consigue reter.
A visita ao cemitério não significa, pois, sacrifício para cada um que lá vai. Antes, revela a sensibilidade humana, muito portuguesa, perante o mistério da morte, a condição mortal do homem.
A comemoração dos defuntos está de há muito na sequência da solenidade de Todos os Santos. Nesta festa, põe-se em relevo o exemplo de um sem-número de cristãos, cujo nome desconhecemos, mas que procuraram, na existência terrena, a santidade. Gente de carne e osso que levou uma vida normal, no meio de angústias, desilusões, traições, alegrias, sofrimentos e privações. E, para quem a morte foi, apenas, a passagem para uma outra vida sem fim. O dia dos defuntos, obriga ainda que de forma fugaz, a olhar para o que é cada um. Questiona sobre a brevidade dos dias que que se vivem. E a considerar que se torna urgente dar um verdadeiro sentido à vida incerta. Não por medo, mas por uma fidelidade às convicções de consciência. O Dia dos Fiéis Defuntos, no campo ou na cidade, é uma momento importante no sentimento português.
Coincidente com Os Santos, é o Pão por Deus, que tinha tradicionalmente nesse dia o seu ponto alto, como recorda Ti’ Zé das Tojeiras.
Eram os tempos difíceis do pós II Guerra e, em particular, da austeridade do Estado Novo. Cada dia do calendário litúrgico era respeitado com atenção. Os sinos da igreja tocavam as Avé Marias e havia procissões nos Ramos, na Quinta-Feira da Ascensão e, nas festas da terra (Stª Marta ou S. Vicente). Os sinos ouviam-se cedo porque o Padre chamava os fiéis à missa da manhã e, ao Domingo, a ida aos principais actos religiosos, era uma espécie de obrigação de que se gostava e não dispensava.
-Ó Ti’ Zé dá um bolinho?
Esta será, provavelmente, uma das tradições antigas e arreigadas, dos distritos de Coimbra e Leiria (Concelho de Alcobaça, obviamente), que se estende pelo litoral até perto de Lisboa e que mais se aguentou nos nossos dias. Dada a sua especial ligação às crianças e o seu simbolismo afetivo e etnográfico, continua a conquistar a adesão das populações rurais.
Broas, rebuçados, frutos secos ou mesmo uma moedinha, iam enchendo a saca, normalmente de pano, usada a tiracolo. Mas, mais do que essas oferendas, era importante o convívio da pequenada, a diversão e o acolhimento afável dos adultos. Muitos pais acompanhavam os mais novos, meninos e meninas, e também eles acabavam contagiados pelo divertimento. Era um dia diferente, todos estavam prontos para partilhar uma guloseima, um acolhimento, deixar um sorriso a cada pedinte. Dia alegre, solidário, pacífico, entregue ao ritmo irrequieto, saltitante e alegre dos bandos de criançada a ver quem conseguia encher mais rapidamente o saco.

A VIDA NOS TEUS BRAÇOS…


FLEMING DE OLIVEIRA
Algumas pessoas veem a vida passar tão rapidamente que só se dão conta disso muito tempo depois. Se temos medo que isso possa acontecer com a nossa vida, é porque talvez não estejamos a realizar o que desejaríamos. Muitas pessoas arredam-se de viagens que poderiam ser inesquecíveis, festas a que os amigos foram, comemorações que marcaram uma época, entre outros momentos que dariam boas historias para um dia contar aos netos.
Na maior parte das vezes que isso ocorre, é porque a pessoa não sabe aproveitar o lado bom da vida, com sabedoria. Ninguém nasce sabido e ninguém sabe de tudo, pelo que não deve deixar para amanhã aquilo que pode ser realizado no momento.
Muitas pessoas ficam a trabalhar até tarde, estudar todo o dia, sendo que esquecem que, para além destes nobres afazeres, é preciso perceber que viver é mais que isso.
Claro não se deve abandonar o estudo ou mandriar apenas pelo facto de ser cansativo. Esquecendo, se possível, a Crise que nos leva para caminhos incertos, eu diria que é preciso organizar-se e levar uma vida equilibrada, não só financeiramente falando, mas ainda uma boa vida amorosa, familiar e espiritual.
O importante é não ter atitudes de que se possa se arrepender grandemente no futuro.
Pense duas vezes antes de atuar e seja feliz!

Para muitos portugueses medianos, cada vez mais vive-se a vida, cada dia após cada dia. Procura-se, perdem-se os sentidos desejados, perde-se amor, sonha-se, pouco, sonha-se em tons de cinzento, sonha-se com nada, sobre nada.
E assim vamos morrendo pouco a pouco, como se uma larva nos comesse por dentro até à Alma. Sim, morre-se tanto ou mais pela alma que pelo coração. Morre-se por não se viver, por não se arriscar em tonalidades cromáticas e dissonantes, vive-se num estado de morte vegetativa, bem lenta.
As lágrimas correm pela tristeza de não sermos o que desejámos ser, pela melancolia dos sonhos de criança continuarem a ser sonhos de criança, agora virados nós adultos, pela incapacidade de nos abraçarmos, de nos entendermos por dentro, no mínimo.
E assim se vive sem sabor a pimenta ou sal, sem entender que cada por-do-sol é diferente entre si, que estes podem ser como sorrisos. Sim estamos com os olhos cheios de cegueira, de medo de ver as cores, de viver por nós, para nós.
E por isso sujeitamo-nos à mediocridade, a um sentir leve, a um viver morno.
E assim vivemos uma vida não destinada à vida.
Por isso te agarro e te beijo com beijos de fogo, por isso te sussurro poesias com pimenta e algum sal para te temperar a alma, por isso te consumo, porque me consumo, para que os teus olhos possam sorrir nos meus.
Por isso te amo hoje, embora o amor seja sempre ou nunca, por isso me encarno e me ressuscito em ti, pois só morrendo algumas vezes é que deixamos de ter medo de viver a vida que nos sobra.
E assim me leva a vida nos teus braços, morre-se nos braços de quem se quer, porque a morte é o pequeno momento de todos os que ressuscitei em ti.


FLEMING DE OLIVEIRA

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

À VOLTA (do prazer)DA GULA


Fleming de OLiveira
Creio que nem mesmo a nossa Igreja Católica, classificando-a como um dos sete pecados capitais, se preocupa com as razões que levam os fiéis a comer por vezes sem prazer, sem conseguir saciar aquilo que o pobre pecador apelida de fome.
Na verdade, o guloso nem tem consciência de que aquilo que para ele nem sempre é um problema, está selado desde suas primeiras horas de vida. Qualquer criança começa a conhecer o mundo através da boca.
Uma criança nasce, cresce e chora. Está com fome, com frio, um dorzinha, não consegue entender o que está a acontecer à sua voltaa. Fica assustada e confusa. Em qualquer uma dessas situações, a mãe pega-lhe, leva-a ao seio e ela acalma, sente-se bem de novo.
Quando o bébé chora, a mãe associa o choro à fome e mesmo que esteja saciado oferece-lhe mais uma vez o peito que é aceite de imediato como forma de carinho e aconchego caloroso.
E nós adultos, o que fazemos?
Sentimos fome, vamos `dispensa. Sentimos calor, vamos ao frigorífico. Estamos sozinhos, entediados, vamos buscar uma faca e um garfo. Não gostamos do noticiário da TV, vamos à geladeira.
Na realidade, para cada situação de insatisfação, solidão, depressão, buscamos a comida...
E quanto mais se come, mais se perde o controle, desencadeando um sentimento de frustração, ansiedade e culpa, gerando assim uma grande insatisfação pessoal e também com o mundo.
A gula pode ser encarada como um comportamento, excessivo, que se manifesta em planos como o emocional, sexual, social, ou financeiro.
A gula é, pois, um impercetível, mas muito importante monitorizador do viver de cada um, sugerindo o que precisa ser transformado, mudado ou substituído.
Sintetizando, caro leitor, a gula é um comportamento que co-existe com uma insatisfação total e irrestrita consigo próprio e a tentativa de encontrar um remédio para essa angústia, que desencadeia sentimentos de frustração e ansiedade que só se aplacam com o avassalador ataque ao seu objeto do prazer.
A característica da gula é engolir e não digerir.
Quantas vezes não digerimos o que nos acontece e, simplesmente, engolimos?
Vulgarmente está associada à comida e à bebida, mas também pode ser entendida como gula intelectual. O sentimento que está por de trás da gula é o de laborar abaixo das possibilidades, buscando uma compensação pelo que se acredita não ter. A sensação é a de não estar a fazer tudo o que o potencial permite, vivendo sem atender expectativas.
A atitude mental básica deste guloso consiste supor ter necessidade de aprender tudo.
Essa característica pode levar à ânsia de monopolizar, desejando um poder cada vez mais autocrático.
Qual será mais danosa?

Fleming de Oliveira