terça-feira, 23 de abril de 2013


AMULETOS, TALISMÂS E BOA SORTE!!!
Fleming de Oliveira

De acordo com certas culturas, ou mentalidades, a lisonja acarreta ou tem subjacente uma maldição. O mesmo se aplica à inveja. Desde tempos remotos, tais pragas, denominadas como mau olhado, partem da crença que um individuo pode causar male, simplesmente olhando (dardejando) para os bens de outra pessoa, senão mesmo nela própria. A proteção seria possível com talismãs ou amuletos usados, transportados ou pendurados muitas vezes nas casas. Ainda há, como creio que haverá sempre, pessoas que vivem a explorar, o que poderíamos caracterizar, linearmente, como “crendice popular”.
Com os progressos do cristianismo, desde logo a partir dos primeiros séculos, foi desencorajado o uso de amuletos, tidos como objectos pagãos. Porque muitos dos primeiros cristãos (recém convertidos mostravam o desejo de usar talismãs e amuletos), a Igreja fez esforço para divulgar novos objetos sagrados, como imagens de Jesus, Virgem Maria e Santos.
Os amuletos da sorte tem a “grande” função de proteger a pessoa a quem pertencem, da má sorte, perigo ou doença. A palavra amuleto parece provir do latim “amuletum”, isto é,  objecto usado para a defesa, ou do árabe “hamalet”que , por sua vez, significa o que está suspenso.
O escritor e filósofo romano, Plínio, o “Velho”, terá sido o primeiro a registar a existência de amuletos de sorte. Na sua obra “História Natural”, que remonta ao ano 79 dc, Plínio, menciona como categorias de amuletos, os que oferecem proteção contra a negatividade e a má sorte, os que contém substâncias profiláticas e ainda os que se destinam a serem usados como remédio.
Nos países banhados pelo Egeu, os indivíduos de olhos claros são considerados mais poderosos, e os amuletos na Grécia e Turquia são, geralmente, globos oculares azuis. Quando há uns anos estive na Turquia, a minha Mulher fez questão de trazer como mera recordação turística (o que fazia questão de ressalvar, para que não restassem dúvidas…) alguns destes amuletos, que colocou à  porta de casa e ofereceu aos filhos. O olho turco é um amuleto azul muito comum naquele país, sendo exportado para todo o mundo. Tradicionalmente é usado contra mau olhado. Na Turquia, segundo nos explicaram, as mães colocam o amuleto na roupa dos filhos, pelo que se é encontrado rachado, significa que funcionou e protegeu a criança. Ao carregar um “olho turco”, a energia negativa direcionada ao portador será atraída pelo amuleto, ainda que seja por meio de um elogio, já que os turcos acreditam que elogios podem revelar, inconscientemente, a inveja.
Bastante antigo, e ainda relativamente usual entre nós é a ferradura, um talismã com o poder de atrair o bem e expulsar o mal da casa que a tiver colocada. Para ter mais força ainda, deve ser aplicar-se atrás da porta de entrada. Diz-se ser eficaz para expulsar pessoas invejosas, além de atrair dinheiro e prosperidade.
Na verdade tem havido mudanças de formatos dos amuletos ao longo dos anos mas, mesmo assim, o seu poder permanece inalterado. Além de atrair sorte, os amuletos também servem para afastar a energia negativa. Alguns Portugueses, usam chifres ou símbolos fálicos destinados a “distrair” os lançadores de pragas ou os invejosos, ressalvando normalmente que não acreditam nisso, mas na dúvida…. Um conhecido meu, usava um “pé de coelho” no carro, e não era propriamente um “primário”. Porquê?, perguntei uma vez. Recorde-se que o coelho é considerado um símbolo de fertilidade, portanto, quem tiver um pé de coelho como amuleto, está a afastar as más energias que impedem a fertilidade, seja na vida, família, amor ou negócios.
Segundo se dizia em casa de meus Pais, quando nasci um tio deu-me uma pequenina figa em metal, mas que engoli para grande preocupação de minha Mãe, acabando por ser expelida pela “via natural”.
Quando andava a estudar em Coimbra, um colega de casa trazia sempre consigo um “trevo da sorte”, para o acompanhar no jogo e aconselhava que se alguém achar um trevo-de-quatro-folhas, guarde-o com todo o carinho até secar,“sabendo” que ele atrai muita sorte na hora de jogar. Mas caso não se consiga ter um de verdade, pode-se comprar um, desde que usado com a mesma fé.
Nestes tempos de crise, muito jeito nos faria um eficaz amuleto, trevo da sorte ou outro, não é verdade?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Governo do Entrudo (1842)



O GOVERNO DO “ENTRUDO” (1842)


Fleming de Oliveira
Caros leitores, já ouviram falar no “Governo do Entrudo”?
Não? Não me estou a referir ao Governo de Passos Coelho neste “Entrudo” de 2013, como antes acontecera com o “Entrudo” de Cavaco Silva nos anos 90, já que ambos quiseram governar em tempo de “Entrudo” e contra este.
Vou explicar. O jocosamente apelidado “Governo do Entrudo”, que sucedeu a um outro presidido por Joaquim António de Aguiar, teve (o ainda) Marquês de Palmela como Presidente do Conselho de Ministros (foi Duque, apenas, em 1850), acumulando com a pasta dos Negócios Estrangeiros, António Joaquim Vieira de Magalhães na pasta do Reino, Sá da Bandeira (Bernardo Sá Nogueira, General e ainda Visconde) na pasta da Guerra, António Aloísio Jervis de Atouguia (Visconde de Atouguia) na pasta da Marinha e Ultramar, Joaquim Filipe Soure na pasta dos Negócios Eclesiásticos e Justiça (grande amigo de Alexandre Herculano, com quem manteve bastante correspondência), Duque de Ávila na pasta da Fazenda, passou à História do século XIX, não pela importância da sua governação (que foi nula), mas pelo facto de ter durado apenas os 3 dias de 7 a 9 de Fevereiro de 1842, que coincidiram com o tempo de “Entrudo”.
Na minha Família, este foi todavia um acontecimento marcante, pois o meu Trisavó, Joaquim Francisco Miller de Oliveira, “tripeiro” assumido, mas a viver em Campo de Ourique, Lisboa, chegou a fazer parte dele, dadas as excelentes relações com António Joaquim Vieira de Magalhães (conterrâneos, correlegionários, seu “braço direito” e suponho que compadres, embora depois se tenham incompatibilizado), quando este assumiu as referidas funções de Ministro do Reino. Um parêntesis para recordar este político. António Joaquim Vieira de Magalhães, foi o primeiro e único Barão e Conde de Magalhães. Tendo nascido no Porto, a 22 de Junho de 1822, faleceu em Cascais, a 9 de Setembro de 1903. Desempenhou, entre outros, o cargo de Ministro dos Negócios da Fazenda, em 1870.
Filho de António Vieira de Magalhães, 1º Barão e Visconde de Alpendurada, e de Margarida Albina de Pereira de Melo, casou-se em 29 de Julho, de 1857, com Antónia Maria d'Orta (para o qual já não foi convidado “o avô Oliveira”), com quem teve três filhas:
D. Margarida d'Orta Vieira de Magalhães (nasc. 1859-fal.1937), casada com José Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais Amaral, 2º Visconde de Taveiro e 1º conde de Santar;
D. Maria Antónia d' Orta Vieira de Magalhães (nasc.1878-falecida em 1975 na Galiza, onde residia), casada com Juan Nepumoceno Jordan de Urries y Mendez, de Vigo, 7º Marquês de Lierta; e,
D. (?), cujos elementos não apurei.
Recebeu o Baronato, por decreto de 13 de Maio de 1854, de D. Pedro V, e o Viscondado, por decreto de 24 de Maio de 1870, de D. Luís.
Ainda me recordo que, sendo garotinho, em casa de meus Avós paternos, no Porto, quando se queria aludir depreciativamente a um acontecimento frustrado, facto de efémera duração ou mesmo caricato, dizia-se cinicamente que “nem o governo do avô Oliveira”. Este meu antepassado, aos olhos da muito expectante família (nunca houvera quem subisse tão “alto”), não ficou nada prestigiado por ter participado, num governo que ninguém levou a sério, tão efémero, falhado e carnavalesco que foi.
Quando no princípio de 1842 Costa Cabral, que fazia parte do governo de Joaquim António de Aguiar em exercício, nos termos da Constituição de 1838, se deslocou ao Porto, alegadamente por meras razões pessoais, mas objetivamente para proclamar a restauração da Carta, houve um momento em que a rainha D. Maria II “fingiu” que desejava resistir à insurreição, pelo que encarregou de formar governo no dia 7 de Fevereiro do 1842, o (então) Marquês de Palmela. Foi este o Ministério, que ficou conhecido, como comecei por dizer, pelo nome de “Governo do Entrudo”, substituído logo no dia 9 por outro presidido do Duque da Terceira, que reservou um lugar para o poderoso Costa Cabral. A Carta estava restaurada!
A Carta Constitucional esteve em vigor durante 3 períodos distintos:
O primeiro, desde Abril de 1826, quando foi outorgada, até Maio de 1828, aclamação de D. Miguel como Rei, que convocou os três Estados do Reino e decretaram nula a Carta Constitucional;
O segundo período, desde Agosto de 1834, D. Miguel foi expulso de Portugal, até à Revolução de Setembro de 1836, com a restauração provisória da “Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822” (proclamada de novo a Constituição de 1822 até se elaborar nova Constituição, o que sucedeu em 1838). Note-se que já em Junho de 1837, os Marchais Saldanha e Terceira, haviam tentado restaurar a Carta de 1826, com a chamada “Revolta dos Marchais’’ (X), mas a tentativa falhou, resultando apenas a continuação da perturbação do País e o exílio (por algum tempo) dos líderes do golpe.
Agora, em 1842 era a vez de Costa Cabral, aliás um dos pilares da Revolução de Setembro, tentar a sua sorte. Chegado ao Porto a 17 de Janeiro de 1842, logo no dia 19 foi saudado com a aclamação da Carta Constitucional. Preparando para 27 desse mês a sublevação “cartista”, assumiu-se nesse dia como chefe político do pronunciamento militar, organizou a Junta do Governo com a participação do Barão da Ponte de Santa Maria (António Vicente de Queiroz), Marcelino Máximo de Azevedo e Melo (1º de Visconde Oliveira do Douro) e António Pereira dos Reis (futuro Presidente da Câmara de Deputados), todos ligados à Maçonaria, e preparou-se para marchar sobre Lisboa.
Em Lisboa ainda se fizeram algumas inócuas tentativas para resistir ao pronunciamento de Cabral (reunião de Senadores em casa de Palmela e de Deputados em casa de Atouguia, protestando contra a restauração da Carta),  o governo foi remodelado, sendo Joaquim António de Aguiar (Mata-Frades) substituído na Presidência do Ministério, pelo futuro Duque de Palmela. Mas sendo fraca, se não nula a resistência, o governo empossado no Entrudo a 7 de Fevereiro de 1842, caiu ao seu terceiro dia, a 9 de Fevereiro.
Estando a Rainha conivente com o golpe, e tendo a 8 de Fevereiro a guarnição do Castelo de São Jorge saudado a Carta, a que se seguiu um motim popular, de teor “cartista”, o êxito do golpe foi inevitável. A 10 de Fevereiro foi publicado o Decreto Real que restaurava a Carta Constitucional, a 19 desembarcou Costa Cabral em Lisboa no meio de uma receção apoteótica e a 24 iniciou, de facto, a sua governação, nomeado Ministro do Reino num Executivo presidido pelo Duque da Terceira. Estava instalado o “cabralismo” que durou até 20 de Maio de 1846, quando a Rainha demitiu Cabral, que se exilou em Madrid.
O terceiro e último período de vigência da Carta Constitucional, ocorreu entre Janeiro de 1842, pronunciamento de Costa Cabral, e 5 de Outubro de 1910 (implantação da República), embora com algumas alterações (três revisões profundas, em 1852, 1885 e 1896).
(X)-Veja-se, a propósito, o meu apontamento JOSÉ DO TELHADO, A REVOLTA DOS MARCHAIS, O COMBATE DE CHÃO DA FEIRA (e o Acordo de Alcobaça).



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


A “INSTITUIÇÃO DA FELICIDADE
FLeming de OLiveira

Nestes tempos que correm, o casal (para mim, continuo a considerar apenas o caso de um homem e uma mulher…) parece ser a prova do mérito da “instituição da felicidade”, que todavia corre o risco de ser o centro de frustradas importantes expectativas. O facto de em Portugal ocorrerem de facto cada vez mais divórcios (embora isso não seja refletido corretamente em termos jurídico-estatísticos, circunstância a que a crise não tem sido alheia), é, na minha opinião, a sua demostração.
O divórcio não quer dizer que haja desinteresse pelo casal, pelo contrário, prova que o casamento é tão importante, que não é possível viver num casal, quando o (casal) deixa de ser gratificante. Cada casal, deve por conseguinte, cumprir uma missão muito importante, assegurar a felicidade de cada um dos seus membros, traduzindo-se esta em termos de harmonia sentimental, dinheiro, sexo, tempos livres, educação dos filhos, o tratamento dos ascendentes, etc., e tudo, porventura, por muitos anos.
Esta “instituição da felicidade”, prevê que os conflitos possam ser geridos com recurso à negociação e compromissos, em longas e empenhadas conversações.
O que fazer dos conflitos que ficam por resolver? Será que um casal pode tolerar a existência destes conflitos e com que intensidade? Caso eles sejam considerados demasiado intensos, será que é possível considerar uma coabitação sem paixão?
Estes conflitos abrem brechas na “instituição da felicidade” e obrigam cada cônjuge a relativizar a imagem ideal que tinha sido construída.
Para além disto, e este facto parece-me novo, o compromisso do casamento parece estar a comportar uma nova e tácita cláusula: ”Nós viveremos enquanto nos pudermos entender e manter uma relação interessante”. O antigo e enunciado propósito “casar para o melhor e para o pior até que a morte nos separe”, pode vir a ser o moderno “casar e separar para evitarmos o pior”.
O facto de o casal se separar antes que a relação o faça sofrer intoleravelmente, pode vir a ser uma prova de sinceridade, de repeito que um nutre pelo outro, que talvez venha a permitir conservar uma relação satisfatória após a separação.
Lirismo, Utopia, dirão os leitores. Nunca me propus ser conselheiro matrimonial (no meu escritório ou na Paróquia), muito menos é o objetivo (discreto) destas notas sociológicas, que nas considerações que partilho com os leitores, pressupõem uma perspetiva conservadora (intemporal), sem prejuízo de não esquecerem que a nossa sociedade portuguesa está em mutação impossível de contrariar.
Os conflitos, as incompreensões, as divergências profundas, obrigam cada um a realizar um trabalho de transformação do mito do casal que, por vezes, necessita de uma “intervenção terapêutica” altamente complexa  e por isso de risco, e que, verdade seja dita, não me sento habilitado a efetuar.

AS FOTOGRAFIAS E A MEMÓRIA (I)

FLeming de OLiveira
Quando se começa um álbum (à moda antiga), podem inserir-se as fotografias sem distinção, fazer-se a escolha segundo o tema, o grau de sucesso, a originalidade ou qualquer outro critério. Se forem pessoas diferentes a fotografar e a construir o álbum, talvez cada uma decida a classificação a seu modo. Algumas famílias, não reúnem as fotografias num álbum, optando antes pela “caixa das fotografias” (como acontecia em casa de meus Pais), verdadeiro e valioso baú de recordações e que, de vez em quando, dão lugar a (re)descobertas emocionantes. Algumas, por outro lado, dão especial importância, não só às fotografias, mas também aos “álbuns de família”. Recordo-me de famílias, muito tradicionais, que tinham álbuns “cor-de-rosa” para as meninas, “azuis” para os meninos, “álbuns de férias”, “álbuns das festas”, a par de “álbuns dos antepassados”, sempre vestígios visuais de um tempo (bom ou menos bom), que eram “relíquias” religiosamente conservadas, protegidas no fundo de um armário para serem transmitidas. Tratavam-se de fotografias convencionais, como as de bébé, de primeira comunhão, de casamento, batizado ou festas, para as quais se fazia, com cuidado, poses de não sorrir demasiado, para que ficasse uma impressão de seriedade e de dignidade para os vindouros. Mas os “álbuns de fotografias” estão a cair em desuso, perante as fotos digitais.
A fotografia, recorde-se, é uma técnica relativamente recente, data do segundo quartel do século XIX, mas que apenas ficou disponível a toda a gente no decurso de século XX. Esta descoberta causou sensação, uma vez que tornou possível reter o momento e torná-lo  memorável, revivendo-se momentos importantes, através de um testemunho guardado através de uma indesmentível prova visual. Deste modo, não se suscitavam dúvidas que tais momentos tinham sido importantes, belos e bem passados, cabendo à tradição oral dar vida e “cor” às fotografias. Se hoje em dia, toda a gente tem uma máquina fotográfica, nem por isso a noção de escolha da fotografia, deixou de estar presente. No meu caso, fotógrafo incipiente, gosto de escolher o momento, o motivo, bem como a ocasião para mostrar ou oferecer a fotografia a familiares ou amigos (neste aspeto a minha Mulher Ana é especialmente atenta, pois trás sempre na carteira as dos netos…).
No ciclo de vida de uma família, a questão da posse das fotografias coloca-se muitas vezes a um nível que transcende a geração dos pais. Quando deixei a casa de meus Pais, levei alguns objetos úteis ou importantes sob um ponto de vista afetivo, após uma negociação mais ou menos fácil com os outros membros da casa (só meus irmãos eram mais sete).

Mas verdade seja dita, as minhas fotos de infância não estavam nas primeiras malas que então “fechei”. Essa importância foi-lhes conferida, no momento em que apareceram os meus Filhos (a Raquel, a Paula e o Miguel), a nova geração. E assim, mesmo que tenha mostrado as fotos muitas vezes à minha Mulher, só percebi que me tornei seu verdadeiro proprietário, no momento em que Ela e eu nos vimos como pais. Por conseguinte, a geração dos meus filhos e depois a geração dos filhos destes, representam, de algum modo, os legatários privilegiados dessa minha herança.
Também há o caso de um membro da família que leva, um álbum completo que pensa pertencer-lhe por “direito”, outro que levará apenas algumas fotografias de diferentes páginas, transformando-as numa desordem, enquanto um outro ainda, tentará encontrar os respetivos “negativos” (isto era no tempo anterior à era digital) para o refazer. Não esqueço o caso daquela família que constituiu álbuns personalizados para cada criança, com o objetivo de prevenir um dia conflitos de “território”, embora desconheça se isso resultou eficazmente. Neste caso, interrogo-me quanto a saber se são estas “fragmentadas” recordações que a criança tornada adulta, desejará um dia levar consigo.
Qualquer que seja o modo de proceder, possivelmente provocará reação na geração de origem, dependendo em último termo do modo como se vai sentir ao ficar sem aquele bem a que afinal (sem que verdadeiramente anteriormente se tivesse apercebido) dá tanto mais importância, quanto o significado afetivo das fotos. Sendo assim, nem sempre é possível encontrar uma solução pacífica (por duas vezes casos deste tipo chegaram-me ao escritório, e a solução encontrada não satisfez ninguém) para este conflito. Ora bem, caros leitores, não é para vós um dos objetivos da fotografia assegurar a transmissão visual de uma vivência?
Pode tudo isto ter uma importância especial no caso das famílias “reconstituídas”, independentemente da causa subjacente (morte ou divórcio). Aqui, o destino das fotografias é pertinente, principalmente em dois momentos, na separação e depois na “reconstituição” familiar.
Qual o lugar das fotografias após uma “dissolução” familiar? Ao contrário dos bens materiais que podem ser liquidados ou destinados sem demasiadas dificuldades, os “álbuns de fotografias” contêm lembranças, testemunhos repletos de emoção de uma família que se desfaz, um laço conjugal que se rompe, importante para a sua história que se pode tentar esquecer em alguns casos, mas nunca apagar. Foi neste contexto que, os casos referidos, me apareceram em termos profissionais. Por vezes os ex-cônjuges surpreendem-se com a intensidade dos sentimentos que experimentaram de tristeza e/ou de depressão. Assim se compreende bem como o futuro dessas fotografias corre o risco de suscitar fortes comoções, tanto nos familiares, adultos ou crianças, pois pertencem, pertenciam, à família, não são propriedade de um ou de outro dos seus membros., que por isso lutam por elas.
Poderia pensar-se, que seria fácil dividi-las criteriosamente, esquecendo o significado afetivo. Mas de acordo com que critério? A quem pertence uma fotografia? Ao fotógrafo? Ao que está presente na fotografia? A ambos? Não, não é pssível.
Qual é o lugar das pessoas numa fotografia quando ocorre uma “reconstituição” familiar? Por vezes há situações embaraçosas. Quando se realizam “festas de família”, nota-se por vezes a existência de um personagem com uma função importante, o fotógrafo, pago para registar o evento. Recordo um casamento, cujos noivos vinham de anteriores casamentos. O fotógrafo “oficial” percorria as salas anunciando, pleno de boa vontade: “Podem ir para o jardim para a foto de família?” Notei que os grupos, onde me incluia num, estavam indecisos, como se não soubessem bem, de que família se tratava. Não caros leitores, esta não é uma anedota, mas uma situação que revela a incerteza partilhada, quanto aos limites e definição das famílias “reconstituídas”.
De facto, por ocasião de uma festa, as fotografias destinadas a guardar a recordação, irão testemunhar a presença ou ausência de certos membros e a sua justificação irá contribuir na definição do sistema familiar de momento.
A utilização de “álbuns de família” poderá constituir um interessante elemento para traçar a evolução das diferentes estruturas familiares e criar novos laços após separações. Numa próxima oportunidade voltaremos a abordar esta questão.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

CASA DO INFANTE/CLUBE UNESCO DA CIDADE DO PORTO 5 de Janeiro de 2013

CASA DO INFANTE/CLUBE UNESCO DA CIDADE DO PORTO

5 de Janeiro de 2013








Casamento por "amor" ou conveniência? - Fleming de Oliveira




CASAMENTO POR “AMOR” OU CONVENIÊNCIA?

Fleming de OLiveira


Creio poder dizer que o casamento por “amor”, assumiu uma prática corrente no Ocidente, ao ponto de Paulo XI, há bastantes anos poder falar da “civilização do amor”.
Mas será que, nos tempos que correm, as pessoas se “amam” mais que no antigamente? Acho que não, embora tenham sido derrubadas certas barreiras contra as quais se esgrimiam, em vão, moralistas, escritores e filósofos. Sim, a do dinheiro, mais associada à profissão e do que à herança. Os casamentos constroem-se mais sobre redes de interesses, do que bases financeiras. O futuro do novo casal já não assenta tanto no património familiar, mas nos recursos pessoais, em grande medida, nas estruturas da sociedade, como a instrução ou garantias sociais.
Podemos, pois, inferir que o “amor” já não se subordina aos antigos imperativos?
Há que ter em conta essa espantosa libertação que foi a descoberta da contraceção eficaz. Os autores cristãos foram os primeiros a reconhece-lo. Admito que o “Nono Mandamento” (que proibe a concupiscência carnal), se justificava, em parte, pelo facto de a relação sexual comportar o risco de um filho, impondo uma família de acolhimento. A partir do momento em que esse risco diminuiu, pelo menos em certas camadas sociais do nosso Portugal, novos valores nasceram, e o casamento assente no “amor”, superou o casamento decorrente de um caso social. Um sacerdote, das minhas relações, é de opinião que “se assistiu a uma deslocação do sagrado. O que importa, hoje, é o amor entre as pessoas”.
Os progressos da contraceção, tiveram outras consequências, como a desculpabilização, facilitação, da sexualidade precoce e a emancipação da mulher, fenómenos que não deixaram de se repercutir no casamento, nomeadamente no casamento por “amor”. O casamento deixou de ser a promoção, possível, para as mulheres que se queriam furtar à condição de “tias solteironas”, enquanto que para o homem já não é necessariamente a única forma socialmente aceitável de satisfazer as necessidades sexuais.
Queremos com isto concluir que o casamento “arranjado” não existe mais?
Claro que não, conheço um ou dois casos… Afirmá-lo seria errado pois, mesmo quando a autorização dos pais já não é necessária, após a maioridade, as pressões, nomeadamente financeiras, continuam a ser correntes e, se não podem influir no casamento, podem propiciar os “encontros”.
Há sociólogos que distinguem as sociedades onde o estatuto é “conseguido” e sociedades em que é “conferido”. Nas primeiras, o indivíduo abre o caminho por si, a “pulso”, alcandorando-se à posição a que os seus talentos o permitem. Nas outras, fica como que atado por um conjunto de “cordelinhos”, a que se poderia chamar família, casta, comunidade ou costume… Numa sociedade moderna, o indivíduo situa-se geralmente numa única relação com aqueles com quem contacta. A sua relação com a mulher ou com os amigos é quase sempre diferente da que resulta do trato profissional com colegas, clientes ou empregados.
Há, sem dúvida, um ambiguidade no “amor” (inclusivamente no uso de expressão) dos nossos dias. O amor da costureirinha da Canção de Lisboa, das rádios ou fotonovelas, foi rejeitado por jovens, não necessariamente universitários ou urbanos, que deixaram de acreditar nele, reduzido que era a pulsões sexuais. Numa época em que, primeira vez na História, as condições materiais pareciam asseguradas para o seu triunfo, tornou-se o grande excluido da literatura e arte, que se pretendem sérias.            
Nessa ambiguidade o “amor” não é o que se sente, mas o que se “faz” e, em determinados contextos, é mais compensador “fazer amor” do que “produzir um sentimento”.
“Amo-te”, é uma expressão muito difícil de pronunciar como, aliás, muitos casais (marido e mulher…) sabem.
Pudor? Medo? Exigência excessiva?
Na época em que o casamento por “amor” vem assumindo a forma corrente, a palavra e o sentimento produzem, todavia, um estranho mal-estar. Se for possível escapar-lhe, racionalizando-o, enumerando critérios, como um pequeno anúncio, e persuadindo de que a união de temperamentos bem combinados é sensata, isso alivia a consciência do casal “enamorado”. Apesar das aparências, estamos mais próximos do “amor ponderado” (de Molière), do que da grande paixão romântica. Quanto à Igreja, que há séculos hesitava em reconhecer o “amor” como uma razão válida, determinante, para casamento, já não valoriza outra, pois com o casamento mostra-se à família, aos amigos e a Deus, que o “amor” é tão importante que se decidiu guardá-lo para os cônjuges. O “estado de graça”, a “comunhão” entre os esposos não é o auge do “amor”. Veementemente contrária ao divórcio, a Igreja continua a viver o fantasma da paixão ardente, como um “fogacho” e que se apaga finda a lua-de-mel.
Não, não se trata de gerir o “amor” como uma conta bancária, é preciso aprender a inscrevê-lo no tempo, sendo este o sentido da indissolubilidade do matrimónio que continua a ser a doutrina oficial. Quando a Igreja fala do “amor” para sempre, não pretende fazer crer que ele permanece, tal qual, ao longo dos anos.
Apesar do novo Catecismo, as associações cristãs parecem identificar, entre os fins do casamento, o primeiro lugar ao “amor” e depois à fecundidade. O amor-paixão, o do “fogacho”, que antigamente excluía o tempo, é o que agora está valorizado no casamento e numa longa vida em comum. O “amor” conjugal, nascido da coabitação, é recusado aos que estão ávidos de uma felicidade imediata. Talvez seja este na atualidade o grande desafio do “casamento por amor”, pois prolongada a esperança de vida estima-se que um casal partilhe, em média, cinquenta anos. Não sendo já o desejo de ter filhos o primeiro objetivo do casamento, há que “inventar” outros motivos para inserir o “amor” no tempo. Ora, o que muitas vezes o motivou, a beleza ou a juventude, é efémero. As situações alteram-se cada vez mais depressa e raros são os que podem por exemplo conservar durante toda a vida o mesmo trabalho e até a mesma casa.
Logo, há crises que têm de ser atravessadas para as quais a reflexão tradicional sobre o casamento não havia encontrado resposta. O divórcio constitui uma resposta muito fácil para elas. O “casamento por amor”, é cada vez menos um ato impulsivo para ser  um estado, uma construção em comum que é preciso aprender a consolidar.