quarta-feira, 5 de junho de 2013

Os Monges Agrónomos do Mosteiro de Alcobaça - J.Vieira Natividade





Ficha Técnica

Autor:
Joaquim Vieira Natividade

Título:
Os Monges Agrónomos do Mosteiro de Alcobaça

Revisão, Fixação de texto e Prefácio:
Fleming de Oliveira

Nota Introdutória:
Manuel Pimentel Castelhano

Edição:
Cooperativa Agrícola de Alcobaça (2013)

Capa:
-Daniela Santos
-Fleming de Oliveira

Mapas:
-Daniela Santos

Imagens:
-Arquivo Particular do Autor
-Biblioteca Municipal de Alcobaça
-Mosteiro de Alcobaça
-Internet

Composição, impressão e acabamento:
Relgráfica – Artes gráficas, Lda. – Benedita


Nota: Para eventual aquisição contacte Cooperativa Agrícola de Alcobaça (262597556) ou Fleming de Oliveira (962925444 ou flemingdeoliveira@gmail.com)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

OS DIAS DA MÚSICA 2013



Decorreu este ano (2013), e durante um fim-de-semana de Abril, no Centro Cultural de Belém, mais uma edição, a sétima, de “OS DIAS DA MÚSICA”, sob o égide de “O Impulso do Romantismo”.
Afinal o que é “O Romantismo”?
Vou tentar caracterizá-lo de uma forma simples e compreensível, muito especialmente por não nos estamos a dirigir a especialistas ou académicos. “O Romantismo”, foi um movimento de origem europeia, estético e artístico (que se expandiu pelas Belas Artes, Literatura e Música), político e filosófico, e que perdurou por grande parte do século XIX, embora se tenha iniciado no século anterior. Assumiu-se como uma sensibilidade, na visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os Estados nacionais.
Inicialmente, sendo apenas uma atitude, o “Espírito Romântico” passou a designar a visão de mundo centrada no indivíduo, tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo. Os autores românticos voltavam-se cada vez mais para si, retratando o drama humano, os amores trágicos, os ideais utópicos, o desejo de “fuga”. Se o século XVIII, foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela Razão, “O Romantismo” do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo “Eu”, rumo a uma cultura da libertação que, politicamente, encontra se radica na Revolução Francesa
A exaltação da pessoa, a redescoberta da “Cultura Medieval” em contraposição com a “Greco-Romana” (arte equilibrada e perfeccionista), a libertação dos sentimentos e a apologia das paixões, em oposição à “Ditadura da Razão”, são os valores explorados pelos românticos. A ironia e a melancolia caracterizam este estado de dúvida e de anseio, bem como a crítica distanciada da sociedade e o sonho de qualquer coisa nova.
O “Espírito Romântico”, como sonho e fantasia, baseia-se na inspiração fugaz dos momentos fortes da vida subjetiva, a fé, o sonho, a paixão, a intuição, a saudade, o sentimento da natureza e a força das lendas nacionais. Com o tempo e muito graças ao impacto do romantismo sobre a cultura do século XVIII, a expressão ganhou outra dimensão que chegou aos dias de hoje, embora restringindo-se, usualmente e vulgarmente, ao plano afetivo. O romântico é neste sentido o enamorado, o apaixonado, o sonhador ou o utópico. Perguntamo-nos, pois, o que é hoje “O Romantismo”, no sentido de se saber se alguém ainda pode ser considerado romântico neste século XXI.  
As primeiras manifestações de “O Romantismo” na música, que de certo modo é o que de momento me interessa considerar, apareceram segundo os especialistas com Beethoven, cujas Sinfonias, a partir da Terceira, revelam uma temática profundamente pessoal e interiorizada, tal como algumas de suas sonatas para piano.
Outros compositores como por exemplo, Chopin, Tchaikovsky, Mendelssohn, Liszt, Grieg, Brahms e Berlioz, levaram ainda mais longe o “Espírito Romântico” de Beethoven, abandonando o rigor formal do Classicismo para escreverem músicas mais de acordo com as emoções
Na ópera, os compositores mais notáveis foram o italiano L. Verdi e o alemão R. Wagner. O primeiro compôs óperas, plenas de conteúdo épico ou patriótico, como “Nabucco, “I Vespri Sicilianni”, “I Lombardi nella Prima Crociata, sem prejuízo de ter escrito também outras baseadas em histórias de amor, como “La Traviata”. Wagner foi à procura da mitologia germânica, como “O Anel do Nibelungo”, “Tristão e Isolda”, “O Holandês Voador”, ou sagas medievais como “Tannhäuser,Lohengrin” e “Parsifal. Mais tarde na Itália o romantismo na ópera assumirá mais expressão com Puccini.
Desde cedo, Hector Berlioz, nascido a 1803, identificou-se com o “O Romantismo” francês. Eram seus amigos, entre outros,  Alexandre Dumas, Victor Hugo e Balzac. Posteriormente, T. Gautier escreveria que “Hector Berlioz parece formar, juntamente com Victor Hugo e Delacroix, a Trindade da Arte Romântica”.
A morte de seu pai, levou-o a compor a ”Marcha Fúnebre para a última Ceia de Hamlet”(inserida na programação deste ano, que foi interpretada com sucesso pela Banda da GNR seguramente o expoente máximo deste tipo de agrupamentos musicais em Portugal ou mesmo na Europa e que continua a prosseguir o admirável objetivo de levar a cultura musical a todo o país) e a cujo concerto assisti e aqui destaco.
Sempre que ouço Berlioz, recordo-me (desculpem-me este aparte, eventualmente, deslocado) dos meus tempos no “Orfeon Académico de Coimbra”(com os maestros Raposo Marques e depois Joel Canhão) enquanto estudante universitário e, muito mais tarde já pai de filhos e Advogado em Alcobaça nos “Antigos Orfeonistas”, onde o “Amen”, da “Danação de Fausto”, era de certo modo o hino do nosso coro, que fazia a ponte entre as sucessivas gerações e encerrava com emoção, desde há muitas dezenas de anos, as atuações em público. Pergunto-me se teria Berlioz ofendido, escarnecendo, o sentimento religioso dos fiéis nessa passagem da Danação de Fausto?
Na verdade, não se pode dizer que seja um “amen” muito edificante, o cantado na peça pelos convivas duma taberna de Leipzig e por nós (coro masculino) com alegria, garra e certeza de sucesso.
Seja como for, é magistral o modo como, independentemente do enquadramento, esta área se vê impregnada de ironia, uma caricatura em “estilo fugado” onde, com minúcia, Berlioz exagera os contornos do contraponto tradicional, numa aparente cacofonia.
Caros leitores:

embora com menos meios “OS DIAS DA MÚSICA” são um marco importante no nosso meio cultural e recomendo vivamente que quem tiver oportunidade não perca a edição do próximo ano.

terça-feira, 23 de abril de 2013


AMULETOS, TALISMÂS E BOA SORTE!!!
Fleming de Oliveira

De acordo com certas culturas, ou mentalidades, a lisonja acarreta ou tem subjacente uma maldição. O mesmo se aplica à inveja. Desde tempos remotos, tais pragas, denominadas como mau olhado, partem da crença que um individuo pode causar male, simplesmente olhando (dardejando) para os bens de outra pessoa, senão mesmo nela própria. A proteção seria possível com talismãs ou amuletos usados, transportados ou pendurados muitas vezes nas casas. Ainda há, como creio que haverá sempre, pessoas que vivem a explorar, o que poderíamos caracterizar, linearmente, como “crendice popular”.
Com os progressos do cristianismo, desde logo a partir dos primeiros séculos, foi desencorajado o uso de amuletos, tidos como objectos pagãos. Porque muitos dos primeiros cristãos (recém convertidos mostravam o desejo de usar talismãs e amuletos), a Igreja fez esforço para divulgar novos objetos sagrados, como imagens de Jesus, Virgem Maria e Santos.
Os amuletos da sorte tem a “grande” função de proteger a pessoa a quem pertencem, da má sorte, perigo ou doença. A palavra amuleto parece provir do latim “amuletum”, isto é,  objecto usado para a defesa, ou do árabe “hamalet”que , por sua vez, significa o que está suspenso.
O escritor e filósofo romano, Plínio, o “Velho”, terá sido o primeiro a registar a existência de amuletos de sorte. Na sua obra “História Natural”, que remonta ao ano 79 dc, Plínio, menciona como categorias de amuletos, os que oferecem proteção contra a negatividade e a má sorte, os que contém substâncias profiláticas e ainda os que se destinam a serem usados como remédio.
Nos países banhados pelo Egeu, os indivíduos de olhos claros são considerados mais poderosos, e os amuletos na Grécia e Turquia são, geralmente, globos oculares azuis. Quando há uns anos estive na Turquia, a minha Mulher fez questão de trazer como mera recordação turística (o que fazia questão de ressalvar, para que não restassem dúvidas…) alguns destes amuletos, que colocou à  porta de casa e ofereceu aos filhos. O olho turco é um amuleto azul muito comum naquele país, sendo exportado para todo o mundo. Tradicionalmente é usado contra mau olhado. Na Turquia, segundo nos explicaram, as mães colocam o amuleto na roupa dos filhos, pelo que se é encontrado rachado, significa que funcionou e protegeu a criança. Ao carregar um “olho turco”, a energia negativa direcionada ao portador será atraída pelo amuleto, ainda que seja por meio de um elogio, já que os turcos acreditam que elogios podem revelar, inconscientemente, a inveja.
Bastante antigo, e ainda relativamente usual entre nós é a ferradura, um talismã com o poder de atrair o bem e expulsar o mal da casa que a tiver colocada. Para ter mais força ainda, deve ser aplicar-se atrás da porta de entrada. Diz-se ser eficaz para expulsar pessoas invejosas, além de atrair dinheiro e prosperidade.
Na verdade tem havido mudanças de formatos dos amuletos ao longo dos anos mas, mesmo assim, o seu poder permanece inalterado. Além de atrair sorte, os amuletos também servem para afastar a energia negativa. Alguns Portugueses, usam chifres ou símbolos fálicos destinados a “distrair” os lançadores de pragas ou os invejosos, ressalvando normalmente que não acreditam nisso, mas na dúvida…. Um conhecido meu, usava um “pé de coelho” no carro, e não era propriamente um “primário”. Porquê?, perguntei uma vez. Recorde-se que o coelho é considerado um símbolo de fertilidade, portanto, quem tiver um pé de coelho como amuleto, está a afastar as más energias que impedem a fertilidade, seja na vida, família, amor ou negócios.
Segundo se dizia em casa de meus Pais, quando nasci um tio deu-me uma pequenina figa em metal, mas que engoli para grande preocupação de minha Mãe, acabando por ser expelida pela “via natural”.
Quando andava a estudar em Coimbra, um colega de casa trazia sempre consigo um “trevo da sorte”, para o acompanhar no jogo e aconselhava que se alguém achar um trevo-de-quatro-folhas, guarde-o com todo o carinho até secar,“sabendo” que ele atrai muita sorte na hora de jogar. Mas caso não se consiga ter um de verdade, pode-se comprar um, desde que usado com a mesma fé.
Nestes tempos de crise, muito jeito nos faria um eficaz amuleto, trevo da sorte ou outro, não é verdade?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Governo do Entrudo (1842)



O GOVERNO DO “ENTRUDO” (1842)


Fleming de Oliveira
Caros leitores, já ouviram falar no “Governo do Entrudo”?
Não? Não me estou a referir ao Governo de Passos Coelho neste “Entrudo” de 2013, como antes acontecera com o “Entrudo” de Cavaco Silva nos anos 90, já que ambos quiseram governar em tempo de “Entrudo” e contra este.
Vou explicar. O jocosamente apelidado “Governo do Entrudo”, que sucedeu a um outro presidido por Joaquim António de Aguiar, teve (o ainda) Marquês de Palmela como Presidente do Conselho de Ministros (foi Duque, apenas, em 1850), acumulando com a pasta dos Negócios Estrangeiros, António Joaquim Vieira de Magalhães na pasta do Reino, Sá da Bandeira (Bernardo Sá Nogueira, General e ainda Visconde) na pasta da Guerra, António Aloísio Jervis de Atouguia (Visconde de Atouguia) na pasta da Marinha e Ultramar, Joaquim Filipe Soure na pasta dos Negócios Eclesiásticos e Justiça (grande amigo de Alexandre Herculano, com quem manteve bastante correspondência), Duque de Ávila na pasta da Fazenda, passou à História do século XIX, não pela importância da sua governação (que foi nula), mas pelo facto de ter durado apenas os 3 dias de 7 a 9 de Fevereiro de 1842, que coincidiram com o tempo de “Entrudo”.
Na minha Família, este foi todavia um acontecimento marcante, pois o meu Trisavó, Joaquim Francisco Miller de Oliveira, “tripeiro” assumido, mas a viver em Campo de Ourique, Lisboa, chegou a fazer parte dele, dadas as excelentes relações com António Joaquim Vieira de Magalhães (conterrâneos, correlegionários, seu “braço direito” e suponho que compadres, embora depois se tenham incompatibilizado), quando este assumiu as referidas funções de Ministro do Reino. Um parêntesis para recordar este político. António Joaquim Vieira de Magalhães, foi o primeiro e único Barão e Conde de Magalhães. Tendo nascido no Porto, a 22 de Junho de 1822, faleceu em Cascais, a 9 de Setembro de 1903. Desempenhou, entre outros, o cargo de Ministro dos Negócios da Fazenda, em 1870.
Filho de António Vieira de Magalhães, 1º Barão e Visconde de Alpendurada, e de Margarida Albina de Pereira de Melo, casou-se em 29 de Julho, de 1857, com Antónia Maria d'Orta (para o qual já não foi convidado “o avô Oliveira”), com quem teve três filhas:
D. Margarida d'Orta Vieira de Magalhães (nasc. 1859-fal.1937), casada com José Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais Amaral, 2º Visconde de Taveiro e 1º conde de Santar;
D. Maria Antónia d' Orta Vieira de Magalhães (nasc.1878-falecida em 1975 na Galiza, onde residia), casada com Juan Nepumoceno Jordan de Urries y Mendez, de Vigo, 7º Marquês de Lierta; e,
D. (?), cujos elementos não apurei.
Recebeu o Baronato, por decreto de 13 de Maio de 1854, de D. Pedro V, e o Viscondado, por decreto de 24 de Maio de 1870, de D. Luís.
Ainda me recordo que, sendo garotinho, em casa de meus Avós paternos, no Porto, quando se queria aludir depreciativamente a um acontecimento frustrado, facto de efémera duração ou mesmo caricato, dizia-se cinicamente que “nem o governo do avô Oliveira”. Este meu antepassado, aos olhos da muito expectante família (nunca houvera quem subisse tão “alto”), não ficou nada prestigiado por ter participado, num governo que ninguém levou a sério, tão efémero, falhado e carnavalesco que foi.
Quando no princípio de 1842 Costa Cabral, que fazia parte do governo de Joaquim António de Aguiar em exercício, nos termos da Constituição de 1838, se deslocou ao Porto, alegadamente por meras razões pessoais, mas objetivamente para proclamar a restauração da Carta, houve um momento em que a rainha D. Maria II “fingiu” que desejava resistir à insurreição, pelo que encarregou de formar governo no dia 7 de Fevereiro do 1842, o (então) Marquês de Palmela. Foi este o Ministério, que ficou conhecido, como comecei por dizer, pelo nome de “Governo do Entrudo”, substituído logo no dia 9 por outro presidido do Duque da Terceira, que reservou um lugar para o poderoso Costa Cabral. A Carta estava restaurada!
A Carta Constitucional esteve em vigor durante 3 períodos distintos:
O primeiro, desde Abril de 1826, quando foi outorgada, até Maio de 1828, aclamação de D. Miguel como Rei, que convocou os três Estados do Reino e decretaram nula a Carta Constitucional;
O segundo período, desde Agosto de 1834, D. Miguel foi expulso de Portugal, até à Revolução de Setembro de 1836, com a restauração provisória da “Constituição Política da Monarquia Portuguesa de 1822” (proclamada de novo a Constituição de 1822 até se elaborar nova Constituição, o que sucedeu em 1838). Note-se que já em Junho de 1837, os Marchais Saldanha e Terceira, haviam tentado restaurar a Carta de 1826, com a chamada “Revolta dos Marchais’’ (X), mas a tentativa falhou, resultando apenas a continuação da perturbação do País e o exílio (por algum tempo) dos líderes do golpe.
Agora, em 1842 era a vez de Costa Cabral, aliás um dos pilares da Revolução de Setembro, tentar a sua sorte. Chegado ao Porto a 17 de Janeiro de 1842, logo no dia 19 foi saudado com a aclamação da Carta Constitucional. Preparando para 27 desse mês a sublevação “cartista”, assumiu-se nesse dia como chefe político do pronunciamento militar, organizou a Junta do Governo com a participação do Barão da Ponte de Santa Maria (António Vicente de Queiroz), Marcelino Máximo de Azevedo e Melo (1º de Visconde Oliveira do Douro) e António Pereira dos Reis (futuro Presidente da Câmara de Deputados), todos ligados à Maçonaria, e preparou-se para marchar sobre Lisboa.
Em Lisboa ainda se fizeram algumas inócuas tentativas para resistir ao pronunciamento de Cabral (reunião de Senadores em casa de Palmela e de Deputados em casa de Atouguia, protestando contra a restauração da Carta),  o governo foi remodelado, sendo Joaquim António de Aguiar (Mata-Frades) substituído na Presidência do Ministério, pelo futuro Duque de Palmela. Mas sendo fraca, se não nula a resistência, o governo empossado no Entrudo a 7 de Fevereiro de 1842, caiu ao seu terceiro dia, a 9 de Fevereiro.
Estando a Rainha conivente com o golpe, e tendo a 8 de Fevereiro a guarnição do Castelo de São Jorge saudado a Carta, a que se seguiu um motim popular, de teor “cartista”, o êxito do golpe foi inevitável. A 10 de Fevereiro foi publicado o Decreto Real que restaurava a Carta Constitucional, a 19 desembarcou Costa Cabral em Lisboa no meio de uma receção apoteótica e a 24 iniciou, de facto, a sua governação, nomeado Ministro do Reino num Executivo presidido pelo Duque da Terceira. Estava instalado o “cabralismo” que durou até 20 de Maio de 1846, quando a Rainha demitiu Cabral, que se exilou em Madrid.
O terceiro e último período de vigência da Carta Constitucional, ocorreu entre Janeiro de 1842, pronunciamento de Costa Cabral, e 5 de Outubro de 1910 (implantação da República), embora com algumas alterações (três revisões profundas, em 1852, 1885 e 1896).
(X)-Veja-se, a propósito, o meu apontamento JOSÉ DO TELHADO, A REVOLTA DOS MARCHAIS, O COMBATE DE CHÃO DA FEIRA (e o Acordo de Alcobaça).



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


A “INSTITUIÇÃO DA FELICIDADE
FLeming de OLiveira

Nestes tempos que correm, o casal (para mim, continuo a considerar apenas o caso de um homem e uma mulher…) parece ser a prova do mérito da “instituição da felicidade”, que todavia corre o risco de ser o centro de frustradas importantes expectativas. O facto de em Portugal ocorrerem de facto cada vez mais divórcios (embora isso não seja refletido corretamente em termos jurídico-estatísticos, circunstância a que a crise não tem sido alheia), é, na minha opinião, a sua demostração.
O divórcio não quer dizer que haja desinteresse pelo casal, pelo contrário, prova que o casamento é tão importante, que não é possível viver num casal, quando o (casal) deixa de ser gratificante. Cada casal, deve por conseguinte, cumprir uma missão muito importante, assegurar a felicidade de cada um dos seus membros, traduzindo-se esta em termos de harmonia sentimental, dinheiro, sexo, tempos livres, educação dos filhos, o tratamento dos ascendentes, etc., e tudo, porventura, por muitos anos.
Esta “instituição da felicidade”, prevê que os conflitos possam ser geridos com recurso à negociação e compromissos, em longas e empenhadas conversações.
O que fazer dos conflitos que ficam por resolver? Será que um casal pode tolerar a existência destes conflitos e com que intensidade? Caso eles sejam considerados demasiado intensos, será que é possível considerar uma coabitação sem paixão?
Estes conflitos abrem brechas na “instituição da felicidade” e obrigam cada cônjuge a relativizar a imagem ideal que tinha sido construída.
Para além disto, e este facto parece-me novo, o compromisso do casamento parece estar a comportar uma nova e tácita cláusula: ”Nós viveremos enquanto nos pudermos entender e manter uma relação interessante”. O antigo e enunciado propósito “casar para o melhor e para o pior até que a morte nos separe”, pode vir a ser o moderno “casar e separar para evitarmos o pior”.
O facto de o casal se separar antes que a relação o faça sofrer intoleravelmente, pode vir a ser uma prova de sinceridade, de repeito que um nutre pelo outro, que talvez venha a permitir conservar uma relação satisfatória após a separação.
Lirismo, Utopia, dirão os leitores. Nunca me propus ser conselheiro matrimonial (no meu escritório ou na Paróquia), muito menos é o objetivo (discreto) destas notas sociológicas, que nas considerações que partilho com os leitores, pressupõem uma perspetiva conservadora (intemporal), sem prejuízo de não esquecerem que a nossa sociedade portuguesa está em mutação impossível de contrariar.
Os conflitos, as incompreensões, as divergências profundas, obrigam cada um a realizar um trabalho de transformação do mito do casal que, por vezes, necessita de uma “intervenção terapêutica” altamente complexa  e por isso de risco, e que, verdade seja dita, não me sento habilitado a efetuar.

AS FOTOGRAFIAS E A MEMÓRIA (I)

FLeming de OLiveira
Quando se começa um álbum (à moda antiga), podem inserir-se as fotografias sem distinção, fazer-se a escolha segundo o tema, o grau de sucesso, a originalidade ou qualquer outro critério. Se forem pessoas diferentes a fotografar e a construir o álbum, talvez cada uma decida a classificação a seu modo. Algumas famílias, não reúnem as fotografias num álbum, optando antes pela “caixa das fotografias” (como acontecia em casa de meus Pais), verdadeiro e valioso baú de recordações e que, de vez em quando, dão lugar a (re)descobertas emocionantes. Algumas, por outro lado, dão especial importância, não só às fotografias, mas também aos “álbuns de família”. Recordo-me de famílias, muito tradicionais, que tinham álbuns “cor-de-rosa” para as meninas, “azuis” para os meninos, “álbuns de férias”, “álbuns das festas”, a par de “álbuns dos antepassados”, sempre vestígios visuais de um tempo (bom ou menos bom), que eram “relíquias” religiosamente conservadas, protegidas no fundo de um armário para serem transmitidas. Tratavam-se de fotografias convencionais, como as de bébé, de primeira comunhão, de casamento, batizado ou festas, para as quais se fazia, com cuidado, poses de não sorrir demasiado, para que ficasse uma impressão de seriedade e de dignidade para os vindouros. Mas os “álbuns de fotografias” estão a cair em desuso, perante as fotos digitais.
A fotografia, recorde-se, é uma técnica relativamente recente, data do segundo quartel do século XIX, mas que apenas ficou disponível a toda a gente no decurso de século XX. Esta descoberta causou sensação, uma vez que tornou possível reter o momento e torná-lo  memorável, revivendo-se momentos importantes, através de um testemunho guardado através de uma indesmentível prova visual. Deste modo, não se suscitavam dúvidas que tais momentos tinham sido importantes, belos e bem passados, cabendo à tradição oral dar vida e “cor” às fotografias. Se hoje em dia, toda a gente tem uma máquina fotográfica, nem por isso a noção de escolha da fotografia, deixou de estar presente. No meu caso, fotógrafo incipiente, gosto de escolher o momento, o motivo, bem como a ocasião para mostrar ou oferecer a fotografia a familiares ou amigos (neste aspeto a minha Mulher Ana é especialmente atenta, pois trás sempre na carteira as dos netos…).
No ciclo de vida de uma família, a questão da posse das fotografias coloca-se muitas vezes a um nível que transcende a geração dos pais. Quando deixei a casa de meus Pais, levei alguns objetos úteis ou importantes sob um ponto de vista afetivo, após uma negociação mais ou menos fácil com os outros membros da casa (só meus irmãos eram mais sete).

Mas verdade seja dita, as minhas fotos de infância não estavam nas primeiras malas que então “fechei”. Essa importância foi-lhes conferida, no momento em que apareceram os meus Filhos (a Raquel, a Paula e o Miguel), a nova geração. E assim, mesmo que tenha mostrado as fotos muitas vezes à minha Mulher, só percebi que me tornei seu verdadeiro proprietário, no momento em que Ela e eu nos vimos como pais. Por conseguinte, a geração dos meus filhos e depois a geração dos filhos destes, representam, de algum modo, os legatários privilegiados dessa minha herança.
Também há o caso de um membro da família que leva, um álbum completo que pensa pertencer-lhe por “direito”, outro que levará apenas algumas fotografias de diferentes páginas, transformando-as numa desordem, enquanto um outro ainda, tentará encontrar os respetivos “negativos” (isto era no tempo anterior à era digital) para o refazer. Não esqueço o caso daquela família que constituiu álbuns personalizados para cada criança, com o objetivo de prevenir um dia conflitos de “território”, embora desconheça se isso resultou eficazmente. Neste caso, interrogo-me quanto a saber se são estas “fragmentadas” recordações que a criança tornada adulta, desejará um dia levar consigo.
Qualquer que seja o modo de proceder, possivelmente provocará reação na geração de origem, dependendo em último termo do modo como se vai sentir ao ficar sem aquele bem a que afinal (sem que verdadeiramente anteriormente se tivesse apercebido) dá tanto mais importância, quanto o significado afetivo das fotos. Sendo assim, nem sempre é possível encontrar uma solução pacífica (por duas vezes casos deste tipo chegaram-me ao escritório, e a solução encontrada não satisfez ninguém) para este conflito. Ora bem, caros leitores, não é para vós um dos objetivos da fotografia assegurar a transmissão visual de uma vivência?
Pode tudo isto ter uma importância especial no caso das famílias “reconstituídas”, independentemente da causa subjacente (morte ou divórcio). Aqui, o destino das fotografias é pertinente, principalmente em dois momentos, na separação e depois na “reconstituição” familiar.
Qual o lugar das fotografias após uma “dissolução” familiar? Ao contrário dos bens materiais que podem ser liquidados ou destinados sem demasiadas dificuldades, os “álbuns de fotografias” contêm lembranças, testemunhos repletos de emoção de uma família que se desfaz, um laço conjugal que se rompe, importante para a sua história que se pode tentar esquecer em alguns casos, mas nunca apagar. Foi neste contexto que, os casos referidos, me apareceram em termos profissionais. Por vezes os ex-cônjuges surpreendem-se com a intensidade dos sentimentos que experimentaram de tristeza e/ou de depressão. Assim se compreende bem como o futuro dessas fotografias corre o risco de suscitar fortes comoções, tanto nos familiares, adultos ou crianças, pois pertencem, pertenciam, à família, não são propriedade de um ou de outro dos seus membros., que por isso lutam por elas.
Poderia pensar-se, que seria fácil dividi-las criteriosamente, esquecendo o significado afetivo. Mas de acordo com que critério? A quem pertence uma fotografia? Ao fotógrafo? Ao que está presente na fotografia? A ambos? Não, não é pssível.
Qual é o lugar das pessoas numa fotografia quando ocorre uma “reconstituição” familiar? Por vezes há situações embaraçosas. Quando se realizam “festas de família”, nota-se por vezes a existência de um personagem com uma função importante, o fotógrafo, pago para registar o evento. Recordo um casamento, cujos noivos vinham de anteriores casamentos. O fotógrafo “oficial” percorria as salas anunciando, pleno de boa vontade: “Podem ir para o jardim para a foto de família?” Notei que os grupos, onde me incluia num, estavam indecisos, como se não soubessem bem, de que família se tratava. Não caros leitores, esta não é uma anedota, mas uma situação que revela a incerteza partilhada, quanto aos limites e definição das famílias “reconstituídas”.
De facto, por ocasião de uma festa, as fotografias destinadas a guardar a recordação, irão testemunhar a presença ou ausência de certos membros e a sua justificação irá contribuir na definição do sistema familiar de momento.
A utilização de “álbuns de família” poderá constituir um interessante elemento para traçar a evolução das diferentes estruturas familiares e criar novos laços após separações. Numa próxima oportunidade voltaremos a abordar esta questão.