quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

-FESTAS, ROMARIAS E UM PAR DE BANDARILHAS EM ALCOBAÇA EM VÉSPERAS DA REPÚBLICA-



 -FESTAS, ROMARIAS E UM PAR DE BANDARILHAS EM ALCOBAÇA EM VÉSPERAS DA REPÚBLICA-

Fleming de Oliveira


Os interesses da generalidade dos alcobacenses não se reduziam, naturalmente, aos assuntos da grande ou pequena política ou à contestação ao regime monárquico. As feiras, romarias, touradas, circos, concertos da Banda e outros divertimentos ocupavam um espaço importante, nos parâmetros das disponibilidades populares, que eram bem diversas de uma família para outra.
Em Agosto de 1909, havia grande entusiasmo pela realização de uma corrida de touros, a realizar na praça da Vila, e na qual um aficionado da Golegã irá montar um dos cornúpetos. Contrariamente ao que seria de esperar, pois não fora anunciado, e para satisfazer vários pedidos de amigos e admiradores, o vereador a cavaleiro Vitorino Froes, também participou nesta corrida de touros, sendo muito aplaudido.
Outro atrativo irresistível (pelo menos assim se anunciava nos cartazes distribuídos pela Vila), era a presença do famoso Monas, que irá lidar com bandarilhas alguns dos bichos propostos ao castigo dos arrojados turistas. Não deixava de ser um chamariz, o acessível preço das entradas, 240 reis para o sol e 160 reis para a sombra, bem como de 1$000 reis para os camarotes. 
As touradas constituíram um divertimento muito usual e apreciado na Vila de Alcobaça enquanto houve Praça de Touros, ao qual compareciam famílias.
Em Agosto de 1922, realizou-se na Praça de Touros de Alcobaça com muito público, entre o qual se distinguiam bastantes senhoras e cavalheiros que vieram da Nazaré, uma vacada com dez animais  de um ganadeiro de Almeirim, na qual tomaram parte amadores da vila de Alcobaça e de Torres Novas. Antes do início do espetáculo, houve alguma confusão entre o público, pois a organização não assegurou o respeito pela marcação dos lugares, especialmente os da sombra.
As vacas, embora mal tratadas (uma deles parecia sofrer de uma pata), permitiram um aceitável trabalho por parte dos amadores da lide apeada, o que já não aconteceu com o trabalho do cavaleiro  Roberto Cunha, porque as vacas que lhe saíram, não se prestavam para a lide a cavalo e fugiam prontamente. Isto motivou protestos do público e do cavaleiro, que anunciou depois de espetáculo, numa taberna da Vila onde se reuniu com uns amigos que o quiseram obsequiar com um lanche, que não voltava a tourear em Alcobaça, se as vacas não fossem previamente sorteadas.
Por sua vez, o cavaleiro amador Arnaldo Valério, de Torres Novas, teve azar, pois a sua montada nervosa tal como o cavaleiro, chocou com uma vaca, caiu sobre ela e matou-a, a qual veio a ser adquirida por José Pereira da Silva Rino (que estava presente na Praça), para distribuir a carne pelo Hospital, Asilo de Infância Desvalida e vários pobres indicados pelo regedor.
Os bandarilheiros que vieram da Benedita, bastante novos e com pouca prática, mostraram apenas que eram valentes, o que lhes valeu simpatia do público, enquanto que os de fora, também amadores, agradaram e receberam ovação. Dos forcados de Torres Novas, salientaram-se quatro, pois os restantes apesar da vontade de fazer boa figura, não o conseguiram, tendo um deles ficado ferido no rosto e numa clavícula, embora sem grande gravidade. Assistido no Hospital, teve alta antes do jantar, a tempo de ir confraternizar com amigos e admiradores.
No mês seguinte, realizou-se outra corrida de touros, tendo como cabeça de cartaz o amador caldense, António Emílio Geraldes Quelhas, que envergava uma vistosa casaca à portuguesa. A Comissão que explorava a Praça de Touros de Alcobaça, tornou público a devido tempo através da imprensa e cartazes afixados na Praça, no escritório de Manuel Carolino e estabelecimento de Abílio da Silva Ramalho, onde se vendiam os bilhetes de ingresso que, desta vez, garantia os lugares, de modo a evitar abusos e que os compradores de bilhetes de sol, não fossem para a sombra.
Esteve animada e concorrida a feira anual de S. Simão, para que contribuiu o esplêndido soalheiro tempo de Novembro, embora frio. Fizeram-se importantes transações, tanto em gado, como em diversos artigos de comércio como louças. Vendeu-se grande quantidade de castanha e frutos secos. No Rossio, achava-se montada uma barraca de fantoches proveniente de Leiria, que deve ter feito bom negócio, especialmente pela afluência da pequenada. A vacada, deixou satisfeitos os aficionados do costume. Enfim, foi uma feira cheia, muito do agrado dos alcobacenses, onde não faltou a endiabrada batota à custa de incautos, apesar de atenta vigilância policial.

-O REGICÍDIO E SEUS REFLEXOS EM ALCOBAÇA-



-O REGICÍDIO E SEUS REFLEXOS EM ALCOBAÇA-


Fleming de Oliveira

A família real encontrava-se em Vila Viçosa, mas os acontecimentos políticos levaram o Rei a antecipar o regresso a Lisboa. A comitiva régia chegou de comboio ao Barreiro ao final da tarde, para depois tomar o barco, desembarcando no Terreiro do Paço, por volta das 17 horas. Apesar do clima de enorme tensão, o Rei optou por se deslocar em carruagem aberta, com reduzida escolta, com o objetivo de demonstrar normalidade. O Rei aparecia na rua de vez em quando. Descobriam-se algumas cabeças, o povo chegava-se para lançar uns olhares, mas lançavam-se nas gazetas e nas Cortes todo o tipo de diatribes. Enquanto a família real saudava os populares, a carruagem foi atingida por vários disparos. Um tiro de carabina atravessou o pescoço do Rei, que morreu imediatamente. Seguiram-se mais disparos, sendo que o Príncipe D. Luís Filipe ainda alvejou um dos atacantes, antes de ser atingido mortalmente. D. Amélia, de pé, defendia-se com um ramo de flores que lhe fora oferecido pouco antes, fustigando um dos atacantes, que subira o estribo da carruagem, gritando Infames! Infames!, numa imagem que correu mundo e ficou marcada para a História. O Infante D. Manuel foi também atingido num braço. Dois dos regicidas,  Manuel BuíçaAlfredo Costa, foram mortos no local. Este, empregado do comércio, editor e jornalista, membro da Carbonária e maçon, estivera implicado já no falhado Golpe do Elevador e apesar da participação nessa iniciativa, continuava a andar livremente por Lisboa. Diz-se que afirmou, afagando a pistola que trazia na algibeira, num encontro que teve depois da Janeirada com Machado Santos e Soares Andrea, no Café Gelo que, se algum bufo me deita a unha, queimo-lhe os miolos. A carruagem entrou no Arsenal da Marinha, onde se verificou o óbito do Rei e do herdeiro ao trono. D. Carlos e o filho foram sepultados no Panteão Nacional e nos respetivos mausoléus lançou-se terra de Vila Viçosa.
De seu nome completo, foi Manuel dos Reis da Silva Buíça quem alvejou de forma mortal D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe. Homem de caráter expansivo e exaltado, não mantinha muitas ligações exteriores ao seu círculo profissional e frequentava, com Alfredo Costa e Aquilino Ribeiro o Café Gelo, no Rossio.
-REFLEXOS EM ALCOBAÇA-
A notícia do atentado começou a circular em Alcobaça, apenas na manhã do dia seguinte/Domingo 2 de Fevereiro, trazida por pessoas que chegavam de fora. Acolhida a princípio com as dúvidas, em breve pelas comunicações telegráficas foi-se adquirindo a certeza de terem sido assassinados a tiro o Rei e o Príncipe Herdeiro.
Era enorme a curiosidade em saber pormenores do acontecimento, pelo que quando chegaram os jornais de Lisboa na carreira do Valado de Frades, foram insuficientes para contentar as pessoas que os aguardavam numa numerosa fila, lendo-os depois sofregamente e nalguns casos até os revendendo.
Durante o dia, não se falou noutra coisa na rua (era domingo e os barbeiros estavam fechados), aguardando com impaciência os republicanos mais comprometidos que se reuniam no Centro Republicano, os desenvolvimentos políticos, o que era espicaçado por fantasiosos boatos, rapidamente desmentidos. Houve mesmo quem assegurasse saber da presença de uma esquadra inglesa de três navios, fundeada no Rio Tejo, para assegurar eventuais motins populares. A este boato, que não correu apenas em Alcobaça, responderam alguns telegramas de Londres e Paris publicados nos jornais de Lisboa no dia 4, e nos quais foi expressamente desmentido.
Na segunda-feira, estiveram encerradas a Recebedoria e Tribunal e outras repartições do Estado, hasteada a meio pau a Bandeira Nacional na Porta de Armas do Quartel e no edifício da Câmara Municipal. Várias pessoas vestiram de luto, os sinos da Igreja da Conceição, Igreja Nova, Igreja de Santo António ou Igreja da Misericórdia e do Mosteiro, dobraram a finados várias vezes por dia, e na Câmara foi aberto um Livro de Condolências, assinado por populares. Disse-se que houve mesmo dois republicanos (o que não conseguimos comprovar por falta de registos) que o assinaram.
Uma fonte de meados do século XVIII, refere 1520 como sendo o ano da construção da Igreja da Misericórdia, na presença do Rei D. Manuel I e Mulher, de visita a Alcobaça. Em 1563, foi quase totalmente destruída por um tremor de terra, o que obrigou a refaze-la. Após os incêndios em 1632 e 1659, as obras de reconstrução vieram conferir-lhe o aspeto clássico, sem qualquer resto de traça manuelina. Inicialmente, a Igreja reduzia-se à atual nave, erguendo-se o Altar-mor e o seu retábulo contra a parede ocidental. Só no início do século XVIII foi aberto o arco triunfal e edificada a Capela-mor, concluída em 1712. Uma tela abalaustrada, em forma de U, delimita o espaço antigamente reservado aos celebrantes e aos membros da Confraria. Do lado do Evangelho, tomavam assento os irmãos nobres, da parte da Epístola, os irmãos oficiais, isto é, homens de ofícios, também chamados mecânicos, por exercerem profissões manuais. A Capela-mor é inteiramente forrada de azulejos azuis e brancos, colocados em dois níveis. Da parte do Evangelho, em baixo, existe cena de vida eremítica, e ao alto, a Visitação de Nª. Senhora a sua prima Stª. Isabel. Da parte da Epístola, em baixo, existe outra cena eremítica, e ao alto, Anunciação à Virgem pelo Arcanjo Gabriel. A Comissão Administrativa da Câmara deliberou na sessão extraordinária de 4 do corrente pedir ao Dr. Adolfo Guimarães, amigo pessoal do Presidente e de Vitorino Froes, que a representasse nos funerais de Lisboa. O Pe. Ribeiro d’Abranches, Pároco de Alcobaça, celebrou uma missa na Igreja do Mosteiro, sufragando a alma de D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, tendo convidado para o acto diversas corporações e entidades civis e militares que compareceram, tal como alunos de ambos os sexos da escola oficial. Entre a assistência destacava-se o Comandante do Regº. Artª. 2, aquartelado no Mosteiro, que ocupava a primeira fila, o qual envergava fato de gala e se encontrava acompanhado pela oficialidade e algumas praças. O Pe. Augusto Adelino de Miranda, capelão do Regimento, fez ao Evangelho uma alocução apropriada à cerimónia.
-CONDOLÊNCIAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE ALCOBAÇA-
Na mesma sessão, foi ainda deliberado enviar ao camarista de serviço de D. Manuel, o seguinte telegrama: Muito rogo a V. Ex.ª se digne fazer constar em nome da comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcobaça, a profunda mágoa que lhe causou o inqualificável atentado de que foram vítimas sua Augusto Pai e infeliz irmão e que em nome dos povos deste Concelho se protesta contra tal procedimento, ao que aquele respondeu, dando parte que o novo Rei agradecia as condolências enviadas.
-DEPOIS DA TRAGÉDIA-
A Alcobaça republicana, embora não tenha aplaudido o regicídio com garrafas de champanhe ou palmas, também não o repudiou expressamente. A sua postura, exprimindo o sentimento republicano mais radical, aliás bem expressa no Semana Alcobacense, decorria do sentimento que foi estranho e trágico o epílogo da triste aventura, que à História de Portugal, passou com o nome de Franquismo.
Isto era apregoado franca e pública pelos republicanos nas ruas, farmácias ou Centro, num momento em que a sensação agora de alívio como diziam, lhes dava a impressão de acordar de um horroroso e agitado pesadelo, onde não era oprimir, censurar, mentir, perseguir, vexar e ludibriar que se governa o povo Português. No seu discurso de massas, embora se queixassem da falta de liberdade e da censura, os republicanos usavam uma linguagem e uma imprensa onde parecia não haver freios, como era o caso de o Semana Alcobacense.




-D. CARLOS, LUIS XVI,AFONSO COSTA E ALCOBAÇA-




-D. CARLOS, LUIS XVI,AFONSO COSTA E ALCOBAÇA-

Fleming de Oliveira


O Deputado Afonso Costa virou-se para João Franco e disse implacavelmente e sem tremer a voz: O Senhor Presidente do Conselho é mandatário do País e os membros do Parlamento, como representantes da nação são seus mandantes. S. Eª, como administrador ou procurador nosso, tem o dever de trazer à Câmara as contas dos adiantamentos feitos a eles. A Nação ordena, e declarara indispensável, que essas pessoas reponham as quantias desviadas com todos os juros sem exceção de uma só verba; declara formalmente que não consentirá no aumento da lista civil, nem em qualquer regularização, nem em outro modo acomodatício de pagamento. E mais ordena do Povo, solenemente, que logo que tudo esteja pago, diga o Senhor Presidente do Conselho ao Rei: Retire-se senhor, saia do País, para não ter que entrar numa prisão em nome da lei .
Das galerias, soaram fortes aplausos, que a Mesa não conseguiu dominar. E Afonso Costa prosseguiu: Por muito menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI .
Novamente soou a campainha, Ordem! Ordem, e Tomás Pizarro de Mello Sampaio (de nome completo, deputado pelo Partido Regenerador-Liberal, de João Franco, havia assumido a Presidência da Câmara dos Deputados, entre 1906 e 1908), declarou que ou o senhor Afonso Costa retira a frase ou tenho de lhe aplicar o Regimento.
Afonso Costa, repisou a injúria no mesmo tom, sobrepondo-se ao tumulto que criara: Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI.
O tumulto aumentou nas galerias, que os contínuos queriam esvaziar. Os deputados republicanos gritavam que era ilegal mandar sair o público, encontrando-se a sessão aberta e não se deviam suspender os trabalhos. Mais uma vez a voz de Afonso Costa fazia-se ouvir acima de qualquer outra:
-Eu respondo pelos meus actos!
-V.Exª não pode falar… Convido-o a retirar-se do edifício das Cortes.
Afonso Costa bradava:Havemos de sair todos! Hão de prender-nos a todos! Esta a liberdade do governo e a liberdade da monarquia.
-Em virtude da resistência do senhor Afonso Costa à intimação que lhe faço, em nome da Câmara, vou mandar entrar a força armada.
Quando os soldados entraram na sala, num gesto largo e teatral, Afonso Costa ao ser arrastado para o exterior, virou-se para eles de braços abertos e gritou: Soldados, não tendes o direito de tocar num representante do povo. E acrescentou: Soldados! Com a minha voz e as vossas armas baionetas, vamos proclamar a República, vamos fazer uma Pátria nova.
Dirigindo-se a João Franco e enquanto partia entre os soldados, Costa gritava de punho erguido: Esta é a sua liberdade!
O Deputado António José de Almeida, ainda tentou convencer os militares (que apelidava de Filhos do Povo), a proclamarem nesse momento a República. Este e outros incidentes, difundidos e ampliados pelos republicanos, levaram a agitação a muitos pontos do País. Em Alcobaça, tudo em que participava António José de Almeida era seguido com atenção. Nas Cortes, Afonso Costa e Alexandre Braga, foram julgados e condenados por ofensas ao Rei na suspensão dos direitos parlamentares por 30 dias.
-ECOS DO INCIDENTE EM ALCOBAÇA-
Em 3 de Julho de 1907, Câmara Municipal protestou contra o estado da administração pública decorrente da ditadura franquista, para o que enviou a Lisboa, uma delegação com dois de seus membros, para pedir o regresso à normalidade constitucional, a qual foi acolhida com uma certa indiferença pelo secretário do ministro que a recebeu. O Presidente da Câmara, em 30 de Dezembro de 1907 anunciou que, em obediência a ordens superiores, abandonava, tal como os vereadores, a gestão da Câmara, em protesto contra a violação constitucional e leis regulares do país, fazendo entregar a administração municipal a uma entidade que não foi eleita pelos munícipes, como decorria da Carta.
A notícia do acontecimento nas Cortes com Afonso Costa, chegou a Alcobaça no dia seguinte, trazida de Lisboa por Américo d’Oliveira, tendo sido recebida com cautela, dados os inusitados termos, e possíveis efeitos. Todavia, quando na sexta-feira retomaram os seus lugares nas Cortes (não esperaram 30 dias), os Deputados Afonso Costa e Alexandre Braga, foi expedido para Lisboa o telegrama de solidariedade:
Drs. Afonso Costa e Alexandre Braga, câmara dos deputados – Lisboa.
Republicanos de Alcobaça saúdam os seus deputados e, confiando que eles continuarão a servir o país e a honrar o seu mandato como até aqui, esperam que se não repetirá a injusta violência de que foram vítimas, e nós com eles.
(a) Raposo de Magalhães

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

D. MIGUEL II(PROSCRITO) VISITA ALCOBAÇA


D. MIGUEL II(PROSCRITO) VISITA ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira


-O PROSCRITO D. MIGUEL II (neto de D. Miguel I), VISITA ALCOBAÇA-
Em Janeiro de 1901, proveniente de Caldas da Rainha, veio de trem  e com um pequeno séquito de quatro pessoas, visitar Alcobaça o príncipe D. Miguel II, neto de D. Miguel I. Este, havia falecido a 26 de Outubro de 1866, sem não mais ter podido voltar a Portugal desde que foi exilado, com essa expressa cominação. D. Miguel I deveria abandonar a Península Ibérica,  dentro do período de quinze dias subsequente à assinatura da Convenção de Évoramonte, a bordo de um navio estrangeiro, devendo ainda assinar uma declaração pela qual se comprometia a jamais regressar a território português, metropolitano ou colonial, nem a intervir nos seus negócios políticos ou, de qualquer outra forma, contribuir para desestabilizar o País. Em 1967, foi porém sepultado no Panteão Nacional de S. Vicente de Fora. A 19 Dezembro de 1834, pela Lei do Banimento, D. Maria II declarou proscritos “para sempre “, D. Miguel I e descendentes, sob pena de morte (24-cfr. o nosso No Tempo de Mata Frades, Visconde de Seabra e Outros). Após a proclamação da República, a Lei de 15 de Outubro de 1910 estendeu este exílio a todos os ramos da Casa Real. Em 27 de Maio de 1950, a Assembleia Nacional revogou as duas leis de exílio pelo que, D. Duarte Nuno de Bragança, chefe da Casa Real, pode regressar a Portugal.
Como os jornais de Lisboa houvessem noticiado a ida de D. Miguel II para Espanha, a notícia da sua estada em Alcobaça causou surpresa e foi recebida com alguma incredulidade tanto por conservadores como republicanos. O príncipe, que aliás falava mal português, e os quatro acompanhantes chegaram de carro, pela três da tarde, dirigindo-se à Igreja da Mosteiro, por onde andaram algum tempo, visitando de seguida o quartel. Possivelmente por força da sua condição de exilado/proscrito, D. Miguel II furtou-se à curiosidade dos populares, sendo apenas visto de perto por alguns na ocasião em que se dirigia ao trem, para se ir embora, rumo a Leiria.

Manuel Vieira Natividade, acima de quaisquer preconceitos ou picardias, ofereceu-lhe um exemplar do seu “Mosteiro de Alcobaça”, que fez chegar, discretamente em mão, através do filho António. 

O MAPA COR DE ROSA E ALCOBAÇA






O MAPA COR DE ROSA
E
ALCOBAÇA

Fleming de OLiveira



-O DIREITO HISTÓRICO VS. OCUPAÇÃO EFETIVA-
Militares, cientistas, comerciantes, caçadores, aventureiros ou missionários católicos, penetravam no sertão africano por proselitismo, em busca de fortuna ou glória.
Invocando um Direito Histórico, decorrente da primazia da  ocupação, Portugal reivindicava vastas áreas, embora em nalguns casos, apenas dominasse feitorias em estreitas faixas costeiras e respetivos arredores. Em Moçambique, o território que Portugal ocupava era substancialmente inferior ao de Angola. Na Guiné, a presença portuguesa resumia-se, quase, ao litoral. A partir de 1870, com o Congresso de Berlim, vingou a tese que o Direito Histórico não seria suficiente e que a presença portuguesa impunha o alargamento rumo ao interior das possessões ultramarinas reclamadas.
Ao longo dos anos, houve várias razões para a diminuta presença portuguesa em África, a que não era estranho a importância relativa do Brasil, a resistência das populações locais e a inclemência do clima onde, afinal, os ganhos e empregos pareciam ser pouco aliciantes. As distribuições de terra também não apresentaram resultados apreciáveis. África era terra para degredados, aventureiros ou militares. Para contrariar a diminuta ocupação, iniciaram-se ações (expedições após expedições), a partir de zonas costeiras de Angola ou Moçambique, destinadas a promover a exploração e abertura à civilização europeia do interior africano, algo influenciadas pelas grandes e romanceadas viagens de Livingstone e Stanley. Enfim, era necessário fazer face à concorrência, perante o risco de usurpação.
-EXPEDIÇÕES-
A primeira expedição, relevante, realizada pelos Portugueses ainda antes do termo da Guerra Civil, largou em 1831 de Tete/Moçambique, que com objetivos económicos e científicos, teve o comando do Maj. Correia Monteiro, assessorado pelo Cap. Pedroso Gamito e integrou 420 carregadores e mercadores. Outras se seguiram, com destaque para as do comerciante e colono Silva Porto, nas décadas de 1840 e 1850, no território das atuais Angola e Zâmbia, pela influência que exerceram, aliás nem sempre produtiva, em prol da soberania portuguesa, sobre sobas em áreas onde não havia brancos.
Em 1877,  após alguma pausa, o Ministro da Marinha e Ultramar, João de Andrade Corvo, lançou um conjunto de iniciativas mais bem planeadas, visando explorar o território que separava Angola e Moçambique, criando os alicerces para o seu melhor conhecimento cartográfico e comercial e, obviamente, e expansão  portuguesa.
Destacam-se ainda as longas expedições dos Comandantes  Hermenegildo CapeloRoberto Ivens, e de um antigo companheiro de ambos, o Capitão Serpa Pinto, que atravessou África de lés a lés, ocidente para oriente.
Anos mais tarde, com o Ministro dos Negócios Estrangeiros Barros Gomes, supondo ter o apoio da Alemanha à sua política antibritânica, o que não se verificou, deu-se início ao projeto que mais tarde ficou conhecido por “Mapa Cor-de-Rosa”, pois Angola e Moçambique apareciam ligadas e esse território achava-se colorido em tom rosado. O objetivo inglês, que conflituava com o de Portugal passava, entre o mais, por construir uma ferrovia que atravessaria o continente africano pelo interior, ligando o Cairo à Cidade do Cabo, conforme o enunciado de Cecil Rhodes.
O governo português ao reclamar áreas cada vez maiores de território africano, agora através de esforços de ocupação efetiva, entrava em rota de colisão com outras potências europeias. Nesse contexto, a Sociedade de Geografia de Lisboa, criada em 1875, com o objetivo de “promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas” no enquadramento do movimento europeu de exploração e colonização, dando particular ênfase à exploração do continente africano, entendeu, por bem, ser necessário e urgente criar uma barreira às intenções britânicas, pelo que organizou uma subscrição para manter “estações civilizadoras”
na zona de influência portuguesa no interior do continente.
-A CONFERÊNCIA DE BERLIM-
Em 1884, a aceitação pela Grã-Bretanha das reivindicações portuguesas ao controlo da foz do rio Congo,  levou ao agravamento dos conflitos com potências europeias rivais. Convocada sob proposta de Portugal, a Conferência de Berlim, teve como objetivo reorganizar a ocupação de África pelas potências coloniais, mas a final resultou numa divisão que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas ou familiares dos povos indígenas. O Império Alemão, sem colónias, viu satisfeita a sua ambição expansionista, passando a administrar o Sudoeste Africano/Namíbia, e o Tanganica. Os Estados Unidos da América, tinham a Libéria, cuja  história  é ímpar, pois, é juntamente com a Etiópia uma das duas únicas nações da África Subsaariana, sem raízes na disputa europeia, fundada e colonizada por escravos americanos libertos, com a ajuda da organização privada, a “American Colonization Society . A Turquia que não possuía colónias em África, era a cabeça do Império Otomano, com interesses no norte do continente. Outros países europeus, não contemplados na partilha de África, eram potências comerciais ou industriais, com interesses nascentes no continente.
Portugal, foi vencido da Conferência de Berlim pois, para além de ter vingado a denegação do direito histórico, viu-se obrigado a aceitar a livre navegação dos rios internacionais com aplicação ao Congo, Zambeze e Rovuma, territórios tradicionalmente portugueses, e perdeu o controlo da foz do Congo, que mantinha desde 1884, ficando apenas com o enclave de Cabinda.
Finda a Conferência de Berlim, Portugal mais se consciencializou da imperiosa urgência de delimitar as possessões africanas, pelo que, logo em 1885, começaram negociações com a França e a Alemanha para delimitar as respetivas fronteiras.
Ao corrente da pretensão portuguesa, a Grã-Bretanha reagiu, comunicando a Portugal reputar nulo o reconhecimento francês e alemão do Mapa Cor-de-Rosa.
-O MAPA COR DE ROSA E O ULTIMATO DA “PÉRFIDA”  ALBION-
As pretensões portuguesas, como se referiu, estavam em   confronto com o projeto britânico de um caminho de ferro que atravessaria o continente africano de norte a sul, o qual acabaria por nunca se realizar, dadas as dificuldades técnicas, climáticas, orográficas e políticas. O governo português, que necessitava do apoio britânico para a delimitação de fronteiras, resolveu atrasar a negociação, fazendo saber que as suas pretensões eram as do Mapa Cor-de-Rosa, que entretanto se tinha transformado num documento com ampla divulgação pública e objecto de arraigadas paixões nacionalistas e arma de arremesso política.
A Grã-Bretanha encontrou-se a administrar a África Austral, com exceção de Angola, Moçambique e o Sudoeste Africano/Namíbia/Alemanha, a África Oriental, com exceção do Tanganica, partilhou a costa ocidental e o norte com a França, a Espanha e Portugal/Guiné/Cabo Verde.
O Congo continuou na posse da Associação Internacional do Congo, cujo principal “acionista ” era o rei Leopoldo II, da Bélgica, país que  passou ainda a administrar os pequenos reinos das montanhas, o Ruanda e o Burundi.
Considerando injusta e injustificável a expropriação do Caminho de Ferro de Lourenço Marques, a Grã-Bretanha protestou, com o apoio dos Estados Unidos, solicitando uma arbitragem internacional, que Portugal recusou. Iniciou-se na imprensa britânica uma forte campanha antiportuguesa, que criou as condições políticas para a rutura, o Ultimato,  pelo qual foi imposto a Portugal a retirada da zona em disputa, o Vale do Chire, sob pena de serem cortadas as relações diplomáticas e, eventualmente, iniciada uma intervenção militar. Isolado, Portugal continuou a protestar, protestar diplomaticamente, no Parlamento e na rua, mas seguiu-se a inexorável cedência e recuo, acabando o Mapa Cor-de-Rosa, não sem deixar um sentimento antibritânico, de humilhação nacional, que haveria de marcar a sociedade e potenciar a propaganda republicana.
O Governo de Sua Majestade Britânica não pode dar como satisfatórias ou suficientes as seguranças dadas pelo Governo Português (…). O que o Governo de Sua Majestade deseja e em que mais insiste é no seguinte: que se enviem ao governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas no Chire e no país dos Macololos e Machonas se retirem. O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, todas as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias. Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade “Enchentress” está em Vigo esperando as suas ordens”.
O Ultimato teve em Portugal uma repercussão dolorosa e profunda. Alcançou uma grande audiência, a de “0de à Inglaterra”, de Guerra Junqueiro, que em Alcobaça se vendeu na farmácia Campeão após aquisição de alguns exemplares em Lisboa, na qual se fazia o contraste entre os objetivos das colonizações inglesa e portuguesa.
Ó bêbada Inglaterra, ó cínica impudente,
Que tens levado tu ao Negro e à escravidão
Chitas e hipocrisia, Evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
Mortalha do Cristo em tanga de algodão ”.
O Teatro da Alegria, em Lisboa, esgotou as lotações com a revista “A Torpeza”, cujo argumento era o Ultimato da “Pérfida Albion ”e a política do regime, considerada responsável pelo malogro da grande quimera africana.
Este incidente mereceu por parte de Eça de Queiroz, o comentário que, a partir de Paris, endereçou a Oliveira Martins: “Não estou certo do que deva pensar desse renascimento do patriotismo, esses gritos, esses crepes sobre a face de Camões, esses apelos às academias do mundo, esse renunciamento heróico das casimiras e do ferro forjado, essas jóias oferecidas à Pátria pelas senhoras, essas pateadas aos Burnays e Mosers, esse ressurgir verbosa em que o estudante do liceu e o negociante de retalho me parecem tomar de repente o comando do velho galeão português (…) esse inteligente patriotismo que leva os jornais a não quererem receber mais periódicos ingleses, os professores a não quererem ensinar mais o Inglês, os empresários a não quererem que nos seus teatros entrem ingleses, os proprietários de hotéis a não quererem que nos seus quartos se alojem ingleses-parece-me uma invenção do inglês Dickens”. Mas este humor sarcástico, permitia-lhe aperceber-se o que havia de sentido, na reação portuguesa: “Nunca, creio eu, houve, antes deste, um momento em que Portugal moderno estivesse tão acordado e atento”. (…) “Ou a minha ingenuidade é grande, ou há decerto alguns milhares de homens em Portugal que desejem outra coisa, sem saberem o quê ”.

-O FIM DE UM “SONHO COR-DE-ROSA”-
Os republicanos incluíram no seu programa de ação política, o desenvolvimento do Ultramar, pelo que o colonialismo, ao lado de um forte nacionalismo, caraterizou o ideário republicano, suscitando  também aqui uma variedade de sonhos românticos. Portugal queria comparar-se à Bélgica ou à Holanda na capacidade de construir um império. O comunicado final, do governo português, ao Ultimato, enquanto um vaso de guerra inglês esperava a resposta, afirmava que “em presença duma ruptura eminente das relações com a Grã-Bretanha e todas as consequências que poderiam dela derivar, o Governo resolve “ceder” às exigências recentemente formuladas nos dois últimos memorandos, ressalvando por todas as formas os direitos da Coroa de Portugal nas regiões africanas de que se trata, protestando bem assim pelo direito que lhe confere o artigo 12.° do Acto Geral de Berlim de ser resolvido o assunto em litígio por mediação ou arbitragem. O Governo vai expedir para o Governo-Geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha.”
Era o fim do “Sonho Cor-de-Rosa”.
-O MARQUÊS DE SOVERAL-
O Príncipe de Gales tardiamente chegado a Eduardo VII, era primo e amigo pessoal de D. Carlos de Portugal. O Marquês de Soveral, um elegante e talentoso diplomata, conseguiu conquistar a consideração, se não o afeto, do filho da Rainha Vitória (este  intitulava-o Portuguese through and throug, isto é, Português a valer, Português puro), a qual já tinha recomendado ao sobrinho, D. Carlos, que promovesse o diplomata de Primeiro Secretário da Embaixada a Ministro Plenipotenciário e condecorara-o com a Grã Cruz de S. Miguel e S. Jorge (cfr. Alberto de Oliveira in Memórias da Vida Diplomática e André Maurois in Eduardo VII e o seu tempo). Aquando do Ultimato, o diplomata português devolveu a condecoração britânica. A esse ultraje D. Carlos respondeu também com a devolução das condecorações inglesas, gesto essencialmente simbólico, cujo impacto podendo ser eventualmente considerável junto da opinião pública, não o foi neste caso, influenciado pela propaganda republicana.
Num jantar restrito, em que também estava presente o ainda Príncipe de Gales, um dos presentes, em tom irónico e sobranceiro, perguntou ao Marquês de Soveral, quanto tempo gastaria a esquadra inglesa a bombardear Lisboa. Este volveu, que “bombardear Lisboa, que é um porto indefeso por meio de uma esquadra, que consta ser a primeira do mundo, nem chegaria a ser valentia quanto mais heroicidade. Outra coisa seria colocar-se cada inglês em frente de cada português, podendo começar-se a experiência pelo que fez a pergunta e pelo que dá a resposta ” (cfr. Alberto de Oliveira, in Memórias da Vida Diplomática).
-SERPA PINTO E VOTOS NA CMA-
O vereador Augusto Rodolfo Jorge, na sessão da Câmara de 22 de Janeiro de 1890, apresentou a seguinte proposta que foi aprovada por unanimidade: “A Câmara Municipal de Alcobaça repetindo o eco de toda a Nação Portuguesa ofendida vilmente no seu brio e sentimento de nacionalidade pela maior das afrontas, protesta contra o acto de violência e deslealdade com que a Inglaterra acabou de proceder contra Portugal  ”.
Pelo mesmo vereador, na sessão de 9 de Abril seguinte, foi declarado  e proposto que “estando prevista a próxima chegada a Portugal de Serpa Pinto, brioso militar que nos territórios de África expôs valentemente a sua vida para defender o País das prepotências da Inglaterra e sustentar a honra da Bandeira, seria justo que o município alcobacense se associasse às demonstrações de júbilo e patriotismo que em Lisboa vão ser feitas à sua chegada fazendo assinalar na vila esse dia como verdadeira gala e festa nacional. Atendendo, porém, que o município não pode despender uma quantia que pudesse fazer face às despesas com os festejos que condignamente assinalassem a chegada desse verdadeiro patriota e arrojado militar, propõe que nesse dia seja arvorada em frente dos Paços do Concelho, a bandeira nacional, que se dê feriado aos empregados e lhe seja enviado um telegrama de felicitações pelo regresso à Pátria e pelo denodo com que soube sustentar o brio e a honra de povo português, pequeno em território, mas grande em feitos heróicos e acções magnânimas ” (cfr. Bernardo Villa Nova in, Alcobaça no Arquivo da CMA).
-RAFAEL BORDALO PINHEIRO-
Em Abril de 1890, a população de Alcobaça (que lia jornais), regozijou quando soube que Rafael Bordalo Pinheiro ofereceu ao Cap. Serpa Pinto, um escarrador em louça das Caldas, representando o John Bull, sobraçando dois sacos a transbordar de libras de ouro. Admitiu-se adquirir uma cópia abrindo para o efeito uma subscrição, para a expor no edifício da Câmara Municipal, mas Bordalo Pinheiro não acedeu à delegação municipal de Alcobaça que a Caldas da Rainha foi falar com ele, no seu atelier. O autor pretendia que fosse peça única.