sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

-MATANÇA DO PORCO EM ALCOBAÇA E ALTA ESTREMADURA. FESTEJANDO O S. MARTINHO-

-MATANÇA DO PORCO EM ALCOBAÇA E ALTA ESTREMADURA. FESTEJANDO O S. MARTINHO-

Fleming de Oliveira


A matança do porco era uma significativa e tradicional festa do Portugal rural, que se prolongava, por vezes, por dois dias, constituindo fator de união das famílias e de convívio com os vizinhos e amigos, um momento de folia na comunidade que descansava das rudes tarefas braçais. No Concelho de Alcobaça assumia, por isso, bastante importância. Era habitual a família criar um porco, que era morto e conservado em sal para a alimentar durante uma boa parte do ano. Mas em casos extremos, vendia-se o animal (ou até galinhas e ovos), com o fim de obter receitas para gastos domésticos.
Matavam-se tantos mais porcos quanto o estatuto social e a condição financeira o permitiam, pelo que a riqueza da família avaliava-se, também, em função do número de porcos que matava. Em casa de Joaquim Magalhães ou de seus pais, os porcos eram criados e alimentados à base de batata, milho, maçãs, legumes, e farelo, tudo de produção própria, e viviam em cortes, nas traseiras da casa. Noutras famílias, as cortes mal cheirosas, situavam-se mesmo por baixo da casa.
A matança ocorria no tempo frio, de modo a facilitar a conservação da carne em sal e também porque era altura de atividade agrícola mais reduzida.
Na matança do porco, estavam presentes, para além do agregado familiar direto, os parentes, os vizinhos e amigos. A festa iniciava-se com o ritual de matar o bicho, uns copitos de aguardente bagaceira, broa, chouriço, figos e, obviamente, vinho tinto. Agarrado o cevo, o matador (não sendo o dono da casa era pessoa contratada com experiência e sangue frio), levava o animal para cima de um banco de madeira, e aplicava-lhe uma facada certeira, profunda e fatal, direita ao coração, utilizando um cebolão (faca enorme e bem afiada, que não se confunde, obviamente, com cebolão, tipo de afinação utilizada na viola caipira, uma das afinações mais comuns no Brasil), que causava a morte e o sangramento, prontamente guardado pelas mulheres em alguidares de barro. De seguida, o animal era chamuscado com palha, giestas, carqueja ou outras plantas secas, lavado com água da ribeira e raspada a pele com pedras rugosas, facas ou com telhas de barro, para lhe fazerem a barba, como se dizia. Queima-me bem esse animal para a carne saltar bem viva, recomendava Ti Alfredo. Terminada a operação, começava-se o esventrar do animal, pendurado numas argorelas com a cabeça para baixo, para se tirar o couracho, o sub ventre, o unto, o fígado, os rins, o coração, o bucho e as tripas. Tudo é comestível!
Era usual em casa dos Magalhães, como nas demais de Montes ou de seus familiares de Porto do Carro, logo no dia da matança, fazer-se uma refeição constituída pelos produtos perecíveis, como o sangue, fígado e os pulmões.
No dia seguinte, procedia-se ao desmanchar da carcaça, sendo as carnes repartidas e salgadas, de modo a durar até à próxima matança. As mulheres faziam as chouriças e morcelas de arroz típicas da alta Estremadura, aproveitando as tripas bem lavadas em água com limão e cortadas nos tamanhos convenientes. Em Alpedriz, as pessoas reclamam-se de terem as melhores morcelas de arroz, embora genericamente a receita seja igual em Leiria. Nesse dia, já se comiam as carnes grelhadas ou guisadas, as morcelas de arroz, regadas com bom o vinho tinto, embora de 11,5º. em média como era o dos Montes ou Castanheira. Alguns convidados eram obsequiados com morcelas ou tripas, na chamada partilha, ato que assumia significado solidário e comunitário. As chouriças eram colocadas por cima da lareira em paus delgados e curadas ao fumo, durante umas 3 ou 4 semanas.
Hoje em dia, com o despovoamento das aldeias, o abandono da agricultura de subsistência, num tempo em que cada um vive para si, é mais fácil comprar no talho, já não se fazem festas de matança de porco e esse momento de espaço ou convívio social que faz parte da nossa riqueza patrimonial, encontra-se em vias de extinção.
Ti José de Sousa, da Castanheira, ao recordar o S. Martinho, vem-lhe logo à lembrança o avô e a prova do vinho na adega, onde havia muitos pipos de tamanhos  variados. Embora miúdo, tem presente que o avô Ti Álvaro conseguia transformar esse momento aparentemente simples num acontecimento memorável. A prova do vinho, preferencialmente tinto, nesses anos longínquos da viragem do século, segundo recorda Ti José de Sousa raramente se ficava por um único barril, porque vários eram os convivas, familiares, vizinhos e amigos (as mulheres ficavam de fora) e, embora todo o vinho fosse feito simultaneamente de acordo com as mesmas regras e fundamentalmente com as mesmas castas, existiam pormenores como a madeira ou exposição, que podiam alterar a graduação e o gosto, a que eles como peritos não passava desapercebido.
O vinho novo, ainda vivo e pleno de pique era, e é ainda por vezes, substituído pela não menos tradicional água-pé, feita a partir de água deitada sobre o bagaço da uva, donde se retira algum do mosto. Há um velho dito popular, que Ti Álvaro Sousa gostava de citar e que aprendera ainda com seu avô, S. Martinho é o santo que pode gabar-se de ter o maior número de devotos em todos os países do mundo. E ele, não era muito de missas… embora se desse bem com o Pároco da Freguesia, que era frequentador de sua casa, um bom garfo e bom copo.
Como esta, é época de castanhas, também se realizavam na Castanheira concretamente em casa de Ti José de Sousa ou de seus vizinhos, animados magustos, pretexto de confraternização popular.
Consideradas, hoje em dia, uma guloseima de época, as castanhas, em tempo idos, mesmo depois da introdução da batata, constituíram um bom complemento alimentar das famílias portuguesas quando os rigores e escassez do inverno se instalavam, substituindo o pão na sua ausência,  Assadas com sal grosso, cozidas com ervas aromáticas, secas tornando-se piladas e utilizadas depois de bem demolhadas, acompanhando em puré outros preparos ou servindo uma sopa aveludada e cremosa, o consumo de castanhas estende-se de finais de Setembro até ao início da Primavera. A castanha, foi muito utilizada sob a forma de sopa, reduzida a farinha ou assada, compensando a escassez de cereais. Com a moléstia nos castanheiros, diminuiu o consumo de castanha em proveito das batatas.
No tempo que passa, esbateram-se estes festejos e muito raros são os que celebram a ocasião com circunstância e a preceito.
Seja como for, a mesa apesar de por definição ser o lugar onde se tomam as refeições, desde sempre assumiu para os portugueses, o que Gervásio Lobato definiu como o santo altar da mesa. À sua volta, confraternizam a família e os amigos, celebram-se os rituais de passagem como o nascimento, batismo, casamento ou mesmo a morte.


-A CADEIA COMARCÃ DE ALCOBAÇA-

-A CADEIA COMARCÃ DE ALCOBAÇA-

Fleming de Oliveira

O Dr. Mário Ferreira da Rocha Calisto, Delegado do Procurador da República e Diretor da Repartição de Investigação, junto da Polícia Cívica de Lisboa, em 1912 publicou o opúsculo A Comarca de Alcobaça, nos annos de 1905 a 1911, onde fazia acusações muito graves ao funcionamento do Tribunal e Cadeia Comarcã, instalados em más condições na Ala Norte do Mosteiro, respetivamente no primeiro andar e rés do chão, desde que em 4 de Agosto de 1837, foi feita concessão à Câmara Municipal para ali os sediarem, conjuntamente com outros serviços públicos.
A cadeia, como vinha denunciando o Dr. Calisto, não tinha condições nem segurança, pelo que não era, de todo rara, a evasão de detidos. A fuga ocorrida em Julho de 1914, teve um impacto especial. Doze presos, arrombaram numa noite de sexta-feira para sábado, as grades da janela da cela que dava para o Rossio, obrigando os companheiros a vir também para a rua. Só na manhã de sábado, as autoridades tomaram as providências conducentes à captura dos fugitivos. Seis deles, apresentaram-se pouco depois ao carcereiro que ficou perplexo, mas os restantes continuaram ao largo, com pouca vontade de regressar à hospedaria. Este acontecimento, mais uma vez, fez reconhecer a imperiosa necessidade de a cadeia ter uma guarda permanente (o carcereiro ao fim do dia ia para casa e só regressava de manhã), de modo a prevenir e evitar a repetição de acontecimentos dessa natureza.
Esta fuga não foi única, nem a primeira. Por volta das três horas de 7 de Novembro de 1901, seis presos na cadeia comarcã de Alcobaça, depois de serrarem as grades da janela da cela, abrirem a porta de madeira da janela com uma chave feita a partir de um garfo e compeliram os demais a acompanhá-los. Uma vez na rua, antes de rumarem a um qualquer destino, dirigiram-se para a rua D. Pedro V, a fim de assaltar o estabelecimento de venda de produtos alimentares do comerciante José Manuel Peça, o que não conseguiram por a porta ter resistido. Nove dos fugitivos, como no episódio anterior, ter-se-ão arrependido pelo que, ao raiar do dia, foram bater à porta da cadeia mesmo antes da chagada do guarda. Informados do sucedido, o Delegado do Procurador Régio e o Secretário da Administração do Concelho, Rafael Pinto Eliseu, trataram de adotar as medidas que o caso reclamava, pelo que este, logo de manhã pelas 10 horas, acompanhado por um polícia, deu busca a um bordel muito frequentado e às tabernas da vila e redondezas, sem esquecer as casas de família dos fugitivos. Informado por umas peixeiras, de que um dos fugitivos fora visto a dirigir-se a pé na estrada para a Nazaré, Rafael Pinto Eliseu para aí rumou na companhia de um polícia e de um oficial da Administração, capturando-o facilmente, pois não ofereceu resistência. Nesse momento, o fugitivo confessou-se aliviado por ter terminado a aventura e indicou a Venda das Raparigas como a direção que os outros tomaram. Assim, as autoridades para lá se dirigiram, pelo que na Charneca da Memória do Rei, eram presos pouco depois, o ex-sacristão e ex-seminarista Bispo e o serralheiro Lagarto, mentores da operação e tidos como os mais perigosos, com fome e sem oferecerem resistência mas que, por estarem armados, foram conduzidos com escolta militar para Rio Maior, não sem ainda haverem também esclarecido que havia companheiros de fuga escondidos na Rabaceira. Expedido um telegrama para o Administrador do Concelho de Caldas da Rainha, este não fez demorar as providências, pelo que, no dia seguinte, era recebido na Administração do Concelho em Alcobaça uma informação telegráfica dando conta da prisão dos fugitivos. O Bispo e o Lagarto vieram a ser condenados no Tribunal de Alcobaça a pesada pena, seguida de degredo em Angola, de onde ao que se saiba não regressaram.
No segundo domingo de Julho de 1909, cerca das 14 horas, o perigoso António dos Santos, o talhante Milheiro, que tinha sido condenado em pena maior, por um sádico crime de homicídio utilizando uma faca para abater suínos, evadiu-se da prisão da vila, de uma forma engenhosa e pouco de previsível. Enquanto se achava no claustro da prisão, com outros presos a receber visitas, o carcereiro preparou-se para ir levar ao Quartel as latas vazias para serviço da alimentação dos presos, pelo que colocou o tabuleiro à cabeça e dirigiu-se para a porta de saída, vindo o Milheiro logo atrás e muito junto a ele, sem que tivesse sido notado, pois usava alpercatas que lhe abafavam o ruído dos passos. O preso assistiu ao abrir e fechar da porta, acompanhou os passos e movimentos do carcereiro saindo ambos para a rua, onde aguardou a ida do carcereiro para o quartel, encostado a porta da prisão a fumar um cigarro. Passado pouco tempo, atravessou o Rossio a fingir contar dinheiro para disfarçar e não despertar espanto e seguiu pela Travessa da Cadeia desaparecendo.
Como se alimentavam os presos?
Há poucas descrições do que era a vida prisional no País, mas as que existem ou a ideia que se recolhe, é pouco abonatória, tal como decorre de algumas conversas com o alcobacense Manuel Carcereiro. Em muitos casos, era uma pequena broa muito dura e duas malgas de caldo aguado, num ritmo quotidiano e imutável. Os que tinha mais recursos ou família, defendiam-se melhor, sem prejuízo de por vezes terem de dar uma comissão em géneros ao guarda ou carcereiro.
Quando o carcereiro regressou do quartel, constatou a evasão do Milheiro e, apesar das providências imediatamente adotadas e das pistas seguidas, apenas na noite de terça para quarta-feira, por volta da hora de jantar, foi capturado no lugar de Salgado/Famalicão da Nazaré, em casa de José Maria Saraiva seu cunhado, também talhante que foi preso como cúmplice, dando ambos entrada na cadeia mal chegou o carcereiro.
A captura efetuou-se no momento em que o Milheiro estava a contar ao Saraiva e à mulher, com prazer, calor e entusiasmo, a forma como tinha praticado à facada o homicídio de um vizinho, que lhe devia 30 reis desde a Páscoa!
Esta captura foi devida às prontas e acertadas providências tomadas pelo Delegado do Procurador Régio Dr. Mário Calisto, ao bom e auxilio prestado pelos Administrador do Concelho e seu Secretário, bem como das forças policiais requisitadas. O Milheiro veio a ser condenado a 20 anos de prisão e degredado para África, de onde ao que consta não terá regressado.
Estava ainda muito longe o tempo de haver condições para que os presos da cadeia de Alcobaça tivessem a sua Festa de Ano Novo, como veio a acontecer em 1921, em que uma comissão composta pelo Delegado do Procurador da República/Almeida Ribeiro, Administrador substituto do Concelho/Joaquim Ferreira da Silva e o Solicitador encartado /Manuel da Silva Carolino (mais tarde polémico Presidente da Câmara, muito conotado com o Estado Novo), tomou a iniciativa de lhes oferecer um jantar na sala de audiências do tribunal. A sala recebeu funcionários judiciais, das finanças, do município, advogados e algum público, tendo durante o jantar atuado com agrado a Banda de Alcobaça, paga com a refeição. No fim do jantar, subiu à tribuna o Dr. Almeida Ribeiro, que agradeceu as cerca de 20 presenças, e particularmente, as da Banda. A instâncias de alguns amigos, o Dr. Alberto Vila Nova, referiu o significado da inédita iniciativa, já que não era conhecido no País algo semelhante, que prestigiava a comarca e a justiça, conseguindo com a sua palavra fluente e burilada tocar a sensibilidade dos próprios presos, como o testemunharam as lágrimas que dos seus olhos nessa ocasião se desprenderam em abundância.
Na antiga Sala das Conclusões do Mosteiro, funcionou a Repartição de Finanças e a cadeia comarcã, como se referiu. Neste espaço decorriam os atos que não fossem de caráter religioso como assinaturas de acordos, escrituras ou testamentos. Até aos princípios do séc. XVII, estiveram nesta sala as estátuas de alguns Reis de Portugal que, a partir do séc. XVIII, passaram para a denominada Sala dos Reis. A partir do séc. XVIII na Sala das Conclusões tinham lugar os encontros com convidados importantes dos Abades. Na pedra de duas janelas que dão para a atual Praça 25 de Abril, encontram-se gravadas umas inscrições feitas por presos, de que se destacam duas, uma de 1911 e outra de 1921, esta da autoria de José de Sousa, de Valado de Frades, que entrou em 23 de Junho de 1921, pelas 6 horas que ainda encontrou na prisão, José Verdasca, dos Montes, que havia anavalhado Francisco Miguel no ventre, que veio a falecer no Hospital de Alcobaça, sem possibilidade de ser transferido para o de S. José em Lisboa.



-SERÕES DE ARTE EM ALCOBAÇA E AFONSO LOPES VIEIRA-

-SERÕES DE ARTE EM ALCOBAÇA E AFONSO LOPES VIEIRA-

Fleming de OLiveira

O meio político e social alcobacense do início do século XX, tal como o nacional, foi marcado por disputas entre republicanos e monárquicos, cada um a defender e tentar impor as suas conceções contraditórias. O ideário republicano, mesmo na cisterciense Alcobaça, afirmava a necessidade de implantar a democracia, se necessário contra Reis e Igreja.
Em Alcobaça vivia-se, por vezes, um ambiente histórico e artístico de exceção, ao qual figuras como o monárquico leiriense Afonso Lopes Vieira procuraram conferir dimensão nacional e internacional a par de alguns republicanos. M. V. Natividade relacionava-se com importantes figuras da época e, ao serão, como um cenáculo, debatiam-se no seu escritório temas artísticos, científicos e políticos. Pela iniciativa do poeta, realizaram-se no mosteiro vários serões de arte. De facto, à sombra tutelar do Mosteiro, Lopes Vieira viveu mais de 30 anos perseguido pelo objetivo de defender o património cultural português e fazer chegar ao maior número possível de pessoas, não apenas alcobacenses, a sua ímpar dimensão estética. Afonso Lopes de Vieira, precetor da alma portugues, embora natural de Leiria, passou grande parte da vida em Lisboa, onde aliás viria a falecer. Visitando regularmente o Distrito, especialmente no verão, instalava-se na sua casa de S. Pedro de Moel ou exilava-se nas Cortes (por motivos políticos. Era admirador de Paiva Couceiro), onde também tinha uma casa. Lopes Vieira, nas suas deslocações à Alta Estremadura, visitava com frequência Alcobaça que lhe merecia particular atenção (expressa em textos e conferências) e os seus amigos, com destaque para Manuel Natividade.
A campanha de divulgação da obra de Gil Vicente foi reunida em 1914 no livro Campanha Vicentina. Realizou-se no, redenominado,
Teatro República/Refeitório do Mosteiro, em Janeiro de 1912 um Serão Vicentino. De acordo com o Semana Alcobacense (que condescendia com Lopes Vieira, a quem não arriscava beliscar), poucas vezes a nossa sensibilidade espiritual terá sido mais fortemente impressionada e o nosso sentimento português mais experimentado de emoção e de infinito orgulho, do que o foi nessa noite a tantos títulos notável e de tão inapagáveis recordações. As belezas da nossa literatura quinhentista, verdadeiramente surpreendentes, inéditas para o grande número dos que assistiam, ressaltavam em pródiga profusão da correcta e superior dicção dos intérpretes .
Começou o Sarau com uma conferência de Afonso Lopes Vieira, sobre Gil Vicente, realçando a personalidade do fundador do teatro português, da qual ressalta a sua feição popular e irreverente, o sarcasmo e os conceitos com que impiedosamente castigava os excessos, a corrução dos grandes e as virtudes do povo. Durante a conferência Aura Abranches, Ângela Pinto, Adelina Abranches, Augusto Rosa, Ferreira da Silva, Brazão e Chabi Pinheiro declamaram trechos vicentinos, de Luís de Camões, Rodrigues Lobo e outros autores.
Seguiu-se a representação de O Pranto de Maria Parda, monólogo interpretado por Adelina Abranches, no qual o autor apresenta, cheio de verdade e graça, um tipo de mulher da rua, que lamenta a carestia de vinho (é curioso como ela apreciava o vinho de Alcobaça… o que não impediu alguns assobios por parte de assistentes mais virtuosos).
Todo o Mundo e Ninguém, trecho da farsa Auto da Lusitânia, que constitui uma crítica impiedosa à sociedade do século XVI, simbolizada na personagem viciosa Todo o Mundo, foi interpretado por Augusto Rosa, Alexandre Azevedo, Chabi Pinheiro e Henrique Alves acompanhado de alguns sorrisos e terminado com uma boa ovação.
O Monólogo do Vaqueiro, um dos trechos mais conhecidos de Gil Vicente, foi interpretado pela famosa Adelina Abranches.
Por último, foi dado apreciar o Auto da Barca do Inferno, uma das mais belas peças vicentinas. As figuras, fortemente desenhadas e acentuadas, a crítica caindo como ferro em brasa sobre as chagas sociais do tempo, são ainda, com ligeiras variantes, as do nosso tempo. No fim, vem a apoteose do Povo e o elogio moralista da virtude dos simples. No Serão foi, talvez este, o momento que recolheu mais ovação.
Em suma, foi uma bela noite para os cultores da nossa rica arte portuguesa. O País que possue uma arte tão própria e tradições tão características, pratica um crime gravíssimo ao permitir o abastardamento das manifestações da nossa civilização.
Por isso, admitia o articulista, que a tarefa a que se impôs Lopes Vieira é, apesar de tudo, um ato de patriotismo e, sobretudo, uma afirmação de consciência cívica.
A 17 de Agosto de 1913, realizou-se mais um Serão de Arte, iniciativa alegadamente inserida nessa missão de reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu, que o poeta monárquico fez questão de organizar, com ajuda do seu amigo republicano M. Vieira Natividade.
Este Serão da Arte, incluiu versos declamados por Augusto Rosa, dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço.
Em Agosto de 1914, Lopes Vieira voltou a organizar novo Serão de Arte, desta vez com a presença da soprano Berta de Bívar, do pianista Vianna da Motta e dos coros de Mme. Bensaúde.  
Estas romagens artísticas foram interrompidas pela Guerra, e só retomadas em Julho de 1929, aquando da recuperação da Sala do Refeitório do Mosteiro. A partir de 1935, as romagens adquiram uma caraterística específica em ligação com obras do Mosteiro. Nesse ano, Lopes Vieira levou à cena, no claustro do Mosteiro, o Auto da Mofina Mendes pela empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, num espetáculo a que terão assistido mais de 1.000 pessoas que se aglomeravam e chegaram a discutir com vivacidade, por falta de espaço.
Augusto Rosa (amigo de Lopes Vieira e Natividade) fez a estreia como ator no Porto, em 31 de Janeiro de 1872. Com o irmão João Rosa e Eduardo Brasão fundou a companhia Rosas & Brasão, de que foi o impulsionador, não só pelos conhecimentos culturais, mas também pelo talento como ensaiador. Interpretou todos os géneros, mas destacou-se na comédia e drama moderno. Foi também um aclamado declamador. Publicou Recordação da cena e de fora de cena/1915-e Memórias e estudos /1917. O ator morreu, a 2 de Maio de 1918, no número 50 da rua com o seu nome, em Lisboa, onde existe uma inscrição com os dizeres: Nesta Casa Faleceu Em 2 De Maio De 1918 O Eminente Artista Augusto Rosa Filho De João Anastácio Rosa E Irmão De João Rosa Todos Êles Grandes Actores. No serão de 1913, no Claustro de D. Dinis, Augusto Rosa, que vinha de vez em quando a Alcobaça conversar com M. V. Natividade, nomeadamente sempre que sabia que também se podia encontrar com Lopes Vieira, recitou sonetos de Camões, bem como o Ato V de A Castro, de António Ferreira. Augusto Rosa, em Memórias e Estudos, deixou notas, sobre esse Serão de Arte (que passamos a transcrever). Às nove horas da noite, na Igreja e no Claustro, tudo estava concluído e os que iam assistir ao Serão ficaram deslumbrados com a beleza do Mosteiro, realçada pela sumptuosidade da iluminação. O Serão começou pela admirável conferência feita por Afonso Lopes Vieira Inês da Castro na Poesia e na Lenda. Um dos pontos interessantes e novos dessa conferência é a evocação e a aproximação dos amores de Tristão e Isolda, os namorados imortais, dos amores de D. Pedro e Inês, Afonso Lopes Vieira trabalha num pequeno poema em prosa em que o conto medieval é singelamente narrado, no género do célebre livro de Bedier, La Roman de Tristan et Iseult. Há em toda a conferência um encanto, uma poesia, uma saudade, uma tal profusão de sentimentos finos, subtis, delicados, que o público que assistiu à leitura, comovido e delicado, aplaudiu entusiasticamente o grande poeta quando ele terminou (…). Estava terminado o Serão. A maior parte das pessoas que assistiram à festa retirou-se, ficando apenas umas quarenta, mais íntimas, que foram convidadas para assistir a uma piedosa romaria. Distribuíram brandões acesos a todas essas pessoas que, atravessando o templo, se dirigiram à Sala dos Túmulos, onde repousam Pedro e Inês. Aí, eu, no alto piso da ogiva que domina os dois sarcófagos, recitei à luz das tochas, dominado por uma íntima comoção, o magnífico e impressionante soneto de Afonso Lopes Vieira, escrito para esta solenidade, trabalhado sobre o tema do adeus esculpido na rosácea do túmulo de D. Pedro e que vou transcrever:
Até ao fim do mundo! A grande amada
Escuta o adeus da grande voz sentida
Santa e Rainha, aguarda aquela vida
Que só depois do fim é começada.

Pedra de sonho e cor, foste lavrada
Pela saudade imensa aqui vivida; 
Guarda a saudade, pois, da despedida
É a esperança da hora desejada.

Guarda a saudade que jamais acaba
Que o dia há-de vir, de amor contente
Os que dormem aqui vão esperando.

E no fragor dum mundo que desaba
Hão-de acordar, sorrindo eternamente
Os olhos um no outro enfim pousando.
Na verdade, um dia haverá o reencontro, um dia soarão as trombetas para o Julgamento Final e anjos pressurosos irão ajudá-los a soerguer-se dos leitos de pedra.



-TOPONÍMICA (PRÉ-REPÚBLICA E REPUBLICANA) EM ALCOBAÇA-


-TOPONÍMICA (PRÉ-REPÚBLICA E REPUBLICANA) EM ALCOBAÇA-
Fleming de Oliveira

A Comissão Iniciadora do Centenário do Nascimento de Alexandre Herculano, de pendor republicano, oficiou à Câmara Municipal no sentido de fosse crismada no dia do Centenário com o nome do glorioso historiador uma das ruas desta vila. No seguimento desta proposta, a Câmara (em sessão de 5 de Abril de 1910), deliberou dar o nome de Alexandre Herculano à Rua de Santo António.
Todavia, pelo Secretário da Direção do Centro Republicano de Alcobaça foi pouco depois entregue na Câmara o seguinte requerimento:
Il.mos e Ex.mos Srs. Presidente e vereadores da Câmara Municipal de Alcobaça:
Diz a direção do Centro Republicano Democrático de Alcobaça que, tendo a Ex.ma Câmara Municipal de Alcobaça deliberado em sua sessão de 5 de Abril do corrente ano substituir o nome da rua de Santo António, desta vila, pelo nome de Alexandre Herculano, e não tendo essa deliberação sido ainda executada, certamente por deficiência de verba orçamental ou por quaisquer outros motivos estranhos à vontade de V. Ex.ª, visto como a deliberação citada foi tomada por unanimidade e ela absolutamente correspondente aos sentimentos cívicos de todos os munícipes e ao seu íntimo culto pelas grandes individualidades da nossa história, deseja tomar a seu cargo a execução da referida deliberação e por isso vem à Ex.ma Câmara a necessária autorização para mandar fazer e colocar as placas com o nome do egrégio historiador da pátria portuguesa, acompanhado de uma legenda explicativa.
Mais pede a direção, caso V. Ex.as se dignem conceder-lhe a autorização que deseja, licença para dar ao ato inaugural das placas a devida solenidade esperando que V. Ex.as se dignem a honrar com a sua presença o referido ato.
Atendendo à justiça da sua posição, a direção espera se dignem deferir-lhe.
E.R.M.
Alcobaça, 11 de Julho de 1910.
A Câmara, após analisar esta petição, deliberou por unanimidade indeferi-la com o fundamento de que sabia bem cumprir os seus deveres e as deliberações, as quais, no que concretamente disser respeito a este assunto, serão executadas por forma igual e oportunamente. A República aproximava-se a passos largos.
-TOPONÍMICA (REPUBLICANA)-
Na sessão da Câmara Municipal, realizada a 8 de Outubro de 1910, José Magalhães propôs o nome de Praça da República para a Praça Príncipe D. Carlos, tendo o mesmo em 19 de Outubro, proposto que se passassem a denominar a Rua da Rainha/Rua Miguel Bombarda, Rua Nova de S. Bernardo/Rua Cândido Reis, Rua Francisco Ferrer/Rua do Castelo e Largo do Progresso/Largo Cinco de Outubro.
A Câmara Municipal em 20 de Outubro seguinte, deliberou alterar a denominação de Travessa da Botica e da Rainha, para Travessa Miguel Bombarda.
Na sessão de 3 de Julho de 1912, foi deliberado que à Rua Grande, fosse dado o nome da Rua Costa Veiga e à da Olaria (não se trata da Olaria de Alcobaça que ainda não existia, mas sim de uma cerâmica que ali terá existido já no século XVIII), o nome de Silvério Raposo, perpetuando-se assim a memória daqueles cidadãos a quem o Município e o povo do Concelho são devedores deste preito de homenagem como bons alcobacenses, tendo o primeiro pela sua filantropia contribuído com avultadas quantias para o novo Hospital e com pensões permanentes a favor dos pobres e o segundo pelos serviços prestados na gerência do Município.
Em 9 de Janeiro de 1914, por iniciativa do vereador João Antunes Pedro, foi deliberado que a Avenida de Leiria, passasse a denominar-se Maria e Oliveira e a Rua Fernão de Magalhães/Rua de Leiria, sendo o nome de Fernão de Magalhães atribuído à Rua situada ao lado da cerca do Hospital da Misericórdia.
Na Sessão de 7 de Junho de 1915, foi ainda decidido conferir o nome de 14 de Maio à Travessa da Cadeia. A título de curiosidade refira-se que antes da cadeia ser instalada no Mosteiro, após a extinção das Ordens Religiosas, existiu naquela zona a cadeia civil. Hoje em dia, denomina-se Rua Dom Maur Cocheril.
Na sessão de 6 de Dezembro desse ano, por proposta dos vereadores José Sanches Furtado e António Henriques Primo, foi resolvido alterar o nome de Rua França Borges para Rua da Conceição.   
Estas homenagens como reconhecia Bernardo Villa Nova eram em geral póstumas, embora em Alcobaça, ainda em vida, tivessem tido os seus nomes a designar ruas, o Príncipe D. Carlos, João de Deus, Serpa Pinto, Conselheiro Ferreira da Cunha, Conselheiro João Franco, Mouzinho de Albuquerque, David Manuel da Fonseca e Francisco Zagallo.

-A REPÚBLICA RECEBIDA EM ALCOBAÇA. EXÉQUIAS DE CÂNDIDO DOS REIS E MIGUEL BOMBARDA.A CÂMARA MUNICIPAL DE ALCOBAÇA-


-A REPÚBLICA RECEBIDA EM ALCOBAÇA. EXÉQUIAS DE CÂNDIDO DOS REIS E MIGUEL BOMBARDA.A CÂMARA MUNICIPAL DE ALCOBAÇA-

Fleming de Oliveira

Na quarta-feira, dia 5 de Outubro, logo de manhã, em Alcobaça o povo saiu para a rua, a comentar o que sabia e não sabia, enfim os difusos ecos dos acontecimentos. Continuavam as dúvidas sobre os êxitos da revolta em Lisboa. Cada automóvel que chegava, chamava as atenções, era objeto de grande assédio e independentemente da proveniência era abordado com mil perguntas. A certa altura, começou a correr que a via férrea do oeste estava cortada entre Caldas da Rainha e Torres Vedras, o mesmo acontecendo com as linhas telegráficas. Os jornais não chegaram. Às 13 horas constou que uma bataria de Artilharia 2 de Alcobaça, ia partir para Lisboa de comboio, pelo que muitas pessoas se juntaram no Rocio, dispostas a fazer-lhe uma manifestação de simpatia republicana, oferecendo aos militares tabaco e outras coisas. Afinal, não passou de mais um boato, a bataria não apareceu e os populares dispersaram, ficando no entanto republicanos fervorosos, reunidos em pequenos grupos, a trocarem impressões. A carreira do Valado de Frades, que devia chegar pouco depois do meio-dia, apareceu às 15 horas, pois o comboio veio a desoras, mas sem novidades de monta. Ao fim da tarde, os passageiros de automóvel vindo da Nazaré, contaram ter visto ruidosas manifestações republicanas no Bombarral e Torres Vedras. Outro automóvel, grande e preto, vindo de Leiria, conduzido por um militar fardado, parou próximo da Porta de Armas do Quartel pois eram militares os ocupantes, entre eles o Comandante do Regº. Artª. 1. Ao reiniciar a marcha ao fim de uma hora, constatou-se que tinha um pneu traseiro rebentado, o mesmo sucedendo daí a pouco a outro. Pensando tratar-se de sabotagem, reclamou-se a intervenção de uma força militar que saiu prontamente do quartel com seis homens, a qual rodeou o automóvel para o proteger e aos ocupantes, enquanto se tratava de mudar os pneus, ao mesmo tempo que os populares faziam uma manifestação de simpatia, com palmas e vivas. Mas ao fim e ao resto continuava-se sem notícias telegráficas e apenas se podia esperar que algum automóvel vindo do sul, trouxesse notícias da capital.
Pela manhã de quinta-feira, dia 6, principiaram a circular em Alcobaça notícias mais concretas. Sim, as forças revoltosas haviam triunfado, estando a República proclamada desde a manhã do dia 5.
Assim, partiram Caldas da Rainha de bicicleta alguns entusiastas na procura da sua confirmação, bem como de pormenores se possível. Cerca das 11 horas chegaram de volta ao Rossio, muito excitados a agitar bandeiras republicanas e a usar a tiracolo fitas verdes, sendo envolvidos em abraços e beijos pelos populares presentes.
Dentro em pouco o Rossio, encheu-se de gente. No Centro Democrático Republicano, onde se encontravam alguns responsáveis e dedicados militantes que ali passaram a noite, foi içada a bandeira republicana, que há muito aguardava esperançada e pacientemente o seu momento. De uma janela da Câmara Municipal, Santiago Ponce y Sanchez, Presidente da Comissão Municipal Republicana, fez a proclamação da República em Alcobaça, saudando o novo governo da nação e propondo à aprovação popular, José Coelho da Silva para Administrador do Concelho. O Pe. Francisco Coelho Ribeiro d’Abranches, que se encontrava a exercer o cargo de Presidente da Junta da Paróquia de Alcobaça, deu por findo o mandato e fez a adesão à República.... Em 1911, pediu para ser transferido para outra paróquia, dado não se sentir confortável com os novos tempos, mas regressou a Alcobaça como Pároco do Mosteiro em Outubro de 1920, com um ambiente um pouco mais calmo. Tomou a iniciativa de no dia 24 desse mês, celebrar missa na Igreja do Mosteiro pelas almas dos paroquianos falecidos na sua ausência o que anunciou na imprensa local. O Pe. Ribeiro d’Abranches nos dias 7 e 8 de Fevereiro seguinte ainda decidiu brindar os inocentes, ministrando-lhes gratuitamente o batismo coletivo às criancinhas que lhe forem apresentadas com esse fim. Segundo consta terão sido 7 inocentes meninos). Seguidamente no Salão Nobre usaram da palavra o deputado Afonso Ferreira, regressado há pouco da sua roça Guegué em S. Tomé, e Alberto Vila Nova, que salientaram as virtudes do novo regime, no que foram muito aplaudidos pelos presentes, cujo entusiasmo atingiu o rubro quando a bandeira republicana foi arvorada no edifício municipal, aí passando a estar ininterrutamente de dia e noite durante mais de uma semana.
As manifestações continuaram. Entretanto chegaram a Fanfarra de Alcobaça a tocar A Portuguesa, bem como os empregados e operários da Companhia de Fiação e Tecidos na companhia do seu diretor, a qual suspendeu a laboração, e formou-se um animado cortejo, que percorreu as ruas da vila, dando vivas.
Soube-se então ao fim da manhã que fora nomeado pelo Governo Provisório, para Governador Civil de Leiria, o alcobacense José Eduardo Raposo de Magalhães, o que causou forte emoção e orgulho, e foi motivo para que este fosse muito saudado em sua casa por amigos e correligionários. A festa continuou de tarde com a atuação das Filarmónicas da Vestiaria e da Maiorga, que desfilaram pelas ruas da Vila entre foguetes, vivas e aclamações de pessoas que se encontravam nas bermas.
Á noite, no Quartel foi içada uma bandeira verde/rubra emprestada pelo Centro Republicano e franqueada a entrada ao povo e às Filarmónicas que interpretaram A Portuguesa. Os soldados que se encontravam detidos no calabouço foram perdoados por decisão do comandante, entre lágrimas e abraços de alguns camaradas e o repúdio de outros. No Centro Republicano, que fora invadido por alguns praças a dar vivas à República, subiram a um estrado improvisado Alberto Vila Nova e Inácio Cardoso Valadão, muito aplaudidos nos seus inflamados discursos. As fachadas de edifícios, como a Câmara Municipal e Repartições Públicas, foram iluminadas com lâmpadas elétricas, tendo sido acesas as lâmpadas do coreto municipal, onde a Filarmónica da Maiorga esteve a atuar à noite.
Pelo meio dia de sexta-feira, dia 7 de Outubro, foi oficialmente hasteada no Quartel, a bandeira republicana. Já não era a do Centro Republicano, entretanto restituída à proveniência, mas uma que veio de Leiria, para ficar. Assistiram ao ato toda a oficialidade do Regimento, em uniforme de gala, as autoridades judiciais e administrativas do Concelho e convidados, além de povo. À noite, foi iluminada a fachada do Quartel e a sua charanga atuou para a população no Claustro do Rachadouro. A oficialidade inferior, empunhando bandeiras republicanas e soltando vivas, percorreu a vila no meio de foguetório, em marche aux flambeaux, e deslocou-se no Centro Republicano, onde alguns manifestantes se inscreveram como sócios.
-EXÉQUIAS DE MIGUEL BOMBARDA E CÂNDIDO DOS REIS-
No dia 16 de Outubro, realizaram-se as solenes exéquias de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis. As urnas ficaram na Câmara Municipal de Lisboa para aqueles puderem receber as homenagens populares. Por Decreto de 13 de Outubro, publicado a 14, determinou-se que os funerais de Cândido dos Reis e de Miguel Bombarda se realizassem no dia 16 e fossem considerados funerais nacionais.
O desfile do préstito fúnebre teve início ao meio dia (com as urnas cobertas por bandeiras nacionais verde/rubras feitas expressamente para a ocasião), na Praça do Comércio, fez uma primeira paragem no Largo do Camões e uma segunda no Marquês de Pombal, (épico reduto), onde se realizaram as solenes despedidas da cidade. Daqui seguiu para a Rua Morais Soares, onde o Governo Provisório fez as suas saudações fúnebres. O final da cerimónia no Alto de S. João, foi marcado por uma salva de 15 tiros. Os candeeiros e postes de iluminação das ruas do trajeto, onde se juntava o bom povo republicano, estavam acesos e envoltos em crepes negros.
-A PRIMEIRA SESSÃO MUNICIPAL/  REPUBLICANA DE ALCOBAÇA-
A primeira sessão republicana da Câmara Municipal de Alcobaça/Comissão Administrativa, realizou-se no dia 8 de Outubro, tendo como Presidente/José Barreto Perdigão, Vice-Presidente/Augusto Rodolfo Jorge e Vogais/António Henriques Primo, António José Moreira, Ceslau Ribeiro dos Santos, João Ferreira da Silva, José Lopes de Oliveira, Tomás Pereira da Trindade e José Emílio Raposo de Magalhães, e a presença de algum público que não quis faltar, dada a importância histórica do momento e aproveitou a oportunidade para saudar os novos edis.
José Lopes de Oliveira, pediu que fosse feita uma sindicância aos atos das vereações das últimas três gerências, tendo Tomaz Pereira da Trindade secundado a proposta, acrescentando, porém, que o fosse sem espírito de vingança ou perseguição. O público aprovou a proposta com algumas palmas, o que foi desculpado pelo Presidente embora se houvesse solicitado benevolamente para não se repetirem. A Comissão Administrativa resolveu solicitar da autoridade competente a diligência que não se efetivou por falta de verba orçamentada.
Foi deliberado, por unanimidade, exarar um voto de pesar pelas vítimas dos últimos acontecimentos, especialmente o Dr. Miguel Bombarda e o Alm. Cândido Reis, e que dele se desse conhecimento ao Governo da República na pessoa de Teófilo Braga. O público aprovou a proposta, embora desta vez sem se manifestar.
Presente um ofício, datado de 6 de Outubro, expedido pelo novo Governador Civil do Distrito de Leiria, José Eduardo Raposo de Magalhães, comunicando ter tomado posso do cargo e assegurando a sua leal e franca cooperação com a Câmara em tudo o que depender das suas atribuições oficiais. A Câmara congratulando-se por ter ascendido a tão elevado cargo esse prestante cidadão de Alcobaça, resolveu que se lhe oficiasse, a manifestar-lhe satisfação pela nomeação, bem como o apreço pessoal e político que merecia.
Foi ainda recebido, um ofício de José Coelho da Silva, a comunicar ter tomado posse do lugar de Administrador do Concelho (em substituição do Pe. Ribeiro d’Abranches) Tratava-se de um republicano da velha guarda, merecedor da distinção e oportunidade concedidas pelo novo poder.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

-DOIS MILITANTES REPUBLICANOS DE ALCOBAÇA-

-DOIS MILITANTES REPUBLICANOS DE
 ALCOBAÇA-

Fleming de Oliveira


1)=SANTIAGO PEREZ PONCE Y SANCHEZ-
Quando se deu a queda da Monarquia, a notícia foi recebida por uma elite loca alcobacense, aliás sem grande surpresa mas com emoção, que ficou agradada ao ver José Eduardo Raposo de Magalhães, nomeado Governador Civil de Leiria, pelo Ministro do Interior, o estimado António José de Almeida.
A República foi proclamada em Alcobaça, no dia 6 de Outubro de 1910 perante populares que se juntaram frente a Câmara Municipal depois de confirmada a queda da Monarquia, apesar vários rumores que circulavam pela vila, tendo competido a Santiago Perez Ponce y Sanchez anunciar a implantação da República e apresentar à aprovação popular José Coelho da Silva para Administrador do Concelho. Mais tarde Santiago Ponce terá confessado que este fora o momento mais emocionante da sua vida e que, por mais anos que tivesse, não voltaria a sentir igual emoção. Santiago Ponce y Sanchez era Presidente da Comissão Municipal Republicana e facultativo municipal. Foi naquela qualidade que esteve em Lisboa a representá-la nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido Reis. O Centro Democrático também se fez representar com três dirigentes nessa manifestação de respeito e de saudade e aconselhou os militantes republicanos a usarem um fumo preto no braço. Santiago Ponce y Sanchez distinto cidadão, antigo, solícito e dedicado republicano, que nunca se não poupou a esforços ou canseiras na propaganda e defesa do seu absorvente ideal político (a quem a República não esqueceu), veio a ser nomeado diretor do Asilo Dª. Maria Pia, em Xabregas/Lisboa e que ainda se encontra em funcionamento. Trata-se de um Asilo masculino que se rege pelo princípio de dar aos internados uma formação profissional adequada, que dependia dos Serviços Centrais de Beneficência Pública.

Quem era Santiago Perez Ponce y Sanchez?
No século XIX e mesmo nos inícios do XX, muitas casas de Lisboa não possuíam água corrente. Aceder à água, nomeadamente em andares elevados, era um trabalho penoso que muitos lisboetas não queriam fazer, pelo que os galegos aproveitaram para criar aquilo a que hoje se poderia chamar um nicho de mercado, isto é, serem aguadeiros. Aquilino Ribeiro in Lápides Partidas, refere o galego, de Porriño/Tui, que escreveu à mulher dizendo que a terra é boa, a xente é tola, a auga é deles e nòs vendemoslla. Na literatura portuguesa da altura, os galegos eram parte integrante da paisagem humana lisboeta. Os avós paternos de Santiago Ponce y Sanchez, vieram da Galiza para Lisboa, em meados do século XIX, não como aguadeiros, mas para trabalhar na restauração. Outros parentes foram para Madrid. O negócio correu bem, o que lhes permitiu mais tarde mandar o neto estudar medicina na Escola Médico-Cirúrgica, o qual terminado o curso veio a ser provido como facultativo municipal em Alcobaça, onde não conhecia ninguém. Santiago Sanchez, foi bem aceite nos meios políticos e sociais de Alcobaça, não apenas republicanos, mas também conservadores, pela educação, inteligência e dedicação à causa pública.
2=-JOSÉ EDUARDO RAPOSO DE MAGALHÃES-
J. E. Raposo de Magalhães (filho de João de Magalhães e de Maria Silvéria Raposo), era neto do último Ouvidor dos Coutos de Alcobaça, José Emílio de Magalhães, cargo hereditário na família desde o século XVIII. Estudou na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Engenharia Civil em 1862, sendo Bacharel em Filosofia e Matemática. Aí, estabeleceu especiais relações com Afonso Costa e, embora mais novo, com alguns personagens da Geração de 70. Desde cerca os 25 anos, administrou os bens da família materna, que veio a herdar, importantes proprietários, com fortuna feita na madeira, e arrematadores de propriedades agrícolas e florestais do Mosteiro de Alcobaça após  a extinção das ordens religiosas. Construiu as adegas que vieram a integrar o Museu do Instituto Nacional da Vinha e do Vinho, em Alcobaça, durante os últimos anos encerrado, mas ao que se espera com perspetivas de reabrir, e foi um dos pioneiros da técnica da pasteurização em Portugal. Ganhou com os seus produtos agrícolas, medalhas em exposições internacionais.
O seu neto Fernando (que aliás mal conheceu), recordou que em 1880, José Eduardo Raposo de Magalhães, integrava o pequeno, mas seleto, escol republicano de Alcobaça, sendo em 1907 membro do recém-criado Centro Republicano Democrático de Alcobaça, que teve sede na Praça D. Afonso Henriques, cuja Direção, eleita em 12 de Dezembro de 1907, era constituída por José Ferreira da Silva, Sebastião Vazão, Manuel Serrano de Figueiredo, Joaquim Ferreira da Silva, José de Sousa Vitorino. O Conselho Fiscal era presidido por António de Sousa Neves e integrava Manuel Pereira dos Santos e João António Vasco. José Eduardo Magalhães foi eleito Presidente da Assembleia Geral, a par de Eurico Araújo e Aniceto Rosa, e integrou as listas do PRP, para as Cortes, embora não tenha sido eleito. Por alegados motivos de saúde (cuja natureza não apuramos junto do neto Fernando. Seria mesmo motivos de saúde? Talvez não). J. Ed. Raposo de Magalhães afastou-se durante algum tempo, da atividade político-partidária, recusando integrar as listas da Comissão Municipal de Alcobaça, para o triénio de 1909/1911. Com o 5 de Outubro de 1910, foi escolhido por António José de Almeida para exercer as funções de Governador Civil de Leiria, o que aconteceu até 17 de Junho de 1911, em que foi pediu a exoneração. O curto mandato de José Eduardo Raposo de Magalhães, foi assinalado por incidentes, reclamações e denúncias contra órgãos administrativos do Distrito de Leiria, que o levou, que mandasse instaurar sindicâncias à Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, ao Hospital D. Leonor em Caldas da Rainha, à Administração da Confraria da Nazaré e à Administração do Concelho da Batalha. Essa isenção, mal aceite por alguns correligionários, traduziu-se, entre o mais, na alegada proteção conferida a monárquicos, prisão de arruaceiros republicanos que impediam as reuniões daqueles, o que acarretou a intervenção pessoal do ministro António José de Almeida, para os soltar. As dissensões no Governo Provisório começavam cedo a manifestar-se e as fraturas programáticas, ideológicas e de caráter pessoal vieram a público. A união que juntara os revolucionários no derrube da monarquia, revelou-se precária e António José de Almeida (Ministro do Interior), tentou resistiu ao controlo do Estado pelos republicanos mais radicais, negando-se a preencher o aparelho com meros revolucionários, independentemente da competência profissional, que no seu enunciado não deveria prevalecer sobre a militância político-partidária. O alcobacense Américo d’Oliveira, herói da Rotunda, viu ser-lhe recusado um emprego como fiscal dos caminhos de ferro, o que levou a mal e a esfriar as relações com António José de Almeida (que, como se recorda, discursara no jantar de homenagem a Américo d’Oliveira). Com a promulgação da Lei Eleitoral para a Assembleia Constituinte, foi acusado de favorecer a eleição de monárquicos, o que não aconteceu, pois estes não concorreram. Foi bastante reprovado por defender amnistias a contra revolucionários (monárquicos) e grevistas, bem como pelas críticas à Lei da Separação, que reputou de exagerada e lhe acarretou tensão nas relações com Afonso Costa.
A participação de Delegados Especiais do Governo Provisório, na fiscalização das assembleias de voto na área do Círculo de Leiria (o que considerou uma afronta aos brios partidários e cívicos do povo do Distrito), bem como manipulações impróprias por parte de elementos do Diretório Republicano nas listas do partido, terão sido determinantes no pedido de demissão de Raposo de Magalhães, levando-o a regressar a Alcobaça.
Na sessão de 31 de Maio de 1911, o Vice-Presidente da Câmara Augusto Rodolfo Jorge redigiu a seguinte proposta: A Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcobaça lamentando profundamente a resolução tomada pelo grande governante deste Distrito e lamentando ainda mais a causa que deu lugar a essa resolução, que mais uma vez demonstra o quanto é nobre e independente o seu carácter e o seu sentir, em seu nome, e em nome de todo o povo do Concelho que representa, tem a honra de lhe manifestar a sua admiração pela forma impecável como desempenhou o seu importante lugar ao qual, pelo Bem da Pátria e elevação da República, sacrificou a sua saúde e os interesses da sua importante casa.
Esta proposta foi muito saudada na Câmara, com a exceção do vereador José de Magalhães que se retirou no momento da votação, pelo que foi decidido deslocarem-se todos à residência de José Eduardo Raposo de Magalhães, a fim de lhe dar conta da deliberação e prestar-lhe homenagem.
Na Sessão de 7 de Junho de 1911, o vereador Ceslau Ribeiro dos Santos, fez a seguinte exposição:
Lamento que não pudesse assistir à última sessão desta Câmara, por julgar essa ocasião a melhor oportunidade de lamentar o meu enérgico protesto contra a atitude do Governo, mandando delegados seus fiscalizar as assembleias eleitorais onde o predomínio republicano era evidente, considerando essa fiscalização uma afronta e alta desconsideração ao sincero e leal carácter do partido republicano deste Concelho, que tantas provas tem dado do seu honrado civismo. E ao mesmo tempo desejo fazer sentir nesta sessão quanto é o meu enorme pesar, que me vai na alma, pela demissão do ex-chefe deste Distrito, Ex.mo Sr. Dr. José Eduardo Raposo de Magalhães, por a considerar um desaire, ou até mesmo um desastre, na boa orientação dos serviços da República do mesmo Distrito. Em vista pois tão lamentáveis ocorrências que ferem e magoam o coração de todos quantos o sangue puro lhes punha nas veias pela prosperidade da Pátria, proponho (o que foi aprovado por unanimidade): que se lance na acto um voto de louvor ao mesmo Ex.mo Sr. Dr. José Eduardo Raposo de Magalhães, pela sua nobre resolução e bem assim ao Sr. José Coelho da Silva, que lhe seguiu o exemplo, pedindo a demissão de administrador do Concelho.
O Centro Democrático de Alcobaça, nomeou uma comissão de personalidades locais com o objetivo de lhe fazer chegar uma mensagem de desagravo, apreço e estímulo, da qual também faziam parte o Governador Civil interino/Eduardo Martins da Cruz, o proprietário/José de Oliveira Zúquete, o notário/João Pereira Gomes, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Leiria/José Jacinto de Assunção e o Administrador do Concelho/Gaudêncio Pires de Campos.
Para festejar a vitória da lista oficial do Partido Republicano, onde já havia várias e profundas clivagens, houve manifestações de regozijo na Vila, com um cortejo a partir do Centro Democrático Republicano (onde a Fanfarra de Alcobaça tocou A Portuguesa e foi servido uma taça de champanhe aos amigos correligionários), com a participação de algumas pessoas dando largas ao contentamento. Este cortejo dirigiu-se, também, a casa de José E. R. de Magalhães que desceu para agradecer.
A Filarmónica da Maiorga, no dia seguinte, acompanhada de vários populares e empregados da Companhia de Fiação e Tecidos, aonde não faltou Fernando Alípio Sá, no meio de vivas e foguetes, dirigiu-se para o Centro Republicano que festejava o seu 4º. aniversário com a presença da sua pequena banda.
Terá também sido importante no pedido de demissão, a publicação do Decreto, de 4 de Maio de 1911. José Eduardo Raposo de Magalhães, como agricultor e burguês mais que político, defendia um nacionalismo agrário redentor, um Portugal que precisava para além da mudança de regime, a emancipação económica contrariando a crónica dependência do estrangeiro.
Magoado com o que qualificou de facada pelas costas, liderou um movimento contra o diploma, para o que chegou a editar e distribuir a suas expensas o opúsculo Aos Proprietários e Lavradores do Concelho d’Alcobaça. Considerações Acerca das Declarações, que lhes são Impostas pelo Decreto de 4 de Maio de 1911, em que atacava a política fiscal governamental relativamente à propriedade fundiária e agrária. A partir daqui, a política ativa deixou de fazer parte dos seus objetivos e interesses imediatos, pelo que orientou a vontade e energia, para os afazeres e gestão da propriedade agrícola. Todavia, veio a integrar algumas Comissões Administrativas Municipais depois do sidonismo. Até morte viveu, na sua Quinta da Cova da Onça/Alcobaça, situada na antiga cerca do Mosteiro.
Raposo de Magalhães, concluía que uma coisa era o que a propaganda republicana dizia antes da implantação da República, o que depois era feito e o que era dito sobre o que então fora dito. Mas isto era, é, um problema nacional.

Portugal era um país incipientemente industrializado e com pequenos centros urbanos. A maioria da população vivia no campo, onde fazia uma agricultura de subsistência e sem horizontes. J. V. Natividade, no entanto, havia de descrever Alcobaça, com carinho: Neste oceano de verdura aparece Alcobaça, cercada de pequenos montes, cobertos de pujante vegetação, que a protegem como poderosa muralha natural. A casaria branca parece erguer-se do seio dos rios que a cruzam e, como um bloco gigantesco, o enorme mosteiro domina ainda hoje, como outrora, a povoação que se estende a seus pés.
Alcobaça não era um lugar no fim do mundo. Havia uma estação de caminho de ferro em Valado de Frades, a cerca de cinco quilómetros, embora servida por maus acessos.
Em cada Verão, as famílias com mais posses, iam passar temporadas de um a três meses de banhos, à Nazaré preferentemente ou a S. Martinho do Porto.