quinta-feira, 27 de março de 2014

BRINCADEIRAS DO ANTIGAMENTE

BRINCADEIRAS DO ANTIGAMENTE
(onde intervém o circo ambulante e o farrusco)

Fleming de Oliveira


Francisco da Adelina, recorda-se da vez em que, muito garoto, foi tirar comida do prato do farrusco, o seu cão de estimação, com que brincava, dava trambolhões, para desespero da mãe aparecia em casa com os joelhos escalavrados e nódoas negras nas pernas.
E também, quando com uns três ou quatro anos foi dar banho a um pintainho, para ver se ele sabia nadar tal como os patinhos. Claro que o pinto em breve ficou muito quieto, e não mais se mexeu.
Mais tarde, casado, passou-se consigo um caso curioso que nos contou, também com um cão. Era dono de um bonito cão, de boa raça, no qual tinha a maior confiança como animal de guarda. Certa vez necessitou de sair por dois dias. Possuía em casa um cofre, onde guardava diversos objetos de valor. Imaginando que na sua ausência alguém poderia assaltar a casa, resolveu trancar bem as portas e janelas e para maior garantia deixou o cão próximo. Quando regressou observou que a casa continuava fechada, intacta tal como o cofre. Porém, olhou em volta mas não viu o cão. Tinham roubado o animal!

Antes da II Guerra, de quando em quando uma família de aspeto pobre chegava ao entardecer. Parecia vir das fundas dobras do tempo. O homem rufava um tambor, estendia no chão uma manta. Uma menina, de cetim coçado, fazia o pino e contorcia-se. No arco do corpo esguio, apanhava para trás os tornozelos, rolava, esperava os aplausos, fletia o joelho numa vénia como de principesco aceno de dignidade. O homem colocava no chão um lenço, a menina dobrava a coluna para trás, descia lenta e apanhava o trapo com os dentes. Uma ou outra pequena moeda era atirada pelo círculo da assistência, para o boné. A maioria desandava chegado o momento da contribuição. Nada superava, porém, na opinião de Francisco da Adelina o exercício do cachorrinho que conseguia colocar as quatro patas no gargalo de uma garrafa, em perfeito equilíbrio. O raio do cão, depois disto fazia esquecer a menina, acrescentou. Era mais espetacular ainda que o homem que bebia petróleo e vomitava fogo.
Nas noites de sábado, havia bailes familiares em adegas, animados pela música de uma concertina.
Mais tarde passou a ser bastante frequentada, nos domingos dos Montes depois da missa, a taberna do Fernando Bento, cujos clientes se passaram para a de Zé Filipe, quando ela fechou e onde se bebiam uns copos, enquanto se jogava à sueca ou bisca, discutia a política da terra ou mulheres, por vezes de forma tão animada que apareciam de repente facas ou mesmo podões, para ajudar a fazer vingar as opiniões.



PRAIAS, (bons) USOS E COSTUMES,O CATITINHA E BONPERNASSA

 
PRAIAS, (bons) USOS E COSTUMES,O CATITINHA E BONPERNASSA
(Um apontamento do Portugal no Estado Novo)


Fleming de Oliveira

O Estado Novo, a partir de certa altura, ainda antes da II Guerra, havia começado a investir no turismo balnear,  ainda que em detrimento do tradicional turismo termal, como forma de captar mais receitas e divisas. As praias, por excelência, eram a Costa do Estoril, Figueira da Foz, Espinho e Póvoa de Varzim. Até o Algarve, zona periférica, se tornar o grande fator de atração, ainda iria mediar muito tempo. O desenvolvimento do turismo, acarretou alterações nos hábitos e na moral nacionais. A praia, o sol e o calor, estavam conotados como uma vida menos regrada, mais despretensiosa ou liberal. Apesar dos apelos e de alguma condescendência aos novos hábitos, o salazarismo, continuava a impor uma moral puritana, por alguns já considerada obsoleta. O País sofreu um choque com a chegada da vaga de refugiados, cujos hábitos e cultura eram bem diferentes. Ainda nos recordamos de ouvir dizer com ar galhofeiro, misto de depreciativo, que a esplanada da Pastelaria Suíça, nos Restauradores, nos tempos da II Guerra era conhecida como a nossa BONPERNASSA, pela relação com a exibição de pernas de mulheres, que até fumavam em público.
O Dec. Lei nº 31247, de 1941, afixado em editais pelas capitanias marítimas, havia imposto às senhoras, sob pena de multa, um fato de banho adequado, inteiro, sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido nas axilas, os homens calção justo à perna e reforço da parte da frente cobrindo o ventre, o que dava muita canseira aos zelosos cabos-do-mar, envolvidos nas praias, qual jogo de gato e rato.
Num país com um regime que obrigava as professoras primárias a pedir autorização ao governo para casar, as mulheres a ter autorização do marido para exercer comércio ou ir ao estrangeiro, não é de espantar que a indumentária das pessoas fosse regulamentada, não sendo permitidos modelos considerados ousados. Tudo, enfim, em nome da moral e dos bons costumes. Ou, como justificava o referido Decreto-Lei, relativo aos modelos de fato de banho, para salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam. Ainda magro e adolescente, lembramo-nos de termos de usar um fato de banho com calção quase até aos joelhos, com uma saia dianteira que ocultasse eventuais entusiasmos (viris) e uma camiseta de alças, à moda dos antigos olímpicos, que tapasse algum pelo que ousadamente despontasse no peito.
O cabo de mar, uma autoridade vestida de branco da cabeça (boné) aos pés (sapatos), era o fiscal intransigente na defesa da moral. Hoje, se alguém se apresentasse numa praia portuguesa, nos preparos que a lei prescrevia então, seria alvo de suspeita e não por parte de um polícia, mas de um psiquiatra que duvidaria da sanidade mental. As regras que impunham decência no vestuário continuaram legalmente em vigor por vários anos. Mas, com o correr do tempo, na prática foram cada vez mais sendo postas em causa. Para isso, muito contribuiu o turismo que, na década de sessenta, começou a procurar o nosso país como local de veraneio, onde cada vez mais, apareciam ingleses, franceses, holandeses e alemães, com indumentárias ousadas para os nossos padrões e costumes.
Foi a época da mini-saia (a britânica Mary Quant) e do biquini, das longas e despenteadas cabeleiras para os rapazes (beatlemania). E se muito boa gente, ainda se escandalizava com a pouca-vergonha das vestimentas dos estrangeiros, outros, especialmente a juventude, adotavam alegremente as novas modas.
O nazareno Manel Bexiga, recorda um caso, ocorrido nos primeiros anos da década de sessenta, na praia. Se é verídico ou anedota não podemos atestar. Conta ele que por lá apareceram umas francesas, de biquini, num areal onde todas as senhoras e raparigas só usavam fato-de-banho.
Então o cabo do mar foi falar com elas, tentando, com as poucas palavras em francês que aprendeu com a irmã concierge em Paris, ou talvez mais por gestos, explicar-lhes que ali, na Nazaré, só era permitido usar fato-de-banho de uma peça. Só uma peça, uma só, tentava o pobre homem explicar. Então as francesas disseram que sim, tinham compreendido muito bem, só não sabiam era qual das duas peças era para tirar, a de cima ou a de baixo.
Quando as férias eram um mês de praia, com casa e barraca alugadas, metade do Ribatejo e Estremadura mudava-se para a Nazaré apesar da água frias, com o picadeiro, a lota, o salva-vidas e o grande promontório do Sítio. Havia, nesta e em praias como a Figueira da Foz, um ambiente de algum charme de gente fina, como se fosse de luva branca. Uma nova burguesia que se queria afirmar como distinta, adotava estereótipos em voga para se identificar.
A praia, era o palco por excelência da infância e adolescência, e despertava o imaginário para a vida, singrando nas ondas da água ou nas da areia. À beira das barracas listadas a azul ou a verde, quando a tarde esmorecia e a brisa se levantava, jogava-se o prego, o anelinho, o ring. Acertar com o anel de borracha na eleita pertencia ao ritual da iniciação. Quando as gaivotas voavam atras das traineiras que regressavam, com o sol a queimar de oiro a babugem das ondas, sentados na areia, passavam no grupo segredos, afagos de mão ou beijos castos sempre recusados em alarido ao dono da prenda que está para sair. Segundo o crepitar do brilho do amor, ele ou ela, tudo combinado na força da fuga do olhar, quando o anel passava nas mãos em concha fechada. 
Fora desta, nas mesas das esplanadas ou cafés, o vocabulário pretendia-se mais cuidadoso, mas de circunstância. Os veraneantes bem aperaltados, embora já um pouco leves no trajar, à inglesa, iam para a sala para uma batidela de cartas (king, bridge ou canasta). Enquanto isso, as mães de família com os penteados alteados e enformados, metidas em vestidos já graciosamente decotados, abanavam os leques para fazer frente aos caloraços, e matavam o tempo bebericando um chá ou um refresco à espera do consorte.
As raparigas exibiam vestidos camiseiros, de godé, nylons ululantes, meias de seda (de vidro), realçando a curvatura da perna depilada que se vinha calçar no sapatinho. Muitos rapazes trajavam de branco, calça, camisa e sapatos.
E não faltavam os bailes de estação, com o que se pretendia recuperar a belle epoque, organizando para o efeito concursos, como a mais bela da praia, o mais original vestido de chita ou o baile das vindimas. Rapazes e meninas espigavam na hora do picadeiro (após o jantar), para cá e para lá, olhares melados no momento de cruzarem, ancorados nas regras da civilidade e etiqueta. As mães pensavam que tendo as filhas debaixo de olho podiam adormecer sossegadas. Dos pais sabia-se que mantinham as aparências e talvez rezassem pela virgindade das filhas. Tudo funcionava regularmente, como convinha. Mas com o tempo tudo mudou.
Bolacha americana era doce e torradinha. Na marcha sobre a areia quente, ouviu-se mais tarde um olha a língua da sogra, sem adjetivos. Será que também deixou de ser doce e torradinha? Eram iguais no açúcar e na consistência mas esta parecia transportar algo entre brejeirice e anedotário. Virara espátula recurvada e longa, comida a dentadinhas demoradas. As bolachas não eram para matar a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Sempre que aparecia, um mundo de gente pequena abeirava-se dele. Era o Catitinha, um homenzarrão velhote de longas barbas, que percorria as praias do país de norte a sul, do Minho ao Algarve, brincava com todos os miúdos e tinha um apito para chamá-los. Nunca o vimos pedir, mas também nunca o vimos com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, possivelmente não faltava quem lhe tapasse a fome e o frio, porque todos (mesmo mais velhos) já antes o tinham ouvido. Ninguém lhe pagava, ninguém lhe agradecia. O Catitinha para muitos era como uma instituição, um avô de todos. Dizia-se que tinha sofrido um grande desgosto, a morte de um filho, e ficou sem tino.                                                                                           
Por essa altura, o jornal satírico Os Ridículos, publicou uma caricatura de um cabo do mar em funções, devidamente uniformizado de branco, boné e sapatos, utilizando uma fita métrica para medir uma banhista de formas generosas e arredondadas, com o comentário que doravante os fatos de banho, das senhoras, não podem ter menos de metro e meio de pano nas costas. Segundo preconizava a M.P.F., que pretendia guiar as mulheres de Portugal e criara mesmo um modelo oficial, os fatos de banho femininos excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras eram proibidos pela moral cristã.
Em 1955, O Alcoa, de 22 de Setembro, na primeira página e com todo o destaque, sob a epígrafe de Decência e Moralidade nas Praias-Escárnio da Autoridade e Inimigo da Pátria, alertava os leitores sob a pena de M.J., exprimindo um forte grito de desabafo de um banhista da Nazaré, para o despertar desta nova realidade de impudor que alastrava, parecendo que os homens entravam em competição desenfreada com as mulheres. (…) Como é possível isto em Portugal? (e aqui ao nosso lado na Nazaré?, acresecentamos nós.) E a nossa surpresa não tem limites, quando somos informados que neste nosso País existe lei, muito clara e categórica, que desce até à determinação da qualidade, dimensões, e locais de uso dos fatos de banho, não deixando de mencionar as graves penas em que incorrem os transgressores (…). Afinal para quê? Para que quem chegue verifique, que grande parte, talvez a maior parte dos banhistas, se apresentam na praia e até fora dela, desacatando as ordens legais e a autoridade. Efectivamente, fez-se tudo quanto podia para o desprestígio da autoridade e para sancionar o libérrimo reinado da tanga (…).
Ainda bem que a vida muda, embora por momentos isso nos pareça acarretar desconforto.
Recentemente, na praia, vimos um homem das Bolas de Berlim. Estávamos com a nossa neta. Nem pensamos duas vezes. Chamamos por ele e pedimos uma bola, mas foi uma profunda desilusão. O homem não tinha bolas com creme e vendeu-nos uma muito seca, pela qual não obstante cobrou um euro.
A partir daqui nem pensar mais no antigo e esquecido pregão frut’ó chocolate, que nos levaria direito ao bar da praia e obrigaria a comprar um gelado, a um preço exorbitante.
Afinal, a praia também mudou muito. Longe vão as Bolas de Berlim fresquinhas ou caracóis, como apregoavam as mulheres fardadas de branco que, de manhã à noite, caminhavam na areia, com as caixas de lata cheias de bolos, à cabeça. Mas também havia, os vendedores de bolacha americana. Estes eram homens e a lata cilíndrica que transportavam às costas tinha uma espécie de roleta na tampa. Bolacha americana doce e torradinha! Porquê americana? Soava bem, mas não sabia a liberdade... Era redonda e de reticulado impresso. Na marcha sobre a areia quente, ouvia-se também um olha a língua da sogra, neste caso sem adjetivos, como convinha. As bolachas não eram para a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Não há mais cabo do mar, Bolas de Berlim com creme, vendedores de barquilhos, nem o homem dos gelados, factos muito importantes, na praia da nossa adolescência.



O MANEL VAI A BANHOS NA NAZARÉ

 

O MANEL VAI A BANHOS NA NAZARÉ
(há mais de cinquenta anos)



Fleming de Oliveira


Nos meses de Julho e Agosto, já lá vão mais de cinquenta anos, era habitual a Manuel de Sousa, de Aljubarrota, ir com o irmão à praia. No final do dia era o grande momento do banho, quando a maior parte dos banhistas já enrolava as toalhas, se despia nas pequenas barracas às riscas, e o sol pintava no horizonte as suas cores de postal ilustrado. Iam para a Nazaré só depois do almoço, apanhando uma boleia, pois de manhã ajudavam em casa.
Aos fins de semana, o Manuel e o irmão mais novo iam com os pais no Morris preto de duas portas, bem como o proeminente abdómen do amigo da família, o senhor Manuel eletricista, com que este enfrentava as vagas mais alterosas do mar no intuito, presumiam na sua ingenuidade, de o reduzir a estéticas proporções, não escapando entretanto, por isso, ao epíteto de barriguinhas com que era o mimado. Nesses dias, iam de manhã, alugavam uma barraca, onde comiam o almoço feito pela mãe.
A meio da tarde, cumpridos que eram os processos digestivos e metabólicos que aliviavam o estômago e por vezes os intestinos, Manuel e o irmão afilavam as orelhas tentando antecipar o pregão do homem dos gelados, Olh’ó Rajá fresquinho, olh’ó Rajá fresquinho, estão a chamar, a chamar por mim, mas eu já lá vou! Outras vezes eram as batatas fritas, comidas de permeio com os grãos de areia que a sofreguidão não deixava limpar das mãos. Ou ainda os barquilhos, também chamados língua da sogra. Estas são uma imagem mágica que Manuel de Sousa retém da infância e início da adolescência. A voz distorcida pela corneta despoletava nos garotos uma tentação irresistível, pais, avós, vizinha, não importava quem, alguém tinha que soltar uma moedinha para comprar língua da sogra. Ninguém sabia quando, nem donde saía o homem com a lata às costas e a corneta na boca. Manuel de Sousa sabia apenas que a lata era como uma arca do tesouro. Vestido de branco ao longo dos quilómetros da areia, o homem dos barquilhos, carregava suadamente o cilindro com roleta na tampa, que oferecia o acaso do número das bolachinhas cónicas, umas sobre as outras, no rodopio da palheta a raspar a gradinha. Barquilheiro! apregoava ele a prolongar a penúltima sílaba. A estas, havia direito em maior ou menor quantidade, conforme o número que a roleta situada na tampa do enorme balde vermelho de metal ditava. Qualquer que fosse o número da sorte, cada rodada custava cinco tostões. Manel e o irmão nesse dia mais uma vez pediram ao pai uma moedita, fizeram girar a roda da sorte e saíram-lhes, ao todo, cinco barquilhos para os dois.
Os vendedores de gelados também eram uma constante na avenida marginal. Tocavam freneticamente a campainha do triciclo anunciando o gelado de vários paladares com um fruta ou chocolate.  O cone mais pequeno custava $50 e o maior um escudo
Quase ao pôr do sol a família Sousa e o Manel eletricista faziam o caminho inverso para Aljubarrota, bem apertados no Morris. A roupa encostada ao corpo queimado pelo sol, arranhava a pele do Manel. Mas era gostoso. No próximo fim de semana, lá estariam todos outra vez, se o tempo ajudasse.
Que bom é ir à praia.


ADEUS AO MUNDO RURAL?

 
ADEUS AO MUNDO RURAL?

Fleming de Oliveira

O sociólogo Moisés Espírito Santo, escreveu que a decadência dos centros urbanos é um fenómeno muito português, as nossas velhas aldeias tornaram-se paisagens deprimentes como que cenários para filmes de terror ou que parecem ter saído de uma guerra destruidora; os novos abandonaram a casa dos pais para construir a crédito uma ao largo, nos terrenos agrícolas de que viveram os antepassados, enquanto a terra só passou a ser valorizada pelas suas potencialidades de construção. A cultura mudou? Não. Só se transferiu da aldeia para a cidade.
No século XX, especialmente depois do último quartel, o mundo rural transformou-se radicalmente, sem que Alcobaça se tivesse revelado exceção. Nessa altura, o País ainda produzia mais de metade do que comia, havia um certo equilíbrio entre o mundo rural e a cidade. A crescente urbanização, o desenvolvimento da indústria, a modernização da agricultura e o êxodo rural fizeram desaparecer, definitivamente, formas de vida ancestrais. Hoje produz-se um quarto do que se gasta à mesa, desmantelou-se uma cultura e sabores que demoraram gerações a construir. Pagou-se aos agricultores para abandonar os campos e ficar sentados a ver passar o tempo, desmembrou-se a floresta tradicional em troca do eucalipto (petróleo verde?), o que agrava a desertificação e os incêndios e verão.
Um amigo, dizia-me recentemente  que recordações me trazes, meu caro Fleming! Na Póvoa (Coz), nos idos anos de 60, que saudades eu tenho de ir em cima de um carro, puxado por dois bois castanhos, obedecendo cegamente à ordem do Sr. Manel da Ludovina. Isto, quando íamos buscar pasto ou outra carga. Na vinda, eu já vinha sentado uns bons metros acima do chão, o que fazia com que tivesse viajado muitas vezes deitado de rabo para o ar e de braços bem abertos para me agarrar à carga. E o mais curioso é que não esqueço quando apanhei um enorme susto quando, numa viagem de regresso, com os meus seis ou sete anos, deixei de ver e ouvir o Sr. Manel a tocar os bois. Mas queres saber? Eles sabiam o regresso a casa e, assim, o Sr. Manel podia atalhar caminho.
O genocídio a que se tem assistiu durante as últimas décadas em Portugal tentando, ao que parece, acabar com as marcas da ruralidade, como se essa fosse a solução para os nossos problemas de atraso e de subdesenvolvimento económico-cultural, levou a que se esteja a perder uma grande parte da nossa identidade coletiva e que o património cultural e natural, caminhe para a descaracterização e até extinção.
Não basta recuperar para fins turísticos uma dúzia de aldeias, ditas históricas, ou organizar uma outra dúzia de feiras de artesanato ou gastronomia. Falta um projeto nacional que encare o mundo rural como parte integrante da nossa riqueza pois, quer queiramos ou não, provavelmente é esse legado que nos faz diferentes num mundo cada vez mais igual e será valioso. Em cada verão que passa, parte desse mundo é reduzido a cinzas. Saibamos interpretar esse facto como um sinal, um apelo, um pedido desesperado de atenção e ajuda para travar um processo de lenta agonia, que invariavelmente conduzirá à desertificação humana, cultural e ou mesmo natural, de uma grande parte do território nacional. O mundo rural é uma terra de velhos.
O Francisco da Adelina, segue o conselho do médico de família, de andar a pé, no seu vagar, pelo menos meia hora por dia, para além do casario a cerca de quinhentos metros. Só depois se senta com os amigos no seu refúgio da paragem do autocarro, no adro da igreja, a gozar a tarde soalheira ou cinzenta, o céu azul ou carregado de nuvens que ameaçam chuva.
Como muitos do seu tempo, tem memórias do antigamente, de preferência boas. Outras menos boas. Recordações que pareciam sumidas da memória, aparecem agora nítidas para nos contar, ainda que um pouco desfocadas, com pormenores na altura tidos por pouco importantes, no meio de tanta rotina lenta, como o passo de um carro de bois do antigamente.



terça-feira, 25 de março de 2014

DIZER NUNCA É PROIBIDO

FLeming de OLiveira

Já passei por lá, de propósito ou não. Seguramente, os meus leitores também, não é verdade? Sejamos francos, embora não gostemos de ser lá vistos, já todos demos um salto ao charco, porventura mais do que uma vez. Sim, o charco onde vivem esses sapos que temos de engolir de vez em quando, pode ser um sítio muito concorrido.
O que vale é que, quando se trata de relações de proximidade, argumentamos que os sapos que temos de engolir, são por uma boa causa, pelo melhor dos motivos. E invocamos razões ou chavões como felicidade, vida a dois, convivência ou futuro sonhado com os filhos, para justificar por que raio de coisa afinal voltámos atrás naquela decisão tomada tão irrevogável e definitivamente. Bom, pesados os argumentos, os pró e contra, esta é a mais nobre das razões para dar o dito por não dito.
Atenção, caros leitores, que fique claro, não vejo mal nenhum em engolir sapos. Faz parte do processo de crescimento ou mesmo de vida voltar atrás com o que se disse, bater a bola baixinho quando há que dar razão a quem não se gosta. E assim acabamos por fazer exatamente o que sempre dissemos que nunca faríamos.
O que se passa é que, acredito que o motivo para engolir tanto sapo decorre de usar palavras como jamais nunca ou sempre. Quando mais agarrados estivermos a princípios inabaláveis, daqueles de que não abrimos mão nem que a vaca tussa, mais facilmente nos pomos a jeito de deglutir esses batráquios de olhar esbugalhado. Sou cínico ou volúvel?
Não, o problema não está nos princípios, nos valores, nos escrúpulos. O problema  está no facto de acharmos que aqueles princípios que assumimos como tão firmes, tão inquestionáveis,  não são passíveis de abdicarmos deles. Profundo erro!
Se em nome de alguma coisa mais ou menos importante, tivermos de abdicar disto ou daquilo, abdicamos mesmo e ponto final, parágrafo. Nos momentos-chave, quando somos confrontados com situações complicadas, das que causam mossa, das que nos fazem chorar, telefonar à mãe, ao pai ou ao melhor amigo, perder o sono, se acreditamos que dar uns passos atrás, é o caminho mais direto para a nossa tranquilidade, então só temos de nos pôr ao caminho.
Querem alguns exemplos? Eu até era incapaz de desculpar uma traição. Conversa. Ele sempre achou isso, até ao dia em que…. perdoou. Não foi uma decisão fácil de tomar, mas tomou-a e passou a viver com as consequências, dúvidas e incertezas, pois claro, mas lá concluiu que valia a pena.
Eu era incapaz de trair. Bom, este parece um exemplo mais fácil. Era tanta a certeza de que jamais o faria, que no dia em que o fez, nem sabia  por que carga de água não o fizera antes.
Querem mais? Não era capaz de me envolver com um homem mais novo. Casar outra vez? Jamais viveria com uma mulher que me sustentasse.
As certezas absolutas são tão perigosas como rasteiras, e não apenas na política, como diz um amigo. A gestão dos afetos é tão difícil, obriga a tantos golpes de cintura, que mais vale não criar tantas regras para não termos de passar a vida a infringi-las. E a engolir sapos.







-PRIMÓRDIOS DOS TRANSPORTES E TELECOMUNICAÇÕES EM ALCOBAÇA (inícios do sec.XX).
UM VEÍCULO (automóvel) A DEITAR FUMO E SEM CAVALOS-

Fleming de Oliveira
O silêncio e pacatez da vila, até então uma vez ou outra interrompidos pelo tropel de cavalos, do cantar das rodas dos carros de boi, foram quebrados por um estranho barulho. Todos correram à  porta e janelas para ver o que estava a ocorrer, venham ver...  um pequeno veículo preto sem cavalos !!!, de pneus maciços, aros de madeira, recobertos de borracha dura, que depois de parado algum tempo em frente ao Mosteiro, havia arrancado em direção a Caldas da Rainha.  
Oh vizinho, já me está a ver com um veículo daqueles?  O mundo está perdido, nunca se viu vi um bicho desses aqui na terra. Até deita fumo.

José Almeida e Silva, não foi propriamente um sportsman no sentido britânico da expressão, mas um proprietário rural abastado, inteligente e ativo, que dispunha de uma especial curiosidade pelas engenhocas. Desempenhou ainda funções como Vereador, Presidente da Câmara e Administrador do Concelho. Em 1889, requereu à Câmara de Alcobaça licença para estabelecer uma linha telefónica, com cerca de dois quilómetros de comprimento, a ligar a sua residência na Quinta de Stª. Teresa, nos Capuchos, à de seu sogro José de Sousa Leão em Alcobaça. Foi Almeida e Silva quem instalou, no primeiro andar do prédio onde funcionou a Farmácia Campeão e sede do PC, o primeiro telefone que houve na Vila, uma novidade mesmo em Portugal, dado ter sido inventado nos Estados Unidos em 1875 e introduzido na Europa em 1877.
Em Alcobaça havia telégrafo pois, em 6 de setembro de 1865, foi pedido ao Dr. António dos Santos Brilhante, para que conjuntamente com o deputado do Reino, o alcobacense António Lúcio Tavares Crespo (que viria note-se a ter papel importante na instalação do elevador do Sítio da Nazaré), diligenciasse no sentido da criação de duas instalações telegráficas, uma em Alcobaça e outra em S. Martinho do Porto. Instalado o telégrafo, constatou-se logo e com grande preocupação que a estação de Alcobaça seria uma das que fechariam no quadro de anunciados cortes orçamentais do governo, se, porventura, a Câmara Municipal não requeresse em tempo a sua conservação, o que veio a acontecer corria o ano de 1869.
Só a 22 de abril de 1929 se inaugurou a primeira cabine telefónica na vila de Alcobaça, em luzida e concorrida cerimónia sob a égide do Governador Civil de Leiria, o carismático e antigo combatente nas trincheiras da I Guerra, Ten. Silva Mendes (mais tarde capitão). Pelas 16 horas, nos Paços do Concelho, realizou-se uma sessão solene, enaltecendo-se a importância do acontecimento, que a Ditadura Nacional propiciava. Seguidamente, as individualidades rumaram à Estação Telégrafo-Postal para inaugurar formalmente a rede telefónica que dispunha de 52 assinantes e à noite, a Câmara Municipal ofereceu aos convidados um banquete.
Recordem-se alguns dos primeiros números telefónicos atribuídos em Alcobaça: 1-Central Telefónica, 2-Câmara Municipal, 3-Secretaria Judicial, 4-GNR, 6-Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, 9-Sociedade de Automóveis Cruz de Cristo, 10-José Emílio Raposo de Magalhães, 17-José Sanches Furtado, 26-Sindicato Agrícola, 27-Dr. Mário Pina Cabral, 32-Asilo de Mendicidade, 42-Pensão Restaurante Corações Unidos, 45-Comissão de Iniciativa e Turismo, 46-Secretaria de Finanças, 48)Hospital da Misericórdia, 50-Associação Comercial e Industrial.
As telecomunicações, embora devagar, iam crescendo. O Chefe dos Correios, Telégrafos e Telefones de Leiria, em Março de 1932, contactou a Câmara Municipal para prestar colaboração no sentido da instalação de Postos Telefónicos nas sedes de algumas freguesias do Concelho. Almeida e Silva ainda dirigiu a instalação do telefone de segurança no elevador da Nazaré, aquando da sua inauguração em 1899.

Segundo reza a tradição, a primeira passagem de um automóvel pela vila de Alcobaça, terá acontecido no terrado em frente ao Mosteiro, em data incerta, o mais tardar em 1898, o que causou grande emoção, senão mesmo algum temor entre os populares uns que fugiram ou que foram afoitamente a correr atrás dele, durante algum tempo. Porém, a primeira referência escrita conhecida à existência de um automóvel em Alcobaça, consta do Semana Alcobacense, de 30 de Abril de 1899 e diz respeito a um automóvel que se deslocava em direção a Caldas da Rainha. Almeida e Silva entusiasmou-se pela novidade pelo que foi encomendar um automóvel ao Porto, nos Estabelecimentos João Garrido, com sede na Rua Passos Manuel, um Clement, que demorou a ser entregue ao comprador (Dezembro de 1899), pois teve problemas na alfândega, que não sabia como o classificar e lhe aplicou uma taxa exorbitante só suportável por pessoas abastadas. Foi este o primeiro automóvel a ser propriedade de um alcobacense, pelo que antes de começar a circular esteve em exposição pública, no pátio do Palacete Costa Veiga, à Rua Frei Fortunato.
As estradas na região de Alcobaça, aliás como no País em geral, eram muito más, principalmente em condições climatéricas desfavoráveis. As queixas eram mais que muitas, concretamente por parte dos que iam de Alcobaça a Nazaré, a Caldas da Rainha, a Rio Maior ou Leiria. O panorama era sempre o mesmo, e segundo a imprensa as estradas cheias de barrancos dificultando todo o género de transportes e o público bramando, possuído de toda a razão, porque um tal estado de coisas o prejudica gravemente, dificultando a sua importação, entravando a sua exportação e, atrás disto, enchendo de embaraços tudo o mais que constitui o movimento recíproco e constante de todos os povos. Isto, em certa medida, ajuda a compreender que, no ano de 1900, se tenham vendido em todo o País apenas 13 automóveis. Note-se que, em 1901, foi publicado o esboço do primeiro Código de Estrada, em 1902 se realizou o Raid Figueira da Foz-Lisboa, com passagem e paragem (para almoço) por Alcobaça e termo na Igreja do Campo Grande. Dado o impacto destas iniciativas, foi fundado o Real Automóvel Club de Portugal, o que ajudou a que o automóvel  se começasse a vulgarizar, embora a ritmo menor que na restante Europa.
Não admira também por isso que a visita em automóvel, em Janeiro de 1903,   que o Príncipe (herdeiro) Luís Filipe e o seu irmão Infante D. Manuel (futuro D. Manuel II), fizeram a Alcobaça, tivesse tido muito público e entusiasmo no terrado do Mosteiro, talvez mais pelo meio de transporte, que por razões políticas ou afetivas com a casa real.
Durante alguns anos mais, os transportes em Alcobaça iriam continuar a fazer-se, fundamentalmente, em veículos de tração animal. Assim, em Julho de 1904, João dos Santos Carreira, tomou de trespasse a carreira semanal entre Alcobaça e Lisboa, que saía da vila ao meio dia de segunda-feira e regressava na sexta-feira, levando encomendas ou dinheiro, mesmo para quaisquer das localidades existentes ao longo do percurso. Este industrial possuía ainda duas galeras e um char-a-banc que alugava para quaisquer serviços, independentemente da carreira.
Mas os automóveis iam ganhando terreno. Em Leiria, corria o ano de 1906, formou-se uma empresa para explorar carreiras automóveis no distrito, tendo-se criado logo o percurso Leiria-Batalha-Porto de Mós-Alcobaça-Nazaré e vice-versa. Aliás, para o serviço de transporte de peixe da Nazaré, foi estabelecida uma carreira viária especial. Porém, a Câmara e as pessoas de Alcobaça queixavam-se em 1910, que o transporte do correio para a estação de caminho de ferro de Valado de Frades (em veículos de tração animal), saindo muitas vezes depois do horário, o que acrescido ao mau estado da estrada, apesar de não ser muito complicado deitar-lhe umas carradas de cascalho, um cantoneiro atento para qualquer buraco que fosse aparecendo e a desgraça não seria tamanha, originava que chegasse depois do comboio, Em Alcobaça  aconselhava-se a utilizar a estrada para o Valado após uma refeição, porque as comodidades da viagem aliviavam rapidamente o estômago.
Por estas razões, o movimento da Estação de caminho de ferro de Valado de Frades estava a diminuir, o que levou a que a CP oficiasse a Câmara Municipal de Alcobaça informando que chegou à conclusão que o movimento de passageiros no Verão de 1910 não fora compatível com os sacrifícios que o horário representava para a empresa, demonstrando impossibilidade de se manter, obrigando mesmo a algumas reduções.
Por alturas de Abril de 1913, o alcobacense António Marques Trindade, tentando acompanhar os ventos do progresso, trespassou a sua alquilaria, (animal) abrindo uma garagem de automóveis para alugar (devidamente montada), na Rua Dr. Brilhante, comprou um automóvel novo, que dirigido por indivíduo devidamente habilitado, alugará a preços módicos para todos os pontos, onde as vias de comunicação se prestem. Como dizia o Trindade, esperava que os alcobacenses lhe dessem preferência nos serviços da sua alquilaria (automóvel), o continuarão obsequiando com a utilização dos magníficos elementos de transporte que agora está habilitado a fornecer-lhes.
Bom, e se havia automóveis, a gasolina como se vendia? Como não havia bombas públicas, era vendida ao litro, tal como o azeite, o branco ou tinto, na Casa Vitorino & Vitorino, que também alugava e reparava bicicletes, vendia pneus, gramofones, as últimas novidades em discos, máquinas de costura e pêndulas americanas.
Só mais tarde, por alturas de 1920, se irão iniciar em Alcobaça diligências com vista a constituir-se uma empresa de viação com dimensão, cujo fim era a exploração dos serviços de condução e transporte de pessoas e mercadorias por meio de camions e outros veículos similares. A encabeçar este projeto, encontrava-se o muito dinâmico Joaquim Guimarães, do Sindicato Agrícola, futura Cooperativa Agrícola de Alcobaça, como voltaremos a referir.