segunda-feira, 31 de março de 2014

UMA BOMBA PARA SALAZAR (1937)



 

UMA BOMBA PARA SALAZAR (1937)

Fleming de Oliveira

Em 3 de Julho de 1937, o Cardeal Patriarca, Manuel Gonçalves Cerejeira ofereceu um crucifixo de marfim ao seu amigo António Salazar e convidou-o a no dia seguinte ir à missa dominical no Patriarcado. Este preferia, por razões de segurança, assistir à missa, celebrada pelo padre Abel Varzim, numa capela particular em casa do musicólogo Josué Trocado, na Avenida Barbosa du Bocage, 96-Lisboa. O prédio fora, como de costume, revistado no dia anterior por agentes da PVDE.
No atentado a Salazar que se seguiu, foi utilizada uma bomba artesanal, uma garrafa de ferro de uso industrial, cheia de explosivos, colocada sob o pavimento no local onde o automóvel conduzido pelo fiel motorista Raúl deveria parar. Apesar de grande cratera, com cerca de 24m de diâmetro, que abriu no pavimento mal Salazar pôs os pés no chão, este saiu ileso. As pedras da calçada voaram, mas não atingiram ninguém.
Mais tarde, Salazar ironizou que, como fiquei vivo terei de continuar a trabalhar. Eu tenho sempre muita sorte nestas coisas.
Esta operação foi executada por anarquistas ligados à CGT, liderados por Emídio Santana, tendo os seus principais autores sido levados a julgamento em Tribunal Militar e condenados a penas pesadas, mas não vieram a ser deportados para o Tarrafal. Durante algum tempo, a operação foi atribuída pelo regime ao Partido Comunista.
Tanto Hitler como Mussolini, enviaram telegramas de congratulações pois, a natureza do atentado define-lhe a origem e a lição que dele se tira é que nenhuma trégua deve ser dada às forças destrutivas e criminosas do bolchevismo. Por sua vez, Cerejeira mal soube do incidente, deu graças a Deus, e encabeçou o coro dos que reforçaram a lenda do carácter messiânico de Salazar.
Salazar, antigo seminarista, ajudava à missa dos domingos em S. Bento. Mas nunca foi visto a comungar. Segundo a governanta Srª Maria, tinha uma licença especial que o desobrigava da confissão e da comunhão.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS.






JOSÉ ANTÓNIO CRESPO, UM ALCOBACENSE ASSOCIATIVISTA NATO O MUDJVENIL EM ALCOBAÇA

 

JOSÉ ANTÓNIO CRESPO, UM ALCOBACENSE ASSOCIATIVISTA NATO
O MUDJVENIL EM ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira


Com cerca de vinte e poucos anos, sem que tivesse tido antes militância política ou especial apetência (mas por não concordar de todo com a situação), José António Crespo, começou a participar nas atividades do MUDJuvenil, em Alcobaça.
Conhecia alguns rapazes que integravam este movimento e sabia ou ouvia dizer que ele era, em parte, controlado pelo PC. Isso todavia, não o impediu de colaborar com o movimento, que era o único, com a exceção da União Nacional (e esta estava fora de questão), que tinha alguma estrutura e capacidade de atuação como pretendia.
O MUDJuvenil podia, eventualmente, não ser uma organização do PC, mas submetia-se à sua tutela, com vista a fazer política e captar jovens de diferentes credos e sensibilidades. O MUDJuvenil, o juvenil como era vulgarmente chamado, teria por alturas de 1947, cerca de 20.000 aderentes ou/e simpatizantes, por todo o País. Por alturas de 1947/48 no MUD, de Alcobaça, incluindo o MUDJuvenil, existiriam uns 300 adeptos, espalhados pelo Concelho, cujos contactos entre si ou com eles, eram restritos e principalmente desenvolvidos por quadros intermédios seniores. Por vezes, os elementos do MUDJ, sem excluir Alcobaça, por uma questão de segurança, usavam pseudónimos, o que todavia não foi o caso de Crespo. Isso dava à ação uma certa áurea de romantismo, especialmente atraente para um jovem idealista, como era. Salvo raras exceções, José A. Crespo desconhecia concretamente quem eram os demais elementos do MUD, bem como a sua atividade. A ação de Crespo, enquanto elemento do MUDJ, não consistia tanto participar em reuniões clandestinas ou discutir a agenda política mas, fundamentalmente, em distribuir propaganda, como o Avante metido por debaixo da porta. O jornal chegava-lhe às mãos ainda com cheiro de tinta, através de militantes  como Gilberto Magalhães Coutinho, tido por afeto ao PC. A distribuição do jornal tanto se fazia de noite, como de dia, não lhe constando que alguém tivesse sido apanhado em Alcobaça em flagrante, quer pela Polícia ou pela PIDE.

Num determinado dia, possivelmente nos princípios de Junho de 1947, José António Crespo recebeu um aviso/notificação para se apresentar nas instalações do Governo Civil de Leiria, sem que todavia, lhe fossem explicadas as razões da convocatória. Deslocou-se para a estação de caminho de ferro do Valado de Frades e aí constatou que havia mais uns 3 ou 4 rapazes convocados para o mesmo destino. A deslocação de comboio para Leiria, fez-se em terceira classe, e à custa de cada um.
Chegados a pé e apreensivos ao Governo Civil, foram interrogados por agentes da PIDE sobre a forma como se processava a distribuição do Avante ou a demais propaganda clandestina, bem como as circunstâncias de impressão, concretamente, onde ou se havia na região alguma máquina para o efeito.
Dado o adiantado da hora e por força dos interrogatórios que deveriam prosseguir, a PIDE não os deixou regressar a casa, sendo todos conduzidos para os calabouços do Governo Civil. Ao entrarem na cela (ficaram todos na mesma), possuidora de grades como qualquer uma e camas baixas/tarimbas, foram revistados, obrigados a tirar o cinto e a gravata, neste caso também por via de dúvidas.   
Crespo não se admirou do procedimento, pois já tinha ouvido dizer que essa medida habitual, tinha um efeito psicológico negativo, além de que era cautelar, prevenia sempre o risco de acidente. Crespo esteve quatro dias detido nos calabouços do Governo Civil de Leiria, sendo interrogado várias vezes, mas nunca foi mal tratado. A comida que não era muito má não vinha do quartel próximo, mas sim de uma pensão, cujos donos eram de Alcobaça, mas que não conhecia. Ao fim daqueles quatro dias, os 5  detidos começaram aos poucos a ser libertados, embora um de cada vez. Quando Crespo e demais companheiros saíram dos calabouços do Governo Civil, para festejar compraram uma cautela comemorativa do 10 de junho que dias depois se veio a revelar premiada com 1.500$00.
Regressados a casa, voltaram aos respetivos postos de trabalho, sem problemas de maior, que no caso de José Crespo era na Resinagem Nacional, Ldª.
A partir de então, não obstante não ter voltado a ser preso, sabia/sentia-se vigiado pela PIDE, ainda que fosse só por rotina, que pretendia saber os seus movimentos.
Silvino, da Caçadora, Chefe da Secção Policial da Câmara Municipal, dadas as boas relações que mantinha com Crespo, quando sabia que havia pedidos de informação da PIDE, dava-lhe prévio conhecimento, bem como da informação prestada.
Tanto quanto sabia (e não teve dúvidas), as informações de Silvino da Caçadora para a PIDE, eram sempre e só por razões de serviço, por iniciativa daquela e no sentido de que não havia nada a relatar em desabono.
Crespo continuou a desenvolver alguma atividade política na oposição, com discrição, concretamente quando se tratou da campanha do Gen. Delgado.
Nesta, embora soubesse de algumas iniciativas, nunca participou em reuniões realizadas na casa da Cela ou noutro local.

Também fez parte do Orfeão Popular Alcobacense, quando era maestro Daniel de Sousa.
Este agrupamento teve curta duração e uma vida atribulada. J. Crespo recorda que em fins de 1946 foi eleita uma Comissão Administrativa (aprovada superiormente), composta exclusivamente por orfeonistas, de acordo com uma proposta de Leonel Belo, aprovada por unanimidade. Esta Comissão era  constituída pelos seguintes elementos: PRESIDENTE: Artur Faria Borda SECRETÁRIO: Fernando Cordeiro e Cunha. TESOUREIRO: Leonel Afonso Belo. VOGAIS: José Serafim Bernardo e Maria Luísa Ventura.
O Orfeão, tinha a fama de ser constituído por elementos da oposição, pelo que, tendo uma vez estado prevista uma saída para um espetáculo, foi à última hora impedido pela PIDE, com o argumento de que era um grupo que desenvolvia uma atividade subversiva e que a iria espalhar.
Por esta, e por outras, o Orfeão morreu na casca.

Em Alcobaça, Crespo conheceu muita gente da oposição democrática, mas nunca teve grandes contactos, nem relações com ela, porque eram pessoas mais velhas e no seu dizer tidas como pertencendo a outro nível cultural ou estrato social. E de indiscutível idoneidade.

Crespo não tem dúvidas em afirmar, que em Alcobaça, também havia informadores da PIDE, os quais eram difíceis de identificar.
Nunca soube, de forma segura, para além da boataria, do nome de nenhum bufo.
Complementarmente à atividade profissional na Resinagem Nacional, Ldª. e na Câmara/Turismo, Crespo dedicou grande parte do seu tempo à vida associativa, associações culturais, sociais, desportivas e recreativas, participando dos respetivos corpos sociais. Destacava a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça, de que foi secretário por diversas vezes no seu tempo mais expressivo, concretamente numa altura em que foi Presidente da Direção o Dr. Amílcar Pereira de Magalhães, os Bombeiros Voluntários, o Clube de Campismo (fundado a 28 de Maio de 1945), o Clube de Natação (de que foi fundador), o Ginásio Clube de Alcobaça (fundado em 1946) de que era o sócio nº 4 e diretor durante 16 anos ininterruptos, a Santa Casa da Misericórdia de cujos corpos diretivos fez parte como secretário da Assembleia Geral desde 1962 até falecer, há cerca de 4 anos. Note-se que o Livro de Actas da SCMA, está quase exclusiva escrito pela sua mão.
Fez ainda parte do Rancho Folclórico O Alcoa, onde além de Diretor, também foi dançarino. Este grupo, que teve o seu apogeu depois da II Guerra, deslocava-se gratuitamente a muitas localidades do País a convite das respetivas Câmaras Municipais e associações congéneres, interpretava números do folclore nacional, embora de maneira estilizada. O traje utilizado, era uma evolução de antigos usados na região. Nas suas atuações em palco, o grupo distribuía-se por conjuntos de quatro dançarinos, cada um composto por dois homens e duas mulheres, num total de quatro grupos e era acompanhado por um conjunto instrumental. Cada conjunto de dançarinos utilizava uma cor, sendo elas o amarelo, o azul, o verde e o vermelho. O traje de José Crespo consistia numa camisa amarela, calça e sapatos pretos, enquanto o seu par vestia de amarelo e usava um chapéu preto sobre um lenço redondo, sem abas, com uma peninha a enfeitar, no jeito da região de Leiria, mas que também utilizado em Pataias..
José Crespo na altura em que entrou para o Rancho, cerca de dois anos após a sua re-fundação, tinha 18 anos, era ágil e tão magro para a altura (1,67m), que nas sortes, ficou isento do serviço militar. Os re-fundadores do Rancho O Alcoa, foram Ernesto Joaquim Coelho, conhecido por Cristo, Joaquim Pedrosa Silvério de Carvalho e Gilberto Magalhães Coutinho. Todos eram dançarinos mas, também chegaram a representar em peças teatrais.
No tempo da I República tinha havido também em Alcobaça durante alguns anos um rancho folclórico denominado O Alcoa, que se extinguiu antes do 28 de Maio. Algumas interpretações do novo O Alcoa, foram recuperadas do reportório do primitivo, como por exemplo a Marcha do Alcoa (indicativo do grupo que iniciava as atuações) ou Manhãs de Abril.
O novo rancho, além da componente folclórica, também fazia teatro, interpretando peças como A Bruxa, Os Sinos de Cornevil e montando uma revista que se intitulou, a Revista de Alcobaça. Nesta, a grande curiosidade decorria de as roupas serem pintadas à mão, na linha da tradicional louça e fruta de Alcobaça. As representações decorriam no edifício da sede, ao lado da antiga escola do Prof. Cravo, em frente à Farmácia Magalhães. Crespo também fez parte do elenco teatral do Rancho, tendo participado naquelas peças, além de outras, as quais dispunham sempre de acompanhamento musical, onde se destacavam no piano Mercedes Campeão, no contrabaixo Calçada, no violino Adelino André e Zezinho Militar, na violeta Carlos Campeão. Os esforçados ensaiadores, eram o casal Carlos e Mercedes Campeão, sendo diretores, entre outros, os irmãos Ernesto e Firmo Almeida, que diziam não gostar de representar.
Na sala, colocavam-se cadeiras, que podiam servir umas 200 pessoas, havia um palco e camarins nas traseiras. O Rancho apresentou-se no Cine Teatro, no dia 15 de Agosto de 1947, com uma revista-fantasia da autoria de Firmo de Almeida. A sala estava cheia e o público no final ovacionou de pé e longamente os artistas, destacando o autor da peça.

José Crespo recorda que, estando em ensaio uma peça em que um elemento deveria entrar descalço, alguém por pura malandrice, resolveu polvilhar o palco com cardas (pequenos pregos que se costumavam utilizar nas botas), o que quando foram calcadas, deram lugar a uma confusão tremenda, com berros e gritos por parte do visado, e do encenador, Carlos Campeão, que não achou graça nenhuma à brincadeira, e muito mal humorado deu por acabado o ensaio.
O Rancho também organizava bailes e outras festas, sempre muito concorridas, por alturas do Carnaval e Fim de Ano, fazendo deslocar orquestras conhecidas e em voga no país.
O ambiente no Rancho era agradável, e os seus elementos encontravam-se, fora dos ensaios e das atuações. Crespo recorda uma noite em que, vários elementos do Rancho foram para casa de Couto Pinho, para palear e beber uns copos. A certa altura, depois da maior parte dos convivas ter bebido água-pé, e comido qualquer coisa, Crespo descobriu a um canto uma garrafa já vazia, que foi encher de água-pé. Todavia, o que não sabia, é que a dita garrafa tinha guardado anteriormente metabissulfito. Assim, recorda, os efeitos que sentiu e outros no dia seguinte, e a revolta que aqueles golinhos lhes deram nos intestinos, uma verdadeira limpeza.

O Rancho O Alcoa ensaiava à noite, depois do jantar, uma ou duas vezes por semana, conforme houvesse ou não atuações. Como era composto por muitas raparigas, algumas das redondezas da Vila, era necessário que alguém as levasse a casa, o que por cautela se fazia em grupos, mais ou menos numerosos. José Crespo gostava da missão para que estava sempre disponível e, quando tinha dinheiro,  também de passar ainda pela Casa de comes e bebes do João Rosa, para beber um copito de tinto, acompanhado por uns jaquinzinhos ou ovos cozidos. Nas saídas do Rancho, as meninas eram normalmente acompanhadas por mães muito zelosas e sempre atentas às investidas dos rapazes.
Numa vez em que o Rancho foi atuar na Praça de Touros de Santarém, o José Coelho,  anunciou a José Crespo que estava com uma grande dor de barriga, pelo que precisava de ir ali e já vinha. Mas como não conhecia os cantos da casa, foi direito a um curro e, como estava escuro, só se apercebeu da presença de um animal, quando ouviu o respetivo mugido. Não obstante, o touro se encontrar preso (como depois veio a saber), o José Coelho ficou tão aflito e perturbado que, mesmo antes do tempo, deu por fim à visita, pondo-se a correr (de calças na mão?).
De uma outra vez, no decurso de uma saída, uma das componentes mais velhas do Rancho, abriu o vidro do carro para cuspir, só que também foi a dentadura. Apesar das aturadas buscas para a encontrar, até hoje ainda não apareceu...

José Crespo admite que o gosto e experiência pelo trabalho em grupo, foi importante para, em determinada fase da vida, ter tido uma atuação  política.
Política ativa e com responsabilidades, só depois do 25 de Abril, quando foi Presidente da Junta de Freguesia de Alcobaça, durante três mandatos. Reclamando-se um homem das associações, salienta, que nunca fez parte apenas duas associações de Alcobaça, o Clube de Ténis e Clube Alcobacense, este tido antes do 25 de Abril por elitista.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS.

O CORETO DA VILA, O MERCADO E A FEIRA SEMANAIS EM ALCOBAÇA

 
O CORETO DA VILA, O MERCADO E A FEIRA SEMANAIS EM ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira




Uma das lembranças fortes da infância de alguns alcobacenses mais idosos é o coreto, um exemplar que dominava o principal largo da vila de Alcobaça, a praça fronteiriça ao Mosteiro.

Esta praça, além dos nomes que assumiu sucessivamente conforme as circunstâncias, foi  bastante alterada com intervenções mais ou menos felizes e o coreto já não está há muitos anos (desde meados dos anos trinta, graças a decisão pouco feliz de Manuel Carolino).
Foram muitos os concertos que ali se deram, abrilhantados pelas bandas da Cela (com o maestro Melro), Vestiaria, Pataias, Maiorga e Filarmónica de Alcobaça (longe ainda estavam os tempos da Orquestra Típica e Coral), apresentando um reportório de qualidade, que incluía música clássica, árias de óperas, marchas e peças populares de raiz mais ou menos folclórica. As pessoas ocupavam o espaço fronteiriço imediato onde havia vários choupos, as famílias passeavam e algumas levavam mesmo cadeiras, para assistirem mais comodamente ao espetáculo. Mas isso já lá vai.
A música ao ar livre, nesses tempos da outra senhora, criava uma atmosfera positiva e ocasionava animação. Eram bons espaços culturais e sociais.
A banda, aproximava-se em passo certo, cadenciado, largo, ao som de uma marcha. À frente vinha o maestro, muito hirto, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, postava-se até um homem que vendia jogo, e nesse momento se esquecia de apregoar a sorte grande. Indiferentes, as meninas-famílias continuavam a venda de rifas ou o peditório para os bombeiros, tal como os vendedores de tremoços ou pevides.

Os coretos fazem parte da história urbana. Era lá que se realizavam os concertos das bandas de música e outras apresentações.
Porque será que já não há coretos para as bandas de música realizarem concertos? Caíram em desuso, bem sabemos. Hoje, preferem-se as salas de espetáculos, com condições ambientais e acústicas, som apropriado e outros requisitos.
Acredito que teria cabimento haver um Coreto em Alcobaça. Vi atuar bandas em coretos ou outros locais ao ar livre, em cidades da Europa, especialmente no verão da Alemanha e Áustria. Porque cá não mais, seguindo uma boa tradição portuguesa?

Era por ali na Praça que também se realizava, ao Domingo, o Mercado Semanal, muito concorrido, e onde se vendia de tudo, especialmente aos aperaltados alcobacenses das redondezas, que se deslocavam em família, de burro ou carros de bois.
Para complementar a atração e o movimento, que por vezes eram tão intenso que as pessoas andavam aos encontrões, funcionavam umas lojas no primeiro andar da Ala Norte do Mosteiro.
Para guardar os animais, havia vários locais espalhados pela vila (Piçarra, Portas de Fora e até ao lado do Palácio do Pena), onde lhes era dado palha e recolhidas as necessidades, para depois se vender como estrume.
Como se chegava ao mercado?
Vinha-se a pé, a cavalo, em carros de bois, ou mais tarde na carreira. O dia de mercado era festivo. As pessoas usavam os melhores fatos. No mercado, tudo tinha o lugar costumeiro, nos mesmos sítios há um ror de anos.
Tudo se encontrava arrumado pela mesma ordem e na mesma hora. Os que vendiam tinham o seu cantinho reservado. Os que compravam sabiam onde encontrar o que precisavam. Armavam-se as barracas de madeira e lona onde eram expostos e vendidos a fruta, hortícola e os artigos manufaturados. O visitante encontrava roupa feita de lã ou algodão, ferragens, cutelarias, calçado e chancas, bem como quinquilharias. As mercadorias vendidas no mercado constituíam o essencial para as necessidades do povo. Ao lado da área dos produtos que o lavrador vendia, encontrava-se a dos produtos que o lavrador comprava.
Se já não se encontram mais o burel, o linho ou a estopa, não faltam num mercado dos nossos dias os tecidos de algodão, de nylon, de terilene, os tapetes e as mantas, os produtos chineses etc..

Júlio Correia, que trabalhou muitos anos na construção civil em terras de França, lembra-se como era o mercado do seu tempo de meninice.
Comecei a vir vender tinha nove anos. Naquela altura fazia os sete quilómetros descalço, em cima do gelo e tudo, porque o meu pai não tinha dinheiro para me comprar sapatos, diz, adiantando que os calos que ganhou serviam de sapatos. Vinha carregado com abóboras, feijão e outras coisas, como galinhas e coelhos, refere ainda Júlio Correia.
No mercado semanal dos nossos dias já não se encontram as malgas de Málaga, da Corticeira ou de Massarelos, mas não faltam a louça inglesa e chinesa. Os utensílios em madeira estão a desaparecer. As gamelas foram substituídas pelas bacias de plástico. Já não há também garfos de ferro. Os talheres vêm de Guimarães ou da Benedita, e os vidros se não da Marinha Grande, talvez do Oriente.

Não posso deixar de referenciar algumas figuras típicas do mercado, como a mulher dos tremoços, a vendedora dos doces cobertos de açúcar, o homem que reparava os guarda-chuvas, as aguadeiras ou mesmo o aldrabão da feira (o tradicional vendedor da banha de cobra).
 NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS

    
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JOGOS, BRINCADEIRAS DO ANTIGAMENTE E A MENINA DOS 5 OLHOS

JOGOS, BRINCADEIRAS DO ANTIGAMENTE E
A MENINA DOS 5 OLHOS

Fleming de OLIVEIRA



Inácio Catarino, nasceu há mais de oitenta nos Montes/Alcobaça aonde fez a vida na agricultura, (com sete ou oito anos nas férias escolares e na vindima ou na Cova da Onça, casa Raposo de Magalhães, em Alcobaça) e durante cerca de dezoito anos na construção civil.
Por isso, conhece como poucos as pessoas, a vida e os costumes da terra, inclusivamente alguns pequenos segredos ou factos esquecidos. É do tempo em que o amola-tesouras ia de terra em terra afiar as facas e tesouras, usando uma bicicleta que tinha uma roda que amolava o que fosse preciso. Utilizava uma gaita que fazia um som característico que chamava as pessoas. Até se dizia que a presença do amola tesouras trazia chuva.
É do tempo dos peixeiros que iam da Nazaré até Alcobaça, levando um pau ao ombro, segurando às pontas duas canastras carregadas de peixe. Percorriam distâncias por vezes grandes, numa corrida de passinho curto, descalços e aos pregões. Alguns andavam com burros e bicicletas. Também existiam as vendedeiras de peixe que gritavam: Olh’ó chicharro bibinho. Hoje ainda existem os peixeiros, vendedores de peixe, mas, ou vendem-no nas praças ou em carrinhas com câmara frigorífica.
É do tempo em que os meninos sabiam de onde vinham os pintos, cortar canas, construir um moinho de água, apanhar rãs, distinguir os pássaros, os insetos ou répteis, bem como as árvores de fruto. Recorda-se do frio ou calor intensos que as crianças sentiam nos pés descalços, o que era todavia esquecido pelas intensas e emocionantes brincadeiras. Jogava-se à cartola ou à macaca com uma bola de trapos ou saltava-se ao eixo. O jogo do pião, com o imprescindível bico de prego, era muito popular.
Lembram-se os meus caros leitores, como era o jogo?
O pião era feito de madeira muito dura, redondo na parte superior, adelgaçando para baixo, terminando em ponta onde se crava um bico de prego de ferro, destinado a fazê-lo girar. Alguns rapazes costumavam espetar, personalizando, na parte superior, uma tacha que se chamava o selo. Para lançar o pião, era necessário a baraça ou faniqueira, cordão que se enrolava à volta, preso no bico, subindo ao ponto mais bojudo e prendendo-se depois no dedo indicador do jogador. Voltado o pião, seguro na mão com o bico para o ar, lançava-se ao chão, puxando para trás a faniqueira, que ao desenrolar-se, o fazia rodopiar. Recolhia-se esta rapidamente, e com a mão direita livre, apanhava-se o pião para a palma da mão onde continuava a girar.
Havia normalmente no bolso de cada jogador (profissional…), pelo menos dois tipos de piões. Um de castigo e outro de jogo. O pião de castigo era o pião velho, só é aceite no jogo se ainda estivesse em condições mínimas de funcionamento. O pião de jogo tinha um bico grande afiado, destinado a castigar o pião perdedor. Para iniciar um bom jogo de acordo com as regras internacionais, marcava-se um risco de partida e uma buraca, em lugar afastado a uns 15/20 metros. Então um dos participantes traçava no chão (de preferência de terra) uma cruz e todos lançavam os respetivos piões para o ponto de interceção. O que ficava mais afastado era o que ia amouchar  e, em consequência, deixar o pião no risco para se iniciar o jogo. Assim, era o que se chamava jogar à molha. O primeiro a jogar será o que tirou o pião mais próximo. Os restantes parceiros jogam pela sua ordem. O jogo era à molha, se fosse na modalidade simples, mas podia ser combinado crivar de buracos o pião que perde. Se o pião fosse jogado com violência, a jogada era a malhão ou de escacha. Durante o jogo tentava-se arrastar o pião que estava no chão, até à cova. O jogador experiente procurava por isso, logo no lançamento atingir a carcaça, encaminhando-a na direção pretendida. Se o não conseguisse, aparava o pião na mão e sempre com ele a girar, dava as cucadas na piasca para a empurrar no sentido da cova. Logo que o pião entrava na cova os intervenientes no jogo ficavam no direito de dar as nicas ou ferroadas acordadas. Estas podiam ser simples ou de escacha 10, 20 ou mais vezes, mas podia estabelecer-se que, como especial castigo, fosse permitido tirar pequenas lascas, o que acarretava grande emoção, quando o pião era rachado ao meio e ficava com as entranhas à mostra. Também era frequente na zona de Alcobaça, como recorda Catarino, jogar o pião à roda ou raia grande. Desenhava-se no chão um círculo e jogava-se para dentro devendo o pião ao deixar de rodopiar sair da roda. Se não sair, fica sujeito aos golpes dos outros piões lançados. Alguns rapazes faziam como lembra Catarino autênticos números de circo com o pião a rodopiar na terra ou na palma da mão.
E o jogo do eixo?
Neste jogo, o número de participantes era variável, sendo que quanto maior fosse o número de jogadores, mais interessante se tornava. Embora existam diversas versões do jogo, a mais comum na região de Alcobaça, consistia em fazer amouchar um ou mais jogadores, curvados, apoiando as mãos ou os cotovelos nos joelhos. Este jogo consistia em saltar sucessivamente sobre os colegas (dizendo previamente aqui vai eixo), de forma a que todos saltem e amouchem.
Catarino ao mesmo tempo que jogava o pião ou saltava ao eixo, aprendeu com os mais velhos que, quem nos Montes ensinou o homem a podar, foi um jumento que roeu uma cepa, que depois veio a rebentar com mais força e deu melhores cachos.
É também do tempo em que o exame da terceira classe era o limite normal da maioria da população escolar, dos meios rurais. Recorda, sem saudade especial, o mestre-escola professor Adelino, que dava aulas na  escola masculina, num edifício (longe estava ainda o Plano dos Centenários), cuja falta há muito se sentia. Este tinha um método infalível para ensinar a ler, escrever e contar. A sentença, de que não havia recurso, consistia em que cada erro implicava umas reguadas ou o uso da menina dos cinco olhos.
Segundo o Voz dos Montes, de 1 de março de 1925, para esse fim veio a esta terra um técnico enviado do Governo, verificar se o prédio teria as condições acústicas que satisfizessem o fim para que foi construído. Agora cumpre a todos os montenses, sem distinção de classe ou categoria, comemorar a sua inauguração com as festas que já noutra ocasião estiveram projectadas, mostrando assim que é sempre com regozijo que se recebem benefícios desta natureza.
O professor Adelino bebia logo de manhã, o que se traduzia na forma violenta e colérica como lidava com os alunos, a quem além de bofetadas dava reguadas com a travessa de uma cadeira ou vergastava o traseiro com uma cana. O professor ausentava-se com frequência da sala de aulas, dizia-se que era para matar a sua enorme e permanente sede, encarregando sempre um aluno, filho de algum agricultor mais abonado e a quem devia favores, o que não era o caso da família de Catarino, de vigiar os demais e apontar no quadro preto, as pretensas infrações à disciplina, que depois eram objeto de pronta sanção à bofetada, reguada ou palmatória, quando chegava, a cambalear.
Inácio Catarino diz que se não tem o diploma da quarta classe, o deve ao medo que o professor Adelino lhe inspirava e que nem a ameaça de chamar a Guarda (GNR) ou lhe bater, caso não prosseguisse os estudos, o demoveu, no que foi apoiado pelos pais.

A temível palmatória ainda ensombra os pesadelos de muita gente como Inácio Catarino. Indiferente a tudo, atravessou ainda grande parte do século XX ao serviço daquele tipo de professor que, desdenhava das novas correntes pedagógicas, da legislação reguladora e das tendências, e a legitimava como um instrumento de manutenção da ordem e da propagação do conhecimento, à falta de melhores expedientes e assim se manteve bem guardada na sala de aula, sempre pronta a intervir. Palmatória ou menina dos cinco olhos, seja qual for a designação, aquele objeto circular, em madeira, era um ícone da sala de aula. E não obstante os múltiplos nomes tem um só significado, sanção disciplinadora.

Conhecemos a história de velho professor primário, que quando se reformou a deixou no armário a seu sucessor, no meio da papelada. Os dois já não fazem parte do número dos vivos! Foi há anos mostrada, ao autor destas notas, não por ser usada por ele, mas como artefacto de recordação de uma época em que a autoridade (na escola, na política) estava sempre primeiro e que ele também não preconizava.

A escola feminina dos Montes era no primeiro andar de um prédio, hoje pertença a Fernando Santo. A professora, D. Isabel, vivia no rés do chão. As condições eram fracas, mas o povo não se queixava.
Joaquim Fortes recorda-se das botas de carneira com sola de pneu, boas para jogar à bola, mas que para caminhadas pareciam feitas de chumbo, bem como do colega que teve umas botas para estrear no primeiro dia de aulas, o que acontecia, então a 6 ou 7 de Outubro. Nesse dia, chovia torrencialmente e as botas vinham mesmo a calhar. Ao fim do dia, o colega chegou a casa desolado e com os pés molhados, pois as solas das botas estavam desfeitas. Eram de cartão colado sobre uma sola inicial já gasta. Bem pintadas, com anilina preta e graxa, as botas tinham um aspeto consistente e novo. O rapaz fartou-se de chorar com o desgosto. Mas como tudo tem solução, foi ela encontrada na circunstância de o avô ser sapateiro habilidoso. Arranjou um bocado de sola e, como tinha as ferramentas adequadas, formas, sovelas etc., foi ele próprio quem colocou as solas nas botas que o colega usou enquanto lhe serviram. Calcula até que um dia acabaram por levar umas solas de borracha.
São ambos do tempo em que se desfolhava o malmequer entre os namorados para saber se um deles tinha ou não amor ao outro e dos vários remédios contra feitiços, embora neste caso asseverem que nunca ligaram a isso.

Já Mestre-Escola, certa vez, Albano Cunha não teve papas na língua no lamento público sobre os vencimentos da classe.
Com o dinheiro que ganho, não posso criar os meus filhos.
Ora, se a polícia política o trazia debaixo de olho, tamanho desplante levou-o a Alcobaça ao Delegado Escolar, que, com delicadeza sugeriu-lhe tento na língua.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS

HISTÓRIAS DE CAÇA, CAÇADORES E CÃES


 
HISTÓRIAS DE CAÇA, CAÇADORES E CÃES

Fleming de OLiveira


Fernando Gomes Salgueiro tinha um cão considerado de fidelidade máxima. Todavia, durante uma caçada o cão desapareceu. Não voltou para o dono, como era habitual. Apesar de chamado insistentemente, não apareceu. Cansado de esperar e cheio de desgosto, Fernando Gomes resolveu dar a caçada por terminada e voltou para casa sem o animal. No ano seguinte com a abertura da temporada, lá foi caçar no mesmo local do ano anterior. Para sua surpresa, ao lá chegar encontrou o esqueleto do cão, junto aos restos de uma perdiz. Ficou evidente que o animal tinha morrido de fome,  sem comer a caça.
Gomes é do tempo do terreno dito livre (como gosta de frisar), que o era por haver caça e não excesso de caçadores, como também o é já do tempo das coutadas, cuja existência defende.
A caça, admite, tem que ter um dono, como as cabras, o que é de todos não é de ninguém, como o mel dos enxames silvestres que ninguém aproveita.

Mas há quem goste de caçar sozinho, como Luís Pires, dos Carris. Nas suas caçadas de muitos anos, normalmente solitárias, acha agradável não ter obrigação de seguir por aqui ou por ali, poder progredir a bel-prazer, parar ou andar, falar em voz alta com os cães, com as peças de caça, ou com as fragas e as árvores. Não ter que interromper o ato, alimentar-se frugalmente com o que a natureza dá, figos, uvas, maçãs, peras, marmelos, nabos, tomates e outros frutos esquecidos, como laranjas, tangerinas, tudo honestamente roubado sem exageros e sem desrespeitar a propriedade alheia, complementado com o indispensável naco de pão, queijo duro, uma fatia de presunto ou linguiça.

Manuel Deodoro, de Turquel, conta histórias de caça, ocorridas consigo e amigos ao longo de mais de quarenta anos de espingarda nas mãos. Caçava normalmente com um grupo de mais dois ou três colegas, seus vizinhos, muitas vezes no Alentejo.
Alguns metros à frente vejo a pointer marrada de nariz ao alto. Aproximo-me calma e silenciosamente. A pointer vai olhando pelo canto do olho, dá 2 ou 3 passos e estaca de novo. De repente salta uma perdiz e logo ao primeiro tiro acerto em cheio e prego com ela no chão. A pointer arrancou e trouxe-me a ave à mão. Linda, dá cá, faço-lhe uma festa, depois de retiro-lhe a perdiz e dou-lhe a cheirar o troféu. O animal abanou alegremente a cauda, cheio de satisfação.
Nesse dia mais à frente, aconteceu outro lance interessante com Manuel Deodoro. O António Manco, dono de 2 de dois excelentes cães de caça, estava com ele e com outro colega. Um dos cães levantou uma lebre jovem e bastante pequena. O Manco pegou prontamente na arma e preparou-se para lhe desferir um tiro. Mas o Manuel gritou-lhe de imediato: Não atires, a lebre é nova e vamos ver se consegue escapar. Os cães desataram no seu encalço e depois de voltas e quebras de rins, a pequena lebre, já muito cansada, acabou por se deixar agarrar dentro de um vinhedo. Apesar dos gritos do António Manco, os cães não lhe obedeceram e acabaram por cobrar a lebre.

Os caçadores, comos pescadores, têm mil e uma histórias, algumas verdadeiras, outras assim-assim ou até pura ficção, mas que contadas com alma e emoção deixariam as vítimas com lágrimas nos olhos ou com uma revolta maior que a terra queimada num incêndio de verão.
Manuel Deodoro pode afiançar que o seu relato … é a verdade verdadinha, que eu vi com estes olhos que a terra há-de comer, assim Deus me salve a alma, e ainda há por aí muito povo de Turquel que não me deixa mentir.

Seja como for, o nosso leitor perceberá logo quais as narrativas que são histórias e que as histórias podem ser aquilo que dissemos, e até podem começar com o era uma vez a que, no caso, se pode acrescentar nos bons tempos em que havia perdizes. Para Manuel Deodoro, a caça foi sempre, antes de mais, um sério ritual, tal como para outros seus colegas, a subir montes e vales, calcorreando quilómetros, andando a pé, muitas vezes sem outros resultados que não umas tainadas com farnel preparado em casa (isso sim mesmo importante…). Foi esta uma das boas razões para quem caçava como Manuel Deodoro. Juntar-se com amigos, conhecer bonitas paisagens e… comer uns petiscos. Deodoro porém nunca gostou de caçar com padres, pois acredita que estes não dão sorte aos caçadores, por acompanharem os mortos ao cemitério. Contudo, conheceu casos de homens que antes de partirem para a caça se benziam e pediam a bênção para afastar os agouros e azares.
Mas nem só de perdizes vivia a caça de Deodoro e amigos, sendo recorrente a sua afirmação de que perdiz que canta não espera. Durante várias décadas, o coelho bravo foi uma caça se não predileta, pelo menos importante para si e outros caçadores. O coelho bravo era um complemento alimentar de muitas famílias do mundo rural, devido à sua abundância e facilidade de captura.
Nas últimas décadas, temos assistido a um decréscimo acentuado das populações desta espécie, devido essencialmente às alterações do meio, aos predadores, ao esforço de caça e às doenças.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS.


EM QUE SE FALA DE BARBEIROS DE ALCOBAÇA, COMO O INFELIZ BALTAZAR

 


EM QUE SE FALA DE BARBEIROS DE ALCOBAÇA, COMO O INFELIZ BALTAZAR

Fleming de Oliveira



Óscar Santos, antigo presidente da Junta de Freguesia dos Montes, recorda-se de ouvir histórias do barbeiro que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana. Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas. Há quarenta, cinquenta ou mais anos, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina se afiava numa assentadura (fita de couro, posta num suporte de madeira). Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor. Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo. Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar. O barbeiro todavia nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas, como Coz ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.

Já que falamos de barbeiros, conhecem o Baltasar, que foi barbeiro em Alcobaça?
Por alturas de 1934/35 ocorreram umas estranhas mortes em Caldas da Rainha, ao que se dizia em consequência do consumo de água da rede,  inquinada com tifo. A Delegação de Saúde começou a investigar a situação, fazendo análises na rede pública bem como na nascente às Águas Santas. Os resultados foram inconclusivos, mas por via de dúvidas foi ainda proibida a apanha e venda dos bivalves da Foz de Arelho. Mas o surto de intoxicações e mortes por tifo (?) prosseguia.
Em último recurso, mandou-se proceder à análise da água canalizada recebida em casas particulares. E, para grande surpresa, chegou-se à conclusão que, o foco da infeção não radicava na nascente, mas no depósito da água para abastecimento da rede. Este situava-se na parte mais alta da cidade, junto à mata, perto do Hospital. Depois de esvaziada a água do depósito, com grande emoção, foi descoberto um corpo, em elevado estado de decomposição, junto a uma grade de ferro, destinada a impedir a entrada de sólidos na canalização.  
Apesar do mau estado do corpo, que ali estava há tempos, conseguiu-se apurar a identidade do morto pela aliança de casamento.
Segundo Altino do Couto, na altura com 14 ou 15 anos, e que andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, de Caldas da Rainha e chegou a ver o corpo estendido numa padiola acabado de retirar do depósito, apurou-se que se tratava de Baltasar, barbeiro, em Alcobaça, dono de um estabelecimento em frente, ao atual Café Portugal, na rua Alexandre Herculano, sito entre a loja de ferragens de Gilberto Magalhães Coutinho e a Farmácia Marques. Identificado o corpo, apurou-se que o Baltasar vinha anunciando à mulher (que não o levou a sério) que se iria matar (por nunca devidamente esclarecidas razões, de dinheiro ou saias?) e que ninguém mais o encontraria.
O barbeiro Baltasar, de acordo com o Dr. Hermínio Marques (que o chegou a conhecer, pois era quem lhe cortava o cabelo em rapaz), tratava-se de pessoa de cerca de cinquenta anos, educada, respeitada e estimada, pelo que o seu desaparecimento, sem deixar rastos, teve algum impacto na vila de Alcobaça, onde criou emoção. Conforme ainda o Dr. Hermínio Marques, o barbeiro matou-se, ingerindo previamente um potente veneno. Depois atirou-se para o depósito da água da rede pública e lá ficou durante algum tempo.
Durante meses, a população de Caldas da Rainha bebeu da água, onde esteve mergulhado o corpo do infeliz Baltasar, e apesar de a Câmara Municipal, ter anunciado e efetuado uma desinfeção total e eficaz no depósito da água, gente houve que durante algum tempo se recusou a voltar a beber água da rede, ou tê-la mesmo em casa.

Que recordações nos acarreta o barbeiro Baltasar?
Nos anos trinta, haveria uma meia dúzia de barbeiros na vila de Alcobaça, cada qual com uma clientela própria, a que não era estranho o respetivo estatuto social. Era um tempo em que o cantar cadenciado da tesoura, manobrada com mestria, ecoava na pequena barbearia, emprestando ao ambiente um ritmo e um toque muito especiais, que os clientes apreciavam.
A barbearia de Baltasar era um espaço pequeno, com um espelho ao alto, uma só cadeira assente numa base redonda metálica. O baeta Baltasar usava uma bata branca, abotoada ao lado, e fazia caprichadamente uma barba escanhoada, com uma navalha afiada em assentadores de fita de couro, pedras para deixar a cara coberta de frescura, e dominava os cabelos mais rebeldes, graças a um fixador que ele mesmo fazia, com um pó comprado na drogaria, misturado em água, a que adicionava perfume, conforme o gosto do cliente.
Baltasar, segundo os muito poucos que dele se lembram, foi sempre barbeiro, profissão que começou a aprender em rapaz, apenas interrompida pela tropa. O pai, também de nome Baltasar, tinha uma pequena história de vida. Pobre, começou a vida  profissional abrindo covas para colocar postes, entrando embora sem vínculo para os C.T.T., aonde chegou ao posto de guarda-fios, cuja função era subir aos postes.
A história do avô paterno, tem algo de estranho, pois ao nascer foi rejeitado pelos pais e colocado na roda, em Lisboa (roda giratória onde eram deixados os bébés indesejados. Para o identificarem eventualmente um dia, os pais colocaram-lha ao lado uma pequena Bíblia). O avô de Baltasar, cujo nome não apuramos, terá sido adotado por uma família de Caldas da Rainha ou arredores, que não lhe deu instrução, nem cumpriu a obrigação de pelo menos uma vez por ano o levar ao orfanato. No tempo em que o futuro barbeiro Baltasar, ainda não tinha barba para se escanhoar, era frequente os rapazes, concluída a terceira ou quarta classes e que não iam prosseguir estudos, começarem a aprender uma profissão, onde nada ganhavam. A primeira tarefa que coube ao Baltasar, foi na barbearia de um tio, a fazer trabalhos como varrer e apanhar os cabelos do chão e fazer barbas. A sua primeira remuneração foi de três tostões por dia, mas só ao fim de três meses. Tempos difíceis em que se fazia muito e se ganhava quase nada. O aprendiz Baltasar teve de esperar dois anos para ficar a saber que iria receber quarenta escudos por mês, (uma muito especial atenção por parte do tio), o que significava que já aprendera o mínimo, não dava golpes na cara do cliente,  e merecia a confiança do patrão e, claro, do cliente. Assim, até à idade das sortes, Baltasar ficou-se pela barbearia. Mas, depois de passar uns tempos em Leiria arrumadas a farda e botas, voltou aos cortes de cabelo e às barbas bem escanhoadas, como impunha o cliente.
Na barbearia do Baltasar, vendiam-se cigarros. Era o tempo em que se ia ao barbeiro não apenas para cortar o cabelo, fazer ou aparar a barba, mas para pôr a conversa em dia, pois no barbeiro falava-se de tudo, e até se podia ler-se o jornal de graça. Enquanto Baltasar manobrava a tesoura ou fazia a barba, em gestos demorados e calmos, o tempo passado com o cliente, acabava por ser quase um confessionário. A pessoa gosta de ouvir e também tem sempre algo para contar. Antigamente, quem quisesse conhecer histórias e vidas, ia ao barbeiro ou encostava-se à porta.

O  assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar  pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pelo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente. Os barbeiros também foram acabando.
Entretanto em Alcobaça estabeleceram-se outros que por sua vez já lá vão, como o Nabais, o Zé do Aço (estabelecimento ao lado da antiga Casa Sineiro), o Artur Barbeiro (ao lado do atual Café Restaurante Trindade), o Maleiro (na Rua Alexandre Herculano perto da antiga loja de Gilberto Magalhães Coutinho) ou o Baeta (em frente ao Mosteiro).
Um barbeiro em Alcobaça era senhor de estabelecimento discreto, em geral pequeno com o chão aos quadradinhos vermelhos e beijes, paredes revestidas de azulejos brancos e espelhos sem moldura. Uma ou duas cadeiras de barbeiro, difíceis de consertar, porque não havia peças em Alcobaça (só em Lisboa) que lhe valessem. O som da rádio (telefonia), saía de umas pequenas colunas e mesmo, ainda que com pouco uso, parecia que o aparelho queria mostrar que já precisava de reforma. Um ou dois calendários de parede mostravam dias longos, cansados os pés e braços de tanto labutar. Na mesa de madeira ao lado das quatro ou cinco cadeiras para quem esperava (por princípio nunca havia marcações), encontravam-se revistas  e jornais, por vezes com alguns dias.

NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS

A BANDA DE ALCOBAÇA

A BANDA DE ALCOBAÇA

Fleming de Oliveira

A Banda de Alcobaça, que renasceu há anos, foi fundada por Eurico Pereira de Araújo, João Sanches da Silva, Alberto Rodrigo Aurélio, Artur Rodrigues de Oliveira, António Martins Marques, José dos Santos Calçada, Estevão Soares Prudêncio e Joaquim Silvério de Carvalho, segundo reza a história, no dia 19 de Março de 1920.
Inicialmente era composta por cerca de vinte alunos, e integra hoje mais de quarenta elementos. A Banda de Alcobaça surgiu depois de desaparecidas em 1912 a Filarmónica Alcobacense e a Real Fanfarra (que nunca teve vida fácil), trajava a rigor a farda à maruja, na tradição da Real Fanfarra, e desfilava garbosamente pelas ruas da vila.

NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS