quarta-feira, 2 de abril de 2014

-A (antiga) ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE ALCOBAÇA. -SUBSÍDIOS PARA A SUA (GRANDIOSA) HISTÓRIA. -ANTÓNIO GAVINO, BELO MARQUES, SILVA TAVARES E MARIA DE LURDES RESENDE. -QUEM PASSA POR ALCOBAÇA... -XIX CONGRESSO da UNIÃO INTERNACIONAL dos ADVOGADOS (Lisboa-ALCOBAÇA-1962)



 

-A (antiga) ORQUESTRA TÍPICA E CORAL DE
 ALCOBAÇA.
-SUBSÍDIOS PARA A SUA (GRANDIOSA)
 HISTÓRIA.
-ANTÓNIO GAVINO, BELO MARQUES, SILVA
 TAVARES E MARIA DE LURDES RESENDE.
-QUEM PASSA POR ALCOBAÇA...
-XIX CONGRESSO da UNIÃO INTERNACIONAL
 dos ADVOGADOS (Lisboa-ALCOBAÇA-1962)-.

Fleming de OliveiRa


A ideia da criar uma Orquestra Típica em Alcobaça, segundo reza a história (ou a lenda), nasceu numa noite de maio de 1956, quando veio atuar à vila, a Orquestra Típica e Coral de Rio Maior.
Foi tal o interesse suscitado pelo espetáculo que, conforme decorre de uma nota d’O Alcoa (15 de agosto de 1963), de imediato Couto de Pinho iniciou diligências com vista a organizar uma semelhante entre nós. Pedindo para vir a Alcobaça, o Maestro António Gavino que, já havia criado agrupamentos semelhantes em Santarém e Rio Maior, foi no dia 11 de Novembro de 1956, que se sentam na última mesa, do lado esquerdo de quem entra no café Trindade-além de Couto Pinho e do Maestro António Gavino, os alcobacenses Tomás Correia, Fernando Zeferino, Leite Rodrigues e Francisco André, os homens a quem a nossa vila ficará a dever a criação da Orquestra Típica de Alcobaça.

Foi esse, o momento tido como fundador do agrupamento, que veio estar na base duma obra e  organização, que atingiu rapidamente altos e incomparáveis momentos.
Efetuadas nos dois dias seguintes, as diligências necessárias, à força de uma atividade exemplar, reuniram-se os primeiros vinte e três elementos, na sede do Rancho do Alcoa, cedida por especial deferência da Exmª. Direção e o maestro Gavino que, para isso se fizera acompanhar de dois violões baixos, da Orquestra de Rio Maior, conseguiu a inacreditável proeza, nesse mesmo ensaio, embora com as naturais deficiências e perante a admiração e a alegria de todos os presentes, da execução de um número completo. Era a prova evidente, da possibilidade da realização do sonho grande!
António Gavino, daqui em diante, passou a ensaiar a Orquestra Típica (O.T.), duas vezes por semana, na sala do Rancho O Alcoa ou na sede da Banda, sem receber honorários, deslocando-se expressamente de Rio Maior, aonde vivia, utilizando mesmo camionetas de carga, para não sobrecarregar a coletividade.
Aliás, as primeiras despesas, foram suportadas pelo bolso dos fundadores, os que naquela tarde de 11 de novembro, se sentaram à mesa do café.

No Cine-teatro de Alcobaça (1 de maio de 1957, pelas 22h), encontrando-se o Círculo Alcobacense de Arte e Cultura/C.A.A.C. ainda em formação, realizou-se o sarau, para maiores de 12 anos, da primeira apresentação da O.T., perante um público que o enchia totalmente. Marcaram presença os locutores escalabitanos Joaquim Campos, Carlos Mendes e Neto de Almeida, que recitaram poemas. Nessa ocasião participaram artistas profissionais, como Maria Lemos e amadores como Maria de Lurdes Feliciana (de Rio Maior), Olegário do Nascimento e Valdemar do Nascimento. De acordo com os propósitos dados a conhecer pelo Círculo Alcobacense de Arte e Cultura/C.A.A.C., este acontecimento inseria-se no intuito de dar a conhecer aos seus conterrâneos os fins para que foi criado e ainda no de prestar assistência ao Hospital da Misericórdia desta vila e obter alguns fundos para a sua organização.
Os bilhetes (camarotes, frisas, 1ª, 2ª, 3ª e 4ª plateia, 1º e 2º balcão) encontravam-se à venda no estabelecimento comercial de João Rodrigues Leitão.
Segundo O Alcoa, havia lágrimas nos olhos dos que cansados haviam dado tudo para que a nossa Orquestra Típica fosse a realidade presente e também nos olhos de quantos se recordavam, ainda da Alcobaça de sempre: Alcobaça da sua Banda, da sua Fanfarra, da Tuna dos Caixeiros, da Orquestra de Salão (que não era de dança e de que fizeram parte, entre outros, Mercedes Campião ao piano, e Joaquim Calçada ao rabecão, como lembra José A.  Crespo). 
Neste sarau, também esteve presente o Grupo Infantil de Fandanguistas de Santarém, sob a direção de Celestino Graça. Os contactos estreitos, entre Celestino Graça e a O.T. vinham das boas relações que mantinha com António Gavino, e que perduraram mesmo depois de este ter deixado de ser regente.
Silva Tavares teve uma chamada especial ao palco, sendo ovacionado pelo público que em pé, lhe quis tributar o agradecimento pelo que já tinha feito em prol da terra.
Todavia, segundo o jornal O Século, de 4 de maio de 1957, (socorrendo-se o articulista não sabemos de que fonte) não podemos deixar de fazer o nosso reparo aos obstáculos que são criados em Alcobaça às iniciativas de carácter artístico, e que afinal partem de pessoas que tudo deviam fazer para o evitar.
O jornal O Comércio do Porto (9 de maio de 1957), deu destaque a esta apresentação, preferindo salientar o jovem e dinâmico alcobacense José do Couto Pinho pela criação do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura.

Muita gente desconhece que, além da célebre Canção de Alcobaça, existe uma outra, com o nome de Velha Alcobaça, também da autoria de Silva Tavares e Belo Marques, destinada a homem (tenor). Sendo bastante difícil, foi algumas vezes interpretada por José António, Fernando Serafim e outros artistas. Esta música, que nunca teve a divulgação da Canção de Alcobaça, dadas as características menos populares, foi, interpretada na festa de homenagem, realizada em Alcobaça, a Maria de Lurdes Resende. José António Crespo forneceu-nos a sua letra:
Na pedra branca esculpida// Do Mosteiro de Alcobaça// Vive a beleza e a vida// Da História da nossa raça.
E na pedra rendilhada// Desse tão velho Mosteiro,// Vive a obra agigantada// De D. Afonso I.
Tens velha Alcobaça// Um altar resplandecente,// Um padrão de raça// Para mostrares a toda a gente//Tens p’ra seres mais bela// Um sorriso p’ra quem passa.
Os anos passam correndo// Sobre esta Terra feliz,// E a Terra lá está dizendo//Aquilo que a história diz.
E p’ra ser bem Português// É sacrário esse Mosteiro// Dos amores da linda Inês// E de D. Pedro I.

Angariados os primeiros sócios, começou aos poucos a montar-se a estrutura do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura/C.A.A.C..
A primeira Direção foi composta pelo Eng. João de Sousa Brito, Camilo Marques Bento, José Sineiro Canha e Fernando Manuel Zeferino.
Em 4 de agosto seguinte, a O.T. foi atuar em Ourém, na Praça Mouzinho de Albuquerque, nas festas em honra de Nª. Srª. da Piedade e Stº. António, num espetáculo que se prolongou por duas horas e constituiu um êxito, que o numeroso público presente, premiou com grande ovação. O jornal NOTÍCIAS DE OURÉM, de 11 de Agosto, destacou a Orquestra Típica de Alcobaça, organização recente, mas que já se afirma brilhantíssima e de grandes possibilidades futuras.
Nesse mesmo ano, em Setembro, a O. T. também se apresentou pela primeira vez em Leiria, e no recinto da verbena popular do Orfeão. Na segunda parte deste sarau, participaram Anita Guerreiro, Margarida Amaral e Pedro Solnado, artistas muito populares e conhecidos da rádio. O jornal de Leiria O Mensageiro (7 de setembro), conferiu destaque a esta deslocação e começou a notícia ao referir as primeiras palavras que Miguel Elias, Presidente da Direção do Orfeão proferiu quando, em nome da Direção, agradeceu a preciosíssima colaboração da jovem, mas já grande, Orquestra Típica de Alcobaça: Alcobaça, aquela Vila Sempre Nobre e Amiga.
Dias depois, a 10 desse mês, a O.T. deslocou-se a S. Martinho do Porto, num sarau a favor Colónia Balnear Infantil, a construir pelo Centro de Assistência da Vestiaria, em que participaram Maria de Lurdes Resende, que interpretou, aliás pela primeira vez, a Canção de S. Martinho, com letra de Silva Tavares e música de António Gavino, Maria de Lurdes Feliciano, Valdemar do Nascimento e Olegário do Nascimento. Esta canção hoje em dia está esquecida, mas graças a José António Crespo vamos recordar a sua letra:
Numa curva do caminho// De Alcobaça-Alfeizerão,// Surge ao longe S. Martinho// Qual fantástica visão.
E, a quem de longe passa// Nunca mais sai da lembrança// S. Martinho e a sua graça// De brinquedo de criança.
ESTRIBILHO
Como filtrado por um véu// De tule,// O sol que seduz// Tomba do Céu.// E num afago// Enche de luz// A linda concha azul// Onde um mar parece um lago.
E, do Facho, São Martinho// Não tem rival// É, a todos, o brinquinho// Das praias de Portugal.
S. Martinho, os teus encantos//Não se podem descrever// Pois, são tantos, tantos, tantos
// Que é melhor ver para crer.
ESTRIBILHO
(…)
O médico Rafael Gagliardini Graça, Presidente da Junta de Turismo, proferiu palavras de agradecimento a Silva Tavares, que foi chamado ao palco.


Ainda em 23 de setembro (uma segunda-feira), a O.T. deslocou-se a Óbidos, para se exibir numas festas a favor da Santa Casa da Misericórdia, e num sarau em que consigo e alternadamente participaram Vasco Santana, Maria Helena Matos e marido Henrique Santana, com números de sucesso de revista do Parque Mayer, como O Doente, A Ameaça, A Sonâmbula e O Exame do Meu Menino.
A 20 de novembro (quarta-feira) pelas 21,30h realizou-se no Cine-teatro de Alcobaça com a lotação esgotada há muito, estando presentes as figuras mais representativas de vila, uma homenagem a Maria de Lurdes Resende, num magnífico espetáculo com a colaboração da Rainha da Rádio Portuguesa e genial intérprete da Canção Alcobaça, Maria de Lurdes Resende, a simpática artista que no País e no Estrangeiro com a sua voz de sonho, tão alto tem elevado o nome e a graça da nossa terra. Maria de Lurdes Resende cantou acompanhada à guitarra e viola, pelos seus acompanhadores privativos todas as músicas do seu repertório, que o público lhe pediu. Por sua vez, a OT apresentou números de expressiva riqueza folclórica em primeira audição a comprovar a inspiração deste grande maestro (António Gavino). Terminado o espetáculo, foi servido um copo-de-água, no Centro Social da Vestiaria, a que assistiram Joaquim Carvalho (Presidente da Câmara), o Engº Sousa Brito (Diretor da Escola Técnica) e o Pe João de Sousa que, aos brindes agradeceram e elogiaram a atuação de todos os artistas.
Na noite de 6 de dezembro, a O.T. apresentou-se em Caldas da Rainha, no Teatro Pinheiro Chagas, conjuntamente com artistas da E.N. como Margarida Amaral, a intérprete da Canção das Caldas, da autoria de Nóbrega e Sousa, Fernando Lá da Rua e Américo Lima. O C.A.A.C. continuava a organizar-se e assim, em 23 de dezembro, na sala de ensaios, reuniu-se a sua Assembleia Geral para apreciação e aprovação das contas, bem como a eleição dos respetivos corpos diretivos, que ficaram assim constituídos: Assembleia Geral: Presidente-Joaquim Augusto de Carvalho; Vice-Presidente-Pe. João de Sousa; Secretários-João Telmo Carvalho e Maia, e Raul Gameiro. Conselho Fiscal: Presidente-Francisco Trindade Rodrigues; Vice-Presidente-Filipe Lopes Ramos; Secretário-Afonso da Cruz Franco. Direção: Presidente-Engº Sousa e Brito; Secretário-Abel dos Santos; Tesoureiro-Camilo Marques Bento. Nessa Assembleia foi ainda eleito sócio de mérito, por aclamação, José Couto Pinho.
O C.A.A.C. foi oficialmente criado por Alvará do Governo Civil de Leiria, datado de 5 de Agosto de 1957, sendo a sede inicial uma dependência da casa do Dr. José Nascimento e Sousa, que a cedeu gratuitamente.
Em 1959, transferiu-se para a Rua Alexandre Herculano, após se ter fundido com Associação Recreativa Alcobacense.
Legalizada a associação e dispondo de estatutos, passou a haver possibilidade de apelar a ajudas oficiais, nomeadamente da Câmara Municipal. A O.T. foi apenas no papel, uma secção de cultura e recreio dentro do C.A.A.C., mas que veio a atingir maior notoriedade, do que a associação mãe. De facto, a O.T. que absorvia por completo, as atenções da Direção do C.A.A.C., começou a percorrer o país de norte a sul, exibindo-se em localidades como a Batalha, Leiria, S. Martinho do Porto, Óbidos, Caldas da Rainha, Valado de Frades, Nazaré, Mira de Aire, Torres Novas, Santarém, Bombarral, Caxias (Reformatório), Montes, Maiorga, Estremoz, Beja e Lisboa.
O grupo coral apenas surgiu em 1958, tendo sido fator de valorização dos componentes e de grande influência na aceitação do público. Antes de haver o grupo coral, a O.T. atuava com alguns solistas convidados, como Maria de Lurdes Feliciano, que vinha de Rio Maior ou Olegário de Nascimento (Alcobaça). No tempo de António Gavino, as apresentações tinham normalmente a colaboração dos locutores, Carlos Mendes e Neto de Almeida, seus amigos pessoais, que graciosamente vinham fazer a locução e uma maneira própria de lhes dar início, como Maria Luísa Dionísio recorda. A O.T. começava por interpretar a Canção de Alcobaça, enquanto ambos, em fundo, recitavam um poema de Silva Tavares dedicado a Alcobaça, poema esse que anos mais tarde foi dedicado pelo autor à memória do Dr. José Nascimento e Sousa.

Quando a O.T.C. começou fazer atuações fora de Alcobaça, ainda não tinha um estandarte, tal como era costume nos agrupamentos semelhantes. Aliás, era uso também, que a entidade que convidava oferecesse, durante uma pausa no espetáculo, uma fita para colocar no estandarte, alusiva à sua presença. Para colmatar a falta, Maria de Lurdes de Jesus, resolveu com o acordo da direção e do grupo, solicitar a senhoras de Alcobaça donativos, para comprar o necessário para se fazer o estandarte. Este foi feito em cetim branco, bordado esmeradamente por Maria Luísa Pestana, com elementos que correspondem a uma decomposição do emblema do C.A.A.C..
A partir daqui a O.T.C. nunca mais saiu sem o estandarte, que passou a colecionar um número importante e significativo de fitas. O estandarte, extinto grupo, foi guardado pela Junta Freguesia de Alcobaça.
Segundo Maria Luísa Dionísio, quando o grupo saía, era por vezes difícil arranjar assegurar o número suficiente de componentes, de modo a não ocorrem desequilíbrios.
Esta recorda, que num espetáculo realizado em Beja, num dia de muito calor e vento, tiveram que sair de Alcobaça com bastante antecedência em duas camionetes, pois o percurso demorava várias horas. A certa altura do percurso, Maria Luísa e demais ocupantes, viram passar uma grande sombra por cima da camionete. Os que deram conta perguntaram ansiosos ao motorista o que estava acontecer, tanto mais que seguiu um barulho forte e estranho. Parado o autocarro, constatou-se que se tinha solto e perdido parte do estrado, encontrado disperso pela estrada, destruído e sem hipóteses de conserto. No espetáculo dessa noite, mesmo sem estrado, a O.T.C. atuou com sucesso embora com os elementos algo desalinhados, uns mais altos e outros mais baixos.
A 26 de Maio de 1958, a O.T.C. deu um espetáculo comemorativo do seu primeiro aniversário, no qual se usaram pela primeira vez os seus trajes, e participaram Maria de Lurdes Resende que cantou com a orquestra, bem como acompanhada pelos seus guitarristas privativos (Liberto Conde e Francisco Perez), e ainda o Trio Ribalta, composto de harmónicas vocais, com provas dadas na RTP.
A convite do Círculo Cultural Scalabitano, a O.T. deslocou-se a Santarém no dia 10 de Janeiro de 1959. Respigando a encomiástica notícia do Jornal do Ribatejo (5 de Fevereiro seguinte), sabemos que esteve presente numerosa assistência, e que (…) após a execução do apontamento musical de abertura e as palavras de apresentação do conhecido amador sr. Nuno Neto de Almeida, em cena aberta, o sr. Dr. Ginestal Machado saudou os visitantes, lembrando a ação de António Gavino, como primeiro regente e componente do grupo de fundadores da Orquestra Típica Scalabitana, a visita desta orquestra e do Orfeão Scalabitano à Nobre Vila do Alcoa, oferecendo lembranças à Direção do Círculo Alcobacense de Arte e Cultura, ao regente António Gavino e à vocalista Lurdes Feliciano. O sr. Mário Rodrigues, como diretor e componente da nossa Orquestra Típica, ofertou o característico barrete verde ribatejano ao sr. Fernando Miranda, o mais velho dos elementos do agrupamento alcobacense. (…)
A O.T. atuou nas duas partes do espetáculo, com um pequeno intervalo. O apresentador, soube cativar a assistência, que aliás não regateou aplausos à O.T., que teve de bisar alguns números, no meio de um entusiasmo que atingiu quase o aspeto apoteótico. O articulista do Jornal do Ribatejo (Carlos Oliveira), avaliando o desempenho da O.T. afirma que (…) se apresentou bastante equilibrada, revelando grande disciplina e completo domínio diretivo do seu regente, sabendo dar-nos música verdadeiramente regionalista, sem exageros ou pretensões de grande execução.(…) Mas lastimou que o traje da O.T., um pouco triste, à moda serrana da região de Alcobaça, não possa dar-nos uma garrida e gritante mancha de cor e alegria como o da nossa Orquestra Típica. Depois do espetáculo seguiu-se uma ceia, tendo usado da palavra o Dr. Ginestal Machado e Belo Marques, que trocaram efusivas saudações e comprometeram-se a novas colaborações, como veio efetivamente a acontecer.
A 4 de julho de 1959, a O.T. deslocou-se ao Pavilhão dos Desportos-Lisboa, para atuar num Serão para Trabalhadores, organizado pela E.N. em colaboração com a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). A O.T. estava imparável e, em 21 de Maio do ano seguinte, na comemoração do terceiro aniversário do C.A.A.C., realizou-se um sarau no Cine-teatro de Alcobaça, em que se apresentou pela primeira vez em público, o Grupo de Cantares Folclóricos (nome que também assumia e antecedeu o do grupo coral), pois o C.A.A.C. na ânsia de atingir os fins que se propôs realizar, não se poupa a esforços na criação de novos agrupamentos que honrem as tradições da nossa terra.
Colaboraram no sarau e em primeira apresentação, o grupo de Jograis de Santarém, constituído por Carlos Mendes, Nuno Neto de Almeida, António Cacho e Vergílio Barreira. A imprensa local (O Alcoa, de 28 de Junho de 1960) e a regional, muito concretamente o Região de Leiria, no seu número de 26 de Maio de 1960, deu grande destaque a este espetáculo chamando a atenção para a necessidade de os alcobacenses que ainda não são sócios do Círculo, se inscrevam como tal, dando desse modo o seu apoio moral e material a uma coletividade cultural que nos deve merecer o maior interesse e cujo progresso depende, como é óbvio, do auxílio que lhe possamos prestar. Como solistas apresentaram-se Lurdes Feliciano, com a graça e à vontade habitual, bem como pela primeira vez Fátima Modesto e Gilberto M. Coutinho, que prometem enriquecer a orquestra com bom canto, pois possuem bom timbre e modelação de voz, mas acusam ainda o receio de enfrentar a plateia.
A OTC foi convidada a participar em 2 de outubro de 1960, no espetáculo de inauguração do 1º Festival-Exposição do Vinho Português, do Bombarral, no Teatro Eduardo Brasão.
O Maestro António Gavino deu o seu último espetáculo como regente da O.T., em 25 de Março de 1961, no Cine-teatro de Alcobaça, pois foi viver por razões profissionais, para Lourenço Marques, isto é, para reger a Orquestra do Rádio Club de Lourenço Marques. Foi esta rádio que lançou a cançonetista e fadista Alexandra (que trabalha bastante com La Feria). Colaborou neste espetáculo (desta vez para maiores de 6 anos…) o Grupo de Jograis de Santarém. A Gavino sucedeu o Maestro Alves Coelho (Filho) que conferiu ao agrupamento um dinamismo, eventualmente maior, e a consagração nacional. De acordo com o jornal O Alcoa, de 11 de novembro de 1961, perdurará na memória de todos os que tiveram a felicidade de assistir ao 1.º Recital da Orquestra Típica de Alcobaça, sob a regência do maestro Alves Coelho (Filho), o memorável espetáculo realizado no Cine-teatro de Alcobaça, no sábado, 4 de novembro de 1961. Nele colaboraram, além da Orquestra e Coral, os artistas Gina Maria, Madalena Iglésias Maria Cândida, Maria do Espírito Santo, Artur Garcia e o locutor Henrique Mendes, nomes consagrados da Rádio e Televisão. Foi num ambiente de grande entusiasmo, com a sala tipicamente decorada com chitas de Alcobaça e superlotada, que as palmas e bravos se sucederam a premiar o alto nível atingido pela música popular portuguesa, o estilo e a personalidade de vozes, tão conhecidas e queridas do povo alcobacense, apresentadas, com humor e espírito, por um dos nossos melhores locutores (…).
A assistir ao espetáculo e a associar-se, com a sua amizade a Alcobaça, estiveram Silva Tavares e esposa, Dª. Albertina Tavares.
De acordo com O Alcoa, perante a impossibilidade de transcrever um programa com números de grande execução, arranjo e valor artístico, sem nos repetirmos no elogio merecido, só nos resta felicitar o maestro Alves Coelho (Filho) (…). Na regência foi impecável e no arranjo das músicas e distribuição dos naipes, teve alta inspiração artística. Como executante, em colaboração com sua Esposa, Srª. D. Graciete de Vasconcelos, que é uma notável acordeonista, deu-nos uma seleção da opereta Viúva Alegre, muito original e de forte motivação (…).
Terminado o espetáculo, foi oferecida uma ceia, na Pensão Restaurante Corações Unidos, aos artistas e componentes da O.T.C. Aos brindes falaram o Dr. Amílcar de Magalhães, Maestro Alves Coelho (Filho), Joaquim Augusto de Carvalho, e a fechar, para agradecer as homenagens prestadas, Silva Tavares, o autor da letra da Canção de Alcobaça.
Dias depois, isto é, a 16 de dezembro, perante o sucesso que foi a apresentação do dia 4, realizou-se mais um recital, referente a 2ª. Apresentação nesta Vila da Orquestra Típica sob a regência do Maestro Alves Coelho (Filho). A primeira e segunda partes foram preenchidas com a exibição da O.T.C. e a terceira com a colaboração graciosa de consagrados artistas da rádio e da televisão.
A partir daqui, a O.T.C. passou a colaborar assiduamente com a E.N., nos Serões para Trabalhadores transmitidos em direto, a realizar espetáculos na RTP, aonde se deslocou, pela primeira vez, a 14 de maio de 1961, e mais quatro vezes no ano seguinte, e a fazer gravações de discos.
Uma solista, voz feminina, agradável e bem timbrada, num rosto bonito emoldurado por um chapéu de abas típico, um lenço tombado sobre os ombros, cheio de graciosidade, iniciava o espetáculo a cantar,
Os provérbios e rifões//enraizados na nossa raça,//atravessam gerações//na linda loiça de Alcobaça.
O coro, respondia:
Alcobaça,//podes crer que tenho apreço, //por tudo quanto é progresso //mas o antigo não passa.
Alcobaça,//nesse teu Mosteiro velho//bem velhinho, existe um espelho//do valor da nossa raça.
Foi com um grupo de canções de carácter regionalista, o seu repertório, que a O.T.C. constituiu o programa no TV-Clube, da RTP, com a alegada intenção de levar até aos nossos espectadores um conjunto de bom nível e oferecer-lhes um programa variado, aliciante, de características diferentes, muito próprias.
Maria Luísa e Rosa Maria Coelho recordam-se da afabilidade e o dinamismo de Alves Coelho (Filho), que por vezes se exprimia de forma temperamental, que não era mais que fruto da ansiedade de obter bons resultados. Alves Coelho (Filho) e mulher foram, aliás, padrinhos de casamento de Maria da Graça Coelho, irmã de Rosa Maria, casamento que teve de ser adiado pelo facto de a O.T.C. ter nesse dia um compromisso com a RTP, transmitido em direto. O Maestro não podia faltar.
Belo Marques, que muitas vezes colaborou com a O.T. tinha ascendentes na Batalha, os avós por parte da mãe. Estes eram os portageiros na ponte velha, onde passava a antiga EN 1. Segundo, Belo Marques contou a Maria Luísa Dionísio, a sua mãe que se encontrava grávida, numa visita que fez aos pais, que viviam na dita ponte, acabou por dar ali á luz. Belo Marques, portanto, nasceu na ponte da Batalha.
Era tanto o entusiasmo do Maestro Alves Coelho (Filho) que, grande parte dos contactos com vista a realizarem-se espetáculos, eram da sua iniciativa. A esposa, D. Graciete, que tinha curso superior do Conservatório, como dissemos, tocava acordeão na Orquestra. O trabalho dos ensaios era muitas vezes repartido pelo casal, a esposa a ensaiar o coral, o marido a orquestra, até se poderem juntar no final. Alves Coelho (Filho) e mulher vinham de verão ou inverno, com bom ou mau tempo, duas vezes por semana de Lisboa, aonde regressavam terminado o ensaio, pois só raramente ficavam em Alcobaça a dormir, nesse caso em casa de elementos do grupo.
Maria Luísa, como solista, primeiro soprano, e filha de um Diretor, sentia que tinha algumas obrigações especiais, não direitos, como preparar e manter a voz em bom nível, a qual tanto quando se recorda nunca lhe falhou, em nenhuma apresentação. Figura de destaque no grupo coral, nele entrou com 18 anos, numa altura em que já trabalhava em Alcobaça como empregada de balcão. Contando consigo, houve um período em que, no grupo coral, havia nada menos que 12 meninas Marias!!!. Ao mesmo tempo, assegurava a boa apresentação do estandarte, bem como a das camisas e fardas dos instrumentistas.
Quando os espetáculos se realizavam em Alcobaça, tinha também como Rosa Maria Coelho e outros, a tarefa de coordenar o arranjo da sala, de modo a não haver repetições na decoração, não obstante ser quase sempre inspirada nas chitas tradicionais (nesse tempo as chitas de Alcobaça ainda não eram feitas no Oriente). Nnum espetáculo realizado por alturas de Maio foi decidido, para variar, fazer uma decoração à base de cestos em palha, os quais foram decorados com giestas apanhadas na serra. Maria Luísa Dionísio gosta de recordar, um espetáculo realizado no Cine-Teatro que coincidiu com o seu dia de aniversário, pelo que para não perturbar e distrair os demais elementos ou o Maestro, resolveu não dizer nada a ninguém. Antes do espetáculo, Alves Coelho foi jantar a casa de seus pais, mas com a preocupação de ter tudo em condições para a noite, apenas no dia seguinte os lembrou do aniversário.

O número de elementos que compunham a O.T.C, era de 60, distribuídos igualmente entre a parte coral e a orquestra. Em breve, começou a colaborar com a O.T., o que muito a valorizou, o músico alcobacense António Jorge Moreira Serafim, excelente intérprete de oboé, que vivia em Lisboa, irmão do tenor Fernando Serafim, da Companhia Nacional de Ópera. António Serafim, era primeiro oboé na Orquestra Sinfónica Nacional, na Orquestra Gulbenkian e ainda na Banda da Força Aérea. Na O.T.C, como os demais atuava graciosamente, deslocando-se como qualquer outro aos ensaios, e quando necessário era substituído por Leal Calqueiro, do Seixal. Na O.T.C. ninguém ganhava nada. Os aplausos, uma ceia ou um ramo de flores, a saída em passeio, eram suficientes, como recompensa. Porém, caso faltasse na orquestra algum elemento importante para um espetáculo de responsabilidade, era necessário contratar um profissional a Lisboa.
Todos os seus componentes amadores, sacrificavam-se para ocorrer às exigências da coletividade, em prejuízo dos seus próprios interesses e eram residentes na zona de Alcobaça, com a exceção do referido António Serafim.
Muita gente (pelo menos os mais idosos) ainda recorda o flautista António Bolola, da Maiorga, personalidade estimada, modesto e jovial, mas que tinha por vezes dificuldade em encontrar o caminho de casa depois de uma ceia mais regada….
A parte instrumental da O.T.C., era composta por 8 bandolins, 4 guitarras, 6 violas, 1 flauta, 1 oboé, 3 clarinetes, 2 violões, 2 bandoletas, 2 acordeões e 1 bateria. O baterista de que Maria Luísa bem se recorda, era o motorista de táxi Acácio Cerol, que tinha 5 filhas, todas Marias, as quais atuavam no coro. Desta família, havia ainda mais duas meninas no grupo, uma no coro, outra na orquestra a tocar bandolim.
Mas este não era o único caso, pois havia um outro em situação parecida, o da família (José) Teopisto.
O coro era constituído por 14 raparigas em geral solteiras, e 16 homens, muitos deles casados. Entre os executantes, havia as mais variadas profissões, como estudantes, carpinteiros, serralheiros, empregados de comércio, bancários e donas de casa, tendo o mais novo catorze e mais idoso sessenta e quatro anos, isto, segundo os dados de 1961/62. As meninas deslocavam-se para os ensaios ou regressavam a casa na companhia das mães, pais ou irmãos. Sós é que nunca. Impossível. Mesmo assim, ao longo dos anos estabeleceram-se alguns namoricos, que terminaram no altar. Estes namoricos tanto ajudaram a sedimentar, como a fragmentar o grupo, especialmente no caso de o casamento. Outros interesses e preocupações surgiam…

A vestimenta dos elementos musicais, deve-se a uma primeira sugestão do Professor Joaquim Vieira Natividade (ou de sua esposa), ao adaptar o traje rico dos habitantes da região de Alcobaça.
Mas como eram as fardas?
Maria Luísa Dionísio e Rosa Coelho contam que nos primeiros tempos do coro, por falta de verba, os homens usavam calça preta e camisa branca, enquanto que as senhoras uma saia preta e camisa branca. Em ambos os sexos, no lado esquerdo da camisa encontrava-se bordado o emblema da O.T.C., inspirado no do C.A.A.C.. Na Orquestra, aonde aliás não havia nos primeiros tempos intérpretes femininos, os homens usavam o fato tradicional da região da Serra dos Candeeiros, que consistia numa calça castanha escura (tipo serrobeco), uma camisa branca com frente, colarinho e punhos bordados a azul e vermelho, cinta preta e jaqueta castanha clara. Quando mais tarde houve fundos, todos os fatos da O.T.C. passaram a ser iguais. A vestimenta, originária da Serra, era muito usual na região de Alcobaça, com exceção de Valado de Frades, sujeito à influência da Nazaré. A entrada de elementos femininos para a Orquestra foi, em parte, devida ao facto de a mulher de Alves Coelho (Filho), D. Graciete, nela tocar acordeão.
O número de associados do C.A.A.C. em 1962/63 era de cerca de 500, com uma quotização mensal reduzida, que não dava para compensar as despesas, mas cujo diferencial era suportado por um subsídio camarário mensal de 500$00, algumas ofertas e pequenas receitas dos espetáculos. Mas o sucesso acarretou problemas de funcionamento e o maior foi o C.A.A.C. e, consequentemente a O.T.C., não ter instalações adequadas para funcionar, o que implicou que as reuniões da Direção, em dias de ensaio, tivessem de ser efetuadas fora da sede. Há quem se recorde que chegou a haver um projeto para construção de uma sede, mas nunca dinheiro, desde logo para aquisição do terreno e que foi debatida uma proposta da Câmara, então sob a presidência de Junqueiro, para construir o edifício em terreno, que ficaria a pertencer ao património municipal !!!. O sonho da sede, enfim, não se concretizou, e os esforços da Direção do C.A.A.C. centraram-se em fazer um verdadeiro centro e arte e cultura e muito especialmente promover a O.T.C., dada a dificuldade de encontrar espaço adequado. A sala da sede era extremamente pequena e insuficiente para juntar coral e orquestra, pelo que os ensaios normalmente eram feitos como referimos separadamente. Os ensaios realizavam-se inicialmente, num anexo à casa do Dr. Nascimento e Sousa, num primeiro andar (celeiro) junto à Igreja da Conceição, cujo soalho se encontrava em péssimo estado, muito esburacado, com risco de ruir ou de se entalarem os sapatos. Através dele, chegava o odor das batatas e outros géneros guardados. Foi porém neste cenário, depois conhecido carinhosamente no grupo como a Casa das Batatas que foi gravado o primeiro disco comercial da O.T.C, pela equipa técnica da casa Valentim de Carvalho. Segundo, Maria Luísa Dionísio e Rosa Maria Coelho, acabou por ser este o melhor estúdio, aonde se fizeram gravações. Para o efeito, foram colocadas na rua barreiras, para impedir o trânsito automóvel e evitar ruídos indesejáveis.
Depois de se deixar o anexo da casa do Dr. Nascimento e Sousa, a O. T. passou a utilizar uma sala junto ao antigo Tribunal, na ala norte do Mosteiro, aonde também, foi gravado um disco comercial. O grande defeito desta sala era ser gélida no Inverno.

A grande pujança, os chamados anos de ouro da O.T.C. decorreu, no início da década de 1960. José António Crespo e Maria Luísa contam mais algumas apresentações, como um Serão para Trabalhadores no Pavilhão dos Desportos-Lisboa, a 16 de Março de 1961, organizado pela E.N., que o transmitiu em direto, em colaboração com a F.N.A.T. e dedicado ao Grupo Desportivo da Companhia dos Telefones. Colaboraram na primeira parte, o conjunto (muito em voga) de Jorge Machado, a cantadeira Natércia da Conceição, os artistas Fernando e José Queijas bem como os cançonetistas Elsa Vilar, Alberto Ramos e Maria Amélia Canossa. De acordo com o enquadramento da organização, haveria músicas tristes ou alegres, os fados de Lisboa todas as noites nascem sem pedirem licença a ninguém. Basta que uma guitarra se encontre ao lado de uma viola e que a presença de uma castiça cantadeira se interponha entre ambas, para que os fados surjam e Malhoa esteja presente com a sua mágica paleta…. A segunda parte foi preenchida com a O.T.C., com um breve intervalo, para alguns momentos humorísticos do ator José Viana. Era intenção propalada tanto pela E.N., como pela F.N.A.T., o propósito de apresentarem nestes Serões, as Orquestras e Conjuntos da nossa terra que possuam verdadeira categoria, como é o caso da de Alcobaça. Não esquecem também o Recital Artístico, de 3 de Abril de 1962 em Alcobaça, com a colaboração da Orquestra Ligeira e Artistas da E.N. (Alice Amaro, António Calvário, Artur Garcia, conhecido como o Rouxinol, por se ter estreado profissionalmente com o tema Rouxinol dos Meus Amores. Rei da Rádio em 1967, em 1969 Artur Garcia foi considerado Príncipe do Espetáculo), Gina Maria, Guilherme Kjölner, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Candal, Maria Marise, Simone de Oliveira, Teresa Paula e Trio Harmonia). Num sábado, 4 de Novembro desse ano, a O.T.C. como referimos supra e recordam Crespo e Maria Luísa fez um Recital no Cine-Teatro da vila, convidando artistas da Rádio e RTP. Este espetáculo foi tão bem sucedido, como aliás se referia mais tarde em casa do Dr. Magalhães, que, no dia 16 de dezembro seguinte se repetiu, com a presença dos mesmos artistas (Madalena Iglésias, Maria Cândida, Artur Garcia, Maria do Espírito Santo) e ainda de Graça Maria Rosado, Mariette Pessanha. Gina Maria estaria presente, se o avião que a trouxer dos Açores chegar a Lisboa, a tempo de depois se deslocar para Alcobaça. Gina Maria esteve presente, pois o avião chegou a tempo de se fazer transportar de taxi a Alcobaça.
No dia 11 de Fevereiro de 1962, a O.T.C. com os solistas Maria Luísa Dionísio, Maria do Rosário, Maria de Lourdes, José Teopisto, Olegário José e Valdemar do Nascimento, realizou uma apresentação nos Montes, na sede da Associação, que funcionava numa adega, propriedade do Dr. Amílcar Pereira de Magalhães. Também várias sessões de fados castiços ali tiveram lugar. O edifício da adega, que foi sede da Associação Recreativa Montense até 1968, com exceção da zona dos depósitos aéreos e subterrâneos, era em chão térreo. Montava-se para cada espetáculo um palco com pano de cena, um pequeno bar onde se serviam rissóis, copos de branco ou tinto, colocavam-se bancos e cadeiras, bem como uma instalação, sonora normalmente alugada em Alcobaça, numa casa à Pissarra.
O Dr. Amílcar Magalhães foi entre 1961 e 1963, Presidente da Direção do C.A.A.C.. Além dele e de José Crespo (secretário-geral), fizeram parte da Direção nesse mandato, Manuel Lemos Pereira da Silva (secretário adjunto), José Dionísio dos Santos (tesoureiro) e Leopoldino dos Santos (vogal). J. Crespo gosta de sublinhar, no que é assessorado por Maria Luísa Dionísio, que o ambiente no grupo era excelente, pois os componentes da O.T.C. sentiam uma grande solidariedade entre si e davam poucas faltas aos ensaios. Por sua vez, os diretores não enjeitavam colaborar na organização dos espetáculos, concretamente arrumando, levantando cadeiras e mesas, preparando o palco, a cena ou a instalação elétrica ou mesmo suportar algumas despesas. Mais tarde esses serviços passaram a ser efetuados por pessoas contratadas e pagas, o que implicou custos elevados, em breve considerados insuportáveis. 
Na segunda parte do espetáculo dos Montes, para maiores de 6 anos, apresentado por A. Canário, cujo ingresso não era barato, pois as cadeiras custavam 12$00 e o peão 7$50, participaram ainda Artur Garcia e Graça Maria Rosado. Estes e outros artistas como António Calvário, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias ou Gina Maria, realizaram também outros espetáculos em Montes, no mesmo local. No referido espetáculo, a casa estava superlotada, houve pessoas que ficaram à porta, e José Crespo recorda-se de uma excelente ceia oferecida pelo Dr. Amílcar Magalhães, Presidente da Direção.
De acordo com a revista Plateia (de Lisboa), no seu número de 10 de Maio de 1962, a homenagem a Silva Tavares e à O.T.C, realizada no dia 3 desse mês, em Alcobaça, constituiu uma parada dos melhores artistas da Rádio e TV nacionais, e uma orquestra da categoria que é a de Tavares Belo. Uma casa cheia e um público ansioso que, não regateou aplausos quando Fernando Correia, alegre e comunicativo locutor da EN, anunciou o início do espetáculo.
Na primeira parte, atuou a O.T.C. e Silva Tavares, como era usual sempre que presente, foi alvo duma significativa ovação, quando se acabou de ouvir a Canção de Alcobaça. Os locutores Fernando Correia e Artur Peres apresentaram na segunda parte, Gina Maria, Domingos Marques, Trio Harmonia, Cristina Maria e Alice Amaro, acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Na terceira parte, foram chamados ao palco, o homenageado Silva Tavares, o Maestro Eduardo Loureiro, chefe da Secção de Música Ligeira da E.N., os Maestros Melo Pereira, chefe da Secção de Música Ligeira da RTP, Belo Marques e um representante da casa discográfica Valentim de Carvalho. Subiram ainda ao palco, o presidente da CMA, Jaime Horácio Junqueiro e Vereadores, bem como a direção do C.A.A.C.
Jaime Junqueiro dirigindo-se a Silva Tavares, disse que temos V. Ex.ª. como filho de Alcobaça, pois esta vila é como uma pátria para a qual corre sempre que pode e a quem entregou o diploma que o torna filho adotivo e cidadão de Alcobaça.
O Dr. Amílcar Magalhães, teceu elogio às pessoas e à ação de Belo Marques e a Silva Tavares. Silva Tavares agradeceu e, disse que (…) eu gosto de Alcobaça, como gosto daquilo que gosto. Gosto da minha mulher, porque gosto (…). Em seguida, fez a pequena história do nascimento da Canção Alcobaça, e a sua original criação, na voz de Cidália Meireles.
Quem cantou pela primeira vez a Canção de Alcobaça, foi Cidália Meireles, que tendo ido trabalhar para o Brasil, cedeu o lugar a Maria de Lurdes Resende, que fazia parte do elenco do coro feminino da EN.
Maria Luísa Dionísio está convencida que foi Belo Marques quem perante a impossibilidade de Cidália Meireles continuar a colaborar com a O.T.C., tomou a iniciativa de convidar Maria de Lourdes Resende, para o seu lugar, acabando assim por ficarem indissoluvelmente ligadas. A Canção de Alcobaça passou a fazer parte obrigatória, do repertório de Maria de Lourdes Resende (a menina feia), atuasse ou não com a O.T.C., bem como de artistas como Francisco José, no auge da fama e no Brasil.

Num gesto, que muito sensibilizou os presentes, Silva Tavares, abraçou na pessoa do Presidente da Câmara a vila de Alcobaça, após o que a seguir ainda atuaram Maria Marise, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias, a brasileira Mara Abrantes e conjunto de guitarras de Rui Nery, todos acompanhados pela Orquestra de Tavares Belo. Como era tradicional, a O.T.C., ofereceu a todos os participantes do espetáculo, que o foram a título gracioso, uma lembrança a testemunhar e a agradecer o contributo de cada um e todos, para o êxito do evento. No final, foi servida uma ceia, tendo ficado bem vincada e registada, a simpatia dos responsáveis do evento, para aqueles que atuaram.

A 23 a 27 de julho de 1962, decorreu em Lisboa, com sessões de trabalho na Faculdade de Direito, o XIX Congresso da União Internacional dos Advogados (Union Internationale des Avocats), cujo Presidente era o Professor Doutor Adelino Palma Carlos. Da Comissão Executiva faziam parte, entre outros distintos Advogados, António Madeira Pinto (Secretário Geral), José de Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes ou José Maria Gaspar. Para além do Congresso, havia uma parte social com espetáculos e passeios, sem prejuízo de um programa próprio para as senhoras, esposas dos congressistas. O Advogado e presidente do C.A.A.C., Dr. Amílcar Magalhães, convidou a O.T.C. a fazer uma apresentação para os congressistas, antes do almoço que se realizou no Mosteiro de Alcobaça, no dia 25 de julho.
Chegou até hoje a ementa do almoço, da responsabilidade da Pensão Restaurante Corações Unidos: Acepipes, Linguados à Beneditina, Frangos na Púcara à Fradesca, Lampreia de Ovos à Mosteiro, Frutas de Alcobaça e Café. Os vinhos branco e tinto, bem como a aguardente velhíssima, eram JEM (José Emílio de Magalhães). Também foi servida a boa  Ginja de Alcobaça. Durante a visita aos Mosteiros de Alcobaça e Batalha, bem como ao Castelo de Leiria, fizeram breves palestras, respetivamente, o Professor Joaquim Vieira Natividade, Dr. Pais d’Almeida e Arquiteto Camilo Korrodi. Nesse dia, os congressistas deslocaram-se à Nazaré (onde assistiram a um programa de folclore), Batalha e Leiria (em cujo jardim municipal lhes foi servido um chá e atuou o Orfeão de Leiria))

Ainda nesse ano, a 27 de outubro, a O.T.C. deslocou-se à sede da Academia Recreativa de Santo Amaro, para uma sarau de responsabilidade em que participaram Graça Maria, Artur Garcia e José Nobre, apresentado por Pedro Moutinho (então casado com Maria Leonor), e que utilizava sempre uma orquídia branca na lapela do casaco, como recorda Maria Luísa Dionísio.

Em janeiro de 1963, realizou-se no Cine-teatro de Alcobaça, um espetáculo de homenagem à O.T.C. (que, por isso, não atuou), no estilo do programa da TV, Melodias de Sempre, pelo muito que têm feito em favor da música popular portuguesa. Colaboraram, graciosamente, artistas como Artur Garcia, Madalena Iglésias, Mara Abrantes, Maria Marise, Gina Maria, Elsa Vilar, Maria Fernanda Soares, Domingos Abrantes, o Coro das Melodias de Sempre, com o maestro António de Melo ao piano. A locução esteve a cargo de Fialho de Gouveia, Fernando Correia e Henrique Mendes. Os artistas utilizaram o guarda roupa cedido por Anahory, conhecido figurinista das revistas do Parque Mayer e das peças de teatro da TV.

No ano de 1963, a O.T.C. realizou variados espetáculos, como na Maiorga (com Maria da Glória e Eugénia Maria) ou em Valado de Frades (com Maria Fernanda Soares e Artur Garcia).
Na alameda da Quinta da Cova da Onça, vistosamente engalenada, promovido por C.A.A.C., realizaram-se, no ano de 1963, os festejos dos Santos Populares. A O.T.C. marcou presença na última noite. Ali funcionou uma quermesse com barracas de tômbola (panelas e tachos), de ginjinha, de rifas, de comes-e-bebes, com amêijoa, frango no espeto, sardinha assada, etc., bem como barracas dos mais variados artigos, onde predominavam os de fabricação alcobacense. Nesse ano, a RTP havia vindo a Alcobaça filmar o espaço da Cova da Onça, onde estavam a decorrer as festas, para utilizar as imagens num programa que a O.T.C. veio a apresentar em direto nos estúdios de Lisboa. No ano seguinte (1964), os festejos dos Santos Populares realizaram-se na cerca do Asilo de Velhinhos Maria e Oliveira. Desta vez, vieram a Alcobaça, artistas como Maria Fernanda Soares e Artur Garcia (propagandeado como conhecido e apreciado dueto de Melodias de Sempre) Fernanda Pacheco, Luís Piçarra (o mais internacional dos artistas portugueses) e Gina Maria (1º. Prémio de interpretação em Espanha), Margarida Amaral, Fernanda Pádua (uma promessa de futuro), Lina Maria, Max (madeirense autor e intérprete do sucesso popular A Mula da Cooperativa e Pomba Branca), Carlos do Nascimento, (Rei da Rádio de Angola e apreciado artista da Rádio e da TV), e ainda Simone de Oliveira, (vedeta da voz de oiro e rainha da popularidade). Desde o Santo António, que ali se vinham realizando festejos, nos quais se exibiram, além dos consagrados artistas, o Orfeão da Sociedade Central de Cervejas, sob a regência do maestro Alves Coelho (Filho). Mas foi precisamente a noite de S. Pedro, que se revelou especialmente notável. O sarau, numa noite chuvosa e ventosa, pouco agradável, começou pelas 22h, com a exibição do Rancho Folclórico da Nazaré, num recinto completamente cheio. Porém, o grande momento da noite consistiu como é óbvio na apresentação da O.T.C. Nestas atuações, interpretava a peça, que aliás veio a gravar em disco, Há Mercado em Alcobaça.
No ano 2000, a Rádio Renascença, conjuntamente com a Movieplay, numa coletânea de Clássicos Portugueses, fez uma reedição e uma passagem para CD:
Alcobaça tem // Um mercado original // Pois que toda gente que aqui vem // Vai a dizer bem, //Nunca diz mal.
Vende-se de tudo//Que é antigo e que é moderno,//Tecidos de chita e de veludo//E frutas do verão, em pleno Inverno.
Se depois chegar,//Em passando o nono mês//Um bebé bonito p’ra alegrar,//Terá que comprar //Mas para três…//E depois virá o tal dia que é preciso//Ensinar aquilo que ouviu já//Para que o rapaz tenha juízo…
Só nos prende//Um pormenor//Não se vende //Aqui amor…
Estribilho
Quem quiser//Escolher//A mulher//P’ra viver,//E pensar//Vida sã//Para o lar//De amanhã,//Só precisa comprar//Valiosos bragais,//E depois … //É casar,//Nada mais!
A O.T.C. recebeu no dia 14 de dezembro de 1963, a Orquestra Típica Albicastrense que veio a convite do C.A.A.C. dar um espetáculo ao Cine-teatro. Segundo o jornal Reconquista, de Castelo Branco (22 de dezembro de 1963), a caravana albicastrense, esperada em Aljubarrota por mais de uma dezena de carros, apesar da chuva que persistentemente caía, foi a mesma escoltada até ao largo fronteiro ao edifício dos Paços do Concelho, onde foi recebida pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal, pela digníssima vereação, direções do Centro Alcobacense de Arte e Cultura, da Orquestra Típica de Alcobaça, etc., e por muito povo que ali acorreu ao ouvir a salva de morteiros e as girândolas de foguetes que foram deitados. Uma banda de música, que se encontrava em frente aos Paços do Concelho executou o hino no momento em que a embaixada de Castelo Branco entrou no edifício. À noite, o sarau do Cine-teatro, com casa esgotada, começou com a O.T.C., seguida na segunda parte pela Orquestra Típica Albicastrense e, finalmente, um ato de variedades, em que atuaram Artur Garcia e Simone de Oliveira, bem como, os apresentadores Henrique Mendes e Leite Pereira. No final do espetáculo, de acordo com o cronista de Castelo Branco que acompanhou e registou a saída do seu agrupamento, foi servido o opíparo copo de água (desta vez no Restaurante Bau) a todos os elementos que tomaram parte no sarau, tão abundante e variado que, no fim apesar de se encontrarem presentes mais de 150 pessoas (…) dir-se-ia que estava intato!!!.
Maria Luísa estava tão cansada, que na ceia do Restaurante Bau, o que mais lhe apeteceu foi sentar-se, ficar quieta, esticar as pernas, fechar os olhos e… descansar. De facto as meninas da O.T.C. desdobraram-se a solicitar às senhoras de Alcobaça, para que oferecessem um prato, quente ou frio, para a ceia.
No tempo de D. Celeste, proprietária da Pensão Restaurante Corações Unidos, pessoa extremamente entusiasta, por todas as coisas de Alcobaça, havia sempre disponibilidade para que quando algum artista tivesse que jantar antes do espetáculo, ou ficar para o dia seguinte, o fizesse em sua casa, em condições muito especiais. É importante realçar a colaboração da população de Alcobaça, quando se realizavam espetáculos no Cine-teatro, com a presença de artistas de fora e de nomeada, os quais se deslocavam em geral graciosamente, e a convite do maestro Alves Coelho (Filho), que tinha uma boa relação com quase todos eles. A finalidade, normal, era angariar fundos, para uma determinada obra social e estes simpaticamente colaboravam. Os tempos eram outros….
A propósito da deslocação da Orquestra Típica Albicastrense a Alcobaça, o Jornal do Fundão (5 de janeiro de 1964), destaca o calor da assistência na sala repleta de assistentes, a receção e boas vindas calorosas daquelas gentes onde a arte não morreu…, por contraponto ao que se passa em Castelo Branco, cuja população dá pouco apoio à sua Orquestra Típica. Sobre este assunto, João da Gardunha, no mesmo comprimento de onda e de apelo ao bairrismo, lastima como foi chocante, doloroso mesmo, verificar a indiferença com que a cidade (Castelo Branco) acolheu o espetáculo anual da O.T.A. (Orquestra Típica Albicastrense)que lhe foi dedicado. E foi tanto mais notória essa impressão dolorosa, porque, apenas dois dias antes a mesma O.T.A., após uma receção grandiosa e inenarrável na vila de Alcobaça, culminou essa visita com uma actuação que perdurará através o espaço e o tempo na memória daqueles que a ela tiveram a dita de assistir, tal o nível a que se alcandorou, devido ao brio dos seus dedicados componentes.
Segundo o República (30 de julho de 1963), a O. T. C. não precisa de apresentações, é mais do que conhecida no país e apreciada pelas suas exibições no programa da RTP -Melodias de Sempre.

Antes de findar o ano de 1964, a O.T.C. ainda se deslocou à Figueira da Foz a 7 de Novembro, para cumprir um contrato como Casino Peninsular, aonde bisou várias canções, alcançou êxito e dedicou à cidade anfitriã a seguinte peça, cuja letra nos foi facultada (obviamente) por José António Crespo, esse dedicado e apaixonado colecionador de coisas relacionadas com Alcobaça.
Rainha do mar português// Figueira//Que tem mais azul todo o mar//Figueira//A serra onde tu te revês//Figueira//Parece um milagre a passar//Figueira.
O mar//De bravura//E altura// Sem par,//Sorri na Figueira da Foz.//O mar//Que não pode// Nem pede//Lugar,//Sorri na Figueira da Foz.//O mar//Que por vezes//Revezes nos traz//Sorri na Figueira da Foz.//Se o mundo quiser// Conhecer//Sonho e paz//Que venha à Figueira.
O Alcoa (13 de fevereiro de 1965) deu nota da festa de confraternização do C.A.A.C., que organizou um almoço oferecido pela direção a todos os componentes da O.T.C., e onde estiveram presentes o Chefe dos Serviços Musicais da E.N., Alves Coelho (Filho) e esposa. Após o almoço usaram da palavra, entre outros, Fernando Afonso Ramos, Fernando Raposo de Magalhães e Raul dos Reis Gameiro. O Chefe dos Serviços Musicais da E.N. agradeceu o convite, que lhe foi dirigido e à esposa, enalteceu o papel e o contributo que a O.T.C. tem desenvolvido, junto da sua entidade patronal, como intérprete privilegiado da música portuguesa.
De novo, em colaboração com a E.N. e a F.N.A.T., em Maio de 1965, a O.T.C. realizou um Serão para Trabalhadores, no Liceu Camões-Lisboa, dedicado ao pessoal da Soponata. Neste Serão, atuaram também a Orquestra Ligeira da EN, sob a regência de Tavares Belo, o Conjunto Quatro de Espadas, Isabel Fontes e Ivone de Andrade (apresentados como novos artistas), Artur Garcia, Coro Misto e Orquestra e ainda Simone de Oliveira. A primeira parte do nosso tradicional Serão (na apreciação encomiástica feita pela organização) caracteriza-se por um belo desfile de melodias, impondo mais uma vez, o bom gosto dos nossos compositores. O lugar aos novos será preenchido pela rubrica de revelações, Novos Artistas, testemunho claro do incentivo que a E.N. proporciona aos esperançosos cançonetistas que procuram, ansiosamente, o rumo da consagração. Saliente-se, ainda, a intervenção do Coro Misto que sublinhará, acompanhado da Orquestra Ligeira da EN, dirigida por Tavares Belo, a inesquecível melodia de Raul Ferrão Abril em Portugal. Momento de beleza musical estará também a cargo do Coro Feminino, revivendo a já famosa página de Tavares Belo Dois Tempos de Jazz. Na segunda parte, atuou a O.T.C., no intuito de variar os elencos destes tão populares passatempos recreativos, organizados pela EN em colaboração com a FNAT, mais uma vez depois de tantos êxitos colhidos, volta à ribalta artística do nosso Serão para Trabalhadores, o Coral de Alcobaça, que tanto tem contribuído para a divulgação do rico folclore português. Além do conjunto vocal associa-se o relevo musical da sua conhecida Orquestra Típica. Este conjunto, bem como o Coral são dirigidos por Alves Coelho (Filho) e todas as suas interpretações obedecem a um seletivo reportório de melodias, onde está presente a alma do povo nos seus cantares e desgarradas.

Na noite de 22 de maio de 1965, a O.T.C. foi participar num Sarau organizado pelo Grupo de Instrução Popular da Amoreira-Costa do Sol. Cerca das 22h teve início um baile, com a colaboração de um bom conjunto musical. Segundo o Jornal da Costa do Sol (29 de maio de 1965), foi como que uma façanha a presença da O.T.C., que se deslocou (gentilmente) à Amoreira, conjuntamente com a artista de Cascais, Natalina José. Quando pela 1h da manhã atuou a O.T.C., constituída como sublinhou Alves Coelho, por gente simples e rude que ganha o seu pão cavando os campos, e interpretou a Canção de Alcobaça, ouviram-se calorosos e prolongados aplausos, que premiaram o agrupamento, como era habitual aonde e sempre que a orquestra se apresentasse. Segundo o mesmo Jornal da Costa do  Sol, o único senão na atuação da O.T.C. de Alcobaça foi não ter prolongado um pouco mais, a sua exibição, para dar ainda novas provas do seu valor.

A O.T.C. recorde-se era composta, exclusivamente, por amadores.
Maria Luísa Dionísio lembra uma deslocação ao Reformatório de Caxias, aonde Alves Coelho (Filho) era professor de música. No Reformatório, havia oficinas das mais variadas atividades, como carpintaria, serralharia, tipografia ou cartonagem. Então, houve a enorme gentileza por parte da organização, de oferecer a cada membro da O.T.C., um bloco encadernado com uma dedicatória Recordação do Reformatório de Caxias. Tão apreciada foram estes blocos que, doravante passaram a ser utilizados, para registo das letras ou guardadas as pautas das músicas.

Um grande espetáculo da O.T.C., ocorreu no Cine-teatro de Alcobaça, no dia 13 de Janeiro de 1968, dia de aniversário de Rosa Maria Coelho, que nos camarins teve direito a que lhe cantassem os parabéns. Na primeira parte exibiram-se ranchos folclóricos dirigidos por Celestino Graça, Grupo Infantil de Dança Regional de Santarém, Grupo Académico de Danças Ribatejanas, Rancho Folclórico do Bairro de Santarém. A O.T.C. apresentou-se, desta vez, sob a regência do maestro fundador, António Gavino que se encontrava de férias, vindo de Moçambique. Além do mais, tinha havido um pequeno diferendo entre Alves Coelho (Filho) e a direção do C.A.A.C., o que acarretou que aquele se tivesse ausentado durante algum tempo.

No Cine-teatro de Alcobaça, a 17 de maio de 1969, novamente com Alves Coelho (Filho) o C.A.A.C. para comemoração do seu 12º aniversário, realizou um Sarau, onde colaboraram, a nossa querida Maria de Lurdes Resende, intérprete inolvidável da Canção de Alcobaça e Libânia Feiteira, a grande revelação da arte de declamar.
No dia seguinte, o C.A.A.C. organizou pelas 14h um torneio de tiro aos pratos, pondo em disputa libras de ouro. Ao mesmo tempo, houve um torneio para amadores, ou seja para aqueles que nunca atiraram aos pratos.

Pouco depois, a O.T.C. foi convidada a deslocar-se à RTP a fim de participar no programa Zip-Zip, transmitido em direto a partir do Teatro Variedades, no Parque Mayer, bem como um outro realizado no Pavilhão dos Desportos, onde atuaram as mais relevantes Orquestras Típicas do País, isto é, Alcobaça, Santarém, Castelo Branco e Estremoz. Este espetáculo, que foi transmitido pela RTP, teve o interessante acrescido de ter finalizado com uma atuação conjunta das 4 Orquestras, dirigidas pelo Maestro Melo Pereira.

Silva Tavares, pessoa de fino trato, foi um bom amigo de Alcobaça, com quem mantinha uma forte ligação afetiva, e frequentava com bastante assiduidade. Em Alcobaça sentia-se bem, pois era muito estimado, e que considerava como a sua segunda terra. Aqui recuperou nas Termas de Piedade, após uma grave doença que determinou a sua hospitalização.

Por testamento de 1969, veio a legar alguns bens à CMA, como os seus retratos de autoria de Luciano Santos (óleo), de Eduardo Malta (lápis), de José Contente (pastel), livros de que foi autor, numerados, assinados ou por si rubricados, as pastas que utilizava profissionalmente, um cofre em mármore contendo terra do quintal da casa natal em Estremós, uma máscara em bronze do seu amigo, poeta brasileiro Olegário Mariano e ainda uma luxuosa encadernação da obra O Cardeal Cerejeira, da autoria do Pe. Moreira das Neves, na qual existia dedicatória do purpurado.
Foi Maria de Lurdes Resende, quem se veio a revelar a grande intérprete da Canção de Alcobaça. Irrequieta e traquina desde a mais tenra idade, nasceu no Barreiro em 1927. Canta desde que se lembra, como em 1957 contou numa entrevista à revista Flama e donde se respigaram estas notas. Assim que nasceu, começou a berrar, tarefa a que se dedicou durante o primeiro ano de vida, para grande desespero e insónia dos pais. Ao crescer, ganhou a convicção de que um dia seria cantora profissional, talvez até de ópera. Os pais opuseram-se com veemência e só aos 18 anos se estreou em palco, embora com o nome de Maria de Lurdes, porque Resende era o nome da família que a tinha contrariado na sua ambição. Maria de Lurdes Resende, chegou a ganhar grande popularidade, com uma voz ao serviço das cantigas. Alcunhada gentilmente de a Feia Bonita, Maria de Lurdes Resende deu a resposta adequada, popularizando a cantiga A Feia.
Mas a Canção de Alcobaça foi, efetivamente, o seu grande êxito, em Portugal e além fronteiras. Quem passa por Alcobaça//Não passa sem por cá voltar (…).

À boa moda portuguesa, passaram a correr na vila uns versos, parodiando a Canção de Alcobaça. Tais versos, vinham a propósito do estado do Rio Baça que tinha, como hoje, um pequeno caudal, e que exalava um cheiro nauseabundo. Junto à ponte da Rua David da Fonseca foi colocada pela Câmara Municipal uma placa, proibindo os vazadouros, aliás sem grande sucesso durante muito tempo, por obra e graça de muito alcobacense, incapaz de mudar de hábitos ancestrais… Os versos eram, se bem se recorda aqui:
Quem passa por Alcobaça//E vai visitar o Baça//Apanha tal pitaça//Que nunca mais por lá passa.
O rio Baça constituía um enorme depósito de detritos em putrefação e encontrava-se ainda a descoberto.

Em 1970, realizou-se em Lisboa, no Teatro Monumental, uma grandiosa festa de homenagem a Maria de Lurdes Resende, comemorativa dos seus 25 anos de vida artística. Presidiu o Presidente Américo Tomás, que condecorou a artista, tendo Alcobaça comparecido em massa, através da Câmara Municipal, Santa Casa da Misericórdia, a Orquestra Típica, Bombeiros, Ginásio e Grémio do Comércio. Enfim, todos para dizer a Maria de Lurdes Resende quanto a apreciavam e lhe estavam agradecidos como grande divulgadora desta terra de Cister.
Maria de Lurdes Resende, veio ainda em 29 de Abril de 1995, a ser homenageada em Alcobaça, ao  que o jornal Notícias de Loures, sob a pena de Jorge Valente, deu o devido destaque na primeira página. Os apresentadores do espetáculo no Cine-Teatro, foram Artur Agostinho, Etelvina Lopes de Almeida, Igrejas Caeiro e Isabel Wolmar que, em conjunto, se dirigiram ao público com um Boa noite, poeta Silva Tavares! Boa noite maestro Belo Marques! Boa noite Maria de Lurdes Resende! Boa noite Alcobaça! Com esta saudação, não se limitavam a fazer um cumprimento, resumiam também o sentido da festa: na homenagem à intérprete, tinham de por força estar o autor da letra, o compositor da música e a vila inspiradora da canção que correu mundo e não se esquece facilmente. Entre o muito expediente de congratulações que foi lido pelos apresentadores, o Noticias de Loures destacou duas ingénuas, simples, mas agradáveis quadras, que se transcrevem: Senhora grande a cantar//cantigas que o Povo entende//É Portugal a vibrar//A nossa Lurdes Resende. Que Deus de saber profundo//A proteja e a todos nós!//P’ra mesmo no outro mundo//Ouvirmos a sua voz.
Depois de agradecer as palavras do Presidente da Câmara Miguel Guerra, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, a homenageada referiu que, entre as mais de duas mil canções que cantei, há muitas que são solicitadas, mas Alcobaça é exigida. A aceitação do público comove-me e faz-me pensar que nasci aqui.
Por via da canção, a Câmara Municipal decidiu que autores e intérprete passaram a ser vizinhos na geografia da vila, mercê da atribuição dos seus nomes a três artérias da parte alta da Gafa. A Banda de Alcobaça esteve presente na homenagem e na prenda que ofereceu, consignou a seguinte dedicatória: Vão passando as águas dos rios. Na ponte para o futuro, fica a voz a cantar Alcobaça…
Silva Tavares foi ainda objeto de uma expressiva homenagem no Cine-teatro de Alcobaça, em Junho de 1972, aonde estiveram presentes, entre outros, o Presidente da Câmara, que usou da palavra e vereadores, o Deputado Dr. Amílcar Magalhães, representantes da EN e RTP, David Mourão Ferreira, em representação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, o escritor e amigo pessoal Adolfo Simões Müller, que usou da palavra, o Presidente da Câmara de Estremóz, terra natal do homenageado. Finda a cerimónia, foi descerrada uma lápide com o nome do homenageado na rua a que foi dado o seu nome, no então chamado bairro das Casas da Caixa de Previdência.

Cerca de um mês antes do imprevisto falecimento, Belo Marques também fora objeto de uma homenagem no Cine-teatro de Alcobaça, que se encontrava a abarrotar.

Tempos depois (nos anos sessenta) a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça, interpretava com Luísa Dionísio e outros, com muito agrado, um número com música de António Gavino e letra de Alberto Goucha:
Com fato dominguêro//Vim de casal e mais três//O irmão que é padêro//O burro e o Inês.
E na Fêra d’encontrões//Que levê no meu corpinho//Perdi todos os botões//De fato tão novinho.
No carrossel é que é//Dez tostões uma voltinha//Nem me tinha já de pé//Tanta volta dá a pinha.
Mas gostei e não lamento//O dinhêro que gastava//E quis levar o jumento//Só p’ra ver o qu’aquilo dava.
Logo naquele momento//Disse ao Inês ao acaso//Olha lá traz o jumento//Que um a mais não faz é caso.
E a bruxa leu as sinas//Disse ao Inês em segredo//Há de ter oito meninas//Deixe lá não tenha medo.
À Fêra não volto mais//Enquanto tiver memoira//Mas vês outros que voltais//Ouçam o resto da história.
Deus quis assim, nós também//Casámos eu e o Inês//A bruxa falara bem//Meninas só faltam três.
Arre burro!
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS



O MUD EM ALCOBAÇA. A COMISSÃO DOS JURISTAS DEMOCRÁTICOS. SANCHES FURTADO. RECORDAR PARA NÃO ESQUECER.

 

O MUD EM ALCOBAÇA.
A COMISSÃO DOS JURISTAS DEMOCRÁTICOS.
SANCHES FURTADO.
RECORDAR PARA NÃO ESQUECER.

Fleming de Oliveira



É interessante recordar, no âmbito MUD, a Comissão dos Juristas Democráticos, umas das primeiras subsecções a iniciar atividade.
Embora o DL nº35044, de 20 de outubro de 1945, tivesse extinguido o Tribunal Militar Especia, e criado os Tribunais Plenários, encarregados de julgar os alegados crimes contra a Segurança do Estado, pouco ou nada mudou.
Um dos primeiros casos a chegar à Comissão de Juristas Democráticos, foi o dos marinheiros do Dão e Afonso de Albuquerque, que tinham sido julgados e condenados em 1936, pelo Tribunal Militar Especial. A defesa destes e outros políticos, bem como a denúncia continuada das arbitrariedades do regime e da polícia política, foram atos de coragem e de desprendimento de advogados que, por amor à causa, fizeram da barra do tribunal, uma trincheira de combate.
Tanto quanto o movimento se sentiu credor de adesão popular, na mesma medida se tornou uma ameaça para o Regime. Para Salazar, quem não fosse por ele era contra ele (e comunista), pelo que pouco mais de três anos depois, em janeiro de 1948, ilegalizou-o, sob o pretexto de ligações ao PC. No entanto o MUD, ainda veio a apoiar a candidatura do Gen. Norton de Matos, em 1949.

A par do MUD existia o MUDJuvenil, entre os quais militavam Salgado Zenha, João Sá da Costa, Júlio Pomar, Maria Fernanda Silva, Mário Sacramento, Mário Soares, Fidelino Figueiredo e Rui Grácio.
No MUDJuvenil conviviam várias ideologias e tendências, que de comum tinham o serem oposicionistas à Ditadura e ao Estado Novo.
Ferrer Correia, meu Professor na F.D. Univ. Coimbra, e mais tarde Presidente da Fundação Gulbenkian após Azeredo Perdigão, foi um dos juristas e académicos que aderiu ao MUD no pós-guerra. Mestre reputado, fez percurso coerente de defesa dos ideais republicanos e académicos. Aluno brilhante, doutorou-se aos 27 anos com uma tese sobre o Erro e Interpretação na Teoria do Negócio Jurídico que lhe granjeou prestígio a nível internacional. As convicções políticas, contudo, haviam de lhe atrasar a carreira académica: em 1945, com outros mestres da Faculdade de Direito, como Manuel de Andrade, Teixeira Ribeiro e Eduardo Correia (estes dois que também foram meus professores), aderiu ao Movimento de Unidade Democrática, o que lhe valeu ter de esperar dois anos pela abertura do concurso para Professor Extraordinário da instituição.

O MUD, tal como o MUDJuvenil, também teve presença em Alcobaça. A apreensão em Alcobaça de documentos relativos ao MUD, de um jornal clandestino e de um panfleto anti-fascista, no ano de 1947 que constam do Processo nº 230/47 da PIDE, que a Profª. Zulmira Marques consultou, têm interesse para a pequena história política de Alcobaça. 
No dia 28 de Abril de 1947, no laboratório da Farmácia Campião foram descobertos um Relatório e Mapas de Contas da Comissão Concelhia de Alcobaça do MUD, um exemplar muito amarelecido do n°19 do jornal clandestino A Terra (de 1945), e um panfleto intitulado O Povo Português Quer Justiça. o jornal A Terra, assumia-se como órgão anti-fascista e trazia no editorial um artigo muito crítico de Salazar.

Estiveram, entre outros, envolvidos na formação e desenvolvimento do MUD, em Alcobaça:
-Carlos Pereira Campeão, farmacêutico, de 64 anos, casado, natural de Tomar, dono da farmácia com o mesmo nome, que ainda hoje existe;
-Acácio da Silva Morais, de 37 anos, casado, empregado na Farmácia Campião;
-Artur Faria Borda, de 38 anos, casado, comerciante;
-Joaquim Belo Marques da Silveira, de 56 anos, divorciado, farmacêutico;
-José Sanches Furtado, de 56 anos, casado, comerciante;
-João da Trindade Ferreira, de 32 anos, solteiro, comerciante;
-António Joaquim Moreira, de 51 anos, casado, proprietário, de Évora de Alcobaça;
-Joaquim dos Santos Cesário, de 42 anos, casado, empregado comercial;
-Adelino Serrano de Sousa e Silva, de 25 anos, solteiro, empregado de comércio;
-José de Oliveira Júnior, de 51 anos, casado, industrial de tipografia;
-João Duarte, de 62 anos, casado, reformado dos correios; e
-Aníbal Duarte, de 32 anos, casado, industrial de tipografia (dono da Tipografia Provir), e residente nas Caldas da Rainha;
Segundo o processo, que vou seguir de perto graças à disponibilidade e amabilidade da Profª. Zulmira Marques (filha de J. Sanches Furtado), chamado a depor pela seção local da PIDE, o proprietário da Farmácia Campeão, Carlos Pereira Campeão, afirmou que o exemplar do Relatório e Mapas de Contas do MUD lhe foram entregues na sua ausência, desconhecendo a pessoa que o tivesse enviado, enquanto que o jornal e o panfleto clandestinos lhe foram enviados pelo correio, desconhecendo o remetente. O interrogado garantiu que na farmácia nunca teve mais exemplares do Relatório e Mapas de Contas do MUD, mas que teve na montra um impresso aconselhando o povo a fazer o seu recenseamento eleitoral, trabalho executado pela Comissão Concelhia do MUD, e um impresso com as instruções para essa ação cívica. Declarou que quem recebeu, via correio, tais impressos foi o seu empregado Acácio da Silva Morais.
Chamado a depor, José Sanches Furtado afirmou que faz efetivamente parte da Comissão Concelhia do MUD de Alcobaça, sem sede fixa, entidade que tem cobrado quota aos adeptos. José Sanches Furtado disse ignorar quem foi a pessoa que enviou os documentos.
Artur Faria Borda referiu por sua vez que o Relatório e Mapas de Contas do MUD foi impresso na Tipografia Provir, dado a recusa da parte da Tipografia Alcobacense em executar o trabalho.
Todos os demais implicados neste processo, foram ouvidos pelos agentes da PIDE, mas os seus testemunhos não acrescentaram nada de relevante para o historial do caso.
Os Autos de Declarações podem ser consultados nos originais existentes na Torre do Tombo.

Por fim, há que mencionar um relatório da PIDE acerca destes acontecimentos e a avaliação do meio político de Alcobaça. Neste documento é transmitida a ideia que Alcobaça é uma terra pouco afeta à Situação (o que não era de todo uma avaliação muito correta…) e que, por via disso, os trabalhos de investigação foram difíceis e demorados. Os agentes da PIDE queixavam-se, da quase inexistência de colaboradores bufos,  nos órgãos camarários e policiais da terra.

De acordo ainda com informações disponibilizadas pela Profª. Zulmira Marques, seu pai José Sanches Furtado, nasceu em 28 de Dezembro de 1891, no seio duma família da alta burguesia de Alcobaça e, naturalmente pela sua condição, estaria destinado a ter uma vida fácil e acomodada.
Porém, ele era muito diferente de seu pai, um monárquico fervoroso, duas vezes Presidente da Câmara e que nem queria ouvir falar da República, que se anunciava…. Meu pai tinha 19 anos quando foi proclamada a República, e no ardor da sua juventude, ela tornou-se a sua grande paixão. Serviu-a abnegadamente, foi duas vezes Administrador do Conselho de Alcobaça, granjeou muitas simpatias nas populações, pela forma como exerceu essas competências. Quando se deu a Revolta de Braga e depois a Revolução (28 de Maio de 1926), para ele foi um golpe terrível, e a partir daí tudo fez para que caísse o Estado Novo. Já em 1931, foi um dos mentores duma conspiração em que, seriam cortadas as comunicações em Pataias (que já referi atrás). Por isso, um grupo de alcobacenses teve que fugir para Espanha, onde estiveram exilados durante dois anos. Quando regressou a Alcobaça, não se conformou com a situação e depois de ter estado muito activo nas várias conspirações como, a Revolta da Mealhada foi de casa de meu pai que a família Botelho Moniz, primos do General Botelho Moniz, sairam juntamente com meu pai, já todos devidamente fardados para ir cortar as comunicações no Valado. Negligentemente e como sucedeu várias vezes ao longo de sua vida, quando lá chegaram foram informados que a revolta abortara e tiveram que regressar a minha casa. Quando das eleições do General Norton de Matos, foi um dos elementos mais activos, e isso valeu-lhe ser de novo preso e ter estado em Caxias durante três meses. Não esteve mais tempo porque nessa altura era Procurador-Geral da República, seu primo António Furtado Santos que intercedeu por ele. Infelizmente alguns dos seus companheiros, como pertenciam ao PC, estiveram presos em Peniche durante vários anos. Meu pai pertencia ao Partido Republicano Democrático, de Afonso Costa, e toda a vida se guiou esse ideário. Quando das eleições em que interveio o General Humberto Delgado, pela oposição, apesar da idade e doença agitou o Concelho todo a seu favor, e acompanhou-o durante a sua estadia em Alcobaça, por todas as freguesias e no dia das eleições esteve a fiscalizar as urnas, tendo obtido o partido da oposição uma vitória.

Existe uma foto, tirada à porta do antigo Café Restaurante Bau e Pastelaria Toval, onde José Sanches Furtado aparece ao lado do general, que se encontra publicada no jornal O Alcoa, na secção RECORDAR PARA NÃO ESQUECER!
Nesta foto, a redação de O Alcoa, sob a pena de Orlando Carvalho Pedrosa (já falecido), qualificou José Sanches Furtado, como democrata, idealista, homem vertical que a todos deixou profunda saudade.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS






UM MORTO NA VALA DA COFTA-ALCOBAÇA (1950)



 

UM MORTO NA VALA DA COFTA-ALCOBAÇA (1950)


Fleming de Oliveira


Por alturas de junho de 1950, apareceu afogado, numa vala junto à antiga Fábrica de Fiação e Tecidos de Alcobaça (COFTA), um indivíduo sem roupa, e cuja identidade nunca veio a ser confirmada, pelas autoridades. De facto, o cadáver foi enterrado por ordem do M.P. de Alcobaça, em vala comum. O assunto teve pouca repercussão local e ninguém, ao que saibamos, se mostrou especialmente interessado em aprofundá-lo. Por ali ficou esquecido.

Segundo escreveu Fernando de Sousa de Araújo Gouveia (técnico superior da DGS quando eclodiu o 25 de Abril, dez vezes louvado e com uma condecoração grega), in Memórias de um Inspector da PIDE, tratar-se-ia de Luís Moreira do Vale, funcionário do PC, cujo paradeiro se desconhecia há algum tempo.
Para Fernando Gouveia, este evento seria o corolário de uma história recambolesca, que começou com o assassinato de uma mulher, cujo o cadáver foi encontrado no lugar da Caverneira, Águas Santas, Maia, e a que o Jornal de Noticias, de 27.06.1950, deu algum relevo.
(…) A infeliz, além de vários golpes no rosto, apresentava alguns orifícios na cabeça e no peito, produzidos por balas. Junto ao corpo foram encontradas sete cápsulas de pistola e um carregador e uma mala de mão, apresentando o cadáver sinais de luta (…).
No desenvolvimento das investigações, a vítima, cuja identidade se desconhecia, pois estava deliberadamente desfigurada, foi autopsiada no Instituto de Medicina Legal, do Porto, tendo-se concluído que fora atingida por onze tiros, nove pela frente e dois por detrás. E que já em terra, fora ainda atingida por mais dois no coração. Parecia estar-se perante um crime passional, embora fosse estranho o facto de terem sido usadas duas pistolas. O Jornal de Notícias, continuando a acompanhar o caso, levantou a hipótese (que se veio a revelar consistente) de a dita mulher ser de Vila Franca de Xira, visto nesta localidade ter, entretanto, aparecido no posto da GNR, uma outra que a reconheceu como sendo sua irmã, Aurélia da Ascensão.
O Instituto de Medicina Legal, para ajudar a identificar a vítima, havia pedido aos jornais que divulgassem os seus sinais. Tratava-se, pois, de Aurélia da Ascensão ou Assunção, casada com um tal Luís Moreira do Vale, como veio a ser reconfirmado por um irmão.
Continuando a desenvolver e publicar notícias, o Jornal de Notícias, divulgou mais pormenores, concretamente, que o autor do homicídio terá sido o marido Luís Moreira do Vale, que se encontrava a monte. O casal vivia há uns anos na zona do grande Porto, mudando-se com alguma frequência, usando cada um deles um novo nome, dado serem funcionários do PC. A 14 de abril, o casal mudou-se mais uma vez, talvez a última, utilizando um automóvel conduzido por indivíduo, entretanto devidamente identificado, e que desapareceu oportunamente.
Segundo a PIDE, melhor dizendo, Fernando Gouveia, a morte da mulher, funcionária do PC, estaria ligada, embora de uma forma não esclarecida, com a transferência apressada de uma tipografia clandestina do PC, em Vila Nova de Gaia, para Caldas da Rainha. Depois da morte da Aurélia, o PC, conforme o escrito de Fernando Gouveia (cuja credibilidade  me merece  reservas), passou a apresentá-la, como uma debochada, incapaz de suportar a presença de um homem sem o cobiçar, e sem se lançar nos braços do primeiro que lhe acenasse, o que fazia perigar a segurança da casa ilegal que habitava com o marido, Luís Moreira do Vale, ao mesmo tempo que punha em risco os camaradas centrais, que passavam por lá em inspecção periódica. E atribuía o crime ao ciúme de qualquer amante despeitado.
Fernando Gouveia, adianta que o PC, considerando-a incorrigível, decidira puni-la, mandando desmanchar a casa e regressar à vida legal ou para Alhandra, onde residira com o marido, antes de ambos passarem à clandestinidade ou para Vila Franca de Xira, donde era natural.

Ninguém sabe o que se terá passado depois, porque foram utilizadas duas armas, a intenção de a desfigurar tão gravosamente, bem como o destino do Luís Moreira do Vale. Como apareceu então o Luís Moreira do Vale numa vala que corre, sem resguardo, ao longo de muitos metros da estrada Alcobaça-Valado de Frades, perto da C.O.F.T.A.?

Para Gouveia, a mulher terá sido morta por ação de duas pessoas, ambas do PC, uma das quais o marido, o qual veio a ser depois silenciado pelo cúmplice, para prevenir uma eventual denúncia.
A credibilidade de Fernando Gouveia suscita dúvidas.
Nunca refere (obviamente?),  o que se sabia no seio da oposição e passou a ser público, depois do 25 de Abril, desde logo, graças à ação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, que elaborou um relatório para a Comissão de Extinção da PIDE/DGS.
O ex-PIDE, destaca pelo contrário, o mérito das práticas coercivas utilizadas cientificamente nos interrogatórios de manhã, de tarde ou noite, sem evidenciar que o grande objetivo era aniquilar a vontade de resistência do detido, destruir a sua personalidade, utilizando, se necessário, a humilhação para o levar a falar. E destaca ainda, as condecorações e louvores a si e colegas, bem como os métodos de investigação.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS





A LICENÇA DE USO E PORTE DE ISQUEIRO


 
A LICENÇA DE USO E PORTE DE ISQUEIRO

Fleming de Oliveira


Há coisas que, vistas à distância dos anos, parecem incompreensíveis.
É vulgar achar graça ao compararem-se preços com os do antigamente, algumas tradições, artes, que se foram perdendo ou as novas, velhas facilidades ou dificuldades da vida.
Algumas situações tidas como naturais, no tempo da outra senhora, levantam as maiores reservas ou dúvidas nos rapazes e raparigas que hoje têm 40 anos, como se tratasse de ingénuos contos da carochinha.
Lembrem-se, algumas restrições aos direitos, liberdades e garantias que afetavam a população, as incapacidades cívicas e políticas de que padecia a mulher relativamente ao homem, fosse ele marido ou não!!!.

Até aos anos 70 do século passado, em Portugal, era proibido o uso ou simples detenção de acendedores ou isqueiros que estejam em condições de funcionar quando os seus portadores não se achem munidos da licença fiscal. Os infratores eram punidos com a multa de 250$00, além de sofrerem a perda dos aparelhos. O mesmo diploma acentuava que das multas, no caso de haver denunciante, lhe caberia uma parte (37$50), correspondente à metade da comissão do autuante. Admitindo que não era relativamente exagerado o valor da licença semestral (50$00 em maio de 1970) tratava-se, de uma pequena gota de água no oceano do Orçamento do Estado.
Claro que havia muita gente que não tinha licença de isqueiro (num tempo em que quase todos eram a gasolina), mais não fosse por uma questão de princípio. Estavam a aparecer no mercado os isqueiros a gás, os BIC (descartáveis e  recarregáveis). No último semestre de 1969, cerca de 8.000 portugueses da Metrópole,  tiraram licença de isqueiro. No Ultramar, não vigorava esta imposição.

O Conselho de Ministros, presidido por Caetano, ao decretar a abolição, não fez mais do que dar uma pequena satisfação a uns tantos portugueses. Acabou-se uma prática, sem paralelo na Europa, que pouco beneficiava o Estado, implicava incómodos aos cidadãos em demoras arreliadoras para obter o impresso adequado, que custava $50 numa Repartição de Finanças, apenas onde era facultado e entregue. O preceito inseria-se na forma como, politicamente, o regime tratava certos assuntos.

A Licença de Isqueiro foi instituída em 1937 e, terá tido como razão, a proteção da indústria fosforeira nacional. O diploma não fazia referência ao destino das verbas recolhidas. A decisão de Caetano, não teve impacto de maior, até porque veio beneficiar apenas alguns fumadores, mas foi saudada, como uma manifestação de distensão da Situação.
Pelo menos, os fumadores com isqueiro deixaram de estar preocupados com a eventual e irritante presença de um fiscal, o fiscal de isqueiros.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS




RAINIER E GRACE KELLY Em ALCOBAÇA E NAZARé (1964) O IMPERADOR DA ETIÓPIA ATIRA MOEDAS DE OURO AO POVO, NA VISITA A ALCOBAÇA (1959)

 

RAINIER E GRACE KELLY Em ALCOBAÇA E NAZARé (1964)
O IMPERADOR DA ETIÓPIA ATIRA MOEDAS DE OURO AO POVO, NA VISITA A ALCOBAÇA (1959)
Fleming de OLiveira


Depois de Isabel de Inglaterra, os jovens Príncipes de Mónaco, Rainier e a charmosa Grace, acompanhados dos filhos, visitaram Alcobaça em 1964, no seguimento de uma ida a Fátima, tendo almoçado na Estalagem do Cruzeiro, em Aljubarrota. Há quem conte, como Luísa Pescadinha, ter assistido  na Nazaré, a Princesa Grace, a contar e confirmar pessoalmente, as suas típicas sete saias de peixeira.

Em 1959, o Rei dos Reis, O Senhor dos Senhores, O Conquistador Leão da Tribo de Judah, O Supremo Defensor da Fé e Poder da Santíssima Trindade, o Imperador Etíope, Hailé Selassié, que havia sido coroado em 2 de novembro de 1930 (o salmo 87:4-6 foi também interpretado como a previsão da coroação de Hailé Selassié), tinha efetuado uma visita a Portugal e, a Alcobaça, atirando aquando do acesso ao Mosteiro, algumas moedas de ouro aos populares que se debatiam histericamente atrás delas. Hailé Selassié era, de acordo com a tradição, o ducentésimo vigésimo quinto da linhagem de imperadores etíopes, descendentes do bíblico Rei Salomão e a Rainha de Sheba. Nos discursos da praxe, o Chefe de Estado africano e os responsáveis portugueses, fizeram referências aos laços históricos que uniam os dois países, desde o século XVI.
Na evocação da amizade luso-etíope, um episódio parece ter sido mútua e deliberadamente omitido, a posição assumida por Portugal na Sociedade das Nações, aquando da agressão da Itália fascista à Abissínia. Porque é que até determinada altura a defesa da independência da Abissínia mereceu o apoio do governo de Lisboa? E quais os motivos do volte-face operado por Portugal, em 1936, quando chegou internacionalmente a altura de endurecer o regime de sanções imposto à Itália?
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS