quarta-feira, 30 de abril de 2014

PIROTECNIA PARA UNS E OUTROS (Alcobaça no PREC).

 

PIROTECNIA PARA UNS E OUTROS (Alcobaça no PREC).
Fleming de Oliveira

Para Basílio Martins, embora a Revolução de 25 de Abril tenha uma das mais pacíficas da nossa história, (no sentido de menos sangrentas), nem por isso deixou de haver “fogo cruzado” entre os saudosistas do regime deposto e os partidários da Democracia e da Liberdade reconquistadas.
Até nos atos comemorativos.

Em Alcobaça, a efeméride era assinalada de “modo idêntico”, isto é, através de foguetório.
Os primeiros “de lágrimas”, eram lançados nas últimas horas de 24 de abril.
Os segundos “de festa”, surgiam, já a 25 de abril, mal acabavam de soar as badaladas, nos sinos do Mosteiro.

Numa dessas ocasiões, coube a Ilda Fragata, militante do MDP/CDE, ir à Calvaria encomendar o material pirotécnico. Ajustada a quantidade pretendida e pago o respetivo preço, a Ilda expôs a dificuldade de arranjar alguém que pudesse ir buscar a encomenda, ainda durante o dia.
A Senhora não se preocupe!, respondeu imediatamente o vendedor. Temos de levar os dos outros; também não nos custa nada levar os vossos!
E assim os foguetes chegaram a tempo de o Júlio da Sofia os deitar à hora do costume, para alegria de todos nós.



Maria de Lurdes Costa Ribeiro. -O ARCO DA MEMÓRIA (VIDAIS).


 
Maria de Lurdes Costa Ribeiro.
-O ARCO DA MEMÓRIA (VIDAIS).

Fleming de Oliveira

Maria de Lurdes Costa Ribeiro, de Turquel, é mulher que se destacou, pela vitalidade, vontade de servir e elevada noção do valor do serviço comunitário.
Foi a primeira Presidente de Junta de Freguesia do Concelho de Alcobaça, para cujo lugar, em Turquel foi eleita, em 1979.
Depois de ter estado emigrada com o marido vários anos na Alemanha, regressou a Portugal em 1973, pouco depois deste ter falecido e com um filho de 18, tendo sido sócia da Solancis, até 1992.
A família do marido fazia pressão para que voltassem a Portugal, trabalhar na empresa, em franco crescimento que já era, como ainda é, uma referência, não só no Concelho de Alcobaça, mas no País, na área da exploração da pedra da Ataíja e Moleanos, bem como do vidraço, cuja produção em grande parte se destina à exportação.
Em 1992 a Solancis, que integrava duas empresas, dividiu-se ficando Lurdes Costa e o filho com a que se dedica à Construção Civil.

Em julho de 1975, um conhecido e antigo fornecedor de componentes de máquinas para corte de pedra, estabelecido no Alentejo, na zona de Borba, foi à Solancis saber das necessidades, mas apresentando-se com um braço ao peito, engessado, e alguns hematomas faciais.
Contactando com Lurdes Costa, esta perguntou-lhe que acidente é que tinha sofrido, ao que respondeu que ao passar em Rio Maior, e o pessoal sabendo que era alentejano, mas desconhecendo os seus princípios e propósitos, provocou-o e agrediu-o, com tal violência, de que resultou a fratura de um braço e os hematomas.
Todavia, este alentejano nada tinha de comunista ou simpatizante e até dizia que se dava muito bem com os “fascistas”, pois eram quem lhe pagavam a tempo e horas e o ajudavam a viver a vida, com decência. Ossos do “ofício”.

Na empresa de Lurdes Costa Ribeiro, salvo um pequeno incidente, rapidamente sanado com o despedimento célere de alguns contestatários que reivindicavam de forma abusiva e exagerada aumento de salários e diminuição das horas de trabalho, não houve mais nenhuma contestação laboral e os sindicatos não tiveram oportunidade de intervirem.

Relativamente à Solancis, é justo trazer ao conhecimento geral que os seus verdadeiros pais, foram os antepassados dos atuais sócios que iniciaram a exploração da pedra na Serra dos Candeeiros, numa pedreira denominada Vale da Louceira, sendo o seu primeiro exportador José Oliveira Delgado, na década de 1900. A exploração consistia no arranque da pedra e sua transformação, em pias, no próprio local. Essas pias, além de outras utilizações, tinham como função principal guardar o azeite, da azeitona que o lavrador apanhava e mandava transformar. Serviam as pias ainda para guardar e salgar porco, que se matava pela altura dos Santos e era governo para o ano inteiro. Do equipamento inicial constavam apenas alavancas e serrotes e especialmente a força do braço de dois trabalhadores, que ganhavam 7$50 por dia.
Pias e cantarias abasteciam as terras limítrofes de Alvorninha, Santa Catarina, Vimeiro, Cela, Alfeizerão, Bárrio, Famalicão e Nazaré, sendo o transporte feito por carro de bois. O serviço era moroso, necessitando de um dia para percorrer 30km. A partir de 1920, Silvino Oliveira Delgado, após herdar desenvolveu a atividade do pai, e já munido com macaca e mais tarde com compressor, dedicou-se ao trabalho de fazer cantarias e campas para cemitérios. A herança passaria doravante de pais para filhos, já que desde cedo o pai, os ia iniciando na arte e desenvolvendo o gosto pelo trabalho da pedra.
O filho mais velho, Manuel Costa Oliveira Delgado, em 1951, e com 17 anos de idade, assumiu a responsabilidade de fornecer à firma Marques da Cruz, de Leiria, o trabalho de pedra, para o Estádio da Luz. O entusiasmo e ritmo adquiridos levaram a Solancis a comprar um terreno no Casal do Carvalho-Benedita, para montar uma oficina e assim se constituiu em 1969, aSolancis-Sociedade Exportadora de Pedreiras, Ldª”, dada a necessidade de satisfazer a procura de lancis e cantarias de calcário, vidraços e semirrijos da Ataíja e Moleanos.
Inicialmente as suas pedreiras tinham estrutura produtiva insatisfatória, que se suspendia nos períodos de maior atividade agrícola. Por outro lado, eram manifestas as carências de equipamentos. Os blocos eram arrastados com alavancas, macacas e crapoud.

No curriculum da empresa consta o trabalho de reconstrução de um “Arco da Memória”, em 1981 (Vidais).
O projeto foi do arquiteto Joaquim Pereira. A iniciativa do restauro, pois encontrava-se em ruínas, ficou a dever-se ao padre Manuel Vitorino da Silva Fernandes, Pároco de Vidais. Nos trabalhos, foram aplicadas cerca de 90 toneladas de blocos cortados e emparelhados na Solancis.

No cimo da Serra dos Candeeiros, existe um outro arco de volta perfeita que foi construído pelos Frades de Alcobaça para assinalar a divisão administrativa dos coutos.
Segundo alguns autores, o arco data do século XVI e serviu para o Mosteiro definir os limites das suas terras. Há quem defenda que terá sido mandado erguer por Frei Bernardo de Brito.
Esse arco veio a ficar conhecido por “Arco da Memória” e está localizado no limite dos Concelhos de Alcobaça e Porto de Mós, mais precisamente, numa subárea da freguesia do Arrimal, chamada Memória. 

Conforme uma conhecida lenda, D. Afonso Henriques, quando ia a caminho de Santarém, em 1147, jurou, do alto da Serra de Albardos-Serra dos Candeeiros, que caso a conseguisse conquistar, doaria a Bernardo de Claraval, os terrenos avistados na direção do mar. O lugar onde o rei teria feito esse juramento é onde se encontra o “Arco da Memória”.
De acordo com alguns autores, menos esclarecidos, no topo do “Arco da Memória” havia uma estátua, representando D. Afonso Henriques, ladeada por duas pirâmides.
Mas, creio que estão a fazer confusão com outro arco, um pouco maior nas suas dimensões, também chamado “Arco da Memória” e que fica situado numa povoação chamada Arco da Memória, pertencente à freguesia de Vidais, no Concelho de Caldas da Rainha.

Os habitantes da freguesia de Vidais chamavam ao seu arco, “O Rei da Memória”, porque a meio do cano constavam os seguintes dizeres: “O Santo Rei D. Afonso Henriques, fundador de Alcobaça”.
Não devemos esquecer, mais uma vez, que a lenda diz que D. Afonso Henriques terá prometido mandar erguer um mosteiro em homenagem a Santa Maria, nas terras concedidas a Bernardo de Claraval, caso conseguisse conquistar Santarém aos mouros.
No local da promessa feita pelo rei, ao cimo da Rua de Cister, da atual povoação designada por “Arco da Memória”, foi levantada uma estátua de D. Afonso Henriques e mais tarde um arco, “o Arco da Memória”.
No cimo aplanado, foi colocada a estátua do nosso primeiro rei. Assim, o “Arco da Memória” permaneceu até aos dias em que a fúria republicana, destruiu o monumento, a 12 de janeiro de 1911. A destruição do Arco da Memória, encimado com estátua de D. Afonso Henriques, coincidiu com a construção da estrada municipal que liga a Benedita a Caldas da Rainha, via Alvorninha, pelo que quase todas as pedras do monumento que se encontravam espalhadas encosta abaixo foram partidas pelos cantoneiros e utilizadas para a construção da estrada. A estátua de D. Afonso Henriques fora vandalizada e ficou ao abandono. Mais tarde, foi salva por um habitante local, Joaquim Martins, que a guardou, enterrou e participou o feito às autoridades das Caldas da Rainha. Esse morador, mais tarde, foi encarregado de transportar a estátua para Caldas da Rainha. Ao chegar à cidade , o homem foi multado pois, ia no seu carro de bois, sentado em cima da estátua, o que foi considerado falta de respeito por um símbolo nacional. Diz-se que o homem pagou pela multa, três vezes superior ao que veio a receber do frete.
Posteriormente, a estátua foi levada para Leiria pelo Eng. Afonso Zúquete, que dirigia as obras de solidificação do Castelo. Atualmente, a estátua está situada no mirante da Avenida Ernesto Korrodi, no sopé do monte onde assenta o Castelo de Leiria. Inicialmente esteve no claustro do edifício dos antigos Paços Episcopais, na ocasião quartel do RAL 4, onde se aloja a PSP, até ser transferida para o local em que se encontra.

No dia 28 de junho de 1981, foi inaugurada a reconstrução do Arco com o contributo da população e de várias entidades públicas e privadas, como a Solancis. Desde essa altura, tem havido esforço para que a estátua de D. Afonso Henriques volte a ocupar o seu lugar, no cimo do “Arco da Memória”, na Freguesia de Vidais.
O “Arco da Memória”, sito na Serra dos Candeeiros, serviu como marco assinalando o limite dos coutos, a entrada de quem vinha fazer os seus negócios ou mesmo de quem vinha à procura de refúgio nas terras dos frades. Sobre este assunto, no meu NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS. Alcobaça e Portugal, escrevi a propósito de uma visita de D. Miguel a Alcobaça, que a maior parte dessa viagem à Região do Oeste, em agosto de 1830, decorreu nos coutos de Alcobaça, que continuavam a ser palco de conflitos acesos entre os frades e os aldeões, por razão do pagamento dos direitos senhoriais. O Marquês de Fronteira, recordou nas suas memórias que, em 1824 os rendeiros dos frades tinham-se rebelado, largando “fogo às medas de trigo que pertenciam à comunidade” e que o Abade Geral do Mosteiro se vira obrigado a chamar a tropa que estava em Leiria.
No caso de Aljubarrota, o conflito traduzia-se na questão dos limites da doação de D. Afonso Henriques e arrastou-se desde os finais da Idade Média. Terá sido depois do jantar, durante uma conversa havida na varanda do seu quarto, que a questão foi apresentada ao Rei. O Esmoler-Mor, Frei António da Silva que fora Abade Geral dos Coutos de Alcobaça, durante o vintismo, aproveitou a ocasião para dizer ao Rei que nessa época “os povos dos coutos, principalmente os de Aljubarrota, aproveitando-se da rebelião que as Cortes causaram, tinham arruinado o Arco Memória, onde fez voto o Sr. D. Afonso I, e que pedia a S.M. o mandasse reedificar”.

Ora (independentemente da data de construção), o “Arco da Memória” assinalava o limite norte dos Coutos e era o símbolo material dos poderes do Mosteiro, cuja contestação o Abade circunscrevia ao período liberal. D. Miguel terá concordado com a sugestão, propondo que no Arco a reconstruir, se fizesse uma inscrição que o ligaria física e simbolicamente a Afonso Henriques: “El Rei D. Afonso I o mandou fazer e D. Miguel I reedificar”.

O “Arco da Memória”, na freguesia de Vidais, tem o mesmo efeito no imaginário do povo local, leva-o a ouvir falar de lendas e de sérios registos históricos do seu passado.
Mas, além de ser o lugar que assinalava os territórios do Mosteiro de Alcobaça, de ser o sítio onde os republicanos mostraram o seu repúdio para com os símbolos da monarquia, de ser o ponto que transporta os habitantes locais para o mundo das lendas e para o mundo dos factos históricos, marca ainda a legítima vontade de um povo querer ter junto a si o património que lhe pertence e com o qual ele fortemente se identifica.
Este “Arco da Memória” é um dos marcos limites dos coutos do Mosteiro de Alcobaça, alinhando a Norte com o Arco da Memória existente na Serra dos Candeeiros e a Poente com a foz do rio Vau, em Salir do Porto.



OS ADVOGADOS DIZEM NÃO AO GONÇALVISMO! PLENÁRIO EM COIMBRA (julho de 1975).

 
OS ADVOGADOS DIZEM NÃO AO GONÇALVISMO!
PLENÁRIO EM COIMBRA (julho de 1975).

Fleming de Oliveira


Em meados de julho de 1975, reuniu-se em Coimbra um Plenário de Advogados (no qual, recém advogado em Alcobaça, proveniente do MP, me tinha inscrito, mas acabei por não comparecer), que disse um rotundo “NÃO!” à criação de Tribunais Especiais.
Esta posição que foi subscrita, entre outros, por Sousa Tavares, Proença de Carvalho e Abranches Ferrão, era oposta à do Conselho da Revolução e Governo ”gonçalvista”, que pretendiam elaborar legislação adequada e tribunais específicos para o julgamento de criminosos “fascistas”, como os agentes da PIDE e os implicados na “intentona reacionária” de 11 de março.
O Dr. Amílcar Magalhães, meu sogro e em cujo escritório me encontrava a trabalhar, também não foi, mas estava ansioso por saber como iriam decorrer os trabalhos.

Os advogados recusaram, quase por unanimidade, uma moção de apoio à linha política do CR.
Também foi recusada, acompanhada de muitos protestos, com os advogados de pé a gritar severamente “Rua, Rua”, uma outra, da iniciativa de Duarte Vidal, que propunha a adaptação da advocacia ao rumo socialista e a ida de uma delegação a países socialistas, “a fim de recolher elementos para uma mais correta inserção da advocacia na nova sociedade portuguesa” (leia-se socialista).


terça-feira, 29 de abril de 2014

PALMA CARLOS E O 25 DE ABRIL

Fleming de Oliveira


Foi a um prestigiado advogado de ideias democratas e liberais, o Professor Doutor Adelino Palma Carlos a quem o Gen. Spínola, recorreu para chefiar o primeiro governo saído da Revolução.
O I Governo Provisório de Portugal tomou posse a 17 de maio de 1974, sucedendo nas funções governativas à Junta de Salvação Nacional, formada no dia da revolução, e teve ministros como Mário Soares e Sá Carneiro, com quem Palma Carlos tinha uma relação de empatia e cordialidade.
Com ligações a grupos económicos e insuspeito de simpatias com a extrema-esquerda, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, Palma Carlos tinha o perfil para garantir a respeitabilidade do novo governo nos meios conservadores e internacionais. Mas numa conjuntura política em que a balança se inclinava decididamente para a esquerda, a sua tarefa não seria fácil.
Em vão, procurou o Presidente da República criar uma forte corrente de opinião civil e militar que reforçasse a sua posição política, através de deslocações pelo país e apelos ao povo português. O Conselho do MFA viria a recusar as suas propostas de concentração do poder nas instâncias presidencial e governamental através de um referendo constitucional.
Em consequência, Palma Carlos pediu a demissão, levando à queda do I Governo Provisório de Portugal a 18 de julho de 1974, apenas 56 dias após a posse.
Adelino da Palma Carlos, não teve capacidade ou condições para aguentar a situação, pelo que ao fim de pouco tempo, pediu a demissão ”dizendo que se se sentia um passarinho a sair da gaiola”.

Logo a seguir, tomou posse o II Governo Provisório chefiado pelo cor. Vasco Gonçalves e do qual também fizeram parte, Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Freitas do Amaral.
Mas, as tensões internas não paravam de aumentar e o Presidente da República encorajou a realização de uma manifestação da “Maioria Silenciosa”, que mais não seria que um braço de ferro entre a direita e a esquerda.
A manifestação não chegou a acontecer e o acontecimento foi entendido como uma tentativa de golpe de estado, motivo pelo qual o Gen. Spínola foi levado a demitir-se, prevendo um período de crise e caos substituído pelo general Costa Gomes, que, por seu turno, confirmou, nas funções, o governo de Vasco Gonçalves. “Maioria Silenciosa” foi a designação pela qual ficou conhecida a iniciativa política de alguns setores da sociedade portuguesa, civil e militar, que, em 28 de setembro de 1974, decidiram organizar uma manifestação de apoio ao General Spínola, visando o reforço da sua posição política.

Otelo Saraiva de Carvalho do COPCON e o Ministro da Defesa Firmino Miguel reagiram. O Ministro da Comunicação Social, leu um comunicado do Governo Provisório na EN, emitido de meia em meia hora. A manifestação foi proibida pelo MFA. Os partidos políticos de esquerda distribuíram comunicados apelando à vigilância popular e denunciaram as tentativas contra revolucionárias dessa “Minoria Tenebrosa”. Foram levantadas barricadas populares nos acessos a Lisboa e noutras localidades. Durante a noite, grupos de militares tomaram o lugar dos ativistas civis. Foram detidas várias figuras políticas afetas ao antigo regime, quadros da Legião Portuguesa e alguns manifestantes.
António de Spínola tentou reforçar o poder da Junta de Salvação Nacional, que comandava, e estabelecer o Estado de Sítio. Em consequência, a Comissão Coordenadora do MFA, impôs a demissão dos três generais mais “conservadores” do grupo, Galvão de Melo, Diogo Neto e Silvino Silvério Marques. Derrotado, Spínola demitiu-se a 30 de setembro, sendo substituído por Costa Gomes. No seu discurso de renúncia, Spínola denunciou certas políticas do governo e prenunciou o caos, a anarquia e novas formas de escravatura.
Com a derrota da direita civil, fechou-se o que seria considerado o primeiro ciclo do PREC.



MOÇAMBIQUE, LOURENÇO MARQUES/MAPUTO (SETEMBRO DE 1974). MEMÓRIAS E SAUDADES…


 


MOÇAMBIQUE, LOURENÇO MARQUES/MAPUTO (SETEMBRO DE 1974).
MEMÓRIAS E SAUDADES…

Fleming de Oliveira



Mário Lopes Cardoso, nasceu em Lourenço Marques/Maputo em 1939, filho de pais naturais de Espinho, que já haviam estado na Venezuela, aonde não se deram com o clima.
Fez toda a vida em Moçambique, só tendo vindo uma vez a Portugal, em meados da década de 1960, ao casamento de uma prima. Assumia-se como um  moçambicano (embora de tez branca), pois era a sua terra, a única que conhecia ou reconhecia. Tinha uma boa posição no Banco Nacional Ultramarino, mas já tinha trabalhado nos Correios. Hoje em dia, viúvo, vive em Lisboa, e reúne-se de vez em quando com uns amigos do seu tempo de Moçambique.

Ao sair do banco, ao fim da tarde de sexta-feira, dia 6 de setembro 1974, na baixa da cidade de Lourenço Marques/Maputo, pelos lados da Avenida da República, ainda viu circular uma carrinha, levantando alto uma bandeira da Frelimo, enquanto arrastava, provocatoriamente, pelo chão uma bandeira portuguesa.
Brancos que assistirem a esta cena, reagiram e encetaram uma perseguição à carrinha, acabando por destrui-la e eliminar os seus ocupantes.
De seguida, rasgaram a bandeira da Frelimo que lançaram ao chão, calcaram e ergueram, de forma triunfal, a bandeira portuguesa, que agitaram.
De súbito, a comunidade portuguesa (europeia),  espontaneamente, começou a concentrar-se, iniciando uma caravana com os automóveis a buzinar, ao mesmo tempo que cantava, arrebatadamente, o Hino Nacional.

Lopes Cardoso enervou-se com o que estava a assistir do passeio, tanto mais que se encontrava dividido quanto a atitude a tomar.
Apetecia-lhe ir apoiar a manifestação dos brancos, mas também para casa, brincar com a filha, com quase um ano. Entretanto, surgiram uns dois ou três carros com estudantes brancos, exibindo cartazes com a foto de Samora Machel e símbolos da Frelimo.
Rotulados de traidores (o que Lopes Cardoso reputa de excessivo, pois aqueles estudantes eram moçambicanos tanto como ele), de imediato foram perseguidos por portugueses exaltados, refugiando-se ao que supõe no edifício dos jornais Notícias e Tribuna. Os automóveis dos estudantes foram incendiados, bem como apedrejados os vidros e as portas do edifício onde se refugiaram. Como um rastilho, o movimento branco, alastrou pela cidade, tendo como alvos, entre outros, a Associação Académica e o Rádio Clube de Moçambique (ambos pró FRELIMO). A caravana de automóveis, em protesto dirigiu-se ainda para a Ponta Vermelha, entretanto prudentemente bloqueada por jipes da Polícia de Choque. Vítor Crespo, Alto Comissário, que de comandante da marinha totalmente desconhecido passara a Vice-Almirante (cujo estado normal se dizia ser a embriaguez…), dava em breve a entender que se tratara de um “incidente, compreensível num quadro de passagem do colonialismo à liberdade” em que participaram. “elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias”, ou “pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios”.
Quando chegou a casa, Lopes Cardoso estava muito preocupado (não tendo posto a mulher totalmente ao corrente do que se estava a passar), e pela primeira vez equacionou, a sério, a saída de Moçambique.

No dia seguinte, à tarde, 7 de setembro, a bandeira da Frelimo hasteada no RCM/Rádio Clube da Moçambique, foi arreada e substituída pela Bandeira Portuguesa e a estação emissora ocupada por exaltados e contestatários brancos.
A prisão de Lourenço Marques foi invadida, e libertados os agentes da DGS no meio de bastantes aplausos.
Acusados de minoria de reacionários pela imprensa de Lisboa, pelo governo gonçalvista, com o apoio de Vítor Crespo, os radicais brancos vieram a dar por finda a sua ação no dia 10 e cerca de 10.000 pessoas de origem portuguesa fugiram para a África do Sul, o que não foi o caso de Mário Lopes Cardoso e família.
Os jornalistas portugueses usavam expressões como “brancos ressentidos, brancos em pânico ou pessoas que reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou”, para referir a maior fuga de portugueses, nos seus muitos séculos de História...
Tropas do Exército Português sufocaram a revolta. Blindados, tratores e G3 empurraram os manifestantes para longe das posições ocupadas. Com o apoio da Frelimo, os nativos dos arrabaldes invadiram as ruas de Lourenço Marques, queimando, saqueando, violando as mulheres brancas, com alguma passividade, complacência por falta de liderança e desmotivação das FA. Os Comandos foram proibidos de sair, e o governo pensou em desarmá-los. Nestes graves incidentes, morreram centenas de pessoas entre brancos e pretos, bem como foram destruídas e saqueadas casas, lojas e fábricas.

A violência da Frelimo (e dos marginais associados), aumentou contra os brancos,  principalmente a partir de outubro, com a instalação do governo provisório em Lourenço Marques. Bandos de africanos, drogados e embriagados, passaram a fazer controlos nas ruas, barrando e roubando os carros que se aventuravam a passar, munidos de catanas, armas de fogo e latas de gasolina. Muitos foram incendiados e caso reagissem os ocupantes corriam o risco de ser massacrados, como aliás aconteceu com um vizinho de Lopes Cardoso, que foi transportado para o hospital, aonde veio a falecer no dia seguinte. As mulheres brancas, só em caso de absoluta necessidade passaram a sair à rua e nunca desacompanhadas. Os dirigentes da Frelimo afirmavam que não lhes assistia responsabilidade nos acontecimentos.
Centenas, milhares? de homens, mulheres e crianças, brancos e pretos, foram esquartejados nas ruas de Lourenço Marques. Viram-se corpos humanos pendurados nos talhos e a avenida que conduz ao aeroporto, na extensão de alguns quilómetros, foi ornamentada com cabeças espetadas em paus. Era tal o número de mutilados que chegava ao Hospital Miguel Bombarda, que os depositavam nos corredores e nos pavimentos das salas, a esvaírem-se, enquanto os exaustos médicos, com as batas sujas de sangue, procuravam minorar os sofrimentos. Ante tão pavorosa hecatombe, o pessoal médico do hospital exigiu, sob pena de se refugiar nas representações diplomáticas acreditadas em Moçambique, que o chefe do governo provisório, Joaquim Chissano, comparecesse no hospital para se dar conta da extensão de tamanho horror. Perante o calvário que se lhe deparou, Chissano saiu, aparentemente muito incomodado, salpicado pelo sangue dos que eram, também, suas vítimas.
Cardoso tinha um mainato que há cerca de 10 anos ia a sua casa 3 vezes por semana, e com quem mantinha boas relações, mas por via de dúvidas a partir de certa altura “deixou de estar de costas para ele”, pelo que por esta e outras voltou mais uma vez  pensar seriamente deixar Lourenço Marques, a adorada Cidade das Acácias, como escreveu Craveirinha:

“Na cidade
alinhadas à margem as acácias
ao vento urbanizado agitam
o sentido carmesim das suas flores.

E um
menino com mais outros
meninos todos juntos
um dia
fecundam a síntese da rua
cidade
meninos e flores”.

Aquela era uma dura e mesmo suja consequência de uma guerra de insurreição, onde se combate o antigo amigo, o empregado, o patrão, o amante ou o irmão. Interroga-nos imprevistamente sobre os direitos e deveres. A soberania de uma Pátria é um mero conjunto de fórmulas ou rezas ou antes a memória dos sacrifícios de um Povo ou Coletividade Nacional?

Consigo ficavam as memórias do tempo de menino que viveu na Gomes Freire ao pé da Escola Sá Sepúlveda, onde fez a 4ª classe. Foi crismado na Igreja de Nossa Srª das Vitórias e ia lá à missa ao domingo. Depois da missa, ia patinar para o clube da Malhangalene.
Para trás, iriam ficar os tempos em que a seleção de Hóquei em Patins, de Moçambique (com Fernando Adrião, Velasco e outros), chegou a representar Portugal em competições internacionais, pois os hoquistas moçambicanos eram tão bons que a Federação entendeu que o maior sucesso seria vestir as cores da seleção nacional à equipa moçambicana. Boa foi a aposta pois que essa representação acumulou êxitos e títulos a fio, com muito orgulho da Metrópole e de Portugal.
Ve-se entre gente muito agradável como a Tó Silveira, a Ilda Peres, o Augusto Inácio ou Joaquim Francisco, o “Cientista”, jovens da sua idade que se reuniam na esplanada da Cristal ou da Princesa, perto do Liceu Salazar e da Escola Comercial, contando anedotas e confessando (gabando-se?) os seus amores juvenis.

Onde estarão?
Ve-se no “Continental”, no “Scala”, ou na esplanada do “Nicola”, rodeada pelas frondosas árvores da Praça 7 de março.
Ve-se a saborear os pregos no pão do “Marialva”, a galinha à cafreal da “Imperial” e os camarões grelhados com molho de limão e manteiga, do “Piri-Piri”.
Ve-se no “Mercado Vasco da Gama”, a compartilhar uma aventura de vida e de cor, tirar mesmo fotografias das bancadas de vendedeiras brancas e negras, mulatas, indianas ou chinesas.
Ainda hoje em Portugal, passados tantos anos, sente o paladar e cheiro das doces laranjas de casca verde, das mangas, das enormes abacates, das papaias rosadas, do maracujá e abacaxi, do cajú assado pelas mamanas numa rudimentar lata com carvão incandescente. As recordações, aqui com uma lágrima impossível de controlar, levam-no ainda ao Jardim Vasco da Gama e à paz que se gozava entre a fresca e a variada vegetação, onde comungava da alegria dos parezinhos de namorados, como o seu de que já fazia parte a Alexandra, que prometiam juras eternas, sentados nos bancos de pedra ou de madeira espalhados sob aquelas frondosas e seculares árvores.
Sente as mãos de novo transpiradas a conduzir o Volkswagen, às escondidas dos pais, entre fângios, alguns sem carta, na pista “Costa do Sol”.
Ve-se a percorrer a marginal e a gozar a beleza de uma paisagem inesquecível, enquadrada por velhas palmeiras, acácias e jacarandás e por um mar calmo e meigo.
E como Mário Lopes Cardoso se orgulhava e gostava de ser moçambicano e viver na cidade de Lourenço Marques ao contemplá-la do outro lado da Baía do Espírito Santo! Quanto mais se aproximava do mar, mais belo ele lhe parecia, numa costa onde figurava a serenidade da praia do Bilene, a bravura do mar na escondidinha Macaneta, a beleza agreste das praias do Xai-Xai, do Chonguene, da pacatez de João Belo, do acolhimento de Inhambane, ou o encanto bravio da Ponta do Ouro.
Para trás ficava “Kanimambo” e João Maria Tudela a cujos espetáculos chegou a assistir com a família, que no distante 1959 criou o seu primeiro e maior êxito de sempre (Kanimambo), que fará grande carreira na Metrópole, nos Estados Unidos e na América do Sul e que, no dialeto Changana, falado na zona de Lourenço Marques/Maputo, significa “Obrigado, Prazer”.
Embora o seu pai nunca tivesse sido grande bebedor, às vezes bebia totonto, uma aguardente tradicional vendida pelo vizinho, Malanga Lopes. A bebida, ao que supõe, pode ser feita com frutas ou açúcar e farelo de milho. A mãe do Malanga, que não falava bem o português, perguntou uma vez a Lopes Cardoso se existia totonto em Portugal. “Sim…Uma coisa parecida. Chamamos-lhe bagaço…” Mas ele nunca tinha bebido bagaço ou totonto, nem sabia o que eram.
Tó tonto parecido com bagaço?



TORGA, VERGÍLIO FERREIRA E SOFIA Mello Breyner Andersen (apontamentos sobre o 25 de abril)

 



TORGA, VERGÍLIO FERREIRA E SOFIA MELLO BREYNER ANDRESEN (apontamentos sobre o 25 de abril)

Fleming de Oliveira


Miguel Torga, no 1º. de maio de 1974, festejou o Dia do Trabalhador em Coimbra (onde residia).
Escreveu no seu “Diário” que foi “um colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis. (...) Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha?”
Por sua vez, Vergílio Ferreira acolheu a Revolução também com incontível alegria, como registou na sua “Conta Corrente” (por alturas de 26 de abril). “Vitória. Embrulha-se-me o pensar. Não sei o que dizer. Uma emoção violentíssima. Como é possível? Quase 50 anos de fascismo, a vida inteira deformada pelo medo. A Polícia. A Censura. Vai acabar a guerra. Vai acabar a PIDE. Tudo isto é fantástico”.
Meses depois, parece ter findado a sua expectativa pois, a 22 de março de 1975, escreveu que “vivemos em sufocação, falando baixo, olhar redondo de suspeita. O medo, pois. Já. Como nos primeiros tempos do fascismo. Entretanto, o PS grita, estridente. Cunhal sorri à espera de que se estafe!”.
Num tom idêntico, embora no estilo próprio, Miguel Torga registou a 7 de abril que, “o espetáculo que damos neste momento ao mundo não é o de um povo que se esforça por atualizar ousada e sensatamente a sua vida retrógrada. É o de um manicómio territorial, onde enfermeiros improvisados e atrevidos submetem nove milhões de concidadãos a um eletro choque aberrante e desumano”.
Enquanto, o Diário relata de forma mais esparsa a sucessão de acontecimentos, a Conta Corrente faz uma descrição minuciosa dos factos mais relevantes do ano de 1975. Ali, consta o comício socialista contra a unicidade sindical, no Pavilhão dos Desportos, o famoso frente a frente televisivo entre Cunhal e Mário Soares, em 6 de novembro, “olhe que não, olhe que não!”, passando por factos tão diversos como a vitória do PS na eleição para a Assembleia Constituinte e o picaresco festival de bofetadas em que terminou uma Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores, destinada a debater a nacionalização do teatro!
Miguel Torga mostrava-se cada vez mais amargurado e lastimava-se em 20 de junho, da estranha revolução que “desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou”. Dias depois, a 1 de julho, escreveu que “estamos a viver em pleno absurdo, a escrever no livro da História gatafunhos que nenhuma inteligência poderá decifrar no futuro. Todas as conjeturas têm a mesma probabilidade de acerto ou desacerto. Jogamos numa roleta de loucos, que tanto anda como desanda”.
Os acontecimentos internacionais, entrelaçavam-se com os nacionais, como decorre do comentário de Miguel Torga, datado de 16 de julho, “o mundo pasmado a olhar o céu, à espera de ver os astronautas russos e americanos no seu primeiro abraço estratosférico, e eu com todos os sentidos postos em Lisboa, à espera que um capitão qualquer decida do nosso destino”.
As Forças Armadas figuraram entre os alvos dos dois escritores.
Para Vergílio Ferreira, em 10 de julho, “o que os militares querem é que a gente vergue o cachaço, para o pôr a jeito da canga, que já nos estão a fabricar em Cuba”. E no dia seguinte continua que, “teremos então uma ditadura militar com o PC a telecomandar”.
Os comunistas também serviram de alvo para Vergílio Ferreira: “Os comunistas instalaram-se a todos os níveis. Torna-se agora claro que só os fascistas os entendem bem (14 de julho). A enorme maioria do povo português detesta o comunismo (24 de julho). De um a um, os intelectuais vão tomando às costas, como uma cruz, a foice e o martelo, acelerando o passo para as fileiras do PC. É onde se julgam defendidos na representação que para si criaram de progressistas. Mas o comunismo não é uma fórmula reacionária de isso parecerem? (31 de outubro).”
Embora não militassem em nenhum partido, Miguel Torga e Vergílio Ferreira eram simpatizantes do PS. E mencionaram a participação num comício socialista, a 20 de abril de 1975, em Coimbra onde discursaram.
Para Torga “foi um gigantesco comício a que presidi, Deus sabe com que vontade. Mas toda a certeza cívica tem de passar por um permanente ativismo de prova, mesmo, ou até principalmente, quando um passado de resistência parece desobrigar-nos”. Vergílio Ferreira, sobre o mesmo assunto registou a 19 de julho “um estádio a transbordar. Ninguém me ouviu, houve uma avaria nos altifalantes. (...) Vi o Torga, ia também orar. (...) E extremamente desembaraçado, como se fosse um dos oficiais da ordem”.

Sophia de Mello Breyner Andresen, notou em 1974 que,
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”



COMÍCIOS DE ONTEM, ARRUADAS DE HOJE.




 

COMÍCIOS DE ONTEM, ARRUADAS DE HOJE.

Fleming de Oliveira



A forma como os comícios são, atualmente, organizados é bem diferente dos tempos do PREC e mesmo de alguns anos depois.
O improviso, do pós-25 de abril, deu lugar a uma profissionalização e a custos significativos. À volta do líder existe uma super produção teatral, que inclui, se necessário, mais que um palco, uma caravana e pessoal de apoio, inclusive de imagem.
Hoje em dia, os comícios são concebidos como um espetáculo mediático. Por isso, a cenografia é um dos elementos dominantes, para que o show decorra de forma adequada a ser transmitido nas televisões, em horário nobre.
Antes da campanha são visitados os locais onde vão ter lugar. Por vezes, é trabalho feito com grande antecedência. A partir desse levantamento é concebida a cenografia do palco, a iluminação, a colocação dos materiais, a entrada e a saída do líder, o púlpito, a posição das câmaras, a disposição da audiência e a maneira de evitar espaços vazios, a música, etc.. O mesmo se passa com o acompanhamento dos media, especialmente na altura em que está a ter lugar o comício.

Um dos alegados indícios do crescente desinteresse pela política partidária portuguesa (diz-se que entre a juventude, mas não só), é a imagem dos comícios cada vez mais vazios e sem alma, com uns cromos arrebanhados pelas secções locais, normalmente à mistura de cantoria e comida, febras, bacalhau com natas…, pois a sardinha assada e copos de plástico passaram de moda.

Os comícios foram sendo trocados pelas arruadas, pelos jantar-comício, em que o pessoal afeto e já convencido comparece a troco de um repasto barato, para ir ouvir os candidatos da sua preferência.

Hoje em dia as campanhas eleitorais saiem caras.
É um dos custos de democracia. Ninguém espera que a política, feita principalmente de comunicação, se possa executar sem sacrifícios. Mas ninguém pode utilizar o argumento de país pobre, campanha pobre.