quinta-feira, 16 de março de 2017

A CÂMARA MUNICIPAL DE ALCOBAÇA E A OPOSIÇÃO NO TEMPO DE DR. JOSÉ NASCIMENTO E SOUSA

Jero é um dos melhores contadores de histórias da Alcobaça moderna e contemporânea. Escreve com facilidade, sensibilidade e muitas vezes com… graça, o que também é motivo de apreço.
Nunca me passaria, pois, pela ideia ensinar-lhe alguma coisa sobre a “nossa” Alcobaça, muito menos emendar comentários ou factos por ele descritos.
Posto isto, tomo a liberdade de muito benevolamente (pelo menos no meu entendimento), fazer breves aditamentos ao artigo que publicou no passado número deste jornal, sobre o antigo Presidente da Câmara, Dr. José Nascimento e Sousa.
Quando o Eng. José Costa e Sousa (que alguns ainda recordarão e que também era um excelente contador de histórias) foi colocado depois da II Guerra (1 de Outubro de 1948), nos Serviços Técnicos da Câmara de Alcobaça, houve quem o avisasse que vinha para uma “terra muito difícil”, onde o Presidente da Câmara se matava (Manuel da Silva Carolino) e a oposição ganhava eleições municipais. Na verdade este acontecimento teve ressonância nacional e o governo de Salazar, não obstante as promessas de abertura após a II Guerra, não o podia tolerar.
O Dr. Nascimento e Sousa era uma personalidade altamente conservadora e de pendor monárquico e o facto de a vereação ser composta por figuras ligadas à oposição e com respeitabilidade social, não foi fruto de sua condescendência, mas a prova de que não foi capaz de controlar a situação.
Em 2 de Janeiro de 1946 segundo O ALCOA tomaram posse, no meio de “grande expectativa quanto ao desempenho do seu múnus”, os membros da Câmara Municipal de Alcobaça, a qual era constituída pelos Dr. José Nascimento e Sousa, João d’Oliva Monteiro, Dr. João Lameiras de Figueiredo (reconhecidos  republicanos e reviralhistas), Joaquim Ferreira Gomes e Carlos de Oliveira.
Esta equipe, algo contranatura pode-se dize-lo, durou pouco tempo, cerca de um ano.
Como surgiu este “acontecimento extraordinário”, em que a oposição entrou na vereação, e que ainda hoje é recordado? Para o perceber, é necessário remontar à organização político-administrativa anterior ao 25 de Abril. A Câmara Municipal era (como hoje) o órgão colegial de gestão permanente dos assuntos municipais, composta por um Presidente e Vice-Presidente (livremente nomeados pelo governo) e por vereadores, eleitos quadrienalmente pelo Conselho Municipal. O Presidente e Vice-Presidente nomeados pelo Governo, deveriam ser escolhidos, salvo circunstâncias excepcionais, entre os munícipes do Concelho e de preferência entre os vogais do Conselho Municipal, antigos vereadores, antigos membros de comissões administrativas ou diplomados com curso superior. O Presidente da Câmara tinha como funções chefiar a administração municipal, como órgão do concelho. E ainda a de representar o Governo, de que era uma extensão, como magistrado administrativo. Isto é, o Presidente da Câmara, era simultaneamente órgão do Município e órgão do Estado.
A razão desta  organização político-administrativa, segundo Marcelo Caetano, inseria-se na “boa” tradição da nossa administração municipalista, os juízes de fora, bem como na prática seguida com sucesso em países de regime democrático, como o “Maire”, em França, o “Podestà”, em Itália e o “Burgomestre”, na Alemanha. O Presidente da Câmara era também autoridade policial em Alcobaça, visto aqui o comando local não estar cometido a oficial do Exército.
Na Espanha franquista, mantinha-se o “Alcalde”.
O regime português, alegadamente, pretendia aliar a conveniência de uma acção rápida, desenvolvida por uma entidade responsável e de confiança, dentro de um conjunto coordenado e harmónico. Ora não foi o que aconteceu em Alcobaça. Para grande surpresa do País, e da terra, o Conselho Municipal, escolheu vereadores da oposição. Para obviar este percalço e “péssimo” exemplo, que poderia alastrar pelo País, o Governo ao fim de um ano demitiu os Presidente e Vice-presidente, forçando uma nova escolha, desta vez a coberto de surpresas.
O Dr. José Nascimento e Sousa, em Maio de 1946, imperturbável a tudo isto, na qualidade de Presidente da Câmara, e em nome da “Comissão Concelhia da União Nacional (U.N.), fazia em discurso a afirmação pública (…) da nossa inquebrantável fé nas doutrinas da Pátria, conduzida pelo Governo que tem à frente esse grande português cujo prestígio há muito ultrapassou as fronteiras do País e o impõe ao respeito e consideração do mundo: o Dr. Oliveira Salazar (…), e pessoal de que o (…) meu indefectível nacionalismo se enraíza e fortalece no muito amor que tenho à minha terra. (…) O povo do meu Concelho que hoje e sempre, com o entusiasmo que lhe dá a sua inquebrantável Fé, levanta-se e diz: Viva Portugal! Viva Carmona! Viva Salazar!”

Mas isso não o livrou de ser substituído, não reconduzido, o que lhe causou alguma mágoa. Foi o Dr. Júlio Frederico de Guimarães Biel quem o veio a substituir.

sexta-feira, 10 de março de 2017

EM DEFESA DO TRABALHO NOTURNO

Não tenha pena, caro leitor, de quem trabalha à noite. E, seja como for, não tenha pena de mim, pois sou uma dessas pessoas.
Para quem trabalha à noite numa cidade, as horas que antecedem a aurora podem ser quase líricas. O trabalho seria glorioso se pudesse ser feito nestas horas suaves, em que o dia vai surgindo aos poucos. Nas ruas, os automóveis apagam os faróis à medida que a luz começa a nascer no oriente. As ruas e edifícios parecem mais limpos, calmos e promissores. Nunca há raiva numa cidade ao alvorecer. Ela é calma e maternal. Os prédios abrigam pessoas adormecidas.
O que é que acontece? Não se pode negar que a agitada cidade de Lisboa que vemos das 9h às 18h perdeu a rósea promessa da alvorada. As ruas e edifícios ficam feios e ameaçadores. Na hora de ponta, todos se mostram ansiosos. À luz impiedosa do sol, as pessoas revelam o que há de pior em si. O dia pode ter sido bom, mas parece fatigado à medida que as pessoas o vão dando por terminado.
Como trabalhadores noturnos, devemos-nos preocupar em não demonstrar superioridade relativamente aos que trabalham de dia. Na verdade, não somos melhores que os outros… isto é, penso que não. Mas o ato de ir solenemente para o trabalho, enquanto os outros estão de chinelos a ver televisão, a beber um copo, ou a jogar cartas, cria-me a sensação de uma puritana devoção, como se fossemos os únicos do mundo, verdadeiramente responsáveis. Devemos ter uma força de vontade quase desumana, para não nos sentirmos hipócritas quando declinamos um convite para um jantar num restaurante da moda ou ir a uma vernissage, com aquele invencível argumento Desculpe, mas tenho de trabalhar. Foi aliás o que me aconteceu na semana passada, quando tive de preparar um artigo para enviar ao meu amigo JERO. Mas ele, pessoa de extraordinário bom senso, compreendeu-me.
As pessoas, em geral, tendem a ser mais gentis à noite. Senão, vejamos o tom dos programas de televisão, que de dia passam com berreiro e à noite são transmitidos com deliciosa casualidade e em lugar do espetáculo, tem a subtileza do comentário fino do Jerónimo ou da mera observação da Catarina.
Creio que a mente criativa funciona melhor durante as horas de treva, sem as perturbações do ritmo intenso do dia. A imaginação funciona melhor quando a distância já não está limitada pela paisagem visível do dia e se estende pelo firmamento das estrelas iluminadas por lâmpadas celestiais, distando milhões de anos-luz, pelos escuros corredores do espaço. Os céus não dão apenas testemunho da glória de Deus, mas também brincam com certos cálculos. De noite, o espaço é ilimitado e o tempo adquire uma outra dimensão. Ideias que de dia parecem ambiciosas, absurdas, são mais plausíveis quando vistas em relação à esplêndida geografia dos céus, e as frustrações baseadas nas amarguras, deixam de parecer definitivas. Depois de dormir já há vários anos até, pelo menos ao início da tarde, só consigo reconciliar-me com a realidade ao fim do dia de sol.
Convenci-me que é muito melhor levantar-me quando acabo de dormir, livre da tirania do despertador madrugador. Tenho pensado se o lazer, não deveria vir antes do viver (tenho que propor isto ao Dr. Costa) para que este pudesse ser enfrentado com mais resignação, neste tempo de crise. Ninguém deveria partir para o trabalho do dia-a-dia, de forma mecânica. Deixem que se pense na possibilidade de fazer alguma coisa diferente ou útil, antes do fim do dia. É agradável não ter de mergulhar, furiosamente, no horário de trabalho que, sendo automático e pré-fixado, não deixa margem de manobra à improvisação.
A melhor hora de trabalhar é, pois, caro leitor e acredite no que digo, depois do crepúsculo, já que a paciência não é pressionada pelas solicitações do mundo lá fora. Afinal, quem inventou o costume de trabalhar durante o dia, cometeu um grave erro e pelo que espero que o Dr. Costa, o Jerónimo e a Catarina o venham a corrigir...          


ACABARAM OS SALDOS, VIVAM OS “PRÓXIMOS” SALDOS!

Num dia dos princípios de Agosto último, ouvi no Algarve, uma conversa deste tipo.
“Então Bitocas, como é que estamos de saldos? Já te passou a febre ou nem chegaste a embarcar nessa dura jornada? Eu confesso, e sou muito franca como sabes, que só agora é que a coisa acalmou, fiquei cansadíssima, depois de ter inspeccionado algumas lojas. Tenho ideia de que nesta altura do campeonato, já está tudo mais do que escolhido, mas não tenho a certeza. Ainda assim vou à Guia ou a Faro. Os preços são interessantes, há muita coisa que reaparece, há muita coisa que é devolvida na loucura inicial e no pós fúria da primeira semana e, com paciência, ainda se fazem umas belas compras. Pela parte que me toca, e à cautela comprei em Lisboa mais umas t-shirts brancas, e outras peças, assim muito básicas, coisas que uso aqui na praia e que aproveito para comprar, sem ter de ir a esse horror de ir à Feira de Carcavelos”.
Aqui em Alcobaça, parece-me que o tempo frio começou há uns dez anos e ainda nos faltam algumas semanas para chegar a primavera. Por isso, venham os casacos, as camisolas, os ponchos, as botas e tudo aquilo a que temos direito. Mas que maçada, já não há saldos. Acabaram. Havia ali um casaco de pêlo, em dois tons, que estava muito a chamar por mim.
Cada campanha de saldos, demonstra que evolução capitalista, não consegue fazer face, ao especial senso feminista.
Nenhum partido de “esquerda” seduzirá as “camaradas”, anunciando contra a austeridade “exterior”, que repudia, o que gostaria impor no “interior”. Não seria descabelado dizer que o “Muro”  veio abaixo, com um impulso tão forte como o que chama as senhoras às barricadas dos saldos do “EL Corte Ingles” ou similares,  Diriam as senhoras (e com toda a razão) que sou machista, se não “reconhecesse” (?) que nós os homens se entregam a caprichos, porventura, mais exóticos ou caros que as mulheres, que conheço.
Um amigo meu, defendeu que as mulheres querem, afinal, o mesmo que os homens, apenas mais persistentemente. Com efeito, certos homens mostram-se igualmente volúveis no seu desejo, mas ao invés demonstram uma perigosa indiferença pelo ideal coletivista e se embrutecem com menor coincidência/consciência e maior resignação. A mulher, pelo contrário, antirromântica por excelência (?), segundo esse meu cínico amigo, está naturalmente dotada para o individualismo e seleção, odeia a uniformidade e gosta de distinguir-se, no que é o seu arrobo da elegância.
Tenho reparado que, quando o ”look” de uma mulher causa sensação, a protagonista resiste a revelar aonde adquiriu o seu flamante vestido, para tratar de evitar que a imitam. Isto prova que a mulher não aspira a vestir-se para atrair o homem, outrossim para matar de inveja, o resto das mulheres.
Os cientistas constataram que a palavra que um bébé pronuncia depois de papá e mamã, é “meu”, pelo que deduziram que a propriedade privada está inscrita no coração humano, desde o primeiro balbuciar e comprova o fracasso das ideologias que a pretendem erradicar.
Aproveito para recordar aos a minha idade que, quando aquela burguesa, convertida ao comunismo, não teve dúvidas em enviar o filho para liquidar Troksy por ordem de Estaline, exigiu ao partido uma sinecura em Paris, porque se negava a viver num bloco coletivo em Moscovo.
E digam lá, que não havia classes nesse “socialismo científico”.


E VIVA MARCELO…
















Francisco Leonardo Eusébio, nasceu na Cela, a 25 de janeiro de 1935, foi um carismático autarca do Concelho de Alcobaça e durante algum tempo o seu decano.
A sua palavra, por vezes exaltada e refletindo ideias simples e propostas populares (mas não absurdas), tinha normalmente peso.
Conta, com orgulho, que desde os dez anos de idade “trabalho com a maior dedicação para o povo da Cela, tendo começado em comissões de festas, religiosas e populares ”.
Depois de 25 de Abril, salvo um pequeno interregno em 1983, até se reformar politicamente, foi eleito, sem grande esforço Presidente da Junta de Freguesia. Confessa que gostava do lugar que exerceu com carolice, pois aprecia que as pessoas gostem dele. Na sua terra, muitos tratam-no afetuosamente por “Chico Sacristão”, apelido que não repudia, muito menos o envergonha.
Apesar das campanhas e calúnias de que por vezes foi alvo, nunca o conseguiram derrubar e algumas das suas reações ainda são recordadas saudosamente entre os mais antigos do PSD, de Alcobaça
Antes do 25 de Abril, Francisco Eusébio desempenhou funções como Tesoureiro da Junta e Regedor nomeado pela Câmara Municipal presidida por Tarcísio Trindade, pessoa que sempre respeitou. A regedoria funcionava em sua casa. Eusébio, não obstante alinhar com o Estado Novo, louva-se de nunca ter tido contactos com a PIDE, colaborado com agente ou informador, ou sofrido pressões para fazer ou deixar de fazer uma coisa.
Francisco Eusébio foi sacristão da Cela, entre 1952 e 1956, altura em que era Pároco, o “famoso” Pe. João de Sousa e até ir cumprir serviço militar. No exercício dessas funções, conheceu Humberto Delgado que ia à missa dominical o qual, terminada esta, não prescindia de ir cumprimentar o Pe. João de Sousa na sacristia, enquanto se desparamentava. Foi na qualidade de sacristão que Francisco Eusébio foi algumas vezes almoçar a casa de Delgado e com ele trocou algumas palavras de circunstância. Apesar de estimar e respeitar pessoalmente Delgado, no seu entender  “pessoa afável e popular, conceituado oficial”, Francisco Eusébio não participou na campanha eleitoral de 1958, nem votou nele, “porque sendo membro da União Nacional, não podia aparecer como opositor do regime. Mas também não queria aparecer contra Delgado”.
Nas Festas de S. Pedro, havia romaria a partir da Capela de S. Bento, situada dentro da propriedade de Humberto Delgado, com sermão, missa cantada e procissão, e a participação da (extinta) Banda da Cela, que atuava num coreto improvisado, enquanto o povo se distraía na conversa e, nos comes e bebes.
A Capela de S. Bento é a mais antiga igreja da freguesia da Cela e, segundo se diz das mais antigas do Concelho de Alcobaça. A procissão de S. Pedro, saía da Capela de S. Bento, com a banda a tocar, ia até ao Largo da Estação da CP, dava a volta e regressava.
Por altura das festas, Delgado costumava convidar para almoçar, os principais responsáveis da organização da Festa, naturalmente a Igreja (padre e sacristão) incluída.
Depois de 25 de Abril, salvo um pequeno interregno em 1983, até se reformar politicamente, foi eleito, sem grande esforço, Presidente da Junta de Freguesia.

“A escolha para Alcobaça é entre o passado e o futuro”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, no jantar em novembro de 1997, de apoio a candidatura à Câmara Municipal de Gonçalves Sapinho que juntou mais de 1700 apoiantes no Merco alcobaça, que os social-democratas locais classificaram na altura como “o maior jantar alguma vez realizado por um partido político em Alcobaça”.
Francisco Eusébio, Presidente da Junta de Freguesia da Cela então há 21 anos, foi o orador da noite, em representação das freguesias, como era consensual e usual.
Ex-Regedor, ex-ANP, Sacristão, proprietário do café, da agência funerária e das bombas de gasolina, depois de uma intervenção algo poética, cometeu uma gafe monumental.
Já na fase dos vivas, virando-se para Marcelo Rebelo de Sousa gritou “viva Marcelo Caetano”.
Ninguém levou a mal e isso foi pretexto para um rotundo coro de gargalhadas, a que se associou o Marcelo presente, que também não esqueceu o incidente.
Sobre Francisco Eusébio pode-se ler mais em NO TEMPO DE SOARES, CUNHAL E OUTROS. O PREC também passou por Alcobaça.


CADA UM NO DEVIDO LUGAR

Há muitas maneiras de conhecer o mundo. Cheguei à conclusão que prefiro fazê-lo, entrando numa fila.
Percebi bem isto, quando vivi durante anos no Brasil. Como nenhum brasileiro é capaz de ficar quieto e calado durante mais de 10 segundos, no Brasil é hábito iniciar conversa sempre que exista uma fila. A conversa típica começa normalmente com uma destas duas frases Puxa! Nunca há guichês suficientes, não é mesmo? ou Você viu aquele cara ali que queria furar a fila? a resposta apropriada seria Realmente é incrível, pois é obrigatório dizer sempre alguma coisa. Se não respondemos, o que falou primeiro vai comentar em voz alta que Há pessoas que pensam que são superiores só por usarem gravata! Para evitar a insipiente conversa podemos tentar falar algum idioma estrangeiro, mas neste caso o outro vai responder Italiano, hein? O meu avô era italiano, mas morreu o ano passado com doença de fígado e os médicos até disseram que nunca tinham visto caso igual. O senhor alguma vez sofreu do fígado?
Em jovem universitário, cheguei a pensar que as leis que regem as filas eram iguais em todo o mundo, mas um dia em Londres tive que entrar numa fila de acesso a um famoso teatro. A verdade é que eu não estava com grande vontade de conversar, mais interessado na peça que iria ver. Mas um homem que estava a ler o jornal à minha frente, levantou os olhos olhou-me com cara de poucos amigos e voltou ao jornal. Eu apenas lhe tinha dito, no meu inglês sofrível, que Neste teatro não há entradas suficientes. Pensei que o homem fosse talvez um pouco surdo e então, falando devagar e cuidadosamente, repeti: Neste teatro não há entradas suficientes. Desta vez, o homem lançou um olhar reprovador, tão ostensivo, que comecei a pensar que alguma coisa não estava a correr bem, até que chegou um outro senhor que tocando no braço do leitor do jornal disse, James, você hoje parece-me mal-encarado. O sujeito sacudiu o jornal na minha direção e acusou-me: Este homem dirigiu-me a palavra. O recém-chegado detendo os olhos no colarinho da minha camisa, abanou a cabeça e comentou de forma a eu perceber: É impossível conseguir hoje que todos que vêm ao teatro sejam civilizados.
Tempos depois, em Paris, tinha decidido permanecer discretamente nas filas, calado, lendo o jornal ou olhando para o ar, até à minha vez. Cheguei a comprar L’Equippe para o abanar no caso de algum turista, sem educação, querer meter conversa comigo. A certa altura, numa fila para o autocarro, apareceu um rapaz, com ar de estudante, que se colocou atrevidamente ao meu lado: Escusez-moi, disse eu no meu francês pior que o inglês. Mas ou est la fim de cette filá? O rapaz respondeu-me com uma careta e então colocou-se à minha frente o que me obrigou a dizer: Pardon Monsieur, je penso que vous etes dans meu place. O rapaz abriu os braços numa expressão de espanto, como se dissesse quem pode compreender os mistérios deste mundo?
Na tentativa de me fazerem justiça, virei-me para um senhor que acabava de chegar. Monsieur, cet homme furou a filá e roubou o meu place. Uma expressão de simpatia assomou-lhe a cara e começou a barafustar com o estudante numa tal torrente de francês, que não consegui perceber nada.
Nesse momento, chegou o autocarro e toda a gente correu, pelo que antes que eu o pudesse impedir, o meu protetor passou à minha frente e tomou o autocarro que já ia a sair e eu fiquei em terra.
Com a experiência que adquiri, era compreensível que entrasse com muita cautela na minha primeira fila, quando voltei a viver em Portugal no ano passado. Fui a uma repartição de Lisboa para obter uma informação e pedir um documento. A fila era grande e vi logo que a espera iria ser demorada. Nem parecia uma fila, mas uma aglomeração de pessoas pacientes. A minha ideia, foi que ninguém deve enfrentar uma tarefa tão árdua e difícil como entrar numa fila, sem companhia de um jornal, parentes ou amigos. Parecia mesmo, que reinava ali um espírito conformado. Quando ocupei um lugar no fim da fila, alguns dos presentes notaram a minha entrada e um perguntou delicadamente se eu tinha muita pressa. A certa altura apareceu um funcionário, precedendo, entre muitas vénias e demonstrações de cortesia, um cavalheiro de idade avançada, vestido com um fato escuro. Senhor Doutor, por aqui, disse o funcionário fazendo nova vénia e colocando o ancião no início da fila.
Todos recuamos um passo e aceitamos naturalmente esta benévola intrusão. Mas pensando bem, até posso dizer que me senti comovido e feliz com a deferência, embora não tenha conseguido obter a informação, ou papel que precisava. Afinal de contas tinha ido a uma repartição portuguesa, já não me lembrando bem dos salutares usos e costumes.
Tudo isto veio confirmar aquilo que a minha experiência de vida, de andar pelo mundo, me havia ensinado. Um povo conhece-se pela sua arte, pela maneira como emprega o tempo livre, pela roupa que veste e, como utiliza uma fila. Sim, a forma mais económica e prática de o conhecer é entrar numa fila.
Isto aumentou os meus conhecimentos e ensinou-me definitivamente a saber colocar-me no devido lugar.   



O PÃO POR DEUS



Coincidente com Os Santos, é o “Pão por Deus”, que tinha, tradicionalmente nesse dia, o seu ponto alto, como me recordou Ti’ Zé.
Eram os tempos difíceis do-pós II guerra e, em particular, da austeridade do Estado Novo. Cada dia do calendário litúrgico era respeitado com atenção. Os sinos da igreja tocavam as Avé Marias e havia procissões nos Ramos, na Quinta-Feira da Ascensão e, nas festas da terra. Os sinos ouviam-se bem cedo, porque o Padre chamava os fiéis à missa da manhã e, ao Domingo, a ida aos principais atos religiosos, era uma espécie de obrigação de que se gostava e nunca se dispensava.
-“Ó Ti’ Zé, dá um bolinho?”
Esta será, provavelmente, uma das tradições antigas e ainda arreigadas, dos distritos de Coimbra e Leiria (Concelho de Alcobaça, obviamente), que se estende pelo litoral até perto de Lisboa e que mais se aguentou. Não conheci este costume no Norte. Dada a sua especial ligação às crianças e o seu simbolismo afetivo e etnográfico, continua a conquistar a adesão das populações do campo.
Broas, rebuçados, frutos secos ou mesmo uma moedinha, iam enchendo a saca, normalmente de pano, usada a tiracolo. Mas, mais do que essas oferendas, era importante o convívio da pequenada, a diversão e o acolhimento afável dos adultos. Muitos pais acompanhavam os mais novos, meninos e meninas, e também eles acabavam contagiados pelo divertimento, dizia-se em casa de meus Sogros. Era um dia diferente, todos estavam prontos para partilhar uma guloseima, um acolhimento, deixar um sorriso a cada “pedinte”. Dia alegre, solidário, pacífico, entregue ao ritmo irrequieto, saltitante e alegre dos bandos de criançada a ver quem conseguia encher mais rapidamente o saco.
Cremos diferentemente do que também escreveu Moisés Espírito Santo, natural da Batalha, professor universitário e sociólogo das religiões, que era mesmo a necessidade que motivou, em tempos remotos, esta andança. A fome chegou mesmo a ser uma realidade presente na sociedade portuguesa, sobretudo rural. Não era raro encontrar mendigos pela rua (a mendicidade nunca se extinguiu por decreto), à procura do sustento, que não conseguiam obter de outra forma. Neste dia, abriam-se as portas e punha-se sobre a mesa o que havia para comer. Havia que aproveitar. Pedir “Pão por Deus”, aliava o útil ao agradável. Era, por isso, hábito neste dia os mais velhos saírem também de casa, para dois dedos de conversa com os vizinhos, uma merenda em comum, um teste à qualidade da água-pé nas adegas mais fornecidas e para o fim da tarde, saciados os vivos, recordarem-se os mortos.
Mas como dissemos não é propriamente esta a elaborada tese de alguns sociólogos muito “evoluídos” acerca da origem do “Pão Por Deus”, pois que teria a ver com “o fim das colheitas. Outrora os trabalhadores nem sempre eram pagos, porque não eram assalariados. Então no início do inverno, os proprietários pagavam os “favores” aos que trabalhavam a terra. São vestígios muito arcaicos do pagamento em géneros, em que as pessoas batiam à porta dos proprietários que ofereciam um pouco do que a casa produzia. “O Pão por Deus” tem origem nesses antigos costumes do trabalho não pago”.



TODOS OS SANTOS




Ti’ Zé, lembra-se bem do S. Martinho, quando há muitos anos, de verruma em punho, ia abrir um orifício na madeira do pipo, de onde sairia, de certeza certa, um belo vinho. Bebido o copo, com sincera reverência, apesar de não tirar o boné, tapava o buraco com um olhar embevecido, pois ele bem sabia que ali estava o produto da sua lavra de um ano, com aroma e paladar inconfundíveis em qualquer parte do Mundo. Vinho não há melhor de que o das encostas da Castanheira ou dos Montes, “terra de muito vinho e poucas fontes”. E disso lá ele percebia…
Antes do S. Martinho, há uma data e um momento, muito relevantes no sentimento popular. No dia 2 de Novembro multidões, como que procissões, visitavam o cemitério, talvez mais conscienciosamente que hoje, as campas dos seus mortos. Ao final do dia, já se encontravam muitas velas a arder.
Aquela data não foi escolhida ao acaso. A Igreja Católica celebra no dia 1, “Todos os Santos”, e no dia 2, os “Fiéis Defuntos”. Hoje em dia, por ser mais prático, juntam-se as duas efemérides. O culto dos mortos, no dia que lhes é dedicado, traduz-se em ritos nem sempre iguais, embora com o comum da romagem ao cemitério, a colocação de flores e velas sobre as campas. Esta é uma prática corrente, tais celebrações, costumes e crenças existem em todos os países da Europa, onde se acredita, embora com variantes, que “no dia consagrado aos mortos as suas almas, isoladas ou em grupo, visitam na terra os lugares que habitaram em vida. Moisés Espírito Santo, escreveu que desde os tempos mais arcaicos, anteriores ao cristianismo, que os mortos eram celebrados no princípio do inverno. O frio, a chuva, as sombras, tudo isto contribui para a relação entre o inverno e a morte, época dos frutos secos (figos, nozes, uvas passas, castanhas). O fruto seco é um fruto morto. É a morte da terra que também tem como simbolismo a morte das pessoas. O culto dos mortos e os seus rituais também têm o efeito de acalmar. São uma recompensa por todas as injustiças que lhes possam ter sido feitas em vida. Apaziguar a memória, o espírito dos mortos é próprio de todas as sociedades”.
Crentes, menos crentes e não-crentes recordam, sem sentimento mórbido ou de luto, os que já partiram, em gestos traduzidos por um simples ramo de crisântemos, uma oração ou mesmo pelo simples recolhimento frente à sepultura. “Basta um ramo de flores, não é preciso um braçado”, dizia-se no Porto em casa de meus Pais. Ramos e vasos de flores, das mais variadas qualidades, cores e tamanhos, velas grandes, pequenas, brancas, vermelhas, amarelas, lamparinas, castiçais ou pequenas taças de cera. Tudo isto e, muito mais, é colocado ao dispor das pessoas, nas semanas que antecedem o um ou dois de Novembro. O momento é de comprar velas, encomendar flores, porque o que importa é deixar as campas das familiares (“é a voz do sangue”, lembrava-me a minha Mãe, “sabes estão ali pessoas (os avós), sempre muito por nós queridas”) devidamente ornamentadas para o grande dia. Gestos que marcam a saudade dos que já não pertencem ao número dos vivos, do resto da família desaparecido, e dos amigos. Em cada recanto, depara-se com a fotografia de um conhecido, que traz à memória recordações, algumas longínquas outras bem mais próximas, uma lágrima teimosa que não se consegue reter.
A visita ao cemitério nesse momento não significava nunca um sacrifício para cada um que lá vai. Pelo menos fui assim habituado a pensar ou sentir. Não é uma seca. Antes, revela a sensibilidade humana, muito portuguesa, perante o mistério da morte, a condição mortal do homem.

A comemoração dos defuntos está de há muito na sequência da solenidade de “Todos os Santos”. Nesta festa, põe-se em relevo o exemplo de um sem-número de cristãos, cujo nome desconhecemos, mas que procuraram, na existência terrena, a santidade. Gente de carne e osso que levou uma vida normal, no meio de angústias, desilusões, traições, alegrias, sofrimentos e privações. E, para quem a morte era, apenas, a passagem para uma outra vida, sem fim. O “Dia dos Defuntos”, obriga ainda que de forma fugaz, a olhar para o que é cada um. Questiona-nos sobre a brevidade dos dias que se vivem. E a considerar que se torna urgente dar um verdadeiro sentido à vida incerta. Não por medo, mas por uma fidelidade às convicções de consciência. O “Dia dos Fiéis Defuntos”, para mim agora na província (Alcobaça) ou antigamente na cidade (Porto), será sempre um momento importante na minha formação e, claro, portuguesa.