sexta-feira, 31 de março de 2017

-CEMITÉRIOS EM ALCOBAÇA-

Resultado de imagem para cemitério

Pelos facultativos municipais encarregados de proceder ao exame dos vários terrenos previstos para a construção do novo cemitério de Alcobaça, foi apresentado na sessão da Câmara Municipal (16 de julho de 1890), um relatório do seu trabalho, no qual se concluía existir apenas um local apropriado, o cemitério da Vestiaria, desde que devidamente ampliado.
Assim, Câmara deliberou, embora contra a opinião da Junta da Paróquia da Vestiaria, escolher esse local e mandar proceder, com a máxima urgência, aos trabalhos preparatórios e indispensáveis. O vereador Vitorino de Avelar Froes, a propósito da oposição da Junta da Vestiaria disse, que tendo-se levantado em algumas freguesias do Concelho uma corrente de opinião contra a Câmara imputando-lhe a responsabilidade da construção do cemitério da Vestiaria, lamentava que tendo estado em reclamação esse projeto há vários meses, nunca se levantou qualquer voz a protestar contra o facto. Por outro lado, esclareceu que tendo sido exposto o assunto ao Governo, este mandou apresenta-lo no Tribunal Administrativo, pelo que era de opinião que a Câmara deveria aguardar o resultado da decisão, garantindo neutralidade entre as diversas opiniões que se têm vindo a manifestar.
O certo é que, na sessão de 21 de agosto de 1899, veio a ser escolhido para localização do novo cemitério, o terreno situado entre a estrada de Leiria a Santarém e o caminho municipal do Casal da Ortiga, pertencente a Francisco  Pereira Zagallo, tendo sido nomeados louvados para procederem à avaliação do terreno. 
O Dr. Francisco Zagallo, oficiou a Câmara, declarando que não tendo sido ouvido acerca da expropriação amigável do seu terreno, nem tendo sido decretada a expropriação por utilidade pública, afigurava-se-lhe inoportuno tratar-se agora da sua avaliação e por isso se abstinha de participar no processo de nomeação dos louvados.
Na Sessão de 9 de outubro de 1899, foi presente um requerimento do Dr. Francisco Zagallo, no sentido de ser revogada a deliberação que mandou instalar o cemitério municipal na charneca da sua Quinta do Colégio, pelo que deveria a Câmara vistoriar o terreno, a fim de apurar se estava nas condições exigidas para o fim.
O cemitério municipal acabou por se construir no Bairro da Roda, pelo que em julho de 1903, achando-se pronto e em condições de se poderem fazer enterramentos, a Câmara deliberou que se oficiasse ao Prior de Alcobaça (Pe. Ribeiro d’Abranches), rogando-lhe que solicitasse ao Cardeal Patriarca autorização para se proceder à sua bênção.
Desde então, com arranjos e ampliações, tem permanecido aí.
O antigo cemitério de Alcobaça, nas dependências do Mosteiro, encontrava-se em desleixado estado de conservação, muito especialmente os resguardos das sepulturas, coroas, retratos, jarras que jaziam pelo chão ou se encontravam em cima de um suporte qualquer, fora do lugar. Cães vadios movimentavam-se à vontade entre as sepulturas, que revolviam. Há quem diga que por lá também andaram porcos.
Se esta situação era lastimável, não menos a queixa de que nas dependências do Quartel se sentia por vezes um incomodativo odor, atribuído a algum cadáver depositado em jazigo e cujo caixão se dessoldou.
O cemitério dos monges esteve localizado no lado sul do transepto da igreja do Mosteiro, motivo pelo qual a porta de acesso ao exterior, foi apelidada de Porta da Morte. Após a extinção das Ordens Religiosas e o encerramento do Mosteiro, habitantes de Alcobaça foram aqui enterrados, até ser construído o novo.
Com a República, os cemitérios foram declarados seculares.
Mas não era apenas a forma como se enterravam os não católicos, mas também os suicidas ou os náufragos, que indignava Ramalho Ortigão, numa carta aberta ao Patriarcado de Lisboa (1872). Chegamos ao cemitério. Das grades que circundam os jazigos pendem coroas de perpétuas cor de milho estreladas de saudades roxas. Dentro dos carneiros ardem velas de cera, vicejam ramos de flores tristes em vasos de porcelana, e longos bambolins de crepes adornam as lápides tumulares de dísticos de ouro em fundo negro. Algumas senhoras de vestidos pretos passam silenciosas e graves. À porta algumas carruagens esperam. Eis tudo o que vimos no cemitério. Digne-se agora Vossa Eminência ponderar por um momento o que não vimos. Não vimos a gente pobre, porque os pobres não têm nos cemitérios onde ir chorar aqueles que lhes morrem. A vala Eminentíssimo Senhor, é um túmulo coletivo, sem epitáfios, indiferente e mudo, insondável como o oceano. Nos terrenos reservados às sepulturas individuais não se entra sem uma certa toilette, como no superior do S. Carlos (…).
-CEMITÉRIO DE ALPEDRIZ-
Nos Montes, até perto do fim do século XX, não havia cemitério, o qual foi construído apenas na década de 1990, depois de criada a respetiva freguesia a partir de Alpedriz (28 de agosto de 1989).
No princípio de século XX, as pessoas eram sepultadas em Alpedriz, depois de veladas 24 horas ininterruptas em casa, depois de o cadáver ser lavado pelas mulheres da família e vestido com o fato do casamento ou o escolhido ainda em vida, entre o melhor que havia. A virgem ia de branco e não raramente com uma grinalda de flores na cabeça.
As portas e janelas da casa eram fechadas, acendiam-se luzes de azeite e encomendava-se o caixão à medida. O cadáver era conduzido num caixão, levado à mão, numa tarefa ingrata e desagradável para o padre, acompanhantes e cangalheiro, enquanto os sinos dobravam, anunciando à comunidade o desaparecimento de um dos seus.
Com a República, foi adquirida uma carreta, mas dado o muito mau estado da estrada Montes/Alpedriz, os mortos chegavam, por vezes, virados ao contrário, o que ocasionou veementes protestos da população.
Perante isto, a carreta veio a ser abandonada, quando foi possível adquirir um carro funerário.


-A MONARQUIA EM COLAPSO, O CARNAVAL E ALCOBAÇA-

Resultado de imagem para carnaval
Em 1910, a monarquia constitucional portuguesa estava em apuros, enquanto a população pelo País fora se ia divertindo como podia, com mais ou menos folia. O carnaval em Alcobaça, esteve pouco animado na rua, apesar do tiroteio de pó, água, confetis e esforços dos que iam tentando fazê-lo reviver, dando-lhe a cor e a animação de longínquas eras e terras. Os festejos, com a exceção dos bailaricos particulares e populares nas associações locais, circunscreveram-se ao Clube Alcobacense, à Fanfarra, ao Grémio e ao Teatro.
No Clube, realizou-se para os sócios e família um baile no Domingo Gordo, na Segunda-feira uma tarde infantil, e na Terça-feira uma reunião de tipo familiar, que serviu de pretexto para uma soirée, que durou até de madrugada, com ceia a meio da noite.
Na sede da Fanfarra Alcobacense, o baile de carnaval, que se realizou na sala de ensaio, ocorreu por antecipação no Domingo anterior para não entrar em concorrência com o clube e teve alguma animação.
No Grémio, efetuou-se na quinta-feira anterior, um baile que durou até cerca das duas horas, animado por uma orquestra que veio de fora.
No Teatro, houve nas noites carnavalescas alguma animação e apesar dos preços relativamente elevados (camarotes: três noites=2$000 reis, Duas noites=1$500, Uma noite=800. Plateia: entrada geral=160 reis. Galeria:=100 reis) e da concorrência, não ficou por ocupar qualquer camarote, estando sempre presente um nutrido tiroteio de serpentinas, bisnagas de água, confetis e o uso de máscaras.

A classe política estava desacreditada, entre a luxúria do poder e o interesse dos portugueses optava por aquela, e D. Manuel II apesar da acalmação era atacado da direita à esquerda.
O PRP, movimento urbano e sobretudo lisboeta, criara um problema de ordem pública que a monarquia constitucional nunca poderia ter resolvido sem se renegar tornando-se num regime repressivo, o que a sua génese política não podia aceitar.
Quando o PRP resolveu dar o golpe, em outubro de 1910, poucos apareceram a defender o regime.



-OS BOMBEIROS EM ALCOBAÇA NO TEMPO DA I REPÚBLICA-

Resultado de imagem para bombeiros
Os Bombeiros de Alcobaça foram fundados em 1888, por um conjunto de alcobacenses, de onde se destacam José de Almeida e Silva e Manuel Vieira Natividade, tendo este último sido o seu primeiro comandante e até 1896.
Com a I República, os Bombeiros de Alcobaça tiveram como comandante Rafael Pinto Eliseu, Secretário da Administração do Concelho, cuja ação é frequentemente referida nos casos de sinistros. É, aliás, na dupla qualidade de Comandante dos Bombeiros e de Secretário da Administração do Concelho que este aparece caraterizado em Silhuetas de Alcobaça.
A responsabilidade na associação dos Bombeiros parece estar, por esta altura, repartida entre o Município e um conjunto de alcobacenses, designados como voluntários. Nesse sentido, compreendem-se algumas referências em sessão de Câmara como foi aucturisado o sr. Vereador Ferreira da Silva a encarregar um dos empregados do serviço de limpeza de material de incêndios, a cargo da corporação bombeiros voluntários ou a deliberação de arrendar uma casa na Rua Afonso de Albuquerque para o material de bombeiros.
Em 15 de agosto de 1913, houve em Alcobaça um cortejo em que desfilaram em carros alegóricos, instituições úteis, como os Bombeiros da Vila e da Companhia de Fiação e Tecidos, exaltando-se estas festas cívicas que unicamente visavam à glorificação do trabalho e do bem.
Refira-se que a vila contava, ainda, com ajuda dos militares do Quartel instalado no Mosteiro, como decorre, por exemplo, do violento incêndio que deflagrou, em 1915, na Fábrica de Leonardo Taveira e Cª., a que acudiram a bomba municipal e a do quartel, esta última acompanhada de um Piquete de Artilharia, além de populares.
Questões pessoais e políticas, terão estado na origem das vicissitudes vividas nos Bombeiros entre 1914 e 1919. Na primeira data, foi apresentado, em sessão de camarária, o pedido de demissão do vereador com o pelouro dos incêndios João Ferreira da Silva, ao que constou por incompatibilidades com um colega da equipe. Na mesma sessão foi apresentado um officio dos Bombeiros voluntários d’esta villa, informando achar-se extincta aquella corporação (…) e que acudirão a qualquer sinistro, com o material existente, apenas como simples particulares e sem assumirem a responsabilidade que cabe a uma corporação de bombeiros.
Apesar disto, o Município continuou a ter um Serviço de Incêndios, que aparece referenciado, por exemplo, no arrendamento em 1917, de um prédio completo na Rua Frei Fortunato, para se instalarem diversos serviços municipais.
A partir de 1918, começou a denunciar-se na imprensa local, o abandono a que estava votado o material de extinção de incêndios, pelo que foi através da Companhia de Fiação e Tecidos que veio a ajuda para melhorar este importante serviço.
Com Fernando Sá, na Presidência da Comissão Administrativa Municipal, a Associação dos Bombeiros ganhou novo fôlego, sendo assumida como uma preocupação e um projeto. Neste executivo, António Vieira Natividade assumiu o pelouro dos incêndios.
A Associação dos Bombeiros (alvo de uma autorização/aprovação de cada uma das freguesias), utilizou o material existente na Câmara, que complementou com outro que adquiriu e recebeu vários subsídios.
Reorganizados, os Bombeiros vieram a instalar-se em espaço próprio no edifício de António Veiga, na Rua Frei Fortunato e comandados por Ernesto Araújo Rosa (irmão de Eurico Rosa), que comandava os Bombeiros da Fiação e Tecidos.
A criação e manutenção do Corpo de Bombeiros foi reputada uma das realizações mais importantes do executivo de Fernando Sá, que assim o exprimiu num discurso proferido aquando da apresentação do Orçamento Municipal suplementar para 1920.
Durante alguns anos os Bombeiros de Alcobaça foram comandados por Ernesto Araújo Rosa, tal como surge referenciado em diversas situações, como o incêndio na Rua Francisco Zagallo (1921), ou solicitando à CMA (1922) melhores condições. Mesmo quando abandonou o comando dos Bombeiros, continuou a prestar o seu contributo integrando a respetiva direção. Talvez por isso, foi com a farda de Bombeiro que o jornal Comarca de Alcobaça o retratou aquando do seu 77º. aniversário, dando conta da distinção de que foi alvo pela Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, em 1949.
A sede dos Bombeiros, veio a passar para a Rua Frei António Brandão enquanto que estes assumiam diversas funções, como acompanhar e fiscalizar espetáculos.
A 26 de maio de 1923, surgiu o Grupo de Voluntários Pronto Socorro Alcobacense, que funcionou durante algum tempo independentemente dos Bombeiros, mas com uma ação paralela, cujo fim era socorrer feridos em desastres, fógos, etc, procedendo-se imediatamente aos primeiros pensos e desinfeção dos ferimentos. Todos os socorros prestados por este grupo serão gratuitos. Estas associações funcionavam em conjunto, na mesma sede e, embora durante algum tempo mantivessem designações separadas, possuíam alguns documentos em comum.
O fogo foi um das armas utilizadas para atacar a I República, tendo sido Alcobaça vítima disso e Fernando Sá o visado.
Em 1919 deflagrou um grande incêndio na Fábrica Velha da Fervença. A imprensa deu muito destaque a este sinistro, a que atribui origem criminosa e que relacionou com outros incidentes similares em Lisboa: Teatro República, Cadeia do Limoeiro e Arsenal. Estiveram presentes no combate ao incêndio, além dos operários e bombeiros da Fábrica, muitos populares, a bomba municipal, oficiais, sargentos e praças da nossa guarnição militar, cujos serviços foram igualmente dos mais solícitos e prestimosos.
A ideia  que o incêndio teve origem criminosa, é reforçada pelas medidas de prevenção adotadas na sua sequência. As medidas de prevenção ultimamente tomadas entre nós não teem nada que ver com a população habitual desta vila, cuja índole o sr. Administrador do concelho conhece o bastante a julgá-la incapaz de qualquer ato mais condenavel. Elas destinam-se, pois, a evitar que qualquer elemento estranho a Alcobaça novamente nos sobressalte com algum atentado igual ao da Fábrica, e são até, essas medidas, o reflexo do que no mesmo genero e pelo mesmo motivo se está pondo em pratica em todo o paíz.
No final da I República encontrava-se constituída uma Associação de Bombeiros Voluntários em Alcobaça, possuidora de estrutura sólida, sede própria, registos de sócios, maquinaria e instrução adequada aos homens que não mais perdeu a autonomia e que comemora atualmente os seu 125º. aniversário.


-BERNARDINO MACHADO, AMÉRICO D’OLIVEIRA E ALCOBAÇA-


Resultado de imagem para bernardino machado




Alcobaça era, em geral, uma terra conservadora.
O Semana Alcobacense estava, porém, a radicalizar posições, com textos sobre o momento político, onde se fazia o apelo à revolução, não excluindo o regicídio. O jornal utilizava como armas um jornalismo militante que se encarregava, sistematicamente, de zurzir pela escrita mordaz, os adversários com afinco, especialmente não republicanos. (…) A situação portuguesa não é solúvel dentro das fórmulas legaes e normaes; ela tem que ser inevitavelmente resolvida por ato violento que córte radicalmente o nó górdio da situação, isto é, que destrua até os fundamentos da ordem político-jurídica subsistente e a substitua por outra que corresponda inteiramente às exigências da moral social e das aspirações e do sentimento cívico e patriótico dos portugueses. Assente isto, e estabelecido que a ordem política a instituir é a República, visto como causa originária do conflicto nacional reside na existência da Monarchia; reconhecida a urgência desta substituição - que já tarda -, ocorre perguntar:- Conta a democracia, isto é, o partido republicano, com os elementos necessários para proceder a este ato urgente? (…).
Também não repudiava alinhar numa campanha (primariamente) anticlerical, pois na Alemanha vae uma inferneira dos diabos, porque o Papa fez publicar uma encyclica aggravando os povos e princípios protestantes, estando até iminente um conflicto diplomático, por causa das palavras insultuosas de Pio X. Nenhuma razão achamos para tão grande celeuma. Motivo achamos sim, mas é para estranhar os despeitos e a attitude hostil dos allemães para com o Vaticano. O Papa falou contra aquelles que andam fora da obediência ao seu cajado de pastor da cristandade? Deixae-o lá! Está no seu papel – que é preciso ir reduzindo às legítimas proporções de uma simples religião… prehistórica.
Durante cerca de 30 anos este semanário foi quase o único jornal da Vila. Passou ao longo desses anos por inúmeras dificuldades, a que não foram estranhas a falta de assinantes e receitas de publicidade, bem como dissensões internas quanto à orientação editorial. Após vários anúncios de eventual encerramento, o jornal suspendeu a publicação em 3 de julho de 1921, reaparecendo com outros responsáveis em 7 de maio de 1922 até 29 de abril de 1923, em que encerrou definitivamente. Tinha poucos assinantes e publicidade, além de que os que compunham o corpo redatorial estavam zangados, de costas viradas uns com os outros.
O ardor republicano em Alcobaça que estava a desvanecer, ficara registado, por exemplo, numa fotografia de Carlos Gomes de 1908, a propósito da visita de Bernardino Machado (a vontade era mesmo convidar António José de Almeida), para a inauguração do Centro Republicano Democrático e ali usar da palavra, bem como realizar uma conferência no teatro.
Nessa altura os correligionários do ilustre e simpático democrata preparam-lhe uma fraternal receção, indo alguns esperá-lo à estação de caminho de ferro de Valado de Frades, enquanto outros, o aguardaram em Alcobaça, pelo que formado um cortejo, acompanharam-no até a casa de José Eduardo Raposo de Magalhães, onde ficou hospedado, na falta de instalações condignas e por razões de companheirismo político.
Depois de ter assistido à inauguração do Centro (onde foi servido um porto que a Casa Ferreira da Silva, tinha recebido de S. João da Pesqueira), Bernardino Machado dirigiu-se para o teatro no Mosteiro, a fim de realizar a sua conferência com sala lotada, tendo ficado pessoas à porta. Nos camarotes, viam-se senhoras, havendo na assistência indivíduos pertencentes a outros credos políticos como monárquicos, o que foi motivo de admiração e pretexto para se dizer que não faltavam pessoas que se preparavam para passar para o outro lado da barricada.
Quando Bernardino Machado, apareceu no palco, bem como no decurso da conferência, ouviram-se prolongadas e calorosas salvas de palmas e vivas.
Francisco Batista Zagallo em rápidas e breves palavras fez a apresentação do conferencista Terminada a conferência, o prestigioso democrata subiu para a caleche rumo ao palacete de José Raposo de Magalhães, onde ocorreu uma receção a republicanos e se trocaram brindes. Bernardino Machado retirou no dia seguinte para a Foz do Arelho, para cumprimentar Afonso Costa que ali se encontrava a passar uns dias, seguindo só depois para Lisboa.
Antes da partida de Alcobaça, Bernardino Machado ainda visitou o Hospital da Misericórdia, o Mosteiro, o museu de Vieira Natividade e diversos pontos da vila, tirando na Fotografia Rebelo, de Carlos Gomes, o supra referido retrato com a comissão municipal republicana e outros correligionários.
Apesar de ter sido um homem ligado ao sistema político monárquico, dele se foi afastando aos poucos, assumindo convicções republicanas. A sua intransigência, tal como Afonso Costa ou Alexandre Braga, relativamente à questão dos Adiantamentos à Casa Real, não colhia, a simpatia do Paço Real. É de referir que, não obstante o entusiasmo e empenhamento no sucesso da República, não criticava muito severamente D. Carlos, que reputava como vítima da irremediável decadência que tinha atingido a Monarquia, já que os seus principais responsáveis não tinham energia para enfrentar a situação e a defender. Em 1903, pronunciou no Ateneu Comercial de Lisboa, o discurso Da Monarquia para a República que lhe valeu o trampolim para ser eleito Presidente do Diretório do PRP/Partido Republicano Português. Bernardino Machado veio a lamentar o regicídio, por o entender desnecessário para o surgimento de uma República que conduzisse Portugal pelos novos tempos e rumos.

Em abril de 1906, em companhia de Américo d’Oliveira e de seu primo Rodrigo Lopes d’Oliveira Júnior, tinha estado em Alcobaça Artur Leitão, conhecida figura do Partido Republicano, e Miguel Machado, filho de Bernardino Machado. Aproveitando a sua estada em Alcobaça, fizeram duas conferências no Centro Republicano, apesar de funcionar em instalações pequenas e precárias, o que impedia afluência de público e muito especialmente dos não militantes, ao contrário do teatro.

O republicanismo local, imputável mais a um grupo restrito que à generalidade da população genericamente conservadora, não era fácil de manter, pelo que ia esmorecendo, perante os repetidos conflitos pessoais com cortes de relações e picardias, bem como as dificuldades de vida que o município de parcos recursos não conseguia minorar. A implantação da República acarretou alguma emoção nos primeiros tempos, apesar dos exageros relativamente a personalidades respeitáveis, à Igreja corporizada no clero, mas a guerra na Europa acarretou um pequeno (mas nada generalizado) refrear de ímpeto militante.
A alvorada do dia 5 de Outubro de 1914, foi anunciada em Alcobaça, do morro do castelo, com uma salva de 21 morteiros, para a qual foi realizada uma subscrição. Durante o dia a bandeira verde e rubra, conservou-se hasteada nos edifícios públicos, depois iluminados à noite, e em algumas casas particulares de indefetíveis republicanos. Como não tivesse havido possibilidades materiais para contratar uma filarmónica para atuar naquele dia, a Comissão Executiva da Câmara Municipal conseguiu, graças ao empenhamento de Eurico Araújo, com a autorização de Pereira Caldas, Comandante dos Grupos de Artilharia aquartelados no Mosteiro, que a respetiva charanga, desse uma audição na parte de tarde, no coreto da Praça. Aí apareceram algumas famílias que aproveitaram o momento de descanso para farnelar, tanto mais que esteve um belo dia de início de outono.



-UM SACRISTÃO APRESSADO E MARIA SERRANA EM MONTES-ALCOBAÇA-


Resultado de imagem para parteira antigas

Afonso Antunes, pedreiro e agricultor remediado dos Montes, que tinha andado três anos na escola e feito o exame de 1º. grau, ajudava como sacristão no ofício dominical.
Era tio da Maria Serrana, atarefada cozinheira para casamentos ou batizados, competente enfermeira e parteira, mãe de 7 filhos de pais diferentes, o que não lhe retirava respeitabilidade ou confiança popular.
O Batismo, foi instituído por Jesus, como se pode ler no Evangelho segundo S. Mateus, toda autoridade sobre o Céu e sobre a Terra me foi entregue. Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos.
Ao nascimento sucedia quase de imediato o batismo, pois o medo maior não era tanto da morte do bébé (facto tão vulgar como inelutável neste Portugal de antigamente) encarada com conformismo, mas da outra morte, o que era inaceitável, a da perdição da alma. O Batismo traduzia-se, pois, numa manifestação do amor para com o novo ser e não o ministrar seria escandaloso, imperdoável.
A necessidade de obedecer à pressão social (onde se inseria o zelar pelo destino da alma) era todavia mais poderosa que a solicitude para com a criança. Funcionava o batismo como rito de socialização, para além de ser ainda considerado um protetor físico para si e família.
O Batismo sendo a receção na Igreja ao novo ser e impensável não o receber condignamente, impunha-se que a parteira soubesse batizar, se necessário ainda que com o bebé no ventre materno.
Normalmente, o Batizado é realizado na Igreja. E quem o ministra são os Sacerdotes, Diáconos e outros cristãos credenciados.
Dada a elevada taxa de mortalidade infantil em Portugal no início do século XX, muito especialmente entre os recém nascidos, a Maria Serrana ia procurar Ti Afonso e solicitar-lhe na falta de um padre, que os batizasse, pois tratava-se de uma emergência. O procedimento de Ti Afonso Antunes era sempre o mesmo. Começava por perguntar o nome que iria ser dado. Os pais escolhiam o nome e da mesma maneira, escolhiam os padrinhos se houvesse tempo ou em alternativa neste caso, um santo da sua devoção.
Com um copo de água e uma pequena mecha de algodão ou algo que a pudesse substituir, Ti Afonso realizava a cerimónia, molhando o algodão na água e colocando-o ao de leve na cabeça da criança por três vezes, dizendo a formula sacramental: José ou Maria (o nome do batizando), eu te batizo em nome do Pai, colocava o algodão molhado na cabeça da criança, do Filho,  colocava o algodão molhado outra vez, e do Espírito Santo, colocava-o pela terceira vez. A criança estava Batizada.
Mas podia acontecer que sobrevivesse. Nesse caso os pais iam contar a ocorrência ao Padre, que autorizava a criança ser submetida à parte complementar do batismo (a liturgia da palavra, a unção com óleo dos catecúmenos), para que o seu nome fosse devida e regularmente inscrito no Livro de Registo de batizados da Paróquia.
A cerimónia do batizado, em geral, era realizada com a presença dos avós e padrinhos.
A madrinha, muitas vezes uma das avós, dava o fato e o padrinho, se podia, um fio de ouro, um anel ou medalhinha em prata. A mãe normalmente não assistia ao batizado ou por se encontrar convalescente ou para não dar azar, pelo que quem transportava a criança à Igreja era a parteira. Havia na Alta Estremadura quem chamasse de comadre à parteira (noutros sítios do País de parceira), pois que era esta a madrinha de pia, a que levava a criança até ao sacramento batismal. Nos Montes, era frequente serem os padrinhos quem escolhia o nome da criança, salvo por uma questão de cortesia, essa tarefa ser deixada aos pais.
A transmissão dos apelidos não era muito consensual, nem tinha regras comumente utilizadas.
Tinha-se um só sobrenome, sendo por vezes o pai a transmitir o seu aos rapazes e a mãe às raparigas, perpetuando-se os das duas parentelas, até que passou a generalizar-se transmitir o da mãe e pai por esta ordem, predominando o último.





UM ANTIGO BARBEIRO NOS MONTES /ALCOBAÇA

Resultado de imagem para barbeiro antigo
Óscar Santos, antigo presidente da Junta de Freguesia dos Montes, recorda-se de ouvir histórias do barbeiro, que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana.
Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas. Antigamenhte, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina se afiava numa assentadura (fita de couro, posta num suporte de madeira). Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor. Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo. Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar. O barbeiro todavia nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas, como Coz ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.
O  assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar  pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pelo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente.
Os barbeiros também foram acabando.


-UM ACORDO ORTOGRÁFICO NA I REPÚBLICA-


 Resultado de imagem para ACORDO ORTOGRÁFICO NA I REPÚBLICA-
Até ao início do século XX, tanto em Portugal como no Brasil, seguia-se um princípio ortográfico que, por regra, se baseava nos étimos latino ou grego.
Ao longo dos tempos, alguns estudiosos da língua portuguesa apresentaram, sem êxito, propostas de simplificação da escrita. O governo republicano, empenhado no alargamento da escolaridade e no combate ao analfabetismo, nomeou uma comissão, para estabelecer uma ortografia simplificada a usar nas publicações oficiais e no ensino.
Apesar de existir no Brasil uma forte corrente foneticista, que defendia a simplificação ortográfica, o seu não envolvimento nesta reforma, teve o efeito de reforçar a corrente tradicionalista, ficando os dois países com ortografias diferentes, Portugal com uma ortografia reformada, o Brasil com a velha ortografia de base etimológica.
Em 1924, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras começaram a procurar uma ortografia comum, acordando-se preliminarmente em 1931,  seguir a ortografia portuguesa de 1911, pelo que se iniciou um processo de convergência das ortografias dos dois países, que não teve grandes resultados a final.
Teixeira de Pascoaes, sobre este acordo, escreveu que na palavra lagryma (...) a forma da y é lacrymal; estabelece (...) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma doy que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio... Escreve-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transforma- lo numa superficie banal.
Fernando Pessoa intervindo na polémica opinou que não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse.