terça-feira, 4 de abril de 2017

A I República em Alcobaça PEDE-SE A CABEÇA DO REI


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(I)



SUMÁRIO:
(1).O Sarg. A. Ganito (da Guarda Real/Pessoal de D. Carlos)-(2).O Rotativismo-(3).D. Carlos, Luís XVI e Afonso Costa-(4).Ecos em Alcobaça-(5).Américo d’Oliveira-(6).O Partido Republicano em Alcobaça-(7).O Descalabro do Regime. O Golpe do Elevador-(8).O Regicídio e Aquilino Ribeiro-(9).Reflexos em Alcobaça-(10).Condolências da CâmaraMunicipal de Alcobaça.

-1-O SARG. A. GANITO (da Guarda Real/Pessoal de D. Carlos)-

A
1 de fevereiro de 1908, quando regressavam a Lisboa provenientes de Vila Viçosa, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados no Terreiro do Paço.
Nos últimos anos da monarquia, o Sarg. Cav. António de Oliveira Ganito, natural de Castelo Branco, foi colocado no quartel de Alcobaça.
Casado durante a sua comissão na vila, como não teve filhos, ajudou a criar a Abília, filha de uma galega, criada de um padre, e de quem, segundo se dizia, também era filha. Quando o Sarg. Ganito foi destacado para o Palácio de Vila Viçosa, para fazer parte da guarda pessoal do Rei D. Carlos, além da esposa levou consigo a menina.
A viver nas instalações do palácio, o Sarg. António Ganito conheceu pessoalmente o Rei D. Carlos, viu-o partir para as caçadas, assistiu à distribuição das peças de caça, recebendo por vezes algumas e acompanhou-o ao comboio para Lisboa, no fatídico dia 1 de fevereiro de 1908. O Sarg. Ganito, acabou por regressar a Alcobaça, e a Abília veio a casar com um sobrinho de sua esposa. Deste casamento, nasceram dois filhos, uma rapariga e um rapaz, e aquela, de nome Maria Dolores Pimenta, é sogra de Joaquim Romão, a quem se voltará a referir.
-2-O ROTATIVISMO-
O atentado ficou a dever-se, entre o mais, ao colapso do sistema político, em parte fruto do Rotativismo.

Esta foi a designação dada ao sistema político-partidário vigente em Portugal durante a segunda metade do século XIX, com maior expressão no período compreendido entre 1878 e 1900, o qual era caraterizado pela alternância no poder dos dois grandes partidos políticos, o Partido Regenerador, do centro direita, e o Partido Progressista ou o Partido Histórico, do centro esquerda. O Rotativismo português, teve o apogeu entre 1878 e 1890, e durante esse período, o Partido Regenerador governou durante 81 meses e o Partido Progressista 69 meses. De fora ficavam os pequenos partidos de oposição, o Partido Republicano Português e o Partido Socialista Português, que se dedicavam ao combate contra a monarquia pela via doutrinária, ausentes do arco do poder e sem expressão parlamentar. O Rei, como árbitro/moderador, papel atribuído pela Carta, havia designado João Franco para chefe do governo. Este, enérgico e habituado à guerrilha política (dissidente em 1901 do Partido Regenerador, por divergências relativas a uma lei sobre a contribuição predial), passou a liderar o Partido Regenerador Liberal que fundou em 1903, no que foi acompanhado por cerca de três dezenas de deputados, entre os quais figuras de primeiro plano dentro do Partido Regenerador. João Franco convenceu o Rei a encerrar as Cortes de modo, alegadamente a seguir um caminho novo, implementar medidas objetivas e credíveis com vista à moralização da vida política, como a reorganização interna que conduziria ao restauro da autoridade do Estado e reformas sociais, aspiradas mas adiadas, capazes de colherem larga base de apoio popular, especialmente entre os trabalhadores que pretendia caçar como eventualmente os republicanos, destinatários da alta questão da justiça social e utilidade pública, no seu mais largo sentido. Para João Franco, o seu novo partido tinha sentido pois a fórmula rotativa estava esgotada, Portugal não pode continuar a ser ludíbrio de regeneradores e progressistas.
A governação de João Franco, agitou fortemente a oposição, não só a republicana, mas também a monárquica não menos agressiva, liderada por rivais que o acusavam de governar em ditadura.
Se o Sr. João Franco estende a mão aos republicanos, esta fica-lhe no ar, porque nós não lha queremos, afirmou nas Cortes o Deputado António José de Almeida, que os republicanos de Alcobaça muito apreciavam.
No Partido Progressista também se verificou em 1905 uma dissidência liderada por José Alpoim, Ministro de Justiça de um governo chefiado por José Luciano. Em Alcobaça, esta interessava, tão só, na medida em que os republicanos como Santiago Ponce sabiam e diziam não ter pressa, pois que iriam comer a maçã madura que lhes caía no prato sem esforço.
-3-D. CARLOS, LUIS XVI E AFONSO COSTA-
O Deputado Afonso Costa virou-se para João Franco e disse implacavelmente sem tremer a voz: O Senhor Presidente do Conselho é mandatário do País e os membros do Parlamento, como representantes da nação são seus mandantes. S. Eª, como administrador ou procurador nosso, tem o dever de trazer à Câmara as contas dos adiantamentos feitos a eles. A Nação ordena, e declarara indispensável, que essas pessoas reponham as quantias desviadas com todos os juros sem exceção de uma só verba; declara formalmente que não consentirá no aumento da lista civil, nem em qualquer regularização, nem em outro modo acomodatício de pagamento. E mais ordena do Povo, solenemente, que logo que tudo esteja pago, diga o Senhor Presidente do Conselho ao Rei: Retire-se senhor, saia do País, para não ter que entrar numa prisão em nome da lei.
Das galerias, soaram aplausos, que a Mesa não conseguiu dominar.
Afonso Costa prosseguiu: Por muito menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI.
Novamente soou a campainha, Ordem! Ordem, e Tomás Pizarro de Mello Sampaio (de nome completo, deputado pelo Partido Regenerador-Liberal, de João Franco, havia assumido a Presidência da Câmara dos Deputados, entre 1906 e 1908), declarou que ou o senhor Afonso Costa retira a frase ou tenho de lhe aplicar o Regimento.
Afonso Costa, repisou a injúria no mesmo tom, sobrepondo-se ao tumulto que criara na Câmara: Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI.
O tumulto aumentou nas galerias, que os contínuos queriam esvaziar. Os deputados republicanos gritavam que era ilegal mandar sair o público, encontrando-se a sessão aberta e não se deviam suspender os trabalhos. Mais uma vez a voz de Afonso Costa fazia-se ouvir acima de qualquer outra:
-Eu respondo pelos meus atos!
-V.Exª não pode falar… Convido-o a retirar-se do edifício das Cortes.
Afonso Costa bradava: Havemos de sair todos! Hão de prender-nos a todos! Esta a liberdade do governo e a liberdade da monarquia.
-Em virtude da resistência do senhor Afonso Costa à intimação que lhe faço, em nome da Câmara, vou mandar entrar a força armada.
Quando os soldados entraram na sala, num gesto largo e teatral, Afonso Costa ao ser arrastado para o exterior, virou-se para eles de braços abertos e gritou: Soldados, não tendes o direito de tocar num representante do povo. E acrescentou: Soldados! Com a minha voz e as vossas armas baionetas, vamos proclamar a República, vamos fazer uma Pátria nova.
Dirigindo-se a João Franco e enquanto partia entre os soldados, Costa gritava de punho erguido: Esta é a sua liberdade!

O Deputado António José de Almeida, ainda tentou convencer os militares (que apelidava de Filhos do Povo), a proclamarem nesse momento a República. Este e outros incidentes, difundidos e ampliados pelos republicanos, levaram a agitação a muitos pontos do País. Em Alcobaça, aquilo em que participava António José de Almeida era seguido com atenção.
Afonso Costa e Alexandre Braga, foram julgados e condenados por ofensas ao Rei na suspensão dos direitos parlamentares por 30 dias.
-4-ECOS EM ALCOBAÇA-
Em 3 de julho de 1907, Câmara Municipal protestou contra o estado da administração pública decorrente da ditadura franquista, pelo que enviou a Lisboa, uma delegação com dois de seus membros, para pedir o regresso à normalidade constitucional, a qual foi acolhida com alguma indiferença pelo secretário do ministro que a recebeu.
O Presidente da Câmara, em 30 de dezembro de 1907 anunciou que, em obediência a ordens superiores, abandonava, tal como os vereadores, a gestão da Câmara, protestando contra a violação constitucional e leis do país, entregando a administração municipal a uma entidade que não foi eleita pelos munícipes, como impunha a Carta.
A notícia do acontecimento nas Cortes com Afonso Costa, chegou a Alcobaça no dia seguinte, trazida de Lisboa por Américo d’Oliveira, tendo sido recebida com cautela, dados os inusitados termos e possíveis efeitos.
Quando na sexta-feira os Deputados Afonso Costa e Alexandre Braga, retomaram os seus lugares (afinal não cumpriram 30 dias), foi expedido para Lisboa um telegrama de solidariedade:
Drs. Afonso Costa e Alexandre Braga, câmara dos deputados – Lisboa.
Republicanos de Alcobaça saúdam os seus deputados e, confiando que eles continuarão a servir o país e a honrar o seu mandato como até aqui, esperam que se não repetirá a injusta violência de que foram vítimas, e nós com eles.
(a) Raposo de Magalhães.
-5-AMÉRICO D’OLIVEIRA-
Américo d’Oliveira propagandista da República (para cuja causa contribuiu com dinheiro que herdou), maçon e carbonário, teve ação relevante já no dia 4 de outubro, na Rotunda ao lado de Machado dos Santos, que ao admitir o eventual falhanço do golpe, o incentivou, permanecendo ambos lado a lado até à vitória se consumar,
As coisas não correram bem aos sublevados que se tinham concentrado na Rotunda. Perante a ausência dos principais dirigentes republicanos e em face dos

boatos que começavam a fervilhar, alguns consideram que se deveria levantar o acampamento.
Em 1908, Américo d’Oliveira vivendo ainda em Alcobaça, fundou e custeou o jornal O Republicano, do qual terão saído apenas seis exemplares e era principal redator Raul Proença que também vivia em Alcobaça.
Este, figura cimeira do pensamento político português no primeiro quartel do século XX, marcou a intervenção cívica durante a I República, cujos vícios criticou duramente. Proença combateu o sidonismo e a Ditadura Militar que, em 1927, o condenou ao exílio em Paris. Tendo regressado a Portugal em 1932, já acometido da grave doença mental que o levaria ao internamento no Hospital do Conde de Ferreira, no Porto, aí faleceu.
Um grupo de amigos e correligionários de Américo d’Oliveira, ofereceu-lhe no dia 21 de janeiro de 191/sábado, no Grande Hotel de Inglaterra- Lisboa (um dos mais conceituados da capital, propriedade de A. Ramos, situado na esquina da Praça dos Restauradores com a Rua do Príncipe, hoje Rua do Jardim do Regedor, inaugurado a 15.04.1906, após profundas obras para ser adaptado a hotel e que com o 5 de Outubro, sofreu bastantes danos, embora tenha reaberto ao fim de poucos dias), um banquete de homenagem pelos serviços prestados à República, quando do movimento que a implantou. Diversos brindes foram proferidos, salientando a ação de Américo d’Oliveira, de quem o Ministro António José de Almeida, que assistiu ao jantar, frisou ser um dos mais heroicos combatentes da Revolução, ao qual a História haveria de fazer justiça.
O semanário lisboeta Colonial, querendo prestar homenagem ao revolucionário Américo d’Oliveira, inseriu o retrato num dos seus números, fazendo-o acompanhar de um artigo a salientar a sua coragem e determinação no decorrer do 4 de outubro, na Rotunda.
Nos primeiros momentos da revolta Machado Santos corre o acampamento e não encontra um oficial, a quem se pudesse entregar o comando.
Foi um momento de dolorosa angústia para o heroico marinheiro, republicano desde muitos anos e um doido pela grande ideia.
O que ele sofreu nesses momentos, ao ver que o movimento ia talvez fracassar, diante delle que estava ali resolvido a praticar todas as loucuras!
Olhou em volta de si e viu Américo de Oliveira, que procurava o mesmo que ele: uns galões de ouro.
Com a mesma ideia dirigem-se para outro.
-Estamos perdidos! Exclama Machado dos Santos. Estamos sós! Que fazer?
Américo de Oliveira exclamou, num ímpeto:
-Tocar a unir, e perguntar aos sargentos se aceitam o seu comando!

Machado dos Santos exultou, já não estava só, tinha ali ao lado um companheiro heroico. Silenciosamente, mas com grande decisão, caíram nos braços um do outro, e foi com uma voz potente de comando de Machado dos Santos mandou tocar a unir.
Felizmente, os heroicos sargentos aceitaram sem relutância o comando de um oficial da marinha, que nem sequer era combatente. De tal modo eles queriam ir para a frente!
Américo d’Oliveira participou no 28 de maio de 1926, tendo sido um dos dois que, com Mendes Cabeçadas, foi ao Palácio de Belém parlamentar com Bernardino Machado, a entrega do poder.
Foi o editor de Arquivo Nacional, que Rocha Martins dirigiu entre 1932 e 1943, semanário que divulgava, aliás sem grande profundidade factos, acontecimentos, biografias e memórias de contemporâneos e de figuras de outras épocas, quase sempre marcadas por controvérsia.
-6-O PARTIDO REPUBLICANO EM ALCOBAÇA-
O Partido Republicano não tinha delegação em Alcobaça, o que não impedia ação política por parte de seus membros ou dirigentes.
O Centro Democrático Republicano apenas seria constituído em 1907, pelo que até aí os republicanos reuniam-se informalmente, na farmácia ou em casa de Natividade. Por isso os abaixo assinados, constituídos em comissão para levarem a efeito a organização do partido republicano no concelho de Alcobaça, tomam a liberdade de convidar para um reunião que se há de efetuar no dia 25 do corrente, todos os cidadãos republicanos e maiores de 21 anos do mesmo concelho, a fim de se eleger a respetiva comissão municipal e encetar outros trabalhos concernentes á referida organização.
A reunião terá lugar em Alcobaça, à 1 hora da tarde na casa onde existiu a antiga fábrica de papel, á Levada, pertencente ao Sr. Francisco Xavier de Figueiredo Oriol Pena.
Alcobaça, 15 de dezembro de 1906.
José Eduardo R. de Magalhães
António de Sousa Neves
Santiago Perez Ponce y Sanchez
João Ferreira da Silva
Afonso Ferreira
Nota-São considerados cidadãos republicanos, além dos que se acham inscritos como subscritores do partido, todos quantos assinaram as mensagens de adesão enviadas ao comício de Leiria e ao banquete em homenagem aos deputados republicanos, e bem assim aqueles que, desejando aderir, compareçam á reunião

do dia 25 e nessa ocasião se inscrevam no respetivo cadastro partidário, a fim de poderem votar na eleição da comissão municipal.



A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA, ALCOBAÇA E SANTIAGO PONCE Y SANCHEZ-


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Quando se deu a queda da Monarquia, a notícia foi recebida por uma elite local, aliás sem grande surpresa mas com emoção, que ficou agradada ao ver José Eduardo Raposo de Magalhães, nomeado Governador Civil de Leiria, por iniciativa e proposta do Ministro do Interior, o estimado António José de Almeida.
A República foi proclamada em Alcobaça no dia 6 de outubro de 1910 perante populares que se juntaram frente a Câmara Municipal, depois de confirmada a queda da Monarquia, apesar vários rumores que circulavam pela vila, tendo competido a Santiago Perez Ponce y Sanchez anunciar a implantação da República e apresentar à aprovação popular José Coelho da Silva para Administrador do Concelho. Mais tarde Santiago Ponce terá confessado que este fora o momento mais emocionante da sua vida e que, por mais anos que tivesse ainda, não voltaria a sentir igual emoção. Santiago Ponce y Sanchez era Presidente da Comissão Municipal Republicana e facultativo municipal. Foi naquela qualidade que esteve em Lisboa a representá-la nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido Reis. O Centro Democrático também se fez representar com três dirigentes nessa manifestação de respeito e de saudade e aconselhou os militantes republicanos a usarem um fumo preto no braço.
Santiago Ponce y Sanchez distinto cidadão, antigo, solícito e dedicado republicano, que nunca se não poupou a esforços ou canseiras na propaganda e defesa do seu absorvente ideal político (a quem a República não esqueceu), veio a ser nomeado diretor do Asilo Dª. Maria Pia, em Xabregas/Lisboa e que ainda se encontra em funcionamento. Trata-se de um Asilo masculino que se rege pelo princípio de dar aos internados uma formação profissional adequada, que dependia dos Serviços Centrais de Beneficência Pública.

Quem era Santiago Ponce y Sanchez?
No século XIX e mesmo nos inícios do XX, muitas casas de Lisboa não possuíam água corrente. Aceder à água, nomeadamente em andares elevados, era um trabalho penoso que muitos lisboetas não queriam fazer, pelo que os galegos aproveitaram para criar aquilo a que hoje se poderia chamar um nicho de mercado, isto é, serem aguadeiros.
Aquilino Ribeiro in Lápides Partidas, refere o galego, de Porriño/Tui, que escreveu à mulher dizendo que a terra é boa, a xente é tola, a auga é deles e nòs vendemoslla. Na literatura portuguesa da altura, os galegos eram parte integrante da paisagem humana lisboeta. Os avós paternos de Santiago Ponce y Sanchez, vieram da Galiza para Lisboa, em meados do século XIX, não como aguadeiros, mas para trabalhar na restauração. Outros parentes foram para Madrid.
O negócio correu bem, o que lhes permitiu mais tarde mandar o neto estudar medicina na Escola Médico-Cirúrgica, o qual terminado o curso veio a ser provido como facultativo municipal em Alcobaça, onde não conhecia ninguém. Santiago Sanchez, foi bem aceite nos meios políticos e sociais de Alcobaça, não apenas republicanos, mas também conservadores, pela educação, inteligência e dedicação à causa pública.




-MANUEL VIEIRA NATIVIDADE, O SEU MONUMENTO E ALCOBAÇA-


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Manuel Vieira Natividade, tem sido reputado a par de J. E. Raposo de Magalhães uma das personalidades mais relevantes do início do século XX alcobacense.
Foi um dos maiores acontecimentos até então acontecidos em Alcobaça, a inauguração do monumento à memória de Manuel Vieira Natividade, pelas 15 horas de 20 de abril de 1920 (dia em que faria 61 anos). Raras vezes, uma festa conseguiu chamar a Alcobaça tão elevado número de pessoas de todo o concelho e de fora, bem como um conjunto tão relevante de individualidades da sociedade portuguesa. Era esta também a opinião de Artur Faria Borda, que na altura era ainda um rapazinho, mas que assistiu à cerimónia. A Manuel Vieira Natividade se deve a fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça a 1 de maio de 1888, como aliás decorre da informação de Bernardo Villa Nova in Figuras e factos de Alcobaça e sua Região, bem como a de que foi o seu primeiro Comandante.

Marcaram presença na inauguração do monumento, o Reg. Cav.4 (representado pelo Comandante e oficiais), o Juiz, Delegado do Procurador da República e demais pessoal do Tribunal da Comarca, Autoridades Administrativas, Conservador do Registo Predial, Oficial do Registo Civil, funcionários das Finanças, Câmara Municipal, Misericórdia, Asilo de Infância Desvalida e Montepio Alcobacense, bem como outras entidades e corporações locais, Bombeiros Municipais e da Fábrica de Fiação e Tecidos e seu pessoal, Bandas da Maiorga e de Alcobaça, Jardim-Escola João de Deus, professores e alunos das escolas oficiais do concelho, etc. De fora, vieram pessoas da Nazaré, S. Martinho do Porto e outras localidades vizinhas. O Pároco de Alcobaça esteve ausente.
Sanches Barreto, presidente da Comissão Executiva promotora do monumento, deu início à solenidade ao proceder ao descerrar do medalhão com a efígie do homenageado, da autoria de Adriano Sousa Lopes, e fazer a entrega do padrão à Câmara Municipal, que agradeceu, através do Presidente João Palha Pinto. Seguidamente atuou um grupo coral constituído por crianças das escolas (de ambos os sexos, e usou da palavra o monárquico Afonso Lopes Vieira, grande amigo de Alcobaça e de Vieira Natividade. Depois da inauguração do monumento, procedeu-se nos Paços do Concelho ao descerramento do retrato de Natividade, o autor de O Povo da Minha Terra.
Usaram ainda da palavra, o ex-presidente de Ministério José de Castro e Álvaro de Castro, ambos para salientar a personalidade ímpar de Vieira Natividade, a sua atividade tão sabedora quanto incansável, e ao seu amor pela região na qual nasceu, fazendo ver como exemplos destes são necessários e podem contribuir para os progressos coletivos e para a boa administração da causa comum nos conturbados tempos que se viviam. Antes da leitura e assinatura do auto da inauguração do monumento na Salão Nobre da Câmara Municipal, o vereador José Emílio Raposo de Magalhães declarou que os seus sentimentos de alcobacense lhe não consentiam que aquela cerimónia terminasse sem que endereçasse os agradecimentos a quantos ali se encontravam honrando esta cerimónia.
Finda a cerimónia na Câmara Municipal, teve lugar abertura da Exposição de Flores, na Sala do Capítulo do Mosteiro. Aberta a Exposição, o público pode espalhar-se pelo recinto, apreciando os viveiristas que vieram do Porto, Alfredo Moreira da Silva & Filhos e a Companhia Hortícolo-Agrícola, que apresentavam variadas flores cortadas e plantas em vaso. Do Jardim Botânico do Instituto Superior de Agronomia/Lisboa, veio uma interessante coleção de plantas de estufa. Igualmente foram admiradas entre outras as representações da Escola de Agricultura de Queluz, da Casa Pia de Lisboa, da Secção dos Serviços Florestais de Sintra, da Circunscrição Florestal da Marinha Grande.
Na representação de Alcobaça, que em nada destoou, mereceram destaque as flores e plantas do mais delicado feitio e requinte de cores de José Sanches Barreto e a opulenta coleção de cinerárias, pertencente a Maria Júlia Souto e Cunha.
A exposição esteve aberta durante o resto da tarde e à noite atuou no claustro a Banda de Alcobaça, enquanto que de tarde tocou com agrado a Banda da Maiorga, no coreto da Praça, que chamou algum público, apesar do tempo chuvoso.
Por motivo da Exposição, deslocaram-se a Alcobaça o Dr. Mário de Azevedo Gomes/Diretor Geral de Instrução Agrícola, em representação do Ministro da Agricultura, o Dr. Joaquim Rasteiro/ Diretor do Jardim Botânico da Ajuda e professor do Instituto de Agronomia.

A propósito do falecimento de M. Vieira Natividade, Virgínia Vitorino, havia publicado, em 24 de fevereiro de 1918:
Foi-se esbatendo mais a cor do céu.
Morreu a tarde em brandas claridades.
Transformaram-se as rosas em saudades,
E a terra, fatigada, adormeceu.

Desce a penumbra, e no seu longo véu
Envolve tudo em estranhas densidades.
Um silêncio mortal! Que escuridades!...
Tudo é tão triste quando alguém morreu!...

E desfolham-se as rosas, tanto, tanto
Que as folhas ao cair parecem pranto.
Vejo-as pálias, tristes e tão frias…

Oh! Rosas soluçantes dos rosais!
Dizei devagarinho: - nunca mais!
Vinde rezar comigo, Ave-marias.



FESTAS, FEIRA, BANHA DA COBRA E ROBERTOS, NO TEMPO DA I REPÚBLICA EM ALCOBAÇA

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-HÁ FESTA NA PRAÇA
A BANDA E O  CORETO-
Uma das lembranças fortes da infância de alguns alcobacenses mais idosos ou pelo menos da família, é o coreto que dominava o principal largo da vila, a Praça do Município, fronteiriça ao Mosteiro.
Esta praça, além dos nomes que assumiu sucessivamente, conforme as circunstâncias, foi bastante alterada com intervenções mais ou menos conseguidas e o coreto já não lá está há muitos anos (desde meados dos anos trinta do século passado, graças a uma decisão pouco feliz, de Manuel Carolino).
Foram numerosos os concertos que ali se deram, apresentando um reportório, que incluía música clássica, árias de óperas, marchas e peças populares de raiz mais ou menos folclórica. As pessoas ocupavam a Praça, onde havia choupos, as famílias passeavam e algumas muniam-se de cadeiras que traziam, para assistirem mais comodamente ao espetáculo.
A música ao ar livre, nesses tempos idos, criava uma atmosfera positiva e ocasionava salutar animação.
Era um bom momento e espaço cultural e social. A banda, aproximava-se em passo certo, cadenciado, largo, ao som de uma marcha. À frente vinha o maestro, muito hirto, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, postava-se até um homem que vendia jogo, e nesse momento se esquecia de apregoar a sorte grande. Indiferentes, as meninas-famílias continuavam a venda de rifas ou o peditório para os bombeiros ou asilo, tal como os vendedores de tremoços ou pevides.
Os coretos fazem parte da história urbana. Era lá que se realizavam os concertos das bandas de música e outras apresentações.
Porque será que já não há coretos para as bandas realizarem concertos?
Caíram em desuso. Hoje, naturalmente preferem-se as salas de espetáculos, com condições ambientais e acústicas, som apropriado e outros requisitos. Mas talvez tivesse cabimento haver um coreto em Alcobaça.
É usual atuarem bandas em coretos ou outros locais ao ar livre, em cidades da Europa, especialmente no verão da Alemanha e Áustria. Porque cá não mais, seguindo uma boa tradição portuguesa?
Era ali na Praça do Município que se realizava, ao domingo, o Mercado Semanal muito concorrido, e onde se vendia de tudo, especialmente aos aperaltados alcobacenses das redondezas, que se deslocavam em família, a pé, a cavalo, de burro ou carros de bois.
Para complementar a atração e o movimento (por vezes eram tão intenso que as pessoas andavam aos encontrões), funcionavam lojas na ala norte do Mosteiro.
Para guardar os animais, havia locais espalhados pela vila (Piçarra, Portas de Fora e até ao lado do Palácio do Pena), onde lhes era dado palha e recolhidas as necessidades, para depois se venderem como estrume.
O dia de mercado era festivo. As pessoas usavam os melhores fatos. No mercado, tudo tinha o lugar costumeiro, os mesmos sítios há um ror de anos. Tudo se encontrava arrumado pela mesma ordem e na mesma hora. Os que vendiam tinham o seu cantinho reservado. Os que compravam sabiam onde encontrar o que precisavam.
Armavam-se as barracas de madeira e lona onde eram expostos e vendidos a fruta, hortícola e os artigos manufaturados. O visitante encontrava roupa de lã ou algodão, ferragens, cutelarias, calçado e chancas, bem como quinquilharias. As mercadorias vendidas no mercado constituíam o essencial para as necessidades do povo. Ao lado da área dos produtos que o lavrador vendia, encontrava-se a dos produtos que o lavrador comprava.
Cumpre referenciar algumas figuras típicas do mercado, como a mulher dos tremoços, a vendedora dos doces cobertos de açúcar, o homem que reparava os guarda-chuvas, as aguadeiras ou mesmo o aldrabão da feira (o tradicional vendedor da banha de cobra).
-UMA BOA FEIRA-
A Feira de S. Bernardo, realiza-se há muitos anos em Alcobaça, umas vezes com mais animação, outras com menos. Não obstante a descaracterização que hoje em dia apresenta, aliás como muitas outras que por esse País se realizam, nem por isso deixa de estar presente nos hábitos das pessoas da terra.
As festas e romarias são uma componente importante da cultura popular do povo português. Numerosas e variadas, acontecem um pouco por todo o País e fazem parte das tradições e memórias de um povo que pretende (?) preservar e manter atual a cultura secular que lhe confere identidade. 
Apesar de decorrerem ao longo do ano, é nos meses de Julho e Agosto que acontece a maior parte das festas e romarias em Portugal, unindo quase sempre a componente religiosa a um programa popular.
A Feira de S. Bernardo teve sempre uma componente essencialmente lúdica e quando no Rossio, era o ponto de encontro dos alcobacenses da terra com os de fora, a ocasião para mercadejar coisas, beber uns copos com os amigos e foliar. E pôr a conversa em dia, porque a vida não é só canseiras.
O que era uma boa Feira, no dizer dos antigos?
No tempo da República, da parte da tarde as tendas lado a lado pejavam, como convinha, no Rossio, em longas fileiras, e vendiam de tudo, fazendas, bugigangas, algodão doce, ouro.
Ouro sim, ouro de lei ou prata contrastada, como o material do Maneca de Febres, porque o metal é que tem valor amanhã, no meio de enorme algazarra e estridência de conversas, de realejos ou outros instrumentos menos afinados, interpretados por cegos (que afinal talvez não o fossem…) que faziam números com saltimbancos e artistas de circo, enquanto se comiam tremoços ou pevides.
Havia a tômbola das panelas que era muito procurada pelas mulheres, na esperança de poder sair uma peça, que mesmo de refugo, iria fazer muito jeito na decoração da cozinha ou no serviço da casa.
Também havia as tendas do vai um tirinho o q´rido, as caixas com furinhos que davam prémios e os matraquilhos.
O povo gostava de ir passear e ver. Famílias inteiras, com ar grave e pasmado, rapazes vestidos à maruja, paravam diante dos artistas a quem davam uns cobres, ajustavam o preço de um alguidar ou de uma peça de fazenda, tiravam medidas para o rapaz fazer um par de botas de carneira, iam ao mercado do gado, da fruta, da hortaliça ou do peixe da Nazaré oh qu’ rida, oh freguesa! Tudo era bom de apreciar. As ciganas liam a buena dicha, as vendedeiras de limonada faziam negócio com as mulheres e crianças. Alcobaça, em Agosto, com pó e algumas moscas quanto baste à mistura, fazia sede que também se matava moderadamente na tenda da ginjinha. As mulheres apreciavam muito as pesadas mantas listadas de Minde, a lã azul fiada para as saias, as loiças da Olaria de Alcobaça, com motivos pintados à mão simples e ingénuos, os vidrados amarelos ou verdes das Caldas da Rainha. Os homens, de pesado cajado, frequentavam principalmente, a feira do gado, faziam negócios com dinheiro vivo (como poderia ser de outra forma?), entre dois copos de tinto, acompanhados de pequenos queijos de cabra ou de ovelha, vendidos em poceiros cobertos por alvas toalhas e, claro, sempre com os tremoços e pevides.
Esta era sim, uma boa Feira de S. Bernardo, com a PSP e a GNR sempre por perto e atentas à malandragem (além dos ciganos, havia outros… como os carteiristas) e às brigas do mau vinho. Os carteiristas que frequentavam as festas e romarias do país, como a Feira de S. Bernardo, dizia-se serem normalmente provenientes do norte e bem referenciados pela polícia, pois usavam habitualmente um caraterístico pequeno chapéu. A Polícia detinha-os preventivamente pelo tempo das festas, mesmo que nada tivessem ainda feito.
Durante a Feira havia circo. Em primeiro lugar apareciam os cartazes espalhados pela vila, ilustrados com animais ferozes, palhaços ou trapezistas, homens e mulheres gordos, tatuados e anões. Depois vinham as carruagens, puxadas por camionetas ou mesmo animais, que desfilavam com música, um tambor ou corneta pelas ruas. Era este ainda o tempo do grande espetáculo (o maior espetáculo do mundo), exibido em tendas redondas de lona onde entrava a chuva e seguramente o vento, a arena colorida, as luzes feéricas, os maillots lustrosos das mulheres, os corpos atléticos dos homens. Os palhaços, os animais. Os trapezistas, lá nas alturas.
Senhoras e Senhores, Meninas e Meninos, benvindos ao circo!!! Senhoras e Crianças, não pagam... Senhoras e Crianças, não pagam!!!
-OS ROBERTOS-
E o teatro de fantoches ou de robertos?
O teatro de Robertos era um dos principais divertimentos (quase obrigatório) das feiras, romarias e até praias do século XX, como recordam Altino Ribeiro e Tó Lopes. Este estilo de teatro entrou, porém, em desuso em meados do século XX. Nos seus tempos de criança, na altura da feira, apareciam os Robertos, tão ansiados pela criançada. Trata-se de espetáculos de fácil compreensão, com uma manipulação rápida e cheia de ação, cuja característica importante é o uso pelo fantocheiro de uma palheta na boca que lhe permite ampliar e distorcer a voz, produzindo efeitos surpreendentes, algo ridículos e que abordam rábulas tradicionais, que reproduzem a animação de rua (à moda antiga), algum acontecimento e centram a atenção do público com o alarido e picardias dos bonecos. Tó Lopes, em criança, gostava muito de ver os robertos e lembra-se bem de um número especialmente apreciado, pois metia (muito fantasiosamente) o Marquês de Pombal e a expulsão dos Jesuítas. Os adultos e a criançada achavam-lhe muita graça, pagava-se cinco tostões. Mas o tema mais corrente era o de um homem mal comportado, um touro para assustar e uma mulher que zangada com o comportamento do marido lhe pregava umas valentes pauladas no final.
Nos dias que passam, é difícil verem-se os Robertos, mas, de certeza, que haveria muitas crianças que gostariam de assistir a um espetáculo, com os nossos saudosos e deliciosos Robertos.
-A BANHA DA COBRA-
E o vendedor da banha da cobra que aparecia todos os anos na Feira de S. Bernardo. O vendedor da banha da cobra não é uma personagem de ficção, pois existe, sempre existiu, evoluiu, existirá, é muito hábil e astuto.
Todos sabem que a banha da cobra não serve para nada, mas a convicção que o vendedor transmite, através duma oratória estudada e estruturada, é capaz de convencer pessoas sobre as capacidades infinitas do milagroso medicamento. Impigens, mau-olhado, torcicolos, urticária, febre dos fenos, dentes, nervos, escleroses, artroses, entorses, diarreias, sarampo, escarlatina, espinhela caída, dores das cruzes, doenças do miolo, verrugas, cravos, etc., são alguns dos males que a banha da cobra afasta a quem a quiser comprar.
Não, não custa nem 20, nem 15, nem dez. Custa apenas cinco, e quem levar dois tubos leva um totalmente de graça. Um para aquele senhor, outro para aquela menina, e enquanto eu vou lá à frente receber o dinheiro, a minha mulher vai lá atrás distribuir o pacote.
Se é certo que a banha da cobra não cura nada, também não consta que daí tenha saído algum mal para a saúde pública ou para o mundo.
Não custa dez nem quinze, custa apenas vinte e cinco tostões, e quem levar dois tubos leva um de graça.
Era assim tentador, os argumentos um primor de explicação:
-Se bocência tem uma dor de dentes, fique a saber que não é o dente que lhe dói. O dente é corno, o corno é osso e o osso não dói, o que dói é o nervo.



É reconhecido que o Poder Local constitui uma das mais sólidas e significativas transformações, diria conquistas, da sociedade portuguesa, após 25 de abril.
O Poder Local está firmemente enraizado na vida colectiva dos portugueses, pesem embora os atropelos e alguns fenómenos de degenerescência de que tem sido vítima ao longo dos anos e, que de alguma forma, têm maculado a sua matriz, em conexão com o que se convencionou designar por conquistas da revolução, designadamente, no domínio dos direitos sociais e políticos.
Importa assinalar que, desde o início da sua institucionalização, o Poder Local Democrático, ao longo do tempo, tem sido alvo de algumas más vontades, mais ou menos dissimuladas, quando não  de ostensivos ataques. Esta ofensiva é patente, por exemplo, nos obstáculos ao processo de regionalização (hoje completamente congelado embora os partidos recorrentemente refiram a necessidade de descentralização), nas várias alterações ao regime legal das autarquias locais e, mais recentemente no atabalhoado processo de extinção e fusão de freguesias.
Seja como for, pode dizer-se que o poder local transformou a geografia política do País, no plano do desenvolvimento e económico e social e as suas realizações são assinaláveis de norte a sul, não obstante alguma obra de fachada porventura com  desperdício de recursos, que os seus adversários não se cansam de assinalar.
Não pretendo fazer o balanço das realizações do Poder Local, mas como tem sido proclamado pela Associação Nacional dos Municípios Portugueses, pelo Governo de António Costa e publicamente reconhecido por entidades e instituições insuspeitas, o investimento feito pelas autarquias é muito mais reprodutivo que o da Administração Central.
Os atropelos legais, o mau uso de dinheiros públicos e os crimes, a todos os títulos condenáveis, que têm manchado algumas autarquias, servem muitas vezes, perante a opinião pública, como biombo com que se pretende encobrir ou dissimular as tropelias do Governo, da Administração Pública Central e dos poderes que gravitam em sua órbita.
Neste contexto, julgo poder afirmar-se que, de uma forma geral, as populações se reconhecem na fecundidade das realizações Poder Local e, mais do que em qualquer outra instância política, nele projectam a satisfação das suas necessidades e a esperança de maior e melhor desenvolvimento e bem-estar.
O Poder Local não tem apenas a dimensão desenvolvimentista, em que a generalidade da sociedade portuguesa imediatamente mais se revê, mas outras, nem sempre devidamente assinaladas. Realce-se que o Poder Local tem encontrado, em maior ou menor grau, com mais ou menos acerto, intérpretes de todo o leque partidário.Refiro-me aqui, à expressão democrática do poder local e à componente participativa que está na sua génese e na sua matriz.
Uma realidade pressentida e reconhecida, desde sempre, ainda que porventura apenas implicitamente, na matriz do nosso Poder Local, são os valores cívicos, culturais e simbólicos que ultrapassam a mera componente desenvolvimentista.
Já se escrevia em em 1986, que o poder local democrático tem permitido em muitos casos um grau elevado das massas populares no exercício da administração local (...) aproximou homens e mulheres interessados no progresso das suas terras (...); todo esse processo transformou o exercício do poder local democrático num factor importante de formação cívica das populações, contribuiu para alargar a ideia de que os assuntos colectivos dizem respeito a todo o povo, que este tem direito de participar, de que lhe prestem contas, de decidir.
Assim foi desde a Revolução de Abril, com a constituição de movimentos populares (embora nem sempre ingénuos e frequentemente meramente voluntarista), que compreendeu a destituição dos representantes locais do regime deposto e no desmantelamento do seu aparelho administrativo, a eleição e designação das Comissões Administrativas para as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, a criação de Comissões de Moradores e outras entidades de participação popular, o trabalho voluntário, entusiasta, que viabilizou a realização de necessidades básicas em matéria de fornecimento de água, de saneamento, electrificação rural, vias de comunicação, serviços de saúde, escolas, etc., etc.
Esta pulsão depressa acarretou que os Governos e os partidos do Arco do Poder (expressão utilizada até ao governo de António Costa) compreendessem que o Poder Local era obstáculo ao propósito de criação de um Estado centralizado.
Nada de novo, portanto, nesta ofensiva ao Poder Local, que têm as autarquias locais e os seus representantes como o alvo.
Nada de novo no activismo daqueles intelectuais, que não se preocupam com o despovoamento do interior do País, proclamam a transformação da rede de municípios, isto é, a sua extinção em nome, de um programa de ajustamento e da reforma do Estado.
E, no entanto, bem poderiam as autarquias locais, na sua expressão mais genuína constituírem-se eixo fundamental da recuperação económica do País. E, mais do que isso, erguerem-se, como espaço privilegiado de afirmação, compreensão e de estímulo ao aprofundamento da democracia, em que os direitos políticos, sociais e culturais são golpeados.
Quer dizer, poderia o Poder Local constituir-se como instância de construção de (novas) afirmações, valores e identidades, nos diversos contextos geográficos donde emana, promovendo os fundamentos de transformação social e viabilizando uma outra percepção do mundo e das coisas, libertos do determinismo das inevitabilidades tão proclamadas pelo poder.
Importará assim perspectivar o Poder Local no contexto mais vasto do sistema de poder da sociedade, onde se exprimem evidentemente as grandes figuras de poder, designadamente, o poder do Estado (figura maior do Poder), mas também o poder das classes e grupos sociais, o poder das elites culturais, o poder das Igrejas, etc., bem como o poder mediático e outros instrumentos de domínio social e de luta política.
O Poder Local emerge então, nos termos constitucionais, como componente do Estado democrático, que, no quadro da sua autonomia e competências próprias, se desenvolve em termos de subsidiariedade, face aos desígnios do Estado e de outras instituições, designadamente, as europeias.


A Revolução de 25 de abril devolveu a democracia a Portugal, depois de quarenta e oito anos de regime autoritário. Este importante acontecimento da nossa História recente, deu ao povo português, entre outras coisas, a liberdade de escolher e votar nos dirigentes locais, de qualquer indivíduo se poder candidatar a cargos públicos, ou seja, deu a oportunidade de participar activamente na vida política e ser parte nas decisões tomadas a nível nacional e local.
Na Benedita, um dos primeiros a saber da existência do Movimento das Forças Armadas foi, possivelmente, José Vinagre. Segundo me contou, soube pelas 5h, ao ouvir as notícias pela rádio, que já transmitia músicas revolucionárias e fazia avisos à população. Nesse dia, levantara-se excepcionalmente cedo e, logo que pode, telefonou para familiares residentes em Lisboa, a quem alertou para o facto e pediu prudência, se saíssem à rua.
Antes de 1974, o país vivia sob o domínio da União Nacional, e todos os dirigentes políticos, desde o Governo aos deputados da Assembleia Nacional, aos presidentes e e vice-presidentes das Câmaras Municipais, aos presidentes e vogais das Juntas de Freguesia, eram nomeados, em princípio, dentro desse partido único. Todavia no ano de 1946, em Alcobaça, aconteceu um caso inédito.
Nascido em Alcobaça, o Dr. José Nascimento e Sousa dedicou grande parte da sua vida ao exercício da Medicina, em cujo curso se licenciara em Coimbra. A afinidade com o Estado Novo, levou-o, em 1942, a assumir a Presidência da Comissão Concelhia de Alcobaça, da União Nacional e, quatro anos mais tarde (como naturalmente), a Presidência da Câmara Municipal. O seu mandato, de cerca de um ano foi o mais curto de que há registo, devido ao facto de a Vereação ser composta por figuras da Oposição. A demissão do Presidente da Câmara foi a forma eficaz e rápida que o Governo encontrou para ultrapassar a situação inédita e impossível, uma vereação maioritariamente não afecta ao regime, e a não recondução do Presidente, o meio para lhe manifestar a veemente censura.
Depois da Revolução, Portugal passou a viver num regime democrático. Contudo, e como acontece depois de uma revolução, não se efectuaram logo eleições, pois era primeiro necessário estabilizar o país, proceder à organização das instituições para que se pudesse levar a cabo o recenseamento eleitoral e dar tempo às estruturas partidárias de se organizarem e apresentarem as suas propostas.
Assim, só a 16 de Dezembro de 1976 se realizaram as primeiras Eleições Autárquicas Democráticas. Nestas eleições, foram eleitos 304 presidentes de câmara municipais, 5135 deputados municipais, e cerca de 26 mil deputados para as assembleias de freguesia. Pela primeira vez, depois de largos anos, o povo decidia livremente sobre os seus destinos a nível local.
Em Alcobaça, após a Revolução de abril, e a 17 de Julho de 1974, o Secretário do Governo Civil de Leiria, Luís de Almeida Trindade, deu posse à primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcobaça, que teve a seguinte composição:
PRESIDENTE: Jorge Nogueira Silvestre, agrónomo (MDP/CDE),
VOGAIS: José Ventura Duarte, proprietário, Alberto Serrano e Silva, investigador, Gilberto Magalhães Coutinho, comerciante, João Lameiras de Figueiredo, médico, Pessanha Gonçalves, advogado e António Silva Rosa, agrónomo. Todos estes alcobacenses, para além de serem conotados com a oposição ao regime deposto, identificavam-se com partidos de esquerda, que não rejeitavam métodos violentos de ação.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1975, a CA da Câmara de Alcobaça ainda empossou um dos últimos regedores do Concelho, neste caso na Benedita, na pessoa de José Félix Francisco, que substituiu Armando Ferreira Baltazar, a quem pelo Presidente Silvestre foi desejado um bom desempenho na sua missão cívica. Uma das principais funções cometidas aos regedores consistia no policiamento da freguesia. Para os auxiliarem, os regedores tinham às suas ordens os cabos de polícia. A importância dos cabos de polícia foi também diminuindo, à medida que se foram alargando as áreas de intervenção da PSP, nas áreas urbanas e, mais tarde, da GNR, nas áreas rurais. A última regulamentação dos regedores, foi definida pelos Códigos Administrativos de 1936 e de 1940. Os regedores deixaram de ter o estatuto de magistrado administrativo, passando a ser os representantes dos Presidentes das Câmaras Municipais e nomeados por estes, salvo nos concelhos de Lisboa e Porto, onde eram nomeados directamente pelos Governadores Civis. Incumbia aos regedores fazer cumprir as ordens, deliberações, posturas municipais e os regulamentos de polícia, levantar autos de transgressão, auxiliar as autoridades policiais e judiciais, agir de modo a garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade públicas, auxiliar as autoridades sanitárias, garantir os regulamentos funerários, mobilizar a população em caso de incêndio e cumprir outras ordens ou instruções emanadas do Presidente da Câmara Municipal. A figura do regedor foi extinta na sequência da entrada em vigor da CRP, de 1976.
O PPD fez em 15 de Janeiro de 1975 a sua apresentação na Benedita, terra que o MDP/CDE reputava de fascista, com a presença de Silva Carvalho, Gonçalves Sapinho, Rafael Serralheiro, José Vinagre, Fleming de Oliveira e outros, apesar da campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte se iniciar oficialmente apenas em 4 de Março.
Aquela CA governou os destinos do concelho, até Silvestre ser chamado a ir trabalhar para a Secretaria de Estado da Agricultura. Com a demissão de Silvestre, interinamente passou a ocupar o lugar o vice-presidente Gilberto Magalhães Coutinho. Os Vereadores António da Silva Rosa, Alberto Serrano e Lameiras de Figueiredo, apresentaram as respectivas demissões em 2 de Abril de 1975, pelo que, se impunha constituir uma nova CA para a CMA.
Após demoradas e pouco pacíficas negociações, já que mais uma vez o Governador Civil de Leiria Rocha e Silva queria ou pelo menos parecia querer favorecer determinadas forças, veio a ser empossada em 6 de Maio de 1975 uma equipa para a Câmara Municipal, com a seguinte composição:
PRESIDENTE: José Pinto Júnior, PC.
VOGAIS: Gilberto Magalhães Coutinho e Celeste Vilhena Costa, MDP/CDE, Vitalino Casinhas e Leonel Afonso Belo, PS, Alfredo Carvalho Lino, PPD, e José Ventura Duarte, Independente.
Esta CA esteve em funções até ao assalto e ocupação da CMA (julho de 1975), substituída por outra presidida por Miguel Guerra (PS) até à realização das eleições autárquicas de 16 de Dezembro de 1976.
Nas Eleições Autárquicas de 1976, os munícipes de Alcobaça deram a vitória ao Partido Socialista, tendo sido eleito Presidente da Câmara Municipal o seu cabeça de lista, Miguel Martinho Ferreira Guerra. Foram ainda eleitos os seguintes Vereadores: Eduardo Vieira Coelho (PS) Martiniano Rodrigues (PS) Fleming de Oliveira (PPD e substituto do presidente da Câmara), Mário Tanqueiro (PPD), José Rafael Serralheiro (PPD) e Manuel Ferreira Castelhano (CDS). A Benedita estava bem representada.
É também nestas primeiras eleições autárquicas que o povo elegeu os deputados à Assembleia Municipal. Passou, então, a existir um órgão autárquico, com poderes para deliberar e fiscalizar os assuntos municipais. Esta primeira Assembleia Municipal tomou em janeiro de 1977, tendo sido eleito Presidente da Assembleia Vasco da Gama Fernandes, do PS e Presidente da Assembleia da República, que em breve pediu a demissão sendo substituído por Gonçalves Sapinho (PPD).
Recordemos alguns autarcas da Benedita a começar naturalmente pela Comissão  Administrativa da Junta, presidida por António Guerra Madaleno, acompanhado por António Pimenta Marques, António Serrazina Mendes, Avelino Luís Ferreira Catarino, Fernando do Couto Marques, Manuel Bento de Sousa.
O primeiro executivo da Junta eleito depois de 25 de abril derivou de uma Lista de Independentes presidida António da Silva Marques  a que se seguiram uma da AD encabeçada por José Fialho Vinagre, uma do PSD encabeçada Avelino  Honório da  Silva que fez dois mandatos sucessivos, uma de Independentes encabeçada por Luís da Silva Marques, uma do PS encabeçada por João Raul, uma do  PSD encabeçada por José Fialho Vinagre que fez dois mandatos sucessivos, uma do PSD encabeçada Maria José Filipe, com dois mandatos e atualmente uma do PS cujo presidente é João Raul. Quanto a seguir antes do fim do ano saberemos.
Desde então, Alcobaça, tal como o resto do país, tem sabido preservar e consolidar os valores democráticos, tanto ao nível da Câmara Municipal, como das Freguesias. As Eleições Autárquicas, que se disputam de quatro em quatro anos, são hoje um dos pilares fundamentais do desenvolvimento social, cultural e económico do país e a base de sustentação do regime democrático em Portugal. Por isso, é imperativo que os cidadãos, de todas as idades, se empenhem e participem, de uma forma activa e consciente, nas decisões políticas da sua região.
Porque Participar é pressuposto de poder Decidir. 



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A Virtuosa Arte de Reinar nos Parabéns à Rainha Dona Maria I Pelo seu Confessor, opinião

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Recebi da Chiado Editora, para emitir opinião, o livro A Virtuosa Arte de Reinar nos Parabéns à Rainha Dona Maria I Pelo seu Confessor.
Não sou crítico (literário), pelo menos profissionalmente ou no seu sentido mais convencional.
Para mim, a crítica literária, é desde logo a avaliação, uma forma de expressar a opinião e o julgamento sobre uma situação, personagem, ou obra escrita.
O escopo da minha crítica, é tanto a análise a respeito de um aspecto desta obra e/ou toda ela, e envolve necessariamente o desmembrar das partes e avaliar como elas se encaixam para alcançar os propósitos do autor.
A crítica literária é, normalmente,  feita por estudantes, académicos ou críticos da área (o que não é o meu caso), mas admito, não obstante, poder analisar literatura.
Tenho dúvidas que esta obra, seja mesmo considerada como obra literária pois como desde tenho entendido, não é um simples reconto de acontecimentos (o qual seria um relatório ou uma lista), mas a que deve imprimir à narração elementos característicos que a tornam, esclarecedora, atrativa e sentida por aqueles que a leem ou conhecem.
Seja como for, o texto não se revela atrativo e sentido.
Decidi transmitir, aqui, o que penso a respeito do que o autor passou a escrito e acho que ele não foi bem-sucedido.
Este livro peca, quanto a mim, por vários vícios:
-Não percebo bem a que público se destina, académico, culto, informado, ou
-Meramente interessado por História em geral.
Se é para académicos, parece-me que revela pouca profundidade, apesar de aturada investigação do autor em arquivos, como a BDP ou a TT. O texto, como é apresentado, torna-se de difícil leitura, pois as notas de rodapé são tantas e tão extensas que lhe retiram a sequência desejável e deixam por isso de ter essa característica ou função. Como texto para académicos e estudiosos, pode ter interesse quando dá à luz documentos esquecidos ou de difícil acesso, embora não tratados. As citações, abundantes e pretensamente esclarecedoras, são usadas integral, textual e frequentemente sem o devido enquadramento ou tratamento, dando a ideia que a autora pretende revelar erudição.
A obra em análise, está longe de dar a um público meramente interessado em História, uma visão, ainda que circunscrita, do período histórico que alegadamente quereria abranger. Os Parabéns que o Jesuíta dirigiu à real discípula são aqui recuperados, sem colocar à disposição do leitor a adequada revisitação histórica de um tempo cheio de controvérsia. 
O título é confuso e enganador e o papel atribuído ao jesuíta Timóteo de Oliveira encontra-se mal definido, mestre e primeiro confessor da Princesa do Brasil e futura Rainha D. Maria I e das irmãs. Diz o autor, ser ele dono de uma figura discreta, porte elegante e um gosto apurado, e que frequentou a corte de D. João V, por onde iniciou a carreira, talhado eventualmente para altos voos, se o destino não lhe pusesse no caminho o Marquês de Pombal. Alvo como os seus companheiros da fúria do Marquês, diz-se que sofreu vinte anos de privação da liberdade, no presídio do Forte da Junqueira, donde saiu com a subida ao trono de D. Maria I e a queda daquela.
Desconheço os méritos académicos da autora, nomeadamente a sua bibliografia que parece ser abundante.

Em suma e com alguma simplicidade, terminada a leitura do livro, não recolhi nada que me tivesse especialmente interessado e sem exagero considero-me razoavelmente informado sobre História de Portugal.