quarta-feira, 5 de abril de 2017

SERÕES DE ARTE NO MOSTEIRO E AFONSO LOPES VIEIRA. OS SERÔES NA PROVÍNCIA-

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O meio político e social alcobacense do início do século XX, foi marcado por disputas entre republicanos e monárquicos, cada um a defender e tentar impor as suas conceções contraditórias.
O ideário republicano (mesmo ou apesar da cisterciense Alcobaça), afirmava a necessidade de implantar a democracia, se necessário contra Reis e Igreja.
Em Alcobaça (vivia-se, por vezes), um ambiente histórico e artístico de exceção, ao qual figuras como o poeta e monárquico leiriense Afonso Lopes Vieira procuraram conferir dimensão nacional e internacional a par de alguns republicanos. M. Vieira Natividade relacionava-se com importantes figuras da época e, ao serão, como um cenáculo, debatiam-se no seu escritório temas artísticos, científicos e políticos.
Pela iniciativa do poeta, realizaram-se no mosteiro vários serões de arte. À sombra tutelar do Mosteiro, Lopes Vieira viveu mais de 30 anos perseguido pelo objetivo de defender o património cultural português e fazer chegar ao maior número possível de pessoas, não apenas alcobacenses, a sua ímpar dimensão estética. Afonso Lopes de Vieira, precetor da alma portuguesa, embora natural de Leiria, passou grande parte da vida em Lisboa, onde aliás viria a falecer. Visitando regularmente o Distrito, especialmente no verão, instalava-se na sua casa de S. Pedro de Moel ou exilava-se nas Cortes (Era admirador de Paiva Couceiro), onde também tinha uma casa. Lopes Vieira, nas suas deslocações à Alta Estremadura, visitava com frequência Alcobaça que lhe merecia particular atenção e carinho (expressos em textos e conferências) e os seus amigos, com destaque para Manuel Natividade.
A campanha de divulgação da obra de Gil Vicente foi reunida em 1914 no livro Campanha Vicentina.
Realizou-se no redenominado Teatro República em janeiro de 1912 um Serão Vicentino. De acordo com o Semana Alcobacense (que condescendia com Lopes Vieira, a quem não arriscava beliscar), poucas vezes a nossa sensibilidade espiritual terá sido mais fortemente impressionada e o nosso sentimento português mais experimentado de emoção e de infinito orgulho, do que o foi nessa noite a tantos títulos notável e de tão inapagáveis recordações. As belezas da nossa literatura quinhentista, verdadeiramente surpreendentes, inéditas para o grande número dos que assistiam, ressaltavam em pródiga profusão da correta e superior dicção dos intérpretes .
Começou o Sarau com uma conferência de Afonso Lopes Vieira, sobre Gil Vicente, realçando a personalidade do fundador do teatro português, da qual ressalta a sua feição popular e irreverente, o sarcasmo e os conceitos com que impiedosamente castigava os excessos, a corrução dos grandes e as virtudes do povo. Durante a conferência Aura Abranches, Ângela Pinto, Adelina Abranches, Augusto Rosa, Ferreira da Silva, Brazão e Chabi Pinheiro declamaram trechos vicentinos, de Luís de Camões, Rodrigues Lobo e outros autores.
Seguiu-se a representação de O Pranto de Maria Parda, monólogo interpretado por Adelina Abranches, no qual o autor apresenta, cheio de verdade e graça, um tipo de mulher da rua, que lamenta a carestia de vinho (é curioso como ela apreciava o vinho de Alcobaça… o que não impediu alguns assobios por parte de assistentes mais virtuosos).
Todo o Mundo e Ninguém, trecho do Auto da Lusitânia, que constitui uma crítica impiedosa à sociedade do século XVI, simbolizada na personagem viciosa Todo o Mundo, foi interpretado por Augusto Rosa, Alexandre Azevedo, Chabi Pinheiro e Henrique Alves acompanhado de alguns sorrisos e terminado com uma boa ovação.
O Monólogo do Vaqueiro, um dos trechos vicentinos mais conhecidos, foi interpretado pela famosa Adelina Abranches.
Por último, foi dado apreciar o Auto da Barca do Inferno, uma das mais belas peças vicentinas. As figuras, fortemente desenhadas e acentuadas, a crítica caindo como ferro em brasa sobre as chagas sociais do tempo, são ainda, com ligeiras variantes, as do nosso tempo. No fim, vem a apoteose do Povo e o elogio moralista da virtude dos simples. No Serão foi, talvez este, o momento que recolheu mais ovação.
Em suma, foi uma bela noite para os cultores da nossa rica arte portuguesa. O País que possue uma arte tão própria e tradições tão características, pratica um crime gravíssimo ao permitir o abastardamento das manifestações da nossa civilização.
Por isso, admitia o articulista, que a tarefa a que se impôs Lopes Vieira é, apesar de tudo, um ato de patriotismo e, sobretudo, uma afirmação de consciência cívica.
A 17 de agosto de 1913, realizou-se mais um Serão de Arte, iniciativa alegadamente inserida nessa missão de reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu, que o poeta monárquico fez questão de organizar, com ajuda do seu amigo republicano M. Vieira Natividade.
Este Serão da Arte, incluiu versos declamados por Augusto Rosa, dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço.
Em agosto de 1914, Lopes Vieira voltou a organizar novo Serão de Arte, desta vez com a presença da soprano Berta de Bívar, do pianista Vianna da Motta e dos coros de Mme. Bensaúde.  

Estas romagens artísticas foram interrompidas pela Guerra, e só retomadas em julho de 1929, aquando da recuperação da Sala do Refeitório do Mosteiro.
A partir de 1935, as romagens adquiram uma caraterística específica em ligação com obras do Mosteiro. Nesse ano, Lopes Vieira levou à cena, no claustro do Mosteiro, o Auto da Mofina Mendes pela empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, num espetáculo a que terão assistido mais de 1.000 pessoas que se aglomeravam e chegaram a discutir com vivacidade, por falta de espaço.
Augusto Rosa (amigo de Lopes Vieira e Natividade) fez a estreia como ator no Porto, em 31 de janeiro de 1872. Com o irmão João Rosa e Eduardo Brasão fundou a companhia Rosas & Brasão, de que foi o impulsionador, não só pelos conhecimentos culturais, mas também pelo talento como ensaiador. Interpretou todos os géneros, mas destacou-se na comédia e drama moderno. Foi também um aclamado declamador. Publicou Recordação da cena e de fora de cena/1915 e Memórias e estudos /1917. O ator morreu, a 2 de maio de 1918, no número 50 da rua com o seu nome, em Lisboa, onde existe uma inscrição com os dizeres: Nesta Casa Faleceu Em 2 De maio De 1918 O Eminente Artista Augusto Rosa Filho De João Anastácio Rosa E Irmão De João Rosa Todos Êles Grandes Atores. No serão de 1913, no Claustro de D. Dinis, Augusto Rosa, que vinha de vez em quando a Alcobaça conversar com M. V. Natividade, nomeadamente sempre que sabia que também se podia encontrar com Lopes Vieira, recitou sonetos de Camões, bem como o Ato V de A Castro, de António Ferreira. Augusto Rosa, em Memórias e Estudos, deixou notas, sobre esse Serão de Arte (que passamos a transcrever). Às nove horas da noite, na Igreja e no Claustro, tudo estava concluído e os que iam assistir ao Serão ficaram deslumbrados com a beleza do Mosteiro, realçada pela sumptuosidade da iluminação. O Serão começou pela admirável conferência feita por Afonso Lopes Vieira Inês da Castro na Poesia e na Lenda. Um dos pontos interessantes e novos dessa conferência é a evocação e a aproximação dos amores de Tristão e Isolda, os namorados imortais, dos amores de D. Pedro e Inês, Afonso Lopes Vieira trabalha num pequeno poema em prosa em que o conto medieval é singelamente narrado, no género do célebre livro de Bedier, La Roman de Tristan et Iseult. Há em toda a conferência um encanto, uma poesia, uma saudade, uma tal profusão de sentimentos finos, subtis, delicados, que o público que assistiu à leitura, comovido e delicado, aplaudiu entusiasticamente o grande poeta quando ele terminou (…). Estava terminado o Serão. A maior parte das pessoas que assistiram à festa retirou-se, ficando apenas umas quarenta, mais íntimas, que foram convidadas para assistir a uma piedosa romaria. Distribuíram brandões acesos a todas essas pessoas que, atravessando o templo, se dirigiram à Sala dos Túmulos, onde repousam Pedro e Inês. Aí, eu, no alto piso da ogiva que domina os dois sarcófagos, recitei à luz das tochas, dominado por uma íntima comoção, o magnífico e impressionante soneto de Afonso Lopes Vieira, escrito para esta solenidade, trabalhado sobre o tema do adeus esculpido na rosácea do túmulo de D. Pedro e que vou transcrever:
Até ao fim do mundo! A grande amada
Escuta o adeus da grande voz sentida
Santa e Rainha, aguarda aquela vida
Que só depois do fim é começada.

Pedra de sonho e cor, foste lavrada
Pela saudade imensa aqui vivida; 
Guarda a saudade, pois, da despedida
É a esperança da hora desejada.

Guarda a saudade que jamais acaba
Que o dia há de vir, de amor contente
Os que dormem aqui vão esperando.

E no fragor dum mundo que desaba
Hão de acordar, sorrindo eternamente
Os olhos um no outro enfim pousando.
Na verdade, um dia haverá o reencontro, um dia soarão as trombetas para o Julgamento Final e anjos pressurosos irão ajudá-los a soerguer-se dos leitos de pedra.

Sem dúvida, estes serões nada tinham a ver com a denominação genérica que é atribuída às reuniões nas vilas e aldeias de Portugal, ainda por essa altura. Está presente na memória da Alta Estremadura (concretamente no Concelho de Alcobaça), as reuniões em roda do fogo que ardia confortavelmente em lareiras ou fogões de lenha nas longas noites de inverno, que ajudavam a sedimentar os afetos e a transmitir os conhecimentos que vinham dos pais e dos pais dos pais.
Júlio Diniz, em meados do século XIX, escreveu que um dia Pedro foi convidado para um serão, o que aceitou sem grande alegria. Porém, divertiu-se mais do que supunha, pelo que tendo voltado contente, dormiu a sono salto depois. Assim, não voltou a faltar a nenhuma dessas assembleias campestres. Passou a ir com a sua viola, traste indispensável aos dandies da localidade .
Na província, os serões eram ocupados com atividades lúdicas ou mesmo económicas, como tecer, costurar ou fiar.
Gervásio Lobato, de uma maneira muito assertiva, escreveu que, ao anoitecer vemos por estas estradas fora, através das janelas abertas de par em par, homens e mulheres, lendo e costurando, em redor de uma mesa, sobre a qual a luz avermelhada do petróleo, é obrigada a convergir sobre o imenso abat-jour.
As classes médias, também não dispensavam o serão, se possível no jardim, fumando os homens um cigarro, as mulheres costurando à luz de petróleo, tomando um chá com fatias de pão ou bolinhos com compota caseira.
Bem visto, cada um fazia os serões na medida dos seus hábitos e disponibilidade.

Também havia os serões políticos, onde se conversava sobre as intrigas locais ou nacionais, os grandes objetivos ou acontecimentos, os malefícios da monarquia e as virtudes da república. Mas isso é outra história…









terça-feira, 4 de abril de 2017

O que era um Regedor em Alcobaça NO TEMPO DA I REPÚBLICA?



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Regedor era a designação da autoridade administrativa do grau mais baixo, a qual funcionava em cada freguesia, subordinada ao Presidente da Câmara Municipal que livremente o nomeava e exonerava.
O termo regedor serviu, outrora, para a designação de altos cargos como Regedor de Justiça, que presidia ao Tribunal da Casa da Suplicação. Mas o Regedor, durante a I República e o Estado Novo, era um vulgar cidadão, com a missão de manter a ordem na pequena circunscrição, que é a freguesia. O Regedor tinha as atribuições definidas no Código Administrativo, de natureza administrativa e policial.
No atual ordenamento jurídico, já não existe a figura do Regedor.
O Regedor fazia um relatório das atividades que entregava com regularidade na Câmara Municipal, que depois encaminhava para o Governo Civil. O Regedor tinha a função de zelar pelas pessoas e pelos bens da freguesia. Não recebia ordenado por um trabalho que lhe ocupava muito tempo. Quando havia necessidade de prender alguém, o Regedor era o responsável pelo preso, tinha que o levar a Alcobaça a pé. Se a prisão acontecesse à tarde, ficava toda a noite a vigiá-lo e a esposa mantinha o lume aceso para se aquecerem, e fazer café para não adormecerem. Havia casais que discutiam ou brigavam, pelo que acontecia por vezes um deles ir queixar-se ao Regedor, que assim fazia de conselheiro matrimonial. O Regedor era testemunha, juiz, e a sua palavra valia mais do que um documento.
Mário Fadigas (da Maiorga), gostava de recordar a pequena história do último Regedor da I República, na sua freguesia.
Seu pai, António Fadigas da Silva, nunca frequentou a escola, tendo realizado o exame da 4ª. Classe (2º. grau) na tropa, depois de ter aprendido a ler com os serralheiros da Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, para onde foi trabalhar com 10 anos.
Republicano, reviralhista (todavia pouco interventivo politicamente) e, ao que se diz, maçon, esteve como 2º. Sargento de Artilharia de Costa, em França com o CAPI durante a I Guerra. Felizmente não foi gaseado, tendo-se oferecido, dada a admiração que nutria por Afonso Costa.
Apesar de simpatizante do Partido Democrático, nunca se inscreveu nele e embora vivesse num meio rural, não sabia plantar uma batata, nunca foi agricultor. Era essencialmente um serralheiro.
António Fadigas da Silva, com trinta anos de idade, foi nomeado por Alvará (escrito à mão em papel azul e com selo branco do Governo Civil de Leiria, datado de 8 de maio de 1925), Regedor Efetivo da Freguesia da Maiorga, sob proposta do delegado do governo em Alcobaça, tendo tomado posse no dia 14. Porém não ocupou o lugar por muito tempo pois, com o 28 de maio, pediu a imediata exoneração, tendo-lhe a mesma sido concedida por Alvará do novo Governador Civil de Leiria, Cap. Henrique Pereira do Vale (natural da Cela-Alcobaça), datado de 24 de junho de 1926.
Mário Soares pediu-lhe quando uma vez o visitou em sua casa na Maiorga, que oferecesse ao Museu da República, os Alvarás de Nomeação e de Exoneração de seu pai, que ainda guardava ciosa e cuidadosamente.



-ALCOBAÇA- -COMO É BOM NAMORAR-


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Quando as meninas eram chamadas donzelas, os beijos traziam doenças incuráveis, os olhares tidos por indecentes, o aperto de mão impróprio, tudo se resumia a serenatas com bandolins e violas.
Os rapazes eram chorosos, escreviam versos, sonhavam ver os lindos pezinhos tão delicados que respiram rosas, liam poetas e outros românticos ou os mais burros decoravam fórmulas sacramentais de cartas amorosas. Muitos casamentos eram feitos por contrato ou porque um dia o rapaz viu de esguelha a donzela acompanhada zelosamente pela mãe, à porta da igreja.
Cheio de coragem ia à casa do futuro sogro pedir a mão da pequena, isto após noites de serenatas. As noites de serenata começavam tarde, na sacada, a menina detrás das venezianas. O rapaz cantava coisas simples que falavam de sua beleza, meus suspiros, meus ais; os pais policiavam as serenatas, e muitas vezes jogavam água quente das janelas mais altas, para espantar os moços cujas intenções não conhecemos.
Os rapazes eram tratados de senhores, e os namoros, mesmo de longe, terminavam em casamento, como se impunha.
Depois veio a idade do portão, quando às raparigas era permitido pelos pais namorar no portão, embora a contragosto meu e de minha mulher que achamos bem fazer as coisas à moda antiga como no nosso tempo. As mães ficavam acordadas dentro de casa, e de vez em quando vinham conversar com os pombinhos sobre o estado do tempo. 
À idade do portão seguiu-se a da sala. Primeiro, era o namoro de sofá, em frente da mãe, do pai e dos irmãos. Depois vinha a permissão para namorar na porta, desde que cuidadosamente iluminada por uma lâmpada de 100 velas.
Os namoros de sala eram mais sérios e formais e ainda terminavam quase sempre em casamento. O rapaz ia a casa da rapariga, mas não tinha direito de sair a não ser acompanhado dos irmãos, pai, mãe e outros parentes. Se quisesse ir ao cinema ou baile, era ele quem suportava a despesa, pagava para todos. Isto era uma forma de desanimar os namorados a sair de perto de casa!
Até que o automóvel tomou conta de tudo. Começou no tempo do jazz, do rock-and-roll, quando as loucuras de Elvis Presley eram o modelo para os jovens que começavam querer a namorar longe de casa. Levavam as namoradinhas, que já mascavam chicletes, coisa antigamente proibida para moças.
Agora, o namoro por vezes ainda termina em casamento.
Mas, além de uma série de dificuldades surgidas por causa do tempo que corre e das complicações da vida moderna, alguns conservadores acham que muito do romantismo do casamento já acabou, e não há remédio.



-FESTEJANDO O S. MARTINHO EM ALCOBAÇA E JOSÉ MALHOA-

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A cultura da vinha, em Alcobaça, teve sempre importância pelo que o consumo de vinho incorporou-se nos rituais e tradições locais, exercendo uma poderosa influência em setores, como o folguedo ou a agricultura.
Foi uma cultura, que ao longo dos séculos integrou socialmente a produção, transformação e comercialização vitivinícola. Todavia, apesar do importante papel do vinho no desenvolvimento da cultura e tradições nacionais, nas últimas décadas sofreu profundas transformações com repercussão nos momentos, locais e formas de consumir.
Em Portugal, o consumo do álcool foi tradicionalmente quotidiano, praticamente exclusivo dos homens em termos públicos (as mulheres que bebiam faziam-no às escondidas dos familiares ou vizinhos sob pena de censura), com uma enorme componente social e essencialmente protagonizado pelo vinho. O facto de o País ser um dos maiores produtores de vinho, associado a mitos e preconceitos, como o vinho aquece, o vinho dá força, e em certas regiões ter servido de pagamento complementar da jorna e utilizado como alimentação pobre, sopas de cavalo cansado, justifica em certa medida, que o português seja também um dos maiores consumidores europeus de álcool, por pessoa.
José Malhoa em 1907, pintou um notável quadro de costumes, bêbados a festejarem o São Martinho, a comerem sardinhas e a beberem vinho.
A importância de Malhoa, na cultura portuguesa decorre do entendimento que transmite pelo seu ofício numa obra que, no seu conjunto, aborda trechos urbanos e burgueses, mas principalmente percorre os aspetos da ruralidade do país, desde a paisagem aos costumes e vivências do quotidiano. Recolhe o conteúdo de um panorama humano diversificado, a que não é estranho a compreensão da relação com o meio e natureza envolventes, um imaginário comum servido por uma arte de bons recursos técnicos.
José Malhoa legou um trabalho carregado de intenções, que intitulou Festejando o São Martinho, mas que correntemente se chama Os Bêbados, no qual representa um bando de aldeões, sentados à volta de uma mesa de uma taberna algo sórdida, no termo de uma festança. Ti José de Sousa nunca ouviu falar de Malhoa e, possivelmente jamais se reconheceria naquela tela, onde se figura um ferreiro (veja-se o avental de couro) a resvalar para as franjas do coma alcoólico e o que lhe fica em frente (esgotados uns quantos canecos de tinto sobre sardinhas ressequidas e castanhas que juncam o tampo), não tardará a seguir-lhe o exemplo. Quanto aos restantes convivas, terão permanecido no patamar em que o vinho, se não trouxe alegria excessiva, não os precipitou ainda no torpor completo. Mas em breve veríamos…
A alguns puritanos, ao ver o Festejando o São Martinho, ocorrerá provavelmente estigmatizar o que Fialho de Almeida caraterizou sibilinamente, como uma raça de miséria, avergoada de superstições e de ignorância, comendo mal, vivendo imundo, e guardando ao dinheiro dos ricos uma servilidade de escravos e cães esfomeados
Em terra de vinhedos, o vinho não podia faltar à mesa e se um copo estimulava o apetite e tornava mais agradável o repasto, não deixava de ser verda­de que o vinho dava de comer a um milhão de portugueses.
Durante a refeição a garrafa do vinho rodava (muitas vezes sem copo) e todos bebiam, incluindo as crianças, pois o vinho ajudava a empurrar a comida e dava força. Chegava-se ao extremo de calar os bebés quando choravam, com uma chucha de açúcar molhado em vinho..., como recorda D. Adélia, embora reconhecendo, que talvez não fosse um bom procedimento.
 A embriaguez era o estado normal de muita gente, especialmente ao Domingo à tarde e a origem de incontáveis males físicos, morais e sociais, que se projetavam de geração em geração.
Ti Zé recorda casos de sua família, como um tio, um irmão e um cunhado com maleitas graves, alegadamente devidas ao vinho.
Beber um copito na adega, convidar um amigo para vir provar o tinto, chamar o compadre para beber um branquinho, pagar uma rodada na taberna, estava de acordo com o certo e habitual, tal como brigar ao fechar da taberna, chegar a casa e dar uma tareia à mulher e filhos, partir a loiça, andar pelas ruas a cambalear, enfim gerar filhos com problemas.
Mas nem toda a gente bebia vinho.
Para esses, além da água da nascente (que era muita e boa no poço de Ti Zé), havia o pirolito, até que mais tarde apareceu com muito sucesso a laranjada Buçaco (mas sé em dias especiais).






-EM MONTES/ALCOBAÇA ATÉ AO LAVAR DOS CESTOS É VINDIMA-


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Enquanto nos armazéns e lagares se ultimava a faina de consertos, se esfregava e lavava o vasilhame, as vinhas dos Montes e da Castanheira começavam a animar-se com uma alegria vibrante, ruidosa e contagiosa.
Chegou a hora de desanuviamento para pessoas que, não obstante a amargura da existência (onde a I Guerra parecia sempre presente), pelo menos uma vez no ano, sabiam rir e cantar, os ranchos de mulheres, o transporte dos cestos ou latões abarrotados de uvas, as canções entrecortadas da quadrilhice entre os sexos, no geral um pouco maliciosa, tudo a evocar antigas festas populares.
Os trabalhadores chegavam por volta das 7h00. No chão, já se encontravam alinhados os cestos, procuravam-se as tesouras e as sogras (pano que as mulheres põem à cabeça quando vão carregar o cesto). O pessoal começava a dirigir-se para a vinha, bem cheia. Em breve, começada a jornada até às tinas, nas redondezas quase só se ouvia o barulho ritmado das tesouras e alguma cantoria do mulherio.
A vindima propriamente dita (a separação dos cachos da vide), competia tradicionalmente ao mulherio e a rapazes, munidos de uma navalha ou tesoura que cortam as uvas e as lançam, depois de escolhidas, nuns pequenos cabazes ou latões, para serem conduzidos por homens para o lagar, onde são esvaziados.
Quem trabalha duro necessita do mata-bicho.
O Manel nunca se esquecia de juntar uns cavacos e preparar um lume com aquela mestria de muitos anos, assar chouriços ou farinheiras. Bebia um copo e comentava que, se o mar fosse de vinho, toda a gente era marinheiro.
Mas que ninguém se esqueça, o trabalho está à espera. Vamos lá pissoal, que até ao almoço é um instantinho e, com a barriguinha aconchegada, trabalha-se melhor.
Para o almoço, a Maria (que em nova era muito rapioqueira) fazia uma fogueira, e anunciava, no meio de risota, que vinho e amor nus, têm mais sabor, assavam-se umas febras ou entrecosto, sempre acompanhado de um pão caseiro que se retirava de uma saca de pano, cortado à navalha, comia-se um caldo, sem esquecer o garrafão do tinto, que rodava de mão em mão.
Durante a tarde, as horas voam.
Oh Ti Maria, esta vindima está a correr muito bem. Ainda não choveu.
O João Luís que tinha, desde garoto, a fama de ser desbocado, dizia que depois de beber e jantar, uma mulher vem mesmo a calhar. Mas Ti Maria, com ares de muito sabida respondia-lhe que contigo só se ela andar encalhada…
Cheio o lagar, procedia-se à pisa. Esta lida, fatigantíssima, era feita com os pés, como já o era em Roma, na Grécia ou mesmo no Egipto. Os pisadores (depois de lavados), entravam no lagar, onde se encontram as uvas a aguardar.
A primeira pisa era a mais exaustiva, recorda Francisco das Hortas.
De começo a tarefa corria em recato, mas à medida que o esmagamento se completava e espalhavam os aromas do mosto que tinge as pernas, as mãos e cara, os lagareiros iniciavam alguns descantes, (acompanhados de uns instrumentos, hoje considerados como pré-históricos) e um contentamento, rude e tonitruante, espalhava-se pelo ambiente alumiado pela claridade crua e fixa do acetileno, ou pela luz difusa do petróleo.







-TEÓFILO BRAGA E A I REPÚBLICA EM ALCOBAÇA-

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O Presidente da República Teófilo Braga, veio a Alcobaça em 27 de setembro de 1915, presidir à inauguração de um importante certame.
Já tinha prometido fazer a visita, que por várias razões fora adiada, o que causava incómodo nos dirigentes do Centro Republicano, que algo desmoralizados e com conflitos muito pessoais entre si, necessitavam de um estímulo vindo de fora.
Tendo partido de Lisboa, numa carruagem salão, atrelada ao comboio-correio, Teófilo Braga era aguardado por alguns republicanos na estação de caminho-de-ferro de Valado dos Frades.
Sendo esta a primeira vez que um Presidente da República se deslocava a Alcobaça, a expectativa era grande. Ao longo do percurso do Valado de Frades até aos Paços do Concelho, havia pessoas nas janelas engalanadas e na rua, que batiam palmas e davam vivas à República.
Teófilo Braga não seria o dirigente republicano mais apreciado em Alcobaça, pois não obstante a sua idoneidade cívica e cultural, era-lhe imputado não ter tomado parte ativa no 5 de Outubro.
Por outro lado, havia em Alcobaça quem não estivesse de acordo com o seu apoio (tido por exagerado e despropositado), à Lei da Amnistia já que dos cerca de 3.000 monárquicos por ela beneficiados, só uns 20 viriam a ser considerados como chefes, dirigentes ou instigadores e a sofrer a pena que consistia na expulsão do território da República pelo tempo que lhes restar cumprir, não excedendo contudo os dez anos.
Apesar do seu passado radical, Teófilo Braga não reuniu consenso para chefiar o Governo Provisório ou assumir a Presidência da República. O facto é que seria ele o Presidente do Governo Provisório da República e mais tarde Presidente da República.
Mas era este o Chefe de Estado que iria ser recebido em Alcobaça.
Ele mesmo registou que surge o 5 de Outubro, proclama-se a República e, inesperadamente, achei-me saudado nas ruas de Lisboa por uma multidão ansiosa, quase delirante, que me tratava pelo “Senhor Presidente”. A ilusão depressa se converteu, confrangedoramente, em realidade. Não tardou que algumas centenas de excelentes pessoas me entrassem pela porta dentro pedindo-me entrevistas, autógrafos, empregos, subsídios e, até, dinheiro emprestado. Não havia dúvida: eu era, para todos os efeitos, o Presidente da República.
A passagem pelo poder não foi muito agradável a este intelectual (mas de modo algum a repudiou), atendendo à luta travada entre os chefes das formações partidárias que existiam ou iriam nascer a partir do PRP.
Após a receção na Câmara Municipal, o Presidente da República e comitiva (de que fazia parte o Ministro do Fomento), foram almoçar ao Clube Alcobacense, cujo salão fora ornamentado por senhoras da melhor sociedade republicana.
A Banda dos Marinheiros da Armada, tocou alguns números patrióticos e populares durante o banquete que foi servido pelo Hotel Central.
Pelas 16 horas, realizou-se no Claustro de D. Dinis a inauguração da Exposição de Pomologia, Flores e Plantas Ornamentais, afinal a principal razão da visita presidencial.
Aguardavam o Presidente, além das autoridades civis e militares (a Igreja não se fez representar, nem foi convidada), 7 internados do Asilo dos Velhinhos Maria e Oliveira, crianças do Asilo da Infância Desvalida e um grupo de raparigas do campo da zona da Cela, envergando trajes regionais bem como um rancho folclórico que executou dois números da Estremadura.
Serviu de cicerone à comitiva presidencial, Manuel Vieira Natividade, um dos responsáveis pela organização da Exposição. Terminada a visita, Teófilo Braga, dirigiu-se ao Asilo dos Velhinhos Maria e Oliveira, para cumprimentar a fundadora e elogiar a obra que, como sublinhou não conhecia nenhuma igual e visitou ainda, em passo estugado, o Jardim-Escola João de Deus, o Hospital da Misericórdia e o Posto Agrário.
À noite, decorreu uma sessão solene no Claustro de D. Dinis, já que aí teve lugar a Festa dos Frutos. Além da Banda dos Marinheiros da Armada, atuou a Banda de Infantaria7.
As honras da noite, couberam, de certo modo, a Manuel Vieira Natividade, que fez a conferência intitulada A Poesia dos Frutos.
Farmacêutico de profissão (que não talvez por devoção), a sua farmácia, situada no Rossio, era ponto de encontro das pessoas gradas da terra, republicanas, mas não só.
A sessão cultural prosseguiu com uma récita de versos de Bulhão Pato e António Correia de Oliveira e, terminou, com um discurso do Ministro do Fomento, Manuel Monteiro, que não perdeu a oportunidade de o entremear a apologia da República, com a homenagem a Alcobaça histórica e agrícola que engrandece o povo rural e promove o seu desenvolvimento.
O Presidente da República e comitiva, passaram a noite no chalet do Diretor da Companhia Fiação e Tecidos de Alcobaça, pois o Hotel Central não oferecia as necessárias condições de segurança, tendo a guarda sido feita pelo corpo privativo de bombeiros daquela unidade fabril.
Mais tarde, aquando do falecimento de Natividade, Teófilo Braga que o tinha em elevada consideração, exprimiu-se do modo seguinte, que transmitiu à família:
Manuel Vieira Natividade consagrou o seu talento literário, artístico e crítico e também os seus estudos arqueológicos, históricos e económicos à glorificação monumental de Alcobaça. Compete-lhe a divisa que para si se impôs o quinhentista Ferreira:
Eu desta glória só fico contente,
Que a minha terra amei e a minha gente.



EM ALCOBAÇA TEMOS SAUDADES DO ANTIGAMENTE-


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Saudades do antigamente?
Às vezes, há muita saudade do tempo em que as mulheres eram donas de casa e os homens chefes de família.
Sabe-se não ser possível andar para trás, e nem se defende que o caminho seja esse, mas é possível considerar algumas coisas boas que existiam e, quem sabe, adaptá-las na medida do possível aos nossos dias.
Presentemente, a mãe quase não tem tempo para os filhos (coisa que as avós têm sempre…), pois precisa trabalhar fora de casa. A sua correria mal lhe permite momentos de descontração em família.
Muitas vezes estão todos juntos, embora cada qual numa sala. A mãe na cozinha, o pai na sala, o filho no quarto a mexer no computador.
Antigamente não era assim. Havia, aparentemente pelo menos, mais proximidade e calor nos lares. As mulheres (e então que dizer das avós?) sabiam cozinhar e fazer coisas apetitosas. O pai, filhos e genros adoravam os seus petiscos e visitas familiares chegavam por vezes sem avisar, para almoçar atraídos pelo aroma embriagante que se sabia vir da cozinha.
As mulheres costuravam as roupas da família e os maridos trabalhavam para angariar o sustento aos seus. Ambos tinham orgulho em possuir uma família equilibrada e feliz e faziam os possíveis (e impossíveis) para que os filhos pudessem estudar, tivessem brinquedos e boas memórias.
Hoje em dia, por mais que se esforcem, não lhes sobra tempo (e dinheiro), pois todo faz falta. Ambos trabalham como loucos, dormem mal, comem correndo, vivem ansiosos e com medo do futuro. Parece que todos lhes exigem mais e depois ainda mais.
A esposa insatisfeita, os filhos consumistas, o patrão ávido por lucro. Já não se sabe onde buscar refúgio nos momentos de desolação.
Nos dias que correm muitos jovens casais constroem casas, mas não de forma empenhada na edificação do lar, porto seguro para a criação dos filhos e convívio em família.
E sofrem pelos desencontros que poderiam ser evitados, se a visão não estivesse obstruída pelo hedonismo, onde cada qual busca somente o seu prazer.
Temos saudades das bolachinhas, biscoitos ou compota de amoras da Avó ou da Mãe, dos passeios com o Pai, das reuniões em família, … das cantigas de roda.
Quem não se lembra da infância e das cantigas de roda, das cantigas de ninar que se aprendiam?
Aprendiam-se em casa com os avós, com as mães, na escola com o professor primário e era sempre uma alegria quando alguém sugeria cantar uma música.
Atualmente, as cantigas de roda não são cultivadas, foi hábito que se perdeu em casa.