sexta-feira, 21 de junho de 2019
sexta-feira, 17 de maio de 2019
ELES NÃO SÃO DOIS, MAS
TRÊS OS GÉNEROS!!!
FLeming de OLiveira
-Se há uma dúzia de anos
me viessem falar de realidades tão importantes e transformadoras como algumas com
que hoje nos confrontamos, teria dado uma gargalhada e do alto da minha “sabedoria”, argumentaria por A mais B,
que isso seria impossível, pois o bom senso iria imperar.
Entretanto,
foi o que foi…
Reconheço
que sou um “inabilitado”, educado e
formatado por alguns princípios e regras, hoje tão fora de moda, que nem servem
para decorar uma prateleira. E que, por mais sensato ou previdente me
queira assumir, jamais conseguirei evitar, de todo, que o meu raciocínio ou
gostos acabem por ser conduzidos pelo quadro mental que se me tornou
confortável e que padece do que chaque mo, um pensamento marcado por aquilo que desejo.
O mundo em que vivemos, especialmente
a partir da segunda metade do século XX, está a mudar a um ritmo nunca visto,
sendo nós inundados por uma imensidade de dados, de ideias e de promessas, em
que se destacam o desenvolvimento ingovernável das tecnologias, em especial das
da informação e da inteligência artificial, às quais se associam a biologia e
as nanotecnologias. Vivemos
um contexto cultural complexo e difícil, aparentemente “descomandado”, com problemáticas que revelam a necessidade de
procurar respostas para o desafio antropológico colocado à atual crise de
orientação da cultura filosófica, científica e tecnológica, em questões ligadas
às neurociências, à bioética e à biotecnologia.
-A Alemanha legalizou em
meados de dezembro passado um "terceiro
género" nas certidões de nascimento e documentos de identidade,
tornando-se o primeiro país na Europa a reconhecer “pessoas intersexuais”.
Desde
maio de 2013, os cidadãos alemães tinham a possibilidade de escolher entre não
preencher o sexo/género (masculino ou feminino) nas certidões de nascimento ou
manter a menção de sexo não especificado.
Outros
países da Europa rumam para o reconhecimento de um terceiro género, entre eles
a Holanda, Áustria e “claro” o nosso Portugal.
Na
França “reacionária” (?), até cinco
dias após o nascimento, as pessoas devem optar por um dos dois géros/sexos:
masculino ou feminino. O Tribunal de Cassação rejeitou recentemente o
reconhecimento de um "sexo/género
neutro", opondo-se ao pedido de uma pessoa nascida sem pénis ou
vagina.
Um
amigo evoluído, quando tentei abordar o assunto, do alto da sua “sabedoria” de mais de setenta anos, retorquiu-me
que “as pessoas precisam entender que o
mundo é mais diverso que as suas cabecinhas preconceituosas conseguem imaginar.
Há pessoas que nascem sem sexo, pois a natureza fê-las assim. Pára de te
limitares à religião, ou te socorreres da Bíblia, porque és um alienado inútil”.
A intersexualidade pode ser evidente à
nascença (uma criança nasce com um clitóris muito grande, sem abertura vaginal,
um pénis muito pequeno ou um escroto aberto), mas só se manifestar na puberdade
ou mais tarde (quando a pessoa é adulta e se depara, por exemplo, com a
infertilidade).
A legislação sobre o terceiro género/sexo tem sido estudada, entre
nós apenas, ao que sei, pelo Bloco de Esquerda, que anunciou há tempos que irá
apresentar na Assembleia da República um projeto de lei para “reconhecimento da realidade intersexo”.
Até há alguns anos, falava-se em pessoas hermafroditas, termo
que alguns intersexuais rejeitam, considerando-o ofensivo, e que outros reclamam,
aceitando-o. A medicina fala em “distúrbios do desenvolvimento sexual”,
conceito onde cabem a intersexualidade e condições idênticas.
A fluidez na matéria parece dever-se bastante à
invisibilidade social dos intersexuais. Só a partir da década de 1990, é que o
ativismo dos direitos humanos, as associações de apoio a doentes e o movimento
LGBT começaram a prestar-lhe atenção e a traze-lo a debate.
-O “trans-humanismo” é um movimento
cultural, intelectual e científico, racionalista e materialista, baseado na
premissa de que a espécie humana, na sua forma ou estádio atual, não representa
o fim do desenvolvimento, mas uma etapa preliminar, e entendendo que o humano
está em perpétua evolução, julga ser possível, desejável mesmo intervir,
voluntariamente, nessa evolução, através da ciência e da técnica.
Este movimento assenta no pressuposto de considerar
o progresso como uma transformação da nossa conceção de vida e da condição
humana, a fim de se obter um homem novo, o “trans-humano”.
A ciência e a técnica, como qualquer outra atividade
humana, têm consequências que devem ser ponderadas e limites a ser observados,
a bem da própria humanidade. Requer-se, por isso, um espírito crítico e uma
responsabilidade ética, no sentido de uma clarificação de valores e de normas,
fundadas em virtudes essenciais ao desenvolvimento humano, quer a nível individual,
quer social.
-Perante alguns “logros” do progresso científico-técnico e a complexidade crescente
das questões que rodeiam o homem, é necessário ponderar os riscos que se correm
sem travar o curso do progresso, perceber que o “progresso” não é, afinal, uma deriva civilizacional.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Não Gosto de “Partilhar”
FLeming de OLiveira
“Honestidade”, virou uma enorme
virtude social e “autenticidade “, alegadamente,
um grande objetivo neste Portugal XXI.
Na
nossa sociedade, o jet-set entende que não deve conter o seu pudor, e que as
redes sociais facilitam a partilha de informação, tornando-o mais próximo do
comum mortal. As fronteiras da vergonha, da decência e do pudor estão a ser
sucessivamente renovadas, a expensas de uma fama fugaz, inconsequente, e
frequentemente corrosiva para os próprios.
Creio que muitos
portugueses entendem ser mais aceitável e fácil hoje falar de sexo do que no
tempo de seus pais e pais de seus pais.
Suponho,
porém, que há muito menos pessoas que acham que falar em concreto sobre o seu
salário e o estado das finanças é assunto que gostem de partilhar, ao invés de,
à boa maneira portuguesa, não haver
reservas em partilhar especificidades dos problemas de saúde. E não é preciso
estar numa sala de espera de consultório médico.
Há
pessoas que entendem que podem ser recompensadas por exporem vidas pessoais,
mas contraponho-lhes liminarmente existirem enormes desvantagens, ainda que não
de todo visíveis.
As
desvantagens são tantas que as não poderia aqui alinhavar, e se não tivermos
passado por uma recente situação traumática, tomamos pouca ou nula atenção ao
que “partilhamos”, quando e com quem.
O facto de não estarmos
bem conscientes dos (i)limites da “partilha”,
faz com que não pensemos nos riscos e o impacto que tem ela nas nossas
relações.
Partilha on-line não tem balizas nem limites se dermos
valor à abertura, se desejarmos valorizar um bom julgamento, a confiança, e a
capacidade de regulação. Partilhar em demasia pode levar a uma situação de
enorme vulnerabilidade pois nunca é possível controlar o que os outros a partir
daí vão fazer ou dizer.
Um
amigo, cínico pela idade e por algumas maldades da vida, defendia recentemente
que a honestidade é a base da intimidade.
Não
sei se é por isso que nunca conseguiu encontrar uma relação consistente e estável.
Argumentei-lhe que ao iniciar uma relação, contar as histórias vividas e
passadas pode aumentar as probabilidades de sabotar a confiança, em vez de
parecer estar folhear um livro.
“Honestidade”
não é sinónimo de “Transparência”, uma
intimidade saudável permite um bom grau de privacidade individual, sem olvidar
que o desejo/libido é potenciado pelo desconhecido.
O excesso de
informação pessoal pode ser avassalador e se for uma forma de criar uma relação
social, muito provavelmente não será bem-sucedido. A honestidade, ainda que extrema,
pode reforçar amizades, mas não as consegue criar.
Além da disponibilidade
das redes sociais e das influências/modas culturais e sociais há outros fatores
que levam a “partilhar em demasia”.
Considerando
tudo isso, não é minimamente surpreendente como não conseguimos assim reter um único
facto ao fim de algum tempo.
Decidir
guardar algo não é o mesmo que ser desonesto e pode-se ser autêntico, sem
demasiada exposição. As coisas que revelamos nos momentos de “partilha” não correspondem necessariamente
ao que somos, pois refletem normalmente o que no momento se encontra na mente. Quanto
mais seletivas forem em relação ao que partilham, mais capazes são as pessoas
de criarem de si uma imagem verdadeira.
sexta-feira, 22 de março de 2019
ECONOMIA
LINEAR/ECONOMIA GLOBAL
Fleming de OLiveira
A classe politica, sempre
ocupada em aparecer na televisão, participar em debates, mesas redondas,
quadradas ou ovais, opina sobre isto e aquilo, não vê ou não quer saber o que
dela se diz.
Não
andando nos transportes coletivos, ignora mesmo o que se fala nos autocarros ou
no metro. Se ouvisse, calava-se e procurava passar despercebida, antes que
recolhesse algum “piropo”.
Para
a classe politica, o povo serve, desde logo, para lhe fazer promessas. Metido o
papelinho na urna, contados os votos, o “Zé”
submete-se às estratégias partidárias, que pouco lhe interessam, ou nelas não
se revê.
Conheço
o argumento que as promessas eleitorais são consideradas mais intenções do que compromissos,
pois não existem, na prática, exigências de que as promessas em campanha sejam
cumpridas, nem sanções para os que não as cumprirem.
Se
o político soubesse bem o que por aí se passa, perceberia que “Democracia” para os sem esperança, é
palavra vã por não afastar a pobreza, a desigualdade, a degradação das
condições de vida e o favorecimento de cliques. Se o desprezo matasse,
esvaziava alguns “políticos da nossa
praça” ou libertava-nos deles.
“No Tempo da Outra Senhora” , havia a ideia que
às pessoas faltava capacidade para se pronunciar sobre o país e a cidade. Mas
hoje em dia, talvez por força dessa “pesada
herança”, a situação não é substancialmente diferente. Uma república, sem
cidadãos intervenientes, rejeita que o “cidadão
anónimo” (que terrível expressão!) seja
capaz de elaborar uma visão estruturada sobre a realidade, falar de futuro e de
coisas sustentáveis.
Por vezes o articulista
acerta, desencadeando sentimentos e recordações que guardados no “disco rígido” a que chamamos coração, só
esperam oportunidade para virem a superfície.
É
o caso da evocação das dificuldades e comportamentos que a evolução da vida do
País e do mundo nos convenceram que não voltavam mais. Mas voltaram. As
privações de tempos que pensávamos extintos, suscitaram algumas mensagens
quando neste espaço abordei o assunto. Fiquei reconfortado, pois é sinal que
não foram “palavras fora da boca”. Recordo,
concretamente, o que me escreveu um leitor:
“Era mesmo assim. Tinha eu uns 2 anos quando começou a guerra na Europa e então
era uma miséria. Em 1945, à luz da cadeia lá no alto da Serra, tudo se comia,
tudo se aproveitava, as roupas eram remendadas e no meu casamento levei o fato comprado
2 anos antes quando a minha avó faleceu”.
Esta é a perspetiva de
um anónimo, pelo que citando o nada anónimo Vitorino Magalhães Godinho não
resisto a invocar que “incapazes de
diagnosticarem a natureza estrutural da crise e presos nas teias dos grandes
interesses resistindo as mudanças estruturais que se impunham, os Estados
optaram pelo o que chamaram saneamento financeiro, sobrecarregar as populações
pelos impostos e anulação de benefícios. Apertar o cinto, diz-se na gíria, tornar-se
inevitável a degradação do nível de vida”.
A ideia não é nova e antigamente
era qualificada de mero bom senso. Os casacos passavam para os manos mais
novos, os sapatos para os primos mais pequenos. A água depois de lavar couves
ou alfaces, servia para regar as plantas do jardim e os frascos tinham uma nova
oportunidade de vida, guardavam botões, agulhas ou parafusos e mesmo aquela divinal
compota de amora que a avó fazia como ninguém. A minha neta Teresinha,
licenciada em Economia, explicou-me que isto na sua Universidade pode ser
designado como “Economia Linear”.
Com
o tempo esquecemos estes gestos, e a prática de uso único passou a dominar a
nossa vida, pelo que nos habituamos a deitar fora uma quantidade enorme de
objetos que poderiam ser reutilizados. Acontece que, finalmente, estamos a
perceber que poderá não haver em breve matéria prima suficiente para fazer novos
produtos ao ritmo da procura e não mais espaço para nos desfazermos daquilo que
descartamos.
Então
voltou a necessidade de ter bom senso, agora sofisticadamente chamado “Ecologia”. Bem sei que, como em tudo,
chegará a hora de um produto estar em fim de vida, que não é viável reparar. Por
exemplo, uma caixa de cartão pode dar origem a novas caixas ou mesmo a papel
higiénico.
Mas
para que tudo isto funcione é importante o contributo individual e que não se
quebre esta economia em cadeia, como me explicou a minha neta, também chamada “Economia Global”.
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