sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Geneologia Fleming de Oliveira (Atualizada em 22-09-2017)

Geneologia Fleming de Oliveira (Atualizada em 22-09-2017)

O apelido Fleming de Oliveira surge, no Porto e em Portugal, do casamento de Lícia Pereira de VasconcelosFleming, com Augusto Johnston de Oliveira, 23.5.1881-19.12.1961.
Deste casamento, realizado (catolicamente) a 8.11.1916, na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, houve dois filhos:
(1)-FERNANDO AUGUSTO FLEMING DE OLIVEIRA, 20.9.1918-17.12.1994, casado a 13.5.1944, com Maria Cândida da Costa Carneiro Ferreira Fleming de Oliveira, nasc. a 26.07.1924-21.12.2006, e
(2)-MÁRIO AUGUSTO FLEMING DE OLIVEIRA,  24.02.1922-17.02.2017, casado a 17.12.1942, com Maria Cândida Machado Pinto Henriques Fleming de Oliveira, nasc. a 09.07.1922.
A Família Fleming de Oliveira (Ramo de Miramar), tem a seguinte composição:
DESCENDENTES DE
(I)-FERNANDO AUGUSTO FLEMING DE OLIVEIRA
(A)-Fernando José Ferreira Fleming de Oliveira, nasc. a 22.02.1945, casado em 21.02.1970, com Ana Maria Salgueiro Pereira de Magalhães Fleming de Oliveira, nasc. a 26.09.1946.
Tem:
(1)-Maria Raquel de Magalhães Fleming de Oliveira(Gaspar), nasc. a 24.12.1970, casada em 11.02.1995, com  Luís Nuno Ferreira Pessoa Gaspar, nasc. a 30.06.1971.
Tem:
a)-Maria Teresa de Magalhães Fleming Pessoa Gaspar, nasc. a 24.07.1995.
Tem Guilherme Fleming Gaspar Silva Santos
b)-Luís Nuno de Magalhães Fleming Pessoa Gaspar, nasc. a 27.11.2003.
(2)-Paula Alexandra de  Magalhães Fleming de Oliveira ,nasc. a 26.02.1972.
(3)-Miguel Pereira de Magalhães Fleming de Oliveira, nasc. a 02.09.1973.
Tem:
a)-Diogo Miguel Vilaça Fleming de Oliveira , nasc.  a 2.10.2003.
b)-Francisco Vilaça Fleming de Oliveira, nasc. a 21.09.2010-
c) Sofia Caetano Fleming de Oliveira, nascida a 29.07.2017
(B)-Maria Cândida Ferreira Fleming de Oliveira (Náná), nasc. a 15.04.1946.
(C)-Maria Antónia Ferreira Fleming de Oliveira (Núnú), nasc. a 16.02.1948-03.8.2011.
(D)-Maria Clara Ferreira Fleming de Oliveira (Almeida), nasc. a 31.12.1949 casada a 19.02.1972, com Engº Manuel Mário Correia de Almeida,  nasc. a 09.02.1948.
Tem:
(1)-João Fleming de Oliveira  Correia de Almeida, nasc. a 05.05.1973, casado em 28.04.2001, com Marta Sofia de Oliveira Paiva,  nasc. a 26.10.1975.
Tem:
 a)-Beatriz Paiva Fleming de Almeida , nasc. a 04.10.2002.
 b)-Mariana Paiva Fleming de Almeida, nasc. a 20.09.2008-
(2)-Gonçalo Fleming de Oliveira Correia de Almeida, nasc. a 09.09.1974.
Tem:
a)-Carolina Rio Espinheira de Fleming  Almeida, nasc. a 30.11.05.
(3)-Francisca Fleming de Oliveira Correia de Almeida, nasc. a 19.10.1975, casada a 16.10.04, com Gonçalo Xavier de Araújo,  nasc. a 28.05.75.
Tem:
a) Diogo Fleming Almeida de Araújo, nasc. a 11-07-2007.
b) Luísa Fleming Almeida de Araújo, nasc. a 16-08-2012.
(E)-Maria de Fátima Ferreira Fleming de Oliveira (Araújo Lima) (Xica), nasc. a 7.11.1951, casada a 26.07.1975, com António Rui de Meireles Sampaio de AraújoLima, nasc. a 24.05.1948.
Tem:
(1)-Mafalda Fleming de Oliveira Araújo Lima (e Silva), nasc a 23.04.1976, casada a 25.09.04, com Luís Miguel  Ferreira da Silva , nasc. a 11.09.73.
Tem:
a)-Matilde Araújo Lima Ferreira da Silva, nasc. 31.08.05.
b)-Madalena Araújo Lima Ferreira da Silva, nasc. 14.04.2009.
(2)-Rodrigo Fleming de Oliveira Araújo Lima , nasc. a 22.07.1980.
Tem: Frederico Teles Rocha Araújo Lima nasc. a 24.02.2016
(F)-Nuno Emanuel Ferreira Fleming de Oliveira,  09.08.1953- 17.07.2015;                                                                                        
(G)-Maria Ana Ferreira Fleming de Oliveira(Peixoto) (Biquica), nasc. a 05.03.1956, casada a 26.07.1989-Miramar e 31.10.89-Ponta Delgada, com Dr. DomingosSoares Peixoto, nasc. a 02.07.1945.
Tem:
(1)-Teresa Fleming de Oliveira Peixoto, nasc. a 29.04.1990;
(2)-Leonor Fleming de Oliveira Peixoto , nasc. a 16.11.1993.
(H)-Maria Inês Ferreira Fleming de Oliveira(Sousa), nasc. a 30.04.1958, casada a 10.11.1978, com Antero Paulo Beato Oliveira e Sousa, nasc. a 26.07.1949.
Tem:
(1)-Gustavo Fleming de Oliveira de Sousa, nasc. a 06.09.1978, casado a  25.09.2010 com Cristina Manuel Correia de Pinho Alves da Silva e Fleming, nasc. 22.02.1980.
Tem:
Francisco Correia Alves da Silva e Fleming, nasc. 18.02.2010.
(2)-Benedita Fleming de Oliveira de Sousa (Granja), nasc a 22.04.1980 casada a 30.06.07 com Eduardo Alberto Ferreira Osório Campos Granja, nasc. a 19.10.1977;
Tem:
a)-Maria Fleming de Sousa Osório Granja, nasc. a 14.01.2009.
b)-Eduardo Fleming de Sousa Osório Granja, nasc. 20.01.2011.
(3)-Juliana Fleming de Oliveira de Sousa, nasc. a 22.08.1984, casada a 04-08-2012 com Pedro Bento do Carmo Carvalho.
Tem:
Maria Benedita Fleming de Oliveira do Carmo Carvalho nasc. 24.11.2014
(4)-Duarte Fleming de Oliveira de Sousa, nasc. a 28.11.1992.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O CONSELHEIRO ACÁCIO E EÇA DE QUEIROZ

O CONSELHEIRO ACÁCIO E
EÇA DE QUEIROZ

Fleming de OLiveira

(I)

Os “Homens do Foro”, tidos por juridicamente ignorantes, mas com afetada erudição, pedantes no formalismo e dados a transigências éticas, foram, na obra de Eça de Queiroz, alvo de vigorosas caricaturas.
Este é um tema que me interessa particularmente, seguramente por deformação profissional.
Eça criticava a solenidade forense, que obrigava os advogados a discutir e tentar convencer gente vulgar, para além de acompanhar o andamento do processo no Tribunal, num ambiente mais parecido com uma feira, onde não faltavam testemunhas profissionais, confusão e tumulto.
Na verdade, Eça não era pessonlidade que, com a sua inteligência e finura, descesse a falar de igual para igual para convencer o padeiro ou jornaleiro que se sentava na bancada de jurados, enfim, incapaz de discutir ou de raciocinar com quem estivesse muito longe do seu talento e cultura.
Eça, encarnava, outrossim, a cultura, a elegância, a arte e a vida civilizada, pelo que tendo em conta as suas amplas relações, utilizava na ironia uma poderosa arma de ataque e de defesa.
Não admira pois que tivesse feito de juízes, advogados, escrivães, meirinhos e delegados seres venais e ridículos, incomparáveis caricaturas. Mas, salvo melhor opinião, a ideia de Eça não era tanto atacar a classe, mas ir ao fundo deste ou daquele tipo, abordar um caso patológico.
Coloca os “Bacharéis” requisitados pelos conflitos da intriga amorosa, pelos “embargos de terceiros”, pelo jogo das palavras e da malícia, venerando o direito com ironia e desdém.
O “Bacharel” era o molusco adaptável, contemplativo, videirinho, a alma torpedo do Silveirinha formada por um misticismo ridículo, entre catadupas de imbecilidade, nas mais conspícuas senhoras devotas com a lubrificação do unto das batinas.
O “Bacharel” cumpria a carreira, com um estágio conquistando o diploma, para depois ingressar, logo que possível, na magistratura. Com o diploma de bacharel, quem não fosse capaz de fazer carreira na advocacia, por falta de talento ou outras qualidades para a dura luta do dia-a-dia no foro, ia para a magistratura, que conferia uma vida com um mínimo de existência garantido, mais tranquila e cómoda, mais acessível a fazer e receber favores e onde os disparates eram, afinal, doutos erros. Instalado nessa vida, o “Bacharel” virava “Meritíssimo” ou “Digníssimo Juiz”.
Outro caminho, era a política pelas mãos de um sogro influente ou de um parente ministro.
O Conselheiro Acácio, a quem deu um relevo especial em  O Primo Basílio, e eu aqui (é de certo modo o núcleo, básico, deste apontamento), é descrito como um homem “alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo, ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto. Tingia os cabelos, que de uma orelha à outra lhe faziam colar para trás da nuca; e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, maior brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo e as orelhas muito grandes, muito despegadas do crânio”.
CONTINUA


O CONSELHEIRO ACÁCIO E
EÇA DE QUEIROZ

Fleming de OLiveira

(II)


Perante a sociedade, o Conselheiro Acácio era um moralista, com constantes declarações a favor da sã moral e dos bons costumes, que faziam dele um público paladino da família e das virtudes cristãs. Esse moralismo contrastava com a curiosidade que se desperta em torno desse personagem, que Eça assemelha ao próprio ridículo, cuja vida particular e íntima sugere uma fonte inesgotável de taras e de superstições. A resistência para com as investidas de Dona Felicidade e o romance subterrâneo mantido com a criada, sugerem essa dubiedade que antepõe pautas morais internas e externas.
O Conselheiro Acácio também pode ser o exemplo do “Bacharel”, que muito fala, pouco diz, nada pensa, tudo reproduz.
Nascido e criado em Lisboa, Acácio era um solteirão sem família, aposentado do cargo de Director-geral do Ministério do Reino, que vivia num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, que de suas coisas cuidava, mas que entretanto o atraiçoava. O Conselheiro resistia ao mesmo tempo às investidas de Dona Felicidade, por ele apaixonada. Senhor de gestos medidos, calculava, inclusive, o modo como inalava o inseparável rapé.
Expressava-se o Conselheiro Acácio, com chavões e elaboradas frases vazias e muitas citações. Com gestos medidos e cerimoniosos, jamais usava palavras triviais. Não dizia “vomitar”, antes fazia um gesto indicativo e empregava o termo “restituir”.
Assinante do S. Carlos havia dezoito anos, conhecia a sociedade frequentadora da ópera e a intelectualidade da moda. Nas suas constantes citações, dizia “o nosso Garret”, “o nosso Herculano” e falava incessantemente das “nossas virtudes pátrias”. Despedia-se das pessoas sempre com o mesmo tratamento, “Al rivedere, como dizem os italianos” ou, então, à simples menção de Lisboa, disparava “cidade de mármore e de granito, na frase sublime de nosso grande historiador”. Toda vez que o nome do Rei era pronunciado, o Conselheiro erguia-se da cadeira.
Tinha sido feito Cavaleiro da Ordem de Santiago, em atenção “aos seus grandes merecimentos literários e às obras publicadas, de reconhecida utilidade”, no campo da economia política. Era autor das seguintes obras: “Elementos Genéricos da Ciência da Riqueza e Sua Distribuição”, com o subtítulo “Segundo os Melhores Autores e Leituras do Serão”, da “Relação de Todos os Ministros do Estado desde o Grande Marquês de Pombal até Nossos Dias com Datas Cuidadosamente Averiguadas de Seus Nascimentos e Óbitos”, e de uma volumosa “Descrição Pitoresca das Principais Cidades de Portugal e Seus Mais Famosos Estabelecimentos”. É um burocrata, que adora carimbos, despachos, fichas e relatórios que não servem para nada.
CONTINUA










O CONSELHEIRO ACÁCIO E
EÇA DE QUEIROZ


Fleming de OLiveira

(III)




Personagem, aparentemente, menor no contexto de “O Primo Basílio”, o Conselheiro Acácio foi elevado pelo tempo. É mais citado e lembrado do que o próprio Basílio (patife e aproveitador), do que (o bem-comportado) Jorge, do que a (ingénua) Luísa, do que Juliana (a empregada amargurada, velhaca, que chantageou a patroa).
É de seu nome próprio, Acácio,  que se construiu o adjetivo, “acaciano”, identificador de tautologias e redundâncias. O Conselheiro Acácio é o próprio cerne do bacharelismo oco.
O Conselheiro Acácio, que sempre foi censurado, criticado, e de quem se riu, não passa todavia, além dos limites de uma criação literária, da síntese identificadora das frustrações e ressentimentos que todos temos e vivemos.
É uma abatida figura que pede ajuda, compreensão e carinho.
É um homem triste, como por vezes triste foi também Eça, como triste foi às vezes o Portugal do século XIX, e como tristes somos na inutilidade dos bons conhecimentos que pensamos possuirmos.  A obra de Eça não foi um conjunto de odes elegíacas sobre Portugal, não é uma escrita “com a tinta azul clara  qual Júlio Diniz”.
Encontrando-me nas lides forenses há mais de quarenta anos (como antigo Magistrado do MP e Advogado), vejo e revejo, esse “personagem acaciano”, ora na figura de um Advogado, ora entre Procuradores e Juízes.
Nos escritos, sejam requerimentos, arrazoados ou sentenças, a forma “acaciana” apropria-se do texto e das reduzidas ideias, através da repetição de frases e expressões que julga conferir distinção mas que, geralmente, é um deserto de lógica ou de conteúdo. O estilo é deplorável, tanto pelo exagero, como pela falta de erudição, supostamente suprida pela verborragia e  citações, preferencialmente em latim.
É verdade que uma classe desses profissionais está ainda em franca atividade, pelo que não houve dia em que não me deparasse com um “acaciano” a repetir chavões e lugares comuns, aparentando sabedoria, quando não passava de criatura medíocre, que vivia a repetir frases e expressões banais, ocas e triviais, e, às vezes, até ridículas, proferidas em tom catedrático.
Um consolo, entretanto, relevo aqui.
É quase impossível que qualquer um não se tenha cruzado, alguma vez, com um tipo género Conselheiro Acácio. Eles estão por todos os lados, na vida privada e na pública, enchendo os nossos ouvidos com clichês que, às vezes, beiram o ridículo.
O Acácio “original” fazia de tudo para se mostrar educado, de fácil trato, simpático.
Reencarnado, perde a graça.

Resta nele, apenas, o vazio.

CENSURA E ESTADO NOVO, PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA



CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA




FLeming de Oliveira[1]


(I)


Uma pequena e necessária, observação liminar.
Não sou alcobacense, mas tripeiro assumido, vivo e trabalho em Alcobaça (1) mais de 40 anos Quando ali cheguei, regressado da Guiné em 20 de Abril de 1974, cumpri todo o tempinho da tropa, não conhecia qualquer pessoa, para além de alguns familiares de minha Mulher.
Hoje em dia, reparto a vida entre as minhas casas de Alcobaça e a de Montes, onde tenho interesses por via conjugal e, quando necessário, por dever de ofício, o escritório de advocacia em Alcobaça.
As considerações que se seguem sobre o tempo da outra senhora, são pois fruto dos contactos que vim a estabelecer e das pessoas e amigos que fui ouvindo, como alcobacense de adopção. Recordo, aos mais novos, que a expressão tempo da outra senhora é hoje, normalmente  associada ao Estado Novo (2), tempo em que havia censura, um regime de partido único e autoritário e um Chefe.
Esta expressão é anterior ao 25 de Abril e terá origem nas relações domésticas. A Senhora era a dona da casa e aí punha e dispunha. Era ela quem ditava as leis da organização e gestão da casa, a cumprir pela criadagem. Quando a Senhora da casa morria, havia uma nova Senhora (a filha, a nora, a nova esposa), a ditar a organização da casa, pelo que essa organização ou gestão era, naturalmente, diferente. E surgiu assim e naturalmente a expressão o tempo da outra senhora, distinto do atual e aqui vai ser utilizado doravante.
Quando muda o regime político (e concretamente o Chefe), mudam as leis, muda a forma de organização do Estado e começa, então, a falar-se do tempo da outra senhora quando se pretende referir a situações referentes a essa época anterior, situações essas que não existem mais ou foram alteradas definitivamente.
O Estado Novo deu lugar a uma literatura, combatida com brutalidade e censura, que a tentaram abafar. Não a impediu de todo as ideias, que só podem ser abafadas com outras ideias.
Apesar da censura não se aplicar previamente, aos livros, estes eram apreendidos, retirados do mercado e os autores ou editores sujeitos penalizações civis e/ou criminais. Foi o caso de Mestre Aquilino, beirão de Terras do Demo, tão manso quanto bárbaro, terno quanto feroz, fradesco, libertário e citadino, no dizer de Urbano Rodrigues. Quando os Lobos Uivam, é uma obra de ficção (?), saída a público em fins de 1958, que aborda cruamente alguns aspectos do sistema jurídico-político do Estado Novo. A outra senhora considerou o livro injurioso para com as instituições e a autoridade, concretamente a PIDE e os Tribunais, movendo-lhe um processo-crime, por alegados crimes de abuso de imprensa. (3)
O MP acusou Aquilino Ribeiro, que se autoconsiderava um obreiro das letras, de crimes contra o bom nome de Portugal, de fazer a apologia de actos contra a Segurança do Estado, de injúrias, de ofensa à honra de agentes de autoridade e de abuso de liberdade de imprensa. Aquilino suscitou exuberantemente a crítica ao funcionamento do sistema judicial, considerando a acusação uma questão meramente política.
Em Portugal, correu um abaixo-assinado subscrito por cerca de 300 intelectuais, a reclamar o arquivamento do processo. Em França, onde Aquilino era o escritor português mais referenciado da época, François Mauriac (4), escreveu em sua defesa.
Em ambos os casos, sem sucesso.
Sem se intimidar, Aquilino declarou que sou um pouco como os velhos robles de cerne revesso. Não consinto machadada. A machadada salta muitas vezes na mão de quem a maneja contra tais árvores.
Com 74 anos de idade, Aquilino Ribeiro, viu-se em 1959 arrostado à barra do Tribunal Criminal Plenário de Lisboa, acusado de Delito de Opinião. A acusação assentava no argumento que a censura tem impedir a subversão da opinião pública e deverá ser exercida por forma a defende-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum !!!
Para o seu Advogado, mais do que provar umas pretensas ofensas a tais e tais pessoas ou denunciar um ataque a certa estrutura política, o que parece procurar-se é coarctar o direito de um escritor fazer qualquer obra de ficção em que por transposição imaginativa tome posição acerca dos problemas que respeitem ao meio em que está integrado. Quer dizer, pretende-se relegar o artista à situação de simples escrevinhador de histórias, que não têm outra função senão a de divertir o bom burguês satisfeito com a vida e com o mundo. Acabar-se-á de uma vez para sempre com a liberdade de pensar, e ninguém pense mais em emitir juízos quanto à sociedade em que vive, passando todas as estruturas a ser inatacavelmente perfeitas, e nelas tudo correndo panglossicamente (5) pelo melhor. Seria o último estádio de um lento processo com fim de esmagar toda e qualquer manifestação de inteligência, de aniquilar o indivíduo como ser pensante e de o acorrentar bovino e passivo ao arado de que o Poder segura a rabiça. A obra literária, tornada meio de embrutecimento e de nirvanação, iria caindo aos poucos num formalismo académico, num anedotário para bacocos, todas as formas destituídas, a preceito, de conteúdo. E adeus literatura, adeus cultura, adeus personalidade nacional (…)
A advocacia nos Tribunais Criminais Plenários (6) era no tempo da outra senhora difícil e perigosa. Poder-se-ia falar de muitos casos, mas o que implicou o Dr. Manuel João da Palma Carlos (7), (irmão do Professor Doutor Adelino Palma Carlos), teve especial repercussão no meio. Ouvi falar dele, pela primeira vez, ainda estudante liceal, através do conhecido Advogado portuense, Dr. Artur Santos Silva, pai do Dr. Artur Santos Silva (fundador do BPI e antigo Administrador da Gulbenkian).
Palma Carlos defendia no Tribunal Criminal Plenário de Lisboa, alguns acusados, que aliás se encontravam em cumprimento de penas, salvo um tal Humberto Lopes, em liberdade sob caução, acusados de pertencerem a uma célula comunista, a funcionar dentro do Forte/Prisão de Peniche.
Após a leitura da sentença, Palma Carlos requereu que o seu constituinte continuasse em liberdade e, como o tribunal indeferiu a pretensão, pretendeu ditar para acta um requerimento no sentido de ser explicitada a razão do indeferimento, alicerçada na suposta e pretensa perigosidade do réu. A verdade é que, tanto para o MP, como para os juízes Desembargadores, nada mais havia a explicar, a acrescentar, pois desde logo, o requerimento não tinha pertinência e, em consequência, nem iria ficar registado em acta.
Palma Carlos, Advogado corajoso, afirmou em alto e bom som que podem V. Exªs julgar como lhes apetecer, com prova ou sem prova, mas o que não podem é deixar de consignar na acta, o que na audiência se passa.
O juiz-presidente, (Desembargador, tal como os asas do coletivo, dois presidentes dos juízos criminais das respectivas comarcas, considerou gravemente impróprias, ofensivas, tais palavras pelo que logo instaurou ao Advogado um processo sumaríssimo, de modo a ser imediatamente julgado, como aconteceu.
No regime do Estado Novo e nos Tribunais Plenários, era admissível/possível passar, sem transição, de advogado ou até de testemunha a réu, ver decidir com arbitrariedade, eliminado da ata o que não fosse conveniente, mandar expulsar e recolher aos calabouços os réus que pretendessem exprimir-se com alguma liberdade. O tribunal considerando ofensivas as expressões de Palma Carlos condenou-o a sete meses de prisão, a igual período de multa a 40$00 por dia, a um ano de proibição do exercício da advocacia, contado este após cumprida a pena de prisão. Em recurso, que subiu diretamente ao Supremo Tribunal de Justiça, veio a decisão a ser parcialmente revogada, no referente à pena de prisão, bem como à proibição do exercício da advocacia. A pena de multa manteve-se, pelo que Palma Carlos tendo-se recusado  (por questão de princípio) a pagá-la, iria cumprir a pena de prisão, pelo que veio a quantia a ser suportada pela Ordem dos Advogados.
Voltando a Aquilino Ribeiro, sou de opinião acompanhando os melhores críticos que a sua escrita, caracteriza-se por uma excepcional riqueza lexicológica e pelo uso de uma linguagem de matriz popular, plena de provincianismos, o que nem sempre a torna acessível. Óscar Lopes escreveu que Aquilino só pode ser lido com um dicionário na mão, pois há fuga ao termo e ao giro frásico, que não evita que se não estivermos divorciados do povo rural, meçamos o alcance do vocabulário. Aquilino foi um estilista e, por isso, a linguagem vernácula, sem estrangeirismos, e arejada, é frequentemente condimentada com expressões que oscilam entre o grotesco e a sátira. Apesar de ter optado por uma literatura de tradição, Aquilino Ribeiro procurou ao longo da vida uma renovação contínua de temas e processos, tornando-se difícil sistematizar a temática da sua vasta obra, desde a biografia à polémica, das memórias ao jornalismo, da crónica à literatura infantil. Num número considerável de obras, Aquilino reflete cenas da sua vida, como o convívio com as pessoas do campo, especialmente das Beiras, a educação ministrada pelos padres, as múltiplas conspirações políticas, as prisões, as fugas rocambolescas ou os exílios. O leitor vê-se envolvido com as personagens beirãs, seus costumes, tradições e modo de falar.
Aquilino Ribeiro, não obstante o seu fundo regionalista, não era um provinciano.
Para José Augusto França, in Os Anos 20 em Portugal, estudo de factos sociopolíticos (1992) Aquilino Ribeiro era um serrano, com a sua pátria própria, nas terras de Sernancelhe, tanto como em Paris com uma prática sem deslumbramento, assumindo-se mesmo pitorescamente no sorver ruidoso da sopa, como amigos de então o recordavam, ao mesmo tempo que lia entusiasmadamente Anatole France. (8)
Em 1963, a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Ferreira de Castro, (9) tomou a iniciativa de comemorar o cinquentenário da carreira literária de Aquilino, mas este faleceu pouco antes. Ferreira de Castro antecipava, a homenagem nacional que, em 19 de setembro de 2007, se traduziu na transferência dos restos mortais, do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional. A data foi escolhida porque, em 2007, se comemoraram os 50 anos da publicação de A Casa Grande de Romarigães. A honra foi-lhe concedida pela Assembleia da República, sendo este o quarto português a ser transladado para o Panteão Nacional, depois de Humberto Delgado (1990), Amália Rodrigues (2001) e Manuel de Arriaga (2004).
Hoje, talvez haja menos gente a ler Aquilino Ribeiro, mas como diz Gonçalo M. Tavares, a literatura não existe sem o que está para trás. Espante-se que, ao invés de outros escritores, menores nenhum texto de Aquilino é de leitura obrigatória nos manuais escolares de português. Recordo, salvo erro, que a minha primeira leitura de Aquilino, ocorreu no antigo quarto ano do liceu, numa Selecta Literária. Aquilino desapareceu dos manuais escolares do regime democrático.
Nem tudo foram elogios a Aquilino Ribeiro, aquando da transladação, tendo havido alguma contestação, embora localizada e sem desenvolvimento.
Muitos mais que desafiaram a censura no tempo da outra senhora poderiam ser aqui citados, num rol sem conta.
A repressão da cultura e dos seus obreiros nas várias e distintas facetas, constituiu uma saga feroz, que só terminou quando o regime caiu. O Lápis Azul riscou notícias, livros, letras de fados ou peças de teatro, apagou anúncios publicitários, caricaturas e pinturas de parede. É vulgar associar-se a Censura a cortes parciais, por vezes totais, nas provas de tipografia, a que os jornais estavam obrigados, antes da publicação. Mas a Censura também atuava, impondo a publicação das chamadas Notas Oficiosas. Há escritores e editores que as recordam como uma violência terrível, a obrigatoriedade de publicar as notas oficiosas, ou seja o jornal não tinha direito de omitir a publicação. Salazar confrontado uma vez com esta situação de intromissão, argumentou que não sei precisamente o que se passou (…). Fui consultado, quando se recusou a publicação (…). É claro que V. Exª poderia reclamar, e teria por si a lei, se a nota excedia as dimensões comuns. Se o tivesse feito certamente obteria justiça ou prescindindo-se da publicação (…), ou ordenando-se a sua publicação por partes em dias sucessivos, ou ainda pagando o custo excedente. Devo, porém, dizer que não tem sido preciso obrigar nenhum periódico a publicar as notas do governo, mesmo as mais extensas: todos têm prestado esse serviço, voluntariamente.
A Constituição de 1975 aboliu, formal e totalmente a censura.
O Lápis Azul começou, como escudo de proteção do golpe de Gomes da Costa (1926), e, pouco a pouco, foi-se transformando numa espécie de guardião do tríptico Deus, Pátria e Família. Menos de um mês após o golpe militar, foi instituído o regime de Censura Prévia, alegadamente como medida transitória, enquadrada na suspensão das garantias constitucionais da I República. A 24 de Junho de 1926, os jornais passaram a anunciar que este número foi visado pela Comissão de Censura, tinham de remeter quatro provas para a Comissão e não podiam deixar espaços em branco, após os cortes. Gomes da Costa havia anunciado que não estava disposto a criar a censura à imprensa, pelo menos enquanto os jornais não me incomodarem.
Apesar dos diplomas enunciarem que a todos é lícito manifestar livremente o seu pensamento por meio da imprensa, o regime de censura prévia militar, manteve-se até ao fim da Ditadura, isto é, com a entrada em vigor da Constituição de 1933.
Em breve, começaram a surgir os jornais clandestinos e a 16 de Abril de 1927 um diploma sujeitou, a processo sumário, o julgamento de delitos de imprensa, como a publicação de notícias tendenciosas ou de propaganda subversiva.
Era com o Lápis Azul que os censores encartados decidiam o que o país poderia/ deveria/ mereceria…) saber. O próprio movimento iniciado em 25 de Abril de 1974, ainda foi objeto de tentativa de censura, mas tratou-se do último estertor desta.
O Lápis Azul foi quebrado e hoje em dia, passados 40 e tal anos sobre o 25 de Abril, vive-se o maior período seguido de liberdade de imprensa, de expressão, da história da República Portuguesa, mau grado alguns incidentes pontuais.
A liberdade de imprensa ou de expressão não foi, uma constante da nossa História. Antes pelo contrário. Mas, de tão natural, esta respiração de liberdade, faz-nos hoje esquecer um dos instrumentos mais pesados da nossa História recente. As gerações após o 25 de Abril, dificilmente compreenderão, o que foi viver sob um regime de Censura. Só os portugueses de meia-idade ou mais, se lembram ou percebem como era antes, tal como a necessidade de licença de porte de isqueiro para alegadamente proteger a indústria nacional de fósforos, até à Coca-Cola, que se bebia livremente em África, muito concretamente no seio das Forças Armadas, e cujo consumo era proibido na Metrópole.
Uma rolha na boca. Uns óculos na ponta do nariz. O jornalista não pode falar, pois tem ainda uma faca à cabeça e uma tesoura aberta entalada no pescoço. Na lâmina da tesoura, lê-se Lei de Imprensa. Era a pena de Francisco Valença, que ocupou primeiras páginas, e desenhou uma caricatura alusiva à Censura Prévia, no semanário humorístico Sempre Fixe, em 8 de Julho de 1926, acompanhada de um pequeno texto, na impossibilidade de desenharmos e escrevermos no Diário do Governo, teremos de transformar o Sempre Fixe em jornal de modas. Já temos mesmo uma linda colecção de figurinos de dolmans, calças à Chantilly, capotes, etc., para a presente estação. Vamos desbancar o Depósito de Fardamentos!
A Constituição de 1933, não obstante consignar a garantia da liberdade de expressão do pensamento, afirmava a seguir que leis especiais a irão regular, de forma a impedir preventiva ou repressivamente a perversão da opinião pública na sua função de força social, e salvaguardar a integridade moral dos cidadãos.
A Direcção dos Serviços de Censura poderia recusar, o nome do director do jornal, de forma mais ou menos discricionária.
A Censura suprimiu a última e dramática crónica de Mário Neves, para o Diário de Lisboa, a propósito da Guerra Civil de Espanha. Enviada telefonicamente de Badajoz, após o massacre da Praça de Touros, ela só viria a ser divulgada em Portugal, depois do 25 de Abril.
Em 15 de Agosto de 1936, o Diário de Lisboa publicou um texto da autoria do seu enviado, testemunhando a tomada de Badajoz pelas tropas de Franco. Badajoz está entregue aos legionários e aos regulares marroquinos, que levavam a cabo cenas de desolação e horror.
Foi essa a derradeira oportunidade de Mário Neves contar aos portugueses o que se passava, pois que doravante a sua crónica seria totalmente censurada e não mais publicada.
De acordo com Mário Neves, vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a solene promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui, começava assim a crónica-reportagem, a última, que relatava os horrores provocados pela entrada das tropas nacionalistas naquela cidade.
A censura proibiu a circulação em Portugal da revista americana Time, por dela constar um artigo tido por pouco elogioso do Regime. O motivo direto foi capa, onde Salazar era apresentado como o decano dos ditadores, ao lado de uma maçã podre, bichada (10).
Pelo crivo da censura, passavam antes da sua exibição, os guiões de peças teatrais, e a arte.
A revista Travessa da Espera, com estreia marcada para Dezembro de 1945, no Teatro Maria Vitória, ao Parque Mayer, viu cortados pela censura, 2/3 do seu texto. Um dos atores veio a ser repreendido e punido, por ter proferido não obstante diálogos cortados.
Para além dos guiões, os textos de divulgação das peças, eram também objecto de censura. Em comunicado, a PSP do Porto, informou o Circulo de Cultura Teatral, do Teatro Experimental do Porto, da apreensão decorrida a 18 de Março de 1972 de cartazes publicitando A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, pois o cartaz exibia uma mulher nua, da cintura para cima.
Há o caso de censura na pintura, onde é retratado o Assalto ao Santa Maria. Para escapar à censura, o quadro recebeu o título de S.M. O episódio, ocorrido em 1961, como muitos se recordam foi protagonizado por Henrique Galvão, que nas Caraíbas com um comando luso-espanhol, tomou de assalto o navio português, declarando-o espaço português independente do Governo, com o intuito de chamar a atenção dos media internacionais, para a situação política portuguesa, e também espanhola. O assunto foi amplamente noticiado na comunicação social internacional, mas em Portugal a informação limitou-se à versão oficial dos acontecimentos.



CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira

(II)



O Diário Popular, em Agosto de 1947, foi multado em 200$00, por ter publicado uma notícia sobre a ex-Rainha de Itália, em moldes reputados desrespeitosos (11).
Que termos impróprios eram esses? A mulher de Humberto de Itália foi autorizada a viver na Suíça. O Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou que concedeu autorização a Maria José, da Itália, esposa do ex-rei Humberto, e a dois filhos para residirem na Suíça. Acrescentava que Humberto da Itália não pediu autorização para viver na Suíça, mas se o fizesse seria rejeitado.
O Estado Novo, ainda antes da II Guerra, havia começado a investir no turismo balnear, um pouco em detrimento do tradicional turismo termal, como forma de captar receitas e divisas. As praias, por excelência, eram a Costa do Estoril, Figueira da Foz, Espinho e Póvoa de Varzim. Até o Algarve, zona periférica, se tornar o grande fator de atração, iria mediar muito tempo. O desenvolvimento do turismo, acarretou alterações nos hábitos e na moral nacionais. A praia, o sol e o calor, estavam conotados como uma vida menos regrada, mais despretensiosa ou liberal. Apesar dos apelos e de alguma condescendência, involuntária, aos novos hábitos, o Salazarismo, continuava a impor uma moral puritana, por alguns, ainda que não especialmente progressistas, tida por obsoleta.
O País sofreu um choque com a chegada da vaga de refugiados, cujos hábitos e cultura eram bem diferentes. Ainda me lembro de ouvir dizer no conservador Norte de Portugal, com ar galhofeiro, e depreciativo, que a esplanada da Pastelaria Suíça/Lisboa, nos tempos da II Guerra era conhecida como a nossa BONPERNASSA, pela relação com a exibição de pernas de mulheres, que até fumavam em público.
O Dec. Lei nº 31247, de 1941, afixado em editais pelas capitanias marítimas, havia imposto às senhoras, sob pena de multa, um fato de banho adequado, inteiro, sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido nas axilas, os homens calção justo à perna e reforço da parte da frente cobrindo o ventre, o que dava muita canseira aos zelosos cabos-do-mar, autoridade vestida de branco da cabeça (boné) aos pés (sapatos), envolvidas nas praias, qual jogo de gato e rato. Num país com um regime que obrigava as professoras primárias a pedir autorização ao governo para casar, as mulheres a ter autorização do marido para exercer comércio ou ir ao estrangeiro, não é de espantar que a indumentária das pessoas fosse regulamentada, não sendo permitidos modelos considerados ousados. Tudo, enfim, em nome da moral e dos bons costumes. Ou, como justificava o Decreto-Lei, relativo aos fatos de banho, para salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam. Por essa altura, o jornal Os Ridículos, publicou a caricatura de um cabo do mar, devidamente uniformizado, utilizando uma fita métrica para medir uma banhista de formas generosas e arredondadas, com o comentário que os fatos-de-banho, das senhoras, não podem ter menos de de metro e meio de pano nas costas. Segundo preconizava a Mocidade Portuguesa Feminina, que pretendia guiar por bom caminho as mulheres de Portugal e criara um modelo oficial, os fatos de banho femininos, excessivamente curtos e decotados, de fazendas leves e cores muito claras eram proibidos pela moral cristã. Ainda pré-adolescente, lembro-me de usar um fato-de-banho com calção quase até aos joelhos, com uma saia dianteira que ocultasse eventuais entusiasmos viris e uma camiseta de alças, à moda dos antigos olímpicos, que tapasse algum pêlo que, ousadamente, despontasse no peito.
O cabo de mar, era o fiscal intransigente na defesa da moral. Hoje, se alguém se apresentasse numa praia portuguesa, nos preparos que a lei então prescrevia, seria alvo de suspeita e não por parte de um polícia, mas de um psiquiatra, duvidoso da sanidade mental. As regras que impunham rigorosa decência no vestuário continuaram por vários anos. Mas, com o correr do tempo, inevitavelmente foram sendo postas em causa. Para isso, muito contribuiu o turismo que, na década de 1960, começou a procurar o nosso país como local de veraneio, em que cada vez mais, apareciam ingleses, franceses, holandeses e alemães, com indumentárias ousadas para os padrões e costumes nacionais.
Foi, recorde-se, a época da mini-saia, a britânica Mary Quant e do biquini, das longas e despenteadas cabeleiras para os rapazes (beatlemania). E se alguma boa gente, ainda se escandalizava com a pouca-vergonha das vestimentas dos estrangeiros, outros, especialmente a juventude, adoptavam alegremente as novas modas.
O nazareno Manel Bexiga, recordou-me o caso, ocorrido nos primeiros anos da década de 1960. Se é verídico ou anedota não posso atestar. Conta que pela Nazaré apareceram umas francesas, de biquíni (12), num areal onde as portuguesas só usavam fato-de-banho.
Então o cabo do mar foi falar com elas, tentando, com as poucas palavras que sabia no francês que aprendeu com a irmã concierge em Paris, explicar-lhes que na Nazaré, só era permitido usar fato-de-banho de uma peça. Só uma peça, uma só, tentava o pobre homem explicar. Então as francesas disseram que sim, tinham compreendido bem, só não sabiam era qual das duas peças era para tirar.
Quando as férias eram um mês de praia, com casa e barraca alugadas, metade do Ribatejo e Estremadura mudava-se para a Nazaré, apesar de água frias, com o inevitável picadeiro, a lota, e o grande promontório do Sítio. Havia, nesta praia e outras como a Figueira da Foz, um certo charme de gente fina, uma nova burguesia que se querendo afirmar como distinta, adotava estereótipos em voga.
A praia, era o palco por excelência da infância e adolescência, e despertava o imaginário para a vida, ao mesmo tempo que singrava nas ondas da água ou nas da areia. À beira das barracas listadas a azul ou a verde, quando a tarde esmorecia e a brisa se levantava, jogava-se o prego, o anelinho ou o ring. Acertar com o anel de borracha na eleita, pertencia ao ritual da iniciação. Quando as gaivotas voavam atras das traineiras que regressavam, com o sol a queimar de oiro a babugem das ondas, sentados na areia, passavam no grupo, segredos, afagos de mão ou beijos castos, sempre recusados em alarido ao dono da prenda que está para sair.
Enquanto as mães de família com os penteados alteados e enformados, metidas em vestidos já graciosamente decotados, abanavam os leques para fazer frente aos caloraços, e matavam o tempo bebericando um chá ou um refresco à espera do consorte. As raparigas exibiam vestidos camiseiros, de godé, nylons ululantes, meias de seda, de vidro como se dizia, realçando a curvatura da perna depilada que se vinha calçar no sapatinho. Muitos rapazes trajavam de branco, calça, camisa e sapatos.
Rapazes e meninas espigavam na hora do picadeiro,após o jantar, andando para cá e para lá, olhares melados no momento de cruzarem, ancorados nas regras da civilidade e etiqueta. As mães pensavam que tendo as filhas debaixo de olho podiam adormecer sossegadas. Dos pais sabia-se que mantinham as aparências e talvez rezassem pela virgindade das filhas. Tudo funcionava regularmente, como convinha à outra senhora.
Mas o tempo tudo muda.
A Bolacha Americana era doce e torradinha, redonda e de reticulado impresso. Porquê americana? Soava a Liberdade, mas não sabia a Liberdade.
Os vendedores de barquilhos, eram os homens da lata cilíndrica vermelha que transportavam às costas com uma espécie de roleta na tampa. Na marcha sobre a areia quente, ouvia-se também um olha a Língua da Sogra, neste caso sem adjectivos, como convinha. Não eram para matar a fome, esculpiam apenas a gulodice.
Eram muito semelhantes no açúcar e na consistência, mas esta parecia transportar algo entre brejeirice e anedotário. Virara espátula recurvada e longa, comida a dentadinhas demoradas.
Recentemente, na praia, vi um homem das Bolas de Berlim. Estava com os netos. Não pensei duas vezes. Chamamos e pedimos umas bolas, mas foi uma profunda desilusão. O homem não tinha bolas com creme e vendeu-nos umas algo secas, pela qual não obstante cobrou um euro por cada.
Afinal, a praia também mudou. Longe vão as Bolas de Berlim fresquinhas ou os caracóis, como apregoavam as mulheres fardadas de branco que, de manhã à noite, caminhavam na areia, com as caixas de lata à cabeça.
Não há mais cabo do mar, vendedores de barquilhos, nem o homem do Olhó Rajá Fresquinho, factos importantes, na praia da minha adolescência.
Sempre que aparecia, um mundo de gente pequena, abeirava-se dele. Era o Catitinha, figura típica e algo misteriosa, um homenzarrão velhote de longas barbas, que percorria as praias do país do Minho ao Algarve, brincava com os miúdos e tinha um apito para chamá-los. Nunca o vi pedir, mas também nunca o vi com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, possivelmente não faltava quem lhe tapasse a fome e o frio, porque todo já antes o tinham ouvido. Ninguém lhe pagava, ninguém lhe agradecia. Não estava muito tempo no mesmo sítio. De repente, sem que nada o fizesse prever, anunciava a partida, e lá ia. Vim a referenciá-lo, mais tarde, noutras terras, sobretudo da beira-mar. O Catitinha, para muitos, era uma instituição, um avô de todos. Desse tempo (minha pré adolescência), recordo que se dizia que a sua inquietude, que o levava a andar de terra em terra, como fugido de alguém ou da própria sombra, se devia ao facto de ter perdido uma filha, por atropelamento ou levada pelas ondas do mar. Muitas das coisas que se contavam acerca dele, nunca terão passado de mitos, que possivelmente até o próprio alimentou, a fim de manter aquela áurea de mistério que havia em redor da sua pessoa, o que lhe permitiria manter o seu modo de vida.   Mais tarde, vim a saber (?) que o Catitinha havia nascido em Torres Novas. Formou-se em Direito e exerceu a profissão de notário até ao dia em que morreu a única filha. Mas há quem defenda, possivelmente também sem grande rigor, que nunca se formou em Direito ou coisa parecida. Quando muito, teria o equivalente a instrução primária. Notário não foi, mas sim padeiro, entre outras profissões (até cavaleiro tauromáquico). É verdade (talvez a única) que a sua única filha morreu.                                                                                        
Em 1955, O Alcoa, de 22 de Setembro, na primeira página e com destaque, sob a epígrafe de Decência e Moralidade nas Praias-Escárnio da Autoridade e Inimigo da Pátria, alertava os leitores sob a pena de um tal M.J., exprimindo um forte grito de desabafo de um banhista da Nazaré, para o despertar da nova realidade de impudor que alastrava, parecendo que os homens entravam em competição desenfreada com as mulheres. (…) Como é possível isto em Portugal? E a nossa surpresa não tem limites, quando somos informados que neste nosso País existe lei, muito clara e categórica, que desce até à determinação da qualidade, dimensões, e locais de uso dos fatos de banho, não deixando de mencionar as graves penas em que incorrem os transgressores (…). Afinal para quê? Para que quem chegue verifique, que grande parte, talvez a maior parte dos banhistas, se apresentam na praia e até fora dela, desacatando as ordens legais e a autoridade. Efectivamente, fez-se tudo quanto podia para o desprestígio da autoridade e para sancionar o libérrimo reinado da tanga (…).
A vida muda, embora por momentos isso pareça acarretar desconforto.
Nos meses de Julho e Agosto já lã vão mais de cinquenta anos, era habitual ao Manuel de Sousa, ir com o irmão à praia da Nazaré. No final do dia era o grande momento do banho, quando a maior parte dos banhistas já enrolava as toalhas, se despia nas barracas às riscas, e o sol pintava no horizonte as suas cores de postal ilustrado. Iam para a Nazaré só depois do almoço, apanhando uma boleia pois de manhã ajudavam em casa.
Aos fins de semana, o Manuel e o irmão mais novo iam apertadinhos com os pais num pequeno Morris preto de duas portas, bem como o proeminente abdómen do amigo, o senhor Manuel eletricista, com que este enfrentava as vagas mais alterosas do mar no intuito, presumiam na sua ingenuidade, de o reduzir a estéticas proporções, não escapando entretanto, por isso, ao epíteto de barriguinhas, com que era o mimado. Nesses dias, iam de manhã, alugavam uma barraca, onde comiam o almoço levado de casa.
A meio da tarde, cumpridos os processos digestivos e metabólicos que aliviavam o estômago e por vezes os intestinos, Manuel e o irmão afilavam as orelhas tentando antecipar o pregão do homem dos gelados, Olh’ó Rajá fresquinho, olh’ó Rajá fresquinho, estão a chamar, a chamar por mim, mas eu já lá vou! Outras vezes eram as batatas fritas, comidas de permeio com os grãos de areia que a sofreguidão não deixava limpar das mãos. Ou ainda os barquilhos, também chamados língua da sogra. Estas são uma imagem mágica que Manuel de Sousa retém da infância e início da adolescência. A voz distorcida pela corneta despoletava nos garotos uma tentação irresistível, pais, avós, vizinha, não importava quem, alguém tinha que soltar uma moedinha para comprar língua da sogra. Ninguém sabia quando, nem donde saía o homem com a lata às costas e a corneta na boca. Manuel de Sousa sabia apenas que a lata era como uma arca do tesouro. Vestido de branco ao longo dos quilómetros da areia, o homem dos barquilhos, carregava suadamente o cilindro com roleta na tampa, que oferecia o acaso do número das bolachinhas cónicas, umas sobre as outras, no rodopio da palheta a raspar a gradinha. Barquilheiro! apregoava ele a prolongar a penúltima sílaba. A estas, havia direito em maior ou menor quantidade, conforme o número que a roleta situada na tampa do enorme balde vermelho de metal ditava. Qualquer que fosse o número da sorte, cada rodada custava cinco tostões. Manel e o irmão mais que uma vez pediam ao pai uma moedita, faziam girar a roda da sorte e saíam-lhes frequentemente, ao todo (a roleta não estaria viciada?), cinco barquilhos para os dois.
Os vendedores de gelados também eram uma constante na avenida marginal. Tocavam freneticamente a campainha do triciclo anunciando o gelado de vários paladares com um fruta ó chocolate.  O cone mais pequeno custava $50 e o maior um escudo.
Quase ao pôr-do-sol a família Sousa e o Manel electricista faziam o caminho inverso para Aljubarrota, muito bem apertados no Morris. A roupa encostada ao corpo queimado pelo sol, arranhava a pele do Manel, mas era uma gostosa sensação.
No próximo fim de semana, lá estariam todos, se Deus quiser e o tempo ajudar.




CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira





(III)




A GNR de Alcobaça, nos anos sessenta, como recorda o ex GNR Hermínio Martins de Oliveira, atualmente industrial, chegou a receber mandados para captura do Gen. Humberto Delgado, quando viesse à casa, que tinha na Cela Velha (13). Com esse objetivo chegaram a sair algumas patrulhas, integrando-se nelas o sold. Hermínio Oliveira. O Gen. Delgado foi visto a entrar ou sair da casa, mas, respeitando-o (sem perder de vista o sentido hierárquico e da autoridade), a patrulha da GNR nunca tomou qualquer iniciativa e ao regressar ao Posto, e tendo de apresentar o respectivo relatório escrito, fazia consignar que a pessoa em causa, não fora vista, nem encontrada. Estes mandatos, expedidos do Tribunal de Alcobaça, repetiam-se ciclicamente, mas, Hermínio Oliveira reclama-se de não ter tomado nenhuma atitude hostil relativamente ao Gen. Delgado, que apesar de ser um político da oposição, isto é contra a Situação que a GNR defendia, era considerado, antes do mais, uma pessoa de bem, afável, de respeito, um oficial general, uma autoridade importante.
Mas a GNR não procedia desta maneira respeitosa, para com toda a gente. Embora não fosse prática reconhecida/aprovada, a corporação utilizava, com frequência, meios musculados.
Conte-se um caso a título de mero exemplo.
Há mais de 50 anos, era conhecido na GNR da vila de Alcobaça, um indivíduo das redondezas, que embriagado, mas nem sempre, seviciava a mulher. Esta ia queixar-se ao Posto, e exibia as marcas negras no rosto, cabeça, tórax ou peito. A GNR, lavrava o auto e mandava-o para o Tribunal. A mulher perdoava-lhe até à próxima, que não demorava acontecer. Um dia, a mulher apareceu no Posto a contar (desvairada), que o marido tentara mete-la dentro do forno aceso, enquanto cozia o pão. A mulher salvou-se, ficou com os cabelos, rosto e roupa bastante chamuscados e em estado de choque. Trazido o marido ao Posto, foi mais uma vez enviado ao Tribunal (logo mimado), escoltado pelo sold. Hermínio Oliveira. O juiz após o ouvir o arguido, chamou o agente de parte, a quem disse para o levarem para o Posto, lhe fizessem justiça, depois o mandassem embora, pois que, quaisquer novas condenações, já não produziam efeito. A prisão, em vez de o endireitar, ainda o fazia mais malandro. Hermínio Oliveira percebeu a mensagem, levou o homem para o Posto, e apresentou o caso ao comandante Sarg. Barbosa. Este começou por pô-lo de joelhos e dar-lhe alguns safanões e tabefes, bem aviados. Em seguida, disse-lhe de dedo em riste que tomasse bem nota, pois que nunca mais a mulher apresentasse queixa no Posto e que para que isso não voltasse a acontecer, por via de dúvidas ele mudasse de Concelho, não mais chateasse a GNR de Alcobaça, nunca mais lhe batesse, pois que se ela lá voltasse não havia quem lhe valesse, ele ficava definitivamente estendido no chão. Ao ouvir isto, o homem tomou consciência da situação, saiu a correr do Posto com um valente pontapé no traseiro, perante a galhofa e uma assuada dos guardas, tanto que até as abas do casaco se abriam como as asas de um pombo. Remédio santo, nunca mais a mulher apareceu no Posto. O antigo GNR Oliveira, acrescentou que esses tratamentos eram eficazes, davam resultado, mas reconhece que hoje não podiam ser prescritos.
A cultura da bofetada tem vindo a cair em desuso, sem prejuízo de muito investigador considerar que a ameaça é, ainda, um excelente instrumento para sacar uma confissão mais difícil.
Voltando a Hermínio Oliveira, contou-me o caso do agricultor de Turquel que apresentou queixa que lhe tinham roubado duas vacas. O Posto, transmitiu a informação, por telégrafo, ao Comando Geral, em Lisboa, o qual, por sua vez, a difundiu pelos demais Postos do País, dando instruções para que, nas feiras de gado e matadouros fosse averiguado, se eram encontradas vacas, com as características que o queixoso tinha indicado. Na Feira da Malveira, cerca de uma semana depois, foram encontrados dois animais, com características muito semelhantes aos que tinham sido furtados em Turquel. Quando a GNR local se aproximou dos dois indivíduos que estavam com os animais e se preparavam para os vender, um deles conseguiu fugir, enquanto que o outro, foi segurado de imediato por populares. A GNR da Malveira, transmitiu a Alcobaça o que tinha ocorrido, que se encontrava detido um indivíduo, pelo que seria conveniente, que o queixoso se deslocasse lá, para confirmar a situação e reconhecer o gado. O turquelense reconheceu o gado, e a chorar de alegria, alugou uma camioneta para o trazer de volta. O detido veio com a GNR para Alcobaça e chegado, iniciou-se o interrogatório pelo Sarg. Barbosa, que previamente fungou e arregaçou as mangas. O homem começou por defender-se, dizendo que os animais tinham sido comprados por ele e um amigo, a um cigano que não conheciam, etc, etc.. Como o Sarg. Barbosa não ficasse convencido, o homem continuou detido no Posto, onde durante o dia ia sendo interrogado mais ou menos musculadamente, às refeições comia o que vinha do Asilo em marmitas de alumínio, à noite era mandado para o calabouço, aonde apenas havia um estrado em madeira, sem colchão, lençóis e com um simples cobertor. Instalações sanitárias não havia. Barba não podia fazer e, para o resto, havia apenas um balde, que exalava um odor nauseabundo. Ao fim de duas noites, cerca das 2 da manhã, o homem cedeu, dizendo ao guarda de plantão para chamar o Comandante, pois que a manter-se mais tempo naquela situação, não aguentaria, acabaria por morrer, pelo que se dispunha a confessar tudo o que se tinha passado.
Os portugueses, há quarenta e tal anos ou mais, eram educados num modelo sociopsicológico de uma pretensa autoridade. Os pais podiam castigar os filhos, com mais ou menos pretextos, e definir a educação académico-escolar das filhas. E as esposas levavam também mimos, bofetadas, murros ou pontapés, com ou sem maridos alcoolizados. As polícias usavam informadores, muitos deles voluntários e não remunerados, padres incluídos, e o cassetete ou coronhadas. Quem fosse preso, político ou não, arriscava-se a ficar em maus lençóis, sendo que nos calabouços, nem lençóis havia. A lógica da subserviência, actuação e o medo da polícia, mantinham as pessoas cordatas, sensatas, em suma, prudentes como desejava o regime.
As cartas, escritas pela mão dos próprios ou a rogo (havia os escribas profissionais), terminavam com a sacramental expressão De V. Exª, atento, venerador e muito obrigado. Os ofícios administrativos ou os requerimentos em papel selado de 25 linhas, encerravam com um a Bem da Nação.
No futebol, para a missa do domingo e por vezes na praia, os homens usavam chapéu (boné), casaco e gravata. As mulheres não dispensavam véu e uma mantilha sobre a cabeça. Na praia o fato duas peças era proibido, sujeito a multa pelo severo cabo do mar, como vimos.
Nos velórios, normalmente na sala principal da casa, falava-se num sussurro condizente com a pouco luz, como também com os superiores.
A esposa devia obediência ao marido, recebia mesada para as despesas da casa, não podia exercer comércio, abrir conta bancária ou sair para o estrangeiro, sem expressa autorização. Manda quem pode, obedece quem deve, o respeitinho é muito bonito, dobre a língua, se soubesses quanto custa mandar só querias obedecer. Deus, Pátria, Família, era uma santa trindade, que poucos ousavam questionar à luz do dia. E, por vezes, nem mesmo às escuras.
Os valores que o Estado Novo procurava inculcar, obediência, resignação, caridade, constituíam verdades eternas e imutáveis, que a Igreja vinha ensinando. A doutrina era aparentemente a mesma. Deus é omnipotente e todo o poder reside e deriva d’Ele. Por Sua vontade, Salazar presidia aos destinos do País. Obedecer ao Chefe escolhido pelo Senhor, como o Cardeal Cerejeira insistia em salientar, era uma forma de obedecer a Deus. De acordo com a cartilha do Estado Novo, a obediência encontrava-se no centro das virtudes, ao mesmo tempo que se fazia sentir o honroso orgulho de se ser filho da Pátria de Gama ou Camões, ressurgida pelo Estado Novo. Basta reler o Livro de Leitura da 1ª Classe, para verificar a ênfase posta na obediência: É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obedecer às autoridades. Aos olhos do Estado Novo, a obediência ocupava o eixo das virtudes e deveres.
Tudo isto era expressão de um estruturado pensamento, de acordo com um modelo autoritário e hierarquizado. A geração do pós II Guerra, cresceu e educou-se, de acordo com esse paradigma. Mesmo quando alguns se afastavam para enfrentar Deus (abandonando o sacerdócio), a Pátria (indo para o estrangeiro), ou a Família (divórcio), logo tinham de se aninhar no regaço protetor de grupos, afinal com uma matriz tão forte como a dos que mandavam no País. A emancipação da mulher, a homossexualidade (intoleradas), o divórcio, mesmo nos casamentos civis, eram apenas tolerados, tanto pela Situação, como pela Oposição.
Não havia homens livres em Portugal?
Claro que houve sempre homens livres, espíritos com pendor anarquista, resistentes que não aceitavam integrar-se em nenhum tipo de manada. Mas eram poucos, eram ostracizados, eram considerados suspeitos, recusavam obedecer como carneiros, numa palavra, eram incapazes de vergar a cerviz perante quem mandava, fosse quem fosse. Por isso não eram de confiança. O adulto agressor (entre eles a chamada autoridade) é um cobarde que provavelmente o desconhece, que se vinga nos fracos do que sofreu dos fortes, logo que se tornou forte que baste para ficar impune. Ao agredir um fraco, vinga-se de tudo o que aguentou e calou, do que teve de engolir em humilhação e em dor.
Numa sociedade deste tipo, não se podia dizer alto e frontalmente certas coisas (embora há quem diga que na nossa democracia do século XXI isso também acontece mesmo em quem tem o cartão do partido)), a menos que se falasse a partir de uma posição de autoridade.
O povo sabia ser manhoso, elogiar pela frente o superior para depois o desfazer pelas costas, ser cínico, no máximo sarcástico, não revelar ódio, ter medo da sombra, de dobrar uma esquina, de sair ao luar e até expor-se à luz do sol. Isso criava uma cultura de simulação, de ocultação de sentimentos, de salamaleques e de aparente solidariedade, em que tudo era permitido, desde que se não se tocasse na autoridade, se não se exprimissem sentimentos fortes, se não se chamassem os bois pelos verdadeiros nomes.
A intriga, a maledicência, a inveja reinam impunes. Até que, rastejando, lambendo botas, dobrando a espinha, dizendo que sim, que sim, com respeitinho, atento, venerador e obrigado, se consiga chegar a uma posição de autoridade. Então é o momento por tanto ansiado: poder fazer aos outros o que lhe fizeram a ele, no que é uma curiosa maneira de aplicar a máxima evangélica.
Estado Novo e Povo PortuguêsO Estado Novo apresentava-se como o verdadeiro intérprete da Nação. A exemplo das demais ditaduras europeias do século XX, ensaiou uma tentativa de materializar uma essência mítica nacional. Assumindo a necessidade de restaurar a Alma da Pátria, o regime lançou-se na apologia dos valores nacionais, supostamente contidos nos hábitos e costumes ancestrais. A mitificação do ser português, pobre, mas honrado, e dos seus traços heróicos, encontrava fundamento, ainda que forçado, na História: a Reconquista, os Descobrimentos, a Restauração. A postura autoritária do Estado Novo explica-se, a partir da sua visão infantilizadora do povo português. O estoicismo e a capacidade de sofrimento dos portugueses eram acompanhados de uma alegada ou pretensa incapacidade de decisão, de viver em liberdade, de uma tendência natural para a obediência e passividade. O poder reconhecia, a contragosto, a existência de alguns portugueses virados do avesso, segundo uma expressão da época, que incompreensivelmente recusavam, a ordem, a tradição e a estabilidade que o regime, benevolamente, conferia.
Quando a fome apertava na lide do campo, fazia-se uma pausa para a merenda, normalmente broa e sardinha.
Na agricultura não havia semana-inglesa, muito menos americana, direito de que nunca se ouvira falar (reclamado pelos comunas), que seria sempre considerado uma modernice, sem viabilidade no país. Só não se trabalhava ao Domingo, pois de manhã havia que ir à missa e se usava roupa diferente. Domingo não era Domingo sem missa em latim e sermão, ameaçando com as penas do Inferno, como se na terra ele já não o houvesse. A ruralidade era tão dura que a Igreja parecia ajudar a esconder os períodos difíceis dos mais necessitados.
Como poderia haver castigo depois da morte?, interrogavam-se alguns mais arrojados e não necessariamente femininamente beatos.
Sem entrar em terrenos complicados, sou de opinião que, neste século XXI, Inferno e Paraíso são metáforas, pois não creio que Deus na sua infinita sabedoria, tenha criado um Universo em que coexistem domínios terrenos e ultra-terrenos. Não é possível compatibilizar Fé com um Deus que anula o Homem. Também discordo que seja entendido, proposto pela Igreja ou Sacerdotes, que a vida é uma peregrinação rumo a Deus, como entenderia Dante (mas isso foi na Idade Média), se bem o interpretamos.
Passe aqui um breve parêntesis. A relação com Deus, decorre de uma pessoa que se assume ou supõe religiosa, não tanto necessariamente no sentido de pertencer a esta ou aquela confissão, mas porque a ideia de Deus lhe parece óbvia.
Quem pode rejeitar que as religiões (sem exclusão do Cristianismo) trouxeram ao mundo um rol de barbaridades, superstições, guerras e mesmo infantilismo? Mas não, o mundo não seria possível, nem mesmo melhor, sem religiões, pois a indignidade não está nelas, mas nos crentes ou agentes que delas se servem de modo rasteiro, nalguns casos blasfemo, pelos propósitos desumanos.
O Domingo era ainda dias/motivo/pretexto para tomar banho, vestir roupa lavada, ver e ser visto, para os rapazes ou mesmo os homens feitos, lançar olhares ao mulherio.
Da parte de tarde, os homens voltavam à taberna, onde é que haveria de ser? para entre uns copos de branco ou tinto, por a conversa em dia, jogar o chinquilho ao perde-pagas. Se o vinho atrapalhava o negócio, deixava-se este, como sentenciava o Domingos Felizardo. Talvez isso, tivesse criado a fama de ninguém ter mais sede que ele. Claro que quando apanhava uma carraspana eram depois três dias de descanso, como sabiam o patrão e a mulher, que no princípio ficava desesperada e depois se habituou.
As mulheres aproveitavam a tarde para tratar da lide da casa. Bailes, só pelo Carnaval, Santos Populares ou Santa Marta (Montes) (14), estando as moças vigiados de perto pelas mães.
Se se pensar bem, os sentimentos que hoje em dia tanto atrapalham a felicidade, também existiam, mas o Regime encarregava-se paternalmente de conferir aos acontecimentos as devidas proporções, como se não houvesse capacidade individual ou colectiva para digerir momentos difíceis. Sem dúvida que se vivia, lado a lado, com perguntas para as quais não era dada resposta, mas deveria haver. Como muitos portugueses na sua pouca instrução, José Machado não exprimia, por palavras, o turbilhão de sentires, e se o conseguisse ou soubesse fazer, era mais que normal que o Poder (com quem nunca privou) não lhe desse grande relevância ou dedicasse um vago olhar distraído.
Beber vinho é contribuir para o pão de um milhão de portugueses, foi o slogan integrado na campanha ao consumo de vinho, patrocinada pela JNV, pelo Grémio dos Armazenistas de Vinho e com o apoio publicitário do governo.
Essa campanha continha contradições, nunca resolvidas. Desde sempre, houve em Portugal um conflito entre a opção pão e vinho. A questão não era pacífica, pois se no pão seria necessário aumentar a produção de modo a satisfazer as necessidades, no vinho a colheita normalmente ultrapassava as necessidades internas, acarretando o problema do destino dos excedentes.
Na zona de Montes, Coz, Castanheira ou Alpedriz, o vinho era quase só o tinto. O branco era de bica aberta. Isto é, em fins de Setembro ou Outubro, espremiam-se as uvas no esmagador. O mosto, só ele, ia depois para uma vasilha grande, a fim de fermentar até Março, altura em que era transferido para uma outra vasilha limpa. O vinho aparecia então claro, limpo, e com bastante graduação, por vezes 18º, o que impunha que fosse desdobrado. Este vinho era frequentemente aproveitado para água-pé, que também chegava a atingir uns bons 14º.
Nas vindimas, num ambiente quase festivo, trabalhava toda a gente da terra, as mulheres na apanha das uvas, os homens a carregar os cestos para os carros de bois, com eixos das rodas e chumaceiras de madeira, até às tinas das adegas. Até há alguns anos, a Adiafa (15) era a festa popular do fim das vindimas ou das colheitas, uma época em que trabalhadores e patrões confraternizavam Hoje em dia, a Adiafa é uma mera recordação ou uma promoção turística, uma manifestação para ajudar a manter a memória da cultura e os antigos costumes que teimam resistir à mudança dos valores sociais. Alguns proprietários mais importantes, cumpriam a Adiafa, com um jantar melhorado com o pessoal, aonde estavam presentes a carne de porco, e filhoses.
  

CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira





(IV)



As festividades, em honra de Stª Marta (Montes), começavam a manifestar-se alguns dias antes. Os festeiros iniciavam com antecedência a colocação dos arcos que enfeitavam parte das ruas onde iria passar a procissão. Os andores enfeitados e os estandartes eram colocados atempadamente nos respetivos lugares, para depois saírem.  
As festas populares, as romarias do antigamente, eram importantes para manter viva a moral e os bons costumes. Penitência, devoção e algum divertimento controlado (umas pequenas rixas ou algazarras, fruto de uns copos, divertimento mais ou menos aceitável aos homens), inseriam-se na exaltação de um ruralismo, que não devia fazer perigar o trabalho do dia seguinte. Como festa verdadeiramente tradicional, a Santa Marta constava de duas partes. Muitas vezes, e hoje cada vez mais, misturavam-se os interesses profanos com os valores religiosos. A religiosa, com missa e sermão, seguida de procissão, e a parte profana, com os almoços e jantares para a família e convidados. E claro, não faltava o foguetório. A banda de música, a abrilhantar a procissão e os conjuntos, eram motivo para o baile animado. Dita a missa e ouvido o sermão, por um pregador convidado e especializado, sobre uma temática, ou na que melhor evangelizará os crentes, chamando ao sentimento, os montenses preparavam-se para a procissão. A procissão saía para o adro. Organizavam-se os andores e estandartes, segundo uma ordem tradicional, que ninguém ousava contestar. Na procissão, ocupava um lugar de destaque o pálio, os andores dos santos e os estandartes religiosos. As opas coloridas, muitas vezes azuis celestes, equilibravam a plataforma onde iam as imagens. Os transportadores aprontavam-se para o andamento ritmado ou livre pelas ruas. Iniciava-se a procissão com alguns cânticos religiosos. De seguida a Banda, dava os acordes, próprios do sacro momento. Na época das festas religiosas populares de Alcobaça, muitas comunidades davam grande importância à procissão da festa. Quase sempre as procissões tinham mais afluência do que a solene Eucaristia.
Ouvi algumas pessoas, hoje idosas (e não apenas mulheres de missas), dizer que o contacto com uma procissão, constituiu em determinado momento um despertar da Fé. Descobriram uma dimensão oculta ou esquecida, viram ou intuíram a dimensão transcendente da precária vida humana.
De facto, as procissões tradicionais conferiam visibilidade à Fé, situavam-se na pedagogia da Encarnação, pela qual a humanidade de Cristo deu visibilidade ao mistério de Deus. A Fé precisa de sinais visíveis que se manifestem em imagens, o mistério invisível em que se acredita. Os meus olhos viram a salvação, exclamou o velho Simeão, quando recebeu o Menino Jesus no Templo. Numa civilização como a nossa, que tradicionalmente tem privilegiado a imagem, as pessoas precisam de ver. Não basta ouvir o anúncio do Evangelho, pois a Palavra da Verdade precisa do apoio de elementos visíveis, que a tornem concreta e relacionada com a vida. Encontramos essa pedagogia muito propriamente no Novo Testamento. O anúncio do Evangelho foi acompanhado de sinais (gestos, curas, estilo de vida de Jesus e Apóstolos) que confirmaram e deram visibilidade à palavra.
As janelas e varandas das casas encontravam-se engalanadas com as melhores colgaduras das arcas encoiradas, retiradas das arcas. Algumas senhoras deitavam pétalas, à passagem do andor. Hoje, em geral, não se fazem, nem pagam promessas. Se, antes do 25 de Abril, as havia com frequência, eram feitas normalmente por soldados regressados ou ainda no Ultramar.
As raparigas recortavam papéis coloridos, para engalanarem as ruas ou ornamentarem os andores, colados com farinha de trigo. Os rapazes pediam para a festa, indo até às redondezes. As Bandas de Pataias ou a da Maiorga, umas vezes com mais, outras com menos elementos, tocavam a acompanhar o peditório e o foguetório. No tempo em que o poder económico da gente do campo, não consentia excessos ou folias, a festa profana tinha as suas limitações. O peditório, pelas casas de família, nunca foi todavia decisivo para os festeiros. Mas, a festa era uma animação para adultos e para crianças. Propiciava divertimentos e sinais, aparentes, momentâneos pelo menos, de algum desafogo. A criançada, ansiava pela festa da Stª Marta, pois era a altura de receber uns trocos dos pais ou padrinhos, comprar umas bugigangas ou um doce nas doceiras, que frequentavam o arraial. Para quem o viveu,  lembra-se que, nesses dias (há mais de 50 anos), receber 2$00 ou 2$50, era uma excelente prenda, que dava para extravagâncias ou excessos, que não se podiam repetir ao longo do ano. Todos os caminhos iam dar ao largo da Igreja. Faziam-se cumprimentos e punha-se a conversa em dia. No Domingo, após os preparativos caseiros, escolhidas as melhores vestimentas (a apresentação é também um ponto de honra), as famílias preparavam-se para a função, comandadas pelo pai. No recinto, encontravam-se as barracas de tiro ao alvo, dos furinhos, sendo muito procurada aquela que tinha uma pirâmide de latas para deitar abaixo, usando-se bolas de trapos.
O bar ficava pronto a servir copos e tremoços. As rifas, as quermesses estão expostas e e correr. Os festeiros fazem publicidade, incitando à compra. O conjunto iniciava os acordes para animar o pessoal. A briga também tinha o seu momento, quando os forasteiros, no bailarico iam, em ares de provocação, convidar as moças da terra para dançar. Estas, salvo raras exceções, só dançavam e namoricavam com os rapazes da terra.
Festa rija, sem insultos, bordoada não tinha graça, mesmo sem necessidade do varapau, pois, sem isso no ano seguinte, ninguém se lembrava da anterior. Mas momento importante, importante mesmo, era quando chegavam os prestimosos, sorridentes e corteses ourives ambulantes, como o Maneca do Ouro, dos Leitões, lugar perto de Cantanhede, abrindo os expositores em malotes de madeira verde, com anéis, brincos, pulseiras, ouro faiscante, ou pelo menos prata. Senhores e Senhores, o metal é o bem mais importante, que mais se valoriza e duradouro que existe, assegurava, jurando pela alma da mãe, tudo ter os anunciados quilates de lei e os contrastes de garantia, ao mesmo tempo que falava das dificuldades e carestia da vida. As mulheres gostavam muito de sentir nas mãos o peso do ouro, que ele lhes passava na esperança de as entusiasmar, ganhar umas notas, que ainda o iriam fazer sorrir e ser mais gentil. Mas o povo, que não tinha direito a reforma, nem a gozar férias, que para se divertir bebia um copo e comia tremoços e pevides, como poderia comprar ouro? Mas a verdade é que comprava, pois ficava bem, era um enraizado hábito, uma necessidade ancestral de herdar e passar aos filhos…
O ouro para muita gente está ligado a amuletos. Os amuletos, assentam no princípio de que tudo o que é mau é proveniente de seres sobrenaturais, com enorme poder, capazes de produzir s mais variado efeitos, doenças e males. Para quem acredita, os amuletos, actuam repelindo os espíritos que atormentam os vivos e aos bons trazem benesses.
O amuleto é segundo a tradição popular um instrumento de carácter passivo, que protege contra os males e perigos, mas também instrumento  ativo, que produz efeitos maléficos a quem se quer mal. O feitiço é afinal um elemento do mafarrico que atua, tanto para o bem, como para o mal. Figas, cruzes de David, elefantes com a tromba para baixo ou para cima, ferraduras, trevos de 4 folhas, trezes, corcundas, quartos de lua, patas de coelho, cornos de animais, budas, olhos, um sem fim de objetos semelhantes, são exemplos de amuletos.
A cor amarela do ouro, como a do sol, sempre fascinou e deslumbrou a humanidade. Com frequência, tudo o que rodeava o homem e não se conseguia explicar, pelas benesses ou males que acarretavam, era objeto de veneração.
Para alguns povos antigos, o local do nascimento do sol era considerado como a Casa de Deus. O ouro, pela semelhança com a cor do sol, era tido como parte do corpo de Deus, venerado como tal. O sol na sua rotação nascente-poente, ia semeando bocados do seu corpo, criando a convicção  de ser esta  a origem do ouro, que por isso era adorado e guardado, não como mero pecúlio económico, mas como objeto sagrado. Sendo divina a essência do ouro, grande parte das divindades orientais, incluindo o Buda, são recamadas a ouro, o mesmo acontecendo com os santos, altares e paramentos dos dignitários  da religião católica.
A gente das nossas aldeias, quase sempre rejeitou o ouro polido, avermelhado, e quando o ourives argumentava para a venda de artefactos com esta cor, a resposta saía de imediato, esse não é o ouro que queremos. A cor natural do ouro não é a vermelha, branca, esverdeada, mas sim a amarela e vem daí a tradicional preferência do povo. O amarelo é talvez a mais ardente das cores e os raios rasgam o azul do céu manifestando o poder dos Deuses.
E os homens para compensar o que haviam gasto com as mulheres, reuniam-se no bar do arraial, na adega ou na taberna, pois a sede ao fim da tarde é sempre muita. Não há dia de festa sem copos, nunca é cedo para começar, nem tarde para acabar. Bebidos uns copos de tinto ou mesmo de água-pé, vinham para a rua e viravam-se contra uma parede, para satisfazer uma premente necessidade. A hora do jantar chegou e com ela um momento de coesão e solidariedade social e familiar. Pelas 22 horas, o conjunto retomava a função. As ruas são novamente ponto de encontro, a festa prolonga-se até às tantas. É povo que trabalha e reza, povo que ama, folga e se diverte como e quando pode. Após garantir o sustento, após orar e agradecer à divindade, o montense /alcobacense/ português dava largas ao seu ludismo, expandia os impulsos, entregava-se à diversão e à folia possíveis. Assumindo até certo ponto uma função de escape ao quotidiano da aldeia, o bailarico permitia, a aproximação entre os sexos e era, por isso, momento bem apetecido pela mocidade. Desde sempre foi assim e, exceptuando as danças rituais, as danças populares tiveram e têm essa finalidade. Função socialmente importante nas comunidades rurais, como os Montes, muito fechadas e pouco permissivas, onde a pressão social se fazia sentir, com rigor. Assim, as ocasiões eram aproveitadas pela mocidade (mas não só) para amar a bailação. As festas e os círios vinham em primeiro lugar, depois, os casamentos, as sortes, as feiras e mercados, as descamisadas do milho, a adiafa, a Santa Marta, o Carnaval.
José Bento Ramos Montes, director interino do efémero jornal Voz dos Montes, escreveu em 1925, a partir de Lisboa, um texto interessante sobre o S. Vicente (janeiro/fevereiro), que vou transcrever em parte.
No sábado, como de costume foram precedidas estas festas de uma fogueira feita no largo fronteiro à Igreja, que principiou as 9 horas da noite. Em redor juntaram-se grupos de rapazes e raparigas, tocando e cantando as suas modas regionais que se prolongaram pela noite fora. Domingo, logo de manhã fomos despertados pelos morteiros, anunciando a alvorada, dando as salvas do estilo, percorrendo a filarmónica da Maiorga as ruas da terra, tocando algumas peças do seu vasto repertório. Ao meio dia toda a gente se dirige para a capela, dando-se início à cerimónia religiosa. Pregou a meio da missa um brilhantíssimo sermão, o reverendo desta freguesia senhor António Ferreira, que foi ouvido no meio do mais completo silêncio e atenção de todos os crentes que enchiam por completo o templo. O sermão, embora dentro da filosofia e dos preceitos da religião, foi revestido de um carácter moralizador e muitos dos que julgam desnecessária a fé e a religião num povo, tirariam dele bons proveitos. Às 2 da tarde, saiu a procissão percorrendo as ruas que circundam a Igreja, levando os andores da Senhora da Conceição, Coração de Jesus, Santa Marta e S. Vicente, incorporando-se nela todo o povo da terra e inúmeros forasteiros das povoações próximas. Terminada a procissão que decorreu na melhor ordem, foi executado um concerto pela Filarmónica da Maiorga, havendo danças, venda de fogaças, etc.. À noite queimou-se um vistoso fogo-de-artifício, terminando assim as festas sem facto algum desagradável e com completa satisfação de todos.
Alguns padres sabiam, quem melhor que eles?, que este mundo é um inferno, mas nem por isso prescindiam de ameaçar o povo com outro inferno. Bom seria que, em lugar de tanta moralização, ensinassem digo eu, os portugueses a sair dele.
Na engorda dos animais, utilizavam-se produtos da horta, frutas e sobejos. Na sociedade rural dos tempos da II Guerra e até meados do século passado, não existiam desperdícios. Tudo se aproveitava e tudo se transformava. Eram os sobejos destinados à preparação da vianda para os porcos que incluía, as águas das primeiras lavagens da loiça ou de lavagens de utensílios que tivessem tido matérias gordas, a lavadura. Os desperdícios resultantes da preparação dos alimentos, como couves amarelas e bichadas, cascas de batatas, de feijão, nabo, abóbora, cenoura, fruta, e de espécies espontâneas, os eventuais excessos de produtos da horta ou fruta, também serviam de alimentação como cereais, em grão ou farinha, como o milho e favas. Toda a vianda era preparada com muita água e sal. O azeite era conservado em talhas de barro vidrado.
A aguardente fazia-se do bagulho das uvas. Quando não era para vender guardava-se em garrafões de 5 e 10 litros e feita em alambique de cobre, como em casa do meu sogro Dr. Amílcar Magalhães que tinha um semi-industrial, que alguns vizinhos também utilizavam, no quadro de uma modalidade ancestral.
Também se salgava o peixe. Neste caso, amanhado ele e retiradas as escamas, numa operação à unha, em sentido contrário à sua posição natural ou normal, ia para a salga. O Ti’ Alfredo da Bonifácia, recorda um costume antigo de Coz, Montes e Alpedriz. Havia muitos texugos que estragavam as culturas, pelo que quem caçasse um, ia de porta em porta mostrar a façanha e pedir um contributo para o esforçado trabalho em prol da comunidade.
O alcoolismo era um problema de saúde e social, enraizado, mas encarado de uma forma equívoca. As crianças em zonas de vinho, a partir dos oito ou nove anos já o consumiam com a anuência dos pais, desde logo ao pequeno-almoço, na forma do mata-bicho ou sopas de cavalo cansado.
Altino da Cunha Ribeiro, falecido há uns dois anos, contava a história de um homem de Alpedriz, tão velho quantos os cerca de 90 anos, trabalhador rural de enxada, grande bebedor de vinho tinto (branco nunca!) e que jamais estivera doente. Por vezes bebia tanto que caía na valeta, onde era socorrido por um passante, que lhe atirava com um balde de água à cabeça. Havia até quem dissesse (malevolamente?) que nessas ocasiões, a fermentação do vinho no estômago, fazia com que deitasse vapor ou fumo pela boca. Um dia o homem encontrava-se parado à porta da fábrica de Altino, a comer toucinho crú salgado, acompanhado de pão e, claro, de uma garrafa de vinho tinto, que levava directamente à boca.
-Oh senhor António, você está a matar-se!
-Porquê, senhor Altino?
-Um homem da sua idade, a comer toucinho cru, quer-se matar…
-Olhe que não, senhor Altino, daqui vou à taberna da Hermínia, bebo mais um copo e desinfecto a mánica.
Mas também recordo de ouvir contar a história do Ti’ Manel que se gabava de nunca ter ido a um médico, ou ter uma dor de cabeça em oitenta anos. O mata-bicho era uma inevitavelmente uma aguardente de bagaço, que bebia de um trago.
Solteiro, Ti´Manel não tinha descendentes diretos, vivia com uma prima solteira, de trinta e muitos anos. Costumava levantar-se cedo por uma questão de hábito, logo ao alvorecer, era o primeiro a chegar à taberna, onde o ZéManel lhe servia o mata-bicho do costume, já sem necessidade de pedir. Um dia a prima estranhou o tio não se levantar à hora habitual e, preocupada, foi indagar o que se passava. Encontrou-o ainda na cama. Mau sinal mesmo, muito mau.
-Está doente, primo?
-Não sei o que tenho p’riga, respondeu o velhote numa voz rouca e abafada, o que a deixou ainda mais preocupada.
Perplexa, chamou um carro de praça e sem hesitar levou o primo ao médico, apesar da despesa. Este auscultou-o e perante a constatação que Ti’ Manel, especialmente de manhã, gostava do mata-bicho (afirmação quase desnecessária, por notória), proibiu de imediato o consumo. O homem regressou casa ainda mais abatido, não se conformando com tão drástica prescrição, assumindo intimamente a vontade de a não cumprir. A prima, ajudada por uns vizinhos, conseguiu a muito custo, porém, faze-lo cumprir. Mas dia após dia, o homem ia mirrando, pelo que a rapariga depois de ouvir a opinião de algumas pessoas não resistiu a um pedido.
-P’riga, a última coisa que peço é que me vás comprar uma garrafa de aguardente.
A prima não conseguiu dizer-lhe que não, pelo que foi à taberna do Zé Manel comprar a tão desejada aguardente.
O velho bebedola bebeu sofregamente a almejada aguardente e, para espanto da prima e dos vizinhos, começou a melhorar rapidamente, pelo que a partir do terceiro ou quarto dia, já saía à rua, havia retomado os hábitos normais, passando a ir de manhã à taberna, como o fizera em toda a vida. Morreu no ano em que iria fazer noventa anos.

  
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PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira



(IV)



A saída em massa das populações rurais para outros países ou para a cidade, a procura de melhores condições de vida, acabou por deixar muitas aldeias portuguesas quase desertas. Entretanto e apesar de tardiamente, chegou a luz eléctrica, os automóveis e as máquinas agrícolas (mecanizadas). Os trabalhos do campo passaram a ser mais facilitados, os bailes passaram a ser animados pelos conjuntos musicais, as famílias passaram a reunir-se em casa, em volta da televisão. A região desenvolveu-se, a qualidade de vida aumentou, mas perderam-se valores como o comunitarismo e a entreajuda. Quem não se lembra de uma bonita história, bonita, contada pelos pais ou avós? Histórias que de boca em boca, foram passando através das gerações, e assim viajavam pelo mundo, se entrelaçavam, se modificavam e seguiam o seu caminho, eternizando-se. Em cada família, havia um contador de histórias. Quem conta histórias na família? Que tipo de histórias ainda se se prefere?
É por isso que António Curado, jornaleiro assumido, considera que, cada vez mais, faz sentido continuar a preservar a nossa cultura e tradição, embora acredite que, para as novas gerações, seja cada vez mais difícil compreender o seu lado afectivo e sentimental. Não são saudades, da dureza do trabalho ou da pobreza. Não são saudades dos tempos em que as pessoas ficavam isoladas pelo mau tempo e a chuva se infiltrava com o vento pelos telhados da casa de pedra. Os jovens, falam das vantagens dos shoppings da cidade, Leiria, Caldas ou Lisboa, esses que provavelmente se poderem irão também, em busca de uma melhor vida. Pela terreola, vão ficando os mais velhos, com as suas recordações que, a não serem preservadas, um dia se perderão.
Sou hoje em dia algo nostálgico, segundo diz a minha Mulher Ana, o que é verdade e talvez relativamente normal. Até pareço ter saudades de um tempo que não vivi. Será possível ter saudades do tempo em que havia gosto em fazer em que as pessoas andavam de carro eléctrico e se dava milho aos pombos nos jardins públicos?
Tenho saudade do tempo em que se escrevia com uma caneta de aparo. Tenho, passado por papelarias e apreciado a montra, fixando o olhar em elegantes conjuntos de canetas de aparo, tinteiros e folhas de papel muito bonitas (normalmente para oferecer), como se viessem de um tempo muito distante. Porém, até que me decida a gastar algum dinheiro, mal gasto diriam os filhos…, para comprar um conjunto destes que, provavelmente, ficaria quieto durante meses a fio, utilizo a prosaica BIC ou o computador.
O cinema ambulante está absolutamente fora de moda, poder-se-á mesmo dizer que morreu. Há algum tempo o Diário de Noticias publicou uma reportagem interessante sobre um dos últimos projecionistas ambulantes, a trabalhar em Portugal. Aos 68 anos, continuava a levar o cinema às costas, pelo Alentejo,
Concomitantemente à eleição de Craveiro Lopes para a Presidência da República, O Alcoa, na primeira página de 2 de Agosto de 1951, defendia expressivamente que (…) através do cinema imoral, a juventude operária é docemente explorada por empresários sem escrúpulos que, aproveitando inteligentemente as preferências dos jovens, organizam programas-monstros, que lhes enchem as casas e os cofres. Com espectáculos suculentos de pornografia, crimes, imoralidades e violências, atraem facilmente os jovens. Os cartazes de reclame são, como é natural, a amostra mais convidativa, à maneira de forte aperitivo (…).
Mesmo assim, em 1955, quando arrancou a Campanha Nacional de Educação de Adultos- onde se utilizou o cinema em salas próprias ou ambulante para ajudar à alfabetização, é o próprio CNEA que refere que muitas das pessoas das localidades visitadas, nunca tinham visto cinema.
Lauro António escreveu que a primeira indicação da existência em Portugal de uma censura cinematográfica, data de 1919. Referindo-se a um Decreto de 1917, a Secretaria da Guerra, informou o País que o filme Os Últimos Acontecimentos no Norte do País, cujo tema era as tentativas de restauração de A Monarquia do Norte, estava autorizado a ser exibido. Ainda nos anos finais da I República surgiram dois Decretos, um em 1925 e outro no início de 1926, que proibiram, e regularam a legislação sobre filmes, contra a moral oficial.
Em plena Ditadura Militar, ainda antes da ascensão de Salazar ao poder, foi publicado o Dec. Lei nº 13564, de Maio de 1927, que irá influenciar o visionamento dos filmes pela Censura. Esta lei, onde se incluía a referência à metragem mínima de 100 metros, obrigava à inscrição dos tradutores, importadores e produtores de películas cinematográficas, bem como a comunicação dos novos filmes e locais de estreia. Como se apontou supra, a actividade da censura não era anterior à estreia do filme, mas sim posterior, deixando-se ao arbítrio dos empresários o seu cumprimento. Arbítrio condicionado pela Ditadura, que tinha o seu específico conceito de fitas perniciosas à educação, de incitamento ao crime, atentatórias da moral e do regime político e social, vigentes. Da mesma forma, eram passíveis de censura as cenas que mostrassem maus tratos a mulheres, torturas a homens e animais, personagens nuas, bailes lascivos, operações cirúrgicas, execuções capitais, bordéis, sexo e homicídios. Bem como episódios de roubo com arrombamento ou violação de domicílio, sempre que estes fossem passíveis de ensinar os respetivos modos de actuação. Estas matérias ficavam sob a alçada da Inspecção-Geral dos Teatros, dependente do Ministério da Instrução Pública.
Em 1929, a IGT passou a depender do Ministério do Interior a quem cabia a censura de obras teatrais, fitas cinematográficas e tudo o mais que fosse conducente à eficiência da fiscalização dos espectáculos.
Dez anos mais tarde, estes serviços foram reorganizados e, em 1944, passaram a fazer parte do Secretariado Nacional de Informação. Um ano depois, foi instituída uma Comissão de Censura, abrangendo a censura teatral e cinematográfica. Esta Comissão era constituída pelo Secretário-Geral do Ministério (presidente), pelo Inspector dos Espectáculos (vice-presidente), nove vogais e um secretário. O SNI estava representado através de três delegados.
Em 1948, ficou definido que qualquer tipo de exibição, só seria possível após a atribuição de uma Licença de Exibição, dependente de um visto prévio da Censura. Foi a institucionalização do controlo, a legislação sobre a criação de salas de cinema e a segmentação etária dos filmes. António Ferro, que segundo se diz nunca admirou por princípio a censura, mas não a combateu, encaixou os desejos e justificações de Salazar, talvez por também servir os seus propósitos. Quando ainda não era o mentor da propaganda do Estado Novo, nas suas entrevistas a Salazar no início dos anos de 1930, questionou-o sobre a questão, ao que este respondeu que eu compreendo que a censura os irrite, porque não há nada que o homem considere mais sagrado do que o seu pensamento e do que a expressão do seu pensamento. Vou mais longe: chego a concordar que a censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor. Salazar, queixando-se de ter sido, ele próprio, vítima da censura durante a I República, o que lhe deixou um sabor amargo, justificou-se, que a censura, hoje por muito paradoxal que a afirmação pareça, constitui a legítima defesa dos Estados livres, independentes, contra a grande desorientação do pensamento moderno, a revolução internacional da desordem (soviética). Salazar sabia que os factos só se tornam verdades, quando deles existe conhecimento, pelo que se irá encarregar de fornecer as suas verdades à população, ainda que construindo uma outra (a sua) realidade.
A esmagadora maioria dos filmes censurados, era proveniente do estrangeiro. Mesmo mais tarde, entre 1964 e 1967, foram levados à Censura 1301 filmes, sendo que, destes, 145 vieram a ser proibidos, e 693 autorizados, embora com cortes mais ou menos profundos se não atentatórios.
Até 1936, as malhas da censura pareciam alargar-se mas, com o início da Guerra Civil Espanhola, a censura tornou-se mais ativa.
Durante a II Guerra, diversos filmes antinazis não foram autorizados para exibição. Portugal foi, palco de confrontos entre os beligerantes. Se a máquina alemã encontrava público, principalmente em sectores políticos, militares e paramilitares, a norte-americana levava a melhor em termos populares. As facções beligerantes faziam exibições privadas, mas os Aliados conseguiram, após resistência dos exibidores, que temiam confrontos entre o público, a projecção de documentários de guerra de propaganda, antes dos filmes de fundo. Após o final da II Guerra, numa curta fase de pretensa distensão do regime, entraram em Portugal filmes como Casablanca, que em Lisboa se manteve em cartaz na mesma sala, o tempo recorde de dez semanas. Mas o cerco voltou a apertar, tendo como grandes vítimas o neo-realismo italiano italiano e alguma filmografia francesa. Por outro lado, os filmes do Leste Europeu e soviéticos eram, à partida suspeitos, e portanto vetados.
Mas como dissemos, mesmo depois da II Guerra, o cinema em si era objeto de atenção particular do regime.
 Escrevia-se em Alcobaça, em 1947, in O Alcoa, sob a pena do articulista Mendes e Sousa que, o cinema é, sem dúvida, um dos mais terríveis inimigos da infância. Raríssimos são os filmes exibidos nas casas de espectáculo que possam ser vistos pelos olhos inocentes das nossas crianças (…). Na verdade o que é que hoje se aprende no cinema? Aprende-se o que ele ensina. E a maioria esmagadora ensina a roubar com cenas de banditismo, ensina a matar com cenas cruéis de ódio e guerra, ensina a perverter o coração, com cenas de amor impuro e degradante (…). A paixão pelo cinema entre a maioria das crianças das cidades e até de muitas vilas é verdadeiramente cega. Passa-se fome, não se compra o necessário, rouba-se até para comprar um bilhete de cinema (…). Num inquérito feito por um distinto médico num liceu de Lisboa há coisas que nos podem elucidar. Do inquérito se deduz que os filmes preferidos pelas crianças sãos os filmes de amor, de ódio e de guerra. Os depoimentos são deveras eloquentes. Dizia um: gosto dos filmes com amores, aventuras, duelos, ciúmes e mulheres bonitas. É a alma da criança pervertida, é o retrato da maioria dos pequenos frequentadores de cinema (…). Por meio de um instrumento chamado hipnógrafo adaptado à cama, verificaram que o sono de uma criança que acaba de chegar do cinema é continuamente (quase de minuto a minuto) cortado por estremecimentos, agitações, reajustamentos de posição, etc. (…).
No que diz respeito à filmografia portuguesa, existem registos e referências a filmes com partes censuradas desde, pelo menos, 1937. Sabe-se que a versão que nos chegou de Maria Papoila, sofreu cortes. O que não impediu deste ter sido, o primeiro filme financiado pelo SPN.
No ano seguinte, A Aldeia da Roupa Branca, sofreu um pequeno corte, mas ainda assim um corte, numa cena considerada imoral.
Em 1952, a película Nazaré foi exibida com cortes, como José Tempero salientava, pois dizia ter assistido a algumas filmagens que nunca foram exibidas…. Nunca soube dizer onde e porquê.
A censura no cinema, no entanto, não se exercia apenas de forma activa. Os importadores não compravam algo que admitissem ser passível da sua acção, de modo a evitar despesas e problemas. Preferiam a censura total, em vez da projecção com cortes. Desta forma, viam restituído o sinal pago pela sua importação. Caso o filme fosse exibido com cortes, corriam o risco dos filmes, esvaziados de cenas por vezes fundamentais, não agradarem ao público. Do ponto de vista dos realizadores, para além do facto de muitos serem a favor do regime, a autocensura assumiu-se, no tempo, como uma prática. Constituiu prova que afinal o sistema funcionava como o regime desejava. Se à partida se liberalizava a produção cinematográfica nacional, pois não se controlavam os argumentos e filmagens, ninguém se daria ao trabalho de avançar com um projecto passível de ser censurado no final.
A criação do Fundo do Cinema Nacional, a partir de 1948, alegadamente como forma de tornar viável o cinema português, não foi mais do que uma forma de censura. A indústria de cinema tornava-se refém do julgamento governamental, do que deve ou não ser produzido, através da atribuição dos subsídios. Embora tivesse como fiel da balança os critérios da lei de 1927, a censura cinematográfica, tal como a exercida sobre outras artes, variava conforme quem a exercia e a conjuntura.
Após a tomada de Damão, Goa e Diu em 1961, nenhum filme indiano foi autorizado a ser exibido em Portugal até 1974, independentemente do assunto.
Com o desenvolvimento da guerra de África, a repressão passou a incidir, entre o mais, sobre filmes de temática pacifista, para não comprometer o esforço nacional e por em causa a solidariedade das famílias com rapazes a combater em África. A partir desta época, com destaque para os anos da década de 1970, aumentou o número de filmes nacionais proibidos. Mudavam-se os tempos, mas não as vontades, embora Salazar já cá não estivesse.
De Julho de 1971 a Março de 1972, foram levados 304 filmes à Comissão de Exame e Classificação de Espectáculos (CECE). Após recursos, 37 foram definitivamente proibidos, e 132 parcialmente cortados. Ficou o registo de filmes como A Promessa, de António Macedo, produzido em 1972, e que é o primeiro filme onde a censura autoriza a visão de dois corpos nus. Sorte diversa tiveram películas como Sofia e a Educação Sexual, de Eduardo Geada, Nojo aos Cães, de António de Macedo,  Nem Amantes, Nem Amigos, de Orlando Vitorino, Índia, de António Faria,  Grande, Grande era a Cidade, de Rogério Ceitil, O Mal-Amado, de Fernando Matos Silva, Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras, de Lopes Barbosa, Quem Espera por Sapatos de Defunto, de César Monteiro ou, ainda em 1960, Catembe, de Faria de Almeida, que, viram impedida a exibição.
Nos meios alcobacenses mais conservadores, entendia-se que a televisão põe o mundo perante graves e delicadíssimos problemas de ordem moral, certo como é que pelo desvio da sua finalidade útil, aquilo que é instrumento de maior bem pode tornar-se instrumento de mal maior.
Segundo O Alcoa, um pai de família, declarou que desde o dia em que a televisão entrou em casa, fecharam-se os livros (…). Depois de estar umas horas a ver televisão durante a noite, vou para a cama com a sensação que perdi a noite totalmente (…).
Uma mãe de família perguntava ao articulista se não haveria maneira de apresentar os cowboys com bons modos, sem que deixassem de ser cowboys?
Interessante é também o depoimento de um professor. Ora, segundo o mesmo, cujo nome o articulista não registou, a TV intrometeu-se na vida das crianças, distraindo-as nos seus estudos e nas suas leituras. Estropia-lhes a vista e torna-as preguiçosas.
E querem ainda saber a opinião de um alcobacense, apresentado como marido faminto que entendia que seria um desastre que a televisão continuasse em progressos. Já agora minha mulher me deixa, não poucas noites sem ceia, para ver um programa favorito. Imagine-se o que seria se tivéssemos TV a cores ou um sistema desses que dizem que vão criar e, segundo o qual, pagando certa quantia, se pode escolher o programa que mais agrade.
Tenho abordado factos e emitido opiniões, admito controversos e mesmo arbitrários. Corro, assumidamente, o risco do escrutínio popular.
Não quero fazer uma História da Censura, nem pelo menos em Portugal, o que seria sempre infindável. Lições de Democracia ou de Cultura, não se dão apenas com palavras ou nos livros de História. O exemplo é verdadeiramente relevante. Cumpre notar que a abordagem que aqui faço, é uma pequena introdução ao estudo da acção política do Estado Novo e da nossa terra, através dos processos e dos eventos ocorridos no passado e para que não se esqueça a memória.
      Era uma cultura que se pretendia simples, rural, de modo a que o povo português não começasse a interessar-se por assuntos sofisticados, que não eram da sua competência, nem interesse.
O povo deveria interessar-se, por coisas simples, hoje diríamos irrisórias. Alguns mais idosos de Alcobaça, recordam-se do tempo em que havia grupos de homens que iam à estação de caminho-de-ferro de Valado de Frades, assistir ao embarque de passageiras, na esperança de ver os respectivos tornozelos.
E claro, como hoje, havia o Xico Esperto, figura característica de português.
Existe ainda entre nós, uma espécie típica, engraçada e esperta, que parece resistir aos avanços tecnológicos e à pressão cultural: a do Xico Esperto. Não sabemos quando ou se extinguirá. Mas persiste e continuará a existir. Porque o Xico Esperto (português) nasce e morre Xico Esperto. Antigamente nascia e morria na taberna, onde quando não a trabalhar, passava o tempo a conversar. Sobre tudo. Conversas de homem sério, trabalho, mulher, filhos, dinheiro, política e economia. Conversas sobre vinho, mulheres, futebol, negócios excelentes e golpes que aplicava ou gostaria de aplicar. O Xico Esperto vivia do pequeno golpe apesar do discurso em estilo convincente e conteúdo moralista.
Mas as pessoas eram também muito crédulas.
O ser humano, sempre se deslumbrou pelo oculto. No início dos tempos, para explicação de fenómenos inexplicáveis, hoje para conseguir mais fácil e rapidamente o que deseja. Desconhecemos se existem pessoas que sabem e conhecem as ciências ocultas, mas calculamos que na maioria dos casos se trata simples e unicamente de aproveitadores da fraqueza. Vendedores de sonhos. E os sonhos não se compram, como sabemos por experiência ou racionalmente.
A Feira de S. Bernardo, realiza-se há muitos anos em Alcobaça, umas vezes com mais animação, outras com menos. O certo é que, não obstante a descaracterização que apresenta, nem por isso deixa de estar enraizada nos hábitos da terra.
As festas e romarias são uma componente importante da cultura popular do povo português. Numerosas e variadas, acontecem um pouco por todo o país e fazem parte das tradições e memórias de um povo que pretende preservar e manter a cultura secular que lhe confere uma identidade própria. Apesar de decorrerem ao longo do ano, é nos meses de Julho e Agosto que acontece a maior parte das festas e romarias portuguesas, unindo quase sempre a componente religiosa a um programa popular.
A Feira de S. Bernardo teve sempre uma componente essencialmente lúdica. Falando com pessoas idosas ou consultando notícias de jornais, atrevo-me a dizer que a Feira de S. Bernardo, quando no Rossio, era o ponto de encontro dos alcobacenses com os de fora, a ocasião para mercadejar, beber uns copos e foliar algum tempo. E pôr a conversa em dia, porque a vida não é só canseiras.
O que era uma boa Feira, no dizer dos antigos, lá pelos anos de 1930?
No tempo da I República e dos primórdios do Estado Novo, da parte da tarde as tendas lado a lado pejavam, como convinha, no Largo do Rossio, em longas fileiras, e vendiam de tudo, fazendas, bugigangas, algodão doce, ouro, ouro sim, ouro de lei, ou prata contrastada, como o material do Maneca de Febres, porque o metal é que tem valor amanhã, no meio de enorme algazarra e estridência de conversas, de realejos ou outros instrumentos menos afinados, interpretados por cegos (que afinal talvez fossem ou não…) que faziam números com saltimbancos e artistas de circo, enquanto se comiam tremoços ou pevides. Havia a tômbola das panelas que era muito procurada, pelas mulheres, na esperança de poder sair uma peça, que mesmo de refugo iria fazer muito jeito na decoração da cozinha ou no serviço da casa. Também havia as tendas do vai um tirinho o q´rido, das caixas com furinhos que davam prémios e as dos matraquilhos.
O povo gostava de ir passear e ver. Famílias inteiras, com ar grave e pasmado, rapazes vestidos à maruja, paravam diante dos artistas a quem davam uns cobres, ajustavam o preço de um alguidar ou de uma peça de fazenda, tiravam medidas para o rapaz fazer um par de botas de carneira, iam ao mercado do gado, da fruta, da hortaliça ou do peixe da Nazaré (oh qu’ rida, oh freguesa!). Tudo era bom de apreciar. As ciganas liam a buena dicha, as vendedeiras de limonada faziam negócio especialmente com as mulheres e crianças. Alcobaça, em Agosto, com pó e moscas quanto baste, tinha sede que alguns homens matavam na tenda da ginjinha. As mulheres apreciavam muito as pesadas mantas listadas de Minde, a lã azul fiada para saias, as loiças da Olaria, de Alcobaça, com motivos pintados à mão, simples e ingénuos, mas já a começar a vulgarizar os decalques, os vidrados amarelos ou verdes das Caldas da Rainha. Os homens, de pesado cajado, frequentavam, a feira do gado, faziam negócios com dinheiro vivo, entre dois copos de tinto, acompanhados de pequenos queijos de cabra ou de ovelha, vendidos em poceiros cobertos por alvas toalhas e, claro, sempre com o marisco, os tremoços e pevides. Esta era sim, uma boa Feira de S. Bernardo, com a PSP e a GNR sempre por perto e atentas à malandragem (além dos ciganos, havia outros… como os carteiristas) e às brigas do mau vinho.
Durante a Feira havia circo. Em primeiro lugar apareciam os cartazes espalhados pela vila, ilustrados com animais ferozes, palhaços ou trapezistas, homens e mulheres gordos, tatuados e anões. Depois vinham as carruagens, puxadas por camionetas ou animais, que desfilavam com música, um tambor ou corneta. Era o tempo do grande espectáculo (o maior espectáculo do mundo), exibido em tendas redondas de lona onde entrava a chuva e seguramente o vento, a arena colorida, as luzes feéricas, os maillots lustrosos das mulheres, os corpos atléticos dos homens. Os palhaços, os animais. Os trapezistas, lá nas alturas.
Senhoras e Senhores, Meninas e Meninos, benvindos ao circo!!! Senhoras e Crianças, não pagam... Senhoras e Crianças, não pagam!!!
João Matias lembra-se, devia ter aí uns seis anos, quando pela primeira vez o pai o levou ao circo, que assentava no Parque da Gafa. Mas para a criança, aquele foi um dos maiores acontecimentos da ainda muito curta vida. Gostou das trapezistas, riu-se com os palhaços mas, sobretudo, ficou fascinado com o atleta das argolas. Nunca mais o esqueceu. O fascínio do circo resiste a tudo e tem o condão de persistir na memória de crianças, jovens e adultos. O das argolas era um velhote (pelo menos parecia), de cabelos brancos e estatura meã. Os músculos como que lhe saltavam da roupa, e nas argolas não deixou de fazer um Cristo, com uns braços já trémulos. Esperado, esperado, era o momento dos palhaços. O de cara branca, o palhaço rico, e o outro, o pobre. O rico, servia para enganar o pobre, que superava pela esperteza os ardis que o cercavam. A assistência projectava-se no azougado pobretana. João Matias ria. A música evolava-se da concertina inglesa e de um xilofone de garrafas penduradas, líquidos coloridos em escala harmonizada na subtilidade dos martelinhos. Ninguém dava pelo desconforto das bancadas duras de madeira.
E o Teatro de Fantoches ou de Robertos?
O Teatro de Robertos era um divertimento, quase obrigatório das feiras, romarias e até praias do século XX. Este estilo de teatro entrou, porém, em desuso em meados do século XX. Nos seus tempos áureos, na altura da feira, apareciam os Robertos, tão ansiados pela criançada. Tratava-se de espectáculos de fácil compreensão, com uma manipulação rápida e cheia de acção, cuja característica importante é o uso pelo fantocheiro de uma palheta na boca que lhe permite ampliar e distorcer a voz, produzindo efeitos surpreendentes, algo ridículos e que abordam rábulas tradicionais, que reproduzem a animação de rua, algum acontecimento e centram a atenção do público com o alarido e picardias dos bonecos. Tó Lopes, em criança, gostava muito de ver os robertos e lembra-se de um número especialmente apreciado, pois metia fantasiosamente o Marquês de Pombal e a expulsão dos Jesuítas. Os adultos e a criançada achavam-lhe muita graça e pagavam cinco tostões.
Mas o tema mais corrente era o de um homem mal comportado, um touro para assustar e uma mulher que zangada com o comportamento do marido, lhe pregava umas valentes pauladas no final.
Nos dias que correm, é difícil encontrarem-se os Robertos, mas, de certeza, que haveria muitas crianças que gostariam de assistir a um espectáculo, com os saudosos e deliciosos Robertos.
João Matias, já rapazote com pêlos a aparecer na cara, também não se esquece do vendedor da banha da cobra, que aparecia todos os anos na Feira de S. Bernardo. O vendedor da banha da cobra não é uma personagem de ficção, pois existe, sempre existiu, evoluiu, é muito hábil e astuto. E a seu modo existirá sempre.
Bem sabemos, João Matias sem dúvida, que a banha da cobra não serve para nada, mas a convicção que o vendedor transmite, através duma oratória estudada e estruturada, é capaz de convencer sobre as capacidades infinitas deste milagroso medicamento. Impigens, mau-olhado, torcicolos, urticária, febre dos fenos, dentes, nervos, escleroses, artroses, entorses, diarreias, sarampo, escarlatina, espinhela caída, dores das cruzes, doenças do miolo, verrugas, cravos, etc., são alguns dos males que a banha da cobra afasta a quem a comprar.
Matias ainda tem no ouvido essa oratória, não custa nem 20, nem 15, nem dez. Custa apenas cinco, e quem levar dois tubos leva um totalmente de graça. Um para aquele senhor, outro para aquela menina, e enquanto eu vou lá à frente receber o dinheiro, a minha mulher vai lá atrás buscar mais material.
Se a banha da cobra não cura nada, também não consta que daí tenha saído algum mal para a saúde pública ou para o mundo. Não custa dez nem quinze, custa apenas vinte e cinco tostões, e quem levar dois tubos leva um de graça.
Era tentador! É assim que conserva no ouvido o pregão com que na feira, o vendedor da banha da cobra anunciava as virtudes miraculosas daquela mistela, de composição indecifrável. Não havia mal ou maleita onde o resultado não fosse prodigioso. E para que não houvesse dúvidas, os argumentos eram um primor de explicação:
-Se bocência tem uma dor de dentes, fique a saber que não é o dente que lhe dói. O dente é corno, o corno é osso e o osso não dói, o que dói é o nervo.
Creio que maioria das pessoas, não acreditava naquilo, mas comprava, pelo que a vida de vendedor de ilusões ia correndo, embora cada vez com mais dificuldades. O homem era vigarista, golpista ou apenas um desenrascado a fazer pela vida?
  

CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira




(V)




Falar de uma festa popular portuguesa e esquecer o número do Poço da Morte, seria falta grave.
O primitivo Poço da Morte, era em madeira, e nele pontificavam os motoqueiros pai, mãe e filho, já que no cartaz aparecia a imagem dos três, como recorda Matias. Circulavam numa estrutura cilíndrica, a girar sempre à volta até ficarem paralelos ao chão. Era um trio de fascinantes e corajosos aventureiros que, com os palhaços, ilusionistas e acrobatas preenchia o  imaginário e o programa de muita gente que ia à Feira. O público ficava a ver na parte superior, tendo apenas uns cabos de aço como limite, para que numa manobra imprevista (e possível) não levasse com eles.
Desafiavam a morte, no dizer do apresentador, cruzando-se com arrojo, audácia e emoção a alta velocidade de olhos vendados pela bandeira portuguesa, desfraldada triunfantemente, para gáudio da assistência e vibrantes aplausos. Especialmente emocionantes eram as voltas de moto, com o artista (filho) sentado de lado virado para o fundo do Poço, sem mãos no volante e de braços cruzados. Suscitavam emoções fortes em João Matias, que ia acompanhado pelo pai, espalhando entre os espectadores um clima de euforia e ansiedade, apimentado pelo ruído ensurdecedor das motos sem escape e o cheiro de gasolina mal queimada.
Uma das lembranças fortes da infância de alguns alcobacenses é o coreto de que não sobraram vestígios, um exemplar talvez não dos mais interessantes, mas que dominou até à década de 1920 e ao corte dos plátanos, o principal largo da vila, o Rossio (16), isto é, o largo fronteiro ao Mosteiro. Esta praça, além dos nomes que assumiu conforme as circunstâncias, foi bastante alterada com intervenções mais ou menos felizes e o coreto já não está lá, graças a decisão (pouco feliz) de Manuel Carolino (salvo erro). Foram, muitos os concertos que ali se deram, abrilhantados pelas bandas da Cela (com o maestro Melro), Vestearia, Pataias, Maiorga e Alcobaça, com reportório de qualidade, que incluía música clássica, árias de óperas, marchas e peças populares de raiz mais ou menos folclórica. As pessoas ocupavam o espaço fronteiriço imediato onde havia choupos, as famílias passeavam e algumas levavam cadeiras, para assistirem comodamente ao espectáculo. Mas isso já lá vai. É pena, porque a Música Ao Ar Livre (Open Air) nos tempos da outra senhora, criava uma atmosfera positiva e ocasionava animação. Eram espaços culturais e sociais, numa reivindicação cíclica de nossos eruditos.
A banda, aproximava-se em passo certo, cadenciado, largo, ao som de uma marcha. À frente vinha o maestro, muito hirto, chapéu, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, postava-se até um homem que nesse momento se esquecia de vender jogo, apregoar a sorte grande. Indiferentes, as meninas continuavam a venda de rifas ou fazer peditório para os bombeiros.
Os coretos fazem parte da história urbana. Era lá que se realizavam os concertos das bandas de música e outras apresentações. Porque será que na nossa época já não há coretos para as bandas de música realizarem concertos? Caíram em desuso, bem sei. Hoje preferem-se as salas de espectáculos, com condições ambientais e acústicas, som apropriado e outros requisitos modernos. Acredito, todavia, que ainda teria cabimento um Coreto em Alcobaça. Vi actuar bandas em coretos ou outros locais ao ar livre (Open Air) em localidades da Europa, especialmente no verão da Alemanha e Áustria. Porquê cá não mais, seguindo uma boa tradição portuguesa?
Era por ali que se realizava, ao Domingo, o concorrido Mercado Semanal, onde se vendia de tudo, especialmente aos alcobacenses das redondezas, que se deslocavam em família, bem aperaltados, em burros ou carros de bois. Para complementar a atracção e o movimento, que por vezes eram tão intenso que as pessoas andavam aos encontrões, funcionavam lojas no primeiro andar da Ala Norte do Mosteiro. Para guardar os animais, havia locais espalhados pela vila (Piçarra, Portas de Fora e até ao lado do Palácio do Pena), onde lhes era dado palha e recolhidas as necessidades, para depois se vender como estrume.
Como se chegava ao mercado?
Vinha-se a pé, a cavalo, em carros de bois, ou na carreira. O dia de mercado era festivo. As pessoas vinham com os melhores fatos. No mercado, tudo tinha o lugar costumeiro, nos mesmos sítios há um ror de anos. Tudo se encontrava arrumado pela mesma ordem e na mesma hora. Os que vendiam tinham o cantinho reservado. Os que compravam sabiam onde encontrar o que precisavam. Armavam-se as barracas de madeira e lona onde eram expostos e vendidos a fruta, hortícola e os manufacturados. O visitante encontrava roupa feita de lã ou algodão, ferragens, cutelarias, calçado e chancas, bem como quinquilharias. As mercadorias vendidas no mercado constituíam o essencial para as necessidades do povo. Ao lado da área dos produtos que o lavrador vendia, encontrava-se a dos produtos que o lavrador comprava. Se já não se encontra o burel, o linho ou a estopa, não faltam num mercado dos nossos dias os tecidos de algodão, de nylon, de terilene, os tapetes e as mantas, os produtos chineses baratos, etc..
Júlio Correia, que trabalhou muitos anos nas obras em terras de França, lembra-se como era o mercado do seu tempo de meninice. Comecei a vir vender tinha nove anos. Naquela altura fazia os sete quilómetros descalço, em cima do gelo e tudo, porque o meu pai não tinha dinheiro para me comprar sapatos, diz, adiantando que os calos que ganhou serviam de sapatos. Vinha carregado com abóboras, feijão e outras coisas, como galinhas e coelhos, refere ainda Júlio Correia.
No mercado semanal dos nossos dias, já não se encontram obviamente as malgas de Málaga, da Corticeira ou de Massarelos, mas não falta a louça inglesa e chinesa. Os utensílios em madeira estão a desaparecer. As gamelas foram substituídas pelas bacias de plástico. Já não há garfos de ferro. Os talheres vêm de Guimarães ou da Benedita, e os vidros se não da Marinha Grande, talvez do Oriente. Não podemos deixar de referenciar aqui algumas figuras típicas do mercado, como a mulher dos tremoços, a vendedora dos doces cobertos de açúcar, o homem que reparava os guarda-chuvas, as aguadeiras ou mesmo o aldrabão da feira (é claro o tradicional vendedor da banha de cobra) (17).
E saudades do antigamente?
Às vezes, parece que tenho uma enorme saudade do tempo em que as mulheres eram donas de casa e os homens chefes de família. Por favor, não fiquem incomodados com esta linguagem eventualmente considerada como bafienta/reaccionária. Sei que não se pode andar para trás, e nem acho que o caminho seja esse, mas posso considerar algumas coisas boas que existiam e, quem sabe, adaptá-las, na medida do possível, aos nossos dias.
Presentemente, a mãe quase não tem tempo para os filhos,  coisa que as Avós têm sempre, pois precisa trabalhar fora de casa. A sua correria mal lhe permite momentos de descontracção em família. Muitas vezes estão todos juntos, embora cada qual numa sala. A mãe na cozinha, o pai na sala, o filho no quarto. Antigamente havia, aparentemente pelo menos, mais proximidade e calor nos lares. As mulheres (e que dizer das Avós?) sabiam cozinhar e fazer coisas apetitosas. Muitos adoravam os seus petiscos e visitas havia que chegavam, por vezes, sem avisar.
As mulheres costuravam as roupas da família e os maridos trabalhavam para angariar o sustento aos seus. Ambos tinham orgulho em possuir uma família equilibrada e feliz. Faziam os possíveis e impossíveis para que os filhos pudessem estudar e tivessem brinquedos.
Hoje em dia, por mais que se esforcem, não lhes sobra dinheiro, pois todo faz falta. Ambos trabalham como loucos, dormem mal, comem a correr, vivem ansiosos e com medo do futuro. Parece que todos lhes exigem mais e depois ainda mais. A esposa insatisfeita, os filhos consumistas, o patrão ávido de lucro. Já não se sabe onde buscar refúgio nos momentos de desolação.
Onde será que nos perdemos? Será que é possível começar a competir e disputar para ver quem era melhor?
Hoje muitos jovens casais ainda constroem casas, mas não de forma empenhada na edificação do lar, porto seguro para a criação dos filhos e convívio em família. E sofrem pelos desencontros que poderiam ser evitados, se a visão não estivesse obstruída pelo hedonismo, onde cada qual busca o seu prazer. Tenho saudades das bolachinhas, biscoitos ou compota de amoras da Mãe, dos passeios com o Pai, das reuniões em família, das cantigas de roda ou de ninar.
Aprendiam-se em casa com o(a)s avós, com as mães, na escola com o professor primário, e era  uma alegria quando alguém sugeria cantar uma música. Actualmente, as cantigas de roda não são cultivadas, foi hábito que se perdeu.
Tenho sim, saudades do antigamente!

  
CENSURA E ESTADO NOVO,
PASSANDO AINDA POR ALCOBAÇA

FLeming de Oliveira


(VI)




NOTAS AO TEXTO:

(1)-Nasci no Porto, em 22 de Fevereiro de 1945. Licenciei-me pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 15 de Novembro de 1969. Fui Subdelegado do Procurador da República, no Tribunal Cível do Porto e Delegado do Procurador da República nas comarcas de Vila Franca do Campo, Cinfães e Arraiolos. Prestei serviço militar na Guiné, como Alf. Mil. Inf. e no Quartel-General do CTIG/Bissau/Serviço de Justiça. Em Bissau, comecei a exercer a Advocacia, tendo sido advogado da respetiva Câmara Municipal. Desde 20 de Abril de 1974, resido em Alcobaça, para onde vim trabalhar, como Advogado, no escritório do meu sogro Dr. Amílcar Pereira de Magalhães. Fui eleito, em listas do PSD, Substituto Legal /Vice-Presidente da CMA (1976/1979), Presidente da Assembleia Municipal (triénio seguinte), Deputado à Assembleia da República (5 de Outubro de 1980) e Deputado Municipal (1985). Colaboro regularmente em vários jornais, realizo palestras e conferências sobre temas históricos, e já participei num Congresso Internacional. Fui fundador e autor dos estatutos de algumas entidades do Concelho de Alcobaça e ainda cofundador do PSD (Leiria e Alcobaça). Ultimamente tenho feito alguma crítica literária, para editoras nacionais.
(2)-A outra senhora, não significa aqui nem censura, nem ditadura, mas, sim, um outro tempo. Quando muda um regime político, mudam as leis, muda a forma de organização do país e, começa-se, então, a falar do tempo da outra senhora quando se pretende referir situações relativas a essa época, que agora não existem ou foram alteradas.
(3)-Na Serra dos Milhafres, em finais dos anos de 1940. O Estado Novo resolveu impor aos beirões uma lei: pela qual os terrenos baldios, sempre utilizados para bem/serviço comunitário e de onde a comunidade retirava parte fundamental do sustento, seriam expropriados e utilizados para o plantio de pinheiros. Implantou-se um clima de medo nas pessoas e é isso clima que Manuel Louvadeus, emigrado no Brasil anos antes, veio encontrar quando regressou à aldeia. Homem vivido e culto devido, segundo o próprio, aos livros que havia lido, Manuel tinha uma visão abrangente e um sentido de justiça que rapidamente o fizeram cair nas boas graças do povo, pessoas honestas e humildes que trabalhavam de sol a sol,mas que não deixavam de viver em condições miseráveis.
A revolta acaba por eclodir e entre mortos e feridos, acabou numa caçada aos homens por parte da polícia que levou muitos à prisão, acusados de instigadores e cérebros da revolta. O Estado mostrou o seu esplendoroso poder.
(4)-François Charles Mauriac, escritor francês, nasceu em Bordéus, a 11 de outubro de 1885 e faleceu em  Paris, 1 de setembro de 1970.
Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1952, em reconhecimento dà profunda impregnação espiritual e artística com que seus romances penetraram o drama da vida humana. Estudou em Bordeus na escola Des Marianistes e no liceu Grand-Lebrun, de formação católica, Mauriac reflete a influência de Pascal e Francis Jammes, um conflito trágico entre o amor da religião e as tentações. Sobre ele disse Otto Maria Carpeaux,: Mauriac é um mestre, ninguém negará este título ao autor de numerosos romances tão fascinantes como Thérèse Desqueyroux e Le Noeud de Vipères, que desnudam com força incomparável as almas pecadoras (...). Ele é assim o maior representante do romance psicológico da tradição francesa.
Iniciou a carreira em 1909, com um livro de poemas Les Mains Jointes. Publicou estudos biográficos e críticos, colaborou em revistas e jornais, tendo mantido por muitos anos seu Bloc Notes, coluna publicada inicialmente no jornal La Table ronde, depois no Le Figaro, e a partir de 1955 na revista L'Express. François Mauriac entrou para a Academia Francesa de Letras, em 1933, ocupando a cadeira 22.
Entre suas obras de cunho crítico, destaca-se um famoso ensaio contra a pena de morte, que levou a uma coleta de assinaturas pelo fim da pena de morte na França, após a II Guerra . Albert Camus, entre outros, participou assinando a petição.
(5)-Panglossicante é uma expressão que diz respeito ao Doutor Pangloss (personagem do romance Candide, de Voltaire), que professava um otimismo beato, e para quem tudo parecia correr às mil maravilhas, otimistamente.
(6)-Estes tribunais tiveram origem na revolução e ditadura militar de 1926 e que levou à instalação do Estado Novo e do Salazarismo. Tão esquecidos parecem, que juízes desses tribunais transitaram, tranquilos, para a democracia, muitos chegaram aos pontos mais altos da magistratura nacional, nunca foram responsabilizados, seja pelo MFA, Junta de Salvação Nacional ou Ministério da Justiça, não obstante o respetivo Ministro ter sido várias vezes Almeida Santos.
Data de 1945 a criação dos Tribunais Plenários de Lisboa e do Porto. Destinavam-se a julgar acusações e delações contra a segurança do Estado e, ainda, processos de liberdade de imprensa, não apenas circunscritos a matéria editada em jornais e revistas mas também em livros e outras publicações.
Logo que foi implantada a ditadura militar de 28 de Maio de 1926, restringiram-se as liberdades constitucionais, estabeleceu-se a censura, preparou-se uma polícia política. Sob a alçada do foro militar ficaram os processos políticos. Quando Salazar a 5 de julho de 1932 ascendeu a chefe do Governo, foram criados em Lisboa e Porto, em Dezembro de 1932, os Tribunais Militares Especiais para os crimes políticos.
O pós II Guerra, levou Salazar a procurar um novo rosto político para o Estado e regime. Em 20 de Outubro de 1945 acabaram os tribunais militares especiais. Deram lugar aos tribunais plenários de Lisboa e do Porto. Dois dias depois da institucionalização, outro decreto-lei atribuía à PIDE a exclusiva competência para a instrução dos processos. 
Continuava a recorrer aos mesmos métodos e a aperfeiçoá-los para extorquir e forjar confissões.
Para completar a aliança da justiça com a polícia política, haviam sido, igualmente, decretadas medidas de segurança, que a PIDE (por sua iniciativa ou através do Ministério do Interior) propunha, os Tribunais Plenários deferiam, a PIDE, a seguir, executava e prorrogava arbitrariamente.
A esmagadora maioria das testemunhas nos processos são elementos da PIDE. Para a defesa dos arguidos, os advogados também indicavam normalmente inspectores, chefes de brigada e agentes da PIDE que haviam feito a investigação. Todavia, raramente compareciam no julgamento, sob a alegação de estarem ausentes em serviço urgente.
As audiências eram, praticamente, vedadas ao público. Antes de começar o julgamento, os lugares da sala encontravam-se ocupados por elementos da PIDE. A pretexto da lotação estar esgotada, a PSP, à porta, impedia o acesso a familiares, amigos e jornalistas.
Centenas de advogados (entre os quais Alexandre Babo, Sebastião Ribeiro, Luso Soares, Duarte Vidal ou Salgado Zenha insurgiram-se por escrito e em público) contra o funcionamento dos tribunais plenários e a actuação da PIDE. 
Quando Almeida Santos era ministro da Justiça, incumbiu-me de fazer um livro acerca da história e funcionamento dos plenários, declarou ao DN o Dr. Manuel João Palma Carlos E acrescentou: Não está em causa o empenhamento de Almeida Santos, mas houve um sistemático adiamento, subterfúgios grosseiros ou, então, a recusa do envio de elementos fundamentais que eu solicitava aos arquivos, desde os dos juízos dos tribunais de Lisboa e do Porto até à Comissão de Extinção da PIDE/DGS.
Manuel João Palma Carlos observou: Não pude, portanto, concretizar o projecto. Deixei de estar na Procuradoria-Geral da República, mandaram-me para embaixador em Cuba e fiquei a milhas de distância dos julgamentos dos pides
Muito mais grave ainda, concluiu Manuel João Palma Carlos, com o 25 de Abril, membros activos dos plenários ascenderam ao Supremo Tribunal de Justiça
Durante quase três décadas, elevado número de juízes, agentes do Ministério Público e quadros da PIDE mantiveram uma colaboração recíproca. Essa cumplicidade de magistrados com a polícia política ficou denunciada em páginas vigorosas de Aquilino Ribeiro, em Quando os Lobos Uivam,
É uma peça memorável, que honra a advocacia portuguesa, escreveu Mário Soares, a propósito da defesa de Aquilino feita pelo advogado Heliodoro Caldeira, ao desmontar o processo iniciado na Polícia.
No Plenário de Lisboa, escreveu Alexandre Babo, muitas vezes os réus foram espancados pelos agentes da PIDE durante os julgamentos e arrancados dali à força, quando exigiam apresentar as suas razões. E isto com a aquiescência dos juízes que constituíam o tribunal. 
(7)-Manuel João da Palma Carlos, nasceu em Bucelas a 24 de Junho de 1915 e era irmão do 1º Primeiro-Ministro após o 25 de Abril, Adelino da Palma Carlos. Morreu aos 86 anos, durante um incêndio ocorrido num lar de idosos de Birre, aonde vivia. 
Manuel João da Palma Carlos, antifascista militante e vítima da repressão salazarista, foi um dos advogados que mais presos políticos defendeu nos Tribunais Plenários e um dos poucos que, primeiro, intervieram nos Tribunais Militares especiais (anteriores a 1945) e, depois, nos Plenários de Lisboa e Porto (desde o seu início até 1974). Foi também um dos mais destemidos e frontais, no desmascaramento da repressão e da torturas aos presos, nos Tribunais e fora deles.
(8)-José Augusto Rodrigues França nasceu em Tomar, a 16 de Novembro de 1922.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa (1944). Partiu para Paris como bolseiro do estado francês em 1959 (até 1963), Obteve os graus de doutor em História pela Universidade de Paris em 1962.
O seu interesse pela pintura manifestou-se em 1946 na sequência de viagens a Espanha e Paris, tendo realizado outras viagens à Europa e às Américas até se fixar em Paris em 1959. Nas décadas de 1940 e 1950 foi uma das figuras mais dinâmicas e influentes da vida cultural portuguesa. Entre 1947 e 1949 participou nas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, tendo um papel polémico de oposição aos neorrealistas. Na década seguinte seria um defensor da arte abstrata, cujo primeiro salão nacional organizou, na Galeria de Março, que dirigiu entre 1952 e 1954. Publicou os seus primeiros artigos de crítica de arte no Horizonte, Jornal das Artes, tendo a partir daí uma extensa colaboração em jornais e revistas da especialidade de onde podem destacar-se: Unicórnio (1951-1956); Art d’Aujourd’hui; KWY; Colóquio/Artes (que dirigiu entre 1970 e 1996); etc. Dirigiu o Centro Cultural Português em Paris (1980-86). O seu nome consta na lista de colaboradores da Revista Municipal  (1939-1973) publicada pela Câmara Municipal de Lisboa.
Lecionou na Sociedade Nacional de Belas Artes. Foi professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa (desde 1974), onde criou os primeiros mestrados de História de Arte do país. Antigo presidente da Academia Nacional de Belas Artes, membro do Comité Internacional d’Histoire de l’Art e presidente de honra da Association Internationale des Critiques d’Art.
(9)-A criação da Sociedade Portuguesa de Escritores/SPE  teve na origem uma iniciativa de Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, que, em 30 de abril de 1954, dirigiram aos seus confrades (escritores) uma circular propondo a realização de uma reunião para trocar impressões sobre a criação de uma sociedade de escritores.
Na sequência das reuniões realizadas em 6 de maio e em 2 de junho de 1954 ,foram aprovados os Estatutos que, nos termos da legislação vigente, tinham de ser objeto de homologação ministerial, o que só ocorreu em 4 de julho de 1956. Em 1965, a SPE, presidida por Jacinto do Prado Coelho, atribuiu o Grande Prémio de Novela ao escritor Luandino Vieira, detido no Tarrafal pela atividade desenvolvida como membro do Movimento Popular de Libertação de Angola/MPLA. Os jornais do país noticiaram o galardão sem perceberem que o escritor premiado era um preso político, pelo que quando a Direcção dos Serviços de Censura detetou o facto, proibiu referências ao prémio.
Na sequência da atribuição deste prémio a Luandino Vieira, a SPE foi extinta, por despacho, de 21 de maio de 1965, do Ministro da Educação Nacional .
Nessa mesma noite, a sua sede, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, foi destruída por desconhecidos, e três dos membros do júri foram detidos pela polícia política: Alexandre Pinheiro Torres, Manuel da Fonseca e Augusto Abelaira .
À SPE sucedeu, em 1972, pela Associação Portuguesa de Escritores, após um difícil processo de autorização governamental.
(10)-No dia 22 de Julho de 1946, a edição semanal da revista americana TIME dedicou a sua primeira página a António de Oliveira Salazar. Em manchete, o artigo referia: Portugal Salazar's: Dean of Dictators – How Bad is the Best? ("Até que ponto o melhor de Portugal é mau").  O número de Julho foi retirado do mercado nacional e, por seis anos foi proibida a sua venda em Portugal. 
Na capa da revista à esquerda de uma imagem de Salazar, a revista colocou uma maçã aparentemente viçosa, mas repleta de bichos no interior. Era a metáfora escolhida para ilustrar a mais antiga ditadura da Europa. No texto, referia-se que, com “duas décadas de ditadura, Portugal era uma terra melancólica de pessoas empobrecidas, confusas e assustadas”.
A 27 de Agosto de 1946, um despacho PIDE, ratificado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, deu ordem imediata a um dos autores da peça Saponti para abandonar o país até 3 de Setembro. Enquanto este lutava contra a extradição, foi-lhe dito pela PIDE que poderia evitá-la, caso se demitisse da TIME. O italiano recusou.
A venda da revista foi proibida em território nacional, todos os exemplares ainda por vender foram apreendidos e a PIDE recebeu ordens para confiscar as revistas que viessem a ser encontradas em domicílios privados. Saporiti conseguiu adiar a expulsão por mais um mês, tendo abandonado Lisboa de barco no dia 3 de Outubro.
(11)-Humberto II  nasceu em Racconigi, a 15 de setembro de 1904 e faleceu em Geneve, 18 de março de 1983). Apelidado de O Rei de Maio, foi o último Rei da Itália, entre maio e junho de 1946. Era o único filho do rei Vítor Emanuel III e sua esposa a rainha Helena de Montenegro.
Teve a educação típica dos príncipes europeus da época, iniciando desde jovem a carreira militar no exército italiano. Já sob a vigência da ditadura de Benito Mussolini, Humberto viria a ascender à patente de general. Casou, em 8 de janeiro de 1930, na Capela Paulina do Palácio do Quirinal, em Roma, com a princesa Maria José, filha do rei Alberto I, da Bélgica, de quem teve quatro filhos:  Embora se tenha mantido afastado dos fascistas, comandou alguns regimentos quando da participação a Itália na Guerra. Após a libertação do país da ocupação nazi, Humberto foi nomeado Tenente-General do Reino, em junho de 1944, quando a figura de seu pai estava já bastante desgastada, dada a passividade mostrara com Mussolini. Em 9 de maio de 1946, tornou-se rei de Itália, após a abdicação de seu pai, numa última tentativa de salvar a monarquia.
Reinou apenas durante um mês, pois em 2 de junho seguinte, os italianos pronunciaram-se, em referendo, pela instauração da República. Dias depois o rei seguiu para o exílio, instalando-se em Cascais, nunca lhe tendo sido concedida autorização para regressar a Itália.
Faleceu em 1983 em Geneve.
(12)-Biquíni é um conjunto de duas peças de banho, de tamanhos reduzidos, que cobrem o busto e a parte inferior do tronco femininos. O nome deriva do pequeno atol de Bikini, no Pacífico, usado para testes com bombas nucleares, e em 5 de julho de 1946 ocorreu o lançamento desta peça de banho, numa piscina de Paris. Assim, pretendia-se propor que a mulher de biquíni provocava o efeito de uma bomba atómica. 
(13)-Na Cela Velha, destaca-se a Quinta da Cela Velha, o que resta de uma antiga granja atualmente também designada como Quinta Humberto Delgado e que tem resistido na traça primitiva. É ainda na cerca desta Quinta que se situa a Capela de S. Bento, a única das dez ermidas, cuja construção data dos primórdios da nacionalidade, embora existam referências mais ou menos lendárias que atribuem a sua construção ao ano 714 da nossa era. Certo é que esta ermida, se trata do mais antigo templo existente na freguesia da Cela e um dos mais antigos no concelho. O interesse e valor desta capela particular está na sua antiguidade e na sua história, quanto ao resto trata-se de um pequeno templo de linhas simples e sem grandes ornamentos, não aberto ao público.
A Quinta da Cela Velha pertence aos herdeiros de Humberto Delgado e está situada num dos montes ribanceiros com vista sobre os Campos da Cela.
(14)-Nos Montes realizam-se festas tradicionais em honra dos santos padroeiros:
São Vicente  em Janeiro,
Santa Marta em Junho
As festas de aniversário da Associação Recreativa Montense são realizadas durante o mês de Julho.
Realizou-se durante vários anos uma interessante feira denominada Feira da Fruta que à boa moda  teve poucas edições, cada vez menos interessantes.
(15)-Nesta região, a Adiafa é uma refeição melhorada distribuída aos trabalhadores depois de conclusão da colheita de uvas, em que participavam à mesma mesa patrões e servos Mas também pode significar, embora numa expressão menos usual, uma gratificação dada aos trabalhadores após a conclusão de um trabalho agrícola.
(16)-Existem em Portugal vários rossios. Genericamente, Rossio é um grande terreiro para diversão, fruído em comum pelo povo. Estação do Rossio, Praça do Rossio, Rossio ao Sul do Tejo, etc..
(17)-Segundo a tradição, a banha da cobra é um fenómeno  americano, embora pareça ter tido origem em Inglaterra.
Por volta de 1750, mais de 200 remédios encontravam-se protegidos em Inglaterra por este tipo de elixir, utilizado no tratamento do estômago fraco ou da falta de apetite.
Em meados do Sec XIX, produziam-se já notáveis analgésicos e curas para doenças, como a cólera. Na verdade, o próprio curativo universalcura tudo foi utilizado em praticamente todo o mundo, quando a cólera se tornou epidémica. O mercado dos medicamentos rapidamente foi invadido por todo o tipo de preparados bizarros e assombrosos. Grandes espectáculos de apresentação de remédios, percorriam a nação, erguendo as tendas nas respetivas cidades.
A partir de certa altura, o acto de vender tornou-se mais fascinante do que o produto comercializado, e os charlatães dos remédios tornaram-se artistas de espectáculo, chegando a aparecer nos espectáculos de circo de  Barnum e Bailey.
A maioria dos remédios não continha qualquer banha da cobra. O nome era simplesmente utilizado para transmitir a ideia de que a droga se baseava no conhecimento secreto dos nativos americanos. Algumas, porém, continham mesmo genuína banha da cobra. A verdadeira banha da cobra era tida em alto valor, e, em 1880, John Geer, um conhecido caçador e amestrador de cobras, explicou ao repórter como matava cascavéis, extraía a gordura e a vendia por um dólar a onça.
Clark Stanley, também conhecido por Rei da Cascavel, comercializava o Linimento de Banha da Cobra, que se afirmava ser bom para homens e animais. Numa apresentação em 1893, manteve multidões suspensas, ao matar centenas de cascavéis, espremer os seus fluidos para frascos e criar mais um cura-tudo. As suas próprias campanhas de publicidade explicavam como este remédio era um maravilhoso composto destruidor da dor; o mais forte e o melhor, capaz de curar dores de costas, lumbago, músculos contraídos, dor de dentes, entorses, inchaços. Stanley afirmava ter adquirido a receita de um Moki, um homem-medicina dos índios Pueblo, o que é de facto possível, pois os nativos americanos tinham fama de tratar problemas de saúde com banha da cobra, e aplicavam gordura de cascavel às áreas atingidas.
Em 1905, o disparate instalara-se verdadeiramente, como se pode deduzir do artigo de jornal intitulado A Grande Fraude Americana, publicado no reputado Collier’s Magazine. Samuel Hopkins Adams, autor do artigo, demolia a charlatanice numa peça avassaladora, bem documentada e investigada. Devido ao facto de uma grande parte do conteúdo dos medicamentos à base de banha da cobra ser o álcool, houve um pequeno ressurgimento de popularidade durante o período da Lei Seca, mas quando esta foi abolida, os avanços da medicina selaram o destino da banha de cobra.
Banha da Cobra passou a ser, apenas, uma expressão conotada com aldrabice, charlatanice.










[1] Advogado, antigo magistrado do MP, antigo Deputado, antigo Presidente da Assembleia Municipal de Alcobaça, crítico literário e autor de várias publicações.