sexta-feira, 17 de maio de 2019


ELES NÃO SÃO DOIS, MAS
TRÊS OS GÉNEROS!!!

FLeming de OLiveira



-Se há uma dúzia de anos me viessem falar de realidades tão importantes e transformadoras como algumas com que hoje nos confrontamos, teria dado uma gargalhada e do alto da minha “sabedoria”, argumentaria por A mais B, que isso seria impossível, pois o bom senso iria imperar.
Entretanto, foi o que foi…
Reconheço que sou um “inabilitado”, educado e formatado por alguns princípios e regras, hoje tão fora de moda, que nem servem para decorar uma prateleira. E que, por mais sensato ou previdente me queira assumir, jamais conseguirei evitar, de todo, que o meu raciocínio ou gostos acabem por ser conduzidos pelo quadro mental que se me tornou confortável e que padece do que chaque mo, um pensamento marcado por aquilo que desejo. O mundo em que vivemos, especialmente a partir da segunda metade do século XX, está a mudar a um ritmo nunca visto, sendo nós inundados por uma imensidade de dados, de ideias e de promessas, em que se destacam o desenvolvimento ingovernável das tecnologias, em especial das da informação e da inteligência artificial, às quais se associam a biologia e as nanotecnologias. Vivemos um contexto cultural complexo e difícil, aparentemente “descomandado”, com problemáticas que revelam a necessidade de procurar respostas para o desafio antropológico colocado à atual crise de orientação da cultura filosófica, científica e tecnológica, em questões ligadas às neurociências, à bioética e à biotecnologia.
-A Alemanha legalizou em meados de dezembro passado um "terceiro género" nas certidões de nascimento e documentos de identidade, tornando-se o primeiro país na Europa a reconhecer “pessoas intersexuais”.
A partir de agora, além das tradicionais definições "masculino"(associada ao azul) ou "feminino" (associada ao cor de rosa), é possível incluir "diverso". O governo deu cumprimento a uma decisão do Tribunal Constitucional, que havia imposto ao Parlamento votar até o final de 2018 a legalização de um “terceiro sexo/género”.
Desde maio de 2013, os cidadãos alemães tinham a possibilidade de escolher entre não preencher o sexo/género (masculino ou feminino) nas certidões de nascimento ou manter a menção de sexo não especificado.
Outros países da Europa rumam para o reconhecimento de um terceiro género, entre eles a Holanda, Áustria e “claro” o nosso Portugal.
Na França “reacionária” (?), até cinco dias após o nascimento, as pessoas devem optar por um dos dois géros/sexos: masculino ou feminino. O Tribunal de Cassação rejeitou recentemente o reconhecimento de um "sexo/género neutro", opondo-se ao pedido de uma pessoa nascida sem pénis ou vagina.
Um amigo evoluído, quando tentei abordar o assunto, do alto da sua “sabedoria” de mais de setenta anos, retorquiu-me que “as pessoas precisam entender que o mundo é mais diverso que as suas cabecinhas preconceituosas conseguem imaginar. Há pessoas que nascem sem sexo, pois a natureza fê-las assim. Pára de te limitares à religião, ou te socorreres da Bíblia, porque és um alienado inútil”.
A intersexualidade pode ser evidente à nascença (uma criança nasce com um clitóris muito grande, sem abertura vaginal, um pénis muito pequeno ou um escroto aberto), mas só se manifestar na puberdade ou mais tarde (quando a pessoa é adulta e se depara, por exemplo, com a infertilidade).
A legislação sobre o terceiro género/sexo tem sido estudada, entre nós apenas, ao que sei, pelo Bloco de Esquerda, que anunciou há tempos que irá apresentar na Assembleia da República um projeto de lei para “reconhecimento da realidade intersexo”.
Até há alguns anos, falava-se em pessoas hermafroditas, termo que alguns intersexuais rejeitam, considerando-o ofensivo, e que outros reclamam, aceitando-o. A medicina fala em “distúrbios do desenvolvimento sexual”, conceito onde cabem a intersexualidade e condições idênticas.
Há quem não aceite a classificação médica, alegadamente por implicar uma visão patológica da intersexualidade. Propõe uma mais abrangente comopessoas não-binárias, que estão fora das categorias de sexo/género macho ou fêmea, das categorias sociais homem ou mulher e do quadro psíquico masculino ou feminino. Note-se que, muitas vezes, a temática intersexual é incluída no conceito transgénero (transexuais, travestis, etc.), o que também não é consensual”.
A fluidez na matéria parece dever-se bastante à invisibilidade social dos intersexuais. Só a partir da década de 1990, é que o ativismo dos direitos humanos, as associações de apoio a doentes e o movimento LGBT começaram a prestar-lhe atenção e a traze-lo a debate.
 -Otrans-humanismo” é um movimento cultural, intelectual e científico, racionalista e materialista, baseado na premissa de que a espécie humana, na sua forma ou estádio atual, não representa o fim do desenvolvimento, mas uma etapa preliminar, e entendendo que o humano está em perpétua evolução, julga ser possível, desejável mesmo intervir, voluntariamente, nessa evolução, através da ciência e da técnica.
Este movimento assenta no pressuposto de considerar o progresso como uma transformação da nossa conceção de vida e da condição humana, a fim de se obter um homem novo, o “trans-humano”.
A ciência e a técnica, como qualquer outra atividade humana, têm consequências que devem ser ponderadas e limites a ser observados, a bem da própria humanidade. Requer-se, por isso, um espírito crítico e uma responsabilidade ética, no sentido de uma clarificação de valores e de normas, fundadas em virtudes essenciais ao desenvolvimento humano, quer a nível individual, quer social.
-Perante alguns “logros” do progresso científico-técnico e a complexidade crescente das questões que rodeiam o homem, é necessário ponderar os riscos que se correm sem travar o curso do progresso, perceber que o “progresso” não é, afinal, uma deriva civilizacional.
 




quinta-feira, 18 de abril de 2019


Não Gosto de “Partilhar
FLeming de OLiveira




Honestidade”, virou uma enorme virtude social e “autenticidade “, alegadamente, um grande objetivo neste Portugal XXI.
Resultado de imagem para turma do bemHá quem defenda que “partilhar” não tem limites e por isso escreve ou fala aberta e extensivamente sobre problemas que, até há pouco tempo, eram reservados. Esses entendem que “partilhar” permite que cada um se sinta mais apto a ser ele próprio, pelo que deste modo deve continuar a “partilhar”.
Na nossa sociedade, o jet-set entende que não deve conter o seu pudor, e que as redes sociais facilitam a partilha de informação, tornando-o mais próximo do comum mortal. As fronteiras da vergonha, da decência e do pudor estão a ser sucessivamente renovadas, a expensas de uma fama fugaz, inconsequente, e frequentemente corrosiva para os próprios.

Creio que muitos portugueses entendem ser mais aceitável e fácil hoje falar de sexo do que no tempo de seus pais e pais de seus pais.
Suponho, porém, que há muito menos pessoas que acham que falar em concreto sobre o seu salário e o estado das finanças é assunto que gostem de partilhar, ao invés de, à boa maneira portuguesa,  não haver reservas em partilhar especificidades dos problemas de saúde. E não é preciso estar numa sala de espera de consultório médico.
Há pessoas que entendem que podem ser recompensadas por exporem vidas pessoais, mas contraponho-lhes liminarmente existirem enormes desvantagens, ainda que não de todo visíveis.
As desvantagens são tantas que as não poderia aqui alinhavar, e se não tivermos passado por uma recente situação traumática, tomamos pouca ou nula atenção ao que “partilhamos”, quando e com quem.

Resultado de imagem para modello circolare della comunicazioneO facto de não estarmos bem conscientes dos (i)limites da “partilha”, faz com que não pensemos nos riscos e o impacto que tem ela nas nossas relações.
Partilha on-line não tem balizas nem limites se dermos valor à abertura, se desejarmos valorizar um bom julgamento, a confiança, e a capacidade de regulação. Partilhar em demasia pode levar a uma situação de enorme vulnerabilidade pois nunca é possível controlar o que os outros a partir daí vão fazer ou dizer.

Um amigo, cínico pela idade e por algumas maldades da vida, defendia recentemente que a honestidade é a base da intimidade.
Não sei se é por isso que nunca conseguiu encontrar uma relação consistente e estável. Argumentei-lhe que ao iniciar uma relação, contar as histórias vividas e passadas pode aumentar as probabilidades de sabotar a confiança, em vez de parecer estar folhear um livro.
 Honestidade” não é sinónimo de “Transparência”, uma intimidade saudável permite um bom grau de privacidade individual, sem olvidar que o desejo/libido é potenciado pelo desconhecido.
O excesso de informação pessoal pode ser avassalador e se for uma forma de criar uma relação social, muito provavelmente não será bem-sucedido. A honestidade, ainda que extrema, pode reforçar amizades, mas não as consegue criar.

Resultado de imagem para pop art quoteAlém da disponibilidade das redes sociais e das influências/modas culturais e sociais há outros fatores que levam a “partilhar em demasia”.
Considerando tudo isso, não é minimamente surpreendente como não conseguimos assim reter um único facto ao fim de algum tempo.  
Decidir guardar algo não é o mesmo que ser desonesto e pode-se ser autêntico, sem demasiada exposição. As coisas que revelamos nos momentos de “partilha” não correspondem necessariamente ao que somos, pois refletem normalmente o que no momento se encontra na mente. Quanto mais seletivas forem em relação ao que partilham, mais capazes são as pessoas de criarem de si uma imagem verdadeira.






sexta-feira, 22 de março de 2019


ECONOMIA LINEAR/ECONOMIA GLOBAL

Fleming de OLiveira

A classe politica, sempre ocupada em aparecer na televisão, participar em debates, mesas redondas, quadradas ou ovais, opina sobre isto e aquilo, não vê ou não quer saber o que dela se diz.
Não andando nos transportes coletivos, ignora mesmo o que se fala nos autocarros ou no metro. Se ouvisse, calava-se e procurava passar despercebida, antes que recolhesse algum “piropo”.
Para a classe politica, o povo serve, desde logo, para lhe fazer promessas. Metido o papelinho na urna, contados os votos, o “Zé” submete-se às estratégias partidárias, que pouco lhe interessam, ou nelas não se revê.
Conheço o argumento que as promessas eleitorais são consideradas mais intenções do que compromissos, pois não existem, na prática, exigências de que as promessas em campanha sejam cumpridas, nem sanções para os que não as cumprirem.
Se o político soubesse bem o que por aí se passa, perceberia que “Democracia” para os sem esperança, é palavra vã por não afastar a pobreza, a desigualdade, a degradação das condições de vida e o favorecimento de cliques. Se o desprezo matasse, esvaziava alguns “políticos da nossa praça” ou libertava-nos deles.
“No Tempo da Outra Senhora” , havia a ideia que às pessoas faltava capacidade para se pronunciar sobre o país e a cidade. Mas hoje em dia, talvez por força dessa “pesada herança”, a situação não é substancialmente diferente. Uma república, sem cidadãos intervenientes, rejeita que o “cidadão anónimo” (que terrível expressão!) seja capaz de elaborar uma visão estruturada sobre a realidade, falar de futuro e de coisas sustentáveis.

Por vezes o articulista acerta, desencadeando sentimentos e recordações que guardados no “disco rígido” a que chamamos coração, só esperam oportunidade para virem a superfície.
É o caso da evocação das dificuldades e comportamentos que a evolução da vida do País e do mundo nos convenceram que não voltavam mais. Mas voltaram. As privações de tempos que pensávamos extintos, suscitaram algumas mensagens quando neste espaço abordei o assunto. Fiquei reconfortado, pois é sinal que não foram “palavras fora da boca”. Recordo, concretamente, o que me escreveu um leitor: “Era mesmo assim. Tinha eu uns 2 anos quando começou a guerra na Europa e então era uma miséria. Em 1945, à luz da cadeia lá no alto da Serra, tudo se comia, tudo se aproveitava, as roupas eram remendadas e no meu casamento levei o fato comprado 2 anos antes quando a minha avó faleceu”.

Esta é a perspetiva de um anónimo, pelo que citando o nada anónimo Vitorino Magalhães Godinho não resisto a invocar que “incapazes de diagnosticarem a natureza estrutural da crise e presos nas teias dos grandes interesses resistindo as mudanças estruturais que se impunham, os Estados optaram pelo o que chamaram saneamento financeiro, sobrecarregar as populações pelos impostos e anulação de benefícios. Apertar o cinto, diz-se na gíria, tornar-se inevitável a degradação do nível de vida”.

 A ideia não é nova e antigamente era qualificada de mero bom senso. Os casacos passavam para os manos mais novos, os sapatos para os primos mais pequenos. A água depois de lavar couves ou alfaces, servia para regar as plantas do jardim e os frascos tinham uma nova oportunidade de vida, guardavam botões, agulhas ou parafusos e mesmo aquela divinal compota de amora que a avó fazia como ninguém. A minha neta Teresinha, licenciada em Economia, explicou-me que isto na sua Universidade pode ser designado como “Economia Linear”.
Com o tempo esquecemos estes gestos, e a prática de uso único passou a dominar a nossa vida, pelo que nos habituamos a deitar fora uma quantidade enorme de objetos que poderiam ser reutilizados. Acontece que, finalmente, estamos a perceber que poderá não haver em breve matéria prima suficiente para fazer novos produtos ao ritmo da procura e não mais espaço para nos desfazermos daquilo que descartamos.
Então voltou a necessidade de ter bom senso, agora sofisticadamente chamado “Ecologia”. Bem sei que, como em tudo, chegará a hora de um produto estar em fim de vida, que não é viável reparar. Por exemplo, uma caixa de cartão pode dar origem a novas caixas ou mesmo a papel higiénico.
Mas para que tudo isto funcione é importante o contributo individual e que não se quebre esta economia em cadeia, como me explicou a minha neta, também chamada “Economia Global”.






terça-feira, 26 de fevereiro de 2019