segunda-feira, 12 de março de 2018

Bonito ou Feio




BONITO OU FEIO?

FLeming de OLiveira



Se é loira, deve ser “burra”. Se é bonita, chegou ao topo da carreira na “horizontal”. Se o tipo tem músculos, é fútil por dedicar tantas horas ao ginásio.
Sim, os atributos físicos, ainda que belos, podem jogar contra quem os possui, tornando-os alvo de reprovação social, de crítica com intenção de humilhar e denegrir, sem esquecer o ciúme ou a inveja maligna.
A beleza é um atributo bem cotado socialmente, mas também pode fechar portas. De facto, ser bonito é um ativo precioso, mas pode acarretar efeitos danosos, não ser a pessoa levada totalmente a sério ou ficar dependente desse atributo. O facto de uma pessoa ser atraente pode transmitir a noção de que tem mais poder sobre o espaço à volta, fazendo com que os outros sintam que não podem competir ou se aproximar dela.  
Parece impossível imaginar, afinal, que bonito pode ser algo negativo, a ponto de prejudicar aspetos da vida.
Beleza e a inteligência não são incompatíveis, mas sem sofismas todos são naturalmente atraídos pelo belo, e quem se aproxima do “ideal dominante” tem mais força social.
Por isso, a indústria da beleza é florescente, a obsessão pela beleza remonta a tempos imemoriais, facilitando a vida aos menos dotados ou penalizados pelo decurso da vida.
Paradoxalmente, embora no antigamente, uma figura esbelta podia ser um estorvo, particularmente em profissões em que os requisitos técnicos da função estão na primeira linha. Uma figura atraente, captava a atenção pública, mas recebia avaliações menos favoráveis que os outros colegas.
Quando, há mais de 40 anos, comecei a trabalhar nos tribunais, dizia-se (???), “machistamente” que a beleza era capaz de exercer o seu fascínio. Réus bonitos tinham probabilidades de obter penas mais leves ou até serem absolvidos. Da mesma forma, se o indivíduo que entrou com o processo for mais atraente, é é possível que a balança da Justiça tende a pender para ele, fazendo com que ganhe o caso e consiga indemnizações maiores.
Resultado de imagem para bonito ou feioSeja como for, nunca o pude atestar.
Os tempos evoluíram, há menos tolerância para manobras sexistas, que tendem a acabar mal, como referi num apontamento aqui publicado, há pouco tempo. A democratização de costumes e o mediatismo, permitem que seja normal, homens e mulheres, fazerem valer a imagem. Não era de todo estranho, noutro tempo repito, uma mulher no início da carreira, se vestir como se fosse mais velha para ser levada a sério. Hoje não sendo assim, o preconceito e machismo ainda levem mulheres a camuflar atributos físicos, para não serem importunadas.
Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. É um ditado que assenta como uma luva quando se aborda um atributo tão poderoso e perturbador.
Ser bonito pode ajudar, mas não é passaporte carimbado para a felicidade.
Sim, meus Amigos. Existem vantagens em ser feio. Quase nulas? Talvez. Vantagens? Não muitas.
Se você, assim como eu, possui uma beleza exótica, ou até mesmo se não a tiver, somos considerados feios. E o pior não é isso, mas sim que isso entrou na nossa cabeça ao ponto de quando olhamos ao espelho, perguntamos: Meu Deus, por que eu sou tão feio assim?
As desvantagens de ser feio todo mundo conhece, e são tantas que os feios deveriam ser protegidos como classe, assim como minorias raciais ou pessoas com deficiência!!!

A maioria de nós, embora tenha dificuldade em o assumir publicamente, prefere comprar a vendedores com melhor aparência, ouvir advogados mais bonitos, votar em políticos mais esbeltos, aprender com professores mais elegantes. Não, não é uma questão de de recusar em contratar o feio, mas enquanto trabalhadores, clientes, somos responsáveis por esses efeitos.
Assim, sugiro (academicamente) que deveríamos ajudar as pessoas de aparência simples, alargando as leis que protegem minoras e, criando programas de ação afirmativa para os feios.
Isso soa claramente impossível, fantasioso, provocatório sem dúvida, pois pressuporia que classificássemos “legalmente” alguém como “pouco atraente”, para não dizer “horroroso”, embora as pessoas possam ser comprovadamente feias.
Buscar a “igualdade” significa tratar todos por igual, negros, feios, bonitos, albinos, carecas, e leis para proteger uns ou outros é assumir a não discriminação.
De fato, os feios não devem sofrer preconceito, mas seria uma lei a solução para o combater?


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Assédio Sexual








 “ASSÉDIO SEXUAL

FLeming de OLiveira


É grande a discrepância entre os casos “identificados” em estudos recentes e as queixas entradas na Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, em matéria de Assédio Sexual e/ou Moral no local de trabalho.
O assédio no trabalho, tanto pode ser moral ou sexual. Assédio moral ocorre quando os factos afetam a integridade física e moral da vítima. Verifica-se uma situação de assédio sexual quando há um comportamento indesejado de natureza sexual, expresso em forma verbal, não-verbal ou física.
Se um em cada seis trabalhadores portugueses já foi vítima de assédio sexual e/ou moral durante a sua vida profissional, como é que as queixas variam entre uma e nove por ano?
Creio que muito pode ser explicado pelas relações de poder e, no caso do assédio sexual, com a “lei do silêncio”. Todavia, pode-se ajuizar que o enquadramento legal não conferia aos lesados a segurança, de modo a avançar com uma denúncia formal. Este apontamento não pretende apresentar-se com um enquadramento jornalístico, onde se emitam opiniões sobre a sua factualidade, mas como uma informação/divulgação de conteúdo técnico-jurídico.
Até 1 de outubro de 2017, isto é, com a Lei n.º 73/2017, de 16 de agosto de 2017, não se previa mecanismo de proteção para quem fazia denúncias ou aceitava ser testemunha. Era, por exemplo, possível uma empresa instaurar um processo disciplinar sobre a matéria de queixa de assédio, ou a quem tinha testemunhado. A nova Lei impede que o trabalhador que denuncia ou as testemunhas possam ser alvo de sanções disciplinares pelas declarações que prestem num processo desta natureza
A Lei em apreço, trouxe outras mudanças significativas. Refira-se, para começar, que se proíbem todos os tipos de assédio no trabalho, mesmo que não se verificam no local de trabalho. Explique-se melhor, passou a ser tido em conta o trabalhador vítima de assédio laboral, por email ou telefone.
Também ficou inscrito no diploma que, se as falhas no desempenho de funções laborais forem decorrentes do assédio, o despedimento é tido por infundado.
Resultado de imagem para assédio no trabalhoO desgaste faz com que a pessoa/trabalhador deixe de ser capaz de desempenhar adequadamente as suas funções pelo que leva, não raramente a baixas médicas. Nesse sentido, a nova Lei imputa às empresas os custos relacionados com as doenças profissionais decorrentes do assédio. Posto isto será necessário acrescentar a depressão à lista de doenças profissionais, pelo que que ficou o compromisso de o Governo avançar com a regulamentação dessa parte da Lei. Qualquer doença profissional que resulte do assédio no trabalho, passa a estar abrangida pelo regime das doenças profissionais e dará direito ao pagamento de compensações pelos danos sofridos. Uma vez que o assédio passa a estar expressamente proibido por lei, isso confere à vítima o direito a indemnização por danos patrimoniais e morais. Através da nova Lei, o assédio passa também a ser motivo de rescisão do contrato com justa causa pelo trabalhador. A Lei n.º 73/2017, de 16 de agosto de 2017, veio ainda implementar a elaboração de “códigos de boa conduta” às empresas com mais de seis trabalhadores, com vista a prevenir e combater o assédio. Além disso, veio obrigar a entidade patronal a instaurar procedimentos disciplinares caso tenha conhecimento de uma situação de assédio no local de trabalho.
Os custos serão importantes para as empresas, uma vez que as que forem condenadas por assédio passarão, como sanção acessória, a constar de uma “lista negra”, expressão não meramente figurativa, pois as condenações serão tornadas públicas no “site! da Autoridade para as Condições de Trabalho.
O resultado do trabalho desenvolvido pelo Centro Interdisciplinar de Estudos de Género do ISCSP, para a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, verificou que 16,5% da população ativa portuguesa já foi alguma vez vítima de assédio moral durante a sua vida profissional, e 12,6% sofreu uma qualquer forma de assédio sexual no local de trabalho.
O silêncio dos portugueses sobre o assédio sexual, e que está a ser exposto com ressonância no estrangeiro, por vezes com aproveitamento inconfessável, com fundamentos e motivações que desconheço e admito nem sempre serem claros, tem várias justificações.
O País é pequeno, o mercado de trabalho é ainda mais pequeno e as pessoas têm medo de perder o emprego (cujas consequências são graves e de longo efeito) ao exporem o que é frequentemente muito difícil de provar.
Por outro lado, nem a sociedade em geral, nem a justiça, tendem ainda a valorar bem a denúncia, antes pelo contrário, são as vítimas desincentivadas a exporem o caso, alvo de críticas quando se expõem, correm o risco de serem “massacradas” na praça pública. A maior parte dos empregadores, são pequenas e microempresas, o que dificulta a ação por parte de lesados, pessoas sem acesso fácil aos “media”.
Em Portugal, tem assim havido evolução na cultura social e na legislação, no tratamento público da violência doméstica (caso diverso) e, mais recentemente, na avaliação das decisões judiciais envolvendo essa mesma violência.
Mas o silêncio sobre o assédio sexual, é revelador da força de uma cultura que ainda “acata” este tipo de tratamento, sobretudo das mulheres.
Enfim, ao tentar prevenir situações de assédio, a nova legislação visa que os lesados/trabalhadores se sintam mais protegidos para fazerem valer os respetivos direitos.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Acerca de “Política e Corrupção Branqueamento e Enriquecimento”, de P. Saragoça da Matta.

Acerca de “Política e Corrupção
Branqueamento e Enriquecimento”,
de P. Saragoça da Matta.

(Chiado Editora)




FLeming de OLiveira


Recebi para apreciação da Chiado Editora, Política e Corrupção- Branqueamento E Enriquecimento, do advogado Dr. Saragoça da Matta.
Nunca trabalhei com ele, não o conheço pessoalmente, mas aprecio algumas intervenções em programas televisivos.

Resultado de imagem para politica e corrupção-p. saragoca da mattaTrata-se de um conjunto de textos/conferências com alguns anos (o que lhes pode retirar alguma oportunidade), que analisam os contornos do Enriquecimento Ilegítimo, da Corrupção na Função Política e Administrativa, do Branqueamento de Capitais e do Financiamento ao Terrorismo, assim como a Disciplina Legal e Regulatória do Mercado Financeiro. O autor também se pronuncia sobre os Prazos de Recurso nos Megaprocessos de excecional complexidade, os Meios de Prova e o Papel do Consentimento do Arguido na Utilização de Provas Através do Seu Próprio Corpo, o Dever de Exame de Toda a Prova Relevante para a Condenação em Sede de Julgamento, o Interrogatório do Arguido, a Recorribilidade para o Supremo Tribunal de Justiça e a Delimitação do Núcleo Essencial dos Direitos Processuais das Partes.
Não entrando na apreciação destes temas, irei fazer, porém, um comentário respeitante a sua reflexão de cariz politico-filosófico sobre a (in)salubridade do nosso regime politico, embora se pudesse pensar que conforme a minha formação académica e profissional incidiria preferencialmente sobre os outros.

Questiona-se naquela reflexão se os (nossos) Partidos Políticos vivem isentos de verdadeiro escrutínio, seja de mérito ou de legalidade de procedimentos, por parte do Povo (Soberano). Esta reflexão incide sobre os políticos, como se fossem uma casta perversa, um grupo de personalidades com mentalidade e procedimentos distorcidos diferentes dos demais agentes, sejam dirigentes desportivos, industriais, sindicais, etc. e que afetam a qualidade da vida coletiva. O autor aprecia, muito criticamente, a questão da disciplina de voto nas câmaras parlamentares (AR e assembleias autárquicas), a contaminação dos interesses públicos pelos interesses dos Partidos e o seu financiamento, a manipulação da máquina do Estado, a perpetuação das estruturas partidárias e a imutabilidade da lei eleitoral.
O regime politico português, por mais democrático que se reclame (ainda que não retoricamente), sofre naturalmente de distorções que viabilizam críticas, mais ou menos aceradas, justas ou oportunas. Por outro lado, sabendo-se que este regime (como qualquer outro) não é perfeito, sem necessidade de invocar facilmente a falta de cultura e prática democráticas portuguesas, há que ter em conta que se trata de um regime feito por pessoas concretas, não virtuais, que não se podem substituir por outras politicamente mais corretas, decorrente de uma Constituição aprovada numa conjuntura especialmente turbulenta e que fundamentalmente resiste.
Não é original o entendimento que a CRP está a ser desrespeitada pelos partidos com assento na AR (com a óbvia exceção do PAN) relativamente ao artº 155.º/1/C.R.P., que dispõe que os Deputados exercem livremente o seu mandato (…). E, argumenta-se, que a Disciplina de Voto, instrumento usado com alguma frequência para impor a vontade de uma liderança parlamentar ou partidária aos elementos do seu grupo, não deve subsistir numa democracia real.
Disciplina de voto é um conceito central numa democracia partidária como a portuguesa e define a indicação de que todos os deputados devem votar no mesmo sentido, aprovando ou rejeitando o que estiver em discussão.
Em Portugal, apenas o PS e o PSD consagram (embora de maneira ligeiramente diferente, mas com o mesmo propósito) a disciplina de voto nos seus estatutos, sendo que os demais a aplicam em momentos alegadamente decisivos.
No Partido Socialista o princípio da ação dos Deputados é o da liberdade de voto.
Mas excetuam-se as matérias (…).
No Partido Social Democrata, os Deputados e os eleitos em listas do Partido comprometem-se a conformar os seus votos no sentido decidido pelo Grupo que integram, de acordo com as orientações políticas gerais fixadas pela Comissão Política competente, salvo prévia autorização de dispensa de disciplina de voto, por reserva de consciência, nos termos do Regulamento desse Grupo.
Já ouvimos defender que em matérias em que há disciplina de voto cumpro escrupulosamente o sentido de voto, mesmo que pudesse discordar. Ou seja, cumpre a disciplina de voto em Moções de Censura ou de Confiança, no Programa do Governo e nos Orçamentos do Estado, assumindo no demais a liberdade de voto.
Apesar de a disciplina de voto não se encontrar especificada nos seus estatutos, o CDS/PP (tradicionalmente do Arco do Poder) teve um problema com o deputado Daniel Campelo, quando este decidiu negociar a aprovação de dois Orçamentos de Estado, do Governo (minoritário) PS. Campelo foi suspenso do partido, fez uma greve de fome!!! e acabou por ser reintegrado tempos depois, com aplausos.
Recorde-se que, aquando da votação do OE para 2013 e 2014, Rui Barreto, deputado pela Madeira, foi o único deputado da maioria PSD/CDS. a juntar-se à oposição, votando contra a aprovação do Orçamento. Rui Barreto não respeitando a disciplina de voto, acabou suspenso.
Rui Tavares escreveu (com a ligeireza de uma generalização e na qualidade de articulista) lamento dizer isto, mas os deputados que votaram contra a sua consciência fizeram-no apenas para manter um lugar nas listas de deputados. É uma evidência desagradável, mas uma evidência. E, ao fazê-lo, foram maus deputados. Um deputado que vota contra a sua consciência, numa questão de direitos dos cidadãos, para não desagradar à direção partidária que fará as próximas listas de deputados é um deputado que subverte o espírito da democracia parlamentar. Pode ser um militante leal do partido, mas é um mau representante dos cidadãos. É deplorável que em Portugal ainda tenhamos de explicar, a cada vez, que a disciplina de voto não só não é necessária ao bom funcionamento de um parlamento nem requerida por lei como é antitética do parlamentarismo e contrária ao espírito da Constituição, que no seu artigo 155.º determina que os deputados exercem livremente o seu mandato. (…)
(…) É preciso então dizê-lo claramente: um deputado que admite dar mais peso à escolha do seu nome para a próxima lista do que aos direitos dos cidadãos que representa não está a fazer nada no Parlamento. Não venham dizer que o sistema os obriga a votar contra a sua consciência. Ninguém está obrigado a ter medo de perder o lugar na lista. É esse medo que faz dos representantes meros funcionários e que deixa a democracia portuguesa subdesenvolvida. (…)
Contra a disciplina de voto em Portugal, argumenta também que não é uma questão de sistema eleitoral, mas de cultura parlamentar e democrática, pois enquanto os cidadãos não demonstrarem que exigem essa cultura democrática aos seus partidos, estes continuarão a asfixiar o parlamentarismo e acabarão por se esvaziar a si mesmos.
Diz, que há parlamentos sem disciplina de voto. Aí os votos contam-se um a um, pelo que pode haver surpresas. É verdade, mas essas surpresas é o que o partido do poder naturalmente não quer.
No Congresso americano, representantes e senadores votam, por vezes, contra o seu partido.
No Parlamento Europeu, a disciplina de voto encontra-se explicitamente proibida no Regimento.
Mas estes Parlamentos em nada se assemelham ao português, na sua composição e funções, pelo que essa invocação é desajustada e a comparação absolutamente errada.
Que podemos dizer em contrário? Se não existisse a disciplina de voto para certas matérias e, em particular, se o voto fosse secreto, as maiorias parlamentares (…) seriam muito mais frágeis e os governos apoiados por tais maiorias sujeitos a muito maior incerteza política. E, os votos de deputados poderiam mais facilmente ser cooptados por grupos de interesse, além de que seria mais difícil levar a cabo qualquer nova iniciativa política, nomeadamente, mais polémica, ou que contasse com uma base de apoio mais estreita.
O dilema existe, democracia representativa com disciplina sobre os representantes do povo, ou representantes do povo completamente livres para pensar e decidir sempre pelas suas cabeças, com todos os problemas inerentes a essas escolhas.
Seria provavelmente pouco pragmática, mas, mesmo com todos os problemas que se adivinham, inclino-me para a segunda opção, escreve o mesmo articulista.

No que diz respeito ao financiamento dos partidos, Saragoça da Matta defende que estes não devem auferir comparticipações do OE, e devem gerir a sua ação com os meios que consigam obter. Nesta matéria, aparecem depressa os autoproclamados arautos da seriedade, a dizer que os partidos são maus, e mesmo há protagonistas dentro dos partidos políticos a dizer que são mais sérios que outros.
Muito bem, mas Saragoça da Matta para além de defender a bondade da proposta não permite ajuizar como é que os partidos se socorrendo tão só do autofinanciamento conseguem levar a cabo uma politica apenas orientada pelo interesse publico, sem cair na necessidade de satisfação dos interesses dos seus financiadores ou corresponder aos respetivos lóbis.
Tendo em conta que o objetivo do partido politico é ganhar o poder e depois exercê-lo (nunca se esqueça que conforme a CRP temos um governo de partidos), é impossível dissociá-lo de facto dos interesses dos que o suportam.
Em termos teóricos (a política não se faz com meras soluções teóricas, muito menos quando há balizas, e apresentar propostas teóricas é menos arriscado que concretas), seria mais transparente que do OE saísse uma verba para o funcionamento partidário, capaz de garantir condições para os agentes políticos exercerem o seu trabalho e a sua responsabilidade cívica sem dependência de outro poder, nomeadamente o económico. E acrescentam, isto acompanhado da melhoria dos mecanismos de transparência, de controlo e de fiscalização.
Não aceito que, para justificar e/ou manter uma postura de imparcialidade, o agente (politico ou não) individualmente (ou não) se venha a rodear de pessoas que não se identificam consigo, não sejam da sua confiança, pois que politica real pressupõe uma relação de solidariedade, ainda que conjuntural, com interesses ou pessoas que a corporiza.
É ingénuo pensar que o exercício da ação politica de forma coerente e estável, se pode desenvolver sem solidariedade e fidelidades, já que passe a expressão será abrir a porta do galinheiro à raposa.
Como cidadão, entendo que na verdade o Estado se transformou numa máquina ao serviço do poder e dos que o ocupam, dos que protege e dos que lhe são submissos, com raras e honrosas exceções. Criou-se um ambiente onde se diluíram pilares como a família e o casamento, para impor a vontade da lei onde devia prevalecer a liberdade individual.
Assiste-se à aprovação de leis em clima de confronto ou revanchismo, quando o Poder deveria mobilizar forças que se inserem ou não na sua maioria parlamentar, acolhendo sugestões e aperfeiçoamentos que contribuiriam para uma execução mais justa ou isenta de dúvidas.
Neste quadro, o debate político atingiu elevados níveis de agressividade e oportunismo, sem esquecer a manipulação ou a gestão política dos anúncios ou dos dados políticos.
Por isto e tudo mais, o autor defende que Portugal vive uma ficção democrática. Esquece (???) que temos a democracia de acordo com a matriz da CRP, e pessoas reais, que pode e deve continuar a ser melhorada, erradicando-se situações de comportamentos ilegítimos que violam o decoro ou interesse público.

Tenho as maiores dúvidas quanto às vantagens da criação de círculos uninominais, para já. A revisão constitucional de 1997 viabilizou a criação de círculos uninominais na eleição da Assembleia da República no quadro de um sistema proporcional e, portanto, em articulação com círculos plurinominais como os que já existem. Todavia as resistências, têm sido fortíssimas e estes anos passados, nada se avançou.
Esclareça-se que nos círculos uninominais escolhe-se apenas um nome, um deputado. Nos círculos plurinominais escolhem-se deputados de entre listas com vários nomes. No primeiro caso escolhe-se para representante quem se prefere. No segundo escolhe-se a lista de partido e proposta por este, sendo os candidatos eleitos conforme a proporção obtida por cada lista. Mais que deputados escolhe-se o partido.
Um sistema assente apenas em círculos uninominais pode assumir-se injusto na representação das correntes políticas em confronto. As eleições inglesas são disso um bom exemplo. Um sistema só de círculos plurinominais pode tornar-se distante na relação eleito/eleitor, pelo que se for possível criar um sistema misto daria, uma representação mais justa e próxima.
Subscrevo que o essencial, numa reforma do sistema eleitoral, será de definir se se pretende com o voto popular eleger deputados de forma conjugável com a governabilidade do país.
O atual Governo PS, apoiado na AR por BE, PCP e PEV, decorre de uma vontade parlamentar e não popular.
 Em Portugal, encontram-se conhecidas dezenas propostas sobre a reforma do sistema eleitoral e foram feitos outros tantos estudos. O próprio António Costa, enquanto Ministro da Administração Interna, encomendou o estudo do sistema alemão sobre círculos uninominais, que, como os demais, foi para a gaveta onde se encontra.
Esta matéria, aliás não trabalhada ou amadurecida, carece do favor dos partidos (dificilmente se entenderiam entre si), não apenas porque isso não iria implicar uma maior aproximação com os eleitores, como pelo facto de círculos políticos uninominais, assentarem em personalidades da não confiança ou estranhos aos partidos.
É fácil reconhecer que não há sistemas eleitorais perfeitos, sendo um dos mais graves a falta de representatividade.

Mas não tem nada de meritório o nosso?
Sim, a conjugação da proporcionalidade com a governabilidade
Proporcionalidade tem a ver a relação/dimensão dos grupos parlamentares, às proporções de votos recebidos. Idealmente, um partido que recebe 20% dos votos, teria direito a 20% dos deputados. Tal não acontece, pois, deve ser contrabalançado com a governabilidade, isto é a facilidade com que se constituem maiorias parlamentares para dar suporte a governos estáveis. Se o sistema eleitoral tende a gerar maiorias absolutas de um ou dois partidos, goza de boa governabilidade, diremos nós. Mas se tende a gerar grupos parlamentares muito fragmentados, diminutos e pouco representativos, é necessário o entendimento de três ou mais partidos para constituir uma maioria a assegurar a governabilidade. Quanto mais proporcional é um sistema, pior é, em princípio, a sua governabilidade.
Os votos depositados não conduzem a uma eleição com direito a cadeira parlamentar (nem no texto ou no seu espírito).
Seria uma solução absolutamente extraordinária, que os votos perdidos, viessem implicar cadeiras vazias pertencentes aos eleitores que não se reveem no sistema politico partidário.
Salvo melhor opinião, esta tese e o seu resultado não acarretariam mais valor à democracia, não lhe acrescentariam verdade ou eficiência, ou assegurava maior preocupação dos partidos e dos eleitos com os respetivos eleitores.
Para terminar, podemos referir que através de uma proposta (salvo o devido respeito) fantástica, não se evitaria a distribuição de benesses dos partidos aos seus eleitores/apaniguados e assim se iniciaria a desmontagem da maquiavélica simulação democrática em que o sistema desta III República aprisionou os cidadãos.


Seja como for, é uma interessante reflexão académica que alegadamente visa Portugal, mas que seria, com a mesma facilidade e utilidade, aplicável a outros países europeus.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Fleming de Oliveira pergunta se ser velho é " bom" ?



Fleming de Oliveira pergunta se ser velho é "bom" ?

SER VELHO, É “BOM”?

FLeming de OLiveira


As pessoas de idade são, frequentemente, consideradas como um fardo, uma fonte de despesas médicas e um premente problema politico.
Raramente se refere que são calmas, interessantes, por vezes divertidas, uma companhia agradável e repousante.
Por vezes, de manhã ou de tarde, em vez do automóvel, tomo o autocarro para ir para o escritório nas Amoreiras. Se for a meio da manhã ou ao princípio da tarde, encontro muitas pessoas de idade. Há gentiliza e preocupação para que estes passageiros arranjem lugar e não caiam. “Sente-se aqui, minha senhora”, diz um homem a uma velhota ligeiramente confusa.
Ninguém tem pressa e há sempre o estribilho “a gente não tem pressa de chegar, pois não?” quando se fica preso e parado no trânsito do Saldanha, durante uns bons 10 minutos. Os passageiros estão atentos aos problemas dos outros e seus achaques.
No Natal passado, uma senhora de cabelos brancos, entrou no autocarro lá para os lados do Campo Pequeno e foi agradecer ao motorista ter esperado e disse: “É só recuperar o folego, que logo encontro o bilhete.”  Nessa altura um indivíduo alto, com os seus 70 e tal anos levantou-se, pegou-lhe no bilhete, picou-o, devolveu-o e cumprimentou-a com um ligeiro salamaleque.
Na semana passada, encontrei no elevador do meu prédio uma senhora (que aliás nem conhecia) e me pediu para lhe carregar o botão, pois não via bem. Era baixinha, pesava uns 45 quilos, apoiava-se numa bengala, descia com dificuldade os degraus, e, não obstante, pensei para mim que tinha estado em contacto com alguém tão digno, sólido, sei lá quanto um rochedo.
Um amigo dos tempos de Coimbra, na casa dos 70 e picos, escreveu-me desculpando-se da letra, dizendo que sofrera duas operações na mão, tinha marcado outra na coluna, e terminava: “Isto é uma maçada, não poderei guiar por uns tempos”.
O meu Pai, quando deu uma queda aos 90 anos e o traziam de volta da sala do RX, comentou: “Bom, só tenho duas costelas partidas”. Ele tinha uma explicação, tal como a mãe, minha Avó para trambolhões, que argumentava, quase em jeito de desculpa: “É a máquina a chegar ao fim”.
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Lembro-me da minha Avó, senhora alta, elegante, que usava chapéu e cheirava bem, que vivia no andar de cima da nossa casa, no Porto, com os seus perfumes, lembranças e uma fotografia emoldurada do marido/avô em fato escuro, polainas, gravata e chapéu de bancário. Tinha olhos escuros, vivos e, o rosto, era uma suave e agradável combinação de rugas. O seu quarto era repousante e estava sempre arrumado e limpo, como se a idade trouxesse tendência para preservar o espaço, as coisas e a energia.
Caros Leitores: deveríamos tomar consciência que uma sociedade sem idosos, careceria de profundidade, cor, forma, textura e de algum do seu humor.
Sei que os velhos são, por vezes mal-humorados, mas na maioria naturalmente sociáveis e põem-nos em contacto com valores perdidos, como a honestidade e modéstia. Até me atrevo a dizer aos meus leitores mais novos, que são eles os guardiães de uma linguagem polida e baluarte contra crescentes correntes de vulgaridade. Constituem o agradável/necessário elo com o passado na simpatia por coisas afinal tão simples, como tomar chá, o gosto por bules em prata, bengalas de castão floreado, flores e… bebés.
Uma tarde, no metro apinhado de fim da tarde, reparei numa senhora idosa, de pé, junto de uma mãe e seu bebé. Só a “velhota” parecia prestar atenção ao bebé. Observava-o com a atenção especial e enlevada com que as avós olham as crianças, como se, sentindo-se feliz, ficasse ali todo o tempo. Impressionou-me por ser uma pessoa com ar de sentido de prioridades, uma das qualidades preciosas que deveríamos apreciar nos mais velhos.
Enfim, não digo que é bom ser velho, mas é muito respeitável. Que acham?