sexta-feira, 21 de junho de 2019


AFINAL, O QUE SOMOS?
FLeming de OLiveira

-I)-Costuma segurar a porta para deixar uma senhora passar à frente ou para entrar ou sair do carro? 
-Tem por hábito evitar que ela vá do lado de fora do passeio, para não ser afetada pelo trânsito?
-Segue as regras do velho cavalheirismo lusitano quando a serve com uma quantidade de vinho meticulosamente medida?
Resultado de imagem para abrir a porta do carroUm conhecido teórico que se reclama de investigador psicossociólogo, defende que atitudes amistosas e cavalheirescas como essas, podem apenas disfarçar chauvinismo e padronizar específicos pontos de vista, porque os homens, ao agirem dessa maneira, partem do princípio que as mulheres são mais fracas e desprotegidas.
Custe-me admitir que tenha razão. Não, não creio.
Não entendo que haja subserviência ou assédio, outrossim que essa afirmação teórica foi dissecada como faria mesmo uma feminista em busca de traços sexistas, fazendo renascer o conceito de um sexismo benevolente, parte integrante dos argumentos feministas em que o sexismo é algo impregnado no comportamento masculino. E que os homens assim considerados sexistas são também rotulados como mais amistosos, calorosos e sorridentes. Um homem com atitudes “cavalheirescas” é, afinal, um lobo com pele de cordeiro, como concluiria esse teórico, os gestos de boa vontade masculinos conduzem a que as senhoras interiorizem o status quo assumido.
Resultado de imagem para preconceito contra os gays-II)-O meu anterior apontamento, “NÃO SÃO DOIS, MAS TRÊS!” mereceu, de alguns leitores, comentários de mérito diverso, que registei com interesse e agradeço. O tema é controverso e a abordagem tem aspetos contraditórios, nada fáceis de sanar, em meia dúzia de linhas.
É princípio que assumo por defeito (como hoje se diz na gíria) no meu sistema conceptual, considerar os sexos uma polaridade e uma dicotomia natural. Detendo-me um pouco para pensar melhor, admito que isso não está correto. Aprendi, finalmente, que os reinos vegetal e animal não são universalmente divididos em dois sexos, ou em dois sexos, mas com a possibilidade de caprichos indeterminados, que há criaturas macho e fêmea por turnos e que alguns fungos e protozoários (para fazer aqui esta afirmação tive de pesquisar) têm mais do que dois sexos e mais de uma maneira de acasalar. Hoje sabe-se que o grau de diferenciação entre os sexos pode variar tão tenuemente que cientistas por muito tempo permaneceram ignorantes perante o fato de as espécies classificadas como distintas serem macho e fêmea da mesma espécie! Muitas formas simples de vida são mais nítida e sexualmente diferenciadas do que a dos seres humanos.
O que “notamos”, é que as diferenciações nos humanos são bem acentuadas, pelo que antes de o justificar, devemos averiguar o porquê. A natureza não existe sempre sem ambiguidades. Uma menina pode ter um clitóris tão desenvolvido que se julga ser menino. Do mesmo modo, crianças do sexo masculino podem ser subdesenvolvidas, ou ter sua genitália deformada ou escondida, pelo que se supõe serem meninas. As vezes as pessoas aceitam o sexo como o descrito, e encaram-se como membros deficientes do sexo errado, assumindo comportamentos e atitudes daquele sexo, a despeito de conflitos graves.
Noutros casos, uma espécie de consciência genética cria um problema que conduz à investigação e ao verdadeiro sexo. Algumas dificuldades podem ser resolvidas por cirurgia mas, segundo me explicaram, os cirurgiões só realizam tais operações quando o exame da estrutura da célula corporal revela que não ocorre anormalidade congénita.

Resultado de imagem para giornata mondiale contro l omofobia 2019-III)-Em muitos casos, a homossexualidade resulta da inabilidade da pessoa se adaptar ao papel (sexual) que lhe é dado, e a denominação “preconceituosa” de anormalidade não oferece ao homossexual uma maneira de expressar a rejeição, de modo que ele se considera ou é considerado uma “extravagância”. Os papéis sexuais ”normais” que aprendemos a desempenhar desde a infância não são, assim, entendidos como mais naturais do que os de um travesti.

-IV)-Os franceses bem podem gritar “Vive la différence”, pois ela é cultivada normal e incessantemente em todos os aspetos da vida.
É mais fácil tomar em consideração a deformidade induzida, tal como ela se expressa no corpo e conceitos, pois, por mais que sejamos outra coisa ou pretendamos ser, somos por certo os nossos corpos.


sexta-feira, 17 de maio de 2019


ELES NÃO SÃO DOIS, MAS
TRÊS OS GÉNEROS!!!

FLeming de OLiveira



-Se há uma dúzia de anos me viessem falar de realidades tão importantes e transformadoras como algumas com que hoje nos confrontamos, teria dado uma gargalhada e do alto da minha “sabedoria”, argumentaria por A mais B, que isso seria impossível, pois o bom senso iria imperar.
Entretanto, foi o que foi…
Reconheço que sou um “inabilitado”, educado e formatado por alguns princípios e regras, hoje tão fora de moda, que nem servem para decorar uma prateleira. E que, por mais sensato ou previdente me queira assumir, jamais conseguirei evitar, de todo, que o meu raciocínio ou gostos acabem por ser conduzidos pelo quadro mental que se me tornou confortável e que padece do que chaque mo, um pensamento marcado por aquilo que desejo. O mundo em que vivemos, especialmente a partir da segunda metade do século XX, está a mudar a um ritmo nunca visto, sendo nós inundados por uma imensidade de dados, de ideias e de promessas, em que se destacam o desenvolvimento ingovernável das tecnologias, em especial das da informação e da inteligência artificial, às quais se associam a biologia e as nanotecnologias. Vivemos um contexto cultural complexo e difícil, aparentemente “descomandado”, com problemáticas que revelam a necessidade de procurar respostas para o desafio antropológico colocado à atual crise de orientação da cultura filosófica, científica e tecnológica, em questões ligadas às neurociências, à bioética e à biotecnologia.
-A Alemanha legalizou em meados de dezembro passado um "terceiro género" nas certidões de nascimento e documentos de identidade, tornando-se o primeiro país na Europa a reconhecer “pessoas intersexuais”.
A partir de agora, além das tradicionais definições "masculino"(associada ao azul) ou "feminino" (associada ao cor de rosa), é possível incluir "diverso". O governo deu cumprimento a uma decisão do Tribunal Constitucional, que havia imposto ao Parlamento votar até o final de 2018 a legalização de um “terceiro sexo/género”.
Desde maio de 2013, os cidadãos alemães tinham a possibilidade de escolher entre não preencher o sexo/género (masculino ou feminino) nas certidões de nascimento ou manter a menção de sexo não especificado.
Outros países da Europa rumam para o reconhecimento de um terceiro género, entre eles a Holanda, Áustria e “claro” o nosso Portugal.
Na França “reacionária” (?), até cinco dias após o nascimento, as pessoas devem optar por um dos dois géros/sexos: masculino ou feminino. O Tribunal de Cassação rejeitou recentemente o reconhecimento de um "sexo/género neutro", opondo-se ao pedido de uma pessoa nascida sem pénis ou vagina.
Um amigo evoluído, quando tentei abordar o assunto, do alto da sua “sabedoria” de mais de setenta anos, retorquiu-me que “as pessoas precisam entender que o mundo é mais diverso que as suas cabecinhas preconceituosas conseguem imaginar. Há pessoas que nascem sem sexo, pois a natureza fê-las assim. Pára de te limitares à religião, ou te socorreres da Bíblia, porque és um alienado inútil”.
A intersexualidade pode ser evidente à nascença (uma criança nasce com um clitóris muito grande, sem abertura vaginal, um pénis muito pequeno ou um escroto aberto), mas só se manifestar na puberdade ou mais tarde (quando a pessoa é adulta e se depara, por exemplo, com a infertilidade).
A legislação sobre o terceiro género/sexo tem sido estudada, entre nós apenas, ao que sei, pelo Bloco de Esquerda, que anunciou há tempos que irá apresentar na Assembleia da República um projeto de lei para “reconhecimento da realidade intersexo”.
Até há alguns anos, falava-se em pessoas hermafroditas, termo que alguns intersexuais rejeitam, considerando-o ofensivo, e que outros reclamam, aceitando-o. A medicina fala em “distúrbios do desenvolvimento sexual”, conceito onde cabem a intersexualidade e condições idênticas.
Há quem não aceite a classificação médica, alegadamente por implicar uma visão patológica da intersexualidade. Propõe uma mais abrangente comopessoas não-binárias, que estão fora das categorias de sexo/género macho ou fêmea, das categorias sociais homem ou mulher e do quadro psíquico masculino ou feminino. Note-se que, muitas vezes, a temática intersexual é incluída no conceito transgénero (transexuais, travestis, etc.), o que também não é consensual”.
A fluidez na matéria parece dever-se bastante à invisibilidade social dos intersexuais. Só a partir da década de 1990, é que o ativismo dos direitos humanos, as associações de apoio a doentes e o movimento LGBT começaram a prestar-lhe atenção e a traze-lo a debate.
 -Otrans-humanismo” é um movimento cultural, intelectual e científico, racionalista e materialista, baseado na premissa de que a espécie humana, na sua forma ou estádio atual, não representa o fim do desenvolvimento, mas uma etapa preliminar, e entendendo que o humano está em perpétua evolução, julga ser possível, desejável mesmo intervir, voluntariamente, nessa evolução, através da ciência e da técnica.
Este movimento assenta no pressuposto de considerar o progresso como uma transformação da nossa conceção de vida e da condição humana, a fim de se obter um homem novo, o “trans-humano”.
A ciência e a técnica, como qualquer outra atividade humana, têm consequências que devem ser ponderadas e limites a ser observados, a bem da própria humanidade. Requer-se, por isso, um espírito crítico e uma responsabilidade ética, no sentido de uma clarificação de valores e de normas, fundadas em virtudes essenciais ao desenvolvimento humano, quer a nível individual, quer social.
-Perante alguns “logros” do progresso científico-técnico e a complexidade crescente das questões que rodeiam o homem, é necessário ponderar os riscos que se correm sem travar o curso do progresso, perceber que o “progresso” não é, afinal, uma deriva civilizacional.
 




quinta-feira, 18 de abril de 2019


Não Gosto de “Partilhar
FLeming de OLiveira




Honestidade”, virou uma enorme virtude social e “autenticidade “, alegadamente, um grande objetivo neste Portugal XXI.
Resultado de imagem para turma do bemHá quem defenda que “partilhar” não tem limites e por isso escreve ou fala aberta e extensivamente sobre problemas que, até há pouco tempo, eram reservados. Esses entendem que “partilhar” permite que cada um se sinta mais apto a ser ele próprio, pelo que deste modo deve continuar a “partilhar”.
Na nossa sociedade, o jet-set entende que não deve conter o seu pudor, e que as redes sociais facilitam a partilha de informação, tornando-o mais próximo do comum mortal. As fronteiras da vergonha, da decência e do pudor estão a ser sucessivamente renovadas, a expensas de uma fama fugaz, inconsequente, e frequentemente corrosiva para os próprios.

Creio que muitos portugueses entendem ser mais aceitável e fácil hoje falar de sexo do que no tempo de seus pais e pais de seus pais.
Suponho, porém, que há muito menos pessoas que acham que falar em concreto sobre o seu salário e o estado das finanças é assunto que gostem de partilhar, ao invés de, à boa maneira portuguesa,  não haver reservas em partilhar especificidades dos problemas de saúde. E não é preciso estar numa sala de espera de consultório médico.
Há pessoas que entendem que podem ser recompensadas por exporem vidas pessoais, mas contraponho-lhes liminarmente existirem enormes desvantagens, ainda que não de todo visíveis.
As desvantagens são tantas que as não poderia aqui alinhavar, e se não tivermos passado por uma recente situação traumática, tomamos pouca ou nula atenção ao que “partilhamos”, quando e com quem.

Resultado de imagem para modello circolare della comunicazioneO facto de não estarmos bem conscientes dos (i)limites da “partilha”, faz com que não pensemos nos riscos e o impacto que tem ela nas nossas relações.
Partilha on-line não tem balizas nem limites se dermos valor à abertura, se desejarmos valorizar um bom julgamento, a confiança, e a capacidade de regulação. Partilhar em demasia pode levar a uma situação de enorme vulnerabilidade pois nunca é possível controlar o que os outros a partir daí vão fazer ou dizer.

Um amigo, cínico pela idade e por algumas maldades da vida, defendia recentemente que a honestidade é a base da intimidade.
Não sei se é por isso que nunca conseguiu encontrar uma relação consistente e estável. Argumentei-lhe que ao iniciar uma relação, contar as histórias vividas e passadas pode aumentar as probabilidades de sabotar a confiança, em vez de parecer estar folhear um livro.
 Honestidade” não é sinónimo de “Transparência”, uma intimidade saudável permite um bom grau de privacidade individual, sem olvidar que o desejo/libido é potenciado pelo desconhecido.
O excesso de informação pessoal pode ser avassalador e se for uma forma de criar uma relação social, muito provavelmente não será bem-sucedido. A honestidade, ainda que extrema, pode reforçar amizades, mas não as consegue criar.

Resultado de imagem para pop art quoteAlém da disponibilidade das redes sociais e das influências/modas culturais e sociais há outros fatores que levam a “partilhar em demasia”.
Considerando tudo isso, não é minimamente surpreendente como não conseguimos assim reter um único facto ao fim de algum tempo.  
Decidir guardar algo não é o mesmo que ser desonesto e pode-se ser autêntico, sem demasiada exposição. As coisas que revelamos nos momentos de “partilha” não correspondem necessariamente ao que somos, pois refletem normalmente o que no momento se encontra na mente. Quanto mais seletivas forem em relação ao que partilham, mais capazes são as pessoas de criarem de si uma imagem verdadeira.






sexta-feira, 22 de março de 2019


ECONOMIA LINEAR/ECONOMIA GLOBAL

Fleming de OLiveira

A classe politica, sempre ocupada em aparecer na televisão, participar em debates, mesas redondas, quadradas ou ovais, opina sobre isto e aquilo, não vê ou não quer saber o que dela se diz.
Não andando nos transportes coletivos, ignora mesmo o que se fala nos autocarros ou no metro. Se ouvisse, calava-se e procurava passar despercebida, antes que recolhesse algum “piropo”.
Para a classe politica, o povo serve, desde logo, para lhe fazer promessas. Metido o papelinho na urna, contados os votos, o “Zé” submete-se às estratégias partidárias, que pouco lhe interessam, ou nelas não se revê.
Conheço o argumento que as promessas eleitorais são consideradas mais intenções do que compromissos, pois não existem, na prática, exigências de que as promessas em campanha sejam cumpridas, nem sanções para os que não as cumprirem.
Se o político soubesse bem o que por aí se passa, perceberia que “Democracia” para os sem esperança, é palavra vã por não afastar a pobreza, a desigualdade, a degradação das condições de vida e o favorecimento de cliques. Se o desprezo matasse, esvaziava alguns “políticos da nossa praça” ou libertava-nos deles.
“No Tempo da Outra Senhora” , havia a ideia que às pessoas faltava capacidade para se pronunciar sobre o país e a cidade. Mas hoje em dia, talvez por força dessa “pesada herança”, a situação não é substancialmente diferente. Uma república, sem cidadãos intervenientes, rejeita que o “cidadão anónimo” (que terrível expressão!) seja capaz de elaborar uma visão estruturada sobre a realidade, falar de futuro e de coisas sustentáveis.

Por vezes o articulista acerta, desencadeando sentimentos e recordações que guardados no “disco rígido” a que chamamos coração, só esperam oportunidade para virem a superfície.
É o caso da evocação das dificuldades e comportamentos que a evolução da vida do País e do mundo nos convenceram que não voltavam mais. Mas voltaram. As privações de tempos que pensávamos extintos, suscitaram algumas mensagens quando neste espaço abordei o assunto. Fiquei reconfortado, pois é sinal que não foram “palavras fora da boca”. Recordo, concretamente, o que me escreveu um leitor: “Era mesmo assim. Tinha eu uns 2 anos quando começou a guerra na Europa e então era uma miséria. Em 1945, à luz da cadeia lá no alto da Serra, tudo se comia, tudo se aproveitava, as roupas eram remendadas e no meu casamento levei o fato comprado 2 anos antes quando a minha avó faleceu”.

Esta é a perspetiva de um anónimo, pelo que citando o nada anónimo Vitorino Magalhães Godinho não resisto a invocar que “incapazes de diagnosticarem a natureza estrutural da crise e presos nas teias dos grandes interesses resistindo as mudanças estruturais que se impunham, os Estados optaram pelo o que chamaram saneamento financeiro, sobrecarregar as populações pelos impostos e anulação de benefícios. Apertar o cinto, diz-se na gíria, tornar-se inevitável a degradação do nível de vida”.

 A ideia não é nova e antigamente era qualificada de mero bom senso. Os casacos passavam para os manos mais novos, os sapatos para os primos mais pequenos. A água depois de lavar couves ou alfaces, servia para regar as plantas do jardim e os frascos tinham uma nova oportunidade de vida, guardavam botões, agulhas ou parafusos e mesmo aquela divinal compota de amora que a avó fazia como ninguém. A minha neta Teresinha, licenciada em Economia, explicou-me que isto na sua Universidade pode ser designado como “Economia Linear”.
Com o tempo esquecemos estes gestos, e a prática de uso único passou a dominar a nossa vida, pelo que nos habituamos a deitar fora uma quantidade enorme de objetos que poderiam ser reutilizados. Acontece que, finalmente, estamos a perceber que poderá não haver em breve matéria prima suficiente para fazer novos produtos ao ritmo da procura e não mais espaço para nos desfazermos daquilo que descartamos.
Então voltou a necessidade de ter bom senso, agora sofisticadamente chamado “Ecologia”. Bem sei que, como em tudo, chegará a hora de um produto estar em fim de vida, que não é viável reparar. Por exemplo, uma caixa de cartão pode dar origem a novas caixas ou mesmo a papel higiénico.
Mas para que tudo isto funcione é importante o contributo individual e que não se quebre esta economia em cadeia, como me explicou a minha neta, também chamada “Economia Global”.






terça-feira, 26 de fevereiro de 2019



BOLO-REI OU BOLO-PRESIDENTE?

FLeming de OLiveira


O Avô do meu Pai que, tal como a sua família, vivia em Matosinhos, era um republicano assumido, embora não propriamente militante. Saudou com entusiasmo a implantação da República, pois como muitos pensava que o mal do país advinha de um regime monárquico corrupto e decadente, que o progresso viria com a mudança para uma república democrática, parlamentar, anticlerical e socializante. O filho, o meu Avô Augusto, tendo herdado alguns destes valores, já não os levou tão a risca e assim aceitou que a Esposa, a muito religiosa minha Avó Lícia, repartisse o tempo entre a lida doméstica e a colaboração com uma instituição de apoio a meninas desvalidas. No caso do meu Pai, a inclinação politica era um republicanismo quase limitado à não aceitação do regime monárquico.
Contava o meu Pai que, em plena euforia decorrente da implantação da República, o Natal de 1910 foi celebrado em casa de seus avós apenas com uma pequena expressão de carácter cristão e algum jacobinismo republicano. Tanto assim que estava arredada a ideia de montar um Presépio ou cantar loas ao Menino Jesus. Mas mesmo nos meios anticlericais, era de todo impossível esquecer certos usos e costumes centenários e tradicionais. Contava o meu Pai que, nesse Natal de 1910, o seu avô terá encomendado o tradicional “Bolo-Rei”.

A gastronomia também pode ser vítima das revoluções. Em Portugal, após a implantação da República, o alvo foi o inofensivo e gostoso “Bolo-Rei”. A impudente sanha dos revolucionários na sua ânsia de criar fraturas com o anterior regime, abateu-se sobre esta muito portuguesa iguaria natalícia, que não podia mais continuar a usar a palavra "Rei ". Se tinham acabado os Reis em Portugal, também tinham de acabar na doçaria. Os fabricantes, que queriam continuar a cozinhar, vender ou defender o velho “Bolo-Rei”, teriam de encontrar nomes alternativos e politicamente aceitáveis ou corretos. Uns optaram por o rebatizar de Bolo de Natal, Bolo das Festas ou Bolo de Ano Novo. Houve ainda quem adiantasse que a melhor e mais consensual designação seria a de Bolo Nacional.
Mas isto não satisfez alguns republicanos, que entenderam chamar-lhe “Bolo-Presidente”, como terá sido o caso dos avós de meu Pai.

Em Alcobaça, segundo me contaram, terá havido um ou outro caso de repúdio pelo nome tradicional, o que acarretou que, por via de dúvidas, o doce que essas famílias importavam de Lisboa e chegava pela carreira do Valado fosse vendido ao público (na maior parte das famílias era feito em casa) com a designação de Bolo de Natal.

Este ano de 2019 mais uma vez recriei a tradição que herdei da casa dos meus Pais.
No dia 6 de janeiro (Dia de Reis) ao almoço, os meus Pais encerravam as comemorações do período natalício, que passavam por desmontar os enfeites, a Árvore de Natal e o Presépio que existia ao lado iluminado, dia e noite, por uma pequena lamparina a azeite. A minha Mãe trazia para a mesa o muito tradicional “Bolo-Rei” e uma vela que apagávamos e procedia ao corte do Bolo, distribuído em fatias iguais pelos oito filhos e os pais. Em casa dos meus Pais nunca se pôs a questão de se saber se era “Bolo-Rei” ou não e quando contei pela primeira vez o episódio aos meus netos, eles olharam-me com um misto de espanto e incompreensão, algo inacreditável que seriam incapazes de contar aos amigos e na escola.
Mas é mesmo verdade caros leitores e agora que Natal é só para dezembro, “e não quando um homem quiser”, aqui vão mais uma vez os meus melhores votos de um ano de 2019.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019


NO TEMPO DE PESSOAS “IMPORTANTES” COMO NÓS
50 Anos da História de Alcobaça Contada através de Pessoas
Zambujal, Mário Joaquim Marvão Gordilho, nasceu em Moura a 5 de março de 1936, e destacou-se tanto na literatura como no jornalismo e na área do desporto. Apresentou programas de televisão e rádio, foi diretor dos jornais Tal e Qual e Sete e algumas revistas.
O primeiro e o mais conhecido livro, Crónica dos Bons Malandros, foi publicado em 1980 e deu lugar a um filme com o mesmo título.
Entre os dias 1 e 10 de junho de 2015, realizou-se em Alcobaça a 2.ª edição do Festival Books&Movies, que tem como missão promover, divulgar e premiar a arte literária e a arte-vídeo, assumindo-se como espaço para a partilha entre leitores, autores, realizadores ou especialistas, professores ou alunos que, no contexto de ensino/aprendizagem atual, procurem descobrir mais sobre a produção literária e cinematográfica. Num clima de diálogo, de tolerância e de abertura, os artistas conversam sobre livros e filmes.
O evento é organizado pela Câmara Municipal de Alcobaça e decorre em vários espaços, inclusivamente esplanadas. À semelhança de 2014, o Festival Books&Movies apresentou em 2015 mais de uma dezena de escritores e de ilustradores, como Marc Parchow, David Machado, Isabel Stiwell, João Tordo e Mário Zambujal, este objeto de uma homenagem especial. Incluiu também sessões de cinema ETNO e ECO, bem como filmes em várias línguas, comentados por atores e realizadores. Contou com exposições, teatro, workshops e espetáculos de rua, como A Viagem do Elefante, a partir de obra homónima de J. Saramago.
Mário Zambujal, foi homenageado na edição de 2015 do Festival Books&Movies. O escritor e sua carreira são referências no panorama literário nacional e foram celebrados na Gala do Festival Books&Movies, realizada no Cineteatro de Alcobaça, a 7 de junho.  
No dia anterior à tarde, Zambujal esteve presente numa conversa intimista com os leitores, na esplanada do Taverna do Capador, frente ao Mosteiro.
Mário Zambujal que sucedeu, ao realizador Manuel de Oliveira como artista em destaque no Festival Books&Movies, prometeu ser um propagandista de Alcobaça.
O jornalista, que se disse encantado com uma cidade e uma região que muitos portugueses deveriam conhecer melhor, enalteceu a colaboração dos autores que participaram no festival, referindo o dever de ser portador do que faz em Alcobaça. Não sei se sou merecedor desta homenagem, mas já merecia um fim de semana tão bem passado como este, referiu o homenageado, que elogiou as praias, a gastronomia, os vinhos de Alcobaça e o silêncio do Mosteiro que vem do fundo dos séculos.
Mário Zambujal assinou um acrílico, que ficará exposto no Cineteatro de Alcobaça, à semelhança do que aconteceu no ano anterior com o cineasta Manoel de Oliveira.
Na gala, foi ainda atribuído o prémio monetário de 5 mil euros à vencedora do Prémio Internacional Books&Movies 2015, Helena Marina, que assinou o texto Correio Aéreo-Correspondência entre duas cidades-amantes, com o pseudónimo Francisca Nováliono. O júri, composto pela vereadora Inês Silva e pelos escritores Raquel Ochoa e Tiago Salazar, justificou a escolha de um roteiro de viagens original, que se confunde com uma antologia de cartas de amor, dirigidas a Curitiba e a Lisboa - cidades próximas quando o sol abre mas distantes em pequenos detalhes, como os azulejos das fachadas das casas de Lisboa e os sebos de Curitiba. É um texto claramente inspirado no mote do Município de Alcobaça - Dê lugar ao Amor, cidade dos eternos amantes Pedro e Inês
-Apresentada pela beneditense Diana Marquês Guerra, a Gala contou com a Orquestra Books&Movies, composta por elementos da Banda Sinfónica de Alcobaça, dirigida pelo maestro Rui Carreira.
Elementos da Academia de Dança de Alcobaça participaram no espetáculo, que teve casa cheia.
Zeferino Lucas, António Madaleno, comerciante em Alcobaça e pertencente a uma família conhecida e respeitada, viu a sua candidatura à Câmara Municipal de Alcobaça, dada a conhecer no dia em que Manuel Monteiro (Presidente do CDS com quem tinha relações especiais) visitou Alcobaça, e o convidou publicamente para encabeçar a lista do partido às eleições autárquicas, de 1993.
A proposta de Manuel Monteiro, foi reiterada no dia 18 de março de 1993, numa reunião em que a Comissão Política de Alcobaça deu o seu apoio a Zeferino Lucas, que assim viu o seu nome como o primeiro da corrida às autárquicas de 1993.
Segundo um comunicado da Comissão Politica Concelhia, esta é uma candidatura que promete influenciar o governo da autarquia.
O CDS/PP, alegadamente em maré de renovação da imagem, disse ter uma nova estratégia, negando lugares às pessoas que querem concorrer às Câmaras apenas para resolverem problemas pessoais, segundo enfatizou Manuel Monteiro.
António Zeferino Lucas, o cabeça de lista, foi considerado, pelo amigo Manuel Monteiro, a grande esperança do partido.
Esta decisão não foi aceite da forma pacífica dentro do partido, ainda que alguns  achassem que a candidatura seria o triunfo do renovado CDS-PP de Alcobaça.
-Foi durante um jantar-convívio realizado na Pensão Restaurante Corações Unidos, no dia 26 de outubro de 1993, que o CDS/PP divulgou as listas com que se vai apresentar ao eleitorado de Alcobaça, nas eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1993.
Na ocasião, estiveram presentes o Secretário-Geral do partido, Gonçalo Ribeiro da Costa, o mandatário da campanha Manuel da Bernarda, os candidatos à Câmara e Assembleia Municipal de Alcobaça, António Zeferino Lucas e Paulo Bernardino, os candidatos às Assembleias de Freguesia, bem como uns tantos filiados e simpatizantes.
António Zeferino Lucas dirigiu-se aos presentes, corroborando a medidas preconizadas por Paulo Bernardino e, referindo-se ao executivo Camarário comparou-o com os anteriores do PSD, denunciou os responsáveis pelo marasmo em que Alcobaça se encontra. Criticou a falta de limpeza da Vila e a péssima solução encontrada para a recolha de lixo, colocando um ponto de interrogação quanto ao custo real das obras municipais adjudicadas por valores absurdos.Teve uma palavra ainda para agradecer o apoio de pessoas tradicionalmente não envolvidas na política, bem como simpatizantes de outros partidos que, sensatamente, resolveram optar pelos homens e não pelos partidos.
A finalizar tomou a palavra o Secretário-geral do Partido, e deputado eleito pelo Distrito de Leiria, Gonçalo Ribeiro da Costa, para dizer que o partido considera ter alcançado alguns dos seus propósitos ao concorrer a 251 das 305 das Câmaras Municipais de Portugal, número que ultrapassa largamente o das anteriores eleições autárquicas.
Zeferino Lucas não foi eleito e o  resultado muito dececionante, pois que nesse acto eleitoral, ganhou o candidato do PS, Miguel Guerra, por maioria absoluta.
Não voltou a ter ação política e de certo modo não se revê minimamente neste período de sua vida. Vive e trabalha em Lisboa.
-António Zeferino Lucas, Afonso Gonçalves da Silva, Leonel Agostinho e Jorge Malhó abriram em 1981 a Discoteca Princess, de certo modo a primeira casa do género, para muitos alcobacenses. Ao fim de algum tempo foi adquirida por Jorge Malhó.
-Joaquim Zeferino Lucas fundou, na década de 1930, na Avenida Bernardino Lopes de Oliveira uma oficina de móveis, cuja qualidade permitiu qualificá-la como um excelente estabelecimento, não apenas em Alcobaça, mas no País. Após a sua morte, o filho António criou o Armazém 25 para venda de réplicas de peças dos séculos XVIII e XIX. A Forma Interiores surgiu algum tempo depois, quase em frente ao Armazém 25, e dedicava-se à venda de moveis de estilo contemporâneo. Entretanto, encerraram ambas e António Zeferino Lucas vive em Lisboa.
-O jornal Público publicou a reportagem que, em parte, se vai transcrever.
A Casa Achilles tem uma coleção de moldes de ferragens de estilo, oficinas do início do século XX e um escritório saído de um livro de Dickens.
Quando António Zeferino Lucas abre a luz da cave da Casa Achilles, temos aquela sensação de que os museus vivem uma vida própria quando não estamos lá e, quando dão pela nossa chegada, as peças voltam a correr para os seus lugares e imobilizam-se, silenciosas mas de olhos muito abertos e com os corações de pedra e metal a bater, na esperança de que nós não reparemos em nada.
De dentro de uma caixa, espreita, melancólica, uma cabeça de águia que um dia terá adornado um braço de uma cadeira, e, quem sabe, terá sido afagada por muitas mãos durante conversas nervosas ou pacíficas. À volta dela espalham-se flores também de metal. Numa prateleira, alinham-se ameaçadoras garras de leão, com as unhas e os pelos cuidadosamente desenhados, libertas já do peso dos móveis de estilo que sobre elas descansaram. E, logo abaixo, bustos clássicos, alguns com ar egípcio, feições finas, cabelos elegantemente penteados — peças de adorno de cómodas, provavelmente. Encostadas a uma velha caixa de madeira estão três mulheres gregas de longas túnicas drapeadas que, com gestos delicados e indolentes, penteiam-se e ajustam as jóias. Os cabelos apanhados atrás caem com naturalidade sobre os pescoços, e as linhas ondulantes das túnicas acompanham os movimentos dos corpos.
É uma peça pequena de decoração de móveis, mas, como muitas outras guardadas nesta cave, é feita com um detalhe exaustivo. António Zeferino Lucas, sócio gerente da Casa Achilles, tenta explicar que o valor deste trabalho está precisamente na qualidade dos moldes, e que a coleção que se guarda nesta casa fundada em 1905 é, a esse nível, excepcional. Temos talvez cinco séculos de moldes dos grandes estilos europeus.
Vista de fora ninguém adivinha, mas a Casa Achilles — uma das fundadoras do projeto Lojas de Caráter e Tradição de Lisboa, uma iniciativa do Fórum Cidadania Lisboa para preservar este património em risco da cidade — é um labirinto de pequenos espaços cheios de tesouros. António Zeferino Lucas era cliente e, quando percebeu que a casa corria o risco de desaparecer, decidiu que isso não podia acontecer.
Hoje o trabalho de fundição já não se faz aqui, apesar de no chão ainda se poderem ver as marcas do local onde antigamente estavam os fornos que derretiam o latão em bruto, vazado depois para as formas. A Casa Achilles serve essencialmente para os acabamentos — as oficinas originais e o material de trabalho continuam exatamente como no início do século XX — e local de atendimento ao público. E funciona como um museu, que pode ser visitado (António Lucas tem todo o gosto em fazer visitas guiadas a todos os que desejarem) e que revela um mundo que conhecemos mal.
Temos em Portugal artistas fantásticos, diz o nosso anfitrião, enquanto explica que uma parte essencial deste trabalho é a criação do molde. Quanto mais minúcia e detalhe este tiver, maior é a qualidade.(…) Fechamos as luzes na pequena cave e subimos até às oficinas. Até há oito, dez anos, havia aqui pessoal a trabalhar, conta Zeferino Lucas. Agora é como se os atores tivessem saído de repente. E, de facto, os instrumentos de trabalho estão em cima das grossas mesas de madeira, como se esperassem que, a qualquer momento, os operários entrassem outra vez pela porta. Encostado a uma das paredes está um anexo com as paredes feitas de quadrados de vidro. Não é difícil imaginarmos um operário a bater num desses vidros, chamando a atenção do gerente, que lá dentro, no seu pequeno escritório, toma nota à mão, em letra desenhada, das encomendas, das despesas e dos lucros, à luz fraca de um candeeiro iluminando a enorme secretária de madeira que, juntamente com um armário-ficheiro, que ocupa praticamente todo o espaço.
E a ideia de que este é o cenário de uma peça sem os atores faz ainda mais sentido quando descobrimos que o fundador da loja era também um grande admirador de teatro. António Z. Lucas entra em mais uma sala deste pequeno labirinto e tira de uma prateleira um empoeirado livro com edições encadernadas do Jornal dos Teatros dos anos 1920 e 30. No cimo de algumas das páginas vê-se um anúncio antigo: Achilles Santos Frias. Com oficinas movidas a electricidade. Ferragens antigas para móveis em todos os estilos.
Regressamos à entrada da loja, a que António Lucas deu um ar mais parisiense, com um grande espelho e quadros mostrando a enorme variedade de modelos de ferragens, douradas e brilhantes. Será que, entretanto, lá em baixo, no escuro da cave, a quadriga guiada por uma figura clássica tocando lira se lançou já numa corrida louca, largando pelo ar o anjinho nu que tentava agarrar-se a ela, enquanto, na sua caixa, a águia melancólica lançava mais um longo bocejo?
Zeferino Lucas, Joaquim, nasceu em Alcobaça, a 4 de junho de 1918, no seio de uma família humilde, constituída pelos pais e 5 filhos, dos quais ele era o mais novo. 
Após a conclusão da 4ª. classe, foi aprender o ofício de marcenaria, na firma de José Neves, em Alcobaça, de onde saíu para se estabelecer por conta própria. Com 11 anos, realizou o primeiro negócio, a compra da madeira de um pinhal, tendo como fiador o  pai.
Desde cedo, Joaquim Zeferino Lucas, segundo refere a família, destacou-se por uma grande vivacidade intelectual, por vezes pautada por alguma inquietude, no pensar e no agir, que conseguiu gerir com ponderação. Curioso pelo que o rodeava, sempre manifestou abertura em conhecer outras culturas e aprofundar conhecimentos de história ou sobre a natureza. O sentido de humor, a alegria genuína, e o caráter humilde, combinavam com a capacidade inata de conquistar, de forma afetiva e efetiva, a amizade dos outros, que tão bem sabia honrar e respeitar.
O espírito empreendedor, que não escondia uma certa ambição, não pelo brilho social mas apenas pelo desejo de consolidar a autonomia financeira e o bem-estar da família, evidenciou-se em áreas como a exploração de uma serração, de uma agência funerária que viria anos mais tarde a doar ao seu afilhado funcionário da firma, na produção de fruta e na exploração de uma fábrica e loja de mobiliário.
O casamento com Alice de Jesus da Silva, aos 26 anos de idade, mãe dos seus 6 filhos e pessoa com forte ligação à religião católica, viria a alterar significativamente a forma como Joaquim Zeferino Lucas passou a encarar a sua ação na vida dos que mais sofrem, pela carência económica e também espiritual, tendo essa vivência modelado a sua postura enquanto pai, marido, patrão e cidadão. De acordo com uma das filhas, a semente lançada pelo Evangelho, levou-o a frequentar os cursos de cristandade, a integrar a Conferência de S. Vicente de Paulo, a Pastoral Sócio Caritativa, e onde prestou um importante apoio pessoal, no terreno, na melhoria das condições de vida das pessoas. Durante vários anos, repartiu o seu espírito de cidadania por várias instituições, como a Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça, o Centro de Educação Especial e Reabilitação Infantil de Alcobaça, a Cooperativa Agrícola de Alcobaça e a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo.
Conforme opinião familiar, embora sem aspirações no plano político, a idoneidade moral e o caráter consensual do seu perfil na comunidade de Alcobaça, acabou por levá-lo, nas eleições de 1980, ao cargo de Presidente da Junta de Freguesia, que procurou compatibilizar com a  atividade comercial.
 Nos últimos anos de vida, Joaquim Zeferino Lucas manteve a proximidade com a família, da qual se constituiu numa referência em termos de valores morais, de justiça e de honestidade, bem como com os amigos, que incluíam  todos os estatutos sociais e económicos, inclusive os ex-funcionários.
-Voltando atrás.
Na sequência dos incidentes que conduziram ao assalto e ocupação da Câmara Municipal de Alcobaça e da sede do PC realizou-se, no sábado, dia 26 de julho de 1975, um Plenário para a Freguesia de Alcobaça eleger o seu representante na nova CA da CMA. Nesse sábado ou porque as pessoas foram avisadas com pouca antecedência, ou por outro motivo qualquer, a sala reservada para o efeito, junto ao Tribunal, então no primeiro andar da ala norte do Mosteiro, registou escassas dezenas de pessoas, pelo que foi decidido adiar o Plenário para o dia seguinte, domingo, sendo que desta vez a sala encheu-se, com muita gente, ordeira e interessada, proveniente de todas as camadas sociais e mesmo de lugares do concelho. Após esclarecimentos por parte dos promotores da reunião, seguiu-se uma votação, onde não havendo listas, nem cadernos eleitorais, cada um, poderia votar em quem muito bem entendesse. Em votação secreta, os nomes mais votados foram, Joaquim Zeferino Lucas, Vítor Figueiredo, Manuel Alberto Tomás Correia, Augusto Simões, António Zeferino, Manuel da Bernarda, João Monteiro, Adão Nascimento Lameiras e José Carlos Teixeira. Estes começaram sucessivamente a declinar a responsabilidade, pelos mais variados motivos, familiares, políticos ou profissionais. Dado que nenhum parecia disposto a aceitar, a assembleia começou a protestar e exigiu que Joaquim Zeferino Lucas aceitasse o lugar. A escolha foi aprovada por aclamação.
Todavia, outro veio a ser o desenvolvimento deste assunto, como se pode ler com mais detalhe em No Tempo de Soares, Cunhal e Outros, de Fleming de Oliveira.
Tendo em conta a entrega às causas sociais e a disponibilidade para os outros, faz sentido o que Zeferino Lucas disse pela última vez aos familiares que o rodeavam, gostava de ver as pessoas felizes.
-Joaquim Zeferino Lucas, faleceu a 26 de outubro de 1996.