quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O LEÃO DE RIO MAIOR

 

Em inícios de 1973, a história de um leão à solta npelas redondezas de Rio Maior, sobressaltou os habitantes locais.

  A notícia correu o país, chegou mesmo ao Ultramar, apareceu na RTP e nas primeiras páginas dos jornais. O Leão de Rio Maior, ainda hoje vive na memória dos mais velhos.

Na altura encontrava-me a prestar serviço militar em Bissau e, aí, me chegou se bem me lembro por aerograma da minha Mulher, a espantosa notícia. O meu chefe de serviço, sabendo que eu tinha familiares em Alcobaça, embora não se lembrasse da relação desta Vila com Rio Maior, perguntou-me se não havia risco de aqueles saírem à rua.

  Os habitantes de Rio Maior, não os de Alcobaça obviamente, viviam atormentados desde o dia em que um pastor fugiu a gritar que tinha visto um leão andar à solta.

  Carcaças de cabras, jumentos e ovelhas devoradas e largadas eram as provas,  provadas, para que as gentes de Rio Maior passassem as noites em branco, temendo pela segurança.

  O jornalista Fernando Pessa, a pé e de bicicleta, percorreu de bicicleta os campos para entrevistar pastores e agricultores que teriam avistado a fera. Juraram todos que o leão existia, era um perigo e andava a esquartejar o gado, refugiando-se depois na mata. Fernando Pessa, recorde-se, foi um famoso jornalista do século XX. Convidado para a secção portuguesa da BBC, viveu em Londres durante a II Guerra, de onde fez reportagens, via rádio, memoráveis.

  SMas só em 1984, se veio a descobrir que, afinal, a história do Lleão de Rio Maior é verdadeira, não uma lenda ou mito.

  José Diogo, assim se chamava o homem, contou  à imprensa local que, durante quase um ano, tomou conta do animal, depois de o ter encontrado na berma da estrada. Seria provavelmente a cria de uma leoa de um circo, que escapou e se perdeu. O leãozinho passou a viver com ele, alimentado nas primeiras semanas a leite e restos de comida. Foi crescendo, crescendo ficando cada vez maior, até que o dono percebeu que de cão nada tinha, era um leão. Podia ter alertado a GNR, podia ter chamado tratadores do Jardim Zoológico de Lisboa, mas já não conseguia viver afastado da fera, afeiçoara-se a eleela  como se tratasse de um animal de estimação se tratasse. Só que o leão era grande de mais e ele não podia tê-lo em casa. Levou-o, então, para um antigo barracão. O local estava há muito abandonado e José Diogo julgou que o seu leão e os habitantes estavam em segurança.

 Aflito com os relatos que chegavam, não conseguia dormir sossegado, pensando que um dia eoo animal poderia atacar uma pessoa habitante e então seria uma tragédia, agarrou numa caçadeira e saiu à sua procura do animal. Andou horas a chamar por ele,  até que ele ele veio ter com o dono. José apontou-lhe a arma à cabeça, e, com a  pesar,a custo disparou.

  Por coincidência ou não, nunca mais se ouviu falar do leão.

  Em 1974, já a trabalhar em Alcobaça como advogado, um cliente  a viver da zona da Benedita, que ainda ainda não sabia do triste fim do animal, contou-me que participou, com um cunhado e mais 4 caçadores, numa batida para o apanhar.

 

 

 

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Novo volume de “Anais Leirienses” foi lançado em Alcobaça

 

O livro contempla, entre outros, quatro estudos relativos ao concelho de Alcobaça e dois textos em memória de Adriano Monteiro e Fernando Miguel Bernardes.

O número 12 de Anais Leirienses – estudos & documentos foi lançado, dia 28 de janeiro, às 16 horas, no Museu do Vinho de Alcobaça, numa sessão apresentada pelo coordenador científico da obra, Saul António Gomes.

Editado por Hora de Ler, o volume conta com 488 páginas sobre temas do Distrito de Leiria, nomeadamente quatro estudos relativos ao Concelho de Alcobaça:

Acerca dos pelourinhos da vila de Alcobaça, de Mário Rui Simões Rodrigues;

Alcobaça, momentos do Mosteiro e da Vila: o Asilo de Mendicidade de Lisboa em Alcobaça, de Rui Rasquilho;

A Rainha Isabel II em Alcobaça (1957), de Fleming de Oliveira; e

Museu do Vinho de Alcobaça: uma visita guiada, de António Valério Maduro e Alberto Guerreiro.

O livro contempla ainda:

Os contratos das sisas de 1527-1528 dos antigos concelhos do Norte do Distrito de Leiria, de Saul António Gomes;

Fábricas de vidros, fornos e vidreiros em Portugal: relação por ordem cronológica da sua fundação ou do conhecimento da sua existência, de Luís Neto;

Pisões, Azenhas e Moinhos na bacia hidrográfica do rio Lis, de Ricardo Charters-d’Azevedo;

A revolta da Azoia (Leiria) – um núcleo da intentona monárquica de 1912, de Carlos Fernandes;

Polémicas políticas no concelho de Ansião na Primeira República, de Manuel Augusto Diase

 A cerâmica no ‘Estado Novo’ ao serviço de um ideário, de Aires B. Henriques.

 

Do artigo A Rainha Isabel II  em Alcobaça 1957) foi feita uma separata que pode ser encomendada via 962925444 ou flemingdeoliveira@gmail.com e se encontra disponível nas livrarias de Alcobaça.

 

 

AS MINHAS OBRAS DE SANTA ENGRÁCIA

FLeming de OLiveira

 

 

Ando a fazer umas obras na minha casa nos Montes que, parece, não mais terminarem.

Um dia destes, a minha neta mais velha, perguntou quando estavam prontas, tendo a Avó (minha Mulher) respondido que não sabia e que lhe pareciam as obras de Santa Engrácia.

-O que são as obras de Santa Engrácia?

-Pergunta ao Avô que sabe  tudo e te explica melhor.

Na verdade, os avós sabem um pouco de tudo e também explicar bem e com paciência.

Todos ouvimos dizer que, algo que demora muito tempo, é como “as obras de Santa Engrácia”. Mas qual é, afinal, a razão desta expressão?

A Igreja de Santa Engrácia é uma das mais importantes de Lisboa, senão mesmo do país. Mas se  falarmos do Panteão Nacional, certamente que é mais fácil identificar o monumento a que me estou  a referir

Ambos se referem à mesma construção, uma das últimas  do barroco português. Contudo, o que ficou para a história foi o tempo que durou a construção e que deu origem à expressão que entrou na gíria popular.

As obras começaram em 1568, no local onde havia um templo antigo. Foi a Infanta Dª. Maria, filha de D. Manuel I e da sua terceira esposa Dª. Leonor, quem ordenou a construção, para guardar o relicário de Santa Engrácia. Provém daí o nome do edifício. O relicário em prata de Santa Engrácia, segundo autores, exibe um retrato parecido com os que se conhecem da Infanta, e tem sido exposto ao público.

Dª Maria chegou a ser no seu tempo considerada a mulher mais rica de Portugal. A sua instrução e virtudes ganharam fama, teve muitos pretendentes, mas morreu solteira, sem filhos. Dedicou a vida à Igreja, fundou conventos. 

Porém, a igreja demorou cerca de 400 anos a concluir. Só na década de 1960 ficou pronta, tendo Salazar decidido convertê-la no Panteão Nacional, onde jazem portugueses ilustres.

A demora na construção deu azo a histórias e lendas.

Contava o povo de Lisboa que o edifício não ficava pronto por causa de um amor impossível e de uma maldição. Violante, filha de um fidalgo, ter-se-ia apaixonado por Simão, um cristão-novo. O fidalgo não aprovou o relacionamento e decidiu internar a filha no Convento de Santa Clara e fazê-la noviça, convento este que fica perto da Igreja de Santa Engrácia, na altura ainda em construção.

Uma noite a Violante e namorado decidiram fugir. Mas, por azar,   nessa mesma noite, o relicário de Santa Engrácia foi roubado. Pelo facto de Simão muitas vezes rondar à noite aquela zona, acabou acusado de roubo, de profanação da igreja, preso e condenado à morte numa fogueira da Inquisição.

Antes de ser executado, terá lançado a maldição: “É tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

 

Acabo de lançar o opúsculo  A  RAINHA ISABEL II EM ALCOBAÇA (1957), separata de  ANAIS LEIRIENSES-Dezembro de 2022.

 

Tratou-se de uma visita memorável a Portugal e  Alcobaça, que ainda hoje perdura na memórias de muitos, e é considerada a visita do século.

Deu-me muito prazer fazer a revisitação deste evento, pelo que tenho gosto em o compartilhar com os interessados.

O livrinho pode ser adquirido via 962925444,  flemingdeoliveira@gmail.com e enviado por correio ou nas livrarias de Alcobaça.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

MORAL, ÉTICA E DIREITO

 

Quando se fala em moral, muitos lembram-se das novelas ou histórias de época em que os personagens mais conservadores falam em “preservar a moral e os bons costumes”. Também quando se quer dizer que alguém tem um pensamento ou comportamento conservador, é corrente dizer que “é um moralista”.

Contudo, a moral, nada tem a ver com conservadorismo

O que é, então, a moral, pergunta o meu benévolo leitor?

Muito resumidamente direi que é um conjunto de regras que funciona como guia para atuar. A moral orienta as ações que seriam as corretas, ao invés das  incorretas.

E o direito não é também assim ?

Podemos dizer que a moral é mais ampla. O direito será o mínimo de preceitos necessários para o bem-estar da sociedade. Porquê referimos um mínimo? Porque não vai regular tudo, apenas o que for considerado mais relevante.

Existem inúmeras questões morais que não tem correspondência no direito.

Por exemplo, admito totalmente correto e indiscutível  ter uma religião. Mas no nosso país não existe, hoje em dia,  lei que obrigue as pessoas seguirem uma religião, seja ele qual for. Logo, esta é uma questão moral.

Aqui é possível perceber uma relevante diferença entre direito e  moral. O direito tem poder coercivo, ou seja, pode impor, se necessário pela força que as pessoas tenham determinada atitude. O direito tem força obrigatória, pelo que e se não for cumprido, pode acarretar sanções, como prisão, multas ou restrição de direitos.

Já a moral não tem coercibilidade. Uma pessoa é livre de seguir ou não um preceito moral, de acordo com a sua consciência e livre-arbítrio.

O direito só existe quando há no mínimo duas pessoas envolvidas. As normas sempre regularam os direitos e deveres de um indivíduo em relação a outros.

O direito e a moral devem estar ligados ou podem existir normas jurídicas que não tenham relação com a moral?

Os positivistas, assim era ensinado quando estudei em Coimbra, defendiam que o direito nada tem a ver com a moral. Porque a moral é variável, muito subjetiva, aquilo que é correto para uns, pode não o ser para outros. Então defendiam que o direito era o que estava previsto na norma, e que não coincide necessariamente  com a moral.

O problema é que este tipo de raciocínio pode levar a abusos ou atrocidades como as que acontecem em ditaduras, em que os governos publicam leis imorais.

Hoje entende-se que, mesmo em política, o direito deve ter relação com a moral.

Todas as normas afinal têm conteúdo moral? Ou existem normas  neutras, que não são morais nem imorais?

Entendo que não existem leis neutras. Até mesmo as puramente técnicas, como as que preveem prazos processuais, devem ter alguma relação com a moral.

A moral, advém da sociedade ou é individual, interrogava-me um antigo cliente.

Cada um tem um papel ambíguo, porque herda a cultura do meio onde se encontra inserido, mas também cria cultura dentro desse meio.

A moral  é assim. Uma pessoa pode seguir a moral "herdada" da família ou do grupo a que pertence, mas também pode construir a sua moral, com base nas experiências de vida.

E para terminar este breve apontamento, cumpre referir a diferença entre ética e moral.

A ética é a parte da filosofia que reflete sobre a moral, questionando o que a sociedade acredita ser correto ou incorreto, assim como os princípios e valores que orientam as  ações.

Desta forma, a ética analisa as regras de conduta traçadas pela moral, para debater se elas são importantes ou se seriam inadequadas ou ultrapassadas.

Hoje vivemos um tempo em que a ética está a ganhar destaque, nomeadamente no panorama político nacional. Problemas relacionados com o egoísmo, a exclusão, a corrupção e a indiferença pelo próximo tem origem na perda de valores morais.

É urgente que haja uma reabilitação da ética na nossa vida política, para que ela não seja vista como uma palavra oca, outrossim como o ramo que tem como objetivo tornar os indivíduos menos individualistas e mais íntegros.

 

À volta da cultura

 

O homem, enquanto racional e culto, consegue discernir o certo do errado, a moralidade da imoralidade, o bem do mal, pelo que é capaz de produzir tradições e comportamentos que se consolidam enquanto cultura.

Por outras palavras, a cultura é  herança social de uma comunidade que se transmite aos descendentes e à  Humanidade, um forte agente de identificação pessoal e social, um modelo de comportamento que integra segmentos sociais e gerações.

Entendo que cultura está intimamente ligada à ideia de política e a construção da região ou da nação.

Uma região ou nação não é apenas a ideia de extensão geográfica e de momentânea acumulação de indivíduos, mas uma ideia de continuidade que se prolonga no tempo e em números. Note-se, não se trata da eleição por um dia ou de um mero grupo de pessoas. É, sobretudo, uma deliberada seleção de tempos e gerações formada por circunstâncias peculiares, por ocasiões, temperamentos e disposições, por costumes morais, civis e sociais, que se vão revelando ao longo do tempo.

O homem é, concomitantemente, o ser mais sábio e mais ignorante. O indivíduo, enquanto tal, pode ser idiota. A espécie, porém, é sábia e quando  se lhe concede o tempo quase sempre atua de maneira adequada.

A cultura serve como tradição ou herança de um grupo ou de um povo que orienta o seu comportamento, as suas ações e expectativas na convivência em sociedade, entre si ou com culturas distintas.

cultura ocidental assenta em três pilares: a filosofia grega, o direito romano e a fé católica.

Entendo, pois, a nossa cultura construída a partir das ações e interações fruto daqueles pilares. As pessoas, fazendo parte de uma sociedade, interagem umas com as outras, trocam ideias, conhecimentos, crenças, e desse relacionamento decorre a cultura do povo. Juntas, constroem uma história de vida, onde hábitos e costumes, manifestações, expressões e sentimentos se inserem, identificando cada componente  e influenciando o modo de viver e de ser.

Cultura e educação, são elementos que fundamentam/sedimentam a socialização, a formação moral e intelectual do indivíduo, pelo que a formação da sua personalidade está associada à aquisição de níveis cultura. O saber, a moral e os comportamentos sociais guardam uma relação com a cultura, apoiam-se nela.

A cultura relacionada diretamente à geração do conhecimento e ao exercício do pensamento,  valores essenciais para o desenvolvimento da sociedade, é importante na formação pessoal, moral e intelectual do indivíduo e no desenvolvimento da sua capacidade de relacionar-se.

A cultura um dos principais elementos que constituem a identidade de um sujeito e sua inserção num povo, numa comunidade, região ou nação, é um elemento de coesão do grupo e distingue-os dos demais. É ela que singulariza um grupo diante do mundo.

As raízes culturais de um povo são primordiais para preservar as suas origens, para afirmar a sua identidade e o engajamento. Essas raízes (culturais, sociais e familiares) são nesse sentido elemento de importância na formação da identidade e da personalidade do indivíduo.

Nada impede um povo de procurar aprimorar a sua cultura, buscar inspiração, técnicas e melhorias noutras  culturas, assimilações que acarretando melhores padrões de vida, não invalidam uma cultura e podem até fortalecê-la.

Reconheço, que há culturas que granjearam mais progresso do que outras, podendo compartilhá-lo, não para anular a cultura cujo desenvolvimento é menos evidente, mas para ajudá-la.

Língua, religião e cultura são componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao termo da sua duração histórica. São valores, que, por servirem a Humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. Mas, se esses elementos podem servir à Humanidade, é porque serviram eminentemente o povo que os criou.

A cultura é uma herança e o seu estudo envolve a compreensão dos símbolos que povos, indivíduos e civilizações deixaram registados na História e que, enfim, gosto de evocar.