segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Não Temos Alternativas?


O Poder tradicionalmente, ainda que burguesmente democrático, lida mal com quem gosta de pensar pela sua cabeça, levantar questões, suscitar dúvidas (incómodas) e não se conforma, de todo, com as respostas simples e a despachar. O Poder resiste em abrir o jogo, dar informações e louva-se no preconceito da sua autoridade (foi eleito por uma maioria!) e competência, perante as alternativas (que nunca existem, quando sugeridas por outrém). Acaba por isso por ser o mau da peça, ainda que não pelas suas profundas motivações ou atuação (admitimos por princípio e sem condescender que, até, podem ser boas), pois quer para nós, alegadamente o melhor possível. Poucas vezes reconhece, porém, que o que pode e sabe talvez não seja o adequado ou suficiente. Isto vem, é verdade, a propósito deste ou outro Poder qualquer, daqui ou acolá, bem como das medidas de austeridade que têm sido implementadas, desde que a crise se instalalou e deixou de ser escamoteavel. Muitas das decisões tomadas são brutais, tanto pelo resultado como pelo método, dando a sensação de ser feitas a olho (e apenas com um), e concebidas de modo a ter de comer e calar.
Neste contexto, parece fácil atribuir à troika o odioso da questão, esquecendo que há mais de dez anos, sucessivos e adiados Poderes (sempre a pensar curto e nas próximas eleições), nos vem dizendo que temos de assumir rapidamente reformas estruturais.
Um parente, que vive há perto de 50 anos no Brasil, esteve este ano com a família, mais uma vez a passar férias a Portugal. Andou pelo Norte, Centro e foi até ao Algarve. Embora sendo uma pessoa razoavelmente informada sobre o que se passa entre nós (vê todos os dias a RTP Internacional e quando calha compra o Expresso numa banca da Avenida Paulista), disse-me que estava agradavelmente surpreendido pois a crise, afinal, não era tão grave como as notícias que lhe chegavam faziam crer. As estradas, as esplanadas, os restaurantes e as praias continuavam tão animadas como antes. As lojas embora com pouco movimento vendem de tudo e os preços não são altos. E quando lhe respondi que a crise contempla pesadamente outras componentes para além da material, como a incerteza do que somos, o que queremos e para onde vamos, a perda da certeza e expectativas com que lidamos desde que temos memória deixaram de ter valor e nos irão obrigar (quiçá!) a trabalhar mais por menos (até nos vão às reformas), ficou perplexo,l mudo e calado.
Esse meu parente, que foi para o Brasil com uma mão à frente e outra atrás e hoje vive bem (reformado) num país em franco crescimento e ambição (e por isso está a impor-se no panorama interno e internacional), também não compreende que nós portugueses que vivemos em solo europeu, possamos esquecer as expectativas que nos foram graciosamente incutidas desde há cerca de 4 décadas e passar a viver com a frugalidade decorrente do que somos capazes, apenas com os nossos meios, os que ele conheceu e que o levaram a ir fazer vida para o outro lado do Atlântico.
Como ultrapassar isto? Respondi, franca e simplesmente, que não sei, mas acredito que além da terapia de choque que pode matar o doente, outras poderiam haver se o Poder não fosse tão cioso da sua competência.

   Fleming de Oliveira

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