terça-feira, 8 de julho de 2014

Os Monges Agrónomos do Mosteiro de Alcobaça

  

Ficha Técnica


Autor:
Joaquim Vieira Natividade

Título:
Os Monges Agrónomos do Mosteiro de Alcobaça

Revisão, Fixação de texto e Prefácio:
Fleming de Oliveira

Nota Introdutória:
Manuel Pimentel Castelhano

Edição:
Cooperativa Agrícola de Alcobaça (2013)

Capa:
-Daniela Santos
-Fleming de Oliveira

Imagens:
-Arquivo Particular de Fleming de Oliveira
-Biblioteca Municipal de Alcobaça
-Mosteiro de Alcobaça
-Internet

Composição, impressão e acabamento:
Relgráfica – Artes gráficas, Lda. – Benedita






JOAQUIM VIEIRA NATIVIDADE










OS MONGES AGRÓNOMOS
DO
MOSTEIRO DE ALCOBAÇA


















NOTA INTRODUTÓRIA


A agricultura constituiu desde muito cedo uma atividade fulcral na sobrevivência e no desenvolvimento de Alcobaça.
Já assim seria antes da chegada dos Monges de Cister mas aprofundou-se e ganhou relevância em termos económicos com eles. Monges que se constituíram como os promotores denodados do cultivo esclarecido dos campos e que foram autores de uma saga de inovações e experimentações técnicas que ainda hoje perduram, demarcando áreas de cultivo, selecionando sementes, testando culturas (entre as quais as típicas frutas de Alcobaça) que, com o decorrer dos tempos, se foram apurando, constituindo hoje o produto agrícola mais expressivo da região.
Foi com base neste património que, nos finais do século XIX, se intensificaram os movimentos associativos ligados à lavoura e dos quais veio a emergir, mais tarde, a Cooperativa Agrícola. Cooperativa que teve um papel cimeiro na sequenciação desse enorme esforço histórico em prol da agricultura, fomentando sustentadamente a produção agrícola e assumindo um papel de motor no desenvolvimento agrário e um apoio abrangente e inestimável à população rural.
Depois de um momento de viragem estratégica (após um período de grandes dificuldades financeiras) adequando a sua ação a novos tempos e a novos desafios, não pode a Cooperativa deixar de contribuir para a preservação do património cultural da Agricultura trazendo mais luz e enriquecendo o capital histórico e técnico desta que foi sempre a atividade mais paradigmática e marcante na vida de Alcobaça.
Faz, assim, parte das intenções estratégicas da Cooperativa esse empenho em apoiar iniciativas deste tipo para, por um lado, fazer recuar a ignorância do que fomos e, por outro, dedicar alguns dos seus recursos à eleição e tratamento de temas de interesse para a projeção da agricultura e do desenvolvimento rural.
É neste enquadramento que se insere a presente publicação que nos foi proposta pelo Dr. Fleming de Oliveira. A reedição desta obra, cujo valor simbólico é de extrema importância, não apenas pelo seu notável conteúdo, mas porque o seu autor é um dos mais relevantes vultos da investigação e experimentação agrária de todos os tempos nas terras dos coutos. E, para além disso, é também um dever, já que Vieira Natividade foi, sem sombra de dúvida, o ideólogo da criação da Cooperativa Agrícola. De facto, a 25 de Janeiro de 1931, Vieira Natividade profere uma conferência na sede do Sindicato Agrícola de Alcobaça, no dia das Associações Agrícolas, onde faz a apologia das cooperativas e que foi, por certo, o impulso decisivo para a sua criação, que veio a ocorrer passado pouco mais de um ano.
Esta conferência, publicada pelo Sindicato Agrícola de Alcobaça, será também, oportunamente, reeditada pela Cooperativa.
Ao Dr. Fleming de Oliveira, ele que é um amante de Alcobaça e um defensor da sua história e da sua cultura, o nosso reconhecido agradecimento por este trabalho de revisão, fixação e melhoria de texto mormente através da inserção de imagens que o documento inicial não continha dando-lhe, assim, uma apresentação moderna e mais atrativa e, sobretudo, pelo excelente prefácio que adicionou à obra e que muito a enriquece.
Preservar o património histórico é um dever de todos. A vida coletiva impõe que não esqueçamos o passado sempre valioso para o desenho do futuro. Futuro que é e será sempre enigma de todos os tempos mas que se desvenda e constrói com pioneiros, utópicos, desbravadores do desconhecido, como o foi Vieira Natividade - esse a quem apelidaram de monge agrónomo dos nossos dias. Homens de todas as gerações, que transcendem o tempo e o espaço e integram de forma indelével o nosso património comum. 
Vieira Natividade demonstrou como ninguém amor às coisas da terra em toda a latitude que a expressão possa conter.
É assim com honra e gratidão que a Cooperativa Agrícola assume o patrocínio da reedição desta sua magnífica intervenção.

Manuel Castelhano
Presidente da Direção da Cooperativa Agrícola de Alcobaça





PREFÁCIO


A 9 de Dezembro de 1942, o Prof. Eng. Joaquim Vieira Natividade, realizou uma conferência na Casa do Distrito de Leiria, em Lisboa, intitulada OS MONGES AGRÓNOMOS DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA, editada em livro pelo Grémio da Lavoura da Região de Alcobaça, o qual se encontra há muito esgotado (daí esta nova edição), pelo que sendo amiúde citada, tal é feito normalmente por via de anteriores citações.
Trata-se de uma abordagem interessante que, embora não seja obra maior no conjunto da que deixou J. Vieira Natividade (cuja figura continua a ser muitos anos após a publicação da sua obra mais conhecida, Subericultura, foco da atenção de silvicultores e agentes do mundo da cortiça), perdura como referência para o estudo da ação dos Monges de Alcobaça. Tem, portanto, atualidade e interesse. O autor, teve a preocupação de contestar a injusta ideia, que se vinha com alguma intencionalidade propagando, se não sedimentando, de que os Monges do Mosteiro de Alcobaça, um dos mais opulentos institutos religiosos da Europa, viveram no fausto, num meio grotesco e descomunal, ligados à abastança dos bens terrenos, e assim esquecidos de virtuoso e prestimoso labor. Natividade quis realçar alguns dos seus importantes, mas menos lembrados, serviços à ciência, à agricultura e à povoação de Portugal, (asilo inviolavelmente fortificado da literatura, das artes, da ciência, no dizer de Ramalho Ortigão) bem como as altas virtudes cristãs dos primeiros tempos. O efeito da ação dos Monges de Alcobaça, propagou-se muito para além dos limites dos seus Coutos.
Recorde-se que, os Coutos do Mosteiro, compreenderam um território por este administrado e abrangeram, na fase da sua maior expansão, uma área de cerca de 44.460h, compreendendo 3 portos de mar e as 14 vilas a saber: AlcobaçaAljubarrotaAlvorninha, S. Catarina, Turquel, S. Martinho do Porto, Salir de Matos, Évora de Alcobaça, Maiorga, Pederneira (Nazaré)Cela Nova, AlfeizerãoCós e Paredes da Vitória.
Apesar do muito que se tem escrito sobre os limites dos Coutos de Alcobaça, continua a ser difícil traçar com rigor os seus contornos. Na verdade, especialmente durante a Idade Média, eles sofreram alterações, da iniciativa ou não dos reis, em todo o caso por eles sancionadas, outras por iniciativa dos próprios Monges que, mais ou menos indevidamente, e sempre que podiam alargavam os seus domínios. No primeiro quartel do século XIV (D. Afonso IV), eram já bastante contestados a Sul, (Alvorninha com o seu termo), e a Norte (Aljubarrota, Cós e Pederneira, também com os respetivos termos). É certo que a par destas, outras vilas dos Coutos, foram questionadas, embora de maneira diversa, nomeadamente ao impugnar-se ao Mosteiro o exercício de determinados direitos reais, como a justiça. Segundo Manuel Vieira da Natividade, os Arcos dos Limites ou Arcos da Memória, foram construídos como marcos monumentais dos pretendidos domínios. Mandaram os monges levantar dois grandes e celebrados arcos, que deveriam testemunhar, infalivelmente, a sua autoridade e poder, o Arco da Memória (na Serra dos Candeeiros-Albardos), e o Arco do Casal do Rei (Casal do Rei-Vidais).
Sobre os respetivos direitos, manteve o Mosteiro longa e dura disputa com a Coroa, até ter sido proferida em 1337 uma sentença favorável ao Rei, ficando os limites, doravante, bastante aproximados dos primitivos. Embora lhe tivesse sido desfavorável o pleito com o Rei, o Mosteiro nunca abandonou a ideia de recuperar a posse das terras contestadas, o que de alguma forma foi conseguido em 1358 com D. Pedro I, cimentando-se uma forte ligação entre as partes. Mas, dentro breve, os Coutos do Mosteiro iriam voltar a crescer, atingindo a sua maior extensão. Com a doação de D. Fernando (1368), desmembra-se do Termo de Leiria, e em 1374, Pataias entra na área dos Coutos.
Todavia, com D. João I, voltou a ser considerado domínio régio, tanto a parte doada por D. Pedro I, como a de D. Fernando. Alternando momentos de arreganho com desalento, continuou o Mosteiro a usufruir os vastos domínios, por vezes em grandes demandas com os povos insatisfeitos.
O Mosteiro administrou este território até 16 de Outubro de 1833 (a Convenção de Évora-Monte ainda estava longe), altura em que os Monges o abandonaram definitivamente (embora já o tivessem, parcialmente, efetuado antes), na sequência de vitórias do exército liberal, acompanhadas de revoltas populares oprimidos.
Entretanto procederam à colonização de terras, instituindo Forais ou Cartas de Povoação, no que alguns autores consideram um esquiço de futura legislação agrária. Dedicados ao desenvolvimento da agricultura, principalmente através das Granjas, vieram estas a ser relevantes focos de desenvolvimento agrícola. Já Manuel Vieira Natividade, no século XIX havia escrito (in Mosteiro de Alcobaça) que a cultura das árvores fruteiras mereceu sempre dos monges os mais constantes cuidados e que, tão intensa foi e é essa cultura que, ainda hoje, nas terras d’Alcobaça por fruta se subentende a maçã e por pomares as plantações de macieira. Por sua vez, Iria Gonçalves (in, O Património do Mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV), sublinhou que, as hortas e pomares situados dentro da própria cerca do Mosteiro, tinham depois muitos outros espalhados por diferentes locais, esses visando fins lucrativos.
Entendo não ser a História Local um ramo menor, não se podendo falar de História Nacional ou Universal, esquecendo a História Local pois, que é a partir da História Local que se chega à História Universal. De resto, e embora num outro contexto, já Miguel Torga o havia salientado: O local é o universal sem paredes; (...) quanto mais local, mais universal.
Num tempo veloz e fugaz, em que o isolamento e o silenciamento de algumas experiências nos levam a perder a memória coletiva (sem memória coletiva um Povo é alienado), rememorar e compartilhar memórias é uma ação que adquire como que um caráter de resistência, a memória compartilhada é uma forma de não sucumbir ao esquecimento que o ritmo acelerado do tempo impõe. Nenhum país, comunidade, ninguém enfim, pode viver sem memória, pois esta é que confere a coesão.
Nos seus trabalhos de investigação, os historiadores ditos locais, falam do passado, refletem o presente e perspetivam o futuro das suas freguesias, vilas ou cidades. E, normalmente, gostam de documentar os livros com gravuras e registos fotográficos, demonstrando uma especial interesse para a efeméride. Em livros, que muitas vezes trazem a chancela autárquica, evocam eventos, as festas religiosas e profanas, os usos e costumes mais ou mesmo ancestrais da sua terra. Falam, com fé e amor, do seu povo, cuja História analisam de forma, muitas vezes apaixonadamente.
Uma história de acontecimentos, de datas e de pessoas ilustres, pouco nos serve por si só, se não obtivermos a explicação e o entendimento necessário para percebermos as consequências que tiveram, direta ou indiretamente, na vida política social e económica da comunidade. Não alinho na tese de contar a História, fundamentalmente, a partir da ação e do impacto dos chamados Grandes Homens, indivíduos seguramente assás influentes, graças ao carisma, inteligência ou impacto político-social. Pelo contrário, defendo a teoria que propõe que os eventos acontecem numa dada circunstância de tempo, ou quando uma imensa quantidade de pequenos eventos causam certos desenrolamentos. Embora seja popular a crença em que a história gira em torno de Grandes Homens, especialmente quando a grandeza é determinada por status político-económico, essa é uma visão restritiva, que exclui a participação de grupos inteiros, entre os quais o operariado, as minorias étnicas ou culturais, e mesmo as mulheres, enquanto género.
Em tempo de viragem, cumpre olhar para a Cultura, Arte, Património e História com olhos de ver, apreciar e defender o que é nosso, dinamizando valores. Uma terra, como Alcobaça, tão rica em História e em momentos decisivos do decurso pátrio, não pode deixar desaparecer os vestígios do passado. Não digo para se viver no passado, claro que não, outrossim que preservar a História e trilhar um futuro com convicção. É momento de apostar nas nossas riquezas e divulgá-las, se possível com o ensino da História Local na Escola, aproximando os jovens do que é seu. Além disso, os nossos governantes, nomeadamente autárquicos ou dirigentes associativos, têm o dever de defender o que é nosso, não deixando ao abandono o Património.
A C.A.A.-Cooperativa Agrícola de Alcobaça (e muito concretamente o seu Presidente da Direção), sabe que tanto é património o material como o imaterial. Material, pensa-se logo no património construído. Imaterial, associa-se às tradições orais, aos saberes e ao saber fazer. Daí a importância que confere a iniciativas que fazem recuar a ignorância, qualquer que seja a área em que se situe, e às que promovem o direito às liberdades fundamentais e à dignidade da pessoa e dos povos.
Se a Cooperativa Agrícola de Alcobaça concorda em considerar que o património deve ser preservado como prioridade da ação cultural (e também económica), a questão da valorização do património e da sua relação com o desenvolvimento económico, suscita reações diversas, por vezes opostas. O restauro de uma peça de arte, de uma igreja, a renovação de uma praça, a publicação de um bom texto, a recuperação de uma boa prática, só farão sentido se provocarem um afluxo turístico, ou podem ser realizados para o simples prazer, para a cultura, fruição, bem estar dos residentes?
A política cultural dos poderes públicos e associações privadas como a C.A.A., justifica-se, frequentemente, pela ajuda que confere ao desenvolvimento. Daqui surge uma manifesta ambiguidade pois não é tanto a elevação do nível cultural que se procura com o estímulo da atividade económica para se concluir rapidamente que o desenvolvimento cultural não é um luxo sem o qual se pode passar, mas um motor do desenvolvimento económico e social. Todavia, a responsabilidade dos decisores no estabelecimento dos programas conduz, ou deveria conduzi-los, a uma reflexão quanto ao equilíbrio a obter entre a satisfação das necessidades culturais e das económicas. Se é verdade que a simbiose entre cultura e economia passa muitas vezes pelo turismo, nada impede aos promotores de ações culturais conciliar a necessidade de atrair um público exterior e a vontade de satisfazer as aspirações do público local.
Continuarei no meu combate pela divulgação da nossa História, sem dúvida de forma modesta, porventura quixotescamente, mas com a certeza maior de ser importante não esquecer, nem apagar o passado, pois ele faz parte da memória do nosso povo, da nossa terra e das nossas raízes pessoais.
Podemos pois concluir (sem sofismas), que a origem da Maçã de Alcobaça é cisterciense, pelo que cumpre ressalvar que a ação dos Monges de Alcobaça aliou ciência à técnica, e não se circunscreveu, nem de perto, à experimentação/produção fruteira, o que permitiria a Natividade pugnar por mais e melhor fruta ou mais saúde mais riqueza, dois ambicionados bens que fazem a vida cor de rosa, tendo em conta que os frutos são a base da alimentação higiénica, precioso depósito de vitaminas e de substâncias necessárias à vida, fonte de energia  e de calor.
Recorde-se que se designa por Maçã de Alcobaça os frutos dos grupos Casa Nova, Golden Delicious, Red Delicious, Gala, Fuji, Granny Smith, Jonagold, Reineta e Pink, que, obtidos numa área geográfica bem delimitada, se identificam pela riqueza em pectinas (que lhes confere uma elevada consistência e crocância, graças à elevada percentagem em açúcar), por acidez elevada, um inconfundível paladar agridoce e aroma intenso.
Os Monges Cistercienses de Alcobaça (o Mosteiro mais célebre de Portugal, no dizer de A. Herculano, cuja origem se caldeia e irmana com a da nacionalidade, pois nasceu com Portugal) ocuparam áreas com grande aptidão agrícola e que correspondem, em certa medida, à área concebida inicialmente para a produção da Maçã de Alcobaça.
A zona de produção da Maçã de Alcobaça fica situada, aproximadamente, entre a Serra dos Candeeiros e o Atlântico, o que dá origem a um micro clima específico, o que conjugado com bons solos, gera condições para a produção de uma maçã de alta qualidade organolética.
A área geográfica delimitada da Maçã de Alcobaça, constou inicialmente do Despacho 62/94, de 21.01.94, embora a 9 de Março o Despacho 3.522/2012, tenha concedido uma autorização (transitória) ao alargamento da área de produção da Indicação Geográfica Protegida, Maçã de Alcobaça, pelo que tem (assim e atualmente) uma dimensão de cerca de 3.169 Km2,, compreendendo do ponto de vista administrativo, os Concelhos de Alcobaça (406km2), Leiria (549 Km2), Marinha Grande (199 Km2), Nazaré (82 km2), Batalha (104 Km2), Porto de Mós (260 Km2), Caldas da Rainha (255 km2), Óbidos (141 km2), Bombarral (91 Km2), Cadaval (174 Km2), Lourinhã (146 Km2), Peniche (78 Km2), Rio Maior (277 Km2) e Torres Vedras (407 Km2), embora (na prática) seja algo inferior.
Glosando J. Vieira Natividade, atrevo-me a dizer, para concluir, que os Monges Agrónomos de Alcobaça, não eram homens se não universidades au academias.
FLeming de OLiveira



OS MONGES AGRÓNOMOS
DO
MOSTEIRO DE ALCOBAÇA


MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES:

D
esde o dia em que D. Afonso Henriques doou a S. Bernardo as terras de Alcobaça, então ermas e selvosas, até àquele em que o último monge abandonou o Mosteiro, mediaram setecentos anos. 
E destes sete séculos, em que nasce, avulta, floresce em toda a magnificência, e declina e morre um dos mais opulentos institutos religiosos da Europa, estranhos desvairos, má fortuna, ruim condição dos tempos, ou singular expiação, fizeram que na memória dos homens perdurassem, não as obras santas e louváveis dos filhos de S. Bernardo, nem os avultosos serviços por eles prestados à causa do reino, no fortalecimento da individualidade nacional, nem a gratidão pelos monumentos artísticos ou pelas obras literárias que nos legaram; mas que ficassem vivas, palpitantes, sangrentas, as relaxações e as profanidades, todas as misérias da pobre condição humana, exatamente daqueles que se votaram ao serviço de Deus e proveito das almas, e deviam constituir exemplo vivo das renúncias sublimes que levam à santidade.
Se excetuarmos Fr. Fortunato de S. Boaventura, até os cronistas do Mosteiro amiúde esquecem os reais serviços à ciência, à agricultura e à povoação de Portugal, e as altas virtudes cristãs dos monges dos primeiros séculos; no olvido ficou o obscuro e piedoso trabalho desses varões de engenho subtil e claro entendimento que criaram a prosperidade das terras de Alcobaça, e nos deixaram aquilo que Herculano, Rebelo da Silva e meu Pai consideram os mais valiosos testemunhos do engenho e do valor da Ordem Cisterciense.
Esquecidos assim esses tempos de tão virtuoso e prestimoso labor, a lembrança dos frades, na memória do povo, ficou associada quase sempre ao fausto dos últimos séculos, ao grotesco ou ao descomunal, à abastança de bens terrenos, aos gozos frágeis do nosso pobre mundo, a tudo aquilo, enfim, que mais piedoso fora esquecer, que recordar.    
Comer como um frade, levar a vida como um abade são expressões populares irreverentes que ainda hoje recordam o suspeitoso culto que o povo tinha pelos cabedais de mortificação e de humildade dos seus senhores, os monges do Mosteiro.
A Abadia de Alcobaça, já desde 1580 cabeça de Ordem de Cister, atinge o apogeu da magnificência no século XVIII, e é bem humano que o agricultor dos Coutos, que laboriosamente granjeava as rendas e os foros, não visse com bons olhos tão pecador apreço pelas vãs delícias e dignidades do mundo, que lhe fazem sentir, com mais crueza, a sua pobre condição de servo.
A enorme edificação conventual domina o casario modesto da vila, e, dentro da Abadia, tudo era rico e deslumbrante nesses tempos de fácil e pródigo viver. O Abade, Fronteiro-Mor, Donatário da Coroa, Conselheiro d’El-rei, Senhor de extensos Coutos que abrangiam 13 vilas e 3 portos de mar, e quase avultavam como uma província de um pequenino reino, figurava entre a primeira nobreza do reino, e trajava dentro e fora do Mosteiro o hábito episcopal, ornado com a bolsa escarlate de Esmoler-Mor.
Se apenas podemos aperceber-nos, pelas narrações de viajantes, da sumptuosidade das cerimónias religiosas no templo, da riqueza das alfaias e dos paramentos, do viver faustoso do Abade, do luxo das hospedarias e da magnificência das receções, outros testemunhos ficaram da opulência da Ordem, e precisamente aqueles testemunhos que mais podem comprometer a salvação da alma dos filhos de S. Bernardo: a doce quietude dos extensos dormitórios, que nos evocam preguiçosas e infindáveis sestas; a vastidão e a formusura dos claustros, tão propícias ao deambular sem cuidados; o refeitório imenso, e, sobretudo, a cozinha, a que Beckford chamou o mais distinto templo de glutonaria da Europa.
Jamais se perdoou aos frades a bem-aventurança num mundo de penitência e de sofrimento. E, em boa verdade, no pecado da gula, os bons frades bernardos de setecentos em muito excederam aquela medida que se permite a humanos pecadores.
Em vasto tanque, servido pela levada que atravessa a cozinha, se guardavam os mais delicados peixes de rio; cargas de caça, pilhas de legumes e de frutas de infinitas variedades, montes de farinha e de pães de açúcar, montanhas de pastelaria e de folhados viu Beckford, no fim do século XVIII, nessa monumental ucharia.
À mesa do Abade serviam-se infindáveis banquetes, onde figuravam, a par de iguarias raras, vindas do Brasil e da Ásia, os manjares mais apurados, laboriosamente concebidos pelos mestres de cozinha do Mosteiro para o farto passadio abacial. E a quantidade não ficava atrás da variedade. No almoço fradesco que o Marquês de Fronteira e d’Alorna presenciou, em 1824, as rações de cada religioso eram espantosas, e o vinho servia-se em copos que levariam meia canada.
Daí provinham a exuberância adiposa, os rostos corados e oleosos, aqueles bojudos ventres que as pregas do hábito mal disfarçavam; a perpétua sonolência, o desamor pelo trabalho e pelo estudo, e essa boçalidade e ignorância que fizeram cair sobre os religiosos da Ordem as mais irreverentes e cruéis ironias. Mas no seio dessa Ordem, cumpre dize-lo, ainda no século anterior avultavam homens como Frei António Brandão, a quem Herculano chamou, uma das mais nobres inteligências que Portugal tem gerado.
E de tal modo se liou no espirito dos monges a noção de gordura, à de santidade, que nas obras da estatuária dos frades barristas de setecentos, jamais se nos depara uma figura asteca, angustiada pelos problemas da salvação eterna, com a magreza que acarretam os jejuns e os cilícios, as rudes provações da observância religiosa.
Gordos anjos, fartos, rotundos, enormes, povoam o altar da morte de S. Bernardo; no rosto dos apóstolos do antigo altar-mor, no dos mártires e santos da Ordem, nalgumas imagens de santos e santas do relicário, e até (estranha ironia ou piedosa complacência!) na própria cara do diabo transparecem as doçuras da vida bem vivida…
E podemos censurar, porventura, que na memória dos homens mais perdurassem as demasias, do que as virtudes fradescas?
Como foi diferente a vida nos primeiros séculos! Naqueles tempos, escreve um cronista do Mosteiro; qualquer monge de Alcobaça era um varão seguidor desse caminho estreito que leva em direitura ao reino dos céus.
Então os frades, homens sábios e virtuosos que viviam entre a oração e os rudes labores agrícolas, conquistavam o pão com o seu próprio trabalho, através de suores e de fadigas: propriis manubis et sumptibus, como preceituava a regra de S. Bento.
E assim foi durante quase duzentos anos, do meado do século XII ao primeiro quartel do século XIV, durante os quais a agricultura, até então mister desprezível de escravos, se dignifica e sublima. Pela ciência e pelo trabalho dos monges, a brenha hostil, couto de ursos, de lobos e de javardos, transformou-se em pomar ou em vinhedo, e fartas searas ondeiam na charneca desbravada. Cede o brejo o lugar a ubertosa campina; escalam o serro agreste pingues e formosos olivedos. Povoam-se de vilas e de casais os extensos ermos; e, na pequenina igreja das paróquias, pela primeira vez os sinos repicam festivamente em louvores a Deus. Já a água dos ribeiros trocou a descuidada ociosidade pelo labor útil de moer o grão; nas improvisadas ferrarias trabalhava-se o ferro e forjam-se as ferramentas agrárias; retoiçam alegres rebanhos em fartas pastagens, sob o olhar carinhoso e vigilante dos monges pastores.
E o vasto deserto, o ermo selvoso de outrora, transforma-se num dos torrões mais fecundos da terra portuguesa.
O Mosteiro de Alcobaça nasceu em Portugal. Ao lado dos monges guerreiros, cavaleiros e homens de armas, esforçados pelejadores que conquistaram, palmo a palmo o território da Pátria, e vezes sem conto o defenderam da cobiça de cristãos e de infiéis, estes monges pacíficos, propulsores infatigáveis do desenvolvimento agrícola, que lavram campos regados pelo sangue das batalhas, entre as devastações e as ruínas do incêndio e do saque, assumem também a nossos olhos a estatura gigantesca de construtores de uma nacionalidade.
Chamei-lhe Monges Agrónomos. Porque não monges agricultores, ou mais simplesmente, e adoravelmente, homens bons, boni homines, como nos antigos documentos? Porque a agricultura era já, nesses tempos recuados, uma verdadeira ciência nos mosteiros cistercienses e beneditinos. O arado ficava bem junto à cruz. Ele simbolizava igualmente a redenção do homem. As quinhentas abadias espalhadas pela Europa, no meado do século XII, constituíam outros tantos centros agronómicos onde se acumulava a ciência da época, essa ferramenta que havia de arrancar à escravidão os rudes servos da terra.
E ainda que escasseiem, infelizmente, documentos escritos que nos permitam avaliar com justeza o nível da agronomia cisterciense nos séculos XII e XIII, afigura-se-nos que a obra realizada em Alcobaça, tão rápida, tão segura, tão eficiente, constitui o melhor testemunho de que estes religiosos aliavam à visão clara dos grandes problemas agrários, sólidos conhecimentos teóricos e práticos da arte de cultivar a terra.
E essa ciência, esse avultoso cabedal de saber, não era apenas fruto da direta experimentação, do lento aperfeiçoamento de práticas tradicionais. Nunca os irmãos conversos, que ajudavam os servos no trabalho mais rude, seriam capazes, só por si, de realizar, em tão pouco tempo, obra de tal vulto.
Documentos da época revelam que as granjas eram governadas por Mestres, e estes seriam os verdadeiros propulsores e orientadores do fomento rural. Não lhes faltava, por certo, o apoio dos monges eruditos e estudiosos que amorosamente reuniam em preciosos códices os monumentos da ciência agronómica das passadas civilizações.
Ouviriam da boca dos peregrinos, ou dos monges vindos das enumeras abadias espalhadas pela Europa, a narração das práticas usadas em distantes países. Mas bastariam as peregrinações a Roma para que os monges pudessem apreciar e estudar, durante tão morosas viagens, os métodos agrícolas dos outros povos, e daí trariam sementes e plantas com o fim de tornar o cultivo dos seus campos mais perfeito e mais rendoso. Por fim, a casa-mãe, Cister, acompanhava espiritualmente o labor dos seus filhos.
Cultores das ciências e das letras, estes monges que viviam da agricultura não ignoravam as obras de Demócrito, de Xenofonte, e sobretudo de Teofrasto, onde se tratam já questões de biologia arbórea. Tudo indica também que lhes eram familiares os famosos tratados de Catão, Varrão, Columela e Paládio, os luminosos escritores rei rusticae, e que hajam lido, enlevados, o enciclopédico Plínio. E quase me atrevo a afirmar, tanta poesia transcende da sua obra admirável, que estes monges, à luz de bruxuleante candeia, deleitosamente decorariam as Geórgicas nos seus longos serões do inverno…
Podemos crer que lhes eram familiares os monumentos agrícolas da antiguidade, e até que tivessem no mais alto apreço a obra dos agrónomos árabes, apesar de provir de inimigos de raça e de crença. Recordemos que no século XII maravilhavam o mundo cristão as hortas e os jardins de Sevilha, de Córdova e de Granada, e que os agricultores sarracenos tinham elevado a considerável perfeição algumas das mais importantes práticas agrícolas.
Não podiam, pois, desconhecer o remoto tratado da agricultura nabateia, de Ibn-al-Vahschiad, e sobretudo a preciosa enciclopédia de Ibn-al-Awan, esse agrónomo sevilhano que profundamente estudou os escritores gregos e latinos, e cuja obra, pela variedade e valor dos conhecimentos que encerra, ainda hoje merece ser lida.
Pode parecer inútil, porventura, tão copiosa erudição para a simples conquista do sustento através de suores e de fadigas, e de tão honesto e frugal passadio, em suma, como aquele que a Regra prescrevia aos seus monges. A tarefa, porém, era muito mais vasta e dificultosa.
Pretendia-se povoar as vastas terras doadas, atrair e fixar os colonos, agricultar esmeradamente e intensivamente um território de quase meia centena de milhar de hectares. E isto quando o atraso, a intranquilidade dos tempos e a escassez da população sobretudo favoreciam a agricultura nómada e a vida pastoril.
Exigia-se, pois, o granjeio continuado do solo, que envolve questões complexas de rotação de culturas e de fertilização da terra; reclamavam-se conhecimentos importantes de agrologia, de climatologia, e das exigências das plantas cultivadas. Impunha-se a utilização de uma flora variada para acorrer à alimentação dos homens e do gado. E era necessário ainda que o colono ganhasse amor à terra, e a agricultasse bem e fielmente: bene et fideliter, como estatuíam os primeiros forais.
Havia que fabricar as ferramentas agrárias, e para elas extrair e trabalhar o ferro; havia que construir estábulos, assegurar o desenvolvimento dos rebanhos, abrir vias de comunicação, drenar os brejos e os pauis, corrigir os caudalosos ribeiros que no inverno assolavam as várzeas mais férteis.
Esta tarefa precisava de conhecimentos copiosos e variados, da visão nítida dos problemas agrícolas e da economia rural, da técnica segura que se não improvisa, e até daquele atilamento e prudência na governação que se impunham à estima e ao respeito dos colonos.
O alto nível da ciência agronómica dos Monges de Alcobaça e a sua hábil política agrária evidenciavam-se no confronto com as terras das ordens militares, das honras dos barões e ricos homens, e até dos reguengos do rei, no centro e sul do País. Aqui, a agricultura sem ciência nem consciência: sobre a cinza da queimada lança-se a semente à terra, empobrecida pela viciosa cultura extensiva e exclusiva de cereais. Pastam rebanhos em charnecas desertas e brenhas impenetráveis se estendem por léguas sem fim. Protegem-se as feras para desenfado dos nobres, enquanto o servo da gleba continua na dependência do imunista, segundo as formas mais primitivas da escravidão da terra.
Mas para que se possa apreciar com justeza a obra realizada pelos monges de Alcobaça, tem interesse rápida apreciação do estado do território cisterciense no meio do século XII, quando chegam os primeiros religiosos e se instalam na abadia velha, mandada construir por D. Afonso Henriques.
Seriam as vastas terras completamente despovoadas no tempo em que se fundava o Mosteiro, como pretendem Fr. Bernardo de Brito e Fr. Fortunato? Existiriam núcleos dispersos de povoadores, que já as habitavam e cultivavam, como quer Fr. António Brandão, baseado na tão discutida carta de D. Afonso Henriques?
Não iremos reviver aqui as apaixonadas discussões do século passado. Bastar-nos-á o testemunho insuspeito de Herculano: Fundou-se nesta época (1153), escreve o ilustre historiador, um mosteiro, o de Alcobaça, que veio a ser o mais célebre de Portugal, e a cujos monges se devem sucessivamente a cultura de uma extensa parte da Estremadura, a qual até aí fora uma vasta solidão e por muito tempo servira de campo neutro entre cristãos e sarracenos.
Ainda que as colónias romanas, nas terras de Alcobaça, hajam atingido apreciável prosperidade, esta não sobreviveu à longa dominação sarracena. No segundo quartel do século XII, o território compreendido entre os castelos de Leiria e de Óbidos sofre correrias incessantes. O incêndio, o saque, a ruína, juntos à doença e à fome, dizimariam ou afugentariam a população, e ficam ao abandono as terras porventura cultivadas. Em 1140, Leiria é destruída pela segunda vez em curto espaço de tempo; trinta e tantos anos depois da instalação dos monges, o tirano Miramolim invade as terras de Alcobaça, degola os frades e saqueia o Mosteiro.
Podemos acreditar que a agricultura local, no meado do século XII, estava circunscrita a reduzida área em volta dos castelos de Alcobaça e de Alfeizerão, onde se refugiriam os escassos habitantes que não quiseram ou não puderam partilhar a sorte do dominador vencido.
Em tais condições, não deve surpreender que a dominação sarracena não nos deixasse vestígios que possam atestar progresso agrícola equivalente ao do sul e leste da península.
Mas nem só o período acidentado que antecedeu a instalação dos monges explica a incultura da região; podemos acreditar também que as nossas terras nunca interessaram os sarracenos. O árabe foi, sobretudo, um agricultor de planícies, prodigioso técnico de hidráulica agrícola, um feiticeiro das hortas e jardins magnificentes. E as terras de Alcobaça não lhe podiam oferecer então a matéria-prima necessária a tais prodígios.
Escalvada e árida, erguia-se ao nascente a Serra dos Candeeiros; ao poente cobria o mar os campos do Valado e da Maiorga. Entre estes dois limites, apenas uma faixa estreita, selvosa, onde pequeninos ribeiros, raros e delgados fios de água, se escondem sob os silvedos para fugir, durante a canícula, ao beijo ardente e mortal do sol.
Esta ganga grosseira ocultava um diamante magnífico, que viria a ser uma das mais formosas joias do Portugal nascente; mas só os monges cistercienses o facetaram e poliram.
E foi gigantesca essa tarefa. Tenha-se em atenção a intranquilidade dos tempos, o labor exigido pelos trabalhos ásperos de desbravamento das vastas terras doadas, senão também a escassez de população rural, o seu atraso e rudeza, e quanto seria dificultoso incutir-lhe hábitos de trabalho e de disciplina por métodos puramente cristãos.
Ruínas e incêndios testemunhariam as lutas recentes; não longe ecoava ainda, como temerosa ameaça, o fragor das batalhas. Revestia as colinas essa vegetação espinhosa e agressiva, tão característica da flora mediterrânea-atlântica; charcos e pântanos cobririam então as veigas mais ricas.
Instalados na abadia velha, e ao mesmo tempo que se erguia o majestoso tempo, começam os monges a arrotear os campos. No começo do século XIII, quarenta e tantos anos depois da sua chegada, diz-nos Fr. Fortunato de S. Boaventura, os religiosos já haviam desbravado a maior parte das terras que ficavam até uma légua de distância do Mosteiro.
Mas o cultivo de tão extenso território exigia avultoso número de braços, e aplica-se uma hábil política de povoação, graças à qual, no dizer do cronista, se desenvolveu rápida e maravilhosamente a população dos Coutos. Dão-nos aos colonos as maiores regalias, incluindo a posse da terra depois de certo número de anos de cultivo, e variável conforme a sua maior ou menos fertilidade. Nos sítios menos férteis ou mais inóspitos colocava-se o marco do couto, a que se abrigavam os criminosos perseguidos pela justiça, e ai se constituíam, com o tempo, pequenas colónias de agricultores.    
Em lugares escolhidos com superior discernimento instalam-se as Granjas e Quintas do Mosteiro, que vêm a ser verdadeiras escolas agrícolas, ou explorações rurais modelo, onde os monges habitam e trabalham e são, disse Rebelo da Silva, mestres e exemplos vivos dos preceitos rurais. Destes seminários saem experientes agricultores que levam a toda a parte os mais aperfeiçoados métodos de cultivo. Erguem-se a pouco e pouco as Vilas dos Coutos, e no meado do século XIII instituem-se as primeiras paróquias.
Apenas pelas Cartas de Povoação, onde se contém a rudimentar legislação agrícola das terras de Alcobaça nesse tempo, podemos avaliar a importância da obra realizada.
Rudes tempos esses; mas que singela e adorável legislação! Aí sobressai, através de recomendações infinitas sobre o esmerado granjeio, o amor à terra, tão laboriosamente agricultada.
Na grande maioria dos casos, os monges entregavam aos colonos o terreno cultivado por suas próprias mãos, e as Cartas referem-se a olivais, vinhas, pomares e hortas já feitos; noutros casos, impunha-se ao colono a obrigação de romper o que houver de romper, cada um segundo as suas posses. Mas, aqui, os mestres agrónomos guiariam os colonos na escolha das culturas; de harmonia com a aptidão dos terrenos; indicariam as rotações mais convenientes para não enfraquecer a fertilidade do solo; delineariam os trabalhos de drenagem, ou de irrigação, porventura necessários; ensinariam a podar e a enxertar as espécies lenhosas, e todas as práticas, enfim, do mais perfeito cultivo.
O Mosteiro dava ainda ao agricultor as ferramentas agrárias, fabricadas nas suas ferrarias, emprestava as sementes, que recebia sem acréscimo na época da colheita, e, como senhor das águas e dos ventos, tomava a seu cargo a construção dos moinhos, e dos lagares de vinho e de azeite.
Depara-se-nos também em quase todos os forais esta cláusula importante: que os povoadores sobreditos possam talhar madeira para suas casas fazerem, e para suas cubas, e para outras cousas que foram mister. Regalia valiosa, se atendermos às severas restrições que a instituição das coutadas impunha ao corte de arvoredo nos domínios das outras ordens religiosas, nas terras senhoriais e até nos reguengos do Rei.
Depois de alguns anos de cultivo, a terra ficava a pertencer ao colono: 10 anos, por exemplo, nas veigas mais férteis da Maiorga e de Aljubarrota; 6 anos, nas de Turquel; 3, nos terrenos de S. Martinho do Porto, areolas pobres e de magro rendimento.
Mas veja-se ainda esta hábil e justa política tributária: Se o terreno era arroteado pelo colono, o imposto a pagar ao Mosteiro aumentava com o acréscimo anual da produção, como se verifica na seguinte cláusula da carta da Cela Nova: Porém esses agricultores são obrigados a romper, cultiva e frutificar esses herdamentos bem e fielmente; e dos que novamente romperem, e da bravia até há oito anos inculta, paguem no primeiro ano a oitava parte, no sétimo a sétima, no sexto a sexta, no quinto a quinta, no quarto a quarta, e daí por diante paguem a quarta parte.
As prescrições quanto ao cultivo revestem-se de adorável simplicidade. Lê-se, por exemplo, na Carta de Povoação de Turquel: e devem conservar o mesmo olivedo, e plantar o que houver de plantar com qualquer enxertia, e semear e cultivar bem e fielmente, e cercar o mesmo olivedo com valado ou muro que não possa ser danificado e destruído pelos gados, e se assim o não fizerem, aquele que for achado culpado e negligente perca a parte que aí tive. E ainda, no mesmo foral: no tempo do recolhimento ou da ceifa, devem eles mesmo com seus homens e com suas famílias, bem e fielmente ceifar o pão… Ou ainda, no foral da Maiorga: E vós deveis aos dez anos vingar o dito herdamento, morando-o continuamente com vossas mulheres e cavando-o e frutificando-o e plantando vinhas e olivais e pomares e rompendo bem e fielmente cada um as courelas que lhe forem assinadas. Os próprios monges davam o exemplo: A carta de povoação de Turquel revela-nos que ainda no princípio do século XIV eles pastoreavam os rebanhos: que o Mestre de Turquel e os frades que aí assistem e guardam as ovelhas e outros animais nossos possam no sobredito terreno fazer suas casas.
Por isso, a indolência e o desleixo não tinham perdão nas terras de Alcobaça: E se algum desses moradores, diz o foral de Cós, vagando por sua preguiça ou malicia desampararem por algum modo negligentemente esse herdamento, deem a nós o nosso foro assim como dão os seus vizinhos a sua parte.
Já então se combatia a tendência para o acréscimo descomedido da propriedade individual, sem a valorização da terra pelo trabalho, tendência que havia de transformar-se, nos séculos seguintes, num dos maiores flagelos da agricultura portuguesa. Ainda na Carta de Cós encontramos esta cláusula: E se algum não quiser ou não puder lavrar todo o seu casal ou parte dele, dê-o a quem o lavrar de tal maneira que o dito Mosteiro haja completo todo o seu direito, e se o fazer não quiser, dê-o o Abade ou seu Procurador a quem o lavre e faça nele prole.
Os frades favoreciam a policultura, não só reclamada pelas necessidades do tempo e pela economia rural, senão imposta pela diversa constituição dos solos e como defesa contra as inclemências do clima, então mais para temer do que hoje. Cultivavam-se os cereais, muitas leguminosas, o linho e plantas hortícolas. Às vinhas, pomares e olivais encontra-se, amiúde, referência nas cartas de povoação, o que mostra o especial carinho que os monges lhes dedicavam.
Embora o colono ficasse na posse da terra, decorrido certo número de anos, só poderia vender a tal homem que a more e haja forças e poder de a lavrar bem e cumpridamente. Mas a boa ordem dentro do Coutos exigia ainda outras curiosas restrições ao direito da propriedade, e neste particular os frades não hesitavam em medir pela mesma bitola de idoneidade: clérigos, religiosos, sarracenos e judeus.
Assim, o colono não podia nem vender, nem emprazar, nem dar, nem doar, nem empenhar, nem trocar, nem emprestar, nem de outro modo alienar as terras a clérigo, militar, pagem de armas, ou religioso, ou sarraceno, ou judeu, nem a outra pessoa qualquer por que possa o Senhoria do Mosteiro e as suas rendas ser minguadas ou embargadas. Nesta lista negra, como hoje lhe chamaríamos, figuram ainda, noutros forais, ou cavaleiros, as ordens religiosas e até, por graves razões decerto, as próprias donas de linhagem.
Por modestos, e sabiamente e equitativamente distribuídos, de acordo com a produtividade, valor dos terrenos, natureza das colheitas e riqueza do colono, os impostos, tributos, rendas ou foros cobrados pelo Mosteiro estavam longe de oprimir os agricultores. Este facto ajuda a explicar a rápida povoação das terras de Alcobaça e a sua prosperidade crescente. A agricultura de então, apesar da rudeza dos tempos, não era ainda a arte laboriosa e difícil de se empobrecer pelo trabalho.
Visto através da neblina dos séculos, que esconde os dramas, as angustias, e as pequeninas imperfeições e misérias da obra humana, esses tempos revestem-se da mais enternecedora poesia: Monges piedosos, ardorosamente, fazem brotar da terra pão; uma Rainha, e Santa, transforma o pão em rosas…
Mas ao mesmo tempo que se realiza a prodigiosa transformação das terras de Alcobaça, os monges defendem carinhosamente a sua obra, e procuram alcançar regalias que projetam a prosperidade nascente. D. Pedro isenta os caseiros dos Coutos de pegarem as armas e irem à guerra, atendendo ao fim a que miravam: o desbravamento das terras e o progresso da agricultura; e este privilégio, conformado depois por D. João I e D. Afonso V, permitiu que os braços mais vigorosos não abandonassem a enxada ou o arado. Os povoadores dos Coutos estavam isentos por D. Denis de pagarem jugada. Ainda D. Afonso V, confirmando um antigo privilégio daquele Rei, dispensa os caseiros de Alcobaça de terem armas e cavalo, e do reparo das fortalezas.
As terras de Alcobaça, disse Rebelo da Silva, haviam de contrastar, pelo seu cultivo, com as propriedades imensas das ordens militares e das igrejas, que constituem exemplos deploráveis de incúria injustificável.     
E assim se explica o alto apreço em que era tida, na época, a ciência agronómica dos Monges de Cister. As doações dos primeiros reis ao Mosteiro, mais do que intuitivos piedosos, evidenciam claro propósito de utilizar seus vastos conhecimentos.
D. Sancho I, em 1195, entrega-lhes o paul da Ota, e quarenta e tantos anos depois já ali existia uma povoação considerável. Os campos de Valada e Salvaterra são entregues também aos monges, e D. Afonso II lega-lhes o reguengo de Aramenha, perto de Marvão, que tinha sido demolido na guerra contra os mouros. D. Afonso III faz-lhes doação do seu reguengo de Beringel, cujos povoadores recebem a carta de foral 14 anos depois.
No tempo de D. Dinis, enxugam o paul do Ulmar, no termo de Leiria, e este rei, agricultor e sábio, que em tanto apreço tinha o virtuoso labor dos cistercienses, encarrega-os de dirigirem a fortificação de praças e castelos, e até da administração de alguns celeiros.
Não constitui, todavia, a agricultura preocupação exclusiva dos monges dos primeiros séculos.
Também eles impulsam a indústria. Vimos como extraíam e trabalhavam os metais; criam no Mosteiro oficinas de diversas artes; aproveitam a energia hidráulica e constroem moinhos e lagares.
Mas, a par disto, as avultadas esmolas que se distribuem na portaria, o hospital onde se tratam os doentes pobres, o auxílio aos agricultores nos anos de mais minguadas colheitas, mostram-nos como eles exerciam modelarmente a caridade cristã. E sabemos também que não descuraram a sua alta missão civilizadora. O Abade D. Fr. Estevão Martins funda ali, em 1269, as primeiras escolas públicas de Portugal. É ainda a um abade deste Mosteiro que se deve em grande parte a criação da Universidade.
Depois do meado do século XIII, diz Fr. Fortunato, desbravadas e entregues à cultura e aos respetivos povoadores as terras dos Coutos, os monges, já ricos, deixam de agricultar a terra. E acaba verdadeiramente aqui a história dos Monges Agrónomos.
Mas a lição magnífica destes varões timoratos e discretos, de quem o cronista disse: bem se conhece que só tinham figura humana, e em tudo o mais eram santos perdura talvez até ao meado do século XIV. 
As Quintas e Granjas do Mosteiro continuam a ser explorações agrícolas modelo, onde se aperfeiçoam os métodos culturais, se ensaiam novas práticas, e se experimentam novas espécies e variedades de plantas. São as escolas agrícolas, de primoroso granjeio, lição viva e edificante, estímulo permanente para o aperfeiçoamento da técnica cultural. Assim foram as Granjas da Cela, Vimeiro, Maiorga, Turquel, Santa Catarina, Bárrio e Évora, nalgumas das quais ainda hoje podemos ver os vestígios da previdência fradesca.
Mais tranquilo o país, florescente o estado das terras, monges e colonos gozam o fruto do seu labor. E ao contemplarem os casais que alvejam entre a verdura, os férteis e bem cultivados campos, a vegetação ridente dos vinhedos e dos pomares, todas as promessas, enfim, de aprazível e abastado viver, com que gratidão estas almas simples e piedosas louvariam a bondade infinita de Deus!
Mas não deviam durar muito as pacificas relações entre o Mosteiro e os povoadores dos Coutos. No último quartel do século XIV entra para o abaciato de Alcobaça D. Fr. João Dornellas, o abade mundano e político, e pronto desaparece a simplicidade adorável da vida monástica, onde ainda transluziam as altas virtudes de S. Bernardo. Amargamente, os colonos conhecem então aquilo a que é hoje costume chamar uma ordem nova.
Capitães e homens de armas acompanham o Abade quando sai do Mosteiro, e servem-no, para maior esplendor da sua dignidade, criados e escudeiros de nascimento ilustre. Os povoadores dos Coutos são agora perseguidos com impostos e extorsões; o próprio Abade desce a fazer justiça por suas mãos, e obriga a pagar à força os menos prontos ou mais recalcitrantes. Desbaratam-se as rendas em requintes de luxo, em obras na igreja e na abadia, e em largas dádivas para atrair a benevolência dos poderosos.
Constituem documento impressionante as queixas apresentadas a D. João I pelos povos de Évora e de Turquel: Numa segunda-feira de madrugada, narra um dos capítulos, o abade chegou a Évora, onde as gentes jaziam nas suas camas; e por sua pessoa andou lançando fora das casas as mulheres que então se levantavam não vestidas com os meninos nus, fechando-lhes as portas, e tomando-lhes as chaves… até que pagámos quando ele mandou. Queixa-se o povo, noutro capítulo, de que o Abade manda prender os juízes, como as outras justiças, logo que não façam quanto ele manda… e estes são presos e levados por seus homens ao castelo do dito Mosteiro, e manda-os deitar por cordas a um dos fossos das torres, e outros manda lançar em aljube onde não há sol nem lua, com muito grande crueza e sem nenhuma caridade.
Este tardio feudalismo, depois de séculos de límpido entendimento e de fecundo trabalho em comum, dolorosamente impressionaria o povo dos Coutos, e muitos campos ficam ao abandono pela emigração dos colonos.
A vida até então privilegiada do agricultor das terras de Alcobaça desce ao nível lamentável da do agricultor do resto do pais, quer se trate dos reguengos reais, das honras dos nobres, das terras dos concelhos, ou dos coutos de outras ordens religiosas. Evidencia-se já a tragédia da agricultura portuguesa, bem patente nos capítulos gerais das Cortes do reinado de D. João I e dos reinados seguintes.
Para corrigir os abusos desmandos dos abades perpétuos, D. João III passa o governo do Mosteiro para os administradores seculares, e a estes fez seguir o Cardeal D. Henrique aquilo a que um cronista chama a peste dos comendatários
O Mosteiro possui agora dois Abades: Um, eleito trienalmente pela comunidade, simples e apagada figura, tem a seu cargo a administração interna da abadia; outro, o abade comendatário, possui a jurisdição real e arrecada quase todas as rendas. E estes prosseguem nas terras dos Coutos com a mesma política de violências e de extorsões; os próprios religiosos, no dizer do cronista, ficam reduzidos à mais extrema miséria.
Às questões internas do Mosteiro, que se desenrolam durante mais de século e meio, de 1475 a 1640, e às repetidas queixas do povo dos Coutos, juntam-se outros cuidados e atribulações. As terras e rendas do Mosteiro de Alcobaça constituem apetecida presa. Havia que defendê-las da cobiça dos nobres e das ambições das outras ordens religiosas, e até da pródiga generosidade dos reis, sempre prontos a pagar serviços a seus válidos à custa dos bens cistercienses.
D. João IV aboliu os comendatários, e dá aos abades trienais todas as regalias que estes usufruíam antes de D. João III; mas fracos benefícios trouxe tal mudança à população das terras do Mosteiro. As rendas da abadia já não chegam para as despesas consideráveis das grandiosas obras e para o faustoso viver monástico, que atingem todo o esplendor na segunda metade do século XVIII. Um ou outro abade mais empreendedor tenta restabelecer a prosperidade perdida e destruir o crescente antagonismo entre o Mosteiro e a população dos Coutos, que por vezes assume aspetos graves. Mas as dificuldades aumentam depois das invasões francesas e das suas criminosas devastações. E daí até que, em 1833, os frades abandonam pela última vez o Mosteiro, foi uma curta agonia, com todas as misérias do crepúsculo da vida.
Quais foram os reflexos, na vida agrícola de Alcobaça, da lamentável política seguida desde o século XV ao XIX?
A primorosa organização inicial, a solidez das bases em que assentou a povoação das terras e a fixação do homem ao terreno cultivado, e o adiantamento agrícola atingido até ao fim do século XIV, permitiram que tão longo período fosse atravessado, com dolorosas provações e cruéis vicissitudes, é certo, mas sem que se destruíssem os fundamentos da grande obra realizada.
Embora, através dos tempos, as quintas, cercas e granjas da abadia continuem a ser modelos de progressivo e inteligente granjeio, o Mosteiro só parece interessar-se, verdadeiramente, pela sorte dos agricultores, quando os infortúnios ou o desânimo destes obreiros ameaçam as rendas e os impostos. Curtos períodos de desafogo assinalam a passagem de abades mais previdentes e esclarecidos; mas é talvez na segunda metade do século XVIII, já quando nuvens negras ameaçam a vida da própria Ordem, que tardiamente se procuram reviver as nobres tradições dos primeiros Monges Agrónomos. Eram os derradeiros clarões de uma lâmpada que se extingue.
Plantam-se os grandes olivais da Serra dos Candeeiros, transforma-se a Quinta de Vale Ventos, junto a Turquel, numa formosa granja, com seu apiário que produzia o mais claro mel de Portugal, e alinhados olivedos e pomares de laranjas e de limas.
Ao Abade Fr. Manuel de Mendonça, primo do Marquês de Pombal, deve-se o enxugo dos campos de Famalicão, Alfeizerão, Valado e Maiorga, trouxeram considerável acréscimo de riqueza ao domínio fradesco; e a esses novos terrenos, escreveu meu Pai, para os quais eram necessários processos de bem diversa cultura, levou o Mosteiro todos os segredos indispensáveis, todas as sementes que oferecessem mais larga colheita.
E quando o Prior de Avis, em 1794, perguntou aos agricultores da região quem lhes havia ensinado a lavrar as terras com tal esmero, adubar com tanto discernimento, a obter tao abundantes colheitas a poupar o gado a todo o trabalho excessivo, - ouviu, diz-nos Beckford, esta resposta pronta e uniforme: Foram os nossos indulgentes senhores e bondosos amigos, os monges de Real Mosteiro.
Já nos séculos anteriores o esmerado cultivo dos pomares cistercienses havia levado aos confins de Portugal a fama das frutas de Alcobaça; mas é ainda no século XVIII que esta cultura atinge a maior perfeição, e todos sabemos que aos monges da época não eram estranhas as maravilhas pomológicas de Versalhes.
A cultura da laranjeira e do limoeiro ocupava então área apreciável em Évora, Cela, Alcobaça, Vimeiro, Aljubarrota; e até os terrenos secos e pedregosos do jurássico, em Turquel, Benedita e Ataíja, produziam nesse tempo deliciosas laranjas. A cultura das outras espécies fruteiras adquire grande desenvolvimento, e a viticultura atinge um esmero não igualado pelos mais afamados centros vitícolas do mundo.   
Ainda no princípio no século XIX, já na decadência da Abadia, o Marquês da Fronteira e d’Alorna descreve-nos assim a cerca do Morteiro: Tudo ali se via reunido: um jardim com mimosas flores, um pomar de laranja perfeitamente alinhado e tratado com todo o desvelo, dando laranjas que tinham reputação no país, diferentes pomares de todas as qualidades de frutas, que, como se sabe, têm grande reputação, sendo anunciada a fruta de Alcobaça como primorosa, uma extensa e boa vinha… e magnificas hortas.
Este esmerado granjeio se observava em todas as Quintas do Mosteiro. Já, porém, eram outros os tempos. E o fim inevitável de todas a obra humana aguardava também aquela a que as crónicas chamaram a Real Abadia de Santa Maria de Alcobaça, e que fora no mundo um dos mais celebrados e opulentos institutos religiosos do seu tempo.
Depois que o último monge abandonou o Mosteiro, decorreu até hoje pouco mais de um século. E, perguntar-se-á: Que ficou dessa dominação que durou setecentos anos, das belas tradições dos agrónomos cistercienses?
Foram os monges dos séculos XII e XIII que estabeleceram as diretrizes por que se tem guiado a agricultura regional até aos nossos dias. Os olivais, os pomares, as vinhas, tão amorosamente protegidos nas primeiras cartas de povoação, constituem hoje ainda uma das maiores riquezas das terras de Alcobaça. Este culto pela árvore, da mais pura tradição da agronomia latina, pois já Plínio olhava a árvore como a mais preciosa dádiva dos deuses, sobrevive no povo, numa visão clara de que as condições agroclimáticas obrigam a colocar em primeiro plano as espécies arbóreas e arbustivas.
Devem-se aos monges o incremento da cultura da vinha e o seu aperfeiçoamento técnico; devemos-lhe também o enorme desenvolvimento da olivicultura na região. Os extensos e formosos olivedos que sobem pelas bancadas calcárias da Serra são de iniciativa do Mosteiro. A técnica oleícola foi elevada à maior perfeição no seu tempo: ainda vi, na infância, o monumental lagar dos frades, na Ataíja, tal como era, por certo, nos tempos passados. A enorme construção brasonada, que atestava o poderio da Ordem, obedecia aos mais exigentes preceitos da técnica oleária.
Introduziram os monges na região a cultura dos citrinos, e tão amorosamente que ao pomar de laranjas se ficou chamando jardim; e, com tal acerto, que os derradeiros laranjais dos nossos duas, que produzem os mais apreciados frutos, se encontram nas antigas quintas do Mosteiro. Desses pomares, infelizmente perdidos, se exportavam anualmente, no meado do século passado, muitos milheiros de laranjas para o Brasil e Inglaterra. Já no nosso tempo, ainda saíam pela barra de S. Martinho do Porto, para Lisboa, Algarve e África do Norte, avultadas quantidades de fruta da região.
Deploremos que, em muitos aspetos, não soubéssemos conservar a riqueza criada, nem se aproveitassem, como convinha, as imensas possibilidades que a iniciativa fradesca nos abriu. Assim, da trilogia regional: Azeite, Frutas, Vinho, acertadamente imposta pelos monges às terras de Alcobaça, não substituímos, com a amplitude que os modernos recursos consentem, os velhos pomares que tanto ilustraram a agricultura regional dos passados séculos. Nos nossos olivais não chegámos, sequer, à perfeição de cultivo que ensinavam, há dois mil anos, os agrónomos latinos.
Devemos ao Mosteiro a fertilidade das campinas da Cela, Alfeizerão e Maiorga; foram ainda os monges, como diligentes silvicultores, que salvaram da ruína certa as famosas matas do Valado e do Vimeiro, as quais passaram intactas para a posse do Estado depois de extintas as ordens religiosas.
E devemos-lhe, sobretudo, uma tradição admirável e ininterrupta de perfeito cultivo dos campos, tão antiga como o próprio Portugal, dura escola de homens bons onde aprende às vezes a ser sublime, o povo amorável e simples da minha terra!
Depois de tão longamente falar do passado, eu não desejava concluir sem mostrar que a obra realizada pelos cistercienses não tem apenas interesse histórico. Nem só lhes devemos a prosperidade; deixaram-nos também uma lição.
Como há oito séculos, nas terras de Alcobaça, hoje, nas terras de África, imensos territórios precisam ser valorizadas pelo trabalho e pela inteligência do homem. Ali, também, há que polir e facetar um diamante magnífico.
E eu creio firmemente que, para essa obra urgente e grandiosa, encontraremos na técnica colonizadora dos monges de Alcobaça admirável incentivo. O recurso confiado aos mais avançados conhecimentos agronómicos da época para valorizar o seu pequenino império, a arte de conseguir a fecunda fixação do colono à terra, a assistência constante e modelar através das escolas e granjas para promover o adiantamento agrícola, reunidos a uma hábil e sã política agrária, oferecem-nos uma lição e um exemplo que talvez fosse atilado não desprezar nesta hora.

Minhas Senhoras, meu Senhores:

A
s terras de Alcobaça foram desbravadas e amorosamente agricultadas, há oitocentos anos, por monges que viviam entre o trabalho e a oração. E tão fecundo foi esse trabalho, e tão fervorosas essas orações, que a bênção de Deus desceu sobre as terras, e permitiu que através das vicissitudes do tempo, de tantos erros e desvairadas paixões, de tanta loucura e impiedade, esse trabalho se não perdesse, antes frutificasse, como que por suave milagre, para maior felicidade dos homens.
Esses primeiros monges eram agrónomos.
E eu, que tão bem conheço as agruras da profissão, ainda hoje não sei, se eles eram santos, por serem agrónomos, ou se eram agrónomos, por serem santos…   

1 comentário:

José Manuel Rei Neves disse...

No final dos anos 70 consultei 6 livros de Vieira Natividade, cedidos pela responsável da Biblioteca da altura.
Adorei revisitar esta obra.
Gostaria de ler as outras se estivessem publicadas em papel ou neste formato.
Obrigado