sexta-feira, 31 de março de 2017

EURICO ARAÚJO, PRESIDENTE DA CÂMARA DE ALCOBAÇA NA I REPÚBLICA

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Por alturas do terceiro quartel do século XIX, Augusto Pereira d’Araújo Rosa, oficial de diligências, natural do Porto, conhecido por milhafre, foi colocado no Tribunal de Alcobaça para servir como oficial de justiça.
Ao fim de algum tempo, estabeleceu-se, também, como alfaiate. 
Pessoa de ideais republicanos, levou a família a partilhar deles, nomeadamente o seu filho mais velho Eurico (nascido em Alcobaça, a 23 de outubro de 1880, registado a 10 de abril de 1881 e batizado a 12 seguinte, teve como padrinho o solicitador encartado António Caetano Villa Nova). Além deste, teve ainda mais 3 filhos, Ernesto (viria a dirigir os armazéns da Fábrica de Fiação e Tecidos e seria o Comandante do seu corpo de Bombeiros), António (comerciante de máquinas de costura e ourives) e Maria da Conceição (doméstica).
Arrojado, de confiança do Juiz do Tribunal de Alcobaça, pouco antes de se reformar ainda era encarregado de no comboio conduzir a Lisboa perigosos presos (embora com a colaboração de uma força do Quartel), para cumprirem penas em estabelecimento de segurança ou degredo.
Eurico Pereira de Araújo Rosa, em estudante, começou a destacar-se através da intervenção em círculos político-republicanos de Alcobaça, bem como pela escrita no Semana Alcobacense, onde redigia editoriais, artigos e os versos Remoques, sob o pseudónimo de X, ao lado de Pereira Zagallo, Afonso Ferreira, Raúl Proença ou Bernardo Villa-Nova, o que lhe era facilitado por também ser tipógrafo.
A causa pública esteva à frente de outros interesses, ainda que republicanos. Não admira que, em 1914, tenha sido eleito Presidente da Comissão Executiva Câmara de Alcobaça, cargo que ocupou até 1917 (sem pretender a recondução), suportando discreta e estoicamente, mesmo com prejuízo da vida familiar (por alturas do sidonismo teve de se refugiar na Alisseira, localidade perto de Alcobaça onde tinha uma propriedade), um período extremamente difícil da vida do País e da Autarquia, já que eram manifestas a penúria, as carências, pobreza e instabilidade política e social.

A Monarquia Constitucional,  tinha consagrado a separação de poderes, levando à distinção entre as funções administrativa e judicial.
A nível local, a função judicial era exercida por tribunais e juízos, totalmente separados das Câmaras Municipais. Em termos administrativos, a reforma de Mouzinho da Silveira, introduziu a figura do Provedor de Concelho, substituindo o Juiz de Fora, como magistrado administrativo. Só que, ao invés do Juiz de Fora, o Provedor do Concelho não acumulava a Presidência da Câmara com as funções de representante da Coroa. O Presidente da Câmara, órgão representativo municipal, passou a ser eleito entre os vereadores. A separação entre a magistratura administrativa e a câmara municipal continuou com a substituição da figura do Provedor pela do Administrador de Concelho. O Presidente da Câmara era o chefe do executivo municipal.
Com a implantação da República, nos termos da Lei 88, de 7 de agosto de 1913, as Câmaras Municipais vieram a ter dois órgãos, sendo um executivo (Comissão Executiva da Câmara Municipal) e outro deliberativo (Senado Municipal). O Administrador do Concelho manteve-se como o magistrado administrativo concelhio. A chefia do executivo municipal passou a ser desempenhada pelo Presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal, como foi o caso de Eurico Araújo.
Os autores e os textos nem sempre são rigorosos nesta distinção, o que por isso pode acarretar alguns erros .

Há muito a população da Vila de Alcobaça reclamava no sentido de se proceder ao alargamento da Ponte da Olaria, sobre o Rio Alcoa (esta não é a Olaria de Alcobaça, empresa de louça decorativa fundada em 1927, que encerrou na década de 1980), obra que a Câmara Municipal não tinha capacidade para efetuar por si.
Assim, foi recebido na sede do Município (8 de abril de 1914), com agrado, júbilo mesmo, um telegrama do Deputado Afonso Ferreira, comunicando a concessão de uma verba de 2.100$00 destinada a essa finalidade. Por outro lado, o diretor das obras públicas do Distrito de Leiria Charters de Azevedo, escreveu nesse mesmo dia a Manuel Vieira Natividade e a Alfredo Jacobetty, membro da Câmara Regional Agrícola, dando-lhes conhecimento da excelente notícia.
A Câmara não perdeu tempo, graças ao empenhamento pessoal de Eurico Araújo e, em junho, deu início às obras que iriam melhorar o aspeto estético do local e a fluidez do trânsito. Hoje em dia não restam vestígios.

Com Eurico Araújo a Câmara Municipal deliberou tratar da obtenção gratuita da Igreja Nova, aliás em bastante mau estado e sem utilidade, a fim de ali ser feita a instalação do Museu e Biblioteca municipais (o que não aconteceu) e que depois veio a ser demolida.
Também foi deliberado que, caso não seja possível a obtenção gratuita, a Câmara poderá considerar o pagamento de uma renda de valor módico que seja arbitrado e que não ponha em causa obra tão meritória.

Cessado o mandato de Presidente da CE da Câmara, Eurico Araújo continuou ligado ao Município, como Chefe da Secretaria ainda que no tempo do Estado Novo, sem que isso implicasse simpatia com este.

E. Araújo, foi agraciado a 28 de junho de 1919, pelo Governo da República, como Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, tendo sido o Presidente da República António José de Almeida, quem, em Alcobaça, lhe impôs a condecoração.
António José de Almeida, era muito estimado e considerado no meio republicano de Alcobaça, que não esquecia a deferência ao convidar Raposo de Magalhães para Governador Civil de Leiria.
No Governo Provisório, António José de Almeida assumiu a pasta de Ministro do Interior. A conversão daquele que era tido como um agitador revolucionário, num estabilizador da ordem burguesa, foi bem aceite pelos republicanos de Alcobaça, embora mal recebida por outros, que da incredulidade e desilusão iniciais passaram a manifestar-lhe animosidade.
O facto de não ter sido possível consultar o processo de agraciamento de Eurico Araújo (que se extraviou de acordo com informação da Secretaria-Geral da Presidência da República), impede conhecer as razões específicas que estiveram na origem da condecoração. Por se tratar de uma Ordem que permanece semelhante nos seus objetivos e pressupostos desde que foi reformada por Alvará de 31 de outubro de 1862, é de admitir que os méritos considerados do (ainda jovem) Eurico Araújo, tenham também sido literários ou artísticos, embora fundamentalmente político-partidários, tendo em conta que Sidónio Pais, de quem foi opositor, já não era Presidente da República. O agraciado foi músico, escritor/dramaturgo, poeta, jornalista, e ator de teatro, pioneiro na utilização de pratos decorativos em faiança de Alcobaça, com rimas fáceis de sua autoria, embora não assinadas, as quais passam por ser de poesia popular. Nos tempos livres, pertenceu ao Grupo Dramático Villa Nova, foi fundador e executante na Banda de Alcobaça, com ela saindo em todas as atuações que nunca perdia, autor da letra do Hino do Rancho do Alcoa, bem como de peças de teatro amador, representadas no Teatro Alcobacense, nas quais também assumiu o papel de ator.

A Banda de Alcobaça (que renasceu há anos), foi fundada por Eurico Araújo, João Sanches da Silva, Alberto Rodrigo Aurélio, Artur Rodrigues de Oliveira, António Martins Marques, José dos Santos Calçada, Estevão Soares Prudêncio e Joaquim Silvério de Carvalho, segundo reza a história, no dia 19 de Março de 1920.
Inicialmente era composta por cerca de vinte alunos, e hoje integra mais de quarenta elementos. A Banda (surgiu depois de desaparecidas a Filarmónica Alcobacense e a Real Fanfarra), trajava a farda à maruja, na tradição da Real Fanfarra e desfilava garbosamente pelas ruas da vila.

Por Alvará de 26 de abril de 1919, a Vila de Alcobaça foi condecorada por António José de Almeida com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor Lealdade e Mérito, em reconhecimento pela participação do seu quartel, em janeiro de 1919, no Movimento de Santarém, na defesa da República.
Este processo de condecoração também se extraviou.

Até falecer (27 de agosto de 1948), E.A./Eurico Araújo não se preocupou especialmente com protagonismos ou honras, ao que refere a família.
Nos dias que correm está algo esquecido, salvo pelo neto, Dr. Jorge Arújo que preza a sua memória, embora não se tenham chegado a conhecer.
O Juiz Dr. Silvino Villa Nova, sobre Eurico Araújo escreveu a 31 de agosto de 1986, no semanário Voz de Alcobaça, na seção Figuras Ilustres do Concelho de Alcobaça, tal como Artur Faria Borda, no mesmo jornal em 30 de setembro de 1986.





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