terça-feira, 6 de janeiro de 2009

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA


UM SARAU ROMÂNTICO EM MATADUÇOS

Fleming de Oliveira

Fomos mais uma vez a Mataduços. Em casa do Domingos e da Biquica, há calor e normalmente sol. Desta vez, o almoço, que belo lombo de porco assado foi servido pela Biquica, que nem o da Carminda ao domingo, acompanhado de entrada por um Valdoeiro, das Caves Messias da Bairrada, de que aliás só havia duas garrafas, guardadas pelo Domingos para os grandes dias, foi o aperitivo para uma soirée musical, no melhor estilo de um romântico Salão da Marquesa de Alorna, música do no coração, como é apanágio agora do Grande Auditório da Mataduços.
Teve a Família FO, o grato privilégio de assistir ao concerto de Apresentação Mundial do Trio MarTeLeo, integrado pela Mara no violoncelo, Teresa P., na viola 1 e Leonor P., na viola 2. Querem saber qual foi o Programa?
Courante 1 (correntxl)………………………………………….………….……………………….de Michael Praetorius
Courante 2 (correntxl)…………….……………………………………………………….……….de Michael Praetorius
Ut (utxeh) Re Mi Fa Sol La……….…………………………………………………………………...de William Daman
Trio in F Major…………………………….…………………………………………………………….…….de C. P. E. Bach
Sonata à 3 Dessus
Fuga………………………………………………………………………………………………………………..Antoine Dornel

O trio das meninas, [FdO1] foi acompanhado ao piano pela Profª Florence Lobo e à Flauta Tenor e Flauta Baixo pelo Prof. Pedro Bento e, muito atentamente, pelo Domingos e Biquica. A Biquica teve necessidade de prevenir, os FO’s incautos, que algumas peças apresentadas tinham vários andamentos e que só se batem palmas no fim. Mas o entusiasmo dos FO’s era tanto, que por vezes alguém se descuidava…, como a Inês.
A Família FO gostou tanto do sarau, que não se importaria nada de repetir a sessão…, mesmo sem almoço.
Ouviste Domingos ou estás distraído?
Pedi ao Domingos umas informações sobre esta reunião. Como vos surgiu a ideia?
Um belo dia, os telefones tocaram em casa dos vários membros do clã. Do outro lado da linha, a voz sempre canora da Tia Bikika, a convidar para um almocinho familiar. Mas, a que propósito?
Bom, convenhamos que para reunir a família todos os propósitos são bons. Mas… nem era Natal, nem Páscoa, nem festa de aniversário. O mistério surgiu e os alvitres foram congeminando razões para uma surpresa não adivinhada. E uma das tias arreou o acanhamento e afoitou-se: Ó Bikika, tu estás grávida?... Bom, tudo era possível e o segredinho não era para menos. Mas a gravidez era outra. De facto, a Família de Mataduços ia dar à luz …mas era um concerto… Era intérprete o trio MarTeLeo (Mara em violoncelo, Teresa e Leonor em viola de arco), com a colaboração de Florence Lobo (mãe da Mara) em piano e de Pedro Bento (marido da Florence) em flauta de bisel.


Isso foi a música. E agora o que me dizes de coisas importantes como o almocinho, Domingos?
Depois de um lombinho de porco estufado no forno, regado com uma pinga da Quinta de Valdoeiro, reuniu-se o público, como se fora a toque de campa tangida.
E o trio MarTeLeo puxou do profissionalismo que do Conservatório vai respingando e … vamos a isto, com garbo e arreganho, sem deixar créditos por mãos alheias. Por entre as arcadas dos três instrumentos de corda desfilaram, em primeiro lugar, duas pequenas peças de Michael Praetorius, com o reforço da flauta de bisel baixo. Seguiu-se Ut-re-mi-fa-sol-la, de William Daman. Finalmente, o jovem trio acrescentou ao deleite do repasto, a saborosa interpretação de uma sonata de Carl Phillipp Emmanuel Bach. Vergado à insistência acalorada dos aplausos, o promissor trio contemplou tão selecta assistência com um encore.
Eram 16.45 horas do dia 12 de Novembro, do ano da graça de 2005.



[FdO1]
A ESCOLA PORTUGUESA
A USALCOA, um caso diferente


Fleming de Oliveira


No meu tempo de menino, tinha a ideia que a Escola era agradável e até risonha, não obstante o Senhor Professor, de vez em quando, fazer um ar muito carrancudo e dar uma palmadas, com a menina dos cinco olhos.

Não sou saudosista, nem tenho por hábito recordar o passado como os bons velhos tempos, outrossim, prefiro brindar ao futuro.
Como é evidente, mesmo os bons tempos, têm alguma carga de menos bons tempos.

Quando já se viveram alguns anos, acrescentamos ao prazer de estar por cá, o óptimo prazer de rememorar o nosso crescimento.
Somos capazes de olhar o passado, de perceber um pouco o que nos moldou e descobrir a génese da nossa forma de estar.

A Escola sempre me interessou e preocupou, não só por lhe ter dedicado muitos anos como aluno, e pelos filhos, mas também por continuar a estar todos os dias presente na minha vida familiar, através da Mulher.

Cada vez tenho mais a ideia de que a Escola não pode ser estática, tem de ser tanto ou mais didática no sentido de ensinar matérias curriculares, mas de preparar para a vida, educar e instruir, dialecticamente as pessoas, de forma crítica e racional.

Estamos em Democracia, em Liberdade, e logo vem aligeiradamente à mente de alguns menos preparados, infelizmente por falta de escola, que ser livre é fazer o que se quer, que a escola é um depositório de meninos, cuja missão principal é dar-lhes um dia um canudo.

Numa Escola, tem de haver regras, deveres e direitos, princípios orientadores, sem os quais nunca será possível atingir os seus objectivos.

Se a Escola se propõe educar, instruir, estes são objectivos que dizem tanto respeito aos professores, educandos, encarregados de educação, funcionários, sociedade em geral.

Numa escola, têm de ser observados códigos de conduta, sejam eles apelidados de deontológicos ou morais.
Modificáveis é certo, de acordo com o tempo, mas sempre numa base fundamental de respeito, responsabilidade, colaboração / solidariedade.
A escola tem de ter uma entidade superior, que se poderá chamar Conselho Directivo, Reitoria ou Ministério, cuja missão é zelar pela prossecução do seu objectivo.

Quem ensina é o docente, quem aprende é o discente, o educando.
Quando a escola falha, a culpa é de todos, e assim o que era bonita escola deixa de o ser.
Os alunos não gostam de aprender, os professores não gostam de ensinar, os encarregados de educação não gostam de educar, os funcionários não gostam da escola.

A que propósito vem estas vagas considerações sobre a Escola Tradicional?
Os jovens de hoje em nada são iguais aos que o eram há cinquenta e mais anos atrás.
Mas seja em Lisboa, Porto ou Alcobaça, hoje ou ontem, continuam a ter um grande denominador comum, querem amor, sexo, carros, dinheiro, moda e sucesso/estatuto.
A sua cultura é todavia diferente, não digo que menor ou menos valiosa, mas recebem-na de forma diferente.
Até à adolescência vivi sem televisão, li mesmo à noite muitos livros uns que percebi, outros que não percebi, para os quais não estava preparado.
Mas todos eles faziam parte daquela cultura bem burguesa, que era a da minha casa, a dos meus Pais.

Esta nossa escola a USALCOA também é diferente. Aqui não entram nem os métodos antigos ou os modernos, por isso não os comparo, o mal estar ou a tristeza, esta só por causa da idade, não se pretende mais formar cidadãos, dar diplomas, mas quando muito dar-lhes algum complemento, que sirva mesmo assim para ajudar a sua cidadania e a reforma….

Falar de Escola, é falar de poesia.
Parece-me que hoje existe uma certa vergonha, será apenas pudor?, de dizer versos. Antigamente, decorávamos, para declamar, a primeira estância de OS LUSÍADAS, e essa melopia, bem ritmada, deixou-nos um espaço de reflexão aprofundado, e que mais tarde, depois dos 40 anos, fui recuperar e levar, mundo fora, com alguma emoção, no Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra, na sua identificação com o Portugal de sempre, em Macau, gruta de Camões, África do Sul, Cabo da Boa Esperança ou Brasil, Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. Por via da poesia, não necessariamente épica, tenho tentado alcançar um utópico-sublime, transformando esses princípios elementares de cultura e educação, em algo duradouro e invisível para muito mortal, eventualmente mais novo, que vai além do óbvio de todos os dias.
FALANDO SOBRE A FAMÍLIA


PAIS, AVÓS, FILHOS E NETOS…

Fleming de OLiveira

Antigamente, na Casa de Miramar, o Dia da Mãe era a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora. Mesmo quando se decidiu mudar a data, continuamos a ter o nosso Dia da Mãe, a 8 de Dezembro e assim o comemorávamos até ao fim, sob a batuta do Zico. Que pena tenho de não poder falar mais com a Zica…, nunca é altura para poder deixar de falar com as Mães, mas posso ao menos falar com a Aninhas, que não é a minha, mas a Mãe dos meus filhos.
No que diz respeito à Zica, nunca deixou de me imaginar como um bebé, tanto mais que nunca me chegou a ver doente. Na cama onde se encontra e de onde não mais sairá, será sempre uma presença, um norte e um raio de luz, embora eu arranje por vezes pretextos para fugir à complexidade de certos desafios que a vida lhe apresenta. Da Zica recordamos nós com saudade, os filhos e os netos mais velhos, belos e interessantes momentos.

A Mãe gosta mais da P. e do M.! A Mãe gosta mais da R. e do M.! A Mãe gosta mais da R. e da P.! A Mãe gosta mais deles do que de mim! A Mãe gosta mais do D. que do L. e da T…
Conheço bem esta ladainha e não fico impressionado, embora agora a veja renovada na nova geração. Admito que, a seu modo, cada um dos meus filhos, netos agora, gostaria, sem que daí lhes impute egoísmo, de ser o único e o favorito. Embora dando-se bem entre si, creio que adorando-se mesmo, se utilizam este argumento em desespero de causa, é porque sabem ou supõem que cala lá fundo da Aninhas. Não creio ser necessário dizer que, dos três, a Aninhas não gosta mais de um que de outro. Sei bem quanto esse argumento a atinge, apesar de também o saber injusto mas, mesmo assim, dá-lhe logo vontade de chorar, porque como Mãe, há sempre no seu espírito o receio de alguma vez poder suscitar uma réstia de dúvidas, dado nunca ser possível tratar todos por igual. Afinal, eles são diferentes, surgiram em momentos diferentes. Como é que poderíamos ter um filho favorito, pergunto eu ainda que só retoricamente, sem prejuízo de reconhecer que o relacionamento com um, é necessariamente distinto do outro?

E os Avós (homens), o que pensam e sentem sobre este assunto? Poderia também responder que não tenho nenhum neto favorito, o que não quer dizer que não assuma a diferenciação entre os três. Confesso, porém, que tenho a minha neta preferida, como nunca escondi e sempre disse. Isto nada tem a ver com amor, pois isso nem se põe em causa. Não me concebo, daqui em Alcobaça, sem ter de vez em quando a minha T. preferida, pois que se há alguém a quem devo muito depois de gostosos dias de convalescençano quarto, é a ela. É a menina mais meiguinha (por vezes) que existe, a mais dócil (por vezes) e menos egoísta (por vezes), pondo os Minanos sempre em lugar dianteiro (por vezes), pelo que criamos desde sempre suponho uma recíproca relação de confiança. A minha T. tem algo que acho importantíssimo, abraça muitos dos mesmos valores, gosta das mesmas tradições e causas familiares que nós e de uma forma que sei mesmo que fazem parte dela. Não quero ser injusto, mas a identificação com a T. parece-me, por vezes, mais fácil que com a R., P. ou M., os netos rapazes ainda são bebés, o que me leva a correr o risco de, doravante, me começarem a apontar o dedo, em ar de censura por descriminação. Será por isso que, nos eventuais defeitos da T., eu só vejo virtudes, será por me parecer que ela é mesmo parecida com os Minanos, que sou mais tolerante? Preferida ou não, gosto de lhe dar mimo, de a sentar ao colo (o que já vai sendo raro), afagar-lhe a cabeça, falar-lhe, sem que conscientemente lhe peça mais que receber um pouquinho de mimo. Não sei o que a vida nos irá ainda proporcionar, as pessoas mudam, as circunstâncias aproximam-nos ou afastam-nos, pelo que se um dia a T. em vez de ser a doutora maria joão, quiser ser cabeleireira na Figueira da Foz, irá faze-lo sem rupturas.

Muita gente pensa em Avós mais como sinónimo de um cais para navios em riscos de naufragar, de que pessoas vivendo uma determinada fase da vida, possivelmente com menos certezas e mais angústias, em suma, como diria redundantemente o meu antigo psiquiatra de Gaia, com mais crise do que outras idades. Muita gente também pensa que, a instituição avós, está em risco de desaparecer. Não creio, pois é uma honra indestrutível, embora admita que tende a transformar-se, como muitas outras, de uma sociedade em transição. Se tenho pouco voz política e social, não queria também perde-la na Família (nem nos meus irmãos), enquanto puder contar histórias, recordar tempos idos, mesmo com reconhecida falta de rigor, prolongando o que puder ser prolongado nos vindouros, o que se foi esgotando nas gerações precedentes.
Vocês podem ensinar-me a viver com os pés assentes na terra, e eu ensino-vos a voar.
Vocês ensinam-me como defender o coração, e eu como ele pode ser aberto sem se perder.
Vocês ensinam-me a deixar de ser exagerado e pouco sincero, e eu ajudo a serem mais condescendentes com os outros.
Vocês dão-me um pequenino mimo e eu se pudesse daria a em troca uma noite de lua cheia diferente de todas as que já houve!!!.

Há uns tempos colaborei com a T. num trabalho de casa, dedicado a Almada Negreiros. Dias depois, li estes seus versos que não resisto aqui citar e que gostaria de dedicar à Zica, gasta pela doença e por não sei quantos filhos, a quem devo muitos carinhos e a que nunca me mostrei inferiorizado:
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!
Mãe!
Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar.
Tenho sede!
Eu prometo saber viajar.
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe!
Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.
Como a mesa.
Mãe!
Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Mãe!
NÓS, OS JURISTAS ROMÂNTICOS

Fleming de Oliveira

.Por conviver, lado a lado, com os lados melhor e pior das pessoas, a advocacia é uma actividade que muito toca os que a exercem. O privilégio de comunicar directamente, ouvir as queixas, aconselhar e até dar palavras de esperança, transforma o Advogado num observador excepcional e experiente.
Quem não percorreu este percurso, que assume especial relevância fora dos grandes centros urbanos, dificilmente compreende a magia de perceber algumas complexas reacções humanas.
É essa condição que tem conferido à advocacia, ao longo da História, a dignidade de comunicação, em muitos casos com a complacência, se não mesmo com oposição do poder autoritário, que nunca consegue retirar o lado sombrio da sua postura política.
Quando se diz que a vida de advogado não é fácil, não existe exagero, nem presunção contida. Os que voluntária e conscientemente optaram pela advocacia, como foi o meu caso (mais na barra) e do N.G. (mais consultiva), devem estar preparados para uma vida de espinhos, no meio de incompreensão, os maus modos ou a impertinência de outros agentes. Se fossemos todos funcionários públicos, haveria justiça N.G.? Sempre entendi que a advocacia é bom comportamento, civilização e ética, pelo que tive o cuidado de jamais subestimar ou desprezar o saber de um colega no exercício da profissão. Mas vou notando, com desencanto, o número de profissionais do foro sem princípios, que esquecem regras basilares decorrentes do Estatuto. Com esses sim, tenho dificuldade em manter-me civilizado.
Estou convencido que a aprendizagem de histórias extraordinárias, recolhidas no recato de um gabinete onde o pormenor é decisivo, contribui para desenvolver o pendor literário de alguns juristas, senhores de uma prosa e estilo literário de correcção ímpar. O advogado, que se preze, é o exemplo acabado de quem precisa de saber manejar a caneta, agora o computador, para fazer valer as suas ideias, tal como os princípios que norteiam o Estado de Direito Democrático. Com essa arma poderosa, num pulso forte e com uma boa carga, como acontecia com a velha BIC, muito pode o jurista fazer pelo País. Desenvolver um bom combate, pode começar por ser capaz de manejar bem, muito bem mesmo, a caneta no dia a dia. Brincando com este ideia, diria parafraseando um amigo meu da escola de Coimbra, que os advogados deveriam ter direito a porte e uso de caneta
Quando há cerca de 30 anos regressei da Guiné e iniciei a advocacia em Alcobaça, no escritório do Dr. Magalhães, conheci um colega muito bem disposto e brejeiro da Nazaré, que me sintetizou o que era ser advogado de província. Registei e agora, com a devida vénia, vou invocá-lo.
-Trabalhamos em horários estranhos;
-Pagam-nos para fazer o cliente feliz;
-O nosso trabalho vai para além do expediente;
-Somos pagos para realizar as ideias do cliente;
-Os nossos amigos distanciam-se e só andamos com outros iguais;
-Quando vamos ao encontro do cliente, temos que estar sempre apresentáveis;
-Mas quando regressamos, parecemos saídos do inferno;
-O cliente quer pagar-nos sempre menos do que deve e espera que façamos maravilhas;
-Se as coisas dão errado, a culpa é sempre nossa;
-Todos os dias, olhamos para o espelho e pensamos
NÃO VOU PASSAR O RESTO DA VIDA FAZER ISTO;
Em suma, somos como as (…), profissão duvidosa, alternativa ou o que lhe quiserem chamar.
A minha experiência profissional, ajudou-me a entender que o conceito de cultura, vai muito para além do do agricultor (cultivo e amanho da terra), sem desprimor para este.
O conhecimento da História, foi assunto particularmente exigente na formação dos estudantes do meu tempo e depois dos profissionais do foro.
Os românticos e a nova burguesia esclarecida, juristas incluídos, viveram activamente, nestes últimos dois séculos, os movimentos revolucionários, nos quais deram vazão ao espírito militante e aventureiro.
Em França, as revoluções do século XIX, contaram com o apoio de escritores e juristas.
Em Portugal, o movimento iniciado em 1820 e prosseguido pelas lutas liberais, opôs a burguesia progressista, com muitos juristas da Escola de Coimbra, à aristocracia conservadora, imobilista e passadista.
Foi neste terreno que germinou o espírito do romantismo, sendo Garrett e Herculano, como outros exilados, pioneiros e expoentes combatentes da liberdade. O romantismo foi, no gosto pela aventura e novidade, uma época de exageros que cultivou o lado sombrio da vida, ao qual os seus intérpretes deram corpo a muita obra. O romantismo medrou com o desenvolvimento económico e político e terminou com a grande revolução industrial, que após meados do século XIX transformou, a Europa.
O optimismo das convicções revolucionárias dos românticos, não acompanhou o progresso das ciências e das mudanças sociais, mais preocupados com o conhecimento real da natureza e o esclarecimento da verdade.
O lirismo que inspirara e dera forma ao romantismo na sua concepção melancólico-sombria da vida, desvaneceu-se por lhe faltar um suporte e um objectivo, embora admita que, no conjunto, a obra seja formalmente correcta e bela.
Já me tenho interrogado, o que me leva a escrever, ainda que em privado, nalguns casos, de alma nua e exposta. Quantas vezes me fogem as palavras por entre os dedos no teclado, não tenho mão nelas, precipitadas, sem sentido. Bem gostava de saber desta ofício de escrita, mas quando muito cumpro o ritual de as alinhar, na busca de um sentido para o pensamento. Ser escritor, não é, nem pode ser isto. Tem de ser alguma coisa de maior, que permita ao leitor entender a realidade para além da simples aparência, um acertar de coordenadas que permitam levar cabo a vida de um modo escorreito ou pelo menos sem escolhos de maior, navegar sem percalços apesar de não saber o porto do destino. No frio de uma audácia tímida, envergonhada aceito, vou escrevendo, os dedos no computador não param, como o pensamento. Apago, ao que suponho, serem preconceitos e receios, os que a sociedade, a família?, nos martela dia a dia, na sala de estar, no café ou na televisão. O tempo passa fluído, como se fosse um momento só. Sem que se espere, ou o espere, o momento seguinte surge e com ele formas, nem sempre perceptíveis. Vou escrevendo como sei, devagar, tentando saborear os impulsos de conseguir obter, um dia, uma conclusão definitiva, qual alquimia!!!, elaborando-os mais, profusa e insaciadamente.
Não sou obviamente um Camões, nem um psicanalista, mas apelo intimamente a umas musas que gostaria de conhecer que me permitiriam abordar de forma mais interessante figuras, quadros, emoções, esboços, imagens mais ou menos definidas. Li uma vez que as pessoas mais insuportáveis são os homens que se acham geniais e as mulheres que se acham irresistíveis.
Assim me vou vestindo de usado, tendo deste modo uma forma de prazer interminável e imprescindível. Afugento o frio e a fome. Acalmo a dor. Canto, como posso, a alegria se a há de viver e ser avô, e da forma possível.
Mas acima de tudo, ouso neste meu momento de escrever, sonhar um pouco. Por isso, é que a escrita é, para mim, uma tentação.
Utilizo a ficção? Claro, porque em parte tem a ver com a minha escrita, quando se prolonga na procura de um contorno, a metáfora e como forma de aceitar o silêncio. E ao aceitar tacitamente algumas regras de convivência e/ou de exclusão. Por isso, nesta escrita, como tenho dito, não se pode procurar, encontrar uma linguagem puramente literal, transparente por ou para si própria, embora se remeta e aproxime de si mesma, onde o mundo e a vida nascem com e para a palavra, numa indeterminação entre ambas. Para aliviar essa carga, sou até capaz de alguns delírios para abrir mundos, iluminar coisas (que exageros meus…!!!), reacender potencialidades antigas.
Como disse, tenho visto algumas coisas de carácter pessoal e profissional no meu escritório, de conteúdo mais ou menos interessante, ético ou até dramático.
Atravesso, neste momento, um deserto? Admito que sim, mas não totalmente estéril.
Não estou, nem quero estar imune à influência dos outros próximos. Se isso fosse possível, extinguiam-se a História e as Heranças, que tanto prezamos. Em Miramar, falava-se por vezes no Senhor de La Palisse, quando o Zico pretendia salientar uma evidência ou uma redundância. Na verdade, correndo esse risco, atrevo-me a concluir definitivamente que somos influenciados pelo que nos rodeia. André Malraux, que li há anos, e hoje parece um pouco esquecido, escreveu na Condição Humana que são precisos sessenta anos para fazer um homem e quando está pronto para começar a viver, morre.
Falando de pessoas notáveis, e eu aprecio especialmente os das letras, não posso esquecer Sócrates, o filósofo e sábio grego da douta ignorância que considerava que sem esta, o espírito nunca poderia dar à luz. Daí que a dúvida e a disponibilidade para ela, fossem já uma forma superior de sabedoria. Só sei que nada sei!!! Que maior lição de humildade intelectual se pode ainda hoje achar?
A minha reverência ante a lei é antiga, prende-se a algumas recordações da juventude, mesmo anteriores à frequência da Universidade de Coimbra, no tempo em que no Porto ia em Cedofeita, ao então chamado Tribunal de Polícia, assistir a julgamentos e pedir ao bom juíz Quintela uma defesa oficiosa.
Sonhava ser um dia advogado no Porto, sei lá, num escritório como o do Sá Carneiro, na Rua da Picaria.
O chamariz dos advogados que, como o Araújo de Barros, actuavam em casos mediáticos era-me tão irresistível, quanto o anúncio de que a Callas iria de novo cantar ópera no Teatro S. João.
Desde o momento em que pela primeira vez entrei no Palácio da Justiça (cível) do Porto, o chão frio de mármore, os frescos das paredes, as pastas e as togas que pareciam esvoaçar com frenesim abaixo e acima nos corredores e elevadores, presas às mãos dos advogados, o cheiro característico dos livros, papéis e tinta preta que emanava da Secretaria, as placas nos ângulos das paredes, indicando as Salas de Audiências e gabinetes dos magistrados, era magicamente belo e excitante. Via o escrivão a carimbar papéis, cosendo os processos com uma agulha grossa e grande, enquanto muitos outros (ao tempo eram só homens) se encontravam agarrados a uma máquina de escrever, batendo nas teclas com nítida dificuldade e algo dramaticamente.
Li, muitas vezes, descrições do encantamento de crianças que vão ao circo pela primeira vez. Acredito que as suas sensações não se comparam ao arrebatamento que sentia há mais de 40 anos ao caminhar no interior do Tribunal Cível, com o Zico, para falar com o pai do Dr. Miguel Veiga, como muito mais tarde no Foro de S. Paulo, com o saudoso Dr. A. Gonçalves, ou no Palácio da Justiça, em Paris com o L.M.F. ou a A..
No entanto, o mais excitante para mim era a pesada porta que se abria para a Sala dos Julgamentos. Era como um portal místico. Passada a porta, contemplava o advogado cuja fama me lavava até lá e já identificava, pelo menos de vista. Por vezes, parecia aos olhos do leigo, não estar a fazer nada, apenas sentado indolentemente na cadeira. Para mim, no entanto, percebia (supunha perceber) que sua imobilidade era aparente, física, deveria estar mergulhando nos seus planos de acção.
Outras vezes, uma testemunha estava a ser questionada. Observava os demais advogados, também circunspectos, aparentemente indolentes ou distraídos, acompanhava a reacção ao depoimento prestado, via um advogado erguer-se (como que acordar) de repente, talvez, para fazer uma objecção, a boca do juiz a movimentar-se, o advogado a sentar-se de novo.
Às vezes, minha visita coincidia com as alegações, talvez o momento mais empolgante. Adorava ver o advogado a falar de pé na bancada no melhor estilo, óculos na ponta do nariz, o queixo a mover-se, gesticular, empunhando papéis ou uma caneta, via-o respirar fundo, aparentemente a sucumbir ao império da emoção da causa. Quase podia adivinhar algumas palavras que iria dizer, mesmo não conhecendo a causa em discussão. Quando o juiz se inclinava para a frente e redobrava de atenção, sentia que o advogado estava a desenvolver uma argumentação persuasiva. Ao invés quando via os demais intervenientes sentados, à vontade, mostrando desinteresse ou a bocejar (sem ser por razões tácticas), compreendia que o meu advogado não estava em situação fácil.
Quando ousava ainda em jovem, entrar na Grande Sala dos Actos/Julgamentos, tentava guiar-me por anteriores impressões, as palavras ouvidas pareciam-me ainda pairar no espaço. Tudo aquilo era o símbolo de uma prece, como se eu estivesse de joelhos. Algum dia, estava certo disso, eu abriria aquelas portas, entraria na Sala não como jovem, mas como advogado feito, participando da mais alta função social, a Administração da Justiça.
Realizei parcialmente meu sonho, embora não no Porto. Abri as portas de muitos de Tribunais no País, mas a excitação jamais se finou. O desafio era sempre novo. A luta sempre intensa. A surpresa estva presente.
O julgamento era mais que a ruidosa excitação de um combate, mas o palco onde as palavras são armas e a inteligência o principal instrumento de defesa e ataque.
É a busca da verdade. Diógenes, com sua lanterna, seria um bom substituto para o símbolo cego da Justiça. A tarefa do advogado consiste na reconstrução dos acontecimentos passados, aos quais acrescenta fatos persuasivos a favor de seu cliente. Age como o arqueólogo, que precisa pesquisar a exumar velhas provas da verdade. Como pode saber onde procurar e o que procurar? Este é o supremo teste preparatório pois a preparação adequada de um caso a ser levado a julgamento é a chave para o sucesso. O homem estúpido deverá fazer como se fosse inteligente, a inteligente como se fosse talentoso a o talentoso como se fosse genial.
Alguns momentos, que antecediam a sessão de julgamento, eram nervosos, angustiosos e muitas vezes, não obstante a tarimba de uns anos, me senti como se fosse a primeira vez.
Na manhã do dia em que começa o julgamento, todos os indícios são de insuportável trepidação. As mãos ficam pegajosas, o suor acumula-se por sobre as sobrancelhas, as faces ora se mostram pálidas, ora coradas, os olhos avermelham-se, as vozes tomam-se agudas, há um frequente bocejar, os lábios ficam secos e as visitas ao banheiro são frequentes.
É o momento em que o advogado, embora sofra dos mesmos sintomas, embora também seu pulso se acelere, deve incutir confiança ao exército hesitante ao seu redor. Nessas ocasiões, cumprimento os clientes e as testemunhas efusiva, cordial e jovialmente, incutindo-lhes tranquilidade e confiança. Devem contagiar-se com minha serenidade. Agarram-se a isso e daí retiram forças. Em todos os instantes, o advogado deve ser a central de energia, distribuindo-a por todos. Quando consegue criar em torno dele uma atmosfera de segurança, é como se proporcionasse oxigénio, que alivia a respiração atormentada.
Em consequência, também o Júri é envolvido e influenciado pelo ar confiante do advogado e o efeito psicológico por isto causado sobre as convicções é incalculável.
Sempre fui de opinião e a transmiti a colegas mais novos, nomeadamente ao N.G., que um dos erros mais frequentes nos interrogatórios, constitui a tentativa de espremer a testemunha, em busca de uma afirmação valiosa para o cliente. É preciso que haja discernimento para se avaliar se a vantagem supera a risco.
Já vi, uma testemunha desferir um golpe arrasador, que poderia ser evitado, caso o advogado não se apegasse demasiado à tentativa de obter uma afirmação de valor secundário.
Dentro do nosso sistema da livre apreciação da prova, a inquirição de testemunha pode ser a chave do sucesso da causa pois, há um tempo psicológico para o advogado aventurar-se com uma testemunha.
Uma pergunta dirigida no momento em que a resistência da testemunha hostil é vigorosa, pode ser ao fim e ao cabo ineficiente. A mesma pergunta lançada no momento em que a testemunha estiver confusa, e com o moral baixo, poderá provocar uma confissão. O advogado deve ter sensibilidade para sentir o estado de espírito da testemunha que tem diante de si, e variar a técnica do interrogatório, de acordo com as circunstâncias.
Nunca concordei, nesse sentido, com a estratégia utilizada por certos colegas para reduzir, pelo ridículo, a importância das acusações do queixoso ou a argumentação do acusado, cobrindo-as de observações sarcásticas.
Tal estratégia, além de deontologicamente discutível, está sujeita ao risco de pesados contra-ataques. Quando é possível demonstrar que factos foram desprezados pela defesa ou pela acusação, que brincou levianamente com a verdade, a atitude displicente pode ser relevada como ofensiva. Por isso, os arrazoados espirituosos, que desprezam a prova, têm vida precária.
Senhores Juízes, caros Colegas… Um assassino e um difamador não diferem entre si!!! Ambos são criminosos, embora usem armas diferentes.
Quando um utiliza a pena e a máquina de impressão, para destruir o que um homem possui de mais precioso, isto é a sua reputação, abre oportunidade para que um dos nossos Juízes, em sua sabedoria, dê uma lição a esse homem e a outros que o imitam, condenando-o à indemnização punitiva.
Normalmente durmo bem, o que não quer dizer que lá pela meia-noite não adormeça cansado e acorde ás nove exausto e triste. Lembro-me de ler ou ouvir desde pequeno que, nascemos sós e que quando morremos também ninguém nos acompanha na viagem. Os antigos senhores enterravam-se com os escravos para não irem sozinhos. Por cá ou para lá, fazemos os possíveis por não estar sozinhos, até na morte. Solidão é coisa bem diversa, de que me não queixo, é muito mais que passar dias, noites, semanas sem ninguém ao lado. É mais que constatar que, quando ao fim do dia chegamos a casa, não há ninguém à espera. Felizmente tenho a A. Pode haver espaço na cama de casal, mas mesmo assim tenho sempre alguém que está perto e presente com carinho e atenção, que não deixa chorar, nem fugir.
Eu leio e escrevo, sofregamente por vezes, e mesmo quando parece que tenho o coração fechado, ele passa de repente a bombear mais forte no peito cansado, o que me permite, desfolhar o passado, como se fosse um livro aonde não existe mágoa, nem tristeza. Mas se houver resquícios de mágoa, penitencio-me em silêncio, pois não vale a pena incomodar os outros, mais que o necessário.
Gostaria de poder voltar a certos dias de amena primavera coimbrã, a A. e eu cada um com o seu livro a namorar no Parque, os dois com sonhos semelhantes. Sendo isso uma quimera, quero ouvi-la, tocar-lhe, senti-la próximo a descansar junto à TV, se possível com alguns mimos de permeio, viver o dia como se soubesse que ainda há muitos pela frente.
Tenho um enorme receio da doença mental, não por desprezar quem sofre mas, principalmente por ter a ideia que a raia que nos separa da insanidade, não é tão forte ou sólida como as vezes queremos acreditar.
Ultimamente tenho tido informações detalhadas sobre um amigo e colega dos tempos da Faculdade, cujo estado de sanidade muito deteriorado, se tem vindo a agravar irremediavelmente e, como tal determinou o seu internamento, de onde possivelmente não mais sairá.
Depois de muitos anos, em que o meu grupo da Julinha esteve distante, voltou a reunir, em casa de uns e outros. As distâncias separaram-nos fisicamente, uns ficaram no Norte, outros vieram para o Centro e outros fixaram-se no Sul, mas no momento do reencontro, tudo passou a soar como se fosse sempre hoje, um hoje pegado a um ontem incomensurável, onde pelo caminho cabem filhos, netos, profissão, moléstia, uma extensão de lembranças, laços, sentimentos e aventuras em comum. Olhamo-nos um pouco espantados, mas tendo sempre como presente, eterna e consistente, a mesma cumplicidade: Estás mais gordo, careca, ainda não tens barriga, bebes um copo? sais à noite?, etc, etc.
Claro que o tempo e a distância causaram lacunas. Mas nestes reencontros, tudo são proveitos. Não há cerimónias de maior, como poderia haver? Há sempre alguém que mais afoitamente pergunta se, aquele cheirinho que vem da cozinha, é mesmo para nós. Petisca-se devagarinho. Vem logo um(a), bem intencionado(a), sugerir que não haja hoje exageros, nos comes e nos bebes. Temos mais de sessenta e de prestar contas não só à mulher, como aos filhos e aos filhos dos filhos. Encanta-me ver os filhos, cúmplices nestes encontros de jarretas. O N.G. gosta de participar, ver o velho e o novo em uníssono, e releva a aceitação e estima que, depois deste tempo todo, sentimos reciprocamente como amigos e colegas. Ao fim de dois copos, parece a animação ser igual a um festim. As conversas corriqueiras sucedem-se a outras ainda mais corriqueiras, mas são saboreadas como um manjar de marquês, afugentando-se os ares que noutros locais deveriam ser assumidamente doutos, pois a cumplicidade renova-se, como se nunca tivesse sido suspensa.
Assim, sentimos haver o amanhã.
Mas, estas reuniões estão algo comprometidas, porque começam a faltar alguns. Na verdade, assustam-me as manifestações de desequilíbrio ou sofrimento mental, pelos reflexos que têm nos próprios, bem como nos mais próximos.
Admito tentar evitar, mais não seja por defesa própria, os deprimidos, os obsessivos compulsivos, os paranóicos, os bipolares ou mesmo os neuróticos, confessando ser capaz de mudar de passeio, perante alguns casos que conheço, ainda que tão só de simplesmente angustiados, tristes ou falhados. Mas neste caso, isso é impossível. Sei bem que para além do disparado automaticamente tudo vai, tudo está bem, muitas vezes se esconde um enorme sofrimento, incapaz de se traduzir por palavras, pois que existe o risco de se passar a ficar associado a um rótulo difícil de retirar. Ouço aqui ou acolá, queixas de doenças politicamente correctas, como enxaquecas ou úlceras, hipertensão arterial, mas que mesmo para um leigo não são mais que o sintoma de um tipo de angústia que, nem às paredes confesso, e que assusta ao ponto de podermos entrar em pânico, onde nenhum xanax é capaz de valer.
Não admira que, por vezes, a noite nos oprima e esperemos, com o ouvido perto da rádio, longe de uma voz, a segurança que a luz do sol afinal volta sempre a trazer.
Bem gostaria de ser capaz de pôr a mão na consciência, sem esquecer que dentro dela existe uma arrecadação, para onde se mandam um conjunto de vivências amargas, atiradas sem rei nem roque, como tralha para o lixo e supunha esquecidas. Não serão crimes, falsificações, abusos ou outras situações normalmente traumatizantes, mas tão só os desencontros que fazem parte da história da vida. Admito ser esse lixo que povoa sonhos e pesadelos, quando aligeiro a vigilância à arrecadação e que ao cair sobre o peito, me retira o ar.
Trazendo ao consciente esses lixos, bom seria sintetizá-los para que percam o poder de assombrar a vida.
Acontece porém que sendo um ponto de partida, a coragem e a capacidade do auto-conhecimento, não são fáceis de encontrar, tal como recuperar a auto-estima, através de meros e bons propósitos, entre dois pensamentos uns mais animosos, outros mais acabrunhantes. Ao fim deste tempo todo, cheguei definitivamente à conclusão que a vida interior é muito mais complexa do que aquilo que alguma vez fui levado a supor e que, cada um de nós, mesmo assim, só sabe um bocadinho de nada. Nesse sentido, se viver nalguns casos é complicado, ainda mais será viver bem.

FALANDO SOBRE A FAMÍILIA

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA

FESTA/CONGRESSO F.O., EM MONTES-ALCOBAÇA

Fleming de OLiveira

Há muito tempo que tinha vontade de reunir na Casa dos Montes-Alcobaça, todos os FO, ramos de Miramar e de Matosinhos, mas isso não era de todo fácil de concretizar, porque se encontram dispersos.
Este ano de 2005, as coisas conjugaram-se no sentido de se poder demonstrar a importância da nossa referência comum, que se prolongará para sempre, a que não foi estranho, a disponibilidade e labuta da Aninhas, obviamente sem a qual nada feito. Entre outros pretextos, refiram-se os meus sessenta anos, os anos da Paula e o lançamento familiar de AS REGRAS DA CASA (ano 2005), preparado colectivamente ao longo do ano.
Esteve toda a gente, como era desejável, todos se manifestaram antes e depois qual coro oscilante, ritmado e harmónico de cabeças querendo, com tal, gesto manifestar a aquiescência à ideia. Criamos o Livro de Honra.


Claro, aqui, não é mais a Casa.
Longe estão, o som dos passos no soalho de madeira e na escada, forrados a alcatifa, entrecruzados com a melodia filtrada do chilrear, inaudível por força do hábito, enquanto ou quando havia meninos de uma ou outra geração ou o ralhar amável, misturado com o bater das panelas e tachos da Carminda, vindo da cozinha. É uma emoção ter pertencido aquela Casa, onde se partilhavam frases comuns, expressas embora cada qual a seu modo, onde mais que a aprendizagem, o crescimento e a luta pela técnica, foi o despertar dos sentidos, enriquecendo-nos mutuamente e criando os laços que perduram indelevelmente, apesar da distância e de algumas malandrices, naturais, como hoje diz a Náná. Parece-me que tudo aquilo era absolutamente normal e imprescindível da vida, desde a dor, quando havia, porque não?, a alegria, a paixão, a saudade, a melancolia, o afago, a angústia, quando havia, porque não?, o êxtase, com que abríamos o leque da afectividade na maior amplitude, com exuberância comovida nos momentos-chave como quando o Zico fez a última cadeira e acabou o curso de Direito em Coimbra, Pai de seis filhos.

Longe vão também os tempos em que em casa e os bons mestres, nos ensinavam que o melhor critério para avaliar uma pessoa é olhar-lhe na cara.
Esta prosinha vai crescendo no corpo e seguindo em afloramentos algo descontinuados. Pretende, à minha maneira, expressar momentos presentes e passados, recordações de gentes e lugares. Por isso, corre como uma ideia à moda do jazz, isto é, nasce de um pequena melodia que vai ganhando forma nos sucessivos ensaios.

Em tempos como os actuais a desertificarem-se, a amizade ou os afectos, palavras que mesmo assim andam nas bocas do mundo, a propósito de tudo e de mais alguma coisa, a Família, é seguramente um oásis aonde, é possível ainda beber-se de uma pura e feliz convicção.
Parece-me por vezes, nesta altura da minha vida, que os anos, se limitaram a passar, que perdi a capacidade de acreditar no presente e pior ainda no futuro. Dos meus tempos de rapaz, em Coimbra, em que na Julinha ouvia no gira-disco em vinil, com algum respeito, o Jacques Brel, recordo os versos que nos permitiam tomar diferentes barcos, seja um da Fé, outro do Cepticismo, um para Miramar, outro um dia para Alcobaça, Lisboa ou Figueira da Foz, pois cada um de nós, à sua maneira desajeitada, procura um porto.

E tal porto, mais do que um porto de chegada, é um lugar de começos, mesmo que de coisas simples e elementares, um porto de partida.

Quanto a mim, infelizmente suponho que nunca alcançarei esse porto, pelo menos o de chegada, embora gosto de saber que há lá em casa a Aninhas que, na sua enorme Fé, acredita que tal pode ainda acontecer. Se conseguir arrancar, talvez me deixe acordar por uma nova vontade de viver, independentemente da idade! O corpo parou de crescer, a minha importante saúde pode queixar-se de um conjunto de inclemências, mas o espírito será activo, enquanto preservar a música da vida e a riqueza de se sentir jovem.
No meu caso pessoal que tenho alguns problemas de saúde, gostaria de poder continuar a dar certa contribuição ao pessoal menor, dado que a vida é para se viver enquanto se vive e não nos faltam as heranças recebidas, que são a nossa maior riqueza.

A procura de afectos, carinho, comoção, amor, amizade?, ora nem mais, assim é que se fala!, na reunião do nosso Congresso FO, expressão possivelmente pomposa no dizer do Nuno FO, pois que lhe quis dar especial simbolismo e estado de espírito, determinou a convocação para o sábado, dia 5 de Março de 2005, por acaso nesse dia a Biquica também faz anos, em meu nome, do Nuno, do M e do D M, todos FO pelo lado masculino, com vista homenagear a Família, a sua promoção, não propriamente a apologia num estilo standard.

A N. diz que chega a comover-me ver os irmãos todos juntos, a acrescentar a isto todo o resto da família, cunhadas e cunhados, sobrinhos, sobrinhos netos, primos direitos que há muitos anos não via, para além dos filhos dos primos que desconhecia em absoluto. Isto mete-me muita impressão, porque quando éramos miúdos a relação era mais próxima. Entre nós, como não podia deixar de ser, tinha que haver as nossas quezílias, senão, não éramos irmãos.


Nós, FO, somos uma Família com laços fortes. Mesmo quando hoje ainda discutimos, discutíamos, aceitamo-nos como pessoas distintas, mas com uma identidade comum e isso é importante para o bem estar, felicidade, de cada um. Mas como família, também incorporamos alguns segredos ou contradições.
Normalmente, o irmão é o que está mais próximo e, no entanto, há tantas coisas que desconhecemos dele.
De alguma maneira, o silêncio a capacidade de não dizer algo, é potenciadora de uma enorme função familiar e social.
A coesão social ou familiar não pode assentar na mentira, obviamente, mas pelo menos na boa gestão do silêncio.
Contar a verdade nem sempre faz bem, por melhor que seja a intenção de uma Mãe, mas um história colorida pode fazer conviver melhor com a realidade.
Aqui está o cerne do meu especial interesse, que começou tão só com a tradição oral da nossa identidade comum, que o Zico mais tarde em Parentes Meus tentou registar e que agora tento imprecisamente desenvolver.
Quando nascemos em casa fomos, segundos depois, para o regaço da Zica, que começou logo a dizer que éramos bonitos, queridos e pouco depois, conjuntamente com o Zico, começou a contar quem eram os Avós ou os Tios.
Mais tarde, em momentos críticos da vida, fomos pondo algumas coisas em questão, como nos convencemos que podemos substituir essas lendas por verdades, ou vice versa. Eu sou quem dizem que sou, ou não sou quem dizem que sou? Não quero ter a consciência que estou a substituir, para os meus netos, uma lenda por outra tão verdadeira ou falsa quanto a que recebi à partida, embora aquela se adapte melhor ao desejo de quem gostaríamos de ser. Admito que há aqui recriação, pois a nossa identidade é o que queríamos, gostaríamos ser, com o que não conseguimos ser, acrescido do que nos contaram que éramos. Em suma, e sem pretender discorrer filosoficamente sobre um tema tão volátil, chego à conclusão que a nossa identidade não é nenhuma falsidade, mas necessariamente uma pequena e benévola ficção.
Nesta altura, assumo a ideia da morte com alguma naturalidade, não conformismo é claro. Mas a conclusão de que só temos uma única vida é tremenda, sendo este um espaço onde posso lutar contra isso e me leva, por momentos, a crer que estou a viver uma outra ou outras vidas.
O passado é um lugar estranho.
Todos os que andaram por lá connosco, estão hoje bem diferentes, mudados, com excepção dos que se já foram. Antigamente, não tínhamos tantas rugas, cabelos brancos e eu não andava trôpego e de bengala. Gostava de trautear, ainda que desafinadamente, o Elvis, a Françoise Hardy ou o John Halliday, ao mesmo tempo que dançava apertadinho se pudesse, e ainda andava na escola a ensaiar as primeiras letras. É daí que vem a minha mácula de romantismo vetusto e pardo, como diria a T., mas com salpicos de lamechice, como me imputa a Aninhas, que é muito pragmática e veemente no seu pulmão, como os filhos e netos bem sabem, o que fez de mim ainda aos sessenta, um incurável e tolo sonhador. Mas também sou capaz de olhar para certo passado com algum sarcasmo, rir-me das minhas próprias insuficiências e assumir, com complacência, a estupidez de outros. Por isso, me sinto perdido num tempo em que a gasolina é cara, os clientes vão aparecendo menos, os casamentos são precários, se não um luxo das elites político-religiosamente correctas, as pessoas aguentam-se com dificuldade em relações estáveis. E mesmo quando a vida está irremediavelmente longe do que foram alguns sonhos e desejos, gosto de ouvir e de trautear baixinho melodias tão simples e complexas como é pau, é pedra, é o fim do caminho, é o resto de tu, é um pouco sozinho, rezando para que sejam as águas de Março, fechando o verão e que haja uma promessa de vida no teu coração.

Numa época de intensidade de acontecimentos confusos, onde se conjugam a malvadez, a calúnia, o império dos sentidos, surge com frequência a ansiedade, a agitação ou aquilo que hoje, mais vulgarmente, se chama a depressão. Os problemas são mais que as soluções. Quando posso, gosto de parar um pouco.
Estas notas, são um excelente momento de pausa no dia a dia em que me desligo de uma certa turbulência ao redor, na procura de uma serenidade interior.
Quanto mais desligo, mais sereno fico, e quanto mais sereno fico mais lúcido estou, relativizando peripécias. Reputo-me pessoa algo lúcida, para criar condições para estabelecer a ponte entre o natural e harmonioso.

Na universidade da vida, mais do que na de Coimbra, aprende-se não ser possível que outros façam, ainda que remuneradamente, o que cada um tem de fazer por si. Mesmo enquanto Advogado, é a conclusão fatal a que há muito cheguei.
Quem o não fizer por si, deixa a tarefa por cumprir. Mas quem se disponibiliza ou tem condições para tal, vai descobrir potencialidades necessárias se não para refazer o caminho, pelo menos corrigir a trajectória.

Nesta caminhada pela vida, temos como referi necessidade de invocar mestres, pessoas com dons especiais, como um Cristo, ou tão só um Filósofo ou um Poeta, que nos ensinaram a sentir e ver a vida, na sua beleza e complexidade.
Esses mestres sabedores, podem ser pessoas comuns, que se cruzam connosco todos os dias, não precisam de ser de nome feito, basta uma postura humilde para retratar a vida com o seu exemplo.
Tenho necessidade de dedicar algumas notas à A., que é a pessoa que aceitou ser a Mulher, Mãe, Avó e tudo o mais, da nossa vida e governar a nossa Casa de Alcobaça. Que é capaz, mesmo cansada, de no Inverno se levantar de noite para puxar um cobertor de modo a não apanharmos frio, de nos ouvir ressonar, dizer disparates ou coisas menos agradáveis sem recriminações de vulto, embora um pouco veementes, que mesmo que não olhe todos os dias para nós, marido, filhos e consortes ou netos, olha todos os dias por nós, que sem tiradas poéticas, se dá e partilha sem reservas a vida, as preocupações e alegrias, fica em silêncio a pensar com os seus botões, com um pequeno e quase imperceptível tique de encolher os ombros, como diz a Paula, e embora não aprecie cozinha faz muito mais que o básico.

Quando era garoto, aprendi com o Zico a ler o jornal todos os dias, a não acreditar em todas as histórias e com alguns colegas do liceu a desconfiar das mulheres, para lhes descobrir todos os defeitos. As mulheres, as meninas, esticam sempre a corda, disse-me uma vez o meu amigo Rodrigo C. que era muito sabido, já fumava e bebia Macieira, não obstante os seus 13 ou 14 anos, nunca lhes dês o que te pedirem à primeira e nunca mostres que precisas delas. Claro que não segui esta prática com a Aninhas.


O N. FO que dá um especial relevo a estas questões dos afectos e da Família, disse-me sobre o Congresso FO que foi uma reunião esperada por muitos e intervencionada por alguns. Desde o momento em que o Fernando nos mobilizou para um evento familiar nunca antes realizado, pelo menos nos moldes propostos, surgiu por parte de cada um aquele entusiasmo próprio de quem se irá rever no sucesso global e que pretende incutir o seu cunho pessoal. Isto tem a ver com os preparativos que começaram muitos meses antes, quando cada qual emprestou algo da sua vivência e experiência pessoais na elaboração do livro, com relatos muito pitorescos, que viria a ser apresentado num dos momentos altos desse dia de Março. A minha colaboração foi, um modesto, mas muito empenhado trabalho de recolha de imagens e do seu tratamento sequencial apoiado por música de escolha muito criteriosa.
O N. FO, com gosto e amorosamente, como é desde pequenino e ao longo de mais de cinquenta anos bem vividos, comidos e rega(la)dos, recuperou para DVD filmes e imagens, algo esquecidos de todos nós, a partir dos anos 70, que se revelaram um sucesso e emocionantes para os mais novos e outros de chegada recente aos FO.
Reconheço que com um pouco mais de tempo melhoraria o efeito final. Teve sempre um objectivo: provocar algum impacto ou surpreender de alguma forma.
O que aconteceu, sem dúvida.

A Casa de Família, em Miramar, é a primeira imagem, que passa gradualmente de um preto e branco para um efeito de aguarela e depois se desvanece. Este trabalho seguir-se-á nos tempos próximos, pois muito há a fazer com aquelas e muitas outras imagens por enquanto guardadas. A reunião de Família, pomposamente apelidada de Congresso, não terá surgido só porque os seus promotores gostam de festas e de receber bem. Era algo que faltava, para celebrar o nosso sentido espírito de Família, para o manter vivo e transmiti-lo, e homenagear os F.O. ascendentes recordando e homenageando os ausentes. Como seria de esperar, também os F.O de Matosinhos mobilizaram-se, comparecendo na totalidade. O Zé trabalhou, afanosamente, para nos mostrar num powerpoint um pouco da investigação que fez sobre os nossos, remotos e desconhecidos, antepassados, durante uma viagem à Escócia. Excelente montagem fotográfica, acompanhada por cuidadosos e interessantes comentários .Após a recepção aos congressistas, seguiram-se as apresentações entre os vários primos que não se conheciam, com momentos de espanto, naturalmente, de quem já se tinha ouvido falar tanto, mas sem o conhecimento presencial, entre os mais novos. O salão ia aquecendo com as emoções a despertarem e a fornalha da lareira a ajudar. Aí o João começa a disparar flash’s e a captar com a sua mestria as expressões que se vão sucedendo por entre a passagem de copos do bom branco, verde branco e tinto, oferecido pelo meu amigo C., de Paredes, que acabou num ápice, não estivessem presentes os FO pois que, como aprendi na Casa de Matosinhos, em garoto com o Tio A. F., se puderem pegam numa mulher pela cintura e numa garrafa pelo gargalo…, que se erguem no ar. Seguiu-se o almoço organizado e preparado sob a batuta da Ana, que nunca deixa esses créditos por mãos alheias. Já na Adega/Salão do Alambique e das reuniões, como a T. lhe passou a chamar, adaptada para o efeito, se encontravam a mesa da Presidência, com cadeiras de madeira com assento de veludo antigo e costas altas como se impõe nestes momentos cerimoniais, uma mesa com toalha branca, uma garrafa de vinho tratado do Douro Fleming’s, e copos para os brindes da praxe, e as cadeiras da assembleia. Nada foi deixado ao acaso e até o aquecimento tinha sido previsto. De um lado, o antigo alambique servia de testemunho de épocas passadas, donde jorraram, no tempo do Dr. Amílcar, litros de aguardente, bagaceira, ainda hoje cuidadosamente conservada e sem pressas de envelhecer.
Do outro, um écran donde se esperaria ver um desfiar de memórias visuais surpreendentes.
Essas imagens têm mais de 30 anos desde o casamento em Alcobaça, aos baptizados em Miramar e Alcobaça, à primeira papa da Raquel, em Cinfães, os Zicos, a D. Ana e o Dr. Amílcar, e que o N. recuperou.

Estes filmes são como os caprichos.
Mudos, mesmo quando uma música dolente ou animada tenta amaciar as palavras que dissemos numa mocidade antiga e riscada do tempo, em que as nossas meninas apareciam muito compostinhas, de mala no antebraço, saia pelo joelho ou abaixo, os nossos meninos com calças à boca de sino e o Dr. Amílcar de chapéu escuro e gravata na praia.
Claro que a vida já não é como nesses filmes, mas é bom poder ver a fita sempre que apetecer, porque é verdadeira e aí nada mudou.
Conhecemos de sobra cada olhar, cada expressão de rosto, cada beijo dado.
A I. e a P., e a B., convém não esquecer, contribuíram para animar a assistência com a entrega de pequenos estandartes, que se agitavam com palavras de ordem à mistura.
Parecia quase um comício, dos tempos do PREC…
É hora das palavras e da solenidade, mas com a simplicidade, não somos de muita cagança, segundo se diz para consumo externo com mais ou menos verdade ou pelo menos cai bem dizer, que nos caracteriza. Dir-se-ia que os discursos tiveram a eloquência dos sábios, não necessariamente eruditos, com a moderação dos humildes. Penso que as palavras tocaram fundo na Família, pena que os discursos não tivessem sido lidos, pois teríamos certamente alguns excertos aqui.



A eleição do tio Mário para Presidente Honorário e Vitalício do Congresso, o próximo se houver e se não houver percalços de percurso serei eu, constituiu um reconhecimento da autoridade espiritual da grande Família F.O. e do carinho que todos lhe devotamos neste momento é ele, por direito próprio, o Patriarca.
Por fim, a entrega de volumes de Parentes Meus aos mais novos. Já no fim da festa, se estabeleciam conversas mais próximas entre os primos e se ponderava a possibilidade de se repetirem estes encontros, seria muito interessante.
Mas quem se candidata?
O Zé?, pois nos tempos que correm não é frequente juntarem-se primos em 5º grau! Só em famílias Grandes e Extraordinárias!

Neste e noutros assuntos, gosto muito de ouvir o P. S., mesmo reconhecendo-lhe alguns delírios de imaginação, que todavia me deixam encantado. O Paulo S. nunca se faz rogado para emitir um juízo, preferencialmente polémico.
Como foi isso, P.? ele que é um FO de gabarito há cerca de 30 anos e presentemente muito mais que honorário. Entende o P. S. que, não há reunião de família sem procura de socialização, conhecer os novos e abraçar os velhos, em doses maciças de gabação, de um para todos e de quase todos para um, em gostosíssima animação, espécie de alegria horizontal, entre algazarras de falação, às vezes até mete discurso, servida em doce emoção, juras e promessas, a favor de uma recordação a que não faltará sempre uma oportuna gravação e/ou até filmação. Os exageros na deglutição passam aos copos na comemoração ou mera confraternização, levantando de onde em onde uma ligeira preocupação, com este ou aquele, isto ou aquilo, imediatamente ultrapassada numa boa relação, que soa a colaboração na futurização abrangente da valorização.
Como se vê o P S., pessoa sensível, está em excelente forma intelectual e num estado de lucidez apreciável.
Quem supõe que ele é só músculo e beleza, está muitíssimo equivocado. Não é verdade Inês? E porque deixas mesmo ele tocar ad lib o cavaquinho?
E que mais, meu caro P. S.?
Tudo isto obriga ao profissionalismo da organização que, definida a localização os Montes é muito bom, Mira espectacular, ouviu Amigo e Compadre Gaspar? aposta numa participação e comunhão, várias raízes, um só tronco, muitos ramos, tendo a máxima atenção, para não faltarem bolos da Pousadinha, por exemplo, levando ao êxito a consagração. Pessoalmente acrescentaria a dignificação, Tio Mário e seguintes, que a convenção FO concretizou, na atribuição de uma afirmação plena de intenção com a aceitação geral eivada de convicção, sem excepção. Nada, nem a mais pequena divagação ganhou espaço de intervenção, nem tão pouco se afirmou a prossecução da mais humilde invenção. Foi como foi escrito e subscrito, comido e bebido, pois claro, sentido e vivido em permanente ovação.
O P. S. sentiu-se no dever de esclarecer, eventualmente junto de alguém menos letrado que um FO que possa vir a ler isto, ou seja, aqueles com a quarta classe feita administrativamente depois do 25 de Abril, o que aliás não é o caso de nenhum de nós, a propósito da forma ligeira como esteve a discorrer pois, que vários prefixos diferentes na forma e conteúdo mais variados e díspares se uniram pelo mesmo sufixo cão, e que tem pena que a fonética desta minha sensibilidade corresponda a um erro de ortografia, mas quem não sabe que ao ler à porta do Mercado do Bolhão o letreiro: BENDE-SE FRUTA! está imediata e cabalmente informado da pretensão?

Na cerimónia solene depois do almoço, presidida pelo Tio Mário, realizada na sala do Alambique cheia como um ovo, devidamente pintada, chão arranjado, mais ou menos bem/mal aquecida com salamandra e a gás, preparada com uma Mesa de Honra e cadeiras cerimoniais de veludo e costas altas ainda de Casa do Dr. Amílcar, a Paula e a Benedita até arranjaram, como disse, umas bandeirinhas FO, feitas em papel, que distribuíram para serem agitadas nos momentos de vibração, uma garrafa de Douro e uns copos para os brindes, abri a sessão dizendo umas palavras de circunstância, tal como depois o Zé, e finalmente o Tio Mário. Este falou bem, com a propriedade e sentimento que lhe reconhecemos, salientando as nossas origens comuns na Casa de Matosinhos e, muito especialmente, a sua relação com o Zico, o que nos deixou algo emocionados e sensibilizados. Como se isso não bastasse, como não bastava mesmo, leu-nos uma carta que guardava religiosamente e que o Zico lhe escreveu, pouco antes do seu casamento com a Tia M C, em 18 de Dezembro de 1942, que desconhecíamos, mas que não resisto em registar, graças ao B, e a transcrever:

Vezúvio
(local no Douro onde o Zico trabalhou pela primeira vez, após ter tirado no Porto o curso de Engenheiro Técnico/Instituto Industrial, como ao tempo se dizia e de que nunca gostou),
12 de Dezembro de 1942
Meu caro irmão:
É esta a primeira carta que te dedico, desde que para aqui vim. Não deves reparar que assim seja, porque as cartas que escrevo para os Pais dizem-te tanto respeito como a eles, porque todos são família e por isso igualmente queridos. Agora, porém, o caso é diferente; embora irmãos, embora amigos, a tua vida vai dentro em breve ser muito outra, porque vais constituir um novo lar, uma nova família e essa preencherá para futuro todas as tuas atenções, todas as tuas canseiras e afectos e por muito que te custe a acreditá-la, a verdade é que os que ficam, os que continuam a vida ordinária (devo esclarecer que ordinário significa aqui usual, do costume) não representarão já para ti senão uma parcela do que representavam. Embora não me sinta nesta ocasião com aspirações a D. Francisco Manuel de Melo, escrevendo uma Nova Carta de Guia de Casados, o que é certo é que não esqueço que sou teu irmão mais velho e que, muito embora, te não vá dar conselhos, de que graças a Deus não precisas, além de que tens em casa quem com mais acerto e experiência tos pudesse dar, deixa-me que te diga que fazes bem em casar. E crê que não é uma opinião emitida de ânimo leve, expressa, como tantas vezes se faz apenas por respeitaras ideias e as acções alheias. Não, esta é fruto de muito pensar no teu casamento. Já algumas vezes te tenho ouvido dizer que te prendes sem ter gozado a vida. Eu também já assim pensei a teu respeito. Hoje sou eu quem te diz que fazes bem. Gozar a vida como geralmente se diz significa quási sempre e com raras excepções: estragar a vida, criar hábitos falsos que lhe dão sabor apenas transitório e que, se não são vícios a eles se assemelham muito o mais das vezes. Criar um lar. Constituindo família, é chamar sobre quem dá esse passo responsabilidades que nunca mais se alijam e negá-las é tentar contra princípios cristãos que presidem às intenções mais nobres. Responsabilidades todos temos obrigação de as ter na vida e desgraçado de quem as não tem, como temos direito de aspirar a elas, mas nenhuma acredita, traz as compensações e os gozos espirituais que traz o casamento quando como o teu, é honesto e empreendedor. Tens o beneplácito absoluto dos que têm direito a te serem os mais queridos e quando o não tivesses tinhas a tranquilidade do teu espírito pela certeza do que pretendes e solidez de carácter que te distingue e se alguma vez uma pulsação mais acelerada te faz lembrar que vais modificar para sempre a tua vida um só instante, lembra-te do que acabo de te dizer e ri-te dela. Poderia dizer-te isto num discurso no Grande Dia, mas além de não ter jeito para falar, são coisas a que ninguém mais interessam e que só servem para gáudio da galeria a quem não ligo meio.
Meu caro Mário, ainda nos veremos se Deus quizer contigo solteiro, mas é esta a última carta que te escrevo nesse não menos agradável estado. Por isso recebe por conta um apertado abraço o teu irmão e sincero amigo
Fernando


O Tio M., além de cavaleiro tauromáquico amador, a sua grande paixão que praticava no redondel e com uma tourinha durante o trabalho, mesmo na fábrica de camisas da Rua da Picaria ou 31 de Janeiro, foi um bom garfo e copo de tinto, desportista nadador em estilo livre, guarda redes do Leixões ou keeper, expressão antiga e demodé que ainda utiliza. Um cavalheiro-marialva, lembro-me que quando há perto de 50 anos se começaram a divulgar os gira-discos, ofereceu aos Zicos um disco, ainda em vinil como é evidente, de 45 rotações, com o Fado do Caldas.

Para registar um depoimento consistente sobre o Tio M., quem melhor para isso que o de um Filho? Foi o que diligenciei junto do B. que me disse que, como tu bem sabes o meu Pai, é uma pessoa dotada de muito boas e variadas características.
É uma pessoa naturalmente com uma grande paixão pela Família, pelos seus mais próximos, mas também com enormes apetências para muitas áreas.
Como é usual hoje dizer-se, um homem multifacetado que se fez na Escola da Vida. É uma longa lista de traços e atitudes que o definem e que o tem acompanhado, ao longo de quase estes 85 anos. Anos bem preenchidos, com altos e baixos.
Se fosse o meu Pai a dizer, diria baixos e baixos mais bem preenchidos, tenho a certeza que têm sido.
O Tio M encontra-se em muito boa forma, intelectual e fisicamente activo.
Ainda monta a cavalo.
Recordo que, sempre se disse na Família, que tinha boa cabeça e memória. O que me é confirmado pelo B., para explicar o conteúdo dos versos melo-dramáticos sobre o Pijama, parodiando o tema Fado Hilário, que em tempos escreveu e que recitou no nosso Congresso.
(I PARTE)
O meu pijama velhinho//Tem uma enorme costura//Hei-de levar-te comigo//Quando for p’rá sepultura.
O meu pijama velhinho//Com que cuidados se trata//A ver se com muito jeitinho //Fará as Bodas de Prata.
Eu quero que o meu pijama//Tenha a mesma sorte que eu//Que quando acabar vá direitinho//Bater às Portas do Céu.
Ai o Mário disse em dia//Que jamais será lavado//Já tantas bolandas levou//Está quási todo rasgado.
Ao dormir com este pijama//Durmo quási que nú.//Fico c’as costas de fora//Do pescoço até ao cú.
Até aqui tu bem chegaste//Nas costuras é qu’eu estouro//Chegaste às Bodas de Prata//Veremos se chegas às d’Ouro.//As calças que foram compridas//Não passam de velhos calções//Já não podem ser descidas//Devidos aos grandes rasgões.
Já foi novo e foi bem feito//Como a coisa se transforma!!!//Agora que está tão velhinho//E se encontra quási desfeito, //Depois de tanto serviço//Será justo, coitadinho, //Possa passar à reforma.
(II PARTE)

A história deste pijama//Que tem pilhas de piada,//Só o lava a Maria Cândida//Com vergonha da criada.
Talvez isso vos interesse//E vós gostásseis de ve-lo,//Talvez a moda pegasse//E servisse de modelo.
Passadas as Bodas de Prata//Não mais o visto digo eu,//Irá p’rá Feira da Ladra//Ou p’ra qualquer outro museu.
O que conto é chalaça//Que agora me lembrou//P’ra qualidade que muito tem//Muito tempo ele durou.
O que mais piada tem //Que se ria quem quiser,//Não gastei nele um vintém//Quem m’o deu foi a Mulher.
Se alguém m’o vir vestido//E vir a figura que faço//Vendo o pijama assim em tiras//Chama-me logo, um palhaço.
O pijama de que eu falo//De que já tão pouco resta,//É muito raro usá-lo//Só sai em dias de festa.
Sempre que visto o pijama//Provoca um novo rasgão//P’ra passar no corredor //Tenho que vestir o roupão.
Um pequeno movimento//Que eu faça sem dar por ela,//Abre mais nesse momento//É mais uma rasgadela.
Quando envergo este pijama//E me vejo nele envolto,//Tenho sonhos cor de rosa//Porque durmo a sono-solto.
Adeus pijama, que partes,//Tenho tanta pena disso,//Vais ser agora afastado//Vais abandonar o serviço.
Como surgiram estas rimas, que desconhecíamos, e a que propósito de quê? perguntei intrigado ao B..
Não sei se saberás, mas… provavelmente saberás, o meu Pai tem uma grande enorme facilidade para falar em público, um orador que sabe, seja perante quem for, falar e falar bem. É um dom. É inato e fá-lo muito bem, com muito à vontade.
Claro que me lembro, pois o Tio M, adorava um bom discurso, tal como uma boa piada, se tivesse oportunidade. E se não … arranjava-a, na mesma. Continua o B, para além desta capacidade para transmitir oralmente o que lhe vai no pensamento, tem uma enorme veia poética, que tem vindo a expressar nos mais variados temas e locais. Não são poemas eruditos, mas são poemas inteligentes e com muito humor. Sem rascunhos, directamente na sua inseparável máquina de escrever lá saem as quadras uma a seguir às outras, com grande fluência.
Como disseste, são muitos os temas que o teu Pai aborda, mas tem preferência por algum?
Sejam para o cavalo, seja para o dia de S. Martinho, para a rádio ou revista, sejam para os netos, sejam para as Bodas de Prata, sejam para um Pijama, sejam para um consulta de psiquiatria, para qualquer tema, aí está Ele a escrever.
Na verdade com propósito e bem, continua o B, dizendo-me que o Pai, é uma pessoa que ama profundamente a vida com positivismo. Como normalmente é uma pessoa bem-humorada, a sua veia poética vem ao de cima e a sua musa inspiradora, recomenda-lhe que saia mais uma poesia. Há coisa na vida que cada um de nós tem mais apetência, maior afinidade, mais facilidade e assim o cantor que “canta ao desafio” que em poucos segundos tem de ter uma resposta pronta para continuar, o meu Pai tem também essa capacidade para em poucos minutos e sem rascunhos, fazer umas quadras bem a preceito.
Mas insisto como e porque surgem os versos sobre o Pijama que pareceram tão importantes para serem invocados nesse momento?
O B. explicou-me que é uma obra em duas partes, escrita directamente para o papel, sem qualquer rascunho, como hoje se diz ao vivo e em directo. Quanto à sua importância…
Trata-se da história de um pijama oferecido pela minha Mãe, que se tem conservado, sabe Deus como, ao longo de tantos anos. Este pijama da história, terá a bonita idade de, aproximadamente, 60 anos. O Pijama faz o Casamento. O Pijama faz as Bodas de Prata. O Pijama faz as Bodas de Ouro.
Em suma, o Pijama é peça indissociável da sua vida e, os versos relatam as várias fases por que passou e pode ser cantado com a música do Fado Hilário, notória nas quatro primeiras quadras.
Como disse, neste encontro FO a 5 de Março, festejaram-se além da Família, os meus 60, 22.02. os anos da Paula, 26.02, da N,, 16.02 e também os da B, 05.03.
O Domingos P., que passará a ser um dos nossos trovadores de estimação, e isto sem pretender faze-lo entrar em competição com o P. S. pois cada qual é… como é, cada macaco no seu galho, preparou-nos uns versos que foram cantados, com as velas sopradas.

PARABÉNS AO FERNANDO
Os últimos são os primeiros,//Nesta festa de arrombar,//Parabéns ao Tio Fernando//Vamos lá todos cantar.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?//Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe //Da Família F. O.
Foi em Fev’reiro, vinte e dois//Que o Fernando veio ao mundo//Para ser o primogénito//E um irmão bem cá do fundo.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?//Há! E muito, sim sinhó, //Porque ele é o big chefe // Da Família F. O.
São Primaveras ou Invernos?//Contá-los é que eu não quero.//Mas diga lá se não gosta //De ganhar por seis a zero?
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada?// Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe//Da Família F. O.
Sacou da pena ou da caneta//(Que pró caso tanto faz),//E escreveu-nos um livro//Com mão certa e perspicaz.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada? //Há! E muito, sim sinhó, //Porque ele é o big chefe//Da Família F. O.
Pois este livro teu e nosso//Tem que se comemorar,//Com um familiar brinde//Nesta casa de encantar.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada? // Há! E muito, sim sinhó, // Porque ele é o big chefe//Da Família F.O.
Ergam taça de champanhe//Pró livro não ficar só,//Ele é vida e memória//Da Família F.O.
REFRÃO
Pró Fernandinho não há nada//Há! E muito, sim sinhó,//Porque ele é o big chefe//Da Família F.O.


Para a aniversariante Tia NUNU, cantaram-se os seguintes:
Parabéns Tia Nunu,//Farta de trabalhar,á e muitoHá//Conquistou meio mundo//A fazer o colar.
Vejam bem esta jóia//Que está sempre a brilhar,//Só falta escolher//E depois… é comprar.


E para a PAULA, também aniversariante:
Vinte e seis de Fev’reiro,//Temos que festejar//Os anos da Paulinha//Com a taça no ar.
Na cozinha dá cartas,//E nos doces também.//Muito honra a escola//Da Ana, sua Mãe.
A Biquica, que era a aniversariante do dia, teve também o seu minuto de glória e fama, graças à letra do Domingos P.
Parabéns à Bikika,//Do bel canto uma estrela//Mete as cantaroleiras//Todas numa chinela.//Os quilos não lhe pesam//Nem a roupa a comprime,//Num corpinho danone//De mui jovem menina.


O P. S. fez-se acompanhar aos Montes do seu mini cavaquinho especial e de bolso. E ao final da tarde, à volta de um pequeno lanche, animou-nos com as suas modas e cantares, neste caso bem adaptadas ao momento, glosando uma Rusga tradicional do Senhor da Pedra, interpretada que nem o Rancho Folclórico de Manhouce, com a Isabel Silvestre, que até é sua prima afastada, o Tio Gregório era Silvestre.
Eu vim do Senhor da Pedra,//Mesmo sem beber nas fontes //De Alcobaça é que não saio,//Sem beber aqui nos Montes.
Meu rico Senhor da Pedra,//Diz-me lá o que se passa//Não me dás do teu farnel//Vim comer a Alcobaça.
Ora siga a Rusga,//Assim mesmo e à maneira//Comer bem e bem beber,//É nos Fleming de Oliveira.
Hei-de ir ao Senhor da Pedra//Todos os anos lá hei-de ir//Mas quem vai comer aos Montes//Vai ao Céu e torna a vir.


O D. P., além de poeta, músico, é um doutor. Pedi-lhe a sua opinião sobre o Congresso FO. Com a sua delicadeza, sensibilidade e eloquência, disse-me Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.
Isto é, em Português do século XXI, para os incultos que já não estudaram latim, quer dizer,
Como é belo e saudável ver os irmãos unidos.
Então Domingos P., diz-me lá o que é que achas!
Disse que, não é o início de um sermão do Pe. António Vieira. Nem tão pouco é o exórdio de uma tirada oratória de um preclaro orador, dos que outrora embeveciam corações e fulminavam remorsos com a fluência do verbo e o fascínio persuasivo de uma retórica impertérrita e eficaz. Não é, não senhor! É, tão somente, uma abscôndita, vejam como ele é um doutor e sabe cada palavra difícil!, citação dos livros sagrados, que traduz, de corpo inteiro, aquela tarde simples e saborosa de cinco de Março, passada na Casa dos Montes, acolhendo quatro gerações da Família F. O. Já lá vão uns meses e, passando ao lado do relato dos factos, quero apenas aqui deixar três recordações, que não serão nunca desalojadas de um cantinho privilegiado na minha memória. Lembro, em primeiro lugar, o anfitrião da Assembleia Constituinte da Confraria F. O., cada um chama-lhe uma coisa Congresso, Fundação, Plenário, mas o que interessa não é o nome…, que propôs os Estatutos, com notável solenidade, profissionalismo e poder persuasivo, apanágio de uma carreira longa e experiente na sua arte. O Fernando, arrancou da Assembleia uma retumbante aprovação dos estatutos, por unanimidade e aclamação. Em segundo lugar, ficará sempre gravado na minha memória o Presidente vitalício da recém-criada Confraria F. O. O Tio Mário traduziu, na sua intervenção, o objectivo do ponto único dos estatutos: o encontro e o convívio da Família. A prosa divertida e o versejar fluente do Tio Mário congregam irresistivelmente a família à sua volta. Quem resiste ao doce versinho picante, onde a malícia, mal espreita, logo se esconde? Em terceiro lugar, recordo que esteve nos Montes a árvore da família: o tronco, os ramos, os botões, as flores e as folhas-de cores variegadas, mas nem murchas nem caídas!... Mas a árvore que se vê não é tudo. Faltam as raízes!... E que encantador foi o regresso às origens, explanado pelo Kitolas, num relato intenso e apaixonado, de uma busca peregrina em demanda das raízes desta árvore que, neste jardim à beira mar plantado, continua a crescer!

Como é belo e saudável ver os irmãos unidos.


Gosto de passar ao papel, registar, temas familiares, mesmo que pareçam menores. Quando somos novos, parece que há alguma reserva ou pudor em nos pronunciarmos sobre aquilo que nos antecedeu, talvez por receio de sermos considerados pelos da mesma idade, como cotas ou bota de elástico, que se riam de nós. Recordo o desdém, manifestado perante os outros relativamente ao antigo, mesmo já pensando ao invés. Mais tarde começamos a perceber o que os mais velhos diziam e a imitá-los. Em Miramar, no início dos gira-discos, os Zicos preferiam, o Maurice Chevalier, aos Beatles. E embora não perdido de amores por aquele ou pela Piaff, indo a Paris, sou capaz de comprar uma antologia de intérpretes dos anos 50 ou 60, como aliás fez o Manel quando lá estivemos em 2003. É isto que também distingue os novos, dos menos novos como nós. A nostalgia daqueles leva-os para o futuro, a dos outros leva-nos para os idos…

Que saudades daqueles restaurantes de Coimbra como A DEMOCRÁTICA, com um empregado baixo e rotundo, ostentando três ou quatro cabelos que cruzam uma lustrosa careca, uma camisa muito branca sem mangas, pano no braço peludo e que nos tratava a todos por doutores, não fosse algum não ser, e a dona de cabelo grisalho enrodilhado num carrapito, usando uma bata de sarja em xadrez miudinho, com os pés metidos num tecido farfalhudo.
Dado o Zé Q. ter, felizmente, uma vida muito ocupada, pedi como disse ao B. uns comentários finais sobre esta nossa Reunião Magna, ao que ele anuiu com gosto e me deixou encavacado, mas a que não posso deixar de dar o devido destaque. Disse o B que, acho que esteve bem patente em vocês, anfitriões, a alegria de poder juntar toda a grande Família FO. Teve direito naturalmente ao repasto bem regado e a preceito, teve um hino FO, cinema, cerimónia de investidura e entronização, diaporama, bandeira, recordações de faiança com o brasão, etc., etc., etc.. Por muito completa que possa ser a minha descrição desse dia tão bem passado aí em Alcobaça, haverá sempre muito mais para contar. O importante foi para mim e para os meus mais próximos juntar a Família FO, voltar a ver primos que por variadíssimos motivos não se viam há muito tempo, bem como conhecer novos elementos do clã. Com tanta descendência FO vamos continuar a expandirmo-nos por todo o lado. Se eu fosse jornalista provavelmente o título a inserir na primeira página do jornal poderia muito bem ser este:
GRANDE ENCONTRO DA FAMÍLIA FLEMING DE OLIVEIRA EM ALCOBAÇA EXCEDEU AS EXPECTATIVAS
ou então,
O ENCONTRO FO FOI POSSÍVEL EM ALCOBAÇA
ou então ainda,
A FAMÍLIA FO EM CONGRESSO EM ALCOBAÇA
outro ainda,
ALCOBAÇA FOI O LUGAR DE ENCONTRO DE UMA GRANDE FAMÍLIA - FLEMING DE OLIVEIRA.


A N. realça que, o que mais a cativa nestas reuniões é o ambiente de família que por muito que se não diga, foi muito forte em casa dos Pais, apesar das dificuldades que havia. Sermos oito é uma coisa que me orgulha e tenho pena que não sejamos mais.

FALANDO SOBRE A FAMÌLIA

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA



-UMA CONFIDÊNCIA INÉDITA

Fleming de Oliveira

Vou confessar um pequeno segredo, um mal secreto, talvez um trauma, cuja origem nunca soube identificar, que me atormenta, corrói a alma e provoca insónias. É parecido com a inveja e a cobiça, não mete e nada tem a ver com o mulherio ou dinheiro!
É mesquinho e talvez, por isso, muito democrático, sem categoria, nem classe, como diria com snobismo um amigo meu BA, do Porto.

Mas sou assim. Trata-se do ciúme, esse pecado capital, como se dizia nas aulas de catequese do antigamente e que me crie uma azia, que nem se safa com kompensan reforçado.
É verdade, reconheço, que sou um irremediável ciumento que disfarço, escondo, pois não ando por aí a anunciar. Mas quem nunca sofreu deste mal como a minha Aninhas, que me diga cara a cara ou atire um remoque.

O ciúme, creio ser um pecado muito português, o que não me conforta de sobremaneira. Este é o meu momento de o registar pela primeira vez.
-Cobiça, é querer o que não se tem.
-Inveja, é não querer que o outro tenha.
-Ciúme, é reconhecer ser um outro superior, e saber que não se chega lá.

Embora tenha dentro de mim, este vírus desde pequenino, há muita gente incapaz de descortinar os meus sintomas.
Não espumo bolhas de ciúme, nem o faço brilhar no escuro, mas ao fim de tantos anos já não engano a A..
Tenho ciúme de quem ou de quê? Tenho ciúme de certas cabeças bem pensantes, que reconheço serem muito sofisticadas intelectualmente e especiais, e sinto ciúme de não me poder comparar a elas.

Gostaria de ser capaz de falar como um Marcelo ou escrever como um Eça. Dirão que não me fico por pouco. O óptimo é inimigo do bom? Mas como poderia ter ciúmes de não falar apenas como uma Maria ou não escrever como uma Margarida Rebelo Pinto que, mesmo assim, obtém grandes tiragens e proventos? Já li umas coisas dela. A única gravidade do tipo de literatura light é, apenas se mal escrita, mas quando bem escrita, pode ser uma boa indução à leitura. De António Lobo Antunes retiro esta nota, o que me preocupa são os autores que dizem que puseram os portugueses a ler. Isso é mentira. Puseram sim os portugueses a lerem-nos a eles e isso não é ler.
Mas como disse, sou assim, e abaixo disto, não me conformo.
Por isso, as minhas relações nem sempre são fáceis com pessoas que têm algumas das mesmas minhas fidelidades, as mesmas convicções políticas, religiosas ou assim. Nunca estou totalmente de acordo com essas pessoas, que o diga a Aninhas que é a pessoa mais próxima que tenho e me conhece, mesmo que tenha para isso de inventar no momento, divergências microscópicas, defeitos, formular dúvidas, objecções ou minudências.

Qualquer confrade é um colosso.
Qualquer opositor, não passa de uma besta quadrada. Prefiro? um comunista intelectualmente brilhante, a um democrata atrasado mental, como prefiro um preto compincha, a um branco rude e emproado.
A A., tal como o N. FO uma vez, diz que sou um chato, com quem não se pode falar, que a enfado no meu individualismo crítico.
Na verdade, abomino o colectivo, em todas as suas encarnações, especialmente a acabada soviética.
Quando era Deputado, se pudesse, antes de votar uma Lei, gostaria sempre de lhe acrescentar, pelo menos, um ponto e uma vírgula. Não sei se foi por isso que me mandaram embora, no fim da legislatura do Pinto Balsemão.

Mas também me irrita a estupidez, embora a não deva ignorar. Não será esta uma das Sete Maravilhas do Mundo, mas faz parte deste nosso mundo. Fazer coisas estúpidas faz parte da natureza humana, e não vale a pena fingir que a vida é só feita de inteligência e pessoas inteligentes, sensiblidade e bom senso como eu.
Decepcionado, descrente e descontente vou-me fechando em casa e no escritório, não me contentando no íntimo com o razoável, embora não consiga impugnar, de todo, a tese que o senso comum, afinal tem bem senso.

Provavelmente, tento transmitir ou acreditar em tanta racionalidade, porque sou naturalmente emotivo.
Admito, embora não goste de o reconhecer, que o coração é o meu órgão mais poderoso e influente, digam-me então, porque tive um AVC?, embora eu diga que não, que é a cabeça. O facto de a certa altura ter percebido que o ciúme é uma doença, o facto de o ter de forma tão compulsiva e incontrolada, revela uma aberração, a que não me consigo furtar.
Falei do meu ciúme, mas parece-me que também se pode falar da minha inveja, pequena, a que como bom português não estou de todo imune, que é como aquele, um pecado capital, e que encarada em termos colectivos, tem uma carga negativa.

Não sei mesmo se, é por isso, que não arrancamos em direcção ao futuro.
O trabalhador, tem inveja do patrão, e cada vez tem menos dinheiro e mais precariedade no emprego, o patrão tem inveja do trabalhador que quando despega do trabalho, desliga das preocupações da empresa até ao dia seguinte, o aluno tem inveja do professor, e cada vez sai mais gente da escola a saber menos, o professor tem inveja do aluno que classifica, como indisciplinado ou mal criado, e cada vez há mais professores com baixas psiquiátricas.

-UMA CONFIDÊNCIA INÉDITA

FALANDO SOBRE A FAMÍLIA



-UMA CONFIDÊNCIA INÉDITA

Fleming de Oliveira

Vou confessar um pequeno segredo, um mal secreto, talvez um trauma, cuja origem nunca soube identificar, que me atormenta, corrói a alma e provoca insónias. É parecido com a inveja e a cobiça, não mete e nada tem a ver com o mulherio ou dinheiro!
É mesquinho e talvez, por isso, muito democrático, sem categoria, nem classe, como diria com snobismo um amigo meu BA, do Porto.

Mas sou assim. Trata-se do ciúme, esse pecado capital, como se dizia nas aulas de catequese do antigamente e que me crie uma azia, que nem se safa com kompensan reforçado.
É verdade, reconheço, que sou um irremediável ciumento que disfarço, escondo, pois não ando por aí a anunciar. Mas quem nunca sofreu deste mal como a minha Aninhas, que me diga cara a cara ou atire um remoque.

O ciúme, creio ser um pecado muito português, o que não me conforta de sobremaneira. Este é o meu momento de o registar pela primeira vez.
-Cobiça, é querer o que não se tem.
-Inveja, é não querer que o outro tenha.
-Ciúme, é reconhecer ser um outro superior, e saber que não se chega lá.

Embora tenha dentro de mim, este vírus desde pequenino, há muita gente incapaz de descortinar os meus sintomas.
Não espumo bolhas de ciúme, nem o faço brilhar no escuro, mas ao fim de tantos anos já não engano a A..
Tenho ciúme de quem ou de quê? Tenho ciúme de certas cabeças bem pensantes, que reconheço serem muito sofisticadas intelectualmente e especiais, e sinto ciúme de não me poder comparar a elas.

Gostaria de ser capaz de falar como um Marcelo ou escrever como um Eça. Dirão que não me fico por pouco. O óptimo é inimigo do bom? Mas como poderia ter ciúmes de não falar apenas como uma Maria ou não escrever como uma Margarida Rebelo Pinto que, mesmo assim, obtém grandes tiragens e proventos? Já li umas coisas dela. A única gravidade do tipo de literatura light é, apenas se mal escrita, mas quando bem escrita, pode ser uma boa indução à leitura. De António Lobo Antunes retiro esta nota, o que me preocupa são os autores que dizem que puseram os portugueses a ler. Isso é mentira. Puseram sim os portugueses a lerem-nos a eles e isso não é ler.
Mas como disse, sou assim, e abaixo disto, não me conformo.
Por isso, as minhas relações nem sempre são fáceis com pessoas que têm algumas das mesmas minhas fidelidades, as mesmas convicções políticas, religiosas ou assim. Nunca estou totalmente de acordo com essas pessoas, que o diga a Aninhas que é a pessoa mais próxima que tenho e me conhece, mesmo que tenha para isso de inventar no momento, divergências microscópicas, defeitos, formular dúvidas, objecções ou minudências.

Qualquer confrade é um colosso.
Qualquer opositor, não passa de uma besta quadrada. Prefiro? um comunista intelectualmente brilhante, a um democrata atrasado mental, como prefiro um preto compincha, a um branco rude e emproado.
A A., tal como o N. FO uma vez, diz que sou um chato, com quem não se pode falar, que a enfado no meu individualismo crítico.
Na verdade, abomino o colectivo, em todas as suas encarnações, especialmente a acabada soviética.
Quando era Deputado, se pudesse, antes de votar uma Lei, gostaria sempre de lhe acrescentar, pelo menos, um ponto e uma vírgula. Não sei se foi por isso que me mandaram embora, no fim da legislatura do Pinto Balsemão.

Mas também me irrita a estupidez, embora a não deva ignorar. Não será esta uma das Sete Maravilhas do Mundo, mas faz parte deste nosso mundo. Fazer coisas estúpidas faz parte da natureza humana, e não vale a pena fingir que a vida é só feita de inteligência e pessoas inteligentes, sensiblidade e bom senso como eu.
Decepcionado, descrente e descontente vou-me fechando em casa e no escritório, não me contentando no íntimo com o razoável, embora não consiga impugnar, de todo, a tese que o senso comum, afinal tem bem senso.

Provavelmente, tento transmitir ou acreditar em tanta racionalidade, porque sou naturalmente emotivo.
Admito, embora não goste de o reconhecer, que o coração é o meu órgão mais poderoso e influente, digam-me então, porque tive um AVC?, embora eu diga que não, que é a cabeça. O facto de a certa altura ter percebido que o ciúme é uma doença, o facto de o ter de forma tão compulsiva e incontrolada, revela uma aberração, a que não me consigo furtar.
Falei do meu ciúme, mas parece-me que também se pode falar da minha inveja, pequena, a que como bom português não estou de todo imune, que é como aquele, um pecado capital, e que encarada em termos colectivos, tem uma carga negativa.

Não sei mesmo se, é por isso, que não arrancamos em direcção ao futuro.
O trabalhador, tem inveja do patrão, e cada vez tem menos dinheiro e mais precariedade no emprego, o patrão tem inveja do trabalhador que quando despega do trabalho, desliga das preocupações da empresa até ao dia seguinte, o aluno tem inveja do professor, e cada vez sai mais gente da escola a saber menos, o professor tem inveja do aluno que classifica, como indisciplinado ou mal criado, e cada vez há mais professores com baixas psiquiátricas.