sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

-SERÕES DE ARTE EM ALCOBAÇA E AFONSO LOPES VIEIRA-

-SERÕES DE ARTE EM ALCOBAÇA E AFONSO LOPES VIEIRA-

Fleming de OLiveira

O meio político e social alcobacense do início do século XX, tal como o nacional, foi marcado por disputas entre republicanos e monárquicos, cada um a defender e tentar impor as suas conceções contraditórias. O ideário republicano, mesmo na cisterciense Alcobaça, afirmava a necessidade de implantar a democracia, se necessário contra Reis e Igreja.
Em Alcobaça vivia-se, por vezes, um ambiente histórico e artístico de exceção, ao qual figuras como o monárquico leiriense Afonso Lopes Vieira procuraram conferir dimensão nacional e internacional a par de alguns republicanos. M. V. Natividade relacionava-se com importantes figuras da época e, ao serão, como um cenáculo, debatiam-se no seu escritório temas artísticos, científicos e políticos. Pela iniciativa do poeta, realizaram-se no mosteiro vários serões de arte. De facto, à sombra tutelar do Mosteiro, Lopes Vieira viveu mais de 30 anos perseguido pelo objetivo de defender o património cultural português e fazer chegar ao maior número possível de pessoas, não apenas alcobacenses, a sua ímpar dimensão estética. Afonso Lopes de Vieira, precetor da alma portugues, embora natural de Leiria, passou grande parte da vida em Lisboa, onde aliás viria a falecer. Visitando regularmente o Distrito, especialmente no verão, instalava-se na sua casa de S. Pedro de Moel ou exilava-se nas Cortes (por motivos políticos. Era admirador de Paiva Couceiro), onde também tinha uma casa. Lopes Vieira, nas suas deslocações à Alta Estremadura, visitava com frequência Alcobaça que lhe merecia particular atenção (expressa em textos e conferências) e os seus amigos, com destaque para Manuel Natividade.
A campanha de divulgação da obra de Gil Vicente foi reunida em 1914 no livro Campanha Vicentina. Realizou-se no, redenominado,
Teatro República/Refeitório do Mosteiro, em Janeiro de 1912 um Serão Vicentino. De acordo com o Semana Alcobacense (que condescendia com Lopes Vieira, a quem não arriscava beliscar), poucas vezes a nossa sensibilidade espiritual terá sido mais fortemente impressionada e o nosso sentimento português mais experimentado de emoção e de infinito orgulho, do que o foi nessa noite a tantos títulos notável e de tão inapagáveis recordações. As belezas da nossa literatura quinhentista, verdadeiramente surpreendentes, inéditas para o grande número dos que assistiam, ressaltavam em pródiga profusão da correcta e superior dicção dos intérpretes .
Começou o Sarau com uma conferência de Afonso Lopes Vieira, sobre Gil Vicente, realçando a personalidade do fundador do teatro português, da qual ressalta a sua feição popular e irreverente, o sarcasmo e os conceitos com que impiedosamente castigava os excessos, a corrução dos grandes e as virtudes do povo. Durante a conferência Aura Abranches, Ângela Pinto, Adelina Abranches, Augusto Rosa, Ferreira da Silva, Brazão e Chabi Pinheiro declamaram trechos vicentinos, de Luís de Camões, Rodrigues Lobo e outros autores.
Seguiu-se a representação de O Pranto de Maria Parda, monólogo interpretado por Adelina Abranches, no qual o autor apresenta, cheio de verdade e graça, um tipo de mulher da rua, que lamenta a carestia de vinho (é curioso como ela apreciava o vinho de Alcobaça… o que não impediu alguns assobios por parte de assistentes mais virtuosos).
Todo o Mundo e Ninguém, trecho da farsa Auto da Lusitânia, que constitui uma crítica impiedosa à sociedade do século XVI, simbolizada na personagem viciosa Todo o Mundo, foi interpretado por Augusto Rosa, Alexandre Azevedo, Chabi Pinheiro e Henrique Alves acompanhado de alguns sorrisos e terminado com uma boa ovação.
O Monólogo do Vaqueiro, um dos trechos mais conhecidos de Gil Vicente, foi interpretado pela famosa Adelina Abranches.
Por último, foi dado apreciar o Auto da Barca do Inferno, uma das mais belas peças vicentinas. As figuras, fortemente desenhadas e acentuadas, a crítica caindo como ferro em brasa sobre as chagas sociais do tempo, são ainda, com ligeiras variantes, as do nosso tempo. No fim, vem a apoteose do Povo e o elogio moralista da virtude dos simples. No Serão foi, talvez este, o momento que recolheu mais ovação.
Em suma, foi uma bela noite para os cultores da nossa rica arte portuguesa. O País que possue uma arte tão própria e tradições tão características, pratica um crime gravíssimo ao permitir o abastardamento das manifestações da nossa civilização.
Por isso, admitia o articulista, que a tarefa a que se impôs Lopes Vieira é, apesar de tudo, um ato de patriotismo e, sobretudo, uma afirmação de consciência cívica.
A 17 de Agosto de 1913, realizou-se mais um Serão de Arte, iniciativa alegadamente inserida nessa missão de reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu, que o poeta monárquico fez questão de organizar, com ajuda do seu amigo republicano M. Vieira Natividade.
Este Serão da Arte, incluiu versos declamados por Augusto Rosa, dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço.
Em Agosto de 1914, Lopes Vieira voltou a organizar novo Serão de Arte, desta vez com a presença da soprano Berta de Bívar, do pianista Vianna da Motta e dos coros de Mme. Bensaúde.  
Estas romagens artísticas foram interrompidas pela Guerra, e só retomadas em Julho de 1929, aquando da recuperação da Sala do Refeitório do Mosteiro. A partir de 1935, as romagens adquiram uma caraterística específica em ligação com obras do Mosteiro. Nesse ano, Lopes Vieira levou à cena, no claustro do Mosteiro, o Auto da Mofina Mendes pela empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, num espetáculo a que terão assistido mais de 1.000 pessoas que se aglomeravam e chegaram a discutir com vivacidade, por falta de espaço.
Augusto Rosa (amigo de Lopes Vieira e Natividade) fez a estreia como ator no Porto, em 31 de Janeiro de 1872. Com o irmão João Rosa e Eduardo Brasão fundou a companhia Rosas & Brasão, de que foi o impulsionador, não só pelos conhecimentos culturais, mas também pelo talento como ensaiador. Interpretou todos os géneros, mas destacou-se na comédia e drama moderno. Foi também um aclamado declamador. Publicou Recordação da cena e de fora de cena/1915-e Memórias e estudos /1917. O ator morreu, a 2 de Maio de 1918, no número 50 da rua com o seu nome, em Lisboa, onde existe uma inscrição com os dizeres: Nesta Casa Faleceu Em 2 De Maio De 1918 O Eminente Artista Augusto Rosa Filho De João Anastácio Rosa E Irmão De João Rosa Todos Êles Grandes Actores. No serão de 1913, no Claustro de D. Dinis, Augusto Rosa, que vinha de vez em quando a Alcobaça conversar com M. V. Natividade, nomeadamente sempre que sabia que também se podia encontrar com Lopes Vieira, recitou sonetos de Camões, bem como o Ato V de A Castro, de António Ferreira. Augusto Rosa, em Memórias e Estudos, deixou notas, sobre esse Serão de Arte (que passamos a transcrever). Às nove horas da noite, na Igreja e no Claustro, tudo estava concluído e os que iam assistir ao Serão ficaram deslumbrados com a beleza do Mosteiro, realçada pela sumptuosidade da iluminação. O Serão começou pela admirável conferência feita por Afonso Lopes Vieira Inês da Castro na Poesia e na Lenda. Um dos pontos interessantes e novos dessa conferência é a evocação e a aproximação dos amores de Tristão e Isolda, os namorados imortais, dos amores de D. Pedro e Inês, Afonso Lopes Vieira trabalha num pequeno poema em prosa em que o conto medieval é singelamente narrado, no género do célebre livro de Bedier, La Roman de Tristan et Iseult. Há em toda a conferência um encanto, uma poesia, uma saudade, uma tal profusão de sentimentos finos, subtis, delicados, que o público que assistiu à leitura, comovido e delicado, aplaudiu entusiasticamente o grande poeta quando ele terminou (…). Estava terminado o Serão. A maior parte das pessoas que assistiram à festa retirou-se, ficando apenas umas quarenta, mais íntimas, que foram convidadas para assistir a uma piedosa romaria. Distribuíram brandões acesos a todas essas pessoas que, atravessando o templo, se dirigiram à Sala dos Túmulos, onde repousam Pedro e Inês. Aí, eu, no alto piso da ogiva que domina os dois sarcófagos, recitei à luz das tochas, dominado por uma íntima comoção, o magnífico e impressionante soneto de Afonso Lopes Vieira, escrito para esta solenidade, trabalhado sobre o tema do adeus esculpido na rosácea do túmulo de D. Pedro e que vou transcrever:
Até ao fim do mundo! A grande amada
Escuta o adeus da grande voz sentida
Santa e Rainha, aguarda aquela vida
Que só depois do fim é começada.

Pedra de sonho e cor, foste lavrada
Pela saudade imensa aqui vivida; 
Guarda a saudade, pois, da despedida
É a esperança da hora desejada.

Guarda a saudade que jamais acaba
Que o dia há-de vir, de amor contente
Os que dormem aqui vão esperando.

E no fragor dum mundo que desaba
Hão-de acordar, sorrindo eternamente
Os olhos um no outro enfim pousando.
Na verdade, um dia haverá o reencontro, um dia soarão as trombetas para o Julgamento Final e anjos pressurosos irão ajudá-los a soerguer-se dos leitos de pedra.



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