quarta-feira, 16 de abril de 2014

-A CENSURA (no tempo do Estado Novo) E BENTO DE JESUS CARAÇA, ANTI FASCISTA E MATEMÁTICO-

 
-A CENSURA (no tempo do Estado Novo) E BENTO DE
 JESUS CARAÇA,
 ANTI FASCISTA E MATEMÁTICO-


Fleming de Oliveira



Com referência à censura em Portugal no tempo do Estado Novo, há a referir Bento de Jesus Caraça, antifascista mas posicionado num quadrante político-ideológico bem definido.
Bento de Jesus Caraça, matemático e ensaísta, foi figura de referência da Matemática em Portugal e da cultura de esquerda, sobretudo afeta ao PC. Apesar da morte prematura e de não ter tido oportunidade, por perseguição política, de exercer na Universidade o trabalho que desejaria, a sua capacidade de intervenção, cultural e ideológica, sobrelevou esses problemas e garantiu-lhe um lugar na posteridade, para além do mundo universitário e do memorialismo anti-fascista.
A obra, tal como a vida, espelham a realidade portuguesa, simultaneamente no que esta tinha ou ele entendia de mais grave, a Ditadura e seus efeitos sendo o mais premente, a necessidade de a romper.
A obra mais emblemática que produziu, foi A Cultura Integral do Indivíduo, datada de 1934, embora não seja a sua primeira publicação. De carácter ensaístico, ela persiste como um trabalho de reflexão sobre a ciência na vida dos indivíduos. Muito ativo, Bento de J. Caraça fez parte do MUNAF em 1944 e com Azevedo Gomes promoveu, em 1945, o MUD.
A combinação de espírito científico, empenho pedagógico e atividade oposicionista acabaram por provocar polémica com António Sérgio, que competia com todos os demais e, em particular, com a esquerda comunista pelo primado do apostolado da ciência e da democracia entre os jovens, pelo que em 1945 e 1946, nas páginas da Vértice, a leitura  duvidosa de Platão por parte de Sérgio e a exposição rigorosa de matemática por Caraça, acabaram por ser o menos relevante na polémica entre ambos.
Foi um confronto que vinha de anos antes, entre o idealista espírito seareiro original e a estratégia de influência comunista, materialista, de oposição radical ao Regime.
A polémica entre Caraça e Sérgio, após a II Guerra, veio confirmar a divergência nos círculos oposicionistas portugueses, entre os demoliberais, e os revolucionários marxistas-leninistas próximos do PC, designados usualmente como neo-realistas.

Como não poderia deixar de ser, tamanha projeção prejudicou a sua vida pessoal e profissional. Preso pela PIDE por duas vezes, acabou em 1946 por ser demitido da cátedra na Universidade Técnica de Lisboa.
Permaneceu, porém, uma referência entre os alunos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, que, segundo rezam as crónicas, reduziam a sigla da instituição a Isto Sem Caraça Era Fácil (I.S.C.E.F.).
Esteve ligado à origem da Revista de Economia, cujo primeiro número, foi publicado em 1946, pouco tempo antes da sua morte.
A sua memória está um pouco esbatida, apesar de o seu nome se encontrar repetidamente na toponímia de várias localidades do sul do País, sobretudo nas autarquias de preponderância comunista.
NOTA-cfr. o nosso, NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS




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