terça-feira, 1 de junho de 2010

HISTÓRIAS DE BARBEIROS DO ANTIGAMENTE

NO TEMPO DE SALAZAR, CAETANO E OUTROS
Histórias de barbeiros do antigamente.
O barbeiro (baeta) de Montes-Alcobaça e o barbeiro Baltazar no depósito de água em Caldas da Rainha


Óscar Santos, presidente da Junta de Freguesia dos Montes, conhece como poucos histórias da sua terra.

Recorda-se de ouvir histórias do barbeiro que também era agricultor, aliás a sua lide quotidiana.
Ao fim da tarde e fins de semana cortava o cabelo e fazia barbas. Há quarenta, cinquenta ou mais anos, nenhum barbeiro que se prezasse dispensava trabalhar com a navalha, cuja lâmina afiava numa assentadura, fita de couro, posta num suporte de madeira.
Mas o barbeiro dos Montes era muito especial pois, não passava o fio da navalha no couro da assentadura, como um baeta qualquer, mas no rijo cascão de sulfato com a cal que trazia acumulado nas calças de agricultor.
Por outro lado, a navalha de corte, utilizada nos miúdos, estava tão romba que não cortava, outrossim arrepanhava o cabelo.
Os garotos quando se sentavam na rija cadeira de pau, antes do início da função, começavam logo a chorar.
O barbeiro, todavia, nunca percebeu porque é que os garotos dos Montes, contrariamente aos de outras terras vizinhas como Cós ou Alpedriz, não gostavam nada de cortar o cabelo consigo.

Já que falamos de barbeiros e o Baltasar, barbeiro de Alcobaça?
Isso é outra história que já tínhamos ouvido de passagem.



Por alturas de 1934/35 ocorreram umas estranhas mortes em Caldas da Rainha, ao que se dizia em consequência do consumo de água da rede inquinada com tifo.
A Delegação de Saúde começou a investigar a situação, fazendo análises na rede pública, na nascente às Águas Santas.
Os resultados foram aí inconclusivos mas, por via de dúvidas, foi proibida a apanha e venda dos bivalves da Foz de Arelho.
Mas o surto de de intoxicações e mortes por tifo (?) prosseguia.

Em último recurso, mandou-se proceder à análise da água canalizada recebida em casas particulares.
E, para grande surpresa, chegou-se à conclusão que, o foco da infecção não estava na nascente, mas no depósito da água para abastecimento da rede.
Este situava-se na parte mais alta da cidade, junto à mata, perto do Hospital.

Depois de esvaziada a água do depósito, com grande emoção foi descoberto um corpo, em elevado estado de decomposição, junto a uma grade de ferro, destinada a impedir a entrada de sólidos na canalização.

Apesar do mau estado do corpo, que ali estava há tempos, conseguiu-se apurar a identidade do morto, também pela aliança de casamento, que tinha no dedo.

Segundo Altino do Couto, na altura com 14 ou 15 anos, e que andava a estudar na Escola Comercial e Industrial, de Caldas da Rainha e chegou a ver o corpo estendido numa padiola, acabado de retirar do depósito, apurou-se que se tratava de Baltasar, barbeiro, em Alcobaça, dono de um estabelecimento em frente, ao actual, Café Portugal, na rua Alexandre Herculano, sito entre a loja de ferragens de Gilberto Magalhães Coutinho e a Farmácia Belo Marques.

Identificado o corpo, apurou-se que o Baltasar vinha anunciando à mulher (que não o levou a sério) que se iria matar (por nunca devidamente esclarecidas razões de dinheiro ou amores?) e que ninguém mais o encontraria. O barbeiro Baltasar, de acordo com o Dr. Hermínio Marques, que o chegou a conhecer, pois era quem lhe cortava o cabelo em rapaz, tratava-se de pessoa de cerca de cinquenta anos, educada, respeitada e estimada, pelo que o seu desaparecimento, sem deixar rastos, teve algum impacto na vila de Alcobaça, onde criou emoção.



Conforme ainda nos contou o Dr. Hermínio Marques, o barbeiro matou-se, ingerindo previamente um potente veneno.
Depois atirou-se para o depósito da água da rede pública e lá ficou durante algum tempo.
Durante meses, a população de Caldas da Rainha bebeu da água, onde esteve mergulhado o corpo do infeliz Baltasar, e apesar de a Câmara Municipal, ter anunciado uma desinfecção total e eficaz no depósito da água, gente houve que durante algum tempo se recusou a voltar a beber água da rede, ou tê-la mesmo em casa.

Que recordações acarreta o barbeiro Baltasar?
Nos anos trinta, haveria uma meia dúzia de barbeiros na vila de Alcobaça, cada qual com uma clientela própria, a que não era estranho o respectivo estatuto político-social.
Era um tempo em que o cantar cadenciado da tesoura, manobrada com mestria, ecoava na pequena barbearia, emprestando ao ambiente um ritmo e um toque muito especiais, que os clientes apreciavam.
A barbearia de Baltasar era um espaço pequeno, com um espelho ao alto, duas cadeiras assentes numa base redonda metálica.

O baeta Baltasar usava uma bata branca, abotoada ao lado, e fazia caprichadamente uma barba escanhoada, com uma navalha afiada em assentadores de fita de couro, pedras para deixar a cara coberta de frescura, e dominava os cabelos mais rebeldes, graças a um fixador que ele mesmo fazia, com um pó comprado na drogaria, misturado em água, a que adicionava perfume, conforme o gosto do cliente.

Baltasar, segundo os muito poucos que dele se lembram e nos contaram, foi sempre barbeiro, profissão que começou a aprender em rapaz, apenas interrompida pela tropa.
O pai, também de nome Baltasar, tinha a seu modo uma pequena história de vida.
Pobre, começou a vida profissional abrindo covas para colocar postes, entrando embora sem vínculo para os C.T.T., aonde chegou ao posto de guarda-fios, cuja função era subir aos postes.

A história do avô paterno, tem algo de estranho, pois ao nascer foi rejeitado pelos pais e colocado na roda, em Lisboa (roda giratória onde eram deixados os bébés indesejados. Para o identificarem, eventualmente, um dia, os pais colocaram-lha ao lado uma pequena Bíblia).
O avô de Baltasar, cujo nome não apuramos, terá sido adoptado por uma família de Caldas da Rainha ou arredores, que não lhe deu instrução, nem cumpriu a obrigação de pelo menos uma vez por ano o levar ao orfanato.

No tempo em que o futuro barbeiro Baltasar, ainda não tinha barba para se escanhoar, era frequente os rapazes, concluída a terceira ou quarta classes e que não iam prosseguir estudos por falta de posses, começarem a aprender uma profissão, onde nada ganhavam.
A primeira tarefa que coube ao Baltasar, foi na barbearia de um tio, a fazer trabalhos menores, como varrer e apanhar os cabelos do chão e depois fazer barbas. A sua primeira remuneração foi de três tostões por dia, mas só ao fim de três meses. Tempos difíceis em que se fazia muito e se ganhava quase nada.

O aprendiz Baltasar teve de esperar dois anos para ficar a saber que iria receber quarenta escudos por mês, (uma muito especial atenção por parte do tio), o que significava que já aprendera o mínimo, não dava golpes na cara do cliente, e merecia a confiança do patrão e, claro, do cliente. Assim, até à idade das sortes, Baltasar ficou-se pela barbearia.
Mas, depois de passar uns tempos em Leiria arrumadas a farda e botas, voltou aos cortes de cabelo e às barbas bem escanhoadas, como impunha o cliente.

A barbearia do Baltasar, era do tempo em que se ia ao barbeiro não apenas para cortar o cabelo, fazer ou aparar a barba, mas para pôr a conversa em dia, pois no barbeiro falava-se de tudo, e até se podia ler-se o jornal de graça. Enquanto Baltasar manobrava a tesoura ou fazia a barba, em gestos demorados e calmos, o tempo passado com o cliente, acabava por ser quase um confessionário.
A pessoa gosta de ouvir e também tem sempre algo para contar.Antigamente, quem quisesse conhecer histórias e vidas, ia ao barbeiro ou encostava-se à porta.

O assentador já não faz parte do trabalho de barbeiro, as navalhas foram substituídas por lâminas partidas ao meio, nem mais a pedra para passar pela cara. Ir ao barbeiro fazer a barba, sem se sentir um pêlo ao passar a mão, é hábito que se perdeu definitivamente. Os barbeiros também foram acabando. Entretanto em Alcobaça estabeleceram-se outros que por sua vez já lá vão, como o Nabais, o Zé do Laço (estabelecimento ao lado da antiga Casa Sineiro), o Artur Barbeiro (ao lado do actual Café Restaurante Trindade), o Maleiro (na Rua Alexandre Herculano perto da actual loja de Gilberto Magalhães Coutinho) ou o Baeta (em frente ao Mosteiro).

Um barbeiro em Alcobaça era em geral senhor de estabelecimento discreto, muito discreto, em geral pequeno com o chão aos quadradinhos vermelhos e bejes, paredes revestidas de azulejos brancos e vários espelhos sem moldura. Uma ou duas cadeiras de barbeiro, difíceis de consertar, porque não havia peças em Alcobaça (só em Lisboa) que lhe valessem.
O som da rádio (telefonia), saía de umas pequenas colunas e mesmo, ainda que com pouco uso, parecia que o aparelho queria mostrar que já precisava de reforma. Um ou dois calendários de parede mostravam dias longos, cansados os pés e braços de tanto labutar. Na mesa de madeira ao lado das quatro ou cinco cadeiras para quem esperava, por princípio nunca havia marcações, encontravam-se revistas e jornais, por vezes com alguns dias.

1 comentário:

Alfredo disse...

Tenho seguido o seu blog e as estórias contadas e esta tocou-me particularmente pois revivi longas tardes, na primeira metade dos anos 60s, passadas no barbeiro em S. Martinho e que tinha o estabelecimento num vão de escada exterior no Largo do Samar, frente à “Pharmácia”. Pois foi numa dessas tardes que me sentei numa das cadeiras de madeira, à espera de vez para um corte de cabelo mais caprichoso pois no dia seguinte, logo pela manhã, iria fazer o exame de português na Escola Industrial e Comercial de Caldas. Em espera de vez estava também um velho e rijo pescador, daqueles que só os anos 50 e 60 e antes disso produziram, profissional não só por necessidade de ganhar a vida mas e principalmente por amor à arte piscatória, que não tendo nada de momento para fazer, resolveu contar uma estória trágico-maritimo que lhe tinha acontecido, quando muito mais novo, na longínqua Terra Nova.
Se há coisas que sempre me fascinaram esta de ouvir os mais velhos e particularmente os muito mais velhos, como era o caso, a contarem experiências de vidas passadas, é indubitavelmente de atenção particular e absoluta. A determinada altura o senhor reparou que o único que lhe prestava atenção era eu, o cliente do barbeiro sentado na cadeira de “tosquia” e o próprio não estavam para “aí virados”, pelo que preencheu a sua estória com os mais pequenos pormenores que foram desde os nomes náuticos dos mais variados equipamentos até aos atribuídos aos mais variados peixes pescados por ele e sua campanha e bem assim sobre a arte de pesca, detalhes que ia introduzindo no relato da estória propriamente dita.
O certo é que o tempo foi passando e a minha atenção, cada vez mais absorta ao que ouvia, foi deixando outros que iam chegando, passar a vez e só quando a barbearia ficou sem clientes é que o barbeiro me chamou a atenção. Entretanto tinham-se passado umas horas e nem tinha dado por elas, tal foi o fascínio do momento.
No dia seguinte, como já foi dito, fui fazer o exame de português, prova escrita e, acaso dos acasos, a redacção pedia que contasse uma história que me tivesse impressionado. Mesmo a calhar, contrariando o filósofo que afirmou que “não há coincidências”, desta vez a coincidência existiu e descrevo o relato que na tarde anterior tinha ouvido contar. De tal maneira, longo e preciso, cheio de pormenores, que foi necessário acrescentar folhas suplementares, o que era permitido, à própria folha de prova escrita.
Como resultado final foi a minha dispensa à prova oral com um valor próximo dos 20 e uma alegria inaudita que me acompanhou pelo resto da vida, que também já vai longa para “mal dos meus pecados”.

Resta acrescentar, para que não pense que “caí no seu blog” como um perfeito desconhecido, que nos conhecemos há já longa data, desde que fui Presidente da Assembleia de Freguesia de S. Martinho e tivemos reuniões de partido para resolver determinados problemas autárquicos.

Um abraço
A.Justiça