terça-feira, 1 de junho de 2010

SISSI E OS HABSBURG EM PORTUGAL (Madeira), VISTOS A PARTIR DE ALCOBAÇA

A Imperatriz Elizabete/Isabel, Sissi, do Império Austro-Húngaro, veio a Portugal, à Madeira, por duas vezes.



Vamos fazer um breve apanhado dessas presenças.



Em Novembro de 1860, começou a preparar-se a recepção à Imperatriz da Áustria, que vem passar o inverno à Ilha da Madeira, alegadamente em consequência do seu estado de saúde. A Câmara Municipal do Funchal, votou um orçamento suplementar para as honras da recepção.



A Imperatriz Elizabete/Isabel, chegou à Madeira a bordo do navio inglês Victoria e Albert, emprestado pelos Reis de Inglaterra, sendo saudada pela guarnição da Fortaleza do Ilhéu, com uma salva de 21 tiros e recebeu ainda a bordo as principais autoridades da região, ou seja o Bispo, o Governador Civil e o Comandante Militar. Quando desembarcou para um bote, foi saudada com nova salva de tiros. No momento do desembarque, no Cais da Pontinha, foi dada outra salva, agora no Castelo de S. João Baptista. A Imperatriz, ter-se-á sentido incomodada com o grupo de curiosos que a aguardavam no porto. Mas ao mesmo tempo essa presença alegrou-a, pois tratavam-se de pessoas desconhecidas que aos seus olhos só podiam ser simpáticas. Depois seguiu de carro para a residência escolhida, a quinta de Mr. Davies, sobre a baía do Funchal, onde hoje se situa o Hotel Carlton e o Casino. Era acompanhada pelas autoridades eclesiásticas, civis e militares, pelos corpos militares de infantaria e artilharia que no cais lhe haviam feito as honras do estilo. Sissi, dispensou a guarda de honra que lhe tinha sido postada à porta da residência, bem como outras honrarias devidas à sua hierarquia.



Em Dezembro, Elizabete/Isabel, Sissi fez passeios discretos a pé e de carro pelo Funchal e arredores. Passeava a pé ou a cavalo, numa carruagem puxada por póneis brancos. Conta-se no jornal A Voz do Povo, do Funchal que no dia 4 de Dezembro do ano de 1860, à saída da Sé, onde fora rezar, a Imperatriz Sissi deu uma avultada quantia a uma pobre mulher, mãe de muitos filhos, que vendia violetas, a quem comprou cinco ramos. Este facto depois de ter sido divulgado na imprensa local, comoveu os madeirenses, que admirando já a juventude e a sua beleza, passaram agora a enaltecer também as suas virtudes morais, os modos simples e generosos, qual anjo de bondade, conforto e consolação dos aflitos ou derradeiro amparo dos órfãos e viúvas. Para esse Natal, o Imperador Francisco José mandou à esposa uma árvore de Natal e um nobre que a visitou relatou em Viena que Sissi estava melhor, mas que se sentia horrivelmente deprimida, quase melancólica. Fechava-se amiúde quase o dia inteiro no quarto, chorando. Comia pouco e à excepção de um passeio a cavalo, andando durante uma hora a passo, nunca saía, apenas ficando sentada à janela aberta.



A 25 de Abril de 1861, aproximando-se a data da partida, escreveu-se na imprensa madeirense sobre a gratidão que a mesma Augusta Senhora há feito a bem dum povo, entre o qual pela primeira vez viveu, louvando os actos caritativos praticados.



Em 28 de Abril Elizabete/Isabel, Sissi acompanhada pelo Infante D. Luís, que viera de Lisboa em representação do pai, partiu escoltada pela corveta portuguesa Bartolomeu Dias até Gibraltar e mais dois vapores de guerra ingleses.



Acontece que trinta anos depois, numa muito breve passagem por Lisboa, só por delicadeza acedeu Isabel em encontrar-se com Maria Pia, recém viúva de D. Luís.



A Imperatriz Isabel passou na Madeira os dias em que cumpriu os seus 23 e 56 anos de idade. De facto, voltou bastantes anos depois à Madeira, embora por menos tempo, onde chegou no dia 23 de Novembro de 1893 no Iate Real Greif, sendo saudade com a salva do estilo. Desta vez, a viagem da Imperatriz não foi oficial, viajava incógnita, pelo que dispensou todas as honras, limitando-se a receber um amigo particular, o cônsul austríaco. Não houve bandeiras, arcos-de-flores ou bandas de música. A sua estadia foi no Reid’s New Hotel. Quando passeava na cidade era acompanhada por uma senhora e a curta distância por um marinheiro do Iate. Fez numerosas excursões a pé pela Ilha, acompanhada por um homem mais novo, corcunda e gestos rebuscados. Alta, com 1,72, muito magra, nunca pesou mais de 50 kg e nos seus 50cm de cintura, Sissi estava sempre vestida de luto, pois nunca mais o tirou desde o suicídio do filho em 1889. Um leque escuro oculta-lhe a cara devastada por rugas. A partida, no Greif, ocorreu a 4 de Fevereiro de 1894.



Voltando de novo, à Imperatriz Isabel e a sua relação com Portugal, que lhe serviu de porto de abrigo, sabemos conforme um biógrafo, que era intimamente republicana por influência de um pai liberal e sobretudo do seu professor particular de história.



Bela e também profundamente infeliz, a Imperatriz Elizabete, Isabel, Sissi, passou a vida a viajar, numa busca incessante pelo que acontecia simultaneamente no espaço físico do mundo e no seu interior, a sua alma. A sua inquietação não a deixava permanecer em lado nenhum. Sentia-se impelida a partir sempre, a cruzar os mares, a ir mais além, à procura de liberdade, de paz interior, de solidão, em busca de si mesma e de um sentido para a vida. A liberdade era, para Sissi, um valor essencial. Sentia-se qual gaivota, para partir sobre o mar imenso, tendo um dia escrito que:



Uma gaivota sou, de terra nenhuma,

Não chamo pátria a nenhuma praia,

Não me prendem terras ou lugares,

Eu vou de onda em onda .



Num outro poema, pedia que a deitassem numa praia quando morresse, para contemplar o mar, de modo a que esta fosse a sua última visão. E depois que a atirassem à água, onde fosse mais fundo, pois mesmo que há superfície haja tempestade, no fundo encontrarei a calma.



Elizabete/Isabel, Sissi terá confessado que tenho a sensação de que sou permanentemente impelida. Cada barco que deixa o porto, desperta-me o desejo de embarcar. Ir para onde ele for, para o Brasil, para a África, não importa para onde, apenas não permanecer num lugar.



Esta necessidade está também presente numa outra poesia pois:



Para onde ainda, minha alma?,

Estamos no alto mar,

Ele leva-nos de onda em onda,

Agora para baixo logo para cima. (...)

Para onde? Eis a pergunta,

O grande hieróglifo,

O meu amargo tormento da alma,

O enigma sem fundo .



O seu professor de grego, escreveu oportunamente no seu diário que ela é a rainha das águas correntes. É mais do que isso, é a rainha dos mares.



Oficialmente, quando Elizabete/Isabel veio a Portugal (Madeira) pela primeira vez, em Novembro de 1860, foi por motivos de saúde. A Madeira era conhecida como estância terapêutica, com um clima favorável ao tratamento de tuberculose. Terá sido essa mesmo, a razão da viagem? Duvidou-se muito desse diagnóstico médico, a doença seria antes uma desculpa para a sua fuga da corte, cheia de etiquetas e obrigações, que tanto detestava. Outrossim, ela gostava de passeios, montar a cavalo, cavalgadas que chegavam a durar 10horas, e caçar. Admirava a beleza, ela que chegou a ser considerada a monarca mais bela do seu tempo adorava a poesia, em especial o alemão Heinrich Heine e não lhe interessava, nem a política nem o poder. A rigidez da corte austro-húngara não se compadecia com esta maneira de ser e cedo se sentiu prisioneira desse mundo. Tal como acontecia com o seu filho Rudolfo, que era tido por liberal- antiaristocrático e pró húngaro. Assim começou a distanciar-se e a virar-se para si mesma. Um dos seus biógrafos escreveu que o pretexto da doença abafará tudo isso. Na realidade, pode-se dizer que ela está doente, porque o seu estado de espírito influencia o corpo e o que não passaria de uma pequena anemia, de uma tosse insignificante, com esses comportamentos pode tornar-se uma verdadeira doença.



A sua sogra, com quem nunca se deu bem, terá dito que ela encenou a doença para fugir ao inverno da Áustria e, longe dali, poder viver de acordo com os seus próprios hábitos. Todavia, segundo a sua própria mãe, o problema de Isabel era mais psíquico que físico. Porquê então, a Madeira?



O Arquiduque Maximiliano, irmão do Imperador, conhecia bem a Madeira. Ali estivera pela primeira vez de 4 a 7 de julho de 1852, no regresso a uma viagem ao Brasil, voltou de 6 a 15 de Dezembro de 1859 e ainda de 5 a 12 de Março de 1860. Na Madeira, terá tido um romance com a princesa D. Amélia de Bragança, filha de D. Pedro IV, de Portugal, falecida pouco tempo depois, vítima de tuberculose. O Arquiduque, entretanto casado com Carlota de Saxe, filha de Leopoldo I da Bélgica, ia a caminho de se sentar no trono do México, cuja mulher Carlota veio a mergulhar na loucura, ainda passou outra vez pela Madeira, de 28 a 29 de Abril de 1864. Não admira que tenha ficado ligado à Madeira pelo que é possível que tendo falado desta ilha, tenha assim influenciado Elizabete/Isabel, na escolha. Durante a sua primeira deslocação à Madeira, a certa altura desencadeou-se no mar uma violenta tempestade. Enquanto os outros passageiros se mostraram amedrontados e se sentiam mal, ela admirava o espectáculo, sentia a tempestade, queria participar dela. Em vez de se recolher ao camarote, perante o perigo de ser arrastada pelas ondas, pediu para ser arrastada a um mastro, de modo a admirar o furor da natureza.



De Viena, Elizabete/Isabel, Sissi apenas terá tido saudades dos filhos e dos seus cavalos. Após uma separação de meses, o casal imperial voltou a ver-se em Maio de 1861. Ao fim de 4 dias os acessos de febre, ataques de tosse e de choro voltaram, tomando proporções preocupantes. O médico particular diagnosticou uma tuberculose e propôs uma estadia em Corfu, que se veio a realizar mais tarde.



Porque terá voltado Isabel, à Madeira? Saúde? Procura de distância da corte? Fuga ao inverno de Viena? Tentativa de recuperar os anos passados?



Quatro anos antes desse regresso, uma tragédia abalou seriamente a vida da Imperatriz, a morte do seu filho Rudolfo, e herdeiro do trono, que se suicidou em Meyerling, a 30 de Janeiro de 1889, depois de matar a amante, por não ter conseguido por razões de Estado o divórcio da mulher a Princesa Stephanie, da Bélgica, para casar com uma bela jovem de 17 anos, a baronesa Maria Vetsera. Este casal tinha feito um pacto de suicídio. A corte abafou a verdade. O corpo da baronesa foi retirado em segredo do local e pôs-se a correr aversão que Rudolfo morrera de um ataque cardíaco.



A tragédia parece ter feito parte da vida desta mulher, que teve o seu cunhado preferido, o irmão mais novo do marido, Maximiliano, fuzilado no México a 19 de Junho de 1867, o afogamento do marido da irmã, Ludwig II, e ainda a morte da irmã Sofie, queimada num incêndio de um bar.



Elizabete, Isabel, Sissi ficou para a história como uma mulher enigmática, que não viveu nenhum conto de fadas, mas uma vida trágica, coroada por uma morte também trágica, ao ser assassinada na via pública em Geneve (Suíça), nas margens do lago Leman, a 10 de Setembro de 1898, por um anarquista italiano, que procurava um grande feito em nome da causa, a apunhalou com um estilete, de certo modo por engano, dado que inicialmente a vítima pretendida era o Príncipe de Orleães, pretendente ao trono de França, tido pelos anarquistas como o grande representante da aristocracia. Aqui a toilette da Imperatriz pode ter sido fatal. Depois de agredida a Imperatriz caiu no chão tendo sido ajudada a levantar-se por populares a quem agradeceu. Mas devido ao apertado espartilho, o sangue passou a sair tão lentamente que ninguém se apercebeu que estava gravemente ferida. Antes de morrer e depois de ter percorrido a pé uma centena e metros perguntou:O que é que aconteceu comigo?



A vida de Isabel, Sissi acabou por se tornar um mito, que até hoje continua a fascinar as pessoas e que corporizou o glamour, mas também a dificuldade da vida na corte da Áustria-Hungria, no século XIX.



A cidade do Funchal, decidiu prestar-lhe homenagem e nessa sequência os jardins da Hotel Carlton, junto ao Casino, ganharam nova vida com a colocação de uma estátua da Imperatriz, em bronze e em tamanho natural.



A saga dos Habsburg em Portugal continuou depois de Elizabete/Isabel, Sissi,. Com o termo da I Guerra e a derrota do Império Austro-Húngaro muita coisa mudou no panorama europeu e mundial. Não vamos fazer a história político-militar desses tempos conturbados, mas uma simples evocação dos Habsburg entre nós. O final é triste como convém a estas histórias. Desde a Princesa Maria Leopoldina, futura imperatriz do Brasil, até Carlos, último soberano do Império Austro-Húngaro, todos começaram bem, pelo menos assim-assim, e acabaram mal. Carlos está sepultado na Igreja do Monte-Funchal, perto da casa onde passou os últimos meses de vida. A Madeira, foi o seu porto de abrigo ou de exílio e também a escala para o passamento, aos 34 anos de idade.



Em 1817 desembarcou na Madeira uma jovem princesa estrangeira, Maria Leopoldina filha de Francisco I, da Áustria, que ia a caminho do Brasil, onde a esperava o príncipe D. Pedro, com quem casara por procuração, depois de se conhecerem por retrato. Todavia este casamento foi um autêntico desastre. D. Pedro desprezou-a mal a viu, porque era feia e odiou-a mal a ouviu, porque era culta. No dia em que assumiu o trono do Brasil, D. Pedro promoveu a marquesa de Santos a concubina oficial. Leopoldina deu-lhe os filhos que lhe eram exigidos, desmazelou-se, engordou e entregou-se à melancolia e à bebida. Antes dos 30 anos morreu de um aborto por efeitos de um pontapé que o marido lhe deu, estava ela grávida.



Decorridos 35 anos sobre a passagem de Leopoldina, corria o ano de 1852 chegou à Madeira Fernando Maximiliano de Habsburg, irmão do Imperador Francisco José, que ao que se diz se tomou de amores pela princesa D. Maria Amélia de Bragança, que ali estava em tratamentos e à procura de melhoras. Parece que eles já se conheciam de Viena. D. Maria Amélia, órfã do segundo casamento de D. Pedro IV era uma jovem bela, viajada, culta e brilhante, que frequentara a corte de Viena onde terá impressionado Maximiliano. Morreu ao fim de 5 meses na Madeira, já Maximiliano tinha seguido viagem.



Quando Maximiliano voltou ao Funchal em 1859, nada faria prever que se iria tornar uma figura patética da história moderna. É aqui de certo modo a continuação da sua lua-de-mel, com a bela Carlota, que entretanto desposara, mas que fica no Funchal durante o inverno, enquanto ele segue para o Brasil. No regresso da América passou uns curtos dias na ilha, deixando a marca de pessoa boa e generosa nos donativos.



Voltando a escalar a ilha em 28 de Abril de 1864, Maximiliano vinha já investido do título de Imperador do México. Nunca mais conhecerá horas tão leves como as que ali passou. Em Junho de 1867, a Madeira e o mundo souberam que o Imperador Maximiliano, do México, acusado de traição e usurpação do poder público, morreu num pelotão de fuzilamento. Carlota que viera à Europa mendigar apoio para o marido, entra em estado de loucura.



Quando Isabel, Sissi, chegou ao Funchal, a cidade estava habituada a receber personalidades de relevo. Mas nenhuma outra terá deixado marca tão importante. Segundo Agustina Bessa-Luís, as meninas do Funchal começaram a imitar a Imperatriz no porte, nas indumentárias, nos gostos e até nos caprichos...



A Europa e o Mundo mudaram muito. A Guerra pôs termo a uma ordem há muito moribunda, instaurando outra ainda muito instável, que é uma incógnita. O Império Austro-Húngaro já não existia mais. Carlos I abdicou em Novembro de 1918 e no ano seguinte Karl Renner foi o primeiro chanceler da República da Áustria. A 25 de Março de 1921, Carlos de Habsburg chegou a Viena, via Suiça e França, com um passaporte espanhol falsificado para prosseguir viagem à Hungria, em companhia dos legitimistas mais próximos. No dia 22 de Outubro desse ano quando a avioneta do casal real aterrou na Hungria para arrancar o poder pela força, o governo em sessão desse dia tomou a decisão unânime de o rei Carlos (...) não poderá tomar o exercício dos seus direitos de soberano e terá de abandonar o território da Hungria, outra vez. Depois de falhada a tentativa de restauração, foram feitas pressões para abdicar voluntariamente do trono e prepara-se a lei da destronização. Carlos I desembarcou na Madeira, a 19 de Novembro de 1921, como derrotado e proscrito, acompanhado de Zita, a esposa. A Inglaterra, e os aliados, impuzeram-lhe esse destino depois da recambolesca tentativa de recuperar o trono. Ele assinou a renúncia, sem abdicar dos direitos ao trono. Os sete filhos em breve chegarão da Suíça. Grande número de pessoas acorreu ao cais, praia e Estrada da Pontinha para assistir ao desembarque dos ex-imperadores. Os viajantes sorriem agradavelmente, agradecendo com muita cortesia os cumprimentos que lhes eram dirigidos, embora tentassem esquivar-se a fotografias e filmagens.



O ex-Imperador devia pensar que o esperava um exílio longo. Teve missa todos os dias na sua residência, a Villa Victoria. Uma vida familiar, longe de intrigas, fá-lo-à esquecer dois anos de reinado para que não fora feito.



Como chegou lá? A herança caiu-lhe nas mãos devido ao suicídio de Rudolfo e ao assassinato de Francisco Fernando, respectivamente filho e sobrinho de Francisco José. Pouco tempo antes da sua morte Francisco José comentou que o seu sucessor é realmente um excelente príncipe. O meu povo pode depositar nele toda a confiança.



Se a ilha estava habituada a receber personalidades de destaque foi a primeira vez que recebe um monarca exilado. Mas estranhou quando cinquenta e tal anos depois, recebeu de passagem para o Brasil, Américo Tomás e Caetano.



Qual era o estatuto de Carlos da Áustria? Hóspede ou prisioneiro? Os ilhéus não se queriam ver no papel de carcereiros. Nem este era um Napoleão que também por ali passou a caminho de Santa Helena. Em breve a situação dos ex-imperadores tornou-se constrangedora. O casal real vinha pobre, sem dinheiro ou rendimentos. Além do mais tem sete filhos, o que obrigou a vender joias. Ao mesmo tempo a Checoeslováquia confiscou todos os bens dos Habsburg. Escasseia-lhes dinheiro para tudo, para pagar as dívidas, nomeadamente para se deslocarem à Sé-Catedral onde gostavam muito de comungar. Em Lisboa publicou-se a notícia da divergência sobre o pagamento das despesas com o exílio, pelo que são auxiliados por vários particulares madeirenses durante a estadia. Portugal pretendia ficar à margem de qualquer tipo de responsabilidade, favorecendo uma custódia cujas despesas correriam por conta dos Aliados. Carlos passava muitas tardes embrulhado num capote, por causa do frio e humidade, a jogar cartas com um elemento qualquer da comitiva.



De compleição débil, adoeceu em meados de Março. Nas igrejas da Madeira, a população rezou pela sua salvação, mas veio a falecer em 1 de Abril de 1922. As missas celebradas nas igrejas do Funchal em sufrágio de Carlos de Habsburg foram muito concorridas. No dia 4 de Abril, o Arquiduque Otto, de 12 anos, filho mais velho de Carlos e Zita, foi proclamado rei pelos monárquicos austro-húngaros. Os próprios irmãos passaram a tratá-lo por magestade. No dia 7 de Abril chegaram ao Funchal várias personalidades régias, entre as quais, a Infanta D. Maria Antónia, Duquesa de Parma, filha de D. Miguel de Bragança, que manifestou a sua satisfação por ela poder acolher-se na Madeira, entre Portugueses. Na sala principal da sua casa havia dois retratos a óleo, um de D. João VI e outro de D. Carlota Joaquina, que eram antepassados comuns de Carlos e Zita. Ele era bisneto de D. Pedro IV e ela neta de D. Miguel. Ficou sepultado no cemitério da freguesia enquanto na Igreja não se abriu uma capela para o receber. Mas o coração foi mandado para Viena, a fim de se reunir aos dos outros Habsburg. A ex-Imperatriz Zita e os seus filhos deixaram a Madeira no dia 19 de Maio com destino a Espanha. O seu oitavo filho, aliás uma menina, nasceu em Espanha, dois meses depois da morte do pai, facto que por gentileza foi comunicado à população do Funchal a pedido da ex-Imperatriz Zita. Esta, durante um longo exílio pela Europa, veio por várias vezes ao Funchal, rezar junto ao túmulo do marido. Faleceu em 1989.



Em 1 de Abril de 1972, 50 anos após a sua morte e assinalando esse meio século, quis a Santa Sé proceder à abertura do túmulo do soberano. A exumação dos restos mortais de Carlos I foi feita na presença dos técnicos necessários à operação, uma comissão nomeada pelo Vaticano a pedido da Causa de Beatificação de Carlos de Áustria.

1 comentário:

MARLA CASTRO disse...

Boa tarde,

Gostaria de saber mais sobre a descendência dos Habsburg. Sei que Miguel d'Austria estudou em St. julian's School em Carcavelos em 1951. Será que me podia ajudar?
Cumprimentos
Marla