CICLISMO E ALCOBAÇA
Durante alguns anos, a corrida
Porto/Lisboa que se realizava anualmente a 10 de Junho, foi considerada a prova
velocipédica principal, até ser criada a Volta a Portugal cuja primeira edição
teve início em 26 de abril de 1927, que passou a ser a mais importante do
calendário nacional. A Volta a Portugal em bicicleta beneficiou do entusiasmo
suscitado pelo Raid Hípico a Portugal, que se disputou durante dezoito dias, sob sol e
chuva, umas vezes a pé, outras a cavalo montado, dada a rivalidade entre
o caldense por nascimento, mas cavaleiro por paixão José Tanganho que
montava o Favorito e o Cap. Rogério Tavares no Emir
Com cerca de 330 km numa
única tirada, a Porto/Lisboa era a segunda clássica velocipédica mais longa do
mundo, levando incontáveis espetadores a certos pontos estratégicos, como a
subida de Santa Clara/Coimbra, a Rampa da Padeira/Aljubarrota, as lombas de Vila
Franca do Rosário, antes de tingir a Malveira e a Calçada de Carriche. A Porto/Lisboa, teve a primeira edição em 1911, e como vencedor o francês Charles George, do Clube Lusitano, que demorou
cerca de 18 horas a fazer o percurso. Como
escreveu Abílio Gil Moreira nessa primeira edição não houve cuidado em escolher
o traçado Porto/Coimbra, de tal modo que uns atletas vieram pelos Carvalhos/S.
João da Madeira e outros por Espinho/Cortegaça. Assim, esta edição não foi
homologada, graças às ditas anomalias, apesar de a terem concluído 14 exaustos
ciclistas. Algumas dificuldades do trajeto, que nada tinha de comum com
o atual, foram sendo atenuadas com o tempo pela melhoria das estradas, onde
primava o doloroso piso não
alcatroado ou o traçado acidentado que acompanhava a orografia. A Porto/Lisboa realizou-se ainda
em 1912 e 1913, organizada pela UVP/FCP, tendo sido interrompida em 1923, ano
em que o vencedor foi José Conceição, do Bombarralense. Foi este um ano muto difícil
com grande instabilidade política, económica e social e as pessoas estavam
menos disponíveis para folguedos, pelo que a sua passagem por Alcobaça teve
menos animação que das outras vezes. Aliás, a Câmara Municipal deu fraca
cobertura à divulgação do evento, bem como à sua organização, nomeadamente em
termos de policiamento e segurança. Nas primeiras vezes, a prova suscitou
grande entusiasmo e muitas foram as formas que o povo de Alcobaça teve para
homenagear os heróis do pedal que não ganhavam dinheiro e cujo grande objetivo
era a fama ou um troféu, para embelezar a sala de estar da casa, mostrar aos
filhos ou amigos. Em Alcobaça, as pessoas
concentravam-se na berma da estrada em frente ao Mosteiro com improvisados
grupos de bombos, batiam palmas, incentivavam os atletas, montavam pequenas bancas
para os abastecer com água ou mesmo
vinho do porto, ou sólidos, enquanto os mais arrojados invadiam a estrada e
tentavam de bicicleta acompanhar os corredores durante alguns quilómetros. O
ciclismo dava as suas primeiras pedaladas no Sporting Clube de
Portugal, graças a Soares Júnior, que viria a ser seu Presidente. Em 1912, a seção de ciclismo
do SCP conquistou a primeira vitória significativa, quando Laranjeira Guerra ganhou a Porto/Lisboa. Tratou-se do corredor que, tal como
conta Abílio Gil Moreira fazia sempre uma
pausa em Leiria, não só para se alimentar, como também para um massajador da
região lhe sacudir os músculos das pernas, isto mesmo por cima das ceroulas,
peça de vestuário de que ele não prescindia em tal prova. Na verdade, os
corredores da Porto/Lisboa tinham de pedalar uma noite inteira para poderem
chegar de dia a Lisboa, em estradas não alcatroadas, em bicicletas muito
pesadas pelo que as ceroulas eram importantes para os proteger do frio.
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