terça-feira, 11 de maio de 2010

A taberna (à portuguesa) do António Justo. Uma história com o Carranca

Havia bastantes daquelas vendas, aliás em qualquer recanto do Portugal, aquelas que numa porta era a mercearia e na outra a taberna. Normalmente, eram conhecidas pelo nome ou alcunha do proprietário, como eram os casos do António Justo, do Zé Magala, do Manel Enganado, do Zé Pé-Dorido, do Paiva das Iscas, etc., etc. Lá dentro, na do António Justo que funcionou até quase ao 25 de Abril, respirava-se um ambiente muito tradicional, proporcionado pelo balcão de cimento, forrado com uma toalha plástica. O vinho era servido directamente do garrafão ou do pipo. Mesas só havia duas. Uma redonda feita em pedra dos moleanos e outra de madeira. As prateleiras eram empedra branca e suportavam garrafas de vinho com mais de vinte anos, ou bagaço. Foi neste cenário que António Justo falecido há cerca de dez anos, passou os seus dias, quando decidiu pouco depois de se casar, abandonar o trabalho do campo e estabelecer-se como taberneiro. Os primeiros tempos não foram pera doce. Para ganhar meio tostão, era preciso vender um litro de vinho. Coisa que não era nada fácil, especialmente numa época em que os trabalhadores rurais ganhavam cerca de oito escudos por dia.



Quando a malta vinha do trabalho, de regresso a casa, costumava parar na taberna. Mas havia dias em que não acontecia, porque o dinheiro não abundava. Alguns optavam por beber um copito de branco ou tinto e pagar só ao fim da semana, quando recebiam. Era uma miséria , lembra Francisco Justo, filho do taberneiro com olhar vivo a sobressair da face, também já enrugada.



Das tabernas, podem-se contar histórias com maior ou menor graça (ou desgraça), com justificação para se preservarem de geração em geração. O estabelecimento não tinha hora para abrir, nem para fechar. Às vezes começava a funcionar às sete da manhã.O meu pai, fiel ao trabalho, era conhecido pela assiduidade na abertura das portas do estaminé. Os clientes eram só homens.As senhoras não vinham cá e eu não as censuro, porque já nessa altura havia cafés e locais mais apropriados, justifica enquanto se prepara para beber um copo de tinto, na boa tradição familiar. Quando pousou o recipiente, adiantou uma máxima que diz ter aprendido com o pai: Um copo bem lavado é fundamental, mesmo que o vinho seja ruim. Se estiver manchado, o vinho nem sabe bem.



António Justo nunca gostou do que chamava palavras feias. E quando se reformou dizia que o melhor que guardou de uma vida atrás do balcão, foram as amizades. Vinha muita gente de fora visitá-lo.Houve pessoas que voltaram pois costumavam vir à taberna do meu pai, quando andavam a caçar, conta Francisco Justo por entre um sorriso.



Para além da arte de aviar copos de vinho e bagaço, o velho Justo tinha uma veia de poeta repentista. Um dos letreiros, que tinha atrás do balcão, foi feito por ele e rezava mais ou menos assim:



Um copo não se fia

Nem à noite, nem no dia

Porque o fiado me dá muita pena

A pena dá-me cuidado

Antes quero viver sem cena

Desculpa, meu amigo

Do que vender fiado.



Histórias? Esta aconteceu na taberna do António Justo, frequentada assiduamente pelo Carranca. Não lhe era atribuído, ou conhecido outro nome (carranca de carrancudo?). Não era propriamente um tipo afável, o Carranca era um misto de boçal e conflituoso contestatário, habituado a lidar com gado. Mas o certo é que a sua ausência, rara, muito rara mesmo era logo notada na taberna do Justo. Apesar do seu controverso feitio, havia quem questionasse:



-Tão o Carranca, está doente?



O curioso no meio de tudo isto era que o Carranca não deixava de ser uma pessoa querida de certo modo, embora sem o saber, e apreciado pelos demais fregueses da casa do Justo sem, no entanto o quererem confessar em voz alta.



Certo dia, por graçola, ou por resposta pelos seus maus humores ou alguns dichotes contundentes, convenceram o Justo a servir-lhe vinagre em vez de vinho branco. Certamente que o Carranca, nos seus azedos ditos e de álcool em excesso, nem iria notar…



O homem, depois de algum tempo a mirar o copo, afinal o Carranca também bebia com o olhar, virou-o de uma rápida assentada. De seguida, mirou de novo o copo, passou o olhar de viés pelos comparsas, e, com um ar muito circunspecto, murmurou ao dono da taberna:



-Ó Justo, chega aqui, se fazes favor.



Já no reservado, para que conste o Carranca era amigo do seu amigo e tido por nada invejoso, quis saber:



-Ainda cá tens muito deste branco?



E perante a resposta afirmativa do Justo, aconselhou-o afavelmente:



-Desta vez ainda serviu, mas olha vê se o gastas depressa, pois já tem um picozinho azedo!

2 comentários:

António da Cunha Duarte Justo disse...

Belos tempos!
Obrigado pelo relato!

Cristina Oliveira disse...

Boa Tarde:
O meu nome é Cristina, ando a tentar ser uma Taberneira do secXXI. Não sei se vou conseguir mas o que dependia de mim já foi percorrido quase todo o caminho agora aguardo pela fator sorte tão necessário em qualquer negócio.
Adorei esta História. A minha função de taberneira passa por preservar a tradição...Neste sentido gostaria de pedir permissão para poder partilhar na minha futura e eventual taberna esta história deliciosa e o verso, referindo claro o seu autor
atentamente
Cristina