quarta-feira, 22 de agosto de 2018

POLÍTICA E JUSTIÇA (NO BRASIL)



POLÍTICA E JUSTIÇA (NO BRASIL)

FLeming de OLiveira

-A partir de quem, como eu, não vive no Brasil, país que se debate entre mil contradições e contrariedades que vou acompanhando com interesse, quero todavia compartilhar com os Leitores, algumas reflexões relacionadas com a situação que desde há muito lá se vive institucionalmente.
Da perspetiva de quem não vive o dia-a-dia da política brasileira, devo dizer que não sou capaz de apreciar o espectáculo indecoroso oferecido com os julgamentos (políticos) de Dilma Rousseff e de Lula da Silva (entre outros), pois admito que se visou um golpe de forma institucional pelos interessados em alcançar “tout court” o poder. Gosto muito do Brasil, tenho parentes que há muito vivem lá (mas sempre portugueses!!!) e com quem mantenho contactos regulares.
Resultado de imagem para politica e justiça brasilA interferência da Política sobre o Poder Judicial, a fim de influenciar as suas ações, deve parar. Mas não pára, como uma roda que gira mesmo que por mera gravidade. Parece-me, salvo melhor opinião, que isto é inato da estrutura político-social brasileira, com reflexos inalienáveis na respeitabilidade e credibilidade do país, o que me perturba por admitir uma eventual responsabilidade da colonização portuguesa.
Sei como é perverso esse jogo de interesses cruzados, praticado não em prol da Justiça, outrossim para liquidar o oponente político, instrumentalizando um dos pilares do Estado, que perde o equilíbrio que deve manter, face a fins obscuros, distanciados de uma confrontação transparente e limpa.
A submissão da Justiça a esses interesses tem custado um preço excessivo ao povo brasileiro. O Poder Judicial deve defender os cidadãos perante essa instrumentalização. O objetivo não é, como alegadamente dizem, acabar com o projeto político do Partido dos Trabalhadores e seus expoentes, mas submeter a população, a um sistema controlado (economicamente) pelos poderosos oportunistas.
A luta contra a corrupção (que tem inúmeros tentáculos, mesmo imperceptíveis) é vital, deve ser prioritária em qualquer democracia, ficar muito atenta para contrariar os que se aproveitam da “cegueira” de que a Justiça, por vezes, se louva. Esta deve ter agora os olhos bem abertos (nunca estive de acordo com uma justiça de olhos vendados) para perceber que o ataque ao sistema democrático se consuma num julgamento político, desenhado pelos que se esquecem do povo em benefício próprio ou que se tentam substituir à vontade do povo.
É grande o meu incómodo democrático por estes fatos brasileiros, o que me compele a denunciar o ataque com o qual alguns desejam destruir as estruturas democráticas, interferindo na ação da Justiça em benefício próprio.
Ninguém conquista um Poder para sempre, e o da democracia deve ser ganho e defendido contra os que tentam menosprezá-lo. É necessário lutar permanentemente pela democracia. E é obrigação fazê-lo não só no ou pelo Brasil, mas por todos, porque a democracia é um bem tão escasso que a sua consolidação é missão de toda uma comunidade, onde obviamente nos inserimos.
Resultado de imagem para politica e justiça brasil-Há tempos o antigo Presidente Lula da Silva viu deferido um pedido de “habeas corpus” para a sua libertação imediata da cadeia.
O Tribunal Regional Federal de Porto Alegre aceitou um pedido de “habeas corpus” para a libertação de Lula da Silva, a cumprir uma pena de prisão de 12 anos e um mês, pela prática de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Lula da Silva recorde-se está detido deste 7 de abril, depois de condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  O ex-presidente foi acusado de receber um triplex no litoral de São Paulo para favorecer uma empresa em contratos com a Petrobras.
Lula foi condenado em primeira instância sendo a condenação confirmada na segunda instância.
O “habeas corpus” fora apresentado com o argumento de não existir fundamento jurídico para a prisão de Lula. Mas com surpresa, o Juiz Desembargador de “plantão” nesse fim-de-semana, deferiu o pedido. Entretanto, redigiu outros dois despachos no mesmo sentido, reforçando a sua posição perante a ação dos juízes Sérgio Moro e João Gebran Neto, ambos com responsabilidades na investigação anti corrupção, “Operação Lava Jato”, e que tentaram impedir a execução, e suspender, a ordem de libertação imediata de Lula.
Foi um domingo de choques jurídicos entre diversos magistrados (todos de alguma forma “comprometidos”), mas que terminou com a manutenção de Lula da Silva na prisão. Enquanto a tensão política subia, com o PT a convocar os seus apoiantes para manifestações de apoio a Lula da Silva, e outras contra manifestações a saírem à rua, o imbróglio jurídico-político subiu para o Presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que recebeu e deferiu os recursos da Procuradoria da República e de um advogado, revogou a ordem de soltura determinada horas antes pelo desembargador de “plantão”.
 -Se o Direito é o que nos separa da barbárie, também pode ser usado para torpedear o bom senso, atropelar a ética e ser a lixívia que se utiliza para remover as nódoas legais mais difíceis.













PORTEIRO, ANALFABETO!


PORTEIRO, ANALFABETO!

FLeming de OLiveira

Alberto Silva era, há 16 anos, porteiro no Liceu (…). Usava a respetiva farda com tranquila satisfação, pois com o boné era um símbolo das funções que exercia, e sem ela quando ia para casa, sentia a impressão de não estar suficientemente vestido. Era alto, seco, grave e digno. Se não se confundia com o Reitor, assemelhava-se pelo menos a um ator da velha escola, especializado em papéis de “época”, do género representado, no Teatro D. Maria. Tinha tato, firmeza e segurança. O seu caráter era inatacável.
Um dia, foi-lhe solicitado assinar um documento e, perante espanto de todos, fê-lo sem ler, de cruz.  Afinal, o porteiro do Liceu não sabia ler nem escrever. O padre da sua paróquia sabia disso e dizia-lhe mesmo que “não fazia mal, pois que havia demasiada instrução no mundo”.
Mas um porteiro analfabeto do Liceu (…), era coisa inadmissível, pelo que foi despedido. A escola ficava numa ótima zona residencial e os alunos eram filhos de gente importante e de bom tom. Foi-lhe assegurado ter cumprido o trabalho de modo absolutamente satisfatório, era tido no mais alto conceito, tanto pelo caráter como pela capacidade. “Mas não podemos nem devemos de modo algum arriscar-nos a algum acidente que poderia acontecer em consequência da sua ignorância, o que é lamentável. Trata-se de uma questão de prudência, assim como de princípio”.
Sem saber o que fazer, com mulher e filhos em casa, não conteve um suspiro. Pôs tudo em ordem, vestiu o sobretudo, e, chapéu na mão, percorreu o hall do edifício. Saiu, fechou a porta, e encontrou-se a vaguear pelas imediações, absorto em pensamentos, quando lhe apeteceu, desesperadamente, beber um café e um bagacinho. Procurou, perguntou, mas não viu lugar onde pudesse abancar.
O Liceu (…) situava-se numa rua comprida, com toda a espécie de comércio, mas não havia uma casa onde se pudesse beber um café ou tomar um bagaço.  
Resultado de imagem para analfabetoO Sr. Alberto começou a trabalhar com doze anos, num pequeno restaurante lá da terra. O cozinheiro tentou ensinar-lhe a ler, mas viu-se que não tinha muito jeito para as letras. Nunca achou falta disso e entendia que muitos moços desperdiçavam o tempo a ler, quando podiam perfeitamente estar “a fazer alguma coisa de útil”. Nunca teve vontade de ler as notícias dos jornais. Nunca sentiu vontade de escrever uma carta e vivia bem assim. A esposa era muito instruída e, quando precisava de escrever uma carta, ela fazia-o por ele. Pensavasou um animal muito velho para aprender coisas novas. Há anos vivi sem aprender a ler e a escrever, e, sem querer me elogiar, posso dizer que cumpri o meu dever nesse estado da vida em que a Providência misericordiosa julgou de bem me colocar, e, mesmo que pudesse aprender agora, acho que não me resolveria”.
Poupara algum dinheiro. Não era suficiente para viver sem trabalhar. E a vida em Portugal estava mais cara de ano para ano, embora Salazar e o ministro Ulisses Cortez assegurassem o contrário. Nunca pensara que algum dia teria de preocupar-se com tais problemas. Os porteiros deste Liceu, como os Papas, eram vitalícios.
Com o dinheirinho que tinha guardado para uma contrariedade e outro que pediu emprestado, abriu um pequeno restaurante na terra, aonde regressou. A mulher cozinhava muito bem e ele não era desajeitado de todo na “arte”.
Saiu-se tão bem que, aproximadamente dentro de um ano, ocorreu-lhe que poderia fazer obras e aumentar o espaço e a ementa muito portuguesa do restaurante.   
Esta decisão revelou-se um sucesso. A filha passou a colaborar no dia a dia, e foi contratada uma mulher para servir à mesa e lavar a louça. Algum tempo depois tinha-se transformado no dono de um dos mais afreguesados restaurantes da região. Aos sábados e domingos constituíam-se filas de espera na ânsia de arranjar mesa. Havia mesmo pessoas que vinham de longe. À segunda feira fechava o estabelecimento e ia depositar a receita no banco.
Certa manhã, quando estava a depositar um maço de notas e uma pesada bolsa de moedas, o caixa do banco disse-lhe que o gerente desejava falar-lhe. A conversa ia no bom caminho quando ao ver o Sr. Alberto assinar de cruz os documentos, o bancário não queria acreditar que estava diante de um analfabeto. "O senhor não sabe ler nem escrever? Espantoso! O senhor é hoje o que é, sem saber ler nem escrever! Já pensou no que seria, se tivesse estudado?"
"", respondeu calmamente o Sr. Alberto, "seria ainda porteiro no Liceu (…) ".
Esta é uma história não propriamente muito original e o tema tenho-o lido ou ouvido de várias maneiras. Foi-me, porém, contada pelo neto do Sr. Alberto (este entretanto falecido), que mantém o restaurante aberto, a cerca de 30km de Alcobaça.
Depois de ter escolhido o título para este apontamento fiquei a pensar... Um título sem criatividade, tão evidente, tão lugar comum e senso comuns, tão cliché. Depois pensei.  Mas afinal tão necessário, tão urgente, tão essencial...
Uma das melhores características do ser humano é a capacidade de planear. Traçar os rumos do destino, fazer planos e sonhar com dias melhores, fixar metas, idealizar como vai estar daqui a alguns anos, o que pretende fazer.
Sonhamos com uma atividade profissional que dê uma vida confortável, possibilite manter a família com dignidade, traga a estabilidade financeira e, se possível, o reconhecimento social.
O adolescente pode ver a escola como um celeiro de opções para escolhas vocacionais, e mesmo não chegando a amar o ambiente escolar, consegue, todavia, tirar dali algum proveito. Outrossim, vê a escola como um obstáculo para a vida adulta e nesse caso vai achar que está a perder tempo e detestar a situação compulsiva de ter que estudar.
Em Portugal, alegadamente, tenta-se motivar o jovem para saber mais, criar e produzir. É o seu dever. É o que seus pais e o país esperam dele.
A leitura é um instrumento importante para desenvolver o pensamento, a linguagem, o raciocínio e a personalidade. Foi essa mensagem que em menino colhi em casa de meus Pais, “quem lê mais terá mais facilidade para interpretar textos, coordenar e expressar ideias e desenvolver habilidades em qualquer momento da vida”.
Bem sei que as expectativas se frustram facilmente. Mas o caso do Sr. Alberto Silva não passa de uma mera história, por cujo conteúdo não me responsabilizo de todo.

A GUIDA FUGIU COM UM RAPAZOLA OU O PÉ DA LUIZINHA CARNEIRO



A GUIDA FugIu COM UM RAPAZOLA
OU
O PÉ DA LUIZINHA CARNEIRO

FLeming de OLiveira


Uma noite destas, em Coimbra, depois do jantar com uns casais em casa de uns amigos, enquanto se bebia mais um copo ia passando um telejornal, dando conta (como é habitual) dos horrores e desastres do mundo, entrecortados com apartes de aborrecimento e ar pesaroso dos circunstantes, um atentado suicida matara não sei quantos em Cabul, um terramoto matara duas mil pessoas na China, Puigdemont continua com mandato de captura, um grande incêndio está a lavrar em Monchique, etc., etc. 
A Leonor, muito expansiva, sobre quem normalmente mais convergem as atenções, de súbito levou as mãos à cabeça: Quem diria!!! Surpresos, olhamos atentos. E ela, na sua emoção explicava:
A Guida, deixou o marido e fugiu com um rapazola que podia ser seu filho. Pelo menos em termos de idade. Mais ou menos…
A sala inteira alvoroçou-se. Todos nós conhecíamos a Guida, linda menina de minissaia, colega de curso dos anos 60, mas ninguém se interessava, de todo, por essas calamidades no mundo.
No dia seguinte, já em Alcobaça na esplanada do Bibi, ao voltar a página do jornal rápida e indiferentemente, sem ler propriamente o texto da notícia que referia em título os mais de 40 mortos no atentado suicida no Afeganistão, lembrei-me de Eça de Queirós (in Cartas Familiares e Bilhetes de Paris) e pensei para mim:
Será que estou conquistado pela síndroma do Pé da Luisinha Carneiro”?
Mas quem é a “Luisinha Carneiro”? Para explicar a associação de ideias, mal cheguei a casa fui reler o meu predileto Eça de Queirós.
"Bem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, à luz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos já dourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa, outras senhoras costuravam. Espalhados pelas cadeiras e no divã, três ou quatro homens fumavam, na doce indolência do tépido serão de Maio. E pelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com o sussurro das fontes, o aroma das roseiras.
No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam as calamidades. Era uma dessas semanas também em que pela violência da Natureza e pela cólera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.
Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas...» As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa – e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio trasbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados...». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!» A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas... Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um «oh!» de dolorida surpresa. No Sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortes, onze ferimentos...» Uma curta emoção, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses... Todos lamentaríamos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.
A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno... E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça:
– Santo Deus!...
Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:
– Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista... Esta manhã! Desmanchou (torceu) um pé!
Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.
As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara (torcera) um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.
Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume”.
Resultado de imagem para eça de queirozBom caros leitores, é um tal primor a descrição queirosiana, que fico quase sem ânimo de acrescentar um comentário.
Mas o que Eça sustenta, com graça e alguma malícia, tem uma grande parcela de verdade. Quer dizer, se a afetividade começa pelos  mais próximos, é natural que sintamos mais o que acontece em relação aos circunstantes.
Depois, sendo certo que a sensibilidade é algo que se impressiona com o que passa pelos sentidos, também o são as coisas que atingem a sensibilidade e causam uma impressão maior. Mas devemos distinguir a impressão, de um juízo. Por exemplo, se eu vir um automóvel passar por cima de um cão e o matar, o sangue jorrar até mim e os miolos aos meus sapatos, evidentemente isso causa-me uma sensação de destruição maior do que saber que a essa hora está a sair para o cemitério o enterro de um homem que conheço vagamente.
Quero enfim dizer, que isto é razoável, está na minha estrutura. Mas é razoável também que o ser humano qualquer dotado de razão e que conhece as limitações e contingências de sua estrutura, saiba restabelecer, na medida do necessário, a escala dos valores.
Mas verdade, verdadinha seja dita, os meus “chineses”, foram os afegãos mortos em Cabul, entretanto sepultados pela minha indiferença. E  Luisinha Carneiro” está, com o seu pé dorido, ansiosamente a aguardar tal como nós, a novidade picaresca que alguém traga da Guida.
Este é o mundo que temos e que nunca muda muito.








NO TENHO VERGONHA DA NOSSA HISTÓRIA


NO TENHO VERGONHA DA NOSSA HISTÓRIA

FLeming de OLiveira
-Na revista Sábado, de 16 de maio de 2018, João Pedro George, escreveu com empolgado estilo, extenso artigo sobre “coisas que nos incomodam e nos envergonham, coisas que provocam náuseas - pelo menos a mim - e envenenam a nossa vida coletiva”.
A que é que se estava a referir?
Ao debate que se estabeleceu em torno da proposta de um Museu das Descobertas ou dos Descobrimentos e à persistente Toponímia Colonial das nossas cidades.
-No recente 10 de Junho, Catarina Martins/ BE, havia criticado os discursos oficiais por continuarem a não reconhecer "a enorme violência da expansão portuguesa ", bem como a "história esclavagista, a responsabilidade no tráfico transatlântico de escravos" de Portugal, que esse reconhecimento "até podia ser num 10 de Junho ", concluindo, "mas ainda não foi hoje ".
-Existe, segundo o articulista de Sábado (que não conheço), uma controvérsia sobre o nome a dar ao eventual museu (não passa ainda de uma intenção no papel) que se pretende fazer em Lisboa sobre as viagens marítimas portuguesas.
Resultado de imagem para historia de portugalPerante a sugestão de que se chamasse “Museu das Descobertas” ou “Museu dos Descobrimentos”, de pronto surgiu, segundo assegura, “um berreiro exaltado” e vozes a clamar por um nome menos “comprometido”.
Sem querer, ao que assegura, desvalorizar a questão terminológica, George defende que a ideia do museu “salta por cima de coisas que estando inexoravelmente ligadas deverão ser resolvidas antes de mais nada. Refiro-me à toponímia colonial das nossas cidades”.
”Não faz sentido que o espaço público continue a ostentar nomes que pertencem ao imaginário do Império Colonial”.
Creio que as afirmações destas personalidades (seguramente haverá outras com idênticos sentimentos) permitem-me concluir, salvo o devido respeito, estar perante pessoas “complexadas” (embora suponha que George, não descende de alguém com a “profissão inaceitável de colonizador”) relutantes da própria identidade/origem, obcecadas pela prestação do politicamente correto que recria uma história exclusivamente negativa.
Os portugueses com exceção das ilhas atlânticas, aliás desérticas, não desdenharam a violência que à época implicava. Sabe-se que Afonso de Albuquerque foi um guerreiro arrojado, intrépido, não muito tolerante e os outros capitães de frotas e naus como Vasco da Gama ou Cabral, não devem ter sido mais tolerantes com o pessoal que comandavam e especialmente com o inimigo. Desde sempre e por natureza as operações de conquista são feitas pelo uso da força, normalmente impiedosa, não obstante o alibi da expansão de Fé. Eliminar os inimigos e a captura e uso de escravos, fez parte da nossa empresa ultramarina, como era usual e defendido ao tempo pela Cristandade e pelos países alegadamente mais civilizados.
Mas que dizer de D. Afonso Henriques, do Infante D. Henrique, do Santo Condestável, Serpa Pinto e tantos outros da nossa gesta continental ou ultramarina, que não se limitou ao sec. XIX?
O culto e mitificação dos heróis nacionais fez, faz e fará parte da cultura e da identidade da Nação. Portugal tem heróis, nas ações de conquista ou na resistência, fator de coesão, sobretudo quando são figuras importantes para a nossa identificação como Povo.
Reduzir a expansão portuguesa ao sec. XIX, a uma lista negra e a uma sucessão de abusos não é correto, nem sério. Creio que qualquer uma das personalidades suprarreferidas (concretamente George), tem conhecimentos que vão para além deste período.
A ideia de que a memória contemporânea dos povos, acerca da passagem dos portugueses, é totalmente negativa, só pode ser argumentada por quem nunca andou por essas paragens ultramarinas. Creio não ser o caso de George, se é que tem ido a Moçambique.
Bem sei que há memórias negativas, mas também as há positivas, bem como as mais ou menos neutras, se é possível referir assim. Note-se que não estou a dizer que os portugueses são aclamados por todo o mundo, mas tão-pouco são vilipendiados por todo esse mesmo mundo, concretamente nas antigas possessões de África, Índia e Ásia.
-Em 15 de Dezembro de 1897, Mouzinho de Albuquerque aportou em Lisboa recebido em apoteose, tendo direito a uma espécie de desfile triunfal pelas ruas da Capital.
No Porto, em janeiro de 1897 este militar foi entusiasticamente recebido, pois entendia-se que defendia o império dos “insaciáveis apetites estrangeiros”. A Estação de Campanhã encheu-se de gente para vitoriar o herói, agitando lenços brancos e bandeiras nacionais e o cortejo que se formou foi saudado com flores lançadas sobre Mouzinho. Na sequência de algumas receções solenes, na Associação Comercial do Porto recebeu uma Espada de Honra, desenhada por Teixeira Lopes.
Depois, iniciou um périplo pelas capitais da Europa, Londres, Paris, Berlim, onde, com grande divulgação mediática, fez palestras e colóquios bem saudados nas respetivas Sociedades de Geografia.
O nosso povo se era “estúpido, inculto e facilmente manipulado pelos padres e caciques”, nele incluíam-se muitos pro-república. Reconhecimento público não deixou também de ter Alves Roçadas, pelas suas campanhas em Angola.
George louva-se, ao que creio, de ser republicano, democrata e apto a interpretar a História, pelo que eu apreciaria saber o que pensa das afirmações de Afonso Costa, também republicano e democrata, sobre o direito do povo português a expressar a sua vontade, que não teve reservas em mobilizar para África e Europa, com o objetivo de assegurar a defesa do Império.
Se querem fazer eleições com analfabetos, façam-nas os senhores (Evolucionistas) porque eu quero faze-las com votos conscientes. (…) Indivíduos que não conhecem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exatas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não vem ir à urna, param não se dizer que foi com esses carneiros que confirmamos a República”.
Esses indivíduos eram quatro milhões e meios de portugueses, quatro quintos do País, como saberá George.
-Quando já quase toda a Europa tinha descolonizado, neste retângulo ainda se falava, como verdade indiscutida, do “Ultramar” e do “Portugal do Minho a Timor”.
O Estado Novo, prosseguindo o enquadramento colonialista e republicano (recorde-se mais uma vez a participação de Portugal na I Guerra), pretendeu dar a essa expansão a característica de “santidade” civilizacional, e usou Os Lusíadas, como bíblia escolar. A minha geração deve ter sido, mesmo, a última que foi inundada por uma historiografia apologética/romântica, de que muita da estatuária construída é expressão, tal como a Toponímia.
Mas quanto à colagem das Descobertas, exclusivamente ao Estado Novo, considero-a um exagero fácil de desmontar, mas que aqui não posso (por falta de espaço) ir mais longe.
O mundo nunca mais seria igual depois de as caravelas portuguesas sulcarem o Atlântico e derrubarem velhos mitos. No início do século XV, o mundo estava compartimentado e muitas civilizações viviam fechadas sobre si próprias. A conquista de Ceuta, e a passagem do Cabo Bojador, fizeram de Portugal, com lágrimas e dor, o pioneiro da Expansão Europeia, movimento que se tornou imparável e irreversível. Outras civilizações tinham galgado os seus limites originais e alargado muito a sua influência ou mesmo o seu domínio, adquirindo até configurações intercontinentais, como sucedera na Antiguidade com o Império de Alexandre e depois com o dos romanos, e mais tarde com o Califado e o Império Mongol.
Nenhum destes movimentos, que chegaram a parecer imparáveis e avassaladores, conseguiu persistir. 
Resultado de imagem para paineis de nuno gonçalves-Desde então pelo menos, Portugal apresentou-se ao Mundo como País dos Descobrimentos. A nossa aventura foi fantástica tendo em conta o esforço feito por um pequeno povo, e de poucos recursos. Constitui uma arrogância histórica, se não mesmo atavismo, fazer juízos de valor sobre atos cometidos à luz de conceitos e princípios bem distantes dos de hoje.
Uma coisa é reagir a crimes cometidos, quando já vigoravam padrões de valores civilizacionais muito próximos dos atuais (p.e. o Holocausto ou o Estado Novo, salvaguardadas as devidas proporções), outra é procurar episódios de um passado, assumindo culpas (à luz dos princípios de hoje). Por essa ordem de ideias, estariam Catarina Martins ou João George, um destes dias, a pedir contas ao Estado Português pela brutalidade das Invasões dos Vândalos, a Reconquista, ou a Inquisição.
Para Portugal, as Descobertas foram mesmo descobertas, de terras e de gentes que dominou, por muito que, aqui ou ali, pudesse ter havido práticas compulsivas.
Reconhecendo isso, não prescindo de relevar o caráter fantástico e pioneiro da empresa das navegações e da gesta ultramarina, no que tiveram de avanço para o conhecimento e abertura do mundo. O mundo mudou, irreversivelmente, sob o impulso de Portugal, o que gerou progressos científicos, enriquecimentos culturais.
Somos, enquanto povo, o somatório dos vários segmentos sucessivos da nossa História. No terreno colonial, Portugal não obstante alguns matizes próprios, seguiu um padrão comum aos “evoluídos e civilizados” conquistadores europeus, não só no sec. XIX. Foi o que foi e assim deve ser estudada, entendida e exposta, com transparência histórica. 
-Eduardo Lourenço escreveu não compreender a necessidade de "crucificar " o País por causa do seu passado colonizador, sublinhando que não houve maldade na génese e que o mal feito já não pode ser reparado.
-Num trabalho sério em torno do passado, importa não esconder nenhum aspeto da verdade, devendo, contudo, haver preparação para que essa leitura esteja de acordo com as diversas perspetivas temporais, também elas decorrentes da experiência temporal de cada um. Não é o caso do artigo de George.
-Há gente que renega a História (não faço a injúria de dizer que é o caso de George), na impossibilidade de a apagar como ocorre no livro “1984”, romance de George Orwell, que ficciona o quotidiano de um regime político totalitário e repressivo, que mudava fatos históricos capazes de incomodar o sistema, a literatura histórica era reescrita, enfim, os factos manipulados.
Citando João Pedro George. "Nada me dá mais prazer do que irritar aqueles que se acham mais cultos que a maioria".












quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Cadernos de Estudos Leirienses e a 1ª Guerra


Porteiro, Analfabeto!


Alberto Silva era, há 16 anos, porteiro no Liceu (…). Usava a respetiva farda com tranquila satisfação, pois com o boné era um símbolo das funções que exercia, e sem ela quando ia para casa, sentia a impressão de não estar suficientemente vestido. Era alto, seco, grave e digno. Se não se confundia com o Reitor, assemelhava-se pelo menos a um ator da velha escola, especializado em papéis de “época”, do género representado, no Teatro D. Maria. Tinha tato, firmeza e segurança. O seu caráter era inatacável.
Um dia, foi-lhe solicitado assinar um documento e, perante espanto de todos, fê-lo sem ler, de cruz.  Afinal, o porteiro do Liceu não sabia ler nem escrever. O padre da sua paróquia sabia disso e dizia-lhe mesmo que “não fazia mal, pois que havia demasiada instrução no mundo”.
Mas um porteiro analfabeto do Liceu (…), era coisa inadmissível, pelo que foi despedido. A escola ficava numa ótima zona residencial e os alunos eram filhos de gente importante e de bom tom. Foi-lhe assegurado ter cumprido o trabalho de modo absolutamente satisfatório, era tido no mais alto conceito, tanto pelo caráter como pela capacidade. “Mas não podemos nem devemos de modo algum arriscar-nos a algum acidente que poderia acontecer em consequência da sua ignorância, o que é lamentável. Trata-se de uma questão de prudência, assim como de princípio”.
Sem saber o que fazer, com mulher e filhos em casa, não conteve um suspiro. Pôs tudo em ordem, vestiu o sobretudo, e, chapéu na mão, percorreu o hall do edifício. Saiu, fechou a porta, e encontrou-se a vaguear pelas imediações, absorto em pensamentos, quando lhe apeteceu, desesperadamente, beber um café e um bagacinho. Procurou, perguntou, mas não viu lugar onde pudesse abancar.
O Liceu (…) situava-se numa rua comprida, com toda a espécie de comércio, mas não havia uma casa onde se pudesse beber um café ou tomar um bagaço.  
O Sr. Alberto começou a trabalhar com doze anos, num pequeno restaurante lá da terra. O cozinheiro tentou ensinar-lhe a ler, mas viu-se que não tinha muito jeito para as letras. Nunca achou falta disso e entendia que muitos moços desperdiçavam o tempo a ler, quando podiam perfeitamente estar “a fazer alguma coisa de útil”. Nunca teve vontade de ler as notícias dos jornais. Nunca sentiu vontade de escrever uma carta e vivia bem assim. A esposa era muito instruída e, quando precisava de escrever uma carta, ela fazia-o por ele. Pensavasou um animal muito velho para aprender coisas novas. Há anos vivi sem aprender a ler e a escrever, e, sem querer me elogiar, posso dizer que cumpri o meu dever nesse estado da vida em que a Providência misericordiosa julgou de bem me colocar, e, mesmo que pudesse aprender agora, acho que não me resolveria”.
Poupara algum dinheiro. Não era suficiente para viver sem trabalhar. E a vida em Portugal estava mais cara de ano para ano, embora Salazar e o ministro Ulisses Cortez assegurassem o contrário. Nunca pensara que algum dia teria de preocupar-se com tais problemas. Os porteiros deste Liceu, como os Papas, eram vitalícios.
Com o dinheirinho que tinha guardado para uma contrariedade e outro que pediu emprestado, abriu um pequeno restaurante na terra, aonde regressou. A mulher cozinhava muito bem e ele não era desajeitado de todo na “arte”.
Saiu-se tão bem que, aproximadamente dentro de um ano, ocorreu-lhe que poderia fazer obras e aumentar o espaço e a ementa muito portuguesa do restaurante.   
Esta decisão revelou-se um sucesso. A filha passou a colaborar no dia a dia, e foi contratada uma mulher para servir à mesa e lavar a louça. Algum tempo depois tinha-se transformado no dono de um dos mais afreguesados restaurantes da região. Aos sábados e domingos constituíam-se filas de espera na ânsia de arranjar mesa. Havia mesmo pessoas que vinham de longe. À segunda feira fechava o estabelecimento e ia depositar a receita no banco.
Certa manhã, quando estava a depositar um maço de notas e uma pesada bolsa de moedas, o caixa do banco disse-lhe que o gerente desejava falar-lhe. A conversa ia no bom caminho quando ao ver o Sr. Alberto assinar de cruz os documentos, o bancário não queria acreditar que estava diante de um analfabeto. "O senhor não sabe ler nem escrever? Espantoso! O senhor é hoje o que é, sem saber ler nem escrever! Já pensou no que seria, se tivesse estudado?"
"", respondeu calmamente o Sr. Alberto, "seria ainda porteiro no Liceu (…) ".
Esta é uma história não propriamente muito original e o tema tenho-o lido ou ouvido de várias maneiras. Foi-me, porém, contada pelo neto do Sr. Alberto (este entretanto falecido), que mantém o restaurante aberto, a cerca de 30km de Alcobaça.
Depois de ter escolhido o título para este apontamento fiquei a pensar... Um título sem criatividade, tão evidente, tão lugar comum e senso comuns, tão cliché. Depois pensei.  Mas afinal tão necessário, tão urgente, tão essencial...
Uma das melhores características do ser humano é a capacidade de planear. Traçar os rumos do destino, fazer planos e sonhar com dias melhores, fixar metas, idealizar como vai estar daqui a alguns anos, o que pretende fazer.
Sonhamos com uma atividade profissional que dê uma vida confortável, possibilite manter a família com dignidade, traga a estabilidade financeira e, se possível, o reconhecimento social.
O adolescente pode ver a escola como um celeiro de opções para escolhas vocacionais, e mesmo não chegando a amar o ambiente escolar, consegue, todavia, tirar dali algum proveito. Outrossim, vê a escola como um obstáculo para a vida adulta e nesse caso vai achar que está a perder tempo e detestar a situação compulsiva de ter que estudar.
Em Portugal, alegadamente, tenta-se motivar o jovem para saber mais, criar e produzir. É o seu dever. É o que seus pais e o país esperam dele.
A leitura é um instrumento importante para desenvolver o pensamento, a linguagem, o raciocínio e a personalidade. Foi essa mensagem que em menino colhi em casa de meus Pais, “quem lê mais terá mais facilidade para interpretar textos, coordenar e expressar ideias e desenvolver habilidades em qualquer momento da vida”.
Bem sei que as expectativas se frustram facilmente. Mas o caso do Sr. Alberto Silva não passa de uma mera história, por cujo conteúdo não me responsabilizo de todo.